domingo, 1 de agosto de 2021

JUDEUS, JUDIARIAS E SINAGOGAS (PARTE I) – POR ANTÓNIO VALDEMAR

 


Judeus, Judiarias e Sinagogas (Parte I) – por António Valdemar, in Diário dos Açores

A presença nos Açores de famílias sefarditas que vieram de Marrocos e se radicaram nas ilhas de S. Miguel, da Terceira e do Faial perduram, com cemitérios judaicos em cada uma destas ilhas. Assim como a sinagoga de Ponta Delgada, a mais antiga de todas as sinagogas portuguesas.

Os judeus, a rota das judiarias e as sinagogas já começaram a estar em foco, enquanto decorrem, de 2021 a 2027, os processos para habilitação às Capitais Europeias da Cultura distribuídas através do território português. Já se encontram em curso iniciativas destinadas a promover as cidades concorrentes e as suas extensões geográficas. Em face da crise que a todos atinge e não se sabe até quando, as candidaturas às Capitais Europeias da Cultura vieram assegurar ordenados, subsídios e avenças a profissionais de comunicação que dominam os temas da área do Património.

Muitos deles voltam a aproveitar a oportunidade para repetir textos e esquemas de trabalho já utilizados noutras circunstâncias. Uns estavam na prateleira e insistem em sobreviver, outros procuram afirmar–se ganhando o protagonismo que tanto desejavam.

A recente publicação da obra Portugal e os Judeus, da autoria de Jorge Martins, apresenta um manancial de informações da maior importância, em torno dos judeus, a rota das judiarias e as sinagogas. Integra–se num projeto editorial da Âncora. António Batista Lopes, acerca deste tema, já havia divulgado outras obras de reconhecido interesse.

Uma das grandes autoridades na história do judaísmo, Anita Novinsky – que acaba de falecer no dia 20, quase centenária, em São Paulo, no Brasil –, escreveu sobre deste livro de Jorge Martins: «Passado um século e meio sobre a aparição da mais completa obra sobre a história dos judeus em Portugal, da autoria de Meyer Kaiserling, nos presenteia Jorge Martins com uma nova história sobre os judeus portugueses e que amplia largamente o livro pioneiro do rabino húngaro».

Podemos, contudo, acrescentar: Alexandre Herculano, Da Origem e estabelecimento da Inquisição em Portugal, 1854-1859; os estudos de Mendes dos Remédios, 1895-1928; J. Lúcio de Azevedo, História dos Cristãos Novos em Portugal, 1921; Francisco de Bethencourt, História das Inquisições, Portugal, Espanha e Itália, 1994.

A obra de Jorge Martins agora condensada em Portugal e os Judeus reúne três volumes já publicados e com investigações que remontam ao século III, a possível data de fixação dos primeiros judeus na Península Ibérica; acentuam-se a partir de 1147 quando Afonso Henriques se torna o primeiro Rei de Portugal e prolongam-se até 2006, ano da evocação do massacre judaico em Lisboa, a 19, 20 e 21 de Abril, de 1506, no Largo de São Domingos, em Lisboa, uma das maiores carnificinas de que há memória em Portugal.

Colocam–nos perante numerosos acontecimentos e figuras que se inserem num contexto nacional e também internacional. Quanto ao século XX, ocupa–se dos vários surtos de marramismo, sionismo, antissemitismo e outras manifestações: os panfletos virulentos de Mário Saa, Portugal Cristão-Novo ou os Judeus na República (1921), A Invasão dos Judeus, 1925; a edição, em 1923, dos Protocolos dos Sábios de Sião, sob os auspícios das Juventudes Monárquicas Conservadoras; e as campanhas sistemáticas da imprensa integralista, na qual se destaca o principal mentor António Sardinha em ensaios, artigos de opinião e até em poesia.

No livro Pequena casa Lusitana, António Sardinha, por exemplo, escreveu:

«São moiros e ciganos quem governa. / Nunca será bastante a pena eterna, / pra quem desfez a raça com torpeza! / Ó Santa Inquisição, acende as chamas! / E no fulgor terrível que derramas, /Vem acudir à Pátria portuguesa».

Os Açores e naturalmente muitos açorianos deparam-se em sucessivos capítulos da obra de Jorge Martins. Mas faltam algumas referências a outros eminentes açorianos que se evidenciaram – por motivos diversos – na história dos judeus em Portugal.

A propósito da campanha iniciada em 1894 relativa a Dreyfus (1859-1935), oficial do Exercito francês de origem judaica, citamos, por exemplo, o Padre Sena Freitas (1840-1913), ao associar–se ao movimento antissemita europeu e à condenação de Dreyfus; e, em contrapartida, José Bruno Carreiro (1880-1957), no livro O Drama do Capitão Dreyfus (1951), onde reconstituiu e desmascarou todo o labirinto de suspeitas e o emaranhado de falsas acusações, construído, durante décadas, até finalmente, surgir a reabilitação pública.

Outro açoriano, dos mais notáveis e mais injustamente esquecidos, o jornalista e escritor Jaime Brasil (1896- 1976), traduziu e prefaciou o dossier que integra a carta de Emílio Zola, com o título Acuso, dirigida ao presidente da República Félix Faure e que desencadeou a urgência de revisão do processo militar e político Dreyfus. Teve, na época, enorme repercussão que chegou até aos nossos dias.

