domingo, 21 de fevereiro de 2021

O PADRE QUE ENSINAVA RUSSO



(Uma das edições da Livraria Cunha, de Coimbra, em 1931)

Num tempo em que a PIDE tinha como principal objectivo combater o comunismo, bem alicerçado, aliás, no discurso de Salazar, de 28 de Janeiro de 1934, em que este afirmara que o comunismo era “a grande heresia da nossa idade”, um cartaz numa montra da baixa da cidade de Coimbra, publicitando o ensino da língua russa, não podia passar despercebido.

E não passou. O informador Inácio, em relatório datado de 7 de Dezembro de 1947, comunicava à PIDE que estava afixado na montra da Livraria Cunha, desde a noite anterior, o dito aviso. Estivera ali afixado durante todo o dia, um pouco de lado, meio oculto pela porta, mas tinha a indicação da tipografia onde fora executado, segundo o informador.

Dois dias depois, o padre Manuel Augusto Rodrigues Esteves, também professor no Seminário de Coimbra e ali residente, com 35 anos de idade, responsável pelo pequeno cartaz sobre o ensino de língua russa, estava sentado na delegação da PIDE daquela cidade, perante o chefe Manuel Nogueira Branco e o agente Júlio Cunha, a responder a um Auto de Declarações.


(Revista Portuguesa de Filosofia, de 1964, sobre o Instituto de Filosofia Beato Miguel Carvalho e o seu 30º aniversário.)

O padre Manuel Esteves tinha aprendido russo quando estudava Filosofia no Instituto de Filosofia Miguel Carvalho, em Braga, e corrigido a pronúncia quando estudou Teologia em Valkenburg, Holanda, dominando igualmente o alemão. Sendo professor no Seminário, já dava aulas particulares de russo a dois alunos universitários “da sua confiança”. A sua ideia era tirar alguma vantagem económica com as aulas de russo. Assim, afixou alguns cartazes pela cidade, obviamente nas condições legais. Pedira a um seu amigo (José Lobo) para lhe tratar do assunto e, seguindo a lei, este dirigiu-se à Câmara com 12 cartazes para a respectiva fiscalização e pagamento, recomendando o padre ao seu amigo que, se lhe parecesse necessário, se dirigisse também à Polícia. Mas, como na Câmara não levantaram qualquer dificuldade, julgou que tudo estava de acordo com a lei. Afirmou também à PIDE que os cartazes tinham a indicação de “inscrições individuais severamente condicionadas ao abrigo da lei”, tendo com isso em vista, segundo o padre, o carácter severamente apolítico de tais lições particulares.

Logo apareceram interessados e o padre expressou-lhes as condições rigorosamente apolíticas de tais lições e que logo as suprimiria, caso houvesse sinais de segundas intenções por parte dos alunos.

Pedindo desculpa pelo trabalho que deu à Polícia, o padre comprometia-se a retirar os cartazes e a parar com as lições, caso não existisse confiança, por parte da Polícia, de que a sua intenção era a de que se conhecesse a cultura e as riquezas do mundo eslavo e que o comunismo estava à margem de tudo isto. Aliás, o padre afirmava que já tinha publicado na revista Brotéria, alguns artigos anti-socialistas e anti-comunistas. De resto, interessava-se unicamente pela Filosofia e pela Teologia, vivendo à margem de “ilusões políticas”, mas apreciando e respeitando o Estado e a “nossa ideologia nacional”.

Enfim, o padre Manuel Esteves defendeu-se como pôde.


(Alberto de Oliveira Vilaça)

O pior foi quando lhe perguntaram quem eram os seus alunos (e as suas moradas). A saber: Joaquim de Sousa Castro, Domingos da Costa Gomes, José Magalhães Simões Freire, Alberto Vilaça, Antero Urbano, José Albuquerque de Sousa, Eduardo Crespo Saraiva, António Afonso Amaral, Ricardo Quadrado, Mário Branco e Armando Nunes Reis. Ou seja, todos eles, nomes sobejamente conhecidos da oposição ao regime em Coimbra, nomeadamente no meio estudantil, fazendo parte ou apoiando as comissões universitárias do MUD Juvenil, naquele ano de 1947, e, pelo menos uma parte deles, perfeitamente referenciados pela PIDE e pelo informador Inácio, nomeadamente os primeiros quatro nomes atrás referidos!




(Processo de Alberto de Oliveira Vilaça, na PIDE)


(Processo de José Magalhães Simões Freire, na PIDE)

Publicado originalmente na edição em papel do Jornal Terras de Sicó

Paulo Marques da Silva


terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

AS “OITO LUAS” DE GOMES LEAL NUNCA FORAM SEPULTADAS – ANTÓNIO VALDEMAR

 


As “oito luas” de Gomes leal nunca foram sepultadas – por António Valdemar, in Expresso

Poeta de surpreendentes ruturas e inovações, exerceu influência na sua geração e projetou-se no século XX ao ser reconhecido pelos movimentos de “A Águia”, do “Orpheu”, da “Presença”, dos surrealistas e outros representantes das atuais tendências literárias

1921 foi um dos anos horríveis da república. Vivia-se num sobressalto contínuo. Multiplicavam-se as guerrilhas partidárias, as revoltas militares, as reivindicações sindicais. Lisboa concentrava o auge do tumulto que se repercutia através do país. A situação atingiu o rubro com a “noite sangrenta”, o 19 de outubro, os assassínios do primeiro-ministro, do fundador da república e outras altas personalidades civis e militares. Mercenários contratados, por adversários políticos, foram buscá-los a casa, introduzidos numa “camioneta-fantasma” para serem abatidos a tiro. A sangue frio.

O poeta Gomes Leal faleceu a 29 de janeiro. Quase todos os jornais encontravam-se em greve. Não havia as condições que permitiram, na 1ª República, os funerais apoteóticos de Cândido dos Reis, Miguel Bombarda, Sidónio Pais, Guerra Junqueiro e Teófilo Braga, os três últimos com honras de Panteão Nacional, ainda nos Jerónimos.

Gomes Leal caíra em desgraça. Pessoal, política e social. Apesar de tudo isto, prestaram-lhe homenagem o chefe de Estado, António José de Almeida, e compareceram, no cemitério do Alto de São João, Henrique Lopes de Mendonça, presidente da Academia das Ciências, outros poetas e escritores, muitos estudantes universitários. Fernando Pessoa consagrou-o em versos emblemáticos: “Seus três anéis irreversíveis são/ a desgraça, a tristeza, a solidão./ Oito luas fatais fitam no espaço. (…) Inúteis oito luas da loucura/ quando a cintura tríplice denota/ solidão e desgraça e amargura!/ Mas da noite sem fim um rastro brota,/ vestígios de maligna formosura:/ é a Lua além de Deus, álgida e ignota.”

