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terça-feira, 23 de setembro de 2025

O OUTRO AFONSO DUARTE – POR ANTÓNIO VALDEMAR

 

O Outro Afonso Duarte – por António Valdemar, in O Figueirense

A descoberta, no contacto direto com as populações, do modo de ser e de estar do povo português através de exemplos recolhidos no tesouro poético das quadras populares e na sabedoria dos adágios e provérbios.

Entre os grandes poetas do seculo XX, Afonso Duarte ocupa um lugar de relevo na História da Literatura Portuguesa e nas principais antologias da poesia portuguesa. Celebrou a energia cósmica da natureza, a exaltação panteísta da vida, o apego as raízes telúricas e humanas e, simultaneamente, os grandes valores universais que fundamentam a liberdade e a democracia.

Afonso Duarte (1884–1958) nasceu na Ereira, concelho de Montemor-o-Velho, no território tão característico do Baixo Mondego, onde nasceram outros poetas, escritores, artistas plásticos, mestres universitários e outras personalidades de projeção cultural, política e social. Todavia, a quase totalidade da vida pessoal, profissional e literária de Afonso Duarte decorreu em Coimbra em cuja Universidade se licenciou (Ciências Físico Naturais) e onde também exerceu o magistério secundário, sendo erradicado do exercício de funções, por motivos políticos, nas primeiras purgas efetuadas pelo governo de Salazar.

A conjugação do real e o imaginário manifesta-se com forte poder metafórico logo nos primeiros livros: Cancioneiro das Pedras [1912]; Tragédia do Sol Posto [1914]; Rapsódia do Sol-Nado e Ritual do Amor [1916] que serão revistos e selecionados, em 1929, num único volume Os 7 Poemas Líricos. Esta fase reflete uma proximidade com a poesia de Teixeira de Pascoaes e da doutrinação literária e estética difundida na revista A Águia e no movimento Renascença Portuguesa.

Um novo ciclo poético se vai evidenciar partir dos anos 30, documentado em livros de referência como Ossadas (1947); Post-Scriptum de um Combatente (1949); Sibila (1950); Canto da Babilónia (1952); Canto de Morte e Amor (1952); Lápides e Outros Poemas (1956-1957), reunidos, em 1956, na primeira edição da Obra Poética. Corresponde ao período em que Afonso Duarte se insere no ideário da Seara Nova, acompanha o movimento da Presença e, mais tarde, o movimento dos neorrealistas reunidos. Embora não tenha livros publicados no âmbito do Novo Cancioneiro, é um colaborador da revista Vértice. Carlos de Oliveira, Mário Braga e Joaquim Namorado, assinalam-se entre os seus amigos que frequentavam as tertúlias instaladas em cafés históricos de Coimbra.

Desde Cancioneiro das Pedras – editado em 1912 –, Afonso Duarte evidenciou uma relação possessiva com a terra natal e em todas as estações do ano: «As cheias vindas às casas! / Tudo afoga em dilúvio, ervilhal e giesta, /o próprio lar, as brasas! /o vento assopra ao desamparo, o vento grita, / como um louco varrido! /A Aldeia é um gemido». (…) «Asa do vento, como vens distante? /E o vento avança, o vento diz: mais longe!». É uma permanente reivindicação das suas origens: «canto o amor de meus campos e baldios/ meu casal que é uma ilha aos quatro ventos». A Ereira, desde então, passou a ser incluída na literatura portuguesa».

Mas além da obra poética, Afonso Duarte realizou, nos anos 20 e 30 do século passado, um trabalho pedagógico que mudou a orientação preconizada no ensino do desenho, rompendo com os métodos existentes, quer na instrução primária, quer nos estudos secundários. Encontra-se, pormenorizada em três ensaios: O Desenho na Escola, Barros de Coimbra (Lúmen, 1925); Carta Metodológica "do desenho decorativo"; e Os desenhos animistas de uma criança de 7 anos (Imprensa da Universidade de Coimbra, 1933). Ficou a ser um dos precursores da «educação pela arte», que seria desenvolvida, a partir dos anos 50 por Calvet de Magalhães (1913-1975), como professor e diretor da Escola Francisco Arruda, em Lisboa, e nas campanhas que, periodicamente, desencadeou no Diário de Lisboa.

Há ainda outra componente muito significativa na criação intelectual de Afonso Duarte: a investigação etnográfica publicada, através da Seara Nova, em duas obras que obtiveram, na altura, o interesse da crítica: O Ciclo do Natal na Literatura Oral Portuguesa (1936) e Um Esquema do Cancioneiro Popular Português (1948).

No texto introdutório desta segunda obra referiu que: «a propósito de tudo, a gente do povo sabe uma quadra; uma sabedoria milenar que passou a herança poética (…) «impregnada de “nuances” afetivas próprias das nossas atitudes mentais», após o que justificou o sentido e oportunidade desta antologia: um «breviário de conceitos morais, formando corpo de doutrina sobre a honra, firmeza, fidelidade, prudência, diligência e persistência, confiança e franqueza, amor da família, e uma filosofia da experiência que é toda perdão, desculpa e paciência perante as fraquezas da vida».

Nestas duas obras de Afonso Duarte – que merecem ser reeditadas e lanço o apelo à Câmara Municipal de Montemor-o-Velho –, perdura o vínculo profundo que o ligava à Ereira e às singularidades dos Campos do Mondego, tão visível na sua poesia: «Sem esta terra funda e fundo rio/ que ergue as asas e sobe em claro voo; / sem estes ermos montes e arvoredos / eu não era o que sou».

Não se pode classificar uma investigação saudosista, à semelhança de muitas outras manifestações promovidas pelo salazarismo, tais como «Monsanto, a aldeia mais portuguesa de Portugal». Afonso Duarte repudiava todas essas incursões no passado. Basta recordar estes versos de forte contundência epigramática incluídos em Ossadas: «O antigo é a doença que eu mais detesto/ É viciar o que já foi virtude! O tornar ao Passado é sempre um resto».

Mas ao proceder à sistematização da poesia popular, Afonso Duarte teve por objetivo recolher quadras, trovas, adágios e provérbios que definem o comportamento do povo português através dos séculos: a humanização da natureza, os sentimentos afetivos, as virtudes e vícios, o riso e as lágrimas, a ironia e o sarcasmo que se aplicam às mais diferentes circunstâncias. Quantas «carapuças» existiam no tesouro do Cancioneiro popular que se poderiam aplicar ao regime político e ao próprio Salazar? A obra poética de Afonso Duarte e as outras criações em que se empenhou colocam-nos perante um notável poeta que associou sempre a literatura e a cultura à militância cívica.

O Outro Afonso Duarte” – por António Valdemar [Jornalista, carteira profissional número Um; sócio efetivo da Academia das Ciências], in O Figueirense, 27 de Agosto de 2025, p.21 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: DESAFIOS E RESPONSABILIDADES – POR ANTÓNIO VALDEMAR

 


“Inteligência artificial: desafios e responsabilidades” – por António Valdemar

A inventariação crítica sistematizada por Arnaldo Niskier para o conhecimento, a avaliação e a extensão de um fenômeno que suscita euforias e apreensões, até conseguir um equilíbrio dinâmico que resista ao imobilismo purista e à rendição acrítica.

O último livro de Arnaldo Niskier sobre Inteligência Artificial é hoje um manancial de informações muito úteis e de reflexões muito oportunas incluídas no decurso de cem comentários pontuais publicados, desde 2023 até abril de 2025, em órgãos de comunicação com a amplitude e o estatuto d’O Globo, Folha de São Paulo e do Correio Brasiliense.