Ainda de Jaime Brasil será de mencionar o livro Shalom Shalom! (1948) que reproduz um conjunto de reportagens na Palestina, para o jornal o Primeiro de Janeiro, por ocasião da fundação e proclamação do Estado de Israel.

Revestiu–se da maior importância social, económica e social dos Açores a vinda de Marrocos de famílias sefarditas, no princípio do século XIX, que se radicaram nas ilhas de S. Miguel, da Terceira e do Faial. Perduram, em cada uma destas ilhas, cemitérios judaicos e a sinagoga de Ponta Delgada, que é mais antiga de todas as sinagogas portuguesas.


Mas de 2021 a 2027, os roteiros de Ponta Delgada Capital Europeia da Cultura vão integrar a sinagoga instituída em 1836. O que significou e significa 23 anos antes da primeira sinagoga que existiu em Lisboa.

José Leite de Vasconcelos visitou-a em 1924 e ficou assinalada no livro Mês de Sonho. Na segunda metade do século XX, caiu em progressivo abandono e em inexplicável ruína. Foi assaltada. Roubado parte do seu acervo. Mas felizmente foi recuperada e reposta na sua dignidade. Está em pleno centro histórico e constitui uma das referências obrigatórias do património da cidade

[continua]

Judeus, Judiarias e Sinagogas (Parte I) – por António Valdemar [jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], in Diário dos Açores, 28 de Julho de 2021, p.7, com a devida vénia – sublinhados nossos.

J.M.M.

quinta-feira, 29 de julho de 2021

PORTUGAL NÃO FEZ O LUTO DOS CAPITÃES DE ABRIL

 


Portugal não fez o luto dos capitães de Abril – por Amilcar Correia, in Público

Otelo, Melo Antunes e Salgueiro Maia não foram tratados em vida nem na morte com a importância do papel que desempenharam

Otelo Saraiva de Carvalho, Ernesto Melo Antunes e Salgueiro Maia não tiveram as devidas homenagens do Estado na hora da morte. O cérebro, o ideólogo e o protagonista da Revolução dos Cravos não foram merecedores de luto nacional por diferentes razões. O primeiro não as teve porque os dois anteriores também não as tiveram. Salgueiro Maia morreu a 3 de Abril de 1992. 0 primeiro-ministro era Cavaco Silva e Mário Soares ocupava Belém. Melo Antunes morreu a 10 de Agosto de 1999. 0 primeiro-ministro chamava-se António Guterres e em Belém estava Sampaio.

Há 29 anos, Cavaco concedeu aos inspectores da PIDE/DGS António Augusto Bernardo e Óscar Cardoso uma pensão por "serviços excepcionais e relevantes", a mesma que recusara três anos antes a Salgueiro Maia. Há 22 anos, Guterres não fez melhor pelo legado de Melo Antunes, o mais moderado do Grupo dos Nove e um dos rostos do 25 de Novembro. A morte de Melo Antunes terá feito jurisprudência e servido de desculpa para a vergonha e distanciamento com que alguma da classe política foi lidando com a memória revolucionária do 25 de Abril.

António Costa seguiu os exemplos de Cavaco e de Guterres. Dizer que este é o momento de todo o país se reconciliar com o "coronel Otelo" não passa de um eufemismo esfarrapado para escapar por entre os pingos da chuva do debate que Manuel Alegre iniciou. Nesta fase do campeonato, o último desejo de António Costa era ser crucificado por dar honras de Estado a um homem cujo percurso paradoxal tinha no currículo o comando do golpe que acabou com 48 anos de ditadura.

Como quem decreta o luto nacional é o Governo e não o Presidente, Marcelo Rebelo de Sousa pôde titubear a seu bel-prazer: "Olhando para irás, é pena que [os três] não tenham merecido [o luto nacional]."

O primeiro-ministro fez o mesmo: "O Estado tem de ter critérios consistentes e coerentes." Olhando para trás, a lista de vultos homenageados com a declaração de luto nacional tem uma coerência sui generis, pois tanto inclui a irmã Lúcia ou a José Policarpo, como Hassan II de Marrocos ou o imperador Hirohito do Japão. Não vale a pena recuar à lista da velha senhora à procura de mais coerência.

Otelo, Melo Antunes e Salgueiro Maia não ganharam nada com o que fizeram. Não foram tratados em vida, nem na morte com a importância do papel que desempenharam. Nem dentro dos quartéis (onde teriam tido uma carreira mais medalhada, caso tivessem continuado a alimentar a guerra colonial, nem fora deles.) É ingrato.

Portugal não fez o luto dos capitães de Abril – por Amilcar Correia, in Público, 29 de Julho de 2021, p.4, com a devida vénia – sublinhados nossos.

J.M.M.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

AS CONSPIRAÇÕES EM TORNO DE HITLER – ENTREVISTA A RICHARD J. EVANS

 


As conspirações em torno de Hitler – [Extracto] Entrevista a Richard J. Evans, por Bárbara Reis, in P2, Público

Entrevista Richard J. Evans As Conspirações em Torno de Hitler, último livro do historiador, fecha um círculo de investigação sobre a mentira, as fake news e o impacto da “História falsa” na democracia. Mais do que nunca, “temos de acreditar na verdade e na possibilidade de descobrir a verdade

Bem-vindo ao nevoeiro de fantasias, histórias deturpadas, invenções puras e provas forjadas. O historiador Richard J. Evans, especialista mundial no estudo do Terceiro Reich, dedicou cinco anos e mobilizou dez investigadores para analisar as teorias da conspiração à volta de Adolf Hitler.

