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domingo, 8 de janeiro de 2017

SOARES 65, O ANÚNCIO DO LÍDER


 
"Soares 65, o anúncio do líder” – por António Valdemar, in Público
 
Em 1965, Mário Soares proferiu um discurso que foi um marco, uma fronteira na oposição e uma das componentes do processo que o 25 de Abril irá prosseguir e mudar o curso da História
Há tempo para viver e há tempo para morrer. A saúde cada vez mais precária de Mário Soares tinha-se agravado de modo implacável. Perdera a agilidade de movimentos. Extinguira-se o entusiasmo que lhe fervia nos olhos, se refletia na voz e lhe inundava o rosto. Sentia-se entre os escombros de um mundo que ajudara a construir. Ainda chegou a ter consciência da crise profunda que ameaça a Europa e se tem manifestado em Portugal. 
Depois, ficou reduzido a um espectro do que fora. Mas insistiu sempre em viver. Embora identificasse alguns amigos, estava cada vez mais frágil e mais ausente. O convívio, um dos seus maiores prazeres, passou a ser difícil. Queria citar um nome, referir um acontecimento, mas não conseguia. Faltavam-lhe as palavras que queria dizer. Ou, então, esquecera tudo e todos.
Mário Soares foi em Portugal o maior político da sua geração e do seu tempo. Dominou a segunda metade do século XX e, no início do século XXI, ainda continuou presente. Herdou do pai o vírus da política, o empenhamento na militância, o sentido do risco e a firmeza e vigor na ação para destituir Salazar e erradicar o salazarismo. Orgulhava-se do magistério de António Sérgio, Jaime Cortesão, Bento Caraça, Câmara Reis e Mário de Azevedo Gomes. Considerava-se discípulo, no ensino secundário de Álvaro Salema e Agostinho da Silva; e na universidade de Vieira de Almeida e de Magalhães Godinho. Este último prefaciou-lhe a primeira tese de licenciatura O Nacionalismo Político de Teófilo Braga recusada, por motivos ideológicos, por alguns professores do júri, na Faculdade de Letras de Lisboa.

Para a sua formação, também reconhecia a importância de Álvaro Cunhal, enquanto regente de uma sala de estudos do Colégio Moderno, ao concluir uma disciplina do antigo sétimo ano do liceu. Através dessas explicações criou uma relação direta com uma personalidade que o fascinou. Quando perguntei a Álvaro Cunhal, num encontro no Martinho da Arcada, qual o contributo intelectual e político que exercera em Mário Soares, respondeu-me com o seu humor corrosivo: “Nenhum. Só consegui ensinar-lhe as coordenadas celestes para um exame de Geografia. O dr. Mário Soares nunca conseguiu aprender comigo as coordenadas terrestres”…

A 14 de Dezembro de 1965, falecia Mário de Azevedo Gomes. Chefiava, na altura, a oposição ao salazarismo. A década de 60, a partir de Agosto de 1960, e com a morte de Jaime Cortesão, confrontou-nos com o progressivo desaparecimento das figuras paradigmáticas. O Diretório Democrato-Social  – bastante desativado – admitiu a hipótese de entregar a presidência a Cunha Leal, antigo ministro da I Republica.

Mas a primeira geração, formada na Seara Nova  – Manuel Mendes, Fernando Abranches Ferrão, António Macedo, Carlos Cal Brandão e outros –, não aceitava Cunha Leal. Perduravam os ecos de uma das mais contundentes polémicas de Raul Proença: o conflito entre os princípios e os interesses, o antagonismo entre as conveniências económicas, os valores morais e a ética politica.
 
 

É neste contexto que Mário Soares, no funeral de Mário de Azevedo Gomes, no cemitério dos Prazeres – onde irá agora repousar, transitoriamente, até lhe prestarem honras no Panteão Nacional –, proferiu um discurso que ficou a ser um marco na sua trajetória, uma fronteira na oposição e uma das componentes do processo que o 25 de Abril irá prosseguir e mudar o curso da História.