O poder de comunicação de Arnaldo Niskier – confirmado em mais de cem obras que se repartem através dos setores da educação, do ensino e da investigação histórica – permite-nos o conhecimento, a avaliação e a extensão galopante de uma das conquistas irrecusáveis do mundo do nosso tempo. Mas não deixa também de enumerar as advertências perante os riscos associados à Inteligência Artificial, tais como a apropriação indevida e indiscriminada da propriedade intelectual, a propagação de fake news, a ausência de respeito pelos valores humanos tais como a segurança, a equidade, a transparência e a privacidade. Os receios, as dúvidas e as objeções que a propagação da Inteligência Artificial tem levantado, foram expressos por cientistas eminentes reconhecidos com o Prémio Nobel: John Hopfield e Ginton Hinton “Se não houver controlo” – disse Hopfield – “pode ocorrer uma catástrofe”, pois os desafios não se podem resumir a questões de ordem técnica, mas de natureza antropológica, social e política. Requerem formação ética e um compromisso de responsabilidade.

Também o Papa Francisco, nos debates desencadeados em junho de 2024, na reunião da cúpula do G7, que decorreu na Apúlia, manifestou objeções perante a eventualidade do homem se converter num processo para programar computadores. “O homem – acentuou o Pontífice – não se pode transformar num algoritmo. O homem deverá ser o sujeito e não o objeto desta revolução. O resultado positivo” – concluiu O Papa Francisco – “só será possível se formos capazes de agir de maneira responsável e de respeitar valores humanos fundamentais”.


Humanismo e civilização tecnológica

Estamos a viver um novo ciclo na história do mundo, cuja população ascendeu a oito biliões de habitantes e, segundo as estatísticas mais recentes, há 300 milhões que sofrem de forte depressão, de angústia inquietante, de crises emocionais inevitáveis. É impossível ficar indiferente às mudanças que vão surgindo, umas vezes com evidentes benefícios, outras repletas de contrariedades e incongruências.

Há, sem dúvida, metas a atingir não apenas na área das ciências, da medicina, da educação e do ensino, da literatura, das artes visuais, da economia, da justiça, das relações internacionais. Os grandes industriais e empresários do mundo mostram-se receptivos aos desafios que se multiplicam nos mais diversos domínios. Contudo, a requalificação profissional, os reajustamentos legislativos, o combate à fome e às desigualdades sociais e humanas destacam-se entre as prioridades.

Yuval Noah Harari escritor e ensaísta com os maiores êxitos editoriais das últimas décadas, refletiu todos estes aspetos, denunciando arrivismos descarados e manipulações revoltantes, no recente livro “Nexus – Uma breve história das redes da informação, da Idade da Pedra à Inteligência Artificial”. Todavia, Isaac Asimov (1920-1992) – um dos mestres da ficção científica, e divulgação científica, foi mais frontal e conciso ao pronunciar-se acerca de matérias polémicas de inovação: “Se o conhecimento pode criar problemas, não é por meio da ignorância que podemos solucioná-los”. Instituições de renome cultural e cívico como a Academia Brasileira de Letras e a Academia das Ciências de Lisboa, estão a acompanhar a utilização imparável da Inteligência Artificial. Nesta conformidade, a Academia Brasileira de Letras decidiu confiar a Arnaldo Niskier a presidência da Comissão de Lexicologia e Lexicográfica. Duas vezes presidente da Academia e com um currículo a vários títulos notável, Arnaldo Niskier já introduzira, em 1986, um banco de dados extensivo em todos os sectores da Academia.

Recorde-se, entretanto, que Arnaldo Niskier logo no discurso de posse, em 1984, declarou peremptoriamente: “Sempre houve uma componente técnica na natureza humana, da mesma forma que sempre coexistiram o instrumento e a linguagem. Se fosse necessário estabelecer uma ordem de precedência, diríamos que o humanismo, no que ele representa de espírito perquiridor, de busca do ideal da realização humana, precede a técnica, pois a ferramenta procede da palavra, do pensamento, da criação. O que se busca” – ponderou ainda Arnaldo Niskier – “é uma nova síntese que supere os antagonismos entre humanismo e civilização tecnológica. Nem o humanismo é um fim em si mesmo, contemplativo e estático, nem a civilização tecnológica deve subjugar o homem com suas ofertas desmedidas e, às vezes, desnecessárias”.

Cooperação entre as duas Academias

Idênticas funções estão a ser exercidas na Academia das Ciências por Ana Salgado, lexicógrafa e investigadora nas áreas das Ciências da Linguagem e das Humanidades Digitais. Líder do projeto de revisão da norma ISO 1951: 2007; colaboradora do grupo DARIAH-EU Working Group Lexical Resources. Colíder do WG1 da CA22126 – European Network On Lexical Innovation (ENEOLI).

O percurso de Ana Salgado, começou no departamento de Dicionários da Porto Editora, onde liderou vários trabalhos de referência. Atualmente, coordena os projetos lexicográficos da Academia das Ciências de Lisboa, onde, desde 2023, é presidente do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Língua Portuguesa (ILLP). É ainda uma das editoras incumbidas da publicação do Thesaurus de Ciências da Terra, coordenado por Manuel Lemos de Sousa, catedrático da Universidade do Porto, académico efetivo e membro do Conselho Científico da Academia das Ciências.

A cooperação de ambas as Academias é urgente e é necessária. Tanto mais que a interação do Gemini Live – em vias de se tornar o cérebro dos smartphones. – pode ser feita em dez idiomas, entre os quais a língua portuguesa. As interrogações são pertinentes: em que medida os desenvolvimentos da inteligência artificial são suscetíveis de atingir e desvirtuar a estrutura da língua (portuguesa, francesa, inglesa etc.)? Corre–se o risco de perder o cunho de identidade? Como reagir em face de possíveis alternativas para incorporar as inovações no idioma falado e, sobretudo, no idioma escrito?

O excesso de zelo dos puristas

A defesa e valorização da língua portuguesa não podem resvalar no excesso de zelo dos puristas horrorizados com a introdução crescente dos francesismos e anglicismos. Um dos exemplos tristemente célebres é o livro “Rol de Estrangeirismos”, da autoria do professor Francisco Júlio Martins Sequeira, publicado no auge do salazarismo. Tinha por finalidade ser uma “obra de consulta fácil e de fácil manuseio, uma como cartilha para servir a quantos, desejosos de falar ou escrever em português de lei, procurem um guia adequado e de intentos seguros. Era ainda mais categórico. Destinava-se a “escorraçar, por sadio nacionalismo e por brio próprio, (...) os termos espúrios, desnecessários, impertinentes, anti-portugueses”.

Entre as inúmeras propostas sugeria: em vez de boxeur, murrista ou socador; de camionete, galera ou autocarroça; de cassetette, porrete ou cacheira; de croissant, meia lua; de derrapagem, escorregamento; de embraiagem, engate ou engranzagem; de hangar, telheiro ou trapiche; de toilette, atavios ou afeitamento; de mayonaise salgalhada ou mistifório. Da lista interminável menciono ainda: em vez de chutar, pontapear; de jazz-band, banda de pretos ou banda esquipática; de smoking, jaqueta; de WC (water closet) privada, sentina ou latrina; de cocktail, cacharolete e de John Bull, João Touro.

Em cada uma destas alternativas estamos confrontados com o ridículo e o absurdo. A inventariação crítica, sistematizada por Arnaldo Niskier no livro sobre “Inteligência Artificial Hoje”, cumpre a função de esclarecer o leitor sobre o rumo a seguir em matéria de língua portuguesa, num tempo marcado pelos avanços e os desafios da Inteligência artificial.

A competência do filólogo

Compete ao filólogo – ensina Antônio Houaiss – a defesa da sua língua natal, o estudo científico das outras línguas; a análise crítica das variantes, a organização de edições críticas para fixar a coisa significada. Prémio Nobel da literatura em 1956, o poeta espanhol Juan Ramon Jimenez (1881-1958), escreveu este poema que aprofunda a genealogia da palavra: “Filologia, dá-me/o nome exato das coisas. / Que a minha palavra seja/a própria coisa/ criada pela minha alma novamente!/ Que por mim cheguem todos/ os que não as conhecem, às coisas. / Que por mim vão todos/ esses que as amam, as coisas. / Filologia, dá-me o nome exato/ e teu e seu e meu das coisas.“

Perante a evolução natural e irrecusável de qualquer língua, em vez de temer a inovação, as Academias e a sociedade devem molda – lá, encontrando um equilíbrio dinâmico que resista ao imobilismo purista e à rendição acrítica. Assim, poderá garantir que a Inteligência Artificial sirva o homem e que a língua portuguesa, em toda a sua diversidade, continue a ser, em cada país, um instrumento de identidade e diálogo plural.