O resultado é As Conspirações em Torno de Hitler — O Terceiro Reich e a Imaginação Paranoica (Edições 70, Almedina), nas bancas desde Maio. Passo a passo, papel a papel, texto a texto, o livro disseca cinco grandes teorias falsas repetidas há décadas e reaparecidas agora com novo vigor, como acontece “sempre nos momentos de crise”, diz Evans, “e nós estamos a viver uma crise”.

As cinco teses alimentam duas coisas: uma “próspera indústria de entretenimento” e o preconceito contra os judeus, há muito “um bode expiatório”, diz o historiador britânico em entrevista ao PÚBLICO.

A primeira teoria da conspiração que Evans disseca é a d’Os Protocolos dos Sábios de Sião. Há mais de cem anos que esse texto é traduzido e vendido como se se tratasse das minutas das reuniões secretas ocorridas à margem do I Congresso Sionista, em Basileia, em 1897 — que aconteceu de facto —, nas quais teria sido montada uma conspiração para os judeus destruírem a ordem política e dominarem o mundo — uma invenção absoluta, sublinha Evans. Até Joseph Goebbels, fiel ministro da Propaganda de Hitler, escreveu no seu diário que “Os Protocolos dos Sábios de Sião são uma fraude”.

Mas Hitler acreditava que eram genuínos e em 1933 havia 33 edições na Alemanha. Ainda hoje se discute o peso que o texto teve na formação do anti-semitismo no governo nazi — Evans diz que foi uma influência “indirecta”. O que se sabe é que, ao longo dos últimos cem anos, os Protocolos foram publicados com novas introduções e comentários de modo a culpar os judeus pelos problemas desse momento e desse lugar, numa actualização permanente.

Pequeno senão: há cem anos que se sabe que os Protocolos são uma “falsificação grosseira” e um plágio. A primeira denúncia pública surgiu em Julho de 1921, quando o correspondente do The Times em Istambul, Philip Graves, escreveu ao seu editor em Londres: “Um russo (ortodoxo) fez aqui uma descoberta muito curiosa [...]. É que Os Protocolos dos Sábios são em larga medida o plágio de um livro [de] 1864. O livro é uma série de diálogos entre Montesquieu e Maquiavel [...]. Muitas das semelhanças são extraordinárias. [...] Os Protocolos são, em muitas partes, uma mera paráfrase. Estou a ver aqui os elementos de um furo.”

O livro de 1864 chama-se Dialogue aux enfers entre Machiavel et Montesquieu ou la politique de Machiavel au XIXe siècle e é uma sátira do advogado francês Maurice Joly sobre Napoleão III. Conta Graves que o russo que fizera a descoberta, Mikhail Raslovlev, era parente do correspondente do Times em São Petersburgo e o contactara a propor vender-lhe o livro.

Apesar de a notícia ter sido publicada em vários países e línguas em 1921 e nos anos seguintes, o texto dos Protocolos foi citado e impresso pelo Partido Nazi, que em 1933 incentivou “cada alemão a estudar a terrível confissão dos Sábios do Sião” […]

As Conspirações em Torno de Hitler fecha um círculo sobre a mentira, as fake news e o impacto da “História falsa” no debate público. Evans mergulha no estilo paranóico, de exagero intenso, desconfiança e fantasia conspiratória das teses falsas que envolvem os nazis — e quase sempre os judeus. Se acha que é um fenómeno das franjas marginais, Evans esclarece: “Apareceram mais teses da sobrevivência de Hitler em forma de livro no século XXI do que nos 55 anos anteriores.”

Segundo essa tese, o ditador nazi não se suicidou no bunker a 30 de Abril de 1945 — foi um duplo — mas fugiu de submarino para a Argentina, onde viveu até morrer, muitos anos depois, ao lado de Eva Braun, que também fugiu. Que provas há para esta teoria? Nenhuma […]

Os conspiracionistas vivem num mundo a preto e branco, de “heróis” que procuram a verdade e “vilões” que a escondem. Um mundo sem ambiguidades morais, só absolutos morais, e sem a “complexidade cinzenta” que os documentos do mundo real mostram […]

Há uma linha de pensamento que diz que é uma perda de tempo desfazer mentiras espalhadas por lunáticos. É evidente que discorda. O que o fez regressar às teorias da conspiração e investir tempo neste livro?

Escrevi uma história da Alemanha nazi em três volumes e quando estava a chegar ao fim da escrita notei que muitas teorias conspirativas sobre os nazis estavam a multiplicar-se e a aumentar na Internet e nas redes sociais. Pensava que temas como o Exército alemão ter sido “apunhalado nas costas”, o incêndio do Parlamento alemão, a viagem de Rudolf Hess até à Escócia e, acima de tudo, a morte de Hitler estavam há muito resolvidos pelos historiadores sérios, eram questões assentes, sem controvérsia.

E, no entanto, estas teorias da conspiração estavam não só a proliferar, como a entrar no universo da História séria. Vários historiadores sérios começaram a dizer coisas do tipo: “Bom, claro que a questão do ‘como’ e ‘porquê’ Hess voou para a Escócia em 1941 não está resolvida”, “não temos a certeza se Hitler esteve envolvido...”. Ou: “Se calhar o fogo de Reichstag foi iniciado pelas tropas nazis...” Isto quando sabemos há décadas que foi iniciado por uma pessoa sozinha. Pensei que era um fenómeno que valia a pena investigar. Sempre me interessei pelas fronteiras entre a verdade e a ficção […]


O livro analisa cinco grandes teorias da conspiração. Qual foi a vantagem de olhar para as cinco ao mesmo tempo?

