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domingo, 10 de maio de 2026

CAMILO PESSANHA NO CENTENÁRIO DA SUA MORTE

 

Camilo Pessanha no Centenário da sua Morte, Periódico Único, Edição BMM, Typographia Todos Manos, 2026, 24 pp.

Biblioteca Maçónica do Baixo Mondego (BMBM), no Centenário da Morte do poeta, republicano e maçon, Camilo Pessanha (Irmão Angélico), lançou uma interessante publicação destinada a homenagear essa admirável e representativa  figura da moderna poesia portuguesa. Espécie bibliográfica primorosamente executado, de tiragem muito reduzida e fora do mercado, está curiosamente publicada em diferentes versões e esmeradamente impressa com excelentes ilustrações nas páginas de texto.  

[ALGUMAS PÁGINAS IMPRESSAS]



[DOWNLOAD AQUI]

J.M.M.

domingo, 2 de fevereiro de 2025

ALEXANDRE O’NEILL PRECISA-SE – POR ANTÓNIO VALDEMAR

 

Alexandre O’Neill Precisa-se” – por António Valdemar

Estou a vê-lo tal como o próprio Alexandre O’Neill se autoretratou: “moreno, português, cabelo asa de corvo” (…) “sofre de ternura, bebe demais e ri-se…”. Estou também a ouvi-lo num bate papo, sempre inesquecível, através das esquinas, entre o Jardim do Príncipe Real e a Rua do Alecrim. Além da conversa fascinante, desafiava-nos para ir comer uns carapaus fritos, com salada fresca, um tinto do lavrador e a sair do barril. Depois era o café. Muito café. Fumava cigarros, uns atrás dos outros.

Viajou muito. Andou de país em país. Viu museus e palácios. Comeu e bebeu o que lhe apetecia em bons hotéis e bons restaurantes. Mas Lisboa permanecia dentro dele. Era aqui o seu território: passar nas livrarias e alfarrabistas; ir as tascas do Bairro Alto, frequentar antigos restaurantes que já não existem ou se existem tem outra clientela.

O centenário do nascimento de Alexandre O'Neill (1924-1986) – que se vai concluir a 19 de dezembro deste ano – permite recordar o Homem e a obra nas suas varias componentes. Grande poeta, dos maiores da literatura portuguesa da segunda metade do seculo XX, também se distinguiu pela intervenção cívica.

Entre os poetas e escritores da sua geração, Alexandre O'Neill foi, porventura, o que se aproximou do público mais diversificado. Basta citar o poema Gaivota, que transpôs as fronteiras nacionais, interpretado pela voz de Amália e composição musical de Alain Oulman. Para o renome de Alexandre O'Neill também contribuíram as intervenções frequentes na televisão e noutros órgãos de comunicação, tais como no Diário de Lisboa, n'A Capital e n‘A Luta.

A política acompanhou-o sempre. Na oposição ao salazarismo, no combate ao marcelismo e, depois do 25 de Abril, na rejeição dos totalitarismos partidários. Era um defensor acérrimo do pluralismo de expressão e critica. Manteve, e em circunstâncias bastante difíceis, a frontalidade da opinião. Orientava-se por exigências éticas princípios democráticos, contra a imposição de compêndios estéticos e cartilhas literárias. Insurgiu-se contra tudo que lhe condicionava a liberdade pessoal.

Poucos escritores e poetas denunciaram, como Alexandre O'Neill, os ridículos, as frivolidades, o absurdo, a farsa da sociedade portuguesa. Tal como Gervásio Lobato na célebre “Lisboa em Camisa”. O inconformismo visceral de O'Neill destaca-se quer no volume “Poesia Completa”, introdução de Clara Rocha; quer nos textos dispersos em jornais recolhidos por Maria Antónia de Oliveira, com o titulo “Portugal em forma de Assim”.

Mostrou-se implacável perante “o Pais engravatado todo o ano/ a assoar-se na gravata por engano, /o incrível pais da minha tia, / trémulo de bondade e de aletria”. Ou quando se debatia com lisboetas que o indignavam: “Tu não mereces esta cidade/não mereces/ esta roda de náusea em que giramos/ até a idiotia/ esta pequena morte/ e o seu minucioso e porco ritual/ esta nossa razão absurda de ser”. (…) “Tu és da cidade onde vives por um fio/de puro acaso/ onde morres ou vives não de asfixia/ mas às mãos de uma aventura de um comércio puro/sem a moeda falsa do bem e do mal”.

Não poupava, Alexandre O'Neill, a insinuação ostensiva e presunçosa dos intelectuais de serviço que mudam de ideias quando convém, sem qualquer espécie de vergonha: “Todos os dias os encontros” – escreveu – “Evito-os. Às vezes sou obrigado a escuta-los” (…) “Mas também os aturo por escrito. No livro. No jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos. (…). Querem vencer, querem convencidos, convencer. Vençam lá à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear”.

Na criação literária de O'Neill, predomina uma poesia desenvolta onde se acentua a ironia, o sarcasmo e o humor negro; e também outra poesia de fortes tensões líricas e elegíacas. Faz a exaltação da mulher, celebra a volúpia do Amor: “defendo-me da morte quando dou/meu corpo ao seu desejo violento/e lhe devoro o corpo lentamente”. Também aprofundou as interrogações que colocam o homem perante a angústia da vida e o desespero da morte.

Buscou quer na poesia, quer na prosa, quer ainda no ofício da tradução, todos os recursos de cada palavra; desarticulava, sempre que necessário, as amarras da gramática tradicional. Procurou transmitir gestos, tiques e atitudes. Inventava novas palavras, incluía outras extraídas de alfarrábios e ainda mais outras apanhadas na rua ou no café. Este foi mais outro notável contributo da sua escrita. Deu maior amplitude à língua portuguesa.

Alexandre O'Neill faleceu com pouco mais de 60 anos. Já não era novo, mas também não era velho. Morreu destroçado por crises cardíacas e hospitalizações penosas. Ficou, a certa altura, um velhinho magro, pálido e de bengala, igual àqueles velhinhos à espera da morte nos bancos dos jardins.

Contudo, mal começava a falar, esquecíamo-nos do espectro físico em que se transformara. Logo nas primeiras palavras, emergia o seu comentário arrasador, a propósito das últimas notícias literárias e politicas, que acompanhava com à maior atenção.

