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quinta-feira, 27 de outubro de 2022

ALEXANDRE VIEIRA (1884-1973). DE VIANA A CAMINHA

 


LIVRO: "Alexandre Vieira (1884-1973). De Viana a Caminha;
AUTOR: Paulo Torres Bento;
EDIÇÃO: Edições Afrontamento | Caminh@2000, Outubro de 2022.

LANÇAMENTO:

DIA: 28 de Outubro (18,00 horas);
LOCAL: Biblioteca Municipal de Caminha;

Trata-se do último trabalho de investigação de Paulo Torres Bento, professor de História na Escola Básica e Secundária de Caminha, curiosamente sobre o tipógrafo, revisor, artista gráfico, jornalista e sindicalista revolucionário, confrade e figura grada do movimento libertário e do anarco-sindicalismo. Alexandre Vieira viveu a sua adolescência em Caminha (antes de se fixar em Lisboa em 1906), onde chegou a imprimir num “velho prelo” o Jornal de Caminha, ao mesmo tempo que era o correspondente do órgão da Federação das Associações Operárias de Viana de Castela, O Lutador. O mestre impressor Alexandre Vieira, muito cá de casa, fundou estimados periódicos, como A Greve (1908), O Sindicalista (1911), O Movimento Operário (1917), A Batalha (1919). Este último jornal chegou a ser o terceiro periódico mais vendido em Portugal, a seguir ao Diário de Notícias e O Século. Estudioso do movimento operário, foi preso por diversas vezes (uma delas por agredir o director da Biblioteca Nacional, Fidelino de Figueiredo) e esteve exilado (em Paris). Foi membro da Universidade Popular. Publicou obra importante para o estudo do movimento operário, como Em volta da minha profissão: Subsídios para a história do movimento operário (1950), Como se corrigem provas tipográficas: Noções úteis para quem manda executar impressão às tipografias (1951: em pareceria com Gonçalves Piçarra), Figuras Gradas do Movimento Social Português (1959), Delegacia a um Congresso Sindical (1960), No Domínio das Artes Gráficas (1967), Para a História do Sindicalismo em Portugal (1970).

J.M.M.

sábado, 11 de setembro de 2021

SIM! AURÉLIO QUINTANILHA (1892-1987) FOI ANARQUISTA

 


Uma das figuras cimeiras do movimento intelectual libertário português foi o sábio cientista Aurélio Quintanilha (1892-1987). A filiação de Quintanilha na corrente anarquista é por demais conhecida, não podendo ser desautorizada nem omitida, como foi o caso que iremos citar.

Acontece que Aurélio Quintanilha foi na página do Facebook dos Antifascistas da Resistência muito biograficamente maltratado: omissão total da sua condição de anarquista. E, pasme-se, a resposta dada pelo impressionado administrador da página a um leitor que lhe autopsiou a biografia, questionando a não alusão à militância libertária do célebre intelectual libertário, foi de um miserabilismo grosseiro e arrogante, espantosamente deslocada e inaceitável vindo de uma pagina que é um dos mais importantes espaços biobibliográficos, digitalmente ao nosso dispor. A ignorância e a falta de humildade intelectual - quando se é confrontado com justos reparos biobibliográficos (sempre bem-vindos em todas as situações) - é, por vezes, muito atrevida, como nos parece ser o caso.

No que diz respeito a recomendáveis fontes biobibliográficas que o putativo administrador da página displicentemente sugere para se assegurar da qualidade libertária do prof. Aurélio Quintanilha, pois elas são tantas que incomoda o curioso pedido e nos enche de tédio. Porém, porque a página do FB pertence (também) à Helena Pato, por quem nutrimos especial admiração, aqui deixamos o nosso reparo e a nossa brevíssima anotação á questão colocada em torno da militância anarquista de Aurélio Quintanilha.

Saúde e Fraternidade!


Aurélio Quintanilha (1892-1987) foi cientista, investigador, professor, pedagogo (fundador da Universidade Livre de Coimbra), libertário e maçon [o irmão Brotero, iniciado, em 1925, na loja de Coimbra, A Revolta, e depois (Dezembro de 1931) um dos fundadores da loja maçónica de Coimbra, Construir - com, e entre outros, Tomás da Fonseca, Alberto Martins de Carvalho, César Abranches, Firmino da Costa, Raul Miranda].

Se tivermos o cuidado de ler Quintanilha, ver-se-á que as suas propostas educacionais e pedagógicas e a vertente pedagógico-libertária que sempre distinguiram as suas conferências [ver, p. expl., Educação de Hoje, Educação de Amanhã (1921), a conferência inaugural (5 de Fevereiro de 1925) da Universidade Livre de Coimbra ou idêntica conferência (26 de Março de 1933 – O papel social e as necessidades da investigação cientifica em Portugal) nas instalações do jornal O Século], nos elucida com clareza acerca do seu ideal anarquista, seguindo a velha linha do anarquismo individualista de Silva Mendes [“o mais vermelho dos republicanos de Famalicão”] e se prolonga até à sua morte.

Não será necessário, portanto, recorrer à leitura da entrevista que concedeu a João Medina [publicada na revista Clio, 1982, vol.4] para desocultar e fazer prova do seu ideal libertário. Nem percorrer, mesmo que seja com um brilho nos olhos, as sábias palavras de Vitorino Nemésio no “Perfil de Aurélio Quintanilha” (revista Brotéria, 1975, nº3/4, p. 175 e ss – vide a propósito deste assunto a p. 179). Ou até consultar o verbete do Dicionário dos Educadores Portugueses (dir. António Nóvoa, p.p.1137-1139) onde se lê: “ [Aurélio Quintanilha] conhecido especialmente como cientista e doutrinador do anarquismo …”]. Na verdade a leitura atenta da biografia activa e passiva do biografado é, prudentemente, sempre boa conselheira.    