Há dois tipos de teorias da conspiração. As que estão associadas a um acontecimento isolado, como a morte de J.F.K. [ John F. Kennedy] ou o [ataque terrorista de] 11 de Setembro [de 2001] — no caso, os acontecimentos são a fuga de Hess para a Escócia, o incêndio do Parlamento alemão e a morte de Hitler. E há as teorias da conspiração sistémicas. Por isso, peguei no caso d’Os Protocolos dos Sábios de Sião, uma falsificação anti-semita do início do século XX que diz que tudo o que acontece no mundo é o resultado de uma conspiração de judeus que querem minar a sociedade e controlar a civilização — ou seja, teorias a uma escala gigantesca. Algures entre estas duas, há teorias como a lenda do “apunhalado nas costas”, que diz que o Exército alemão não foi derrotado em 1918 no campo de batalha pelos Aliados, mas “apunhalado nas costas” pela frente interna alemã — e sobre isso há diferentes versões.

Como a de que foram os revolucionários e políticos sociais-democratas.

Sim, e diferentes teorias se aplicam a isso. Podia ter incluído a negação do Holocausto, que é uma teoria da conspiração que suprime a verdade sobre o Holocausto que, segundo os negacionistas, foi uma invenção de governos, historiadores e jornalistas para esconder a verdade — outra fantasia. Mas não incluí porque já tinha escrito sobre isso […]

O que é que estas teorias da conspiração têm em comum?

Tem que ver com o modo como são construídas, quem as constrói, como funcionam. Nas teorias da conspiração nunca há provas verdadeiras, directas, concretas e sólidas que confirmem as teses. Inventam provas e até falsificam “provas”. Nestas cinco teorias, há “provas” forjadas sobre Hess, sobre o fogo do Parlamento alemão... para não falar dos Protocolos, que são uma falsificação pura […]

Parece uma contradição: recusam a complexidade do mundo, mas também recusam a ideia de que, simplesmente, uma pessoa pode agir sozinha.

Eles recusam a ideia do acaso. Mas as circunstâncias casuais fazem parte da História. Eles recusam aceitar que Hess tenha decidido voar até à Escócia sem dizer nada a ninguém, levando uma suposta “proposta de paz da Alemanha”, que ele inventou sem consultar Hitler, e que queria entregar ao duque de Hamilton, um homem sem relevância na política britânica, mas que por acaso, como Hess, era um ás da aviação — foi uma das primeiras pessoas a voar sobre o Evereste. Isto soa a loucura total — o que era de facto. E por isso os conspiracionistas dizem que “tem de haver alguma coisa por detrás”. Os conspiracionistas não aceitam a ideia que uma pessoa sozinha pode mudar História. Acham que tudo acontece por causa de “forças malignas”. Coisas irracionais, inesperadas, surpreendentes, acasos circunstanciais são anátemas para os adeptos das teorias da conspiração. É assustador pensar que o vice-Führer da Alemanha nazi era, no mínimo, levemente desequilibrado, senão completamente louco. Hitler e Goebbels, o seu ministro da Propaganda, ficaram furiosos quando souberam do voo. O voo mostra que o homem que foi o número dois do regime durante anos era um louco! […]

Do início ao fim do seu livro, extrema-direita e anti-semitismo rimam com negadores do Holocausto, amantes das conspirações, “ciência alternativa”, esoterismo, ocultismo, fascínio pelo “paranormal” e até crentes em ovnis, uma estranha mistura de pessoas. O que une os neonazis a este mundo esotérico?

São comunidades de conhecimento alternativo, que estão a aumentar em dimensão e intensidade por causa da Internet e das redes sociais. Se uma pessoa acredita que os extraterrestres visitam a Terra e que há salsichas voadoras construídas pelos nazis e ninguém à sua volta acredita, através das redes sociais essa pessoa vai encontrar alguém que acredita no mesmo. Estas comunidades de conhecimento alternativo têm pessoas que acreditam nos ovnis, têm ocultistas que acreditam que há forças mágicas e pessoas que as usam para mudar o mundo, têm negacionistas e radicais da extrema-direita que acreditam que o Holocausto não existiu. Todas rejeitam o que dizem ser o “conhecimento oficial”, como se historiadores como eu e outros milhares fôssemos parte de um establishment dedicado a inventar conhecimento ou que foram os governos que nos deram instruções sobre o que devemos dizer, fazer e pensar — o que é bastante insultuoso.

Hitler é uma figura tão universalmente conhecida que, na nossa era secular, corporiza a ideia de Satanás. Estas comunidades de conhecimento alternativo sentem-se atraídas por isso. Ao associarem-se ao nome de Hitler sentem que ganham relevância. Mas atenção que há conspiracionistas que admiram Hitler. Isso vê-se nas teorias sobre a suposta fuga do bunker para a Argentina: um homem tão grandioso não poderia suicidar-se com um tiro na cabeça depois de envenenar a mulher […]

Desfazer estas mentiras é a nova tarefa dos historiadores?