Em maio de 1910, morrera a mãe com quem sempre vivera. Gomes Leal estava com 62 anos. Os efeitos devastadores do alcoolismo aceleraram a progressiva desagregação física e intelectual, enquanto resvalava na mais deplorável miséria. Nesta situação de angústia e desespero, Gomes Leal — o poeta com relâmpagos satânicos, mas com um cristianismo afetivo que se manifestara em “História de Jesus” (1883), um dos seus livros de maior êxito — é levado a converter-se ao catolicismo. Repetia-se a situação que Roger Martin du Gard analisou no livro “O Drama Jean Barrois”, Premio Nobel da Literatura em 1913.

A conversão de Gomes Leal transpôs o domínio da privacidade. Ficou devassada na “Carta aos Sacerdotes Christãos”. Entre outras afirmações que deram brado, avulta esta confissão perentória: “Solenemente declaro que me retrato, repilo, abjuro de todos os escritos e poemas em que se mantém matéria contrária aos ideais que atualmente professo, e que foram de escândalo para Cristo e a sua Igreja.”

Foi a 2 de agosto de 1910, no jornal católico e monárquico “A Liberdade”, órgão do Partido Nacionalista que relatou a conversão de Gomes Leal. Pouco antes Gomes Leal mantivera uma coluna de opinião n’ “O Mundo”, a tribuna oficial do Partido Republicano. A 5 de outubro implantou-se o regime que tivera nele um dos mais inflamados propagandistas, mas que, na hora da vitória, o encontrou no outro lado da barricada


MEMÓRIA NA CIDADE

Numa época de exacerbado anticlericalismo, a conversão de Gomes Leal e o seu aproveitamento deram lugar a muitas especulações e afastaram-no de antigos correligionários. Pouco depois também era abandonado por católicos e monárquicos. Ficou só. Pobre, desamparado, sapatos rotos, calças esburacadas, fato velho e cheio de nódoas. Assobiado e apedrejado nas ruas, pelos garotos e pelos vadios, sem ter onde comer e dormir, passava as noites nos bancos do Rossio e da Avenida.

Transformara-se na imagem que visionara, em 1880, em ‘Fome de Camões’ ao reconstituir os passos do poeta, a caminhar “altas horas, ao frio das nortadas,/ é Camões que de fome se definha/ nas ruas de Lisboa abandonadas.” (…) “Triste, velho, sem-abrigo,/ faminto, abandonado e vagabundo,/ tenta esmolar também pelas esquinas.” (…) “A mão recusa-se a suster o passo/ a fome roí-o, curva-o o cansaço./ Cospem-lhe a neve, a chuva os aguaceiros./ Ó calçadas fatais! nas enxurradas/ vai muito fel de lágrimas choradas.”

Perante o farrapo humano e intelectual a que Gomes Leal chegara, Teixeira de Pascoaes ofereceu-lhe a sua casa em Amarante. Não quis sair de Lisboa. Jaime Cortesão, ao tempo deputado, fez um apelo veemente ao Parlamento para que lhe pagassem uma pensão de sobrevivência. Graças à solidariedade de um dos poucos amigos, o deputado socialista Ladislau Batalha, foi recolhido em sua casa onde viria a falecer. Fez na semana passada cem anos.

A memória de Gomes Leal revive em Lisboa, numa rua da cidade, num pequeno jardim e ainda num monumento no cemitério do Alto de São João, logo à entrada, no centro da alameda principal. Inaugurado em dezembro de 1925 ficou a dever-se ao poeta Alfredo Guisado, quando pertencia à Câmara de Lisboa, à última vereação da 1ª República. Em vez do retrato físico de Gomes Leal o escultor Francisco dos Santos (1878-1930), um dos autores do busto da República e da estátua do Marques de Pombal, optou pela figuração simbólica. Incorporou Gomes Leal na representação mitológica de “Orpheu”.

AS DUAS FACES

Nas últimas décadas do século XIX, Gomes Leal arrebatou Lisboa — e Lisboa era o país — com torrentes de sátira feroz e de harmonias líricas. Em 1872, a revista “Espectro de Juvenal”, que fundou com Magalhães Lima, incluía no estatuto editorial: “Juvenal é para nós o símbolo da consciência indignada. Nós somos a indignação. Nós somos incorrigíveis.” Esta declaração programática — que se acentuará em publicações de audiência diária como, por exemplo, o jornal “O Século” — vai marcar toda uma trajetória.

Desafiou o poder e os poderosos em situações pontuais com protestos incendiários que o levaram aos tribunais e às prisões. Batia-se por causas políticas e objetivos sociais. O escândalo suscitado pelo Tratado com a Inglaterra para a venda de Moçambique foi um dos momentos retumbantes de intervenção pública, no poema ‘A Traição — Autópsia de um Rei’. Não poupou o rei D. Luís, nem os ministros envolvidos neste processo.

O mesmo sucedeu ao interpelar o jornalista António Rodrigues Sampaio que, ao ascender a membro do Governo e a primeiro-ministro, era acusado de perseguir a imprensa, esquecendo o seu passado revolucionário: “Eis-me, em frente de ti velho urso na caverna (…) perguntando-te, ó Velho — onde está o Direito?/ o que fizeste ao Povo, á Consciência ao Brio?/ Onde está o pudor, rude ancião sombrio?/ Quem és? Quem és? Quem és — velho cheio de fel?/ Onde está, ó Caim o teu irmão Abel?/Quem és? Quem és? Ó Gloria! Ó nome hoje aviltado!/ Tu foste a alma do povo, hoje um renegado.”

Mas Gomes Leal teve, desde sempre, a consciência da precariedade destas intervenções, ao advertir “um panfletário é uma bexiga inchada/ de cólera, de fel, de inveja e dinamite/ que um dia explodirá assim que o fogo excite/ fazendo rebentar o mundo em estilhaços”.

A amplitude do seu génio literário — ele próprio o sabia — não se limitava à cólera dos panfletos, à ferocidade de gargalhadas nas implacáveis anotações do quotidiano. Tem outra face, num outro universo que construiu em vários ciclos e que mergulha nas vulnerabilidades da natureza humana. Atingiu em ‘Mulher de Luto’ e ‘Serenadas de Hilario no Céu’ a interioridade dos prantos sem resposta, que se deparam nas redondilhas de Camões, ‘Sobolos Rios’; em ‘Elegia do Amor’, de Teixeira de Pascoaes; e na invocação à ‘Noite’, de Álvaro de Campos.