Em breve anotação, e cingindo-nos apenas à questão em debate – isto é, ter sido ou não Aurélio Quintanilha anarquista -, diremos o seguinte:

- em 1912, Quintanilha, com Adriano Botelho (dirigente anarco-sindicalista da CGT, e outros) participa nas comemorações do 1º de Maio, integrado na corrente anarquista;

 - colabora depois (a partir de 13 de Fevereiro de 1913) um dos mais importantes jornais anarquistas, dirigido por Pinto Quartim, o semanário Terra Livre, de muita memória;

- ainda em 1913 (4-8 de Outubro), participa no Congresso de Lisboa do Livre Pensamento Universal (distribuindo a sua companheira, Susana, um manifesto assinado pelos sindicalistas presos pelo governo de Afonso Costa) e solicita por várias vezes a palavra em reuniões republicanas, interpelando o governo, sendo por isso ameaçado pela “Formiga Branca”;

- em 1914 faz parte do grupo anarquista “A Brochura Social” (Lisboa), juntamente com Neno Vasco e Sobral de Campos, grupo que pretendia editar mensalmente “folhetos de propaganda libertária” (ver João Medina, A Sementeira do arsenalista Hilário Marques, revista Análise Social, vol. 17;

- ainda em 1914, um núcleo de mulheres anarquistas – de que faziam parte Susana Quintanilha (professora), Elvira Lopes, Eugénio Silva, Rosalina Correia da Silva e Margarida Paula – reúnem-se para debater “assuntos relativos a gênero e promover agitação política”;

- por iniciativa do grupo libertário Aurora (Porto), ainda em 1914, realizou-se um comício  na cidade do Porto (teatro Antero de Quental) contra as arbitrariedades do governo republicano, onde participa como orador, acompanhando Neno Vasco e Sobral de Campos;

- participa na Conferência Anarquista da Região Sul (Junho de 1914, no prédio da Caixa Económica Operária, largo da Graça, Lisboa), onde, curiosamente, decide imprimir e divulgar obras de Malatesta (ver “Em Tempos de Eleições”) e irá apresentar a tese escrita por Neno Vasco, Os Anarquistas no Movimento Operário. Foram sessões muito vivas, como o debate sobre a participação de anarquistas nos sindicatos, onde Quintanilha sustem “não ser possível para o ponto em questão determinar regras rígidas”, porém a posição “de consenso” de Jerónimo de Sousa (do quinzenário O Arsenalista de Lisboa) prevalece, isto é, ganhou a tese de evitar a entrada dos anarquistas nos corpos diretivos sindicais (ver Alexandre Simas, Neno Vasco …, p. 346). De referir que alguns dos mais importantes militantes anarquistas tinham o hábito (então) de se reunirem em casa de Aurélio & Susana Quintanilha, nas noites de Domingo (entre eles, Emílio Costa, Afonso e António Manaças, Sobral de Campos, Gaspar dos Santos, Neno Vasco, Bernardo Sá, Sebastião Eugénio, Carlos Freire);

- em 1915, representa a Federação das Juventudes Sindicalistas (sob orientação anarquista; foi criada em 1913, resultante das Juventudes Libertárias de 1912; tinha a sede na rua do Arco da Graça, nº4, 2ª andar e editava O Despertar) de Portugal e França, no Congresso Mundial contra a Guerra (Ferrol, Espanha) e que se realizou clandestinamente – segundo alguns autores, fazia parte da delegação portuguesa Manuel Joaquim de Sousa. Tendo sido descobertos pela polícia são expulsos de território espanhol os delegados portugueses: Quintanilha, Manuel Joaquim de Sousa, Maria Veloso, Serafim Cardoso Lucena e Ernesto da Costa Cardoso. Curiosamente, Quintanilha não refere nenhum desses nomes, na sua entrevista a João Medina. No seu regresso de Espanha apresenta em várias cidades (a conferência em Coimbra foi proibida) o tema “A Guerra e o Congresso de Ferrol” tendo sido preso em Viana do Castelo sob ordem do administrador da cidade, Bourbon e Menezes, curiosamente ex-anarquista. Seja dito que, perante a conflagração europeia, no movimento anarquista coexiste dois grupos distintos: os guerristas [Emílio Costa, Bernardo de Sá, Mário Costa, Miguel Córdoba, Araújo Pereira] e os anti-guerristas [Neno Vasco, Aurélio Quintanilha, António José de Ávila, Hilário Marques]. Os primeiros estavam organizados em torno do grupo Germinal, enquanto os anti-belicistas agrupavam-se à volta d’A Aurora (Porto) e d’A Sementeira (Lisboa). Não estava longe o tempo em que numa das reuniões anarquistas em casa de Quintanilha, na proverbial tertúlia que ali perorava, a declaração de guerra de 1914 a todos entusiasmou, porque se pensava que estava aberta a porta à revolução social [sobre este assunto, consultar com proveito, Guerristas e Antiguerristas, INIC, 1986]. Curiosamente muitos dos anarquistas “guerristas”, no final da contenda, abandonaram o anarquismo, uns passando-se para o então movimento comunista (na sua versão bolchevista), aliás de onde alguns foram “escorraçados”, e outros enveredaram na defesa da ditadura (ibidem, pp. 116 e ss);

- o golpe militar sidonista de Dezembro de 1917 teve o apoio inicial de militantes libertários e republicanos (como Machado Santos) e entre eles Aurélio Quintanilha. Aliás Quintanilha refere (assim como Alexandre Vieira) que foi (foram ambos e outros mais) à Rotunda falar com Sidónio Pais em nome da UON, na esperança de terminar a perseguição aos sindicalistas e pedindo a libertação dos presos políticos. Por outro lado, não podemos esquecer o conhecimento que Quintanilha tinha de Sidónio Pais, pois Sidónio não lhe era estranho, dado a sua notoriedade na Universidade de Coimbra por ser republicano no tempo da monarquia e pelo exame, que como professor de álgebra, fez ao próprio Quintanilha;

- participa na “tertúlia” revolucionária “Falange Democrática” ou “Falange dos Olivais” (com Sobral de Campos, Pinto Quartim, Neno Vasco, Adolfo Lima, Emílio Costa, Alexandre Vieira, António José de Ávila e outros);

- na tentativa insurrecional monárquica de Paiva Couceiro (Janeiro e Fevereiro de 1919), os anarquistas organizaram grupos armados de resistência, tendo Aurélio Quintanilha vestido o uniforme militar e ido comandar a bateria na Quintinha  (A Batalha, Fevereiro de 1919);  

- a 25 de Setembro de 1927, considerado um “elemento avançado”, é detido pela PVDE.

- em 1928, em Coimbra, frequenta a inolvidável “República das Águias”, sob os auspícios da Maçonaria (pertencentes à loja A Revolta), onde juntamente com os irmãos Cal Brandão, Basílio Lopes Pereira, Manuel de Figueiredo e muitos mais, se conspirava contra a ditadura;

- escreve nos periódicos anarquistas, além do Terra Livre: A Aurora (Porto); A Batalha; O Despertar; A Lanterna (10 de Julho de 1915, Angra do Heroísmo – Quintanilha assumia a sua direcção); O Sindicalista; também colabora na revista Pela Grei (1918-1919); na Seara Nova (era amigo de António Sérgio); na revista de Homens Livres (1923); no Arquivo Pedagógico (Coimbra, 1927-1930); na revisa trimestral de educação LABOR (Aveiro); dirige o periódico bilingue de Moçambique, Memórias e Trabalhos. Centro de Investigação Algodoeira (1947-1961).