Alexandre O’Neill Precisa-se” – por António Valdemar [Jornalista, carteira profissional número Um; sócio efetivo da Academia das Ciências; sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras], in Jornal de Letras, n.º 308, Setembro2025 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

[BNP – LISBOA – DIA 25 DE OUTUBRO] LUÍS DE CAMÕES. FABULOSO - VERDADEIRO DE AQUILINO RIBEIRO

LIVRO: Luís de Camões Fabuloso * Verdadeiro;
AUTOR: Aquilino Ribeiro / Prefácio de António Valdemar;
EDIÇÃO: Bertrand Editora, 2024.

LANÇAMENTO/APRESENTAÇÃO

DIA: 25 de Outubro de 2024 (17,30 horas);

LOCAL: Biblioteca Nacional (Auditório);

ORADORES: Vanda Anastácio | Diogo Ramada Curto | António Valdemar | Eduardo Boavida | Aquilino Machado

ORGANIZAÇÃO: BNP | Bertrand Editora 

Aquilino Ribeiro contrariou a imagem de um poeta de origem aristocrática que era veiculada pelo regime e construiu um retrato real. Agora numa nova edição, o livro chega às livrarias a 19 de setembro com introdução de António Valdemar.

Num tempo em que se professava nas universidades «a opinião de que o tudo o que havia a dizer sobre o autor dos Lusíadas estava dito», Aquilino Ribeiro ousou dizer «não». Entre 1949 e 1950, o escritor publicou dois livros em que defendeu «a revisão a fundo e com meticulosidade» da história de Luís de Camões, chocando o «público ilustrado» ao afirmar que o poeta «não era aquilo que ensinavam na escola».

Alicerçando-se na releitura atenta dos estudos de, entre outros, Teófilo Braga, José Maria Rodrigues, Wilhem Storck e Hernâni Cidade, e em «três cartas particulares» de Camões, Aquilino, primeiro em Camões, Camilo, Eça e Alguns mais e depois em Luís de Camões. Fabuloso * Verdadeiro, contrariou a imagem de um poeta de origem aristocrática que era veiculada pelo regime e apoiada por académicos de Coimbra, e construiu um retrato real, de um «gentil-homem pobre, mas invejável», que gerou grande polémica. Um retrato que ainda perdura.

Passados 74 anos da publicação de Luís de Camões. Fabuloso * Verdadeiro, o mais impetuoso dos dois estudos, e numa altura em que se comemoram os 500 anos do nascimento do poeta, a Bertrand Editora lança uma nova edição do livro, que celebra a vida e obra de Camões. Pela primeira vez num só volume (em 1950, foi publicado em dois) e com prefácio do jornalista António Valdemar, que privou com Aquilino.

J.M.M. 

domingo, 17 de março de 2024

O 25 DE ABRIL, A FORÇA DOS SÍMBOLOS – POR ANTÓNIO VALDEMAR

 


O 25 DE Abril, a força dos símbolos” – por António Valdemar, in Tempo Livre

 Portugal ficou diferente. Falta muito para o desejável. Mas faltará sempre, aqui e em outros países democráticos, que enfrentam os problemas atuais e procuram articulá-los com os grandes desafios do futuro

Tudo aconteceu há 50 anos. Rompeu através da madrugada e ganhou uma energia extraordinária através de todo o dia. A apoteose decorreu no 1.º de Maio. A Liberdade era restituída, em 25 de Abril, com a poesia e a música de José Afonso, sem recorrer aos tiros dos canhões e das espingardas. Nas ruas de Lisboa, e um pouco por todo o país, os cravos vermelhos logo se transformaram num dos símbolos vivos da revolução. Constituiu o ponto final de 50 anos de ditadura imposta por Salazar, seguida por Marcello Caetano. A poesia, a música e as artes plásticas registaram testemunhos impressionantes da prisão, da tortura, do exílio e da saga da resistência. A Ode à Liberdade de Jaime Cortesão insistia no repúdio ao «ódio fanático dos bonzos», ao «ciúme vil dos fariseus». Para louvar «a cada novo dia e duro preço», o «sopro e a lei da criação». Era a exortação para transpor a incerteza, a violência, a desigualdade e estabelecer uma cultura de justiça, de tolerância e diálogo.

Outro poeta, Sidónio Muralha, não podia sufocar este protesto veemente: «Já não há mordaças, nem ameaças,/ nem algemas que possam impedir/ a nossa caminhada,/ em que os poetas são os próprios versos dos poemas.» Ou, então, o clamor de Prometeu, recriado por Joaquim Namorado: «Abafai-me os gritos com mordaças,/ maior será a minha ânsia de gritá-los; /amarrai-me os pulsos com grilhetas,/ maior será a minha ânsia de quebrá-las;/ rasgai a minha carne, triturai os meus ossos,/ o meu sangue será a minha bandeira;/ meus ossos o cimento de uma outra humanidade, /que aqui ninguém se entrega./ Isto é vencer ou morrer!»

Jorge de Sena, do outro lado do mar enviava este poema repleto de angústia e alguma esperança. «Eu não posso senão ser/ desta terra em que nasci. /Embora ao mundo pertença /e sempre a verdade vença, /qual será ser livre aqui, /não hei-de morrer sem saber. / Trocaram tudo em maldade, /É quase um crime viver./ Mas, embora escondam tudo/ e me queiram cego e mudo, /Não hei-de morrer sem saber/ Qual a cor da liberdade

Sophia de Mello Breyner viveu e celebrou em Lisboa o 25 de Abril. Em plena revolução deslocou-se a Caxias para acompanhar a libertação dos que estiveram privados de liberdade. Resumiu num poema – ilustrado por Vieira da Silva – que ficou a ser uma referência obrigatória: «Esta é a madrugada que eu esperava /O dia inicial inteiro e limpo /Onde emergimos da noite e do silêncio/E livres habitamos a substância do tempo.»

O programa do 25 de Abril anunciou – e cumpriu – a reposição das liberdades reprimidas e castigadas durante meio século; o início da descolonização possível; a oportunidade para concretizar as regras constitucionais que fundamentam um Estado de Direito. Milhares e milhares de portugueses e suas famílias encontravam-se dilacerados pela crueldade da guerra colonial, em três frentes de combate: o espectro da morte, os pressentimentos, as insónias, os pesadelos que nunca mais esquecem.

Os poemas escaldantes de Manuel Alegre tornaram-se a voz da nossa própria voz: «Foram dias foram anos a esperar por um só dia. /Alegrias. Desenganos. Foi o tempo que doía /Com seus riscos e seus danos. Foi a noite e foi o dia /Na esperança de um só dia. Foram batalhas perdidas. Foram derrotas e vitórias./Foi a vida (foram vidas). Foi a História (foram histórias) / Mil encontros despedidas. Foram vidas (foi a vida) /Por um só dia vivida./ (…) Fogos-fátuos cinza fria. Musa minha que cantavas /A canção que se vestia com bandeiras nas palavras: /Armas que o tempo tecia. Minha vida toda a vida / Por um só dia vivida.»

No romance Os Memoráveis, Lídia Jorge recriou testemunhos de intervenientes da revolução e, ao mesmo tempo, os efeitos da passagem do tempo, não só acerca desses protagonistas, mas dos que se evidenciaram na sociedade contemporânea. Caracterizam a grandeza e as misérias dos portugueses, no dia-a-dia, e, em momentos históricos. Dir-se-iam que permanecem como sobreviventes de um tempo já inalcançável.

A leitura dos Memoráveis conduz-nos à ilusão revolucionária, à desilusão de muitos e à travessia para conseguir a plenitude da democracia. A exaltação e o ceticismo destacam-se, invariavelmente na poesia, nos Diários, nos contos, novelas e romances de Miguel Torga.