Estive lá como repórter do Diário de Notícias e como amigo e admirador de Azevedo Gomes, oriundo de famílias açorianas e, ele próprio, nascido na ilha Terceira. Recordo-me do que se passou e do que a Censura truncou e suprimiu. É um momento histórico da carreira política de Mário Soares. Talvez haja um registo no espólio de Igrejas Caeiro. Lembro-me de ter feito a gravação.

Ao usar da palavra, Mário Soares, num ambiente de apertada vigilância policial, falou acerca do futuro da oposição. E disse, perentoriamente, que, falecido Mário de Azevedo Gomes, líder indiscutível, não aceitariam outro líder que não fosse da geração do próprio Mário Soares.

O consenso foi significativo: na sua geração, na geração anterior, e, ainda, nos sobreviventes do grupo originário da Seara Nova e de alguns dos últimos civis e militares que implantaram a República. Afastava-se a hipótese de Cunha Leal suceder a Mário de Azevedo Gomes.

Era a oportunidade de a nova geração dar testemunho e de Mário Soares assumir o papel principal na liderança. Já conquistara protagonismo e visibilidade pública. Já concebera um projeto para Portugal. Assentava na República Moderna e na social-democracia europeia. A oposição passava a ter um rosto jovem. Ganhava maior amplitude e tornava-se mais eficaz.

Em numerosas circunstâncias Mário Soares demonstrara coragem, determinação e energia. Voltou a repetir sempre que necessário. Tinha o perfil adequado para as lutas a travar, à frente da oposição, dentro e fora do País. Estávamos em Dezembro de 1965. Pouco antes completara 41 anos. O discurso, naquele dia, no funeral de Azevedo Gomes, constituiu a afirmação e também o anúncio da grande liderança política nacional e internacional de Mário Soares.

Soares 65, o anúncio do líder – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências, antigo aluno de Mário Soares no Colégio Moderno], jornal Público (online), 7 de Janeiro de 2017 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

MÁRIO SOARES – “ESCRITOS POLÍTICOS” (1969)


Mário Soares, “Escritos Políticos”, Edição do Autor [Depositária Editorial Inquérito, Travessa da Queimada, 23, 1º Dto, Lisboa], Tip. do Jornal do Fundão, Lisboa, 1969

«Uma das palavras que melhor caracteriza a Censura portuguesa é "inconveniente". A palavra não implica um julgamento de valor sobre o conteúdo de um livro ou de um artigo, apenas que pode pôr em causa aquilo que é o interesse da ordem estabelecida.

"Inconveniente" é perturbador e, se há coisa que a Censura toma como sua missão, é impedir qualquer perturbação, seja política, seja social, seja cultural, seja nos costumes. Acresce que há um significado conexo, o de mal-educado, malcriado. "Não sejas inconveniente" diziam as mães para os filhos no passado longínquo em que a linguagem não era gutural como é agora. É esta a classificação que a Censura dá aos Escritos Políticos de Mário Soares, uma antologia de textos de circunstância escritos ao sabor das actividades oposicionistas do autor, publicado em 1969.

A PIDE não se limita a mandar o livro para que a Censura o proíba - coisa que faz quase sempre quando lhe é solicitado pela PIDE, o que nem sempre acontece quando o recebe do SNI ou de outras instituições da ditadura - mas, como anota o autor do despacho, faz uma admoestação implícita aos censores por terem deixado passar alguns destes textos "quando apresentados para jornais diários". A PIDE mostra o desconforto com a publicação, o censor dos livros puxa as orelhas aos censores da imprensa. O que é que explica ser esta obra "um puro ataque político mal intencionado e inoportuníssimo", em plena primavera marcelista?