- já em 1975, Aurélio Quintanilha, em breve passagem por Lisboa, participa numa reunião anarquista na sede do Movimento Libertário Português.  

Em seguida, apresenta-se alguma bibliografia que sobre este (não) assunto da qualidade libertária de Aurélio Quintanilha diz especial respeito:   

Abílio Fernandes, Aurélio Pereira de Silva Quintanilha, na passagem do seu 70º aniversário, Boletim da Sociedade Broteriana, 1962, vol. 36 | Alberto Vilaça, Resistências Culturais e Políticas nos Primórdios do salazarismo, 2003 | Alexandre Samis, Neno Vasco, o Anarquismo e o Sindicalismo Revolucionário em dois mundos, Letras Livre, 2009 | Alexandre Vieira, Para a História do Sindicalismo em Portugal, 1970 | Amélia Filomena de Castro Gomes, A educação libertária segundo Aurélio Quintanilha, Braga, 2005 | António Ventura, Guerristas e Antiguerristas. Análise retrospectiva de um conflito, in João Medina (org.), Portugal na Guerra. Guerristas e Antiguerristas, INIC, 1986, pp. 107-125 | Aurélio Quintanilha, “Discurso pronunciado por A. Quintanilha na sessão promovida pela juventude sindicalista de Lisboa em 22 de Março”, in A Aurora, 29 de Março de 1914, p.1 | Aurélio Quintanilha, “Parlamentarismo e Sindicalismo: Sindicalismo e Integralismo”, in A Batalha, Setembro de 1919 (publicado ao longo de vários artigos) | Aurélio Quintanilha, Entrevista concedida a João Medina, revista Clio, vol.4, 1982, pp.121-132 | Aurélio Quintanilha, A Universidade Livre de Coimbra (pref. Paulo Archer), Lema d'Origem, 2017 | Cláudia Ninhos, De anarco-sindicalista a Catedrático de Coimbra e do saneamento ao “exílio”. Percurso político do cientista-intelectual Aurélio Quintanilha (FCSH/NOVA) | Edgar Rodrigues, Breve História do pensamento e das Lutas Sociais em Portugal, 1977 | Edgar Rodrigues, A Resistência Anarco-Sindicalista à Ditadura, 1981 | Edgar Rodrigues, A Oposição Libertária em Portugal (1939-1974), Sementeira, 1982 | Fernando Namora, Fogo na Noite Escura (pref. de Joaquim Namorado), Caminho, 2018 | Filipa Freitas, Les Jeunesses Syndicalistes au Portugal, 2007 | João de Barros, Cartas Políticas, 1982 | João Medina, Um semanário anarquista durante o primeiro Governo Afonso Costa: Terra Livre, 1981, vol. 17 (67-68) | Luís Salgado de Matos, Lisboa, 1920 - vida sindical e condição operária, in Análise Social, 1981, vol. 17 (67-68) | Manuel Joaquim de Sousa, O Sindicalismo em Portugal, 1972 (3ª ed.) | Quintino Lopes, Aurélio Quintanilha e António Sousa da Câmara: entre distintas ideologias políticas e semelhantes práticas científicas, IHC | Vitorino Nemésio, Perfil de Aurélio Quintanilha (discurso proferido em Homenagem a Aurélio Quintanilha pela Sociedade Portuguesa de Genética, Brotéria Ciências Naturais, 1975 (republicado na Brotéria Genética, em 1993, nº1-2), nº 3-4.

José Manuel Martins

segunda-feira, 2 de abril de 2018

O SÉCULO XX EM REVISTA(S)



O Século XX em Revista(s)” – por Luís Miguel Queirós, in Jornal “Público
As quatro principais revistas históricas do movimento anarco-sindicalista português juntam-se este sábado a outras importantes publicações já colocadas online pelo portal Revistas de Ideias e Cultura, uma gigantesca base de dados que abre à navegação digital aquelas que foram as grandes montras culturais do século XX.
As duas séries d’A Sementeira (1908-19), a Germinal (1916-17), o suplemento d’A Batalha (1923-27) e a Renovação (1925-26), quatro revistas fundamentais para a história da disseminação do ideário anarquista e do desenvolvimento do movimento anarco-sindicalista português ao longo das primeiras décadas do século XX, já podem ser integralmente consultadas e pesquisadas online. É a mais recente expansão do portal Revistas de Ideias e Cultura (RIC), um ambicioso projecto dirigido por Luís Andrade e desenvolvido pelo Seminário de História das Ideias do Centro de Humanidades da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, em parceria com a Biblioteca Nacional e a Fundação Mário Soares.
O objectivo, explica Luís Andrade, professor de Filosofia da Universidade Nova, é “fazer o mapeamento da cultura portuguesa do século XX a partir da análise sistemática do conteúdo das revistas tidas por mais significativas”.
Mais do que um arquivo digital, o RIC é uma base de dados dotada de sofisticadas ferramentas de pesquisa e que permite ao leitor ou investigador não apenas aceder ao conteúdo integral das diferentes publicações, mas também consultá-lo a partir de uma série de critérios que podem cruzar-se numa mesma busca e que incluem índices de autores (quer de textos, quer de ilustrações), conceitos (por exemplo, anarquismo), assuntos (por exemplo, I Guerra Mundial), nomes citados (distinguindo os singulares e os colectivos), obras citadas ou nomes geográficos.


Suponhamos que o leitor está interessado em textos que abordem a I Guerra Mundial: se fizer uma pesquisa geral no portal, encontrará 2153 artigos, distribuídos por várias revistas, que incluem quer as publicações anarquistas já referidas, quer outras como A Águia, a Seara Nova ou a Atlântida, para citar apenas algumas. Mas também pode pesquisar o mesmo assunto apenas numa revista específica, ou cruzá-lo com outros critérios. E se a Grande Guerra é um assunto de que naturalmente trataram todas as publicações da época, se procurar um tópico bastante menos óbvio, como, digamos, o haxixe, descobrirá com provável surpresa que Sampaio Bruno discorreu sobre esta substância num artigo intitulado O Tabaco… em Heródoto, publicado em 1913 n’A Águia.