Sim. Os historiadores são caçadores de mitos, mentiras e teorias da conspiração. Sempre tentámos usar investigação cuidadosa e fazer avaliações e juízos objectivos para desmontar mitos de todo o tipo. Mas hoje isso tornou-se mais importante. Vivemos na era da “pós-verdade”, na qual diminuiu a crença na verdade e na possibilidade de se encontrar uma verdade objectiva. Infelizmente. Em parte, é resultado da Internet, que tem estado muito descontrolada. Os gate keepers dos media — editores e produtores — foram ultrapassados pela Internet, que até há pouco tempo não ligava à questão da verdade […]

Qual é o impacto da “história falsa” na democracia?

Se não acreditamos na investigação feita de forma séria e objectiva, que estabelece os factos, como é que podemos ter políticas públicas eficazes? Vemos isso em países como o Brasil, que tem um Presidente populista, ou nos EUA, de onde continuamos a ler sobre a forma como Trump menosprezou o conhecimento dos peritos. Essa é a primeira questão: temos de acreditar na verdade e na possibilidade de descobrir a verdade. Isto faz parte da nova onda populista da política dos últimos anos, que desconfia dos peritos e desvaloriza a especialização. Para os historiadores, ver livros e programas de televisão feitos com base em fantasias paranóicas e não em investigação séria é muito perturbador e, com franqueza, insultuoso […]

Há fake news e há fake History, não sei se concorda com a expressão...

... com certeza, fake History é coisa que não falta! São igualmente prejudiciais? É difícil avaliar. Penso que as fake news e a fake History andam juntas e são igualmente prejudiciais. Ambas minam a ideia de que a verdade existe e que é possível encontrá-la. Como é que podemos saber se uma prejudica mais do que a outra? Para mim, como historiador, a fake History põe em causa tudo o que faço — se as pessoas acreditarem nas mentiras. A fake History pode criar preconceitos e é uma das grandes componentes do anti-semitismo. É com fake History que aparecem Os Protocolos dos Sábios de Sião, que dissemina o anti-semitismo.

As conspirações em torno de Hitler – [Extracto] Entrevista a Richard J. Evans - por Bárbara Reis, in P2, Público, 4 de Julho de 2021, pp 4-9 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

quinta-feira, 1 de julho de 2021

A HISTÓRIA DA ECONOMIA E OS SEUS LIMITES – ÁLVARO GARRIDO

 


A História da Economia e os seus limites – por Álvaro Garrido, in Público

O crescimento rápido que a economia portuguesa evidencia nos anos de 1960 a 1973 constitui um facto económico saliente, é verdade, mas não lhe podemos atribuir um valor absoluto. As demais dimensões da realidade que o podem explicar ou contradizer não falam por si, nem tão pouco são captadas pela contabilidade agregada do crescimento.

No espaço público português e noutras arenas de debate — ou de combate tribalizado, muitas vezes sem discussão nem conhecimento — sucedem-se as manipulações da história a preceito das batalhas políticas do presente. A história e a memória não são construções neutras ou isentas de conflito. Se dúvidas houvesse, é claro que a escrita da história e os trabalhos da memória são assuntos do presente e por isso se diz que toda a história é contemporânea.

Importa reconhecer que a História académica, feita por profissionais e assente em conhecimento especializado, não detém o exclusivo das narrativas sobre o passado. No entanto, a História deve assumir um papel decisivo na interpretação das sociedades no tempo. Precisamos dela para dar sentido ao presente e imaginar o futuro.

Infelizmente, as redes sociais estão cheias de historiadores de ocasião e nas livrarias é demasiado fácil encontrar livros de cordel que reclamam novas versões da história e descobertas delirantes, sem rigor de prova nem talento narrativo.

Em Portugal, os usos políticos do passado têm sido causa e efeito de polémicas sobre o passado colonial, a violência política da ditadura salazarista e de outros regimes políticos e, com menor frequência, acerca do papel da mulher e de coletivos cuja voz está pouco inscrita na memória social. Menos comuns costumam ser os debates públicos em torno de questões económicas, seja a magna questão da convergência e da divergência (o progresso e o atraso, como em tempos se diria), seja o problema das desigualdades, que os historiadores económicos conhecem e estudam há mais de cinquenta anos. 

Quase tudo foi dito e interpretado sobre a intervenção do historiador económico Nuno Palma na convenção do MEL, em especial por Pacheco Pereira e Fernando Rosas, historiadores em cujos argumentos me revejo.

Nessa já famosa conferência, em que Palma vestiu a pele do especialista que veio trazer luz sobre um assunto que, de repente, importa ao debate político atual, as adversativas que usou não parecem nada inocentes. As ressalvas fizeram parte da mensagem sentencial que a convenção pretendia emitir sobre o fracasso da democracia portuguesa em matéria de desenvolvimento económico. Era esse o móbil da intervenção e devemos reconhecer que a mensagem passou.

Dado que vivemos num tempo em que importa “dissecar tudo” sobre o passado recente (palavras presidenciais), importa lembrar que há diversas formas de fazer História económica e que, entre os historiadores profissionais, é imensa e quase intransponível a distância que se criou entre subdisciplinas e maneiras de fazer História. Umas dessas barreiras reside na incomunicabilidade entre os historiadores que fazem História política da época contemporânea e os historiadores económicos (em especial os economistas-historiadores). O problema é velho, mas tem contornos novos que, no contexto atual, se cruzam com os movimentos políticos da federação das direitas que se prefigura.