Recebeu, em vida, quase todas as homenagens possíveis para um intelectual politicamente incorreto, a exceção do Prémio Camões ainda não instituído. Entre os poetas e escritores da sua geração, Alexandre O'Neill foi, porventura, o que mais se aproximou do grande público.

Recorreu à ironia e ao sarcasmo para a desmontagem de hábitos e rotinas ancestrais. Daí o paralelo inevitável entre a sua obra, a de Nicolau Tolentino e a de Cesário Verde. Nos três podemos encontrar afinidades, embora com escritas diferentes, visões diferentes e os condicionalismos de épocas diferentes. De todos, Alexandre O’Neill continua mais próximo de nós.

Embora exista outra classe social e outra classe politica, em numerosos aspetos, mantém hábitos e costumes inveterados. Revelam-se refratários à mudança. Falta-lhes ousadia para ultrapassar constrangimentos ancestrais para atingir as grandes reivindicações do cidadão da Europa.

Alexandre O’Neill Precisa-se” – por António Valdemar [Jornalista, carteira profissional número Um; sócio efetivo da Academia das Ciências], in Figueirense, 31 de Janeiro 2025, p. 18 – com sublinhados nossos; gravura de Álvaro Carrilho.

J.M.M.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

MÁRIO SOARES – 100 ANOS DO SEU NASCIMENTO

 

Mário Soares. 100 Anos do seu Nascimento; n.º hors-série de 7 de Dezembro 2024Edição BMBMRedação: Vale do Mondego; Edição Fora de Mercado (tiragem de 33 exemplares), 12 pags.

 Trata-se de um número comemorativo do Centenário de Mário Soares, com curiosos testemunhos de quem o conheceu, de tiragem muito reduzida e para bibliófilos, lançado pela Biblioteca Maçónica do Baixo Mondego, que tem alojamento no Archive.org

https://archive.org/details/@biblioteca_ma_nica_do_baixo_mondego

“Eu sou contra todas as ditaduras e a favor da liberdade. Sem liberdade política nada se passa, só se entra, a prazo, em decadência” [Mário Soares]

As comemorações do Centenário do nascimento de Mário Soares são uma lúcida, admirável e bela jornada de homenagem a um dos fundadores da Democracia portuguesa contemporânea. Memorar o seu legado imorredouro de luta pela Liberdade e Democracia é voltar a falar no sonho dessa confraternidade cívica que em (e por) Abril une todos os Homens como Irmãos. Um Abril de utopia, um Abril de retomar a palavra, um Abril sem muros e de afetuosa solidariedade, um Abril com luzimento e de felicidade. Mário Soares foi um cidadão, e nosso irmão, com muita luz, possuidor de um ânimo inabalável e de coragem certa nas horas incertas. Mário Soares foi um dos nossos, pelo Amor da Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Obrigado Mário Soares.

[Os Bibliotecários]

TÁBUA: 100 Anos do Nascimento de Mário Soares (José Lamego); Mário Soares “detestava o bajulador” (Vasco Franco); Eu conheci Mário Soares ... [Manuel da Costa (da Quinta)]; Mário Soares também foi iniciado (Manuel Seixas); Uma grande figura da nossa história moderna (José Manuel Martins); Discurso à Maçonaria em França [Manuel Seixas, anotação de um extracto do livro de Mário Soares, Cartas e Intervenções Políticas no Exílio, Temas e Debates, 2014 (reimp.), Discurso à Maçonaria em França, pp 97-116]; Sobre Mário Soares … (extratos de testemunhos); Fotografias & Livros

 [Algumas páginas ...]


[Download AQUI]

    J.M.M.

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

HOMENAGEM A NATÁLIA CORREIA NO CENTENÁRIO DO SEU NASCIMENTO


A Academia das Ciências de Lisboa, realiza amanhã, 26 de Outubro de 2023, no Salão  Nobre, uma sessão de homenagem a Natália Correia, organizada pela Classe de Letras, assinalando desta forma o Centenário do seu nascimento.

A sessão conta com a participação dos académicos:

- Manuel Alegre;

- António Valdemar;

- Fernando Dacosta.

Foram ainda convidados:

- Manuela Eanes;

- Armando Nascimento Rosa;

- Ana Paula Costa;

e

- Carlos Alberto Moniz.

A sessão tem início às 15h e vai funcionar em regime híbrido: em regime presencial e também em formato online através da plataforma Zoom.

LINK DE ACESSO ZOOM https://www.acad-ciencias.pt/events/sessao-da-classe-de-letras-11/

Com os votos do maior sucesso.

A.A.B.M.

sábado, 16 de setembro de 2023

NATÁLIA, SEM MÁSCARAS – POR ANTÓNIO VALDEMAR

Natália, sem máscaras – por António Valdemar, in Revista E

A criação literária e a intervenção política de Natália Correia constituíram sempre um espectáculo: umas vezes as palavras eram macias e aveludadas, outras escaldantes de cólera e sarcasmo Nunca recorreu a máscaras. Foi, orgulhosamente, ela própria

Era uma força da natureza que desejava manter-se na íntegra. Mas só o pôde enquanto a saúde lhe permitiu. Natália Correia queria o impossível: continuar com o porte altivo, imponente, olímpico e a elegância física que faziam parar o Chiado, ou onde quer que passasse. Contudo, os últimos anos foram penosos. Fumar cigarros uns a seguir aos outros e ter apetite devorador para jantares opíparos e ceias pantagruélicas tem o seu preço. As caricaturas do Vasco não foram impiedosas. Um cartunista com força de Vasco podia ter sido muito mais cruel.

Nasceu a 13 de Setembro de 1923, na ilha de São Miguel dos Açores, na freguesia da Fajã de Baixo, próximo da cidade de Ponta Delgada. O País mergulhara na turbulência social, na agitação política e na indisciplina militar. A crise financeira acentuava-se. As sucessivas alterações governamentais, na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler, começavam a alastrar na primeira metade do século XX, um dos séculos mais trágicos e mais contraditórios da História. Foi neste quadro que se consolidou e expandiu o fascismo, o nazismo, o salazarismo e o franquismo.