É o homem sempre irritado, receoso, sombrio, ressabiado, cujo mundo reside, apenas, nele próprio. Basta ler e refletir na posição assumida, em 1976, num discurso sobre o 25 de Abril, proferido em Arganil: «Hora angustiosa que nada fazia prever em Abril de setenta e quatro, quando uma manhã de esperança raiou no espírito de todos nós. Depois de meio século de negrura, o sol da liberdade brilhou inesperadamente em Portugal. E foi, como sabeis, uma festa universal. Depressa, porém, a tristeza voltou.

E a palavra revolução, acolhida com benevolência até nos ouvidos, mais refractários, em vez de, como outrora, significar uma rotura promissora e fecunda, passou a evocar apenas a desordem à solta nas ruas, e o arbítrio e a prepotência, ensarilhados na parada dos quartéis. Creio que nenhum português consciente esquecerá até ao fim dos seus dias estes dois anos aziagos. Enganada na sua boa fé, a alma da Nação foi durante eles indelével e dolorosamente tatuada por todos os estigmas da desgraça

Qualquer que seja a avaliação o 25 de Abril cerrou as grades das prisões políticas de Caxias, do Aljube e de Peniche. Promoveu a formação de partidos, de pluralismo de opinião e de crítica. Ao procedermos a um balanço sumário verificamos acidentes de percurso. Todavia, a Constituição da República, estabeleceu as regras do exercício do Estado de Direito e a enumeração dos objetivos fundamentais para o combate inadiável à rotina e ao pensamento único; para reclamar os imperativos da mudança, incutir a exigência de responsabilidade ética, estimular a ousadia e a inovação para a transformação do País, mergulhado em estruturas arcaicas.

Concretizou-se o programa do 25 de Abril, anunciado nessa madrugada histórica. Houve, de imediato, a restituição das liberdades. Realizou-se a integração na Europa. Falta muito para atingir o desejável, mas faltará sempre, aqui e em outros países livres e democráticos, que dentro dos condicionalismos inevitáveis enfrentam os problemas atuais e procuram articulá-los com os grandes desafios para o futuro.

O 25 DE Abril, a força dos símbolos – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências] – in Tempo Livre Março/ Abril de 2024, p. 8 – com sublinhados nossos; FOTO de Álvaro Carrilho.

J.M.M.

domingo, 28 de janeiro de 2024

TEÓFILO BRAGA, O HOMEM, O ERUDITO E O POLÍTICO

 


Teófilo Braga, o homem, o erudito e o político” – por António Valdemar, in Caderno E, Expresso, 26 de Janeiro de 2024

Foi um dos fundadores do Partido Republicano, depois Presidente da República, escrevia compulsivamente, investigou Camões — que elegeu como símbolo da nacionalidade —, nunca atravessou a fronteira. Teófilo Braga visto por si e pelos contemporâneos — admiradores e críticos —, no centenário da sua morte.

Passou a vida a escrever. Foi encontrado morto na sua mesa de trabalho. Tinha 80 anos. Faleceram os três filhos e, anos depois, a mulher. Teófilo Braga morava só. Rodeado de livros, asfixiado por ressentimentos e sempre empenhado em completar e concluir os temas que o absorveram a vida inteira. Deixou uma obra de investigação e de crítica com mais de 200 títulos. Ele próprio assim se definiu: “Dentro de um poço, desde que lá tivesse os meus livros, uma resma de papel e um lápis, conseguiria viver.”

Por sua vez, Ramalho Ortigão, que o conheceu com proximidade, afirmou: “Simples, sóbrio, duro, com hábitos de uma austeridade de espartano, sabendo reduzir as suas necessidades a toda a restrição a que lhe reduzam os meios, vivendo no seu isolamento como Robinson na sua ilha.” (…) “Não publica um volume por semana, pela razão única de que não há prelos, em Portugal, que acompanhem a velocidade vertiginosa da sua pena. Escreve de graça, desinteressadamente, em satisfação do seu prazer supremo, o prazer de espalhar ideias.”

Na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, Teófilo Braga (1843-1924) foi um dos autores com maior número de obras publicadas sobre a história da literatura portuguesa, desde os primórdios até João de Deus e Antero de Quental. Assinalam-se, neste contexto, as investigações sobre Camões, nos múltiplos aspetos da obra épica, lírica e teatral; “Gil Vicente e as Origens do Teatro Português”; “Bernardim Ribeiro e o Bucolismo”; Cristóvão Falcão, autor da “Écloga Crisfal”; Bocage, a vida e a obra; “Filinto Elísio e os Dissidentes da Arcádia”; a “História do Romantismo em Portugal”; e “Garrett e a sua Obra”.

A curiosidade de Teófilo estendeu-se a outros temas: o povo português, nos seus costumes, crenças e tradições; o cancioneiro e o romanceiro popular; os contos tradicionais. Também se consagrou à política. Encontra -se ligado à fundação, ao desenvolvimento e à projeção do Partido Republicano Português. Desempenhou as funções de presidente do governo provisório e de Presidente da República.

Acrescente-se o percurso na Universidade de Coimbra, a propósito das opções pedagógicas que se refletiram na cultura e na sociedade portuguesas: Sistema de Sociologia (para alargar as previsões, comprová-las e acelerá-las pela intervenção política e governativa); Soluções Políticas da Política Portuguesa, para demonstrar que o povo estava preparado para receber a República.

DE ESTUDANTE A PROFESSOR

Nasceu em Ponta Delgada a 24 de fevereiro de 1843. Enquanto aluno do liceu, principiou a atividade literária em jornais e revistas em São Miguel. Aprendeu, ainda, rudimentos da tipografia. Dirigiu-se, aos 18 anos, para Coimbra. Tinha a ambição de ser professor na universidade. Arrostando com os maiores sacrifícios, sem quaisquer apoios financeiros, vivendo apenas de explicações, tirou, entre 1862 a 1867, o curso de Direito, com elevadas classificações.

Um ano depois fez provas de doutoramento com uma tese acerca da história do direito português — os forais. Reconheceram-lhe os méritos. Contudo, para ascender à cátedra, foi preterido por um candidato que possuía relações privilegiadas com o júri. Tentou, em seguida, lecionar Direito Comercial na Academia Politécnica do Porto. Voltou a ser rejeitado. Finalmente, concorreu, em 1872, a uma cátedra sobre Literaturas Modernas no Curso Superior de Letras, um concurso público muito renhido. Entre os candidatos encontravam-se Pinheiro Chagas e Luciano Cordeiro. Eram os outros candidatos e tinham as maiores proteções no corpo docente. Teófilo conseguiu, finalmente, vencer.

Teófilo Braga radicou-se, a partir de então, em Lisboa, até falecer a 28 de janeiro de 1924. Nunca atravessou a fronteira. A sua vida, de enorme sobriedade, circunscreveu-se entre a intimidade e os contactos quotidianos: o Curso Superior de Letras; instalado no edifício da Academia das Ciências, da qual foi vice-presidente. (O rei, por razões estatutárias, era o presidente de honra). Deslocava-se, ainda, para fazer pesquisas documentais à Torre do Tombo que funcionava no Palácio de São Bento, e à Biblioteca Nacional, estabelecida no antigo Convento de São Francisco, na área do Chiado. Pertenceu a uma tertúlia na rua do Arsenal, na livraria Carrilho Videira, que reunia e editava obras de republicanos. Andava a pé ou nos transportes públicos, mesmo quando foi Presidente da República.

Ramalho Ortigão procurou, ainda, defini-lo nestes termos: “Este débil de aspeto um pouco valetudinário, dorso curvo, ventre chato, estômago escavado, deixando descair as calças em pregas sobre os sapatos, é o mais forte, o mais rijo, o mais enérgico temperamento que tenho conhecido.” Os caricaturistas retrataram-no com ironia. Joshua Benoliel fixou-o em dezenas de fotografias. Tornara-se uma figura típica de Lisboa.