Creio que boa parte do problema está no modo de pensar a economia, nos seus pressupostos metodológicos e no modo como a História económica se deixou tomar, exageradamente, pelas abstrações da “ciência económica” que se pretende apolítica e ahistórica. É claro que há razões académicas, relacionadas com o modelo de produção e difusão científica atual, que ajudam a explicar essa tendência, mas não é essa a questão principal nem aquela que aqui me ocupa.

A necessidade de expulsar a política e os factos sociais das explicações económicas é um pressuposto metodológico da Economia convencional, de raiz neoclássica, que tende a tornar a História económica um exercício de economia retrospetiva. No plano metodológico, aprecio esse exercício, por vezes muito sofisticado e apoiado em métodos econométricos e testes contrafactuais criativos. Como dizia Eric Hobsbawm, esse tipo de História pode, até, ser um bom detetor de absurdos, mas em regra oferece apenas uma visão esquemática e tendencialmente abstrata da realidade económica, que não capta o pulsar das sociedades humanas na medida em que opera numa linguagem muito distante do que deve ser a escrita da História e porque evade da narrativa todas as demais dimensões do “real vivido”. Nessa perspetiva redutora da História económica, os factos económicos explicam-se por si próprios e são autossuficientes ou destinam-se apenas a validar a teoria. Assim entendida, a análise do económico pelo económico é um tique metodológico que, uma vez aplicado ao tempo passado, resulta em interpretações históricas redutoras. Em regra, o método que as sustenta elimina a contingência e a historicidade das ações humanas, isto é, pouco atende à natureza injuntiva das diversas dimensões da realidade histórica.

Não por acaso, Nuno Palma foi chamado ao MEL ou aceitou participar na reunião das direitas imoderadas e inquietas, para ali apresentar uma narrativa conveniente e pré-determinada sobre o desenvolvimento económico português do pós-guerra à atualidade, com ênfase nos últimos anos da ditadura de Salazar e Caetano. A narrativa apoiou-se em dados de contabilidade nacional e, sem surpresa, adotou uma epistemologia das continuidades. Esta perspetiva é muito comum na historiografia conservadora sobre o Estado Novo e, obviamente, implica uma certa despolitização e a desvalorização do papel histórico das ruturas políticas e das mudanças induzidas por movimentos sociais.

Mais do que reelaborar e difundir uma interpretação sobre a performance económica do Estado Novo no terceiro quartel do século XX, ou no segundo fôlego de existência do regime, a tese que Palma trouxe ao MEL procurou atingir o 25 de abril e diabolizar o PREC. Basicamente, sugeriu que o desenvolvimento económico português, a abertura ao exterior e a convergência com os países do “centro”, ainda que tenham sido processos tardios, foram êxitos da ditadura que, entretanto, a revolução e as instituições democráticas desbarataram.

Não é nova a tendência de recontar a história do Estado Novo colocando em primeiríssimo plano o fenómeno de crescimento que Portugal registou entre 1950 e 1973 e atribuindo à narrativa do “crescimento económico moderno” – apenas uma imagem abstrata, cujo conceito vem de Simon Kuznets – um valor absoluto ou um significado superlativo.

Sabemos do encantamento que este facto económico suscita, por exemplo, nos alunos de Economia, e no homo economicus que há em cada um de nós. O crescimento rápido e o fenómeno de convergência que a economia portuguesa evidencia nos anos de 1960 a 1973 — em menor medida, de 1950 a 1973 — constitui um facto económico saliente, é verdade, mas não lhe podemos atribuir um valor absoluto. As demais dimensões da realidade que o podem explicar ou contradizer não falam por si, nem tão pouco são captadas pela contabilidade agregada do crescimento.

Basta lembrar dois negativos dessa fotografia excessivamente otimista e distorcida da “idade de ouro” do crescimento económico português, cujos diagnósticos são contemporâneos desse período de grandes paradoxos: o insuspeito trabalho do economista católico e corporativista Adérito Sedas Nunes, Portugal, sociedade dualista em evolução (1964); o ensaio do engenheiro fabril e intelectual marxista João Martins Pereira, Pensar Portugal Hoje (1971). Entre outros escritos daquela época que fazem mais pela sua interpretação do que a insistência na imagem redutora de uma golden age à portuguesa, os ensaios de Sedas Nunes e de Martins Pereira são retratos eloquentes de um outro país e dos problemas estruturais que conviviam com o crescimento rápido da economia — a emigração em massa para a Europa (não por acaso, entre 1960 e 1973 a população portuguesa decresceu 3%), as tremendas desigualdades sociais e assimetrias do território, o arcaísmo do mundo rural, a miséria social e a ausência de modernidade. Problemas estruturais que a História pode e deve discutir, mas de maneira séria e injuntiva, sem recalcar o primado da política na vida económica e social de um fascismo que, afinal, existiu.

A História da economia e os seus limites – por Álvaro Garrido [professor-investigador de História Económica da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra], in Público, 1 de Junho de 2021 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

terça-feira, 29 de junho de 2021

XVII CURSO LIVRE DE HISTÓRIA DO ALGARVE

 Durante o mês de Julho vai realizar-se em várias sessões, o XVII Curso Livre de História do Algarve, desta vez dedicadas ao tema "O Algarve e o Império Português".

As nove sessões do curso vão decorrer entre as 18 e as 20horas, no Anfiteatro A, do complexo pedagógico da Universidade do Algarve, nas Gambelas, em Faro.

Com organização do Departamento de Artes e Humanidades da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve.