O despacho da Censura explica-o em termos bem mais calmos do que rebarbativos, "inoportuníssimo": trata-se de "um ataque ao Governo e às bases orgânico-políticas do actual sistema político-social". De facto, é disso mesmo que se trata. Mário Soares, então uma personagem em ascensão na oposição moderada, onde ainda compete com um conjunto de velhos dirigentes vindos da República, ou do MUD, ou do Directório, está a deslocar-se com os seus amigos progressivamente de um republicanismo oposicionista para um socialismo que nem sempre é moderado. Fá-lo em competição com o PCP, com quem, nesse ano eleitoral de 1969, demasiado importante porque eram as primeiras eleições sem Salazar, rompe a unidade, apresentando-se a CEUD e a CDE em listas separadas.


Os escritos de Mário Soares são um retrato do que era a actividade da oposição não comunista, muito limitada, operando muitas vezes na semilegalidade, ou na legalidade permitida e vigiada, ao sabor de jantares, pequenos comícios, abaixo-assinados, e artigos no República. Há textos biográficos e políticos sobre os vultos da velha oposição republicana ou da República, como é o caso de Mário de Azevedo Gomes, de Fernão Boto Machado ou dos revolucionários do 31 de Janeiro; há teses enviadas às reuniões republicanas e oposicionistas, entrevistas e intervenções em colóquios censurados ou proibidos, e um ocasional artigo numa publicação estrangeira.

No seu conjunto, revelam o pensamento de Soares tal como ele se tinha estabilizado depois da sua saída do PCP no início dos anos cinquenta, ainda muito preso ao peso do republicanismo histórico, mas já apresentando-se como a sua ala esquerda socializante, organizada na ASP e depois no PS. Essa tendência socializante e mesmo nalguns casos esquerdizante veio a acentuar-se nos anos seguintes, influenciado ele também pelo Maio de 1968, pelas lutas estudantis e pela sua experiência mais tardia no exílio europeu onde pôde contactar pela primeira vez com outros socialistas europeus.

Esta deriva para a esquerda faz o caminho entre a ruptura eleitoral com os comunistas em 1969, até aos acordos frentistas de 1973 entre o PS e o PCP. Mas não é esse ainda o tempo dos Escritos Políticos. À data da publicação deste livro, como se pode ver nos seus anexos, Mário Soares enfileira numa atitude atentista e, por isso mesmo, benévola, em relação à liberalização caetanista, atitude essa duramente criticada pelo PCP como "ilusória" e perigosa. Num dos abaixo-assinados transcritos no livro, os signatários apresentam-se como "socialistas democráticos" e não como "socialistas totalitários", dispostos a ajudarem Marcelo Caetano a criar o "clima novo" que este anunciava. Conhecendo-se como se conhece, após a leitura de milhares de despachos, a cabeça dos censores é este abraço da oposição moderada a Marcelo Caetano que era "mal intencionado e inoportuníssimo".

Proíba-se pois o livro»

FOTO 2:“Mário Soares em campanha pela CEUD, Outubro 1969” – via Casa Comum

[José Pacheco Pereirain jornal PÚBLICO (02/07/2014), sublinhados nossos]

J.M.M.

sábado, 18 de janeiro de 2014

PRESIDENCIAIS DE 1949 – COMÍCIO DE NORTON DE MATOS (II)


Presidenciais de 1949: comício de Norton de Matos na Voz do Operário (Lisboa)

Comício da campanha do General Norton de Matos às eleições presidenciais de 1949, na Voz do Operário: o candidato preferindo um discurso.

Na mesa do comício, distinguem-se Manuel Mendes, Fernando Lopes-Graça, Mário de Azevedo Gomes, entre outros. Ao fundo, o desenho retratando o candidato, da autoria de Júlio Pomar. [ADITAMENTO: Na foto, "a pessoa sentada mais à esquerda [talvez] seja a Dr.ª Maria Isabel Aboim Inglês - inf. prof. João Esteves (ver comentário)]

via Casa Comum

J.M.M.