(…) Com uma pequena equipa permanente – que inclui, além do seu coordenador, um editor executivo, um documentalista, um informático, uma analista de dados estatísticos e uma webdesigner –, mas contando com o auxílio de investigadores especializados para cada uma das revistas a publicar, a estratégia do portal tem sido a de se focar em sucessivos movimentos culturais ou ideológicos para dar prioridade às principais revistas que lhes estão associadas. Antes de se debruçar sobre as publicações anarquistas, o site já disponibilizara online as revistas relacionadas com o movimento cultural da Renascença Portuguesa, como a Nova Silva, A Águia ou A Vida Portuguesa, ou ainda as principais publicações associadas ao primeiro modernismo, como Orpheu, Portugal Futurista, Sphinx, Exílio, Centauro e Eh Real!.
E por vezes não se trata apenas de poupar aos investigadores, ou a simples curiosos, muitas horas a preencher pedidos em bibliotecas. Alguns dos números agora digitalizados e consultáveis estão em falta nas várias bibliotecas públicas. Exemplo disso mesmo é a célebre e raríssima edição 11/12 da 4.ª série d’A Águia, de 1929, que foi apreendida ainda na tipografia porque denunciava um plágio de Gustavo Cordeiro Ramos, ministro da Instrução Pública em sucessivos governos da ditadura militar e no início do Estado Novo. “Só está representado na Biblioteca Nacional por um postal onde se informa que este número não foi posto à venda por motivos imprevistos”, diz Luís Andrade.


Outra façanha de monta deste portal foi a digitalização integral da Seara Nova, abarcando todas as suas (muito) diversas fases, desde a fundação, em 1921, até 1984, num total de 1604 números, correspondentes a 31.500 páginas e a cerca de 21.500 peças de mais de três mil autores.
Para cada uma das revistas publicadas, o interessado encontra não apenas a reprodução digital de todos os números, mas também apresentações que procuram caracterizá-la e situá-la no seu contexto histórico, secções que reúnem os seus manifestos e outros textos de dimensão programática, uma antologia de literatura passiva sobre a publicação em causa e alguns estudos reproduzidos em texto integral.
Há também uma secção autónoma dedicada às polémicas, um modo de discussão pública aliás muito característico das revistas, e que só por aproximação corresponde àquilo a que hoje se chama uma polémica na imprensa ou nas redes sociais. Luís Andrade recorda, por exemplo, a famosa controvérsia entre António Sérgio e Pascoaes, nas páginas d’A Águia, a propósito do saudosismo, ou “a discussão entre Álvaro Cunhal e José Régio acerca do significado social da literatura”, na Seara Nova. Mas também nas revistas anarquistas agora digitalizadas se encontram polémicas, designadamente as que ilustram o confronto de posições perante a Grande Guerra ou a Revolução de Outubro.
A barra de navegação inclui ainda um “magasin”, que joga foneticamente com “magazine” (revista), mas que aqui alude mais a um tipo de armazém comercial ecléctico, onde se vende um pouco de tudo. É nesta secção que se acumulam todos os materiais que, não pertencendo formalmente às revistas em causa, a elas estão directamente ligados, como as separatas, ou que permitem conhecer melhor a respectiva história, como a correspondência travada entre os seus fundadores, testemunhos diversos e outros documentos. No magasinda Seara Nova é possível encontrar, salienta Luís Andrade, “vários dossiers do seu arquivo editorial, até agora inéditos”.
Obra em aberto e em constante expansão, o portal anuncia já também na sua homepage os vários títulos que deverão ficar disponíveis ainda este ano e que incluem a magnífica Contemporânea, dirigida por José Pacheko entre 1922 e 1926, com um primeiro número isolado saído em 1915. Ilustrada por artistas como Almada Negreiros, Stuart Carvalhais, Eduardo Viana ou Dórdio Gomes, contou entre os seus colaboradores literários com nomes como Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro ou Aquilino Ribeiro
Outra importante publicação prometida para este ano é O Tempo e o Modo, fundada em 1963 por um grupo de católicos progressistas como Alçada Baptista, Bénard da Costa, Pedro Tamen ou Nuno de Bragança. Está ainda prevista a digitalização de Alma Nacional, uma revista republicana lançada literalmente nas vésperas da queda da monarquia, e de outras publicações do início do século XX, como Dionysos, dirigida em Coimbra por Aarão de Lacerda, ou A Renascença, de Lisboa. Sol Nascente, dos anos 30, ligada ao neo-realismo, e a mais recente Raiz e Utopia, já do pós-25 de Abril, são outros títulos previstos para 2018. E o Revista de Ideias e Cultura pretende começar a apostar também em publicações com motivações mais específicas, como a revista feminista Sociedade Futura, dirigida por Ana de Castro Osório, ou A Construção Moderna, que considera “uma peça fundamental da cultura arquitectónica e urbana das duas primeiras décadas do século XX”.
Já a decisão de criar estes quatro novos sites agora consagrados às revistas anarquistas ficou também a dever-se ao desejo de “repor a memória de uma das correntes principais do pensamento e da intervenção social do século XX, remetida ao esquecimento de forma pouco inocente após a revolta da Marinha Grande de 18 de Janeiro de 1934”, diz Luís Andrade, numa provável alusão ao modo como o PCP veio a reescrever a história desse levantamento, que acabaria por marcar o fim da predominância do anarco-sindicalismo no movimento operário.
Mas não só os que se interessam pelo anarquismo terão boas razões para consultar estas revistas. Uma rápida consulta aos dados estatísticos que acompanham, em secção própria, cada um destes títulos, permite verificar, por exemplo, que os apreciadores de Ferreira de Castro encontrarão aqui nada menos do que 181 artigos dispersos assinados pelo romancista, a maior parte no suplemento d’A Batalha, mas também na Renovação. E os apaixonados pela ilustração podem deliciar-se com as dezenas de trabalhos criados para as mesmas revistas por Stuart Carvalhais ou pelo notável Roberto Nobre, que acumulava as artes gráficas com a crítica de cinema.
Estes levantamentos de ocorrências estão também cheios de surpresas: quem diria, por exemplo, que o nome mais citado nas duas já referidas revistas da Confederação Geral do Trabalho é o de Jesus Cristo, ou que a obra mais citada n’A Águia foi a revista Mercure de France? Mas estes resultados imprevistos, se podem ser mais ou menos anedóticos, ou ter explicações prosaicas, também “fornecem a informação necessária quer para testar as leituras correntemente aceites, quer para suscitar interrogações até hoje não formuladas” sobre estas revistas e movimentos, observa Luís Andrade. O que torna este portal uma ferramenta doravante indispensável para quem queira estudar umas e outros.
O Século XX em Revista(s) – por Luís Miguel Queirós, Jornal Público, 31 de Março de 2018, pp. 24/25 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