REIVINDICAÇÃO GEOGRÁFICA

Uma das referências da obra de Gomes Leal situa-se em 1875 ao publicar “Claridades do Sul”. Coincidiu com a versão definitiva de “Odes Modernas”, de Antero de Quental, e a primeira versão de “O Crime do Padre Amaro”, de Eça de Queiroz. Gomes Leal tinha 27 anos e logo se afirmou um dos maiores poetas, em face dos seus contemporâneos. Teve uma celebridade precoce.

A grande viragem na poesia verificara-se com Antero, a partir de 1864, em “Odes Modernas”. Introduzia uma nova linguagem que se afastava das confissões ultrarromânticas, dos madrigais empolgantes, dos sentimentalismos bucólicos, para integrar a poesia nos ideais humanitários da revolução, no projeto do socialismo e na campanha para instaurar o Partido Republicano.

O aprofundamento literário, filosófico político e social vai desenvolver-se, na polémica “Bom Senso e Bom Gosto”, liderada por Antero contra António Feliciano de Castilho e seus epígonos. Acompanhou Gomes Leal este movimento e o debate ideológico desencadeado com a realização, em 1871, das Conferências do Casino.

Obra de inovação e de rutura, “Claridades do Sul” assinala, no próprio título, uma reivindicação geográfica, em face dos outros centros literários: de Coimbra das centenárias tradições culturais repartidas entre a Universidade e o Mondego; das névoas e brumas do Porto e de outros locais do norte, por vezes, em intercâmbio com a Galiza.

Lisboa, muito antes de Orpheu (1915), além de capital política, desde tempos remotos, possui vida cultural autónoma. Estabelece a transição com áreas de forte significação cultural: o Sado e a Arrábida, definidos na geografia de Orlando Ribeiro e reintegrados na literatura por Frei Agostinho da Cruz, de Sebastião da Gama e João Bénard da Costa; a planície do Alentejo, que revive nas obras de Ficalho, de Brito Camacho e de Manuel da Fonseca; e o Algarve, da serra e do litoral, entre o Atlântico e o Mediterrâneo, recriado por Teixeira Gomes, João Lúcio e Ramos Rosa.

Num poema sobre Lisboa, Gomes Leal exalta a luz, a cor, os aromas, a singularidade das colinas e a configuração dos bairros, enquanto se detém nos anacronismos e contrastes das populações: “A cidade é beata: e às lúcidas estrelas,/ o vício à noite, sai aos becos e às ruelas,/ sorrindo, a perseguir burgueses e estrangeiros.../ E à fosca e dúbia luz dos baços candeeiros,/ — em bairros imorais, onde se dão facadas —/ rola, às vezes, o vinho e o sangue nas calçadas.”(…) “As mulheres são gentis. — Umas frágeis, morenas,/ graves, sentimentais, amigas de novenas,/ ébrias de devoções, releem as suas Horas./ — Outras fortes, viris, os olhos cor de amoras,/ os lábios sensuais, cabelos bons, compridos,/ às vezes, por enfado, enganam os maridos!” (…)

Prossegue a dissecação dos hábitos, superstições e outros comportamentos inveterados que marcam a rotina. É implacável ao denunciar (tese de Antero) os fatores de atraso e mediocridade que, há séculos, contribuíram para a decadência social e cultural não só da cidade, mas do próprio país: “No entanto, a sua vida, é quase intermitente./ Chafurda na inação, feliz, gorda, contente./ E, eclipsando as ações dos seus navegadores,/ abrilhanta a batota e as casas de penhores./ Faz guerra à arte, à Ação, ao Ideal… e, ao cabo,/ — é talvez a melhor amiga do Diabo!”


PROJEÇÃO E ATUALIDADE

Poesia de largo fôlego — onde tudo é sempre levado aos extremos — deixou dezenas de livros e folhetos, recentemente publicados em edições críticas da Assírio & Alvim. Exerceu influência na sua geração e nas gerações seguintes: Cesário Verde e Camilo Pessanha. Abriu caminho à poesia do século XX: aos poetas da Águia e da Renascença Portuguesa, Teixeira de Pascoaes, Augusto Casimiro, Jaime Cortesão e Afonso Duarte não hesitou até em considerá-lo “o maior poeta português de todos os tempos”.

Louvado pelos poetas do “Orpheu”: Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Alfredo Guisado, Luís de Montalvor e Raul Leal, alguns dos quais o reconheceram como mestre. Teve a maior audiência no grupo e na geração da “Presença”: José Régio, António de Sousa, Edmundo de Bettencourt e Vitorino Nemésio que o biografou e antologiou. Os surrealistas Mário Cesariny, Natália Correia e Alexandre O’Neill, e outros representantes das atuais tendências literárias identificaram-se com as explosões de quimeras, de acasos, desvarios, sarcasmos e soluços de Gomes Leal.

Apesar de todas as adversidades nunca foi ignorado, nem esquecido. As “oito luas” de Gomes Leal nunca foram sepultadas. Se perdeu a relação imediata com o grande público que só se entusiasma com incursões pontuais, Gomes Leal também construiu um outro universo apenas com fronteiras na própria poesia. A posteridade reencontrou-o sempre nesse território intemporal, que encerra o que há de mais íntimo e mais secreto, dentro de todos nós.

As “oito luas” de Gomes leal nunca foram sepultadas – por António Valdemar [jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], in E revista do Expresso, 5 de fevereiro de 2021, p.58-59 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

A VIOLAÇÃO DE CORRESPONDÊNCIA PELA PIDE - EPISÓDIO

Fig. 1 - Miguel Urbano Rodrigues (1925-2017)

Volto ao processo da PIDE de Fernando Namora, mais cedo do que previsto, com um único intuito: homenagear Isabel Freitas, que nos últimos anos dirigiu a Casa Museu Fernando Namora, em Condeixa. Isabel Freitas deixou-me gravado na minha memória o seu sorriso aberto e franco e a sua simpatia permanente, nos vários contactos que tivemos nos últimos anos, em especial, a partir da preparação do centenário de Fernando Namora. Partiu cedo demais para a viagem que todos havemos de fazer. 

No processo de Fernando Namora saliento que, logo após os recortes e as cópias de jornais, os documentos que ali surgem em maior quantidade são as cartas interceptadas pela PIDE.