Desenvolveu-se, partir de então, a indomável personalidade de Natália. Pai e mãe entraram em rutura quando tinha alguns meses. O pai emigrou para o Brasil. A mãe, Maria José Oliveira, professora primária que assimilou os valores cívicos e culturais da República, adquiriu formação laica e tendências libertárias. Colaborou em jornais e revistas. Frequentou tertúlias literárias e políticas, mas, desde sempre, preocupou-se com a educação das filhas: Carmen e Natália. Incutiu-lhes os princípios da liberdade, da independência, da solidariedade humana, os valores universais que fundamentam uma sociedade democrática.

O salazarismo arrancara com o patrocínio de um sector decisivo das Forças Armadas, da igreja católica – ferida pelas leis da República – e o contributo do poder financeiro e económico. A instauração da Censura, a vigilância sistemática da polícia política e o apoio incondicional de tribunais especiais, reprimiram a opinião pública e silenciaram os vários setores da oposição. Foi em 1934 que a mãe de Natália e de Carmen se instalou, definitivamente, em Lisboa.

Procurou dar às filhas outros horizontes. «Sendo uma intelectual que não se pôde realizar inteiramente devido ao meio e às circunstâncias – recordou Natália – quis preparar-nos». Entendia que «o desenvolvimento intelectual da mulher corresponde a uma atitude social». «A permanência em S. Miguel, mesmo na cidade de Ponta Delgada, não reunia condições para nos desenvolver». (…) era «um meio muito exíguo». Natália Correia ainda passou pelo Liceu de Ponta Delgada; frequentou em Lisboa o Liceu Filipa de Lencastre, mas sem qualquer aproveitamento. Ficou, apenas, com o primeiro ciclo dos liceus.

Mostrou-se refratária aos métodos de ensino. Ela própria o declarou que «não podia aceitar regras impostas de fora: eu é que as tinha de criar». A passagem pelos liceus foi, segundo as suas palavras, de «ave migratória». O problema não se colocava, apenas, em São Miguel. Em Lisboa repetiu-se a mesma situação: os métodos eram semelhantes. A escola não constituía um espaço de formação. O ensino tinha de ser um ato de participação e cidadania, para habilitar os alunos a pensar e a interrogar o mundo.

PRIMEIRAS ASAS

Natália tornou-se, aos 22 anos – no esplendor da juventude – uma figura de Lisboa ligada aos acontecimentos literários e políticos que permaneciam na ordem do dia. Nesta primeira fase – dos anos 40 aos anos 50 – conciliou o jornalismo, a literatura e a política. Ainda colaborou na Rádio Clube Português. Integrou-se nos círculos da oposição democrática.

Três jornalistas micaelenses, amigos da mãe, que trabalhavam em Lisboa, estimularam as aspirações de Natália. Trata-se de Rebelo de Bettencourt (1894-1969) amigo de Fernando Pessoa e de Almada Negreiros, antigo chefe de redação do Portugal Futurista e que se acomodou, depois, a chefiar a redação da Gazeta dos Caminhos de Ferro e da revista Viagem; e o Padre Diniz da Luz (1915-1988) antifascista e exaltado e antigermanófilo tempestuoso, embora redator do jornal A Voz, um dos diários monárquicos, católicos, ultra conservadores, onde se preparou a conspiração para implantar a ditadura militar, em 28 de Maio de 1926 e introduzir, depois, o salazarismo.

Em 1946, Natália, principiou no quinzenário Portugal Madeira e Açores, empenhado na defesa dos interesses das então chamadas «ilhas adjacentes». Chefiava a redação outro amigo da mãe: Breno de Vasconcelos (1909-1993), oriundo do Correio dos Açores, o memorialista do livro A Paz Cinzenta (1979). Colaborou, depois, no semanário O Sol, fundado e dirigido por Alberto Lello Portela, (1893-1949) antigo político e parlamentar republicano e um dos militares que ingressaram nos primórdios da aviação.

Destacou-se com seu irmão, o advogado Raul Lello Portela, nos combates da oposição ao salazarismo. A chefia da redação d’ O Sol era assegurada por Alves Morgado (1901-1980) um outro profissional, conhecedor das regras do ofício. A distribuição de trabalho à redação (inclusive o desporto), nas relações com os colaboradores, nos contactos com a tipografia e na revisão escrupulosa de textos. Tinha a colaboração de grandes nomes, como António Sérgio e Maria Archer que deram visibilidade mediática a O Sol. Acrescente-se: Sérgio vacinou Natália contra o PCP e os outros núcleos marxistas e comunistas.

Natália falava e escrevia com desembaraço inglês e francês. Escreveu sobre política nacional e internacional: analisou as consequências da guerra de 1939 a 1945; as diretrizes de Mussolini e de Hitler, os efeitos do nazismo, os fundamentos do Reich, as extensões do fascismo na Europa (e a sua) disseminação em Portugal, na classe política e militar. Também escreveu sobre literatura e a arte. Publicou um romance, um livro de poemas e um livro de reportagem e de crónicas de viagens.

 


O VENENO DA POLÍTICA

Herdou também da mãe – opositora declarada do salazarismo – o interesse pela política. Até à morte, a política constituiu uma solicitação irresistível: a ânsia incontrolável de possuir informação, em cima da hora, o desejo de partilhar nos debates e a disponibilidade para se embrenhar nas possíveis conspirações, num país repleto dos condicionalismos que se prolongaram até ao 25 de Abril.

Subscreveu as listas do MUD que reclamavam a reposição das liberdades e garantias fundamentais. Envolveu-se na candidatura de Norton de Matos, deslocou-se, expressamente a Ponte de Lima, para entrevistar o General, na sua casa de férias.

Participou, em 1958, na candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República, concedendo uma entrevista explosiva ao Diário Ilustrado. Apoiou outros movimentos, entre os quais a ocupação do navio Santa Maria, comandado por Henrique Galvão para acelerar a queda de Salazar e para pôr termo à política colonial. Nas primeiras eleições do consulado de Marcelo Caetano, em 1969, colaborou com Mário Soares e Salgado Zenha, na formação da CEUD, em luta com o MDP/ CDE, que incorporava comunistas e outros radicais de esquerda. Incluindo os chamados «católicos progressistas»

Apesar de toda esta intervenção, ao surgir o 25 de Abril, os dirigentes partidários recearam convidá-la. Era imprevisível e um perigo iminente, em momentos delicados e complexos. Na linhagem das Cantigas de Escarnio e Maldizer, Natália Correia criou as Cantigas de Risadilha, para escarnecer a classe política. Não poupou amigos como Mário Soares e o Partido Socialista: «Já não sei se é país se é orfanato/pois nem vela, nem reza, nem sabá /impede que em berreiro ou desacato / ande tudo à procura do Papá». (…) «Tinha o PS pai. Mas o Marocas / mandou alguns filhotes para o galheiro/ e do partido por trocas e baldrocas, / já não consegue ser o pai inteiro». (….) «nesta lusa farronca sem vintém, / neste muda que muda sem mudança, / venha o que venha, há-de lixar-se quem / do salsifré tiver a governança».