[COIMBRA] SESSÃO EVOCATIVA DOS 150 ANOS DA PUBLICAÇÃO DO I VOLUME DE “O CAPITAL” DE KARL MARX


 
 
CONFERÊNCIA: Sessão Evocativa dos 150 Anos da Publicação do I Volume de "O Capital" de Karl Marx

ORADOR: Doutor António Avelãs Nunes
DIA: 27 de Outubro de 2017 (21,00 horas);
LOCAL: Casa Municipal da Cultura [Rua Pedro Monteiro], Coimbra;
 
ORGANIZAÇÃO: Ateneu de Coimbra;

Karl Marx publica o volume I de “O Capital”, em Hamburgo, em 1867. Obra importante e estimada - que continua o seu trabalho anterior de crítica da Economia Política (saída em 1859) - publicada em III volumes, ainda hoje é bibliografia incontornável para uma análise do capitalismo e um legado de referência para o pensamento operário e socialista. A influência de Marx no pensamento contemporâneo é enorme, contribuindo para um intenso debate (ainda hoje conceptualmente presente) que vai da Economia (Política) às Ciências Sociais. O que é (ou foi) considerado como "marxismo" [curiosamente e segundo Engels, numa carta escrita a Conrad Schmidt, Marx teria dito: “Tudo o que sei é que eu não sou um marxista”; na verdade o “marxismo”, na sua prática de luta de classes, surge-nos bem antes da sua recepção teórica, que é quase sempre desconhecida] suporta ao longo do tempo reinterpretações sucessivas, controvérsias insanáveis, dando-lhe no entanto, pelas características ideológicas da sua metodologia de análise filosófica, económica e social, um significado ideológico e político distinto e, no tempo presente, uma continuidade, duradoura e intensa, na vida política e partidária em diferentes países do mundo.  



Com a morte de Karl Marx (1883), o seu amigo Friedrich Engels edita, a partir dos seus manuscritos (muitos ainda hoje inéditos), os volumes seguintes de ”O Capital” (o volume II, em 1885 e o III em 1894), não sem alguma polémica. De notar que a 1ª tradução d’O Capital, em português, foi feita a partir da sua tradução francesa, (Agosto de 1883, em França), saindo das Oficinas da Imprensa Lucas, em 1912, e onde surge, curiosamente, o nome do autor, como Carlos Marx.

Abra-se um parêntesis para dizer que os acontecimentos de França de 1848 [Karl Marx, sobre este particular assunto publica “As Lutas de Classe na França de 1848 a 1850“] e que varreram toda a Europa, chegaram a Portugal de forma ainda incipiente, a que não era estranho o relativo atraso do desenvolvimento capitalista em Portugal [por exemplo, a greve dos metalúrgicos de Lisboa, em 1849, é a primeira greve no sector industrial; e até então só se tinha feito sentir os protestos dos operários dos têxteis da Covilhã, em 1846; no entanto, é bom de reter, a importância que teve o movimento social e político, fortemente contestatário, da “Janeirinha” (1868), contra o Fontismo (e que levou à queda do governo), que de algum modo revelava já mudanças significativas da estrutura produtiva e, principalmente, é de destacar o conturbado período de 1871 em diante, em que a questão social se torna objecto económico e socialmente analisável].

Será interessante salientar a importância nessa geração, para a difusão das ideias libertárias ou revolucionárias, o trabalho proporcionado pela imprensa, com foi o caso do aparecimento de alguns periódicos operários combativos [principalmente com “O Eco dos Operários” (1850; fundado por Lopes de Mendonça e Sousa Brandão, Henriques Nogueira Vieira da Silva Júnior e J. Maria Chaves); refira-se, porém, que antes disso já tinha saído do prelo jornais de classe, como “O Cortador”, de 1837; a “Alvorada”, jornal republicano de 1848, não propriamente operário; “Eco Metalúrgico”, em 1850]. Curiosamente, o mesmo é possível de verificar em artigos de revistas académicas, como, por exemplo, as polémicas sobre a “questão social” traçadas na revista do Instituto de Coimbra (1853). Por outro lado, não terá sido indiferente a fundação da Associação Operária Mutualista Portuguesa (1839), o aparecimento do Centro Promotor de Melhoramentos das Classes Laboriosos (1852), as “Conferências Democrática do Casino” (1871), o surgimento da associação de trabalhadores “Fraternidade Operária” (1872), a fundação do Partido Socialista (1875; com José Fontana, Azedo Gneco, José Correia Nobre França e José Tedeschi) ou a criação do núcleo português da AIT, que contribuem decisivamente para o impulso do associativismo dos trabalhadores e para uma curial reflexão nacional sobre a “questão operária” e a “miséria” do proletariado.
 
 

Refira-se que a produção teórica sobre o “miserabilismo das classes trabalhadoras” e a sua emancipação eram (então) sufragados pelo movimento proudhoniano, anarquista e libertário e pelo curioso sindicalismo revolucionário [sobre o assunto ver, Alfredo Margarido, “A Introdução do Marxismo em Portugal 1850-1930"; ver, ainda, António Pedro Pita, "A recepção do marxismo pelos intelectuais portugueses 1930-1941"]. Na verdade a influência do pensamento de Proudhon na história das ideias em Portugal, nessa época, é incontornável.

De facto, a recepção ao pensamento de Proudhon [principalmente a partir da sua obra, “O Que é a Propriedade”, de 1840, a que se seguiu o cintilante “Sistema de contradições econômicas ou Filosofia da Miséria”, 1846, que, aliás, sofre uma violenta crítica de Karl Marx, em a “Miséria da Filosofia”, 1847; mas também, foi relevante, pela controvérsia anticlerical que proporcionou, o seu livro, datado de 1858, “A justiça na Revolução e na Igreja”] abre um curioso debate em Portugal, entre figuras de grande valia, como Pedro Amorim Viana (1882-1901), José Júlio de Oliveira Pinto Moreira (um inconfessável adepto de Bastiat e dos poucos que leu Marx), João da Silva Ferrão de Carvalho Mártens, J. J. Rodrigues de Freitas, José Frederico Laranjo, Batalha Reis, Sampaio Bruno, Basílio Teles, Sebastião Magalhães Lima, Silva Mendes, entre outros, de boa memória e interessante de acompanhar.   