A intercepção postal estava integrada no sector da Informação da PIDE, conjuntamente com a escuta telefónica, os ficheiros, a vigilância directa e os informadores, tendo sido aquela, como sabemos, uma prática largamente utilizada.

Durante algum tempo, os CTT colaboraram com a PIDE na violação da correspondência, recorrendo a alguns dos seus funcionários, denominados os “catadores” ou “farejadores”. Na posse de listas de moradas dos suspeitos, fornecidas pela Polícia, os carteiros separavam a correspondência, que depois era remetida para a PIDE.

Posteriormente, segundo a historiadora Irene Pimentel, devido a queixas sobre desvio de dinheiro de emigrantes, entre outras situações, a tarefa dos “catadores” ou “farejadores” terminou. A PIDE passou a tratar directamente desse serviço recorrendo a agentes seus, na Estação Central dos Correios, no Terreiro do Paço.

Este processo decorria de forma simples: a correspondência suspeita era aberta, lida, fotocopiada e colocada de novo no envelope, que era fechado e devolvido aos CTT, seguindo depois o seu caminho. Outras vezes, o original era interceptado e o destinatário nunca o recebia. Os elementos recolhidos eram depois analisados, sendo a carta posteriormente arquivada no processo do visado.

Ora, a partir de certa altura, os homens ligados à oposição com problemas com o regime, sabiam que a sua correspondência era vigiada e tentavam minimizar o problema, quer não mencionando nelas nada que não se quisesse que a PIDE soubesse, quer utilizando outras estratégias. Vamos verificar um desses subterfúgios, através de um exemplo de uma carta escrita por Miguel Urbano Tavares Rodrigues a Fernando Namora, a partir de S. Paulo, no Brasil, em 17 de Fevereiro de 1968.

Fig.2 - Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013) e Maria Judite de Carvalho (1921-1998)

Miguel encontrava-se exilado no Brasil e o seu irmão, Urbano Tavares Rodrigues, estava preso há cerca de um mês, aqui em Portugal. E, na verdade, esta carta de Miguel dirigia-se à sua cunhada, a mulher de Urbano, Maria Judith. Mas, como Miguel sabia que a correspondência da cunhada estava a ser vigiada, endereçou a carta para Fernando Namora, pedindo-lhe depois que este entregasse a carta e documentação anexa à mulher de Urbano, explicando-se na carta:

“Para escrever a minha cunhada tenho de recorrer de cada vez a um amigo, pois a correspondência que lhe é endereçada está sob vigilância”.

No final da carta, Miguel Urbano indicava, numa nota manuscrita em post scriptum, na margem esquerda, a forma como devia ser contactado no Brasil, caso Namora assim o entendesse, explicando:

“Para me escrever peça um endereço à minha cunhada. Em meu nome não convém fazê-lo”.

 

Fig. 3 - Fernando Namora (1919-1989)

Em suma, o processo era mais ou menos o mesmo. Endereçar a carta para uma morada de alguém conhecido que, supostamente, não estivesse debaixo do olhar das autoridades, e que depois fizesse chegar a carta ao verdadeiro destinatário. O que se tornava necessário era acertar neste critério de análise. E, neste caso concreto, Miguel não acertou, pois a correspondência de Namora também era vigiada, como podemos verificar pela elevada quantidade de cartas existentes no seu processo. E, esta carta a que nos referimos, é mais uma dessas que ficou fotocopiada nos arquivos da PIDE, onde, muitos anos depois, a fomos encontrar.

Publicado originalmente na edição em papel do Jornal Terras de Sicó

Paulo Marques da Silva

domingo, 10 de janeiro de 2021

LUIS ESPINHA DA SILVEIRA (1954-2021) - IN MEMORIAM


Luís Espinha da Silveira nasceu em Lisboa em 14 de Dezembro de 1954.

Professor Associado com Agregação de História, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa e investigador do Instituto de História Contemporânea. Fundador do Instituto de História Contemporânea, defendeu a sua dissertação de doutoramento em 1988 subordinada ao tema Revolução Liberal e Propriedade: a venda dos bens nacionais no distrito de Évora (1834-1852).

Os trabalhos e o currículo podem ser consultados AQUI.

Desta vez porém, porque os testemunhos pessoais também são importantes para se conhecer melhor as pessoas, deixamos o apontamento que Leonardo Aboim Pires, deixou no seu mural do Facebook, cuja disponibilidade agradecemos:

LUÍS ESPINHA DA SILVEIRA (1954-2021)
Foi hoje que recebemos a triste notícia do falecimento do Prof. Luís Nuno Espinha da Silveira.
Tive o privilégio de ter sido seu aluno na licenciatura em História e no mestrado em História Contemporânea. Originalidade e rigor, quanto a mim, serão as duas palavras que melhor o definem como historiador.
A sua forma de lecionar recordo-a em dois momentos particulares. O primeiro foi na opção livre de investigação «Territórios e Sociedades», onde também se encontravam os professores
Daniel Alves
e
Paulo Fernandes
, em que nos demonstrou a importância da leitura e compreensão das mudanças na paisagem. Como exemplo, escolheu a cidade de Lisboa e o espanto foi geral ao mostrar fotos da zona de Monsanto antes e depois da florestação.... Outro deles ocorreu numa aula de História de Portugal Contemporâneo (século XIX) em que, com base na toponímia das Avenidas Novas, explicou grande parte da história política oitocentista. O entusiasmo foi, igualmente, notório.
A importância que dava à literatura e à música como espelho da sociedade portuguesa do liberalismo também marcava. Ramalho Ortigão ou Domingos Bomtempo entravam assim na sala de aula.
O seu percurso de investigador esteve norteado por temas que a historiografia teimava em deixar para trás. Uma primeira fase ficou marcada pelo seu interesse na problemática da história agrária em Portugal no século XIX, com especial incidência na questão dos agentes sociais envolvidos no processo de desamortização. Esse tema seria desenvolvido na sua tese de doutoramento «Revolução Liberal e Propriedade: a venda dos bens nacionais no distrito de Évora (1834-1852)», defendida em 1988, além de vários artigos.
Posteriormente, temas como a construção do Estado liberal, as relações entre o território e o poder, as elites e os poderes locais e o municipalismo foram estruturantes, de que também resultaram várias teses de mestrado e doutoramento sobre estas questões. O livro «Território e Poder. Nas Origens do Estado Contemporâneo em Portugal» (1997), ainda hoje uma referência, congregou muita dessa investigação.
O seu pioneirismo ficou demonstrado no trabalho desenvolvido sobre as potencialidades da informática aplicada à investigação histórica e, em particular, a aplicação dos sistemas de informação geográfica (SIG), de que os projetos Atlas - Cartografia Histórica (http://atlas.fcsh.unl.pt/) e Memórias Paroquiais de 1758 (http://www.fcsh.unl.pt/memorias/) são alguns exemplos entre vários.
Recentemente, a história ambiental também estava presente nas suas preocupações científicas. Sendo este um dos temas também do meu interesse, quando lhe referi isso numa aula de mestrado, prontamente disse: «Não me diga que também quer estudar gafanhotos?». Uma pergunta que tanto demonstrou um certo espanto como uma notória e genuína recetividade a quem quisesse estudar tais temas. Curiosamente, mais tarde, acabei mesmo por estudar gafanhotos com a
Ana Isabel Queiroz
.
De referir ainda que foi investigador fundador do
Instituto de História Contemporânea
, em 1990.
Aqui fica a minha modesta e sincera homenagem a um professor que com os seus estudos científicos, o seu exemplo como docente, o particular cuidado e exigência com que nos guiava os trabalhos, permanecerá na memória da
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - NOVA FCSH
e da historiografia portuguesa.
Leonardo Aboim Pires