Em termo desdenhoso alvejou Freitas do Amaral: «muito a preceito dos cristãos fervores / do CDS, o Lucas é o retrato / De um menino Jesus entre os doutores / A meter mestre Freitas num sapato». Devido ao insólito mergulho no Tejo e outras peripécias não escapou Marcelo Rebelo de Sousa, o «picareta falante»: «o Marcelo neste mapa / a brincar aos cowboys não há nenhum. / passa rasteira: o mais subtil derrapa; / dá ao gatilho da intriga e faz: pum-pum.» Sempre que podia dissecava o poder político e a rotina social. Zurziu as prosápias de fidalguia; os vícios e as vilezas dos novos e novíssimos ricos, os intelectuais e artistas enfatuados, os políticos arrivistas e corruptos. Execrava, ruidosamente, a ignorância e o fanatismo.

O ESCÂNDALO PARLAMENTAR

Estreitou amizade com Francisco Sá Carneiro, ao apadrinhar a aproximação íntima com Snu Abecasis. Assim, só em 1979, por insistência de Francisco Sá Carneiro ingressou na Aliança Democrática. Finalmente, passou a ser deputada pelo PSD. Assumiu, como era de presumir, posições em divergência frontal com a linha de orientação política e religiosa da quase totalidade do PSD e do CDS.

A defesa do aborto deu lugar a uma intervenção de Natália que agitou a Assembleia da Republica. Ficaram célebres os seus versos, ao arrasar o deputado do CDS, João Morgado por ter proferido, no auge do debate parlamentar sobre a legislação sobre o aborto, a afirmação perentória que «o ato sexual é para fazer filhos». Natália não se conteve e escreveu, de jato um poema que circulou, em todo o País, até porque sairia, no dia seguinte, no Diário de Lisboa: «Já que o coito – diz Morgado – /tem como fim cristalino, /preciso e imaculado/fazer menina ou menino;/e cada vez que o varão/sexual petisco manduca, /temos na procriação/prova de que houve truca-truca. / Sendo pai só de um rebento, /lógica é a conclusão/de que o viril instrumento/ só usou – parca ração! – / uma vez. E se a função/faz o órgão- diz o ditado-/consumada essa exceção, / ficou capado o Morgado!»

Confirmaram-se todas as apreensões. Nem o PSD lhe renovou o mandato, nem o PS – à frente do qual estava Jorge Sampaio – aceitou a proposta de entrar nas listas. Natália aderiu, então, ao Partido Renovador Democrático (PRD), que se constituiu sob a égide de Ramalho Eanes. Porque nada mais lhe restava, em 1992, cerca de um ano antes de falecer, juntamente com José Saramago e Luís Francisco Rebelo entre outros, integrou a Frente Nacional Para a Defesa da Cultura (FNDC). Foi no segundo mandato presidencial de Mário Soares. Tinha por objetivo denunciar violações à liberdade de expressão, à ausência de pluralidade e diversidade na cultura e exigir uma estratégica para a real democratização do país. Os mal-entendidos e os conflitos reacenderam-se. O projeto extinguiu-se.

O PERCURSO LITERÁRIO

Os primórdios da escrita de Natália Correia aproximam-se, em alguns aspetos, do neorrealismo. Demarcou-se, todavia, deste movimento literário e político. Ela própria explicou a sua opção: «Se pus Anoiteceu no Bairro (romance da sua autoria de 1946) à margem, não foi por ter sido escrito numa fase imatura da minha vida, mas porque o entendo inautêntico. Embora o livro corresponda a preocupações ideológicas que mantenho, não estou interessada em fazer literatura programada.» Era da opinião que, entre nós, «se fizera neo-realismo de empréstimo, de segunda mão» (…) «não se agitaram as pessoas e as instituições de forma a tornar visível o lodo depositado no fundo» (…) «Houve o medo» – concluiu – «de se realizar sequer um realismo a sério, porquanto este exige uma descida ao inferno e não vejo por aí quem se atreva além do purgatório». Por isso se afastou do neorrealismo, cortou com a orientação literária e política de escritores portugueses que o representavam, muitos dos quais pertenciam ao Partido Comunista ou estavam próximo dele. Foi ainda mais explícita: «Não podemos competir – insistiu – com os mestres do neo-realismo americano e europeu que, bons ou maus, para quem aprecia o género, já disseram a última palavra».

Seguiu outro caminho que prosseguiu, com variantes óbvias. Passou a estar próxima do surrealismo. Já tinha relações pessoais com Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Isabel Meyrelles, Alexandre O’Neill, Manuel de Lima, Mário Henrique Leiria e David Mourão Ferreira. Acrescente-se Luís Pacheco, editor dos surrealistas e de livros de Natália nesta fase literária: Dimensão Encontrada (1957), Passaporte (1958), Comunicação (1959) e, mesmo, O Canto do País Emerso (1961).

A propósito da ligação ao surrealismo e aos surrealistas portugueses fez questão de observar: «se existe qualquer relação entre a minha poesia e o surrealismo é francamente a posteriori, isto é para os que quiserem vê-la. Quanto a procurarem antecedentes, também temos por cá outros mais à mão que foram surrealistas sem pensar nisso: Gomes Leal e Sá Carneiro».

A criação de Natália, sempre avessa a códigos literários e estéticos verificou-se nos livros de poemas, nos romances, nas memórias, nas peças de teatro e nos ensaios, nasce e expande-se, em todos os sentidos, mergulha na complexidade do mundo, umas vezes numa interpelação provocatória, outras em torno das mais ínfimas e sutis realidades. Em suma, um todo bastante diverso, mas coeso, nas suas afinidades eletivas.