 J.M.M.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A UNIVERSIDADE LIVRE DE COIMBRA. DISCURSO PRONUNCIADO NA SUA SESSÃO INAUGURAL POR AURÉLIO QUINTANILHA




LIVRO: A Universidade Livre de Coimbra (reed. 1925);
AUTOR
: Aurélio Quintanilha; Prefácio de Paulo Archer de Carvalho
EDIÇÃO: Editora Lema d’Origem (2017); 

APOIOS: Pró-Associação 8 de Maio | União das Freguesias de Coimbra | GAAC | Ateneu de Coimbra




LANÇAMENTO DA OBRA:

DIA: 12 de Outubro 2017 (18,00 horas);
LOCAL: Casa Municipal da Cultura de Coimbra (R. Pedro Monteiro, 64);
ORADOR: Professor Doutor Carlos Fiolhais.

“A formação da Universidade Livre de Coimbra – Instituto de Educação Popular (ULC, 1925-1933) obedeceu ao estratégico desiderato de efectiva instrução pública complementar, gratuita, voluntária e demopédica que anima a acção programática das similares universidades populares que, entre nós e após a instauração da República, se possibilitaram e expandiram. Acção inscrita num movimento europeu muito vasto (Bélgica, França, Inglaterra) de congéneres universidades populares e livres (em rigor, não sinónimas, por vezes mesmo dicotómicas), originado após os meados do século XIX, do qual manterá no fundamental a matriz democrática e laica.

No específico contexto histórico marcado, contudo, pela derrisão da I República, a ULC representou um dos derradeiros programas práticos da militância laica e da livre solidariedade dos intelectuais com o operariado e o pequeno funcionalismo. Não admira, também por isso, que na sua plural circunstância fundadora convirja dúplice e indesmentível influência republicana e maçónica, concatenada na pedagogia, prática, dos direitos, liberdades e garantias fundamentais da cidadania: materializando reivindicações populares de acesso das mulheres à escolarização, de educação sexual, de higiene e implementação de infantários, na exigência de construção do ensino técnico profissional e na formação contínua dos formadores. Propostas estas que a Constituição da República Portuguesa de 1911 não asilara” [Paulo Archer de Carvalho, inAlgumas anotações póstumas: a apresentar a conferência e o conferencista”, p. 9-10]




Trata-se da reedição do raro e estimado opúsculo do cientista, investigador, professor, pedagogo, libertário e maçon, Aurélio Quintanilha (1892-1987) e que transcreve o discurso por si pronunciado na sessão inaugural da Universidade Livre de Coimbra, a 5 de Fevereiro de 1925, no Salão Nobre dos Paços do Concelho.

As Universidades Livres nascem do ideal civilizador, laico e republicano, de ser a instrução um factor, por excelência, de promoção social, moral e intelectual das camadas populares. A educação popular, o ensino e o amparo moral eram, assim, tomadas como “extensões universitárias” e onde os professores, saindo das suas “torres de marfim” uniam o intelectual ao “manual”, espalhavam conhecimentos e sábios ensinamentos, cumprindo o dever de formar e unir homens livres. De facto, os cursos livre, as conferências realizadas e as inúmeras atividades realizadas (visitas de estudo, excursões), despertaram grande interesse, e dizem que estávamos, sem dúvida, na presença do melhor e mais valioso escol intelectual da nossa Primeira República.

ANOTAÇÃO SOBRE AS UNIVERSIDADES LIVRES: a Universidade Livre do Porto aparece em Dezembro de 1903, renovando-se a partir de 1912, com o magistério de Leonardo Coimbra.

Por sua vez, após a terceira tentativa gorada, a Universidade Livre de Lisboa [que teve sede na Praça Luís de Camões, nº42, 2º, Lisboa] surge publicamente em 28 de Janeiro de 1912 [pelo esforço do deputado republicano, mutualista, associativista e benemérito Alexandre Ferreira (pai do poeta José Gomes Ferreira) e maçon (irmão “Verdade”, da Loja Montanha), e seu primeiro presidente e pela dinamização de Tomás Cabreira (propagandista da República, mais tarde ministro das Finanças, ele próprio maçon, o irmão Solon, iniciado na Loja Portugal, de Lisboa, e na altura integrando a Loja Marquês de Pombal]. A sua sessão inaugural decorreu no Coliseu de Lisboa (Rua da Palma) e contou com a presença do presidente da República, Manuel de Arriaga, Queiroz Veloso (diretor da Faculdade de Letras e que presidiu à sessão), capitão Simões Veiga, tenente-coronel Almeida Lima (da Faculdade de Ciências), Tomás da Fonseca (pelas Escolas Normais) e Carneiro de Moura (pela Escola Colonial). Usaram da palavra, além de Queiroz Veloso e Alexandre Ferreira, Agostinho Fortes, Rui Teles Palhinha e Carneiro de Moura. Publicou a Universidade Livre de Lisboa um curioso Boletim [nº1, Janeiro de 1914; em 1916 denomina-se Boletim Patriótico da Universidade Livre], tendo a dirigi-lo Alexandre Ferreira. Cessa, a Universidade de Lisboa, as suas atividades em Março de 1935. O seu valioso património foi legado à Sociedade “A Voz do Operário”.

Em Coimbra, a Universidade Livre, é fundada em 5 de Fevereiro de 1925 e tendo como fundadores, Joaquim de Carvalho, Adolfo de Freitas, Alberto Martins de Carvalho, Alcides de Oliveira, Almeida Costa, Álvaro Viana de Lemos, António Sousa, Aurélio Quintanilha, Darwin Castelhano, Floro Henriques, Manuel Reis e Tomás da Fonseca.