O Professor Luís Espinha da Silveira faleceu hoje, 10 de Janeiro de 2021.

Fica a obra que publicou, os projectos que desenvolveu, os trabalhos que acompanhou orientando mestrando e doutorandos ao longo do tempo.

As condolências à família, aos amigos e aos colegas que com ele compartilharam trabalhos e conhecimentos.

A.A.B.M.

sábado, 9 de janeiro de 2021

O PÃO DE CADA DIA

Paulo Silva remeteu-nos mais um artigo sobre a questão da Censura, neste caso envolvendo a Diocese de Coimbra e o Bispo de Coimbra, em 1969, D. Francisco Rendeiro. Agradecendo ao autor a divulgação deste pequeno apontamento, inicialmente publicado na edição impressa do Jornal Terras de Sicó, para se perceber as movimentações que iam acontecendo e os critérios que utilizavam os censores perante situações mais ou menos semelhantes. Curioso este episódio, com alerta do bispo para uma situação que lhe merecia uma reflexão critica e as medidas que os censores utilizaram em Coimbra, já na fase do chamado marcelismo. Para ler abaixo:


D. Francisco Rendeiro (15.12.1915 +19.5.1971)

No dia 29 de Março de 1969, o jornal Correio de Coimbra publicava, numa rúbrica intitulada A Palavra ao Pastor, um artigo do bispo de Coimbra, Francisco Rendeiro, com o título "O pão de cada dia". O texto versava o problema da fome, mas não só da comida propriamente dita. Era a questão da privação, da ausência, utilizando o pão como metáfora. Reflectia igualmente a problemática da sua repartição. Vejamos um excerto do texto:

O pão de cada dia é necessidade que volta a sentir-se poucas horas depois de satisfeita; e como não está à mão de quem precisa, é mira dos trabalhos e preocupações, ao menos de noventa e nove por cento da humanidade. O formigueiro humano que, logo de manhã, sai de casa, para o campo, para a oficina, para o escritório e até para a escola, busca o pão.

[…] O pão de cada dia é o padrão de desenvolvimento da humanidade. Ouvimos dizer que nalgumas partes, por maldade dos homens, morrem de fome aos milhares, crianças e adultos. Há fome nas regiões desoladas pela guerra; e para além destas, também há fome em dois terços da superfície da terra.

Não é só de pão de trigo que há fome; há fome de instrução, de cultura, de convivência, de amor.

O pão de cada dia é também o símbolo mentiroso que encobre a ambição daqueles que o buscam para além das legítimas necessidades; são os ganhos desmedidos, são os lucros ilícitos, é a exploração dos fracos, é o tremendo problema da distribuição das riquezas.

O texto é mais longo. Mas é onde termina esta transcrição que está o cerne do problema que viria a eclodir: é que a Censura cortou esta última frase ao texto do bispo.

Valentim Marques (6-03-1937 + 5-06-2015) 

Esta situação gerou a indignação nos responsáveis da Gráfica de Coimbra, e o padre Valentim Marques (1937-2015) entendia que tal corte era inadmissível. O caso chegará ao conhecimento da PIDE, em Coimbra que, por sua vez, fará chegar a informação à sua sede, em Lisboa, através do inspector da delegação, Leite de Faria, nestes termos:

"Junto tenho a honra de remeter a V. Ex.ª a fotocópia da prova tipográfica do artigo intitulado “O PÃO DE CADA DIA”, continuação de outros já publicados no órgão da Diocese “CORREIO DE COIMBRA”, da autoria do Bispo de Coimbra D. FRANCISCO RENDEIRO, no qual os Serviços de Censura eliminaram a expressão “é tremendo o problema da distribuição das riquezas”, que em nada prejudicava o seu contexto.

O facto provocou forte reprovação dos responsáveis da Gráfica de Coimbra, encarregada da impressão do jornal, nomeadamente o Padre VALENTIM MARQUES, vincadamente manifestada na anotação por ele feita à margem: “ISTO É MISERÁVEL! Trata-se de um documento Pastoral, com que a censura nada tem a ver!”.

Como se verifica, até a PIDE achou despropositado o corte efectuado pela Censura

Já muito se escreveu sobre os critérios (ou a sua ausência) utilizados pelos censores.

Como referiu José Cardoso Pires, tal como os próprios escritores, também os censores praticavam a auto-censura, cortando por uma questão de precaução, para não deixar passar algo que a sua hierarquia considerasse depois ser perigoso e, por isso, riscavam quando farejavam a mais longínqua insinuação comprometedora.

No caso concreto, julgo que o teor do texto é bastante sugestivo e creio mesmo que, se não fosse um bispo a escrevê-lo, mas sim um jornalista, por exemplo, todo o texto poderia ter sido cortado. Visto por esta perspectiva, o censor em questão até terá sido benevolente no corte. Afinal, tratava-se do bispo de Coimbra! No entanto, aquele preciosismo na frase em questão terá custado ao censor algum “amargo de boca” posterior. Será?