 


O ÚLTIMO SALÃO DE LISBOA

Mesmo em vida, Natália Correia já pertencia à História de Lisboa. Residia num quinto andar do número 52 da rua Rodrigues Sampaio, entre a rua de Santa Marta e a Avenida da Liberdade. Ali permaneceu 40 anos, desde 1953 a 1993. Ali faleceu a 16 de Março de 1993, horas depois de chegar a casa, ao regressar do Botequim

O lendário diretor do Diário de Noticias, Augusto de Castro repetiu, até à exaustão, em livros, discursos e editoriais, que o «ultimo salão literário de Lisboa» fora a casa, em Santa Catarina, de Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921). É certo que marcou um tempo cultural, mas cada época tem o seu salão literário.

Na segunda metade do século XX a casa de Natália Correia, entre várias outras, foi um espaço privilegiado de convívio, rodeado de uma fabulosa biblioteca, de notáveis obras de arte e de surpreendentes peças de arte decorativa. A hospitalidade afetuosa conjugava – se com a estatura intelectual dos convidados de Natália, em noites inesquecíveis que avançavam pela madrugada. Durante a passagem por Lisboa ofereceu recepções a Marcel Marceau (que entrevistei, em 1959, ao lado de Natália, para o jornal República); ao poeta russo Ievtuchenko, ao poeta Henri Michaux; e, já no Botequim, ao jornalista e escritor Dominique de Roux, autor do enigmático romance O Quinto Império; e ainda aos escritores americanos Graham Greene e Henry Miller.

VISCERALMENTE AÇOREANA

Ficou sempre agarrada aos Açores. Nasceu, viveu e morreu açoreana. Um dos seus muitos poemas de forte componente insular resume – se nestes versos: «Para Lisboa me trouxeram/ não de uma vez e embarcada:/ minha longa matéria foi/ pouco a pouco transportada./ Recém-vinda de ficada/em morosa maravilha, / sempre a chegar a Lisboa/ e sempre a ficar na ilha».

Num dos seus livros mais emblemáticos, Não Percas a Rosa deparamos sucessivas recordações da infância e da adolescência associadas a memórias gustativas, olfativas e visuais como, por exemplo, o cozido das Furnas sempre com  inhames e maçarocas de milho. Desce mesmo ao pormenor: «cozidas na terra fervente e mole à beira da Lagoa e que depois comemos numa mesa de pedra sob as plumas dos fetos; por entre colinas de pedra pomes, líquenes, musgos, mantos verdes que pendem dos ribanceiros onde se abrem as alas rosadas e azuis das hortênsias». Ficou a ser, por vários motivos e até ao fim, uma ilha dentro da sua própria Ilha.


O BOTEQUIM

Multiplicaram-se as dificuldades financeiras. O marido, Alfredo Machado, um jogador compulsivo, deixou de ter os recursos para manter uma vida aparatosa para Natália possuir em casa um salão – o seu palco doméstico – para recepções faustosas e requintadas.

Em 1971, Natália, com o marido e a escultora Isabel Meyreles fundaram, no largo da Graça, onde existiu em tempo uma carvoaria, um o bar restaurante que lhe permitiu, um novo espaço para voltar a pontificar. Tinha necessidade permanente de espectáculo. Chamava-se O Botequim, um nome que remetia para os cafés e restaurantes de Lisboa, do século XVII, do tempo de Bocage, da implantação do regime liberal e da independência do Brasil.

Rapidamente O Botequim ganhou a maior notoriedade. Existiam (e existem) outros centros de convívio e de conspiração: o Snob, na rua do O Século; o Procópio, nas Amoreiras; o After Eight, na Praça das Flores. Nenhum deles, comparável a O Botequim.

Concentravam-se no Botequim poetas e escritores de várias tendências. Políticos de todos os quadrantes. Deputados, ministros, atuais ou futuros, presidentes da República. Representantes da FLAD, o movimento da independência dos Açores. Incorporou as fases conturbadas do processo revolucionário e contra revolucionário que vivemos na sequência do 25 de Abril.

Encontrava-se Natália envolvida, em 1971, em controvérsias políticas e literárias que deram brado em todo o País. Desencadeara no consulado de Salazar e na «primavera marcelista» duas ruidosas polémicas que a levaram à barra do Tribunal Plenário de Lisboa. O primeiro processo, motivado pela introdução e coordenação da Antologia de Poesia Erótica e Satírica (1965). O segundo processo devido à responsabilidade editorial das Novas Cartas Portuguesas (1972) da autoria de Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno. Ambos os livros desencadearam o alarme da Censura e a imediata apreensão da PIDE. Natália foi julgada e condenada, ao cabo de nove anos de guerrilhas judiciais. O 25 de Abril determinou o ponto final.

A presença carismática de Natália pontificou, no Botequim, durante mais de 20 anos. Com a morte de Natália, morreu o Botequim. Revive, contudo, no livro de Fernando Dacosta O Botequim da Liberdade (Lisboa, 2013). Na Fotobiografia de Natália Correia, de Ana Paula Costa (2006) e na extensa biografia romanceada de Filipa Martins, O Dever de Deslumbrar (2024). Um fato, porém, é incontestável: malograram-se as tentativas de revitalizar o Botequim. Com a morte de Natália o Botequim ficou morto e enterrado.

ELA E SÓ ELA

A memória de Natália perdura na sua obra. Pouco antes de falecer reuniu as poesias completas em dois volumes e com o titulo genérico O Sol das Noites e o  Luar dos Dias (1993). Clara Rocha classificou nesta síntese lapidar: «o retrato de uma voz que se modula nos sons da fúria ou da emoção lírica, do riso ou da mágoa, da saudade e da vivência, mas que estremece e livre, resiste, se transforma e transforma».

O nome de Natália encontra-se consagrado em ruas, de Lisboa e dos Açores, em diversas bibliotecas, no reportório musical de Carlos Alberto Moniz e num café de Angra do Heroísmo e com a seguinte lápide: «Quando me derem por morta/ de lágrimas nem uma pinga:/ um trevo de quatro folhas/ tenho debaixo da língua./ Está em regra o passaporte. / Venha o limite de idade/ não me chorem, não é morte/ é só invisibilidade./ Túnel, poço ou espiral/ suga a alma. Fica o corpo./ Vai - se a cópia sideral/ e isso não é estar morto»

As comemorações centenárias – a realizar de 2023 a 2024 – em Portugal, em França e noutros países vão, mais uma vez demonstrar que está viva. A criação literária e a intervenção política de Natália Correia, constituíram sempre um espectáculo: umas vezes as palavras eram macias e aveludadas, outras escaldantes de cólera e sarcasmo Nunca recorreu a máscaras. Foi, orgulhosamente, ela própria

Natália Correia, sem Máscaras – por António Valdemar [jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], in Revista E (Expresso), 8 de Setembro de 2023, p.26-32 – com sublinhados nossos.