AS POLÉMICAS

A atividade literária, histórica, filosófica e política de Teófilo Braga desencadeou sucessivas controvérsias: Castilho atacou a sua participação na Questão Coimbrã; Camilo, pelos mais diversos motivos, constituiu um dos seus mais acérrimos adversários; Ricardo Jorge, a propósito de um estudo acerca de Rodrigues Lobo, denunciou- -o como plagiário.

Todavia, entre os críticos mais severos, avulta Antero de Quental: “Os primeiros passos no estudo da história literária portuguesa — escreveu — foram dados pelo sr. Teófilo Braga, essa glória ninguém lhe tira. Tem defeitos: a impaciência que o leva muitas vezes a conclusões prematuras; e o espírito sistemático que o leva também a conclusões falsas.” (…) “O lado inferior e frágil — acentua Antero de Quental — são as teorias gerais, a parte filosófica; sente-se que não é essa a vocação do sr. Teófilo Braga. Ao mesmo tempo quimérico e sistemático, dá às suas doutrinas gerais uma feição dogmática que lhes tira aquele poder de ductilidade e compreensão, sem o qual uma teoria, para acomodar os factos ao seu rigor inflexível, tem de os forçar, umas vezes e outras vezes, de pôr de lado. Isto é — adverte Antero de Quental — o que torna abstrusas certas obras, como a ‘Poesia do Direito’.” (in “Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa”, Porto 1872).

CAMÕES, O SÍMBOLO NACIONAL

Camões foi um dos temas que, durante meio século, mais entusiasmou Teófilo. Interessaram-lhe todos — ou quase todos — os aspetos da vida e a obra do poeta. Fez uma reflexão e estudo dos textos mais antigos de biógrafos e comentadores, o chantre Severino de Faria, o licenciado Manuel Correia, o historiador e filólogo Manuel Faria de Sousa e o memorialista João Soares de Brito. Formulou hipóteses e extraiu conclusões, muitas das quais se revelaram precárias, em torno das circunstâncias relativas à conceção, publicação e divulgação de “Os Lusíadas”; e a outros assuntos como a tença, a morte e a sepultura de Camões; e, ainda, a permanência em África e no Oriente.

Sejam quais forem as reservas, os estudos de Teófilo proporcionam pistas para investigação do tempo histórico e da amplitude da obra do poeta, que não ficou alheio ao desconcerto do mundo e às vulnerabilidades da condição humana. Procedeu a uma campanha de opinião pública para celebrar, em todo o país, o terceiro centenário da morte de Camões. A informação existente indicava o dia 10 de junho. Foi exatamente nesse dia que se realizaram, em 1880, as comemorações, com a participação de intelectuais, políticos e elevado número de populares. Destinavam-se a promover a coesão do Partido Republicano, unindo as várias tendências e grupos dispersos, no pensamento e na ação. Recorde-se que, pouco antes de falecer, concedeu uma entrevista ao “Diário de Notícias”, na qual insistiu que a data do nascimento de Camões era 5 de fevereiro de 1584. O Governo, presidido por Álvaro de Castro e tendo António Sérgio como ministro da Instrução, determinou que o dia 5 de fevereiro passasse a ser feriado nacional. A data foi aprovada pelo Congresso da República e promulgada pelo chefe de Estado, Manuel Teixeira Gomes.

Concretizava-se assim, a título póstumo, a aspiração cívica de Teófilo: o sentimento nacional é um dos pilares fundamentais para a unificação dos portugueses. “Pelo amor do seu território, pela necessidade de manter a independência”, escreveu, “é possível alcançar uma ação comum, um sentimento coletivo que fortifica o sentimento da pátria e da nacionalidade.” (…) “Camões”, sintetizou, “deu expressão a esse sentimento, que transformou uma pátria numa nacionalidade”.

PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Proclamada a República, Teófilo Braga foi escolhido para chefe do governo provisório (5 de outubro de 1910 a 4 de setembro de 1911). Acompanhou a apresentação, o debate e a votação da legislação que estruturou o novo regime. A ditadura de Pimenta de Castro (28 de janeiro de 1915 a 14 de maio de 1915) que encerrou o Parlamento e conduziu à demissão do Presidente da República Manuel de Arriaga (eleito a 24 de agosto de 1911 e a desempenhar funções até 26 de maio de 1915). Perante esta crise, que provocou uma das mais sangrentas e devastadoras revoluções, solicitaram a Teófilo Braga para ocupar o cargo, porque reconheciam nele uma reserva moral e cívica.

Eleito em sessão do Congresso a 29 de maio de 1915, obteve 98 votos a favor, contra 1 voto para Duarte Leite e três votos em branco. Durante quatro meses assegurou a chefia do Estado, em circunstâncias particularmente complexas, a nível nacional e internacional. A defesa dos territórios portugueses de África, em especial Angola e Moçambique, perante ameaças da Alemanha, determinou a expedição de contingentes do Exército e da Marinha. A 5 de agosto de 1915 na Europa eclodiu o que viria a ser a Grande Guerra.

Os efeitos do conflito acentuaram-se com muito impacto nas lutas partidárias e na subida dos preços dos bens de consumo diário. Gerou-se a corrida aos bancos para levantar os depósitos. Havia uma profunda instabilidade política e social. Contudo, a entrada de Portugal na guerra, em solidariedade com a Inglaterra — e devido à secular aliança subscrita entre os dois países — só se verificaria a 7 de agosto de 1916. Deu lugar a mais outra controvérsia entre as forças militares e os principais partidos políticos.

EUROPA E ATLÂNTICO

Teófilo Braga, ao tomar posse, referiu que a sua orientação visava “a harmonia de todos os poderes do Estado, o reconhecimento de que o poder soberano da nação reside essencialmente no Congresso, de que o presidente não é senão um mandatário. O contrário seria eu a exercer um imperialismo presidencialista”.

Fez questão de salientar que, perante “esta espécie de solidariedade humana, que corrige os excessos do egoísmo nacional” (…), “um outro equilíbrio europeu tem de fundar-se.” Assim, “a política externa de Portugal deriva completamente da sua situação geográfica; ela solidarizou-se com a Europa, quando combatia o imperialismo da Espanha no século XVII e quando no século XIX desmoronava o imperialismo napoleónico, ela nos fará cooperar na atividade mundial dos grandes Estados, com o apoio no Atlântico”.

Noutro passo, Teófilo Braga concluiu: “Apresentando estes dois aspetos de política, interna e externa, da nação portuguesa, dela se deduz um plano do Governo. E ao proferir as palavras de compromisso de honra, desta hora em diante só aspiro que, ao regressar dignamente ao lar, se possa dizer: cumpriu o que prometeu; guiou-se pelo bom senso e pelo desinteresse.”

CONSAGRAÇÃO NACIONAL

Teófilo Braga, tal como João de Deus e Guerra Junqueiro, após o seu falecimento teve honras nacionais e foi sepultado nos Jerónimos — à data o Panteão Nacional. Em 1925, Alfredo Guisado, poeta da “Orpheu” e vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, inscreveu-o na toponímia. A rua onde residia, a Travessa de Santa Gertrudes, passou a denominar-se Rua Teófilo Braga. Também Alfredo Guisado deu o nome de Teófilo Braga ao Jardim da Parada, no centro do bairro de Campo de Ourique. Pouco depois, a 16 de outubro de 1926, inaugurava-se, no Jardim da Estrela, um monumento dedicado a Teófilo Braga, da autoria do escultor Teixeira Lopes. Em pleno salazarismo, o monumento saiu do Jardim da Estrela e foi enviado para Ponta Delgada, por ocasião do centenário do seu nascimento. Ficou junto ao Forte de São Brás, a curta distância da casa onde nasceu.

Embora muito combatido por intelectuais de várias tendências, também contou com a fidelidade e dedicação de amigos como Francisco Maria Supico e de discípulos como Teixeira Bastos, Reis Dâmaso, Fran Paxeco, A. do Prado Coelho. Um dos seus admiradores, Álvaro Neves, inventariou a sua interminável bibliografia e organizou o “In Memoriam”. Ao dissiparem-se as incompatibilidades pessoais e aversões políticas, chegou a hora da reabilitação da vida e da obra em trabalhos de investigação e crítica de Joaquim de Carvalho, Luís da Câmara Reys, Mário Soares e, presentemente, Amadeu Carvalho Homem.