(O artigo do Correio de Coimbra, 29-03-1969)

Paulo Silva

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

VOTOS DE UM 2021 DE ESPERANÇA E FRATERNIDADE

 


“Vamos; sacudi-vos; reanimai-vos; espertai esse sangue; abri essa alma; bebei o ar divino; vivei! Não vos arreceeis do futuro; e, por elle, tende confiança em vós, que, de anões que sois, vos tornareis gigantes […] Levantai ferro; ao largo; ao largo …” [Sampaio (Bruno), A Geração Nova, p. 358]

Aos estimados leitores, companheiros & amigos destas viagens de encantos & desencantos vários,  deste itinerário e fragmentos da Grande Alma Republicana, aceitai os nossos VOTOS de um Ano de 2021 de Esperança e Fraternidade.

Saúde e Fraternidade

Vale!

José Manuel Martins | Artur Barracosa Mendonça

HISTORIOGRAFIA CONTEMPORÂNEA PORTUGUESA DE 2020 – A NOSSA ESCOLHA

 

HISTORIOGRAFIA CONTEMPORÂNEA PORTUGUESA DE 2020

1. 1820: revolução liberal do Porto - José Manuel Lopes Cordeiro (Câmara Municipal do Porto), Porto, 2020, 497 p.

2. No Bicentenário da Revolução Liberal (vol. 1). Da Revolução à Constituição, 1820-1822Vital Moreira e José Domingues (Porto Editora), 272 p. | No Bicentenário da Revolução Liberal (vol.2). Os 40 dias que mudaram PortugalVital Moreira e José Domingues (Porto Editora), 336 p.

3. Memórias da Regeneração de 24 de Agosto de 1820José Liberato Freire de Carvalho e José Ferreira Borges (Editorial Moura Pinto), 85 p. | João de Deus. Imortal e IntemporalMaria João Raminhos Duarte (Edições Colibri/Câm.Mun. Silves), 526 p.

4. “Há Constituição em Coimbra”. No Bicentenário da Revolução LiberalVital Moreira e José Domingues (C. M. Coimbra), 222 p. | Escritos Políticos e Discursos Parlamentares (1820-1822)Manuel Fernandes Tomás (ed. José Luís Cardoso) (Impr. de Ciências Sociais), 538 p. | Manuel Fernandes Tomás. Ensaio Histórico-Biográfico (reed.)José Luís Cardoso (Almedina), 146 p.

5. História Global de PortugalCarlos Fiolhais, José Eduardo Franco e José Pedro Paiva (Temas e Debates), 664 p. | HolocaustoIrene Flunser Pimentel (Temas e Debates), 592 p.

6. Sob o signo da revolução de 1820: economia e sociedadeMiriam Halpern Pereira (Assembleia da República), 217 p. | 1820. O Liberalismo em PortugalRui Albuquerque (Alêtheia Editora), 332 p. | Portugal Pós-Liberal. Um ensaio de História do PresenteJosé Adelino Maltez (Âncora Editora), 742 p

7. Revista do Grémio Lusitano (n.º 21). Maçonaria e Liberalismo – AAVV (dir. António Lopes), Grémio Lusitano, 86 | Revista de Maçonaria (nº1) - AAVV (dir. Fernando Marques da Costa), 292 p.

8. Um Século(Com)Deixas. Liberdade e Bons CostumesAires B. Henriques (C.M. Condeixa), 220 p. | De quase nada a quase rei. Biografia de Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de PombalPedro Sena-Lino (Contraponto Editores), 624 p.

9. Guerra Peninsular. Notas, episódios e Extratos Curiosos (reed.)Francisco Augusto Martins de Carvalho (GAAC) | Cartas sobre a Framaçoneria (reed.) – [Hipólito José da Costa Furtado de Mendonça] (Editorial Moura Pinto), 129 p.

10. A luta pela liberdade: Joaquim José Queiróz: da revolução de 1820 à de 1828Senos da Fonseca (Aveiro), 62 p. | Casimiro Freire. O Republicanismo e a Instrução PopularJoaquim Pintassilgo e M. Isabel Freire Ferreira (Colibri), 236 p. | Paredes e a Primeira RepúblicaIvo Rafael Silva (C. M. Paredes), 423 p.

A.A.B.M.
J.M.M.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

“HÁ CONSTITUIÇÃO EM COIMBRA”. NO BICENTENÁRIO DA REVOLUÇÃO LIBERAL

 


LIVRO: “Há Constituição em Coimbra”. No Bicentenário da Revolução Liberal;
AUTOR: Vital Moreira e José Domingues;
EDIÇÃO: Câmara Municipal de Coimbra, Dezembro 2020, 222 p.

“Habitantes de Coimbra […], a Pátria agradecida vos / dará uma recompensa digna de vós, transmitindo à posteridade, / nas páginas da história, os memoráveis feitos do vosso honrado / patriotismo, para servirem de estímulo a vossos netos e os / fazerem dignos de tão rico património de glória e de virtude».

 (Proclamação da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino, Paço do Governo em Coimbra, 17 de setembro de 1820

1. Este ano de 2020 evoca-se em Portugal o bicentenário da Revolução Liberal, iniciada no dia 24 de agosto de 1820, na cidade do Porto. Coimbra desempenhou um papel fulcral no sucesso do movimento revolucionário vintista, chegando a ser a sede da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino durante alguns dias, a caminho da entrada triunfal na capital no dia 1 de outubro de 1820.

A Câmara Municipal de Coimbra foi das primeiras a manifestar a sua adesão à causa da Revolução e a prestar juramento de fidelidade e apoio à referida Junta Provisional do Governo e às futuras Cortes Constituintes, logo após a entrada das forças liberais na cidade em finais de agosto (primeiro, o coronel Silveira, vindo de Leiria, tendo ficado aquartelado no mosteiro de Santa Cruz, e logo depois o coronel Sepúlveda, vindo do Porto, tendo ficado aquartelado no Paço da Universidade).

Posteriormente, no rescaldo da Martinhada (11 de novembro), regozijando- se com a derrota dos golpistas, a Academia coimbrã organizou um “outeiro” ou sarau poético na Sala dos Capelos da Universidade e a cidade decretou três dias de luminárias. Frei Francisco de São Luís (futuro cardeal Saraiva), professor em Coimbra e membro da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino (em “representação da Universidade”), deixou escrito um testemunho de penhorado agradecimento à cidade e à Academia, da qual fazia parte.

Em dezembro de 1820, as eleições das Cortes Constituintes em Coimbra ficaram particularmente marcadas pelo combate travado pelos estudantes da Universidade contra o Senado Municipal, para que fossem admitidos a votar nas juntas eleitorais das respetivas paróquias e assim participarem na escolha da representação nacional, que iria aprovar a Constituição para o País.