J.M.M. 

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

SEARA NOVA – “EM DEFESA DE UMA DEMOCRACIA SOCIAL”

 


Em Defesa de uma Democracia Social” – por António Valdemar, in Caderno E, Expresso, 9 de Outubro de 2021

Apesar de todas as adversidades da repressão política, no salazarismo e no marcelismo, o impacto da doutrinação e crítica da revista “Seara Nova” constitui um legado cívico e cultural dos mais notáveis do século XX. Esta semana passam 100 anos desde que saiu o primeiro número.

A “Seara Nova” apareceu há 100 anos e num momento de extrema crispação política e social. O desassossego era permanente e nunca se sabia o que reservava o dia de amanhã. A conspiração monárquica principiou no próprio 5 de Outubro de 1910, com a instauração da República. Prosseguiu sem tréguas. As derrotas dos monárquicos nas incursões (1911-1912) chefiadas por Paiva Couceiro repetiram-se na escalada de Monsanto (1919), comandada por Aires de Ornelas, e na implantação no Porto, também em 1919, da Monarquia do Norte.

A fragmentação dos republicanos em três partidos e a formação de grupos divergentes em cada partido geravam uma turbulência permanente. Os partidos instrumentalizavam o Exército e a Marinha. Manipulavam a Guarda Republicana e a Polícia. As revoluções sucediam-se. Os governos duravam meses ou apenas alguns dias. Os debates parlamentares eram intermináveis, sem apresentarem soluções alternativas para resolver os grandes problemas.

A criação, em setembro de 1919, da Confederação Geral do Trabalho (CGT) procurou mobilizar o operariado. Tinha como órgão o jornal “A Batalha”, que impulsionava as reivindicações e chamava a atenção para outros problemas nacionais ou internacionais. Também era fundado, em junho de 1921, o Partido Comunista Português. Todas estas circunstâncias provocavam angústia e sobressalto. Multiplicavam-se as greves. A crise económica era profunda. Faltavam produtos essenciais para o dia-a-dia. Continuavam por sarar feridas causadas pela intervenção de Portugal na guerra.

As origens da “Seara Nova” datam dos finais de 1920 e primeiros meses de 1921. Jaime Cortesão, diretor da Biblioteca Nacional, reuniu-se com Raul Proença e Luís da Câmara Reys e juntos conceberam a formação de um grupo, com a edição de uma revista periódica, para responder às preocupações que se manifestavam em todo o país. A eles se juntaram Aquilino Ribeiro, Augusto Casimiro, Faria de Vasconcelos, Ferreira de Macedo, Francisco António Correia, Raul Brandão e, levado por Aquilino Ribeiro, o jovem advogado José de Azeredo Perdigão.

Começou a publicação da “Seara Nova” a 15 de outubro de 1921. Era uma revista quinzenal de doutrinação e crítica, para “criar uma opinião pública nacional que exija e apoie as reformas necessárias”, para garantir “os interesses supremos da nação, opondo-se ao espírito de rapina das oligarquias dominantes e ao egoísmo dos grupos, classes e partidos”. Reclamava a urgência de “protestar contra todos os movimentos revolucionários e, todavia, defender e definir a grande causa da verdadeira revolução”. “Contribuir acima das Pátrias” — outra questão fundamental —, “a união de todas as Pátrias — uma consciência internacional bastante forte para não permitir novas lutas fratricidas”.


A NOITE SANGRENTA

Quatro dias depois do aparecimento da “Seara Nova”, a 19 de outubro de 1921, a revolta dos marinheiros espalhou o pânico em Lisboa, que se estendeu a todo o país. A Legião Vermelha assassinou o primeiro-ministro António Granjo e o fundador da República Machado Santos. Também assassinou o comandante Carlos da Maia, outra figura já histórica da República, o comandante Freitas da Silva, secretário do ministro da Marinha, e o coronel Botelho de Vasconcelos, que apoiara Sidónio Pais. Arrancados das suas casas, seguiram numa “camioneta fantasma” que os levou até ao Arsenal. Ali foram sumariamente abatidos a tiro.

Ficou na história como “A Noite Sangrenta”, uma das páginas negras de toda a Primeira República. Raul Proença, no nº 2 da “Seara Nova”, de 5 de novembro de 1921, referiu que o país mergulhara “na epilepsia da desordem”. E comentou: “Já o tínhamos previsto. Nem foi surpresa para ninguém (...).” Os homens que tombaram às mãos dos assassinos — acentuava com veemência — eram “vítimas de tudo o que fizemos e não fizemos; do que dissemos e do que calamos, do que praticamos e do que consentimos”.

Um dos motivos aparentes do 19 de outubro terá sido a demissão do governo de Liberato Pinto — ligado ao Partido Democrático — e a sua condenação a um ano de prisão, confirmada a 21 de setembro de 1921 pelo Conselho Superior de Disciplina do Exército. Quem se movimentou para organizar esta chacina e quais os seus objetivos? A Legião Vermelha, um grupo de marinheiros radicais influenciado por oficiais da Armada e do Exército e políticos de várias tendências. Inclusive monárquicas e católicas. O cabo Abel Olímpio, tristemente célebre com a alcunha “Dente de Ouro”, arregimentou os marinheiros, mas — e para vingar o Regicídio, executado em 1908 pela Carbonária — houve a intervenção das Juventudes Monárquicas Conservadoras. Houve também a colaboração do padre Maximiano Lima, da administração do jornal “A Época”, de cuja redação faziam parte jornalistas como Manuel Múrias, Pedro Correia Marques e Leopoldo Nunes, que, a 28 de maio de 1926, acompanharam o golpe militar chefiado por Gomes da Costa, em Braga; que avançou para o Porto e para Lisboa e abriu caminho para a entrada de Salazar no governo.