O curso conta com a presença dos seguintes conferencistas:

 - João Minhoto Marques;

- Miguel Reimão Costa;

- Marco Sousa Santos;

- José Carlos Curto;

- Graça Ventura;

- Carla Vieira;

- Andreia Fidalgo;

- José Eduardo Horta Correia;

- Raquel Roxo.

MAIS INFORMAÇOES: 

289 800 914 | secretariafchs@ualg.pt

Inscrições: 

https://www.ualg.pt/curso/2900

40€ Normal | 15€ Estudantes e funcionários UALG | 20€ Antigos Estudantes


Com os votos do maior sucesso para esta iniciativa.

A.A.B.M.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

A MAÇONARIA AO VAL. DE ÂNCORA E A LOJA VEDETA DO NORTE (1903-1929)

 


LIVRO: A Maçonaria ao Val. de Âncora e a Loja Vedeta do Norte (1903-1929);
AUTOR: Paulo Torres Bento (pref. de António Ventura)      
EDIÇÃO: Centro Social e Cultural de Vila Praia de Âncora | Câmara Municipal de Caminha, Junho de 2021

«O estudo da História da Maçonaria enfrenta algumas dificuldades, a principal das quais é a carência de documentos, que pode ser minimizada com recurso a outro tipo de fontes artísticas, iconográficas e até, para épocas mais próximas, de depoimentos orais, mau grado o seu subjectivismo. Os documentos são um ponto de partida fundamental, embora careçam da necessária análise crítica. No que concerne à Maçonaria em Portugal, as fontes são escassas para o século XVIII, praticamente limitadas aos processos do Santo Ofício, isto é, aos textos produzidos por urna instituição persecutória, mas que preservou, para fins processuais, depoimentos, testemunhos e a até a transcrição de documentos incriminatórios. No século XIX, embora com maior abundância documental, ela está condicionada pelo carácter efémero de Lojas e Obediências, que surgiam e desapareciam com uma frequência inusitada, ostentando por vezes o mesmo título distintivo, o que alimenta a confusão. Essa volatilidade prejudicou a preservação dos seus arquivos, sujeitos a destruições voluntárias, por razões de segurança, em momentos de perseguição, por simples eliminação de papéis considerados inúteis, ou resultantes de actos vandálicos, como o assalto ao Palácio Maçónico ocorrido em Dezembro de 1918. Nesta incursão, verdadeiramente catastrófica, pereceu documentação preciosa pertencente a Obediências maçónicas portuguesas do século XIX, livros de actas, de tomadas de posse de dignitários e correspondência da Confederação Maçónica Portuguesa, do Grande Oriente Português, do Grande Oriente Lusitano, Grande Oriente Lusitano Unido, e também de Lojas cujos arquivos eram guardados no edifício. Foi uma perda irreparável, dado o carácter único dessas fontes. Na sua maior parte, tratava-se de documentação central, isto é, produzida pelos órgãos dirigentes da Maçonaria – livros de actas, decretos, circulares, cópias de correspondência para as Lojas e para Obediências estrangeiras e também toda a correspondência recebida das Oficinas. Paralelamente, cada Loja tinha o seu próprio arquivo, com as actas das sessões dos diferentes graus, contas, correspondência recebida, copiadores da expedida, legislação e processos de iniciação. Para um estudo mais completo, o ideal seria cruzar os materiais existentes no arquivo central com os do arquivo da Loja, o que permitiria um estudo mais detalhado e eficaz da História da Maçonaria, nomeadamente a nível local, mas também, como sucede no presente trabalho de Paulo Torres Bento, recorrer aos arquivos públicos e privados, familiares, de instituições como câmaras municipais, misericórdias, associações sindicais, religiosas, políticas, desportivas, mutualistas, de bombeiros, de beneficência, recreativas e culturais, sem esquecer a imprensa periódica.

Não posso deixar de sublinhar a importância dos estudos regionais e locais no âmbito da historiografia em geral. Incidindo sobre um objecto circunscrito, geográfica e cronologicamente, permitem um aprofundamento muito profícuo […]



O presente trabalho de Paulo Torres Bento insere-se, assim, no quadro de outros que têm surgido sobre a Maçonaria numa determinada localidade ou região, com a vantagem de se basear num fundo documental precioso, o arquivo da Loja Vedeta do Norte nº 384 - número de ordem das Oficinas do Grande Oriente Lusitano Unido Supremo Conselho da Maçonaria Portuguesa – de Âncora, que felizmente foi preservado e chegou aos nossos dias. O autor completa a sua investigação com a recolha de informações complementares, nomeadamente dados biográficos que permitem traçar um quadro mais preciso dos membros da Maçonaria local, sua caracterização social […]

[António Ventura, in Prefácio, pp. 7-8 – sublinhados nossos]

► “Pesquisando desde há quase duas décadas a história contemporânea do concelho de Caminha, nomeadamente o período da Primeira República, foi-nos dada a certa altura a oportunidade de conhecer o espólio da Loja Vedeta do Norte, uma Oficina maçónica que esteve ativa ao Val. de Âncora entre 1915 e 1929, evolução de um Triângulo formado no ano anterior e, como entretanto apurámos, sucessora distante de outro Triângulo que esteve ativo na Praia de Âncora entre 1903-1905.