Um facto é evidente: o homem, o erudito, o cidadão e o político merecem ser evocados no ano do centenário da sua morte. Destaca-se, quaisquer que sejam as reservas, o pioneiro da história da literatura que elegeu Camões como o símbolo da nacionalidade. Foi um dos fundadores do Partido Republicano que contribuiu para a transformação da sociedade portuguesa, para a mudança do regime e para a solução de algumas crises institucionais.

O “ORGULHO DE SER AÇORIANO”

Saiu de Ponta Delgada aos 18 anos e nunca mais voltou à ilha de São Miguel. Guardava memórias amargas da infância e da adolescência. Manteve um contacto epistolar assíduo com Francisco Maria Supico, diretor do jornal “A Persuasão”, que lhe acompanhou os primeiros passos e o incentivou a fazer carreira universitária. Entre as numerosas obras que publicou, faz referências a autores açorianos como Gaspar Frutuoso, propôs o camoneanista José do Canto para sócio da Academia das Ciências e ocupou-se de temas açorianos. É o caso de “Cantos Populares do Arquipélago Açoreano” (1869). Este trabalho baseia-se na recolha feita por João Teixeira Soares de Sousa (1827-1882), a pedido de Garrett. Acerca da poesia popular — escreveu Teófilo — existem duas modalidades: “uma atual, móvel, continuamente em elaboração porque é um eco da vida, uma linguagem das paixões e dos sentimentos de hoje; a outra é tradicional, histórica, em desarmonia com os costumes presentes, mas repetida ainda religiosamente como lembrança de costumes e sucessos que já passaram.” Constitui: “o rapsodo de todas as alegrias e tristezas do poema da vida. A poesia — para o povo — é o ritmo do esforço no trabalho, o esquecimento da miséria, a expressão dos desejos, o tesouro da sua moral e tradições antigas, a linguagem do amor, o gemido, enfim, a verdade simples da sua alma.” (…) Compreende, por conseguinte, “fados e canções da rua, orações, profecias nacionais e aforismos poéticos da lavoura”.

Ao ser entrevistado por Albino Forjaz de Sampaio, declara que “nunca tivera a doença do açoriano, o apego ferrenho às suas ilhas, a nostalgia que sentimos quando delas nos afastamos. No entanto, através da minha longa vida, sempre me interessou tudo o que pudesse interessar aos Açores, especialmente à minha terra”. Afirmou, ainda com veemência: “Tenho orgulho de ser açoriano. As nossas ilhas são o foco da melhor tradição nacional. Nunca reneguei a minha terra. Sou ilhéu, nasci nesses rochedos donde irradiou o espírito das autonomias”.

Teófilo Braga, o homem, o erudito e o político – por António Valdemar [jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], in Revista E (Expresso), 26 de Janeiro de 2024, p.50-52 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

sábado, 16 de setembro de 2023

NATÁLIA, SEM MÁSCARAS – POR ANTÓNIO VALDEMAR

Natália, sem máscaras – por António Valdemar, in Revista E

A criação literária e a intervenção política de Natália Correia constituíram sempre um espectáculo: umas vezes as palavras eram macias e aveludadas, outras escaldantes de cólera e sarcasmo Nunca recorreu a máscaras. Foi, orgulhosamente, ela própria

Era uma força da natureza que desejava manter-se na íntegra. Mas só o pôde enquanto a saúde lhe permitiu. Natália Correia queria o impossível: continuar com o porte altivo, imponente, olímpico e a elegância física que faziam parar o Chiado, ou onde quer que passasse. Contudo, os últimos anos foram penosos. Fumar cigarros uns a seguir aos outros e ter apetite devorador para jantares opíparos e ceias pantagruélicas tem o seu preço. As caricaturas do Vasco não foram impiedosas. Um cartunista com força de Vasco podia ter sido muito mais cruel.

Nasceu a 13 de Setembro de 1923, na ilha de São Miguel dos Açores, na freguesia da Fajã de Baixo, próximo da cidade de Ponta Delgada. O País mergulhara na turbulência social, na agitação política e na indisciplina militar. A crise financeira acentuava-se. As sucessivas alterações governamentais, na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler, começavam a alastrar na primeira metade do século XX, um dos séculos mais trágicos e mais contraditórios da História. Foi neste quadro que se consolidou e expandiu o fascismo, o nazismo, o salazarismo e o franquismo.

Desenvolveu-se, partir de então, a indomável personalidade de Natália. Pai e mãe entraram em rutura quando tinha alguns meses. O pai emigrou para o Brasil. A mãe, Maria José Oliveira, professora primária que assimilou os valores cívicos e culturais da República, adquiriu formação laica e tendências libertárias. Colaborou em jornais e revistas. Frequentou tertúlias literárias e políticas, mas, desde sempre, preocupou-se com a educação das filhas: Carmen e Natália. Incutiu-lhes os princípios da liberdade, da independência, da solidariedade humana, os valores universais que fundamentam uma sociedade democrática.

O salazarismo arrancara com o patrocínio de um sector decisivo das Forças Armadas, da igreja católica – ferida pelas leis da República – e o contributo do poder financeiro e económico. A instauração da Censura, a vigilância sistemática da polícia política e o apoio incondicional de tribunais especiais, reprimiram a opinião pública e silenciaram os vários setores da oposição. Foi em 1934 que a mãe de Natália e de Carmen se instalou, definitivamente, em Lisboa.

Procurou dar às filhas outros horizontes. «Sendo uma intelectual que não se pôde realizar inteiramente devido ao meio e às circunstâncias – recordou Natália – quis preparar-nos». Entendia que «o desenvolvimento intelectual da mulher corresponde a uma atitude social». «A permanência em S. Miguel, mesmo na cidade de Ponta Delgada, não reunia condições para nos desenvolver». (…) era «um meio muito exíguo». Natália Correia ainda passou pelo Liceu de Ponta Delgada; frequentou em Lisboa o Liceu Filipa de Lencastre, mas sem qualquer aproveitamento. Ficou, apenas, com o primeiro ciclo dos liceus.

Mostrou-se refratária aos métodos de ensino. Ela própria o declarou que «não podia aceitar regras impostas de fora: eu é que as tinha de criar». A passagem pelos liceus foi, segundo as suas palavras, de «ave migratória». O problema não se colocava, apenas, em São Miguel. Em Lisboa repetiu-se a mesma situação: os métodos eram semelhantes. A escola não constituía um espaço de formação. O ensino tinha de ser um ato de participação e cidadania, para habilitar os alunos a pensar e a interrogar o mundo.

PRIMEIRAS ASAS

Natália tornou-se, aos 22 anos – no esplendor da juventude – uma figura de Lisboa ligada aos acontecimentos literários e políticos que permaneciam na ordem do dia. Nesta primeira fase – dos anos 40 aos anos 50 – conciliou o jornalismo, a literatura e a política. Ainda colaborou na Rádio Clube Português. Integrou-se nos círculos da oposição democrática.

Três jornalistas micaelenses, amigos da mãe, que trabalhavam em Lisboa, estimularam as aspirações de Natália. Trata-se de Rebelo de Bettencourt (1894-1969) amigo de Fernando Pessoa e de Almada Negreiros, antigo chefe de redação do Portugal Futurista e que se acomodou, depois, a chefiar a redação da Gazeta dos Caminhos de Ferro e da revista Viagem; e o Padre Diniz da Luz (1915-1988) antifascista e exaltado e antigermanófilo tempestuoso, embora redator do jornal A Voz, um dos diários monárquicos, católicos, ultra conservadores, onde se preparou a conspiração para implantar a ditadura militar, em 28 de Maio de 1926 e introduzir, depois, o salazarismo.