2. O objetivo deste livro consiste em apurar qual foi, há precisamente dois séculos, o papel de Coimbra no triunfo da Revolução Liberal nesse ano de 1820 – desde a chegada da primeira notícia da sublevação da cidade do Porto até à eleição dos deputados constituintes.

Os três primeiros capítulos do livro são dedicados a cada um dos três referidos momentos do compromisso de Coimbra com a Revolução: a pronta adesão à causa revolucionária, a manifestação contra a Martinhada e as eleições constituintes. O quarto capítulo apresenta as personalidades e instituições que sobressaíram no alinhamento de Coimbra com a Revolução, desde Almeida Garrett à Universidade e à Academia de Coimbra, assim como os seus opositores.

Um nutrido anexo documental, incluindo vários documentos inéditos, fundamenta e ajuda a compreender esse movimentado período da história de Coimbra, nos quatro meses que vão desde a entrada das tropas liberais no fim de agosto de 1820 até às eleições dos deputados às Cortes Constituintes, no final de dezembro desse ano.

O título do livro, “Há Constituição em Coimbra”, é retirado de um documento de 2 de setembro de 1820 (cf. os documentos anexos n.º 15 e n.º 16), em que um partidário do Antigo Regime comunica “em código” a Lisboa a adesão de Coimbra à Revolução Liberal, identificando esta com o seu principal objetivo - a Constituição […]”

in Apresentação, pp. 7-8 – sublinhados nossos

J.M.M.

sábado, 26 de dezembro de 2020

CARTAS SOBRE A FRAMAÇONERIA - HIPÓLITO JOSÉ DA COSTA

 


LIVRO: Cartas sobre a Framaçoneria;
AUTOR: s. n. [Hipólito José da Costa] | Prefácio: Manuel Pinto dos Santos;
[RE]EDIÇÃO: Editorial Moura Pinto, Dezembro 2020, 129 p. [1ª ed. ou 2.ª ed. 1805]

Trata-se de uma nova edição, do raríssimo e valioso opúsculo publicado anonimamente por Hipólito José da Costa Furtado de Mendonça (1774-1823) ou o Irmão Aristides. Nascido (ou registrado) na Colónia do Sacramento (território integrado no domínio da Coroa portuguesa, hoje pertencente ao Uruguai), Hipólito J. da Costa formou-se em Coimbra (1798) em Leis e Filosofia, foi iniciado na maçonaria em Filadélfia (Loja Washington nº 59, em 1799), viveu 18 anos na Inglaterra depois de ter fugido (1805) dos cárceres da Inquisição por ser acusado (1802) de pedreiro-livre, foi diretor do Correio Braziliense e jornalista temido pela regência portuguesa, tendo desempenhado valiosos serviços à maçonaria lusa (entre os quais o pedido de autorização à Grande Loja de Inglaterra da filiação das lojas portuguesas, isto em 1802). Amigo e protegido pelo Duque de Sussex (filho do rei George III), obtém a nacionalidade inglesa (ou obteve-a sem contudo deixar a nacionalidade portuguesa), integra a Loja Antiquity (Londres, 1808), foi 1.º Experto da Grande Loja da Inglaterra, fundou a curiosa e importante Loja Luzitânia (Londres, 1812), integrada por ilustres exilados portugueses em Inglaterra, e deixou inúmeros trabalhos, entre os quais estas Cartas sobre a Framaçoneria, rara peça da bibliografia maçónica portuguesa. Esta bela, interessante e estimada reedição é comemorativa do aniversário de uma Loja maçónica a Oriente de Coimbra, concretizando “um projecto antigo: a reedição de um dos textos primordiais e emblemáticos sobre a Maçonaria, publicados em português” e está ornamentada por um prefácio de muito merecimento e apreço da pena de Manuel Pinto dos Santos, que já em 2014 nos tinha prendado com o curioso opúsculo “Hipólito José da Costa. Uma Vida dedicada à Maçonaria”, Grémio Lusitano, 68 p.   

  As Cartas sobre a Framaçoneria, ou melhor dito à francesa da Franco-maçonaria, é o título – ao que se saiba - da primeira publicação em defesa da maçonaria publicada nos inícios do século XIX, sendo uma das obras mais inovadoras do universo da maçonaria no século XIX, pelo seu aspeto pedagógico e objetividade, pouco apologética da organização, embora aponte a defesa dos respetivos princípios […]

Foram feitas várias edições da obra em língua portuguesa, sendo conhecidas as seguintes:


1. Cartas sobre a Framaçoneria. Segunda edicção feita sobre o original de Amsterdam, e augmentada com duas cartas escriptas em 1778 sobre o mesmo assumpto, Madrid, 1805, 132 páginas.

2. Cartas sobre a Framaçoneria, Segunda edicçaõ feita sobre a original de Amsterdam e augmentada com duas cartas escriptas em 1778 sobre o mesmo assumpto. Londres, Impresso por W. Lewis, Paternoster-Row, 1809, 132 páginas.

3. Cartas sobre a Framaçoneria. Segunda edição, Feita sobre a original de Amsterdam, augmentada com duas cartas escriptas em 1778 sobre o mesmo assumpto, e correcta. Paris: Na Officina de A. Bobée, 1821, 162 páginas.

Esta edição chegou a ter publicidade no Diário do Governo, Suplemento nº 13, de 06.03.1822, onde se referia o preço – 600 réis, informando-se que as Cartas sobre a Fra-maçonaria “provam com evidência que ela em nada é contrária à Religião e aos Governos”.

4. Cartas sobre a framaçonaria seguida de vários adiantamentos e de uma notícia de algumas violências praticadas conta os Framações. Ed. feita sobre a original de Amsterdam, correcta e seguida de varios aditamentos. Rio de Janeiro; Seignot-Plancher e Ca., 1833; [4], 204 p.

5. Cartas sobre a Maçonaria, in Boletim Oficial do Grande Oriente Lusitano Unido Supremo Conselho da Maçonaria Portuguesa, nº […]

6. Cartas sobre a Framaçonaria, in João Nery Guimarães, Obras Maçônicas de Hipólito José da Costa. Homenagem ao Segundo Centenário de sua iniciação. Publicação do Grande Oriente do Brasil, nº 004, Poder Central. Brasília, D.F., Brasil, 2000. A edição brasileira publica a edição de Madrid, 1805, na antologia das obras de Hipólito. 

Apesar das três primeiras edições aqui mencionadas especificarem que são “segunda edição”, não há qualquer dúvida de que as referências à edição, ao local e ao ano são ficcionadas.