No livro de Berta MaiaAs Minhas Entrevistas com Abel Olímpio, ‘O Dente de Ouro’”, confirmam-se as cumplicidades de militares monárquicos e de figuras da banca. O jornalista Bourbon e Meneses reuniu outros contributos no livro “Os Crimes do 19 de Outubro: Revelações & Interrogações Sensacionais” (1929), ao aprofundar os meandros da conspiração e a concretização do crime. A situação política diagnosticada por Raul Proença na “Seara Nova” desvendava as causas da agitação nas ruas e da incerteza e da perplexidade que se instalara na população. Jaime Cortesão, a propósito, afirmou: “Diga-se a verdade toda. Os crimes que se praticaram não eram possíveis sem a dissolução moral a que chegou a sociedade portuguesa.”


POLÉMICAS MEMORÁVEIS

A entrada, em 1923, de António Sérgio para a redação e direção intensificou as grandes intervenções polémicas. Para um público em especial, os jovens universitários, a “Seara Nova” tornara-se leitura obrigatória. Denunciava erros e omissões de política nacional e internacional nas áreas da educação e da economia. Questionou o fascismo e o comunismo.

Desencadeou polémicas memoráveis. Raul Proença fez a desmontagem do Integralismo Lusitano e da Cruzada Nuno Álvares; definiu as responsabilidades dos intelectuais. Desmascarou as acrobacias políticas de Alfredo Pimenta, Martinho Nobre de Melo. Enfrentou Cunha Leal — que ascendera a primeiro-ministro na crise resultante do 19 de outubro — a propósito da incompatibilidade da política com o mundo dos negócios.

António Sérgio insurgiu-se contra Malheiro Dias acerca do Sebastianismo e sobre os métodos da divulgação científica preconizados por Abel Salazar. Também não hesitou em escrever juízos críticos a propósito da obra de Teófilo Braga e Guerra Junqueiro, ambos considerados intocáveis.

A missão do artista foi outra polémica que se arrastou entre José Régio e Álvaro Cunhal. Mais intervenções com repercussão: de Adolfo Casais Monteiro em torno da arte e da vida e de Mário Dionísio a respeito do neorrealismo. A demissão de António Sérgio, em 1939, resultou das divergências em matéria de orientação ideológica e dos critérios da administração adotados por Câmara Reys. Contou com a adesão de Mário de Azevedo Gomes, de Álvaro Salema e de Castelo Branco Chaves. Mas não impediu uma participação intensa, em alturas decisivas, quando Jaime Cortesão e António Sérgio foram presos e exilados; e Raul Proença ficou doente e totalmente incapacitado para escrever.

A “Seara Nova” atravessou a Guerra de Espanha, a Segunda Guerra Mundial e, no plano interno, a consolidação do regime de Salazar; as repercussões e as consequências do MUNAF (1942) e do MUD (1945); a nova expulsão de catedráticos nas universidades de Lisboa, Coimbra e Porto; os conflitos, as desistências, os avanços e recuos desencadeados em face das candidaturas de Norton de Matos, de Rui Luís Gomes, de Quintão Meireles, de Arlindo Vicente e de Humberto Delgado. Sempre em luta frontal contra o regime e a suportar ameaças tremendas.

Um novo ciclo se abriu nos anos 60 com a morte inesperada de Câmara Reys, candidato a deputado numa lista da oposição para deputados à Assembleia Nacional. A “Seara Nova” ampliou, entretanto, a visão crítica e analítica — quase sempre abafada pela censura — perante a Guerra Colonial, os apelos possíveis para a independência das colónias, a emigração, a saúde, as greves estudantis. É a década em que dois membros do governo de Salazar provocam dois incidentes de enorme gravidade — Adriano Moreira, ministro do Ultramar, reabriu o Tarrafal, com o nome de Campo do Chão Bom; e Inocêncio Galvão Teles, ministro da Educação, encerrou a Sociedade Portuguesa de Escritores. A história da “Seara Nova”, nestes e em muitos outros aspetos, já foi estudada na sua amplitude e dimensão por António Rafael Amaro, António Reis, Sottomayor Cardia, Fernando Catroga, António Pedro Pita, em investigações rigorosas e pormenorizadas.

ORIENTAÇÃO LITERÁRIA

Os principais responsáveis pela criação da “Seara Nova” derivam do grupo da Renascença Portuguesa e da revista “Águia” e surgiram no Porto, em 1910, depois da instauração da República. Teixeira de Pascoaes e Leonardo Coimbra faziam parte — e em lugar de maior evidência — deste movimento cultural. Contudo, Jaime Cortesão, Raul Proença e António Sérgio optaram por outra posição filosófica e outra orientação doutrinária.

Elegeram na “Seara Nova”, entre as suas preferências literárias, os escritores, os poetas, os ensaístas e os críticos mais representativos da segunda metade do século XIX: Antero de Quental, Oliveira Martins, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão. Quase todos selecionados como paradigmas nas “Questões Morais e Sociais da Literatura”, para citar o título de uma série organizada por Luís da Câmara Reys.

Outra componente da “Seara Nova” residia na oposição ao modernismo, que se manifestou a partir do “Orpheu”, em termos de criação poética e na aceitação de princípios e valores. Jaime Cortesão é categórico, em 1922, numa das “Cartas à Mocidade” e a propósito da formação dos caracteres e do carácter. Recomendava aos jovens que não se deixassem atrair pelos “corifeus da última grande camada literária que deram extremos foros de desequilíbrio no estilo”. Outra advertência — sem mencionar nomes, mas eram óbvios — incidia no conteúdo da obra de poetas como António Botto, Judite Teixeira e Raul Leal, na chamada “literatura de Sodoma”, que Fernando Pessoa defendeu publicamente.

GRAFISMO E ILUSTRAÇÃO

A configuração da “Seara Nova” não tem qualquer relação com as revistas do modernismo. Tais como “Orpheu”, “Centauro”, “Portugal Futurista”, “Athena” e “Contemporânea”, associadas às inovações introduzidas por Luís de Montalvor, Amadeo de Souza-Cardoso, Christiano Cruz, Santa-Rita Pintor, Almada Negreiros e José Pacheco. Foi encomendado por Luís da Câmara Reys a Leal da Câmara o modelo da “Seara Nova”, enquanto revista e, ainda, de papel para cartas e envelopes da redação e dos serviços administrativos. Leal da Câmara notabilizara-se em Paris, em plano de igualdade com os maiores caricaturistas e cartoonistas que marcaram a transição do século XIX para o século XX.