Em 1946, Natália, principiou no quinzenário Portugal Madeira e Açores, empenhado na defesa dos interesses das então chamadas «ilhas adjacentes». Chefiava a redação outro amigo da mãe: Breno de Vasconcelos (1909-1993), oriundo do Correio dos Açores, o memorialista do livro A Paz Cinzenta (1979). Colaborou, depois, no semanário O Sol, fundado e dirigido por Alberto Lello Portela, (1893-1949) antigo político e parlamentar republicano e um dos militares que ingressaram nos primórdios da aviação.

Destacou-se com seu irmão, o advogado Raul Lello Portela, nos combates da oposição ao salazarismo. A chefia da redação d’ O Sol era assegurada por Alves Morgado (1901-1980) um outro profissional, conhecedor das regras do ofício. A distribuição de trabalho à redação (inclusive o desporto), nas relações com os colaboradores, nos contactos com a tipografia e na revisão escrupulosa de textos. Tinha a colaboração de grandes nomes, como António Sérgio e Maria Archer que deram visibilidade mediática a O Sol. Acrescente-se: Sérgio vacinou Natália contra o PCP e os outros núcleos marxistas e comunistas.

Natália falava e escrevia com desembaraço inglês e francês. Escreveu sobre política nacional e internacional: analisou as consequências da guerra de 1939 a 1945; as diretrizes de Mussolini e de Hitler, os efeitos do nazismo, os fundamentos do Reich, as extensões do fascismo na Europa (e a sua) disseminação em Portugal, na classe política e militar. Também escreveu sobre literatura e a arte. Publicou um romance, um livro de poemas e um livro de reportagem e de crónicas de viagens.

 


O VENENO DA POLÍTICA

Herdou também da mãe – opositora declarada do salazarismo – o interesse pela política. Até à morte, a política constituiu uma solicitação irresistível: a ânsia incontrolável de possuir informação, em cima da hora, o desejo de partilhar nos debates e a disponibilidade para se embrenhar nas possíveis conspirações, num país repleto dos condicionalismos que se prolongaram até ao 25 de Abril.

Subscreveu as listas do MUD que reclamavam a reposição das liberdades e garantias fundamentais. Envolveu-se na candidatura de Norton de Matos, deslocou-se, expressamente a Ponte de Lima, para entrevistar o General, na sua casa de férias.

Participou, em 1958, na candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República, concedendo uma entrevista explosiva ao Diário Ilustrado. Apoiou outros movimentos, entre os quais a ocupação do navio Santa Maria, comandado por Henrique Galvão para acelerar a queda de Salazar e para pôr termo à política colonial. Nas primeiras eleições do consulado de Marcelo Caetano, em 1969, colaborou com Mário Soares e Salgado Zenha, na formação da CEUD, em luta com o MDP/ CDE, que incorporava comunistas e outros radicais de esquerda. Incluindo os chamados «católicos progressistas»

Apesar de toda esta intervenção, ao surgir o 25 de Abril, os dirigentes partidários recearam convidá-la. Era imprevisível e um perigo iminente, em momentos delicados e complexos. Na linhagem das Cantigas de Escarnio e Maldizer, Natália Correia criou as Cantigas de Risadilha, para escarnecer a classe política. Não poupou amigos como Mário Soares e o Partido Socialista: «Já não sei se é país se é orfanato/pois nem vela, nem reza, nem sabá /impede que em berreiro ou desacato / ande tudo à procura do Papá». (…) «Tinha o PS pai. Mas o Marocas / mandou alguns filhotes para o galheiro/ e do partido por trocas e baldrocas, / já não consegue ser o pai inteiro». (….) «nesta lusa farronca sem vintém, / neste muda que muda sem mudança, / venha o que venha, há-de lixar-se quem / do salsifré tiver a governança».

Em termo desdenhoso alvejou Freitas do Amaral: «muito a preceito dos cristãos fervores / do CDS, o Lucas é o retrato / De um menino Jesus entre os doutores / A meter mestre Freitas num sapato». Devido ao insólito mergulho no Tejo e outras peripécias não escapou Marcelo Rebelo de Sousa, o «picareta falante»: «o Marcelo neste mapa / a brincar aos cowboys não há nenhum. / passa rasteira: o mais subtil derrapa; / dá ao gatilho da intriga e faz: pum-pum.» Sempre que podia dissecava o poder político e a rotina social. Zurziu as prosápias de fidalguia; os vícios e as vilezas dos novos e novíssimos ricos, os intelectuais e artistas enfatuados, os políticos arrivistas e corruptos. Execrava, ruidosamente, a ignorância e o fanatismo.

O ESCÂNDALO PARLAMENTAR

Estreitou amizade com Francisco Sá Carneiro, ao apadrinhar a aproximação íntima com Snu Abecasis. Assim, só em 1979, por insistência de Francisco Sá Carneiro ingressou na Aliança Democrática. Finalmente, passou a ser deputada pelo PSD. Assumiu, como era de presumir, posições em divergência frontal com a linha de orientação política e religiosa da quase totalidade do PSD e do CDS.

A defesa do aborto deu lugar a uma intervenção de Natália que agitou a Assembleia da Republica. Ficaram célebres os seus versos, ao arrasar o deputado do CDS, João Morgado por ter proferido, no auge do debate parlamentar sobre a legislação sobre o aborto, a afirmação perentória que «o ato sexual é para fazer filhos». Natália não se conteve e escreveu, de jato um poema que circulou, em todo o País, até porque sairia, no dia seguinte, no Diário de Lisboa: «Já que o coito – diz Morgado – /tem como fim cristalino, /preciso e imaculado/fazer menina ou menino;/e cada vez que o varão/sexual petisco manduca, /temos na procriação/prova de que houve truca-truca. / Sendo pai só de um rebento, /lógica é a conclusão/de que o viril instrumento/ só usou – parca ração! – / uma vez. E se a função/faz o órgão- diz o ditado-/consumada essa exceção, / ficou capado o Morgado!»

Confirmaram-se todas as apreensões. Nem o PSD lhe renovou o mandato, nem o PS – à frente do qual estava Jorge Sampaio – aceitou a proposta de entrar nas listas. Natália aderiu, então, ao Partido Renovador Democrático (PRD), que se constituiu sob a égide de Ramalho Eanes. Porque nada mais lhe restava, em 1992, cerca de um ano antes de falecer, juntamente com José Saramago e Luís Francisco Rebelo entre outros, integrou a Frente Nacional Para a Defesa da Cultura (FNDC). Foi no segundo mandato presidencial de Mário Soares. Tinha por objetivo denunciar violações à liberdade de expressão, à ausência de pluralidade e diversidade na cultura e exigir uma estratégica para a real democratização do país. Os mal-entendidos e os conflitos reacenderam-se. O projeto extinguiu-se.

O PERCURSO LITERÁRIO

Os primórdios da escrita de Natália Correia aproximam-se, em alguns aspetos, do neorrealismo. Demarcou-se, todavia, deste movimento literário e político. Ela própria explicou a sua opção: «Se pus Anoiteceu no Bairro (romance da sua autoria de 1946) à margem, não foi por ter sido escrito numa fase imatura da minha vida, mas porque o entendo inautêntico. Embora o livro corresponda a preocupações ideológicas que mantenho, não estou interessada em fazer literatura programada.» Era da opinião que, entre nós, «se fizera neo-realismo de empréstimo, de segunda mão» (…) «não se agitaram as pessoas e as instituições de forma a tornar visível o lodo depositado no fundo» (…) «Houve o medo» – concluiu – «de se realizar sequer um realismo a sério, porquanto este exige uma descida ao inferno e não vejo por aí quem se atreva além do purgatório». Por isso se afastou do neorrealismo, cortou com a orientação literária e política de escritores portugueses que o representavam, muitos dos quais pertenciam ao Partido Comunista ou estavam próximo dele. Foi ainda mais explícita: «Não podemos competir – insistiu – com os mestres do neo-realismo americano e europeu que, bons ou maus, para quem aprecia o género, já disseram a última palavra».