Nunca existiu - ao que se saiba - a primeira edição que deveria ter sido impressa em Amsterdão em 1803 segundo a nota do editor contido na edição de 1805; a segunda edição que vem referida nos títulos das obras “impressas” em Madrid, 1805, e Londres, 1809, são afinal a primeira edição, porque ambas as datas são na realidade de 1809, e o local é exatamente a mesmíssima cidade de Londres, acrescendo a isto que o impressor – W. Lewis - é o mesmo em ambas as ditas edições de 1805 e 1809, as quais apresentam idêntico número de páginas, o mesmo tipo de letra e um alinhamento integralmente igual. Há que acrescentar que só a partir de 1809 é que se começa a ouvir falar destas Cartas.

Deste modo e segundo a perspetiva do trabalho tipográfico e impressão, tudo indica que a primeira edição data de 1809, feita em Londres, na oficina de W. Lewis; a segunda edição viria a lume em 1821 feita em Paris: Na Officina de impressão de A. Bobée, possuindo mais trinta páginas, mas é a reprodução ipsis verbis das edições anteriores, em tipo de letra maior o que justificou o aumento do número de páginas.

A razão deste estranho e confuso procedimento quanto às datas presume-se que seja devido a uma forma de tentar enganar as autoridades censórias existentes em Portugal, uma vez que colocando na primeira página “segunda edição” calculava-se que a primeira já tinha circulado com o consentimento da censura […]

A sequência das cartas em número de vinte obedece a um critério discursivo que está plasmado na sua disposição interna. Contudo, apesar das cartas estarem datadas, um leitor atento observará que a Carta I data de 10 de abril de 1802 e a Carta XX – que o autor considera a de conclusão sobre a matéria - de 30 de abril do mesmo ano, ou seja, a totalidade das cartas teria sido produzida durante um mês, com uma periodicidade de dia e meio aproximadamente. No entanto, três das cartas têm a data de 4, 6, 10 e 28 de maio, precisamente as cartas 13, 14, 16 e 19, o que remete para a sua redação ao longo de dois meses. Para complicar ainda mais esta matéria da cronologia epistolar, em quatro dias -22, 24, 26 e 28 de abril - são escritas duas cartas, respetivamente as 7 e 12, 8 e 17, 9 e 15 e 10 e 19.

Refere-se este aspeto porque ao nível da lógica discursiva da apresentação das cartas existe um fio condutor temático que não é compatível com as datas apresentadas, donde se poder especular se as datas serão apenas uma invenção, e as Cartas não corresponderão afinal um mero estilo ou modelo literário. 

A primeira carta é a apresentação do tema, onde o autor respondendo a uma carta do seu interlocutor se dispõe a esclarecê-lo sobre a “Sociedade dos Franco-Maçons”. Note-se que esta carta tem a particularidade de ser a resposta a uma outra que lhe teria sido enviada em 29 de março de 1802. Esta data é relevante uma vez que Hipólito quando foi a Londres terá embarcado de Lisboa em 15.03.1802 e chegado a 24 desse mês a Falmouth, porto inglês, na costa de Cornwall, distante de Londres a cerca de 380 km, onde chegou finalmente a 27. O trajeto da via marítima estava assegurado pelos paquetes ingleses e navios portugueses numa viagem que demorava entre 9 a 11 dias, conforme as condições climatéricas. Tendo isto em consideração, a carta a que o autor responde teria de ser enviada para destino pré-determinado no dia 20 de março, cinco dias após a partida de Lisboa, hipótese que se apresenta muito pouco verosímil.

Os temas tratados nas restantes dezanove cartas podem ser sucintamente referidos, embora o editor apresente um índice: nas cartas 2 e 3, as origens históricas da maçonaria, onde aborda as quatro teses sobre o seu início, a primeira, no reinado de Charles I de Inglaterra, a segunda, no reinado de Philippe, o Belo, de França e os cavaleiros templários, a terceira na época de Salomão, rei de Israel, e a quarta nos tempos do Egipto faraónico; na carta 4, apresenta noções gerais sobre o sistema da maçonaria; nas cartas 5, 6, 7 e 8 divaga sobre a acusação e perseguição dos maçons, em particular pela Igreja através das bulas papais de Clemente XII (Eminenti Apostolatus Specula de 1738) e Benedito XIV (Provida Romanorum Pontificum de 1751); nas cartas 9 e 10 refere a história da Inquisição e o tribunal do Santo Ofício, sua jurisdição, mencionando-se o caso do Conde de Cagliostro; nas cartas 11, 12, 13 e 14, as relações entre a maçonaria e a sociedade civil e acusações desta contra a primeira, sendo a última sobre a acusação da maçonaria ser antimonárquica; nas cartas 15, 16, 17 e 18 a posição de autores sobre a maçonaria, como Locke, Barão de Bielfeldt, Banier, Barruel e doutor Robertson, elucidando a questão da identidade dos maçons com os jacobinos franceses e os illuminati alemães; na carta 19 o autor explicita a razão das perseguições aos maçons e finalmente na carta 20 expõe o seu pensamento sobre a ilegalidade da perseguição movida pela inquisição contra os maçons por não haver o beneplácito régio das bulas. Segue-se como “aditamento a esta nova edição” a “notícia de algumas violências exercitadas contra os Framaçons”, composto por dois excertos do jornal “Correio do Alto-Rhin”, nº 36 de 05.05.1779 e nº 41, de 21.05.1779.

Nota-se que há primazia de uns temas sobre outros: acusação e perseguição dos maçons, relações entre a maçonaria e a sociedade civil e a posição de autores sobre a maçonaria, o que permite concluir que as Cartas são essencialmente uma defesa da maçonaria perante um ataque injustificado por um libelo acusatório perpetrado por homens da Igreja.


Em boa hora torna-se pública a presente edição no decurso do bicentenário da revolução liberal de 1820, pois os motivos que levaram o editor a publicar inicialmente as Cartas – os preconceitos contra a maçonaria – mantêm-se atuais na sociedade portuguesa, como então. Mostrando-se premente o esclarecimento das pessoas, um imperativo fundamental para a transformação das mentalidades. 

Esta obra é de leitura essencial para todas as pessoas que pretendam ser esclarecidas quanto ao tema da maçonaria, e em particular obrigatória para aqueles que abraçam a via do aperfeiçoamento pessoal através da maçonaria, de forma a compreender algumas das razões históricas porque em Portugal os maçons e a maçonaria continuam a ser vítimas de um anátema social”

[Manuel Pinto dos Santos, in Prefácio, Cartas sobre a Framaçoneria, pp. 7-17 - sublinhados nossos]

J.M.M.