A Universidade Livre teve a sua delegacia na Figueira da Foz, com sessão inaugural a 5 de Abril de 1929 e realizada no salão Nobre dos Paços do Concelho. Abriu a sessão o dr. João Monsanto, lendo uma carta do dr. Joaquim de Carvalho, impossibilitado de marcar presença, estando na mesa o capitão Melo Cabral (presidente da Comissão Administrativa Municipal), José Nicolau Borges (secretário e representante do operariado figueirense) e Francisco Águas de Oliveira (pelo professorado), seguindo-se uma palestra pelo dr. Luís Carriço (figueirense e professor da UC) com o tema “Como se viajava dantes e como se viaja hoje em África”. A delegacia da Figueira da Foz teve a sua sede nas instalações da Biblioteca Municipal e a sua comissão executiva era constituída por António Vítor Guerra, Mário Dias Coimbra, Manuel Neves da Costa, Fausto Pereira de Almeida e Jaime Viana. Abriu, posteriormente, a delegacia, uma escola nocturna de Instrução Primária, bem como cursos de geometria e escrituração comercial, na sede da Associação dos Carpinteiros. Inaugurou, em 1932, uma biblioteca móvel. Comemorou, com dignidade, o 31 de Janeiro, o 5 de Outubro, o 1º de Dezembro de 1640, o centenário de João de Deus. Tomás da Fonseca, Manuel Jorge Cruz, Cristina Torres, Maurício Pinto, comandante Jaime Inso, dr. Rocha Brito, Alexandre Ferreira, Neves Rodrigues, Afonso Perdigão, Afonso Duarte, Manuel Mariano, Manuel Gaspar de Lemos, Fernando Correia, foram alguns dos palestrantes das inúmeras conferências realizadas.       

J.M.M.

terça-feira, 2 de maio de 2017

III CONGRESSO HISTÓRIA DO MOVIMENTO OPERÁRIO E DOS MOVIMENTOS SOCIAIS EM PORTUGAL

Realiza-se a partir do próximo dia 4 de Maio de 2017, a terceira edição deste congresso dedicado à investigação sobre a História do Movimento Operário e dos Movimentos Sociais em Portugal. São objectivos deste congresso segundo as linhas orientadoras que o motivam as seguintes:

Este congresso pretende abranger o estudo do trabalho e dos movimentos sociais em Portugal num sentido amplo, pretendendo-se destacar, nesta terceira edição do Congresso, o papel das organizações sindicais e operárias na evolução das sociedades contemporânea, uma vez que a sua realização coincide com o 40.º aniversário do Congresso de Todos os Sindicatos, realizado em janeiro de 1977, segundo congresso da Intersindical e que dará forma ao movimento sindical português dos nossos dias. Neste sentido, convidamos à submissão de propostas de comunicação, entre outras temáticas possíveis, que versem sobre:
  • A história do sindicalismo português, desde o século XIX aos nossos dias;
  • As formas de organização permanente dos trabalhadores. Presente e futuro;
  • Organização vs. Democracia? As questões da unidade e corporativismo;
  • A década de 1970: momento crítico do movimento operário e sindical;
  • Sindicalismo e revolução social.
Durante o congresso vão estar os seguintes congressistas convidados e proceder-se-á apresentação pública de um livro sobre o tema da autoria de Américo Nunes e de José Ernesto Cartaxo.

Reproduz-se abaixo o programa das comunicações a apresentar no congresso:

Os conferencistas convidados são:
William Pelz (Director of the Institute of Working Class History, Chicago):
Tema: Can there be a “People’s History”? Would it matter? Glimpses of A People’s History of Modern Europe
Dr. William A. PELZ, Director of the Institute of Working Class History (Chicago), is an historian who specializes in European and comparative labor history. His books include: A Peoples History of Modern Europe (2016), Wilhelm Liebknecht and German Social Democracy (2016), The Eugene V. Debs Reader: Socialism and Democracy (2014), Karl Marx: A World to Win (2012), Against Capitalism: The European Left on the March (2007); The Spartkusbund and the German Working Class Movement (1988). His articles and reviews have appeared in the American Historical Review, Film & History, German History, German Studies Review, International Labor and Working Class History, International Review of Social History, Labor Studies, Journal of European Studies, Science & Society, Soviet Studies, Sozialismus, JahrBuch fuar Forschungen zur Geschichte der Arbeiterbewegung, and International Labor History Yearbook, among others.

Professor Doutor Fernando Rosas (IHC-FCSH/UNL):
“A Revolução Russa e a Revolução Portuguesa”