Ao regressar a Portugal, após a implantação da República, Leal da Câmara exerceu influência nos primórdios de Almada Negreiros, Christiano Cruz e Stuart Carvalhais, em Lisboa, e de Abel Salazar, no Porto. O seu magistério no ensino industrial e comercial foi relevante em várias gerações que frequentaram a Escola Fonseca Benevides. Realizou uma obra pioneira na edição de livros e de revistas, na criação de mobiliário e de objetos decorativos e na montagem de exposições.

A “Seara Nova” tem capas de Leal da Câmara, episodicamente, de Jorge Barradas e de Stuart Carvalhais; nos anos 20, a presença assídua de José Tagarro (que faleceu prematuramente) é da maior importância. Outras referências: Diogo de Macedo, Arlindo Vicente e Roberto de Araújo; nos anos 40 e 50, salientam-se Júlio Pomar e Lima de Freitas.

O reconhecimento dos vários surtos da modernidade encontra-se na crítica de arte de José Ernesto de Sousa e, pouco antes do 25 de Abril, em Rocha de Sousa, enquanto José-Augusto França se distinguiu, muitos anos, na crítica de cinema. Nesta retrospetiva bastante sumária não se podem ignorar a crítica de teatro de João Pedro de Andrade e a crítica de música de Fernando Lopes Graça. Só que Lopes Graça ultrapassou este domínio, ocupando -se de outros sectores culturais e políticos.

CENSURA, ASSALTOS, PRISÕES

A censura, desde que foi instituída e legalmente estruturada — na sequência da implantação da ditadura militar e da chefia do governo presidido por Salazar —, teve intervenção drástica na “Seara Nova”. Os motivos de combate permanente à “Seara Nova”, um dos órgãos de comunicação mais contundentes, ressaltaram nos temas da comemoração do 40º aniversário do 28 de Maio, através das intervenções de políticos, de militares e de um representante da igreja. Estão reunidas em dois volumes. Justificaram e exaltaram as políticas adotadas e que se vão manter até ao 25 de Abril. Também a União Nacional, no âmbito desta comemoração, lançou outros livros, um dos quais “A ‘Seara Nova’ e o Pensamento da Revolução Nacional”, da autoria de Mário Matos e Lemos e publicado na Panorama, a editora do SNI.

A anunciada Primavera Marcelista, de setembro de 1968 a 24 de abril de 1974, continuou a encarar a “Seara Nova” como um perigo político, um dos inimigos a abater e a condenar ao ostracismo. José Tengarrinha estudou na história da “Seara Nova” os dois períodos em que a censura foi mais radical: coincidiram com a direção de Câmara Reys (1927-1960) e, de 1961 a 1974, com as direções de Augusto Casimiro, de Rogério Fernandes, de Augusto Abelaira e de Manuel Rodrigues Lapa. Além da intervenção da censura, também se registaram, ao longo de décadas, os assaltos, os confiscos e as prisões da PIDE, que prendeu e torturou intelectuais marcados pelo estigma da “Seara Nova”.

Entre numerosos casos gritantes, em novembro de 1958, recordam-se as prisões de seareiros históricos como António Sérgio, Jaime Cortesão e Mário de Azevedo Gomes, todos eles com mais de 70 anos. O pretexto era que, fora do tempo de “liberdade suficiente” da campanha eleitoral de Humberto Delgado, promoviam a organização para a vinda a Portugal de Aneurin Bevan, deputado trabalhista britânico, e de Pierre Mendès France, a fim de fazerem conferências sobre democracia.


INTRANSIGÊNCIA DE PRINCÍPIOS

O enquadramento da “Seara Nova” coloca-nos perante várias “Searas Novas” com diferenças políticas e culturais muito assinaláveis. Até ao último número manteve-se fiel a “regras básicas de conduta” — esclareceu Rodrigues Lapa —, como, por exemplo, em não “agrupar todos os seareiros sob um mesmo credo e uma só bandeira”. Especificava que a “Seara Nova” “guardou sempre avaramente a sua independência. Daí a sua autoridade cívica. Contra a política aventureira dos improvisadores da velha democracia. (...) Veio substituir e muitas vezes combater uma forma de radicalismo, muito em moda, que só tinha de avançado o modo truculento como atacava os padres e a religião, mas que se mancomunava, podendo ser, com os príncipes da plutocracia e da finança, tradicionais inimigos da democracia”.

“Essa posição intransigente na defesa dos princípios de uma democracia social” — acentuava Rodrigues Lapa — “teve por consequência a hostilidade dos partidos republicanos que então disputavam o poder”. Durante a ditadura, de 1926 a 24 de abril de 1974, a “Seara Nova” travou “um ferrenho combate, com armas desiguais, mas com o vigor desesperado dos que preferem morrer a ceder um palmo de terreno”.

Um dos “pequenos dramas da vida íntima da ‘Seara’” — observou ainda Rodrigues Lapa — consistiu no “espírito de elite, que cava abismos quase intransponíveis entre o agente e o objeto da cultura”. No entanto, a “Seara Nova” opunha-se “à cultura como privilégio de classe, inacessível ao cidadão vulgar”. Assim, procedeu, desde os anos 30 aos anos 60, à publicação e ampla divulgação dos “Cadernos da ‘Seara Nova’” e dos “Textos Literários”. Rodrigues Lapa e António Sérgio foram os principais responsáveis pela seleção dos autores, a introdução de cada opúsculo e a organização de uma antologia sumária. Procurando sempre — afirmou Rodrigues Lapa — “um estilo claro, que fuja à retórica tradicional e a um gongorismo retorcido, em que o português culto ou semiculto de ordinário se compraz com delícia”.

Todas estas circunstâncias em momentos particularmente atribulados, com a sistemática repressão da censura e da polícia política, a PIDE e a DGS, estabeleceram uma filosofia e uma moral. Apesar de todas as adversidades e de todas as polémicas, a “Seara Nova” deixou um legado cívico e cultural dos mais notáveis dos últimos 100 anos.

Em Defesa de uma Democracia Social – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], revista E, Expresso, 9 de Outubro de 2021, pp. 34/39 – com sublinhados nossos.

J.M.M.