Seguiu outro caminho que prosseguiu, com variantes óbvias. Passou a estar próxima do surrealismo. Já tinha relações pessoais com Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Isabel Meyrelles, Alexandre O’Neill, Manuel de Lima, Mário Henrique Leiria e David Mourão Ferreira. Acrescente-se Luís Pacheco, editor dos surrealistas e de livros de Natália nesta fase literária: Dimensão Encontrada (1957), Passaporte (1958), Comunicação (1959) e, mesmo, O Canto do País Emerso (1961).

A propósito da ligação ao surrealismo e aos surrealistas portugueses fez questão de observar: «se existe qualquer relação entre a minha poesia e o surrealismo é francamente a posteriori, isto é para os que quiserem vê-la. Quanto a procurarem antecedentes, também temos por cá outros mais à mão que foram surrealistas sem pensar nisso: Gomes Leal e Sá Carneiro».

A criação de Natália, sempre avessa a códigos literários e estéticos verificou-se nos livros de poemas, nos romances, nas memórias, nas peças de teatro e nos ensaios, nasce e expande-se, em todos os sentidos, mergulha na complexidade do mundo, umas vezes numa interpelação provocatória, outras em torno das mais ínfimas e sutis realidades. Em suma, um todo bastante diverso, mas coeso, nas suas afinidades eletivas.

 


O ÚLTIMO SALÃO DE LISBOA

Mesmo em vida, Natália Correia já pertencia à História de Lisboa. Residia num quinto andar do número 52 da rua Rodrigues Sampaio, entre a rua de Santa Marta e a Avenida da Liberdade. Ali permaneceu 40 anos, desde 1953 a 1993. Ali faleceu a 16 de Março de 1993, horas depois de chegar a casa, ao regressar do Botequim

O lendário diretor do Diário de Noticias, Augusto de Castro repetiu, até à exaustão, em livros, discursos e editoriais, que o «ultimo salão literário de Lisboa» fora a casa, em Santa Catarina, de Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921). É certo que marcou um tempo cultural, mas cada época tem o seu salão literário.

Na segunda metade do século XX a casa de Natália Correia, entre várias outras, foi um espaço privilegiado de convívio, rodeado de uma fabulosa biblioteca, de notáveis obras de arte e de surpreendentes peças de arte decorativa. A hospitalidade afetuosa conjugava – se com a estatura intelectual dos convidados de Natália, em noites inesquecíveis que avançavam pela madrugada. Durante a passagem por Lisboa ofereceu recepções a Marcel Marceau (que entrevistei, em 1959, ao lado de Natália, para o jornal República); ao poeta russo Ievtuchenko, ao poeta Henri Michaux; e, já no Botequim, ao jornalista e escritor Dominique de Roux, autor do enigmático romance O Quinto Império; e ainda aos escritores americanos Graham Greene e Henry Miller.

VISCERALMENTE AÇOREANA

Ficou sempre agarrada aos Açores. Nasceu, viveu e morreu açoreana. Um dos seus muitos poemas de forte componente insular resume – se nestes versos: «Para Lisboa me trouxeram/ não de uma vez e embarcada:/ minha longa matéria foi/ pouco a pouco transportada./ Recém-vinda de ficada/em morosa maravilha, / sempre a chegar a Lisboa/ e sempre a ficar na ilha».

Num dos seus livros mais emblemáticos, Não Percas a Rosa deparamos sucessivas recordações da infância e da adolescência associadas a memórias gustativas, olfativas e visuais como, por exemplo, o cozido das Furnas sempre com  inhames e maçarocas de milho. Desce mesmo ao pormenor: «cozidas na terra fervente e mole à beira da Lagoa e que depois comemos numa mesa de pedra sob as plumas dos fetos; por entre colinas de pedra pomes, líquenes, musgos, mantos verdes que pendem dos ribanceiros onde se abrem as alas rosadas e azuis das hortênsias». Ficou a ser, por vários motivos e até ao fim, uma ilha dentro da sua própria Ilha.


O BOTEQUIM

Multiplicaram-se as dificuldades financeiras. O marido, Alfredo Machado, um jogador compulsivo, deixou de ter os recursos para manter uma vida aparatosa para Natália possuir em casa um salão – o seu palco doméstico – para recepções faustosas e requintadas.

Em 1971, Natália, com o marido e a escultora Isabel Meyreles fundaram, no largo da Graça, onde existiu em tempo uma carvoaria, um o bar restaurante que lhe permitiu, um novo espaço para voltar a pontificar. Tinha necessidade permanente de espectáculo. Chamava-se O Botequim, um nome que remetia para os cafés e restaurantes de Lisboa, do século XVII, do tempo de Bocage, da implantação do regime liberal e da independência do Brasil.

Rapidamente O Botequim ganhou a maior notoriedade. Existiam (e existem) outros centros de convívio e de conspiração: o Snob, na rua do O Século; o Procópio, nas Amoreiras; o After Eight, na Praça das Flores. Nenhum deles, comparável a O Botequim.

Concentravam-se no Botequim poetas e escritores de várias tendências. Políticos de todos os quadrantes. Deputados, ministros, atuais ou futuros, presidentes da República. Representantes da FLAD, o movimento da independência dos Açores. Incorporou as fases conturbadas do processo revolucionário e contra revolucionário que vivemos na sequência do 25 de Abril.

Encontrava-se Natália envolvida, em 1971, em controvérsias políticas e literárias que deram brado em todo o País. Desencadeara no consulado de Salazar e na «primavera marcelista» duas ruidosas polémicas que a levaram à barra do Tribunal Plenário de Lisboa. O primeiro processo, motivado pela introdução e coordenação da Antologia de Poesia Erótica e Satírica (1965). O segundo processo devido à responsabilidade editorial das Novas Cartas Portuguesas (1972) da autoria de Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno. Ambos os livros desencadearam o alarme da Censura e a imediata apreensão da PIDE. Natália foi julgada e condenada, ao cabo de nove anos de guerrilhas judiciais. O 25 de Abril determinou o ponto final.

A presença carismática de Natália pontificou, no Botequim, durante mais de 20 anos. Com a morte de Natália, morreu o Botequim. Revive, contudo, no livro de Fernando Dacosta O Botequim da Liberdade (Lisboa, 2013). Na Fotobiografia de Natália Correia, de Ana Paula Costa (2006) e na extensa biografia romanceada de Filipa Martins, O Dever de Deslumbrar (2024). Um fato, porém, é incontestável: malograram-se as tentativas de revitalizar o Botequim. Com a morte de Natália o Botequim ficou morto e enterrado.

ELA E SÓ ELA

A memória de Natália perdura na sua obra. Pouco antes de falecer reuniu as poesias completas em dois volumes e com o titulo genérico O Sol das Noites e o  Luar dos Dias (1993). Clara Rocha classificou nesta síntese lapidar: «o retrato de uma voz que se modula nos sons da fúria ou da emoção lírica, do riso ou da mágoa, da saudade e da vivência, mas que estremece e livre, resiste, se transforma e transforma».

O nome de Natália encontra-se consagrado em ruas, de Lisboa e dos Açores, em diversas bibliotecas, no reportório musical de Carlos Alberto Moniz e num café de Angra do Heroísmo e com a seguinte lápide: «Quando me derem por morta/ de lágrimas nem uma pinga:/ um trevo de quatro folhas/ tenho debaixo da língua./ Está em regra o passaporte. / Venha o limite de idade/ não me chorem, não é morte/ é só invisibilidade./ Túnel, poço ou espiral/ suga a alma. Fica o corpo./ Vai - se a cópia sideral/ e isso não é estar morto»

As comemorações centenárias – a realizar de 2023 a 2024 – em Portugal, em França e noutros países vão, mais uma vez demonstrar que está viva. A criação literária e a intervenção política de Natália Correia, constituíram sempre um espectáculo: umas vezes as palavras eram macias e aveludadas, outras escaldantes de cólera e sarcasmo Nunca recorreu a máscaras. Foi, orgulhosamente, ela própria

Natália Correia, sem Máscaras – por António Valdemar [jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], in Revista E (Expresso), 8 de Setembro de 2023, p.26-32 – com sublinhados nossos.

J.M.M.