Apresentação pública do livro:
“Contributos para a História do Sindicalismo em Portugal” por Américo Nunes e José Ernesto Cartaxo
DIA DE MAIO
TORRE B – AUDITÓRIO 1
9H30 – ABERTURA COM A PROFª. DOUTORA RAQUEL VARELA, COORDENADORA DO GRUPO DE INVESTIGAÇÃO DE HISTÓRIA GLOBAL DO TRABALHO E DOS CONFLITOS SOCIAIS, E COM A COMISSÃO ORGANIZADORA  DO CONGRESSO.
1º PAINEL – 10H00 ÀS 11H25
HELENA MARTINS DO RÊGO BARRETO (UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA– “Comunicação e contra-hegemonia:   a experiência do MST”
PAULO MARQUES ALVES (DINÂMIA’CET-IUL) – “Da exclusão à sub-representação das mulheres no movimento sindical”
TIAGO REIS (IHC/FCSH-UNL) – “Reestruturação trabalhista na Fiocruz 1988-2003: Estabilidade versus flexibilidade em uma instituição pública”
VIDALCIR   ORTIGARA   (UNESC   –   UNIVERSIDADE   DO   EXTREMO   SUL   CATARINENSE)   –   “Educação e conhecimento: uma necessária e urgente reivindicação ontológica a partir de Lukács”
COFFEE BREAK
2º PAINEL – 11H35 ÀS 13H00
ANTÓNIO LOUÇà(IHC/FCSH-UNL), RAQUEL VARELA (IHC/FCSH-UNL) VALÉRIO ARCARY (PROFESSOR TITULAR APOSENTADO DO IFSP – INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA) – “A Revolução Bolchevique e a Contra-Revolução Estalinista: História e Historiografia”
ALMOÇO
3º PAINEL – 14H30 ÀS 15H55
MIGUEL ÁNGEL PÉREZ SUÁREZ (IHC/FCSH-UNL) – “A Autogestão na Revolução Portuguesa: Realidade e Problemas”
JORGE FONTES (IHC/FCSH-UNL) – “O fracasso do «pacto social» de 1977”
RICARDO NORONHA (IHC/FCSH-UNL) – “Um funcionário cansado de um dia exemplar”’: os trabalhadores dos serviços entre o final do Estado Novo e o processo revolucionário (1968-1975)
ANTONIO MUÑOZ (ICS-UL) – “O sindicalismo europeu não comunista na transição democrática portuguesa”
COFFEE-BREAK
4º PAINEL – 16H05 ÀS 17H30
NUNO PINHEIRO (CIES-IUL) – “Greves e movimentos operários na fotografia do início do Seculo XX (1900- 1926)”
CONSTANTINO PIÇARRA (IHC/FCSH-UNL) – “O Sindicalismo Rural nos Campos do Sul durante a I República e a Questão Agrária”
ANA ALCÂNTARA (IHC/FCSH-UNL) – “Associações de Classe e operariado na Lisboa do final do século XIX”
5º PAINEL – 17H35 ÀS 19H00
JOSÉ MARQUES GUIMARÃES (CENTRO DE ESTUDOS DA POPULAÇÃO, ECONOMIA E SOCIEDADE – CEPESE – DA UNIVERSIDADE DO PORTO) – “Ambiguidades da intervenção nativista contra a dominação colonial portuguesa e seus reflexos no movimento operário cabo-verdiano”
MACIEL SANTOS E MIGUEL FILIPE (CENTRO DE ESTUDOS AFRICANOS DA UNIVERSIDADE DO PORTO– “A ação direta em Moçambique de 1920 a 1926: contributo para a história do movimento operário socialista português em Moçambique”
RODRIGO MARTINS (FLUL/CINAV) – “Liga dos Oficiais da Marinha Mercante – Um estudo de caso do sindicalismo na Primeira Guerra Mundial”
DIA DE MAIO
TORRE B – AUDITÓRIO 1
 10H00 ÀS 11H15 – CONFERÊNCIA DO PROF.º DOUTOR FERNANDO ROSAS: “A Revolução Russa e a  Revolução Portuguesa”
COFFEE BREAK
6º PAINEL – 11H35 ÀS 13H00
 INÊS LOURENÇO (PATRIMONIUM – Centro de Estudos e Defesa do Património da Região de Peniche) – “O Povo de Ferrel e o Nuclear, 15 de Março de 1976”
JOANA ROCHA (FCSH-UNL) – “Os Interstícios da Militância Consciente: A Experiência de «Poder Popular» no Período Revolucionário em Curso, 1974-1975”
JOÃO MADEIRA (IHC/FCSH-UNL) – “Sines contra a poluição: a greve verde de 1982”
ALMOÇO
14H30 ÀS 15H55 – APRESENTAÇÃO PÚBLICA DO LIVRO“Contributos para a História do Sindicalismo em Portugal” (Américo Nunes e José Ernesto Cartaxo)
COFFEE BREAK
7º PAINEL – 16H00 ÀS 17H25
 RAQUEL VARELA (IHC/FCSH-UNL) JOÃO CARLOS LOUÇà(IHC/FCSH-UNL) – “O Trabalho Forçado e a Revolução Portuguesa: uma perspetiva da história global do trabalho”
HERMES COSTA (CES/FEUC), ELÍSIO ESTANQUE (CES/FEUC), MANUEL CARVALHO DA SILVA (CES/UC), HUGO DIAS (UNIVERSIDADE DE CAMPINAS), DORA FONSECA (CES/UC) ANDREIA SANTOS (CES/UC) – “Reconstruindo o(s) discurso(s) do(s) poder(es) sindicais em Portugal”
MARIA AUGUSTA TAVARES (UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA– “A atualidade das categorias econômicas da acumulação primitiva no modo de produção capitalista”
8º PAINEL – 17H30 ÀS 18H50
 JOÃO  EDRAL  (ASSOCIAÇÃO  CULTURAL  PALHA   DE  ABRANTES/(IHC-FCSH-UNL)   –   “Movimento    de trabalhadores da Metalúrgica «Duarte Ferreira» entre 1974 e 1985: crónica de uma delapidação”
JOÃO PEDRO SANTOS (IHC-FCSH-UNL) – “’Somos operários, é malta do ferro’ – Desindustrialização, Classe e Memória Operária em Setúbal”
JOSÉ PEDRO MAIA DOS REIS (FLUP) – “Violência sobre sindicatos e sindicalistas em  1975/76”
JOSÉ MANUEL LOPES CORDEIRO (CISC/UNIVERSIDADE  DO MINHO– “O Sindicato dos Químicos durante    o PREC: Uma voz contra a corrente”
19H00 – CONFERÊNCIA  DE  ENCERRAMENTO  COM WILLIAM PELZ (DIRETOR  DO INSTITUTO   WORKING CLASS HISTORY, CHICAGO): “Can there be a ‘People’s History’?  Would it  matter?”
DIDE MAIO
TORRE A – AUDITÓRIO 001
9º PAINEL – 11H30 ÀS 12H55
 ARMANDO  QUINTAS,  JORGE  JANEIRO   E  PAULINA  ARAÚJO  (UNIVERSIDADE   DE  ÉVORA,   ARQUIVO DISTRITAL DE ÉVORA) – “Contributos para a história do sindicalismo: Sindicato dos Trabalhadores da Construção, Mármores, Madeiras e Materiais de Construção do Sul – Delegação de Évora.”
LEONARDO  ABOIM  PIRES  (IHC/FCSH-UNL) –  “Mudanças  e  Reformismos  da  Organização  Laboral na «Segunda Arrancada» do Corporativismo”
NUNO  SIMÃO  FERREIRA  (CENTRO  DE  HISTÓRIA,  UNIVERSIDADE  DE  LISBOA)  –  “A  solução   corporativa preconizada pela Liga Nacional do 28 de Maio e pelo Nacional-Sindicalismo face ao mundo do trabalho nos anos 30”
ALMOÇO
10º PAINEL – 14H30 ÀS 15H55
 JOÃO   CARLOS   MARQUES   (CENTRO    DE   ESTUDOS   INTERNACIONAIS/ISCTE-IUL)    –    “A   circulação transatlântica de ideias libertárias: anarquismo e sindicalismo no Brasil e em Portugal no início do século XX”
PEDRO LEAL (FLUL) – “O conflito social em Portugal (1919-1921)”
ANTÓNIO MARTINS GOMES (CHAM/FCSH-UNL) – “A operária submissa e a ilha distópica em ‘Os Famintos’, de João Grave”
COFFEE BREAK
11º PAINEL – 16H00 ÀS 17H25
PEDRO PONTE E SOUSA (IPRI/FCSH-UNL) – “Portuguese foreign policy and the role of social movements:  a short introduction”
LUÍS MIGUEL DE ALMEIDA CARVALHO (FCSH-UNL) – “Henrique Caetano de Sousa: O 1º Secretário-Geral do P.C.P.”
JOÃO MOREIRA (IHC/FCSH-UNL) – “Ditadura, Revolução e Democracia em João Martins Pereira”

Recomenda-se também uma vista à página oficial do congresso que pode ser visitada AQUI.

As actas do primeiro congresso podem ser consultadas/descarregadas AQUI.

Com os votos do maior sucesso para mais esta iniciativa.

A.A.B.M.