Devemos este raro privilégio — mais valioso por se tratar de uma sociedade conhecida por saber preservar o segredo — à generosidade e confiança do nosso amigo João Morais Cabral, rigoroso arquivista da documentação herdada de seu pai, João de Barros Morais Cabral, último dos Obreiros da Loja ancorense e seu fiel guardião quando as trevas do fascismo caíram sobre a Maçonaria portuguesa.

Com um estudo ainda incompleto, apresentámos publicamente os primeiros resultados da nossa pesquisa numa conferência subordinada ao título A Maçonaria e a Loja ancorense Vedeta do Norte, que se realizou no dia 16 de novembro de 2018, no Salão Nobre do Cineteatro da Associação Humanitária dos Bombeiros de Vila Praia de Âncora, no âmbito do evento Do Armistício da Grande Guerra ao Assassinato de Sidónio Pais, organizado pela Câmara Municipal de Caminha, o Agrupamento de Escolas Sidónio Pais e a União de Freguesias de Caminha e Vilarelho. Posteriormente, desta vez limitados pelo âmbito cronológico, inserimos parte da história da Vedeta no nosso livro República em Tumulto. O concelho de Caminha nos anos da Grande Guerra, de Sidónio Monarquia do Norte e da Pneumónica (1914-1919), editado em 2019 pelo Jornal Digital Caminh@2000. Desde então, tivemos acesso a novos documentos do espólio entretanto aparecidos, que vieram preencher alguns hiatos documentais que subsistiam, e, graças à cooperação do Professor Doutor António Ventura, historiador da Maçonaria portuguesa — cuja obra seguimos muito de perto para contextualizar o nosso estudo de caso — e, com a ajuda da Helena Coelho Serpa, responsável pelo Arquivo do Grémio Lusitano, foi-nos dado o ensejo de consultar os registos da Loja ancorense aí existentes, escassos mas preciosos.


Chegou agora o tempo de devolver a Vila Praia de Âncora e ao concelho de Caminha, aos ancorenses e caminhenses do presente, todo o conhecimento acumulado e interpretado com o necessário rigor histórico sobre uma parte tão importante e menos conhecida do seu passado recente. Em simultâneo, desvendando uma documentação assaz completa de uma Loja maçónica e da presença da sociedade iniciática no Alto Minho, procurar contribuir para a mais ampla história da Maçonaria portuguesa e da nossa contemporaneidade […]   

[Paulo Torres Bento, maio de 2021, in Prefácio, pp. 11-12 - – sublinhados nossos]

J.M.M.

domingo, 13 de junho de 2021

ESSA PALAVRA LIBERDADE. REVOLUÇÃO LIBERAL E CONTRARREVOLUIÇÃO ABSOLUTISTA (1820-1834)


LIVRO: Essa Palavra Liberdade. Revolução Liberal e Contrarrevolução Absolutista (1820-1834);

AUTOR: Luís Reis Torgal (pref. de Guilherme de Oliveira Martins);

EDITORA: Temas & Debates (Círculo de Leitores).

«Essa Palavra Liberdade..., livro do historiador Ls Reis Torgal, professor aposentado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, vai estar disponível nas livrarias a partir do próximo dia 24. É uma edição da Temas e Debates (Círculo de Leitores) e integra-se nas Comemorações do Bicentenário da Revolução de 1820, adiadas para o próximo Outubro.

A revolução do Porto de 1820 e a Constituição de 1822 dela nascida abriram caminho, de modo inexorável, para o Estado de Direito, e esse facto projectou-se na História política portuguesa até aos nossos dias. Urge, portanto, relembrar, analisar e divulgar os acontecimentos que permitiram a Portugal substituir um rei absoluto por um sistema capaz de representar cidadãos. A historiografia apresentada neste livro pelo professor Luís Reis Torgal procura descortinar a complexidade dos fenómenos e as suas repercussões duráveis, de modo a que o leitor consiga perceber o longo caminho de afirmação do constitucionalismo e do liberalismo, até aos dias de hoje».

«Na verdade, é a "liberdade" que está em questão nesta obra. É a liberdade que se opõe ao absolutismo, mas também quando, na polémica sobre a Instrução Pública, os liberais mais coerentes pretendem criar (sem o conseguir) um novo edifício, baseado na cidadania, para substituir o do hierarquizado "Antigo Regime". É a liberdade que está em causa quando, em nome da "ordem" e perante a guerrilha liberal, outra vez saída do Porto, o absolutismo miguelista castiga, com o apoio da libertinagem de rua, os alegados estudantes radicais e "criminosos" (defensores, a seu modo, da liberdade), com uma execução exemplar. E é, enfim, também a liberdade, mas a liberdade económica - ideia utilizada por liberais, mas também por antiliberais - que se propõe em favor do desenvolvimento, mas também indiciadora da luta pelos interesses privados. "Liberdade" é, pois, uma palavra nobre, polissémica e ambígua. É nessa múltipla significação que o liberalismo, seu defensor contra a monarquia absoluta, a usa e dela abusa para fins privados. Essa palavra, "liberdade", é, pois, o que analisei neste discurso histórico, sempre cheio de interrogações. Será um conceito sempre a rever, no período que abordamos e nos dias que correm.» [da Introdução]

«Na linha da obra que ora tenho a honra de apresentar urge estudar, investigar, mas também desenvolver a ação pedagógica, no sentido da melhor historiografia, sem tentações “presentistas”. É o devir que constitui a História. Daí a importância do conhecimento e da perspetiva crítica. Eis a matéria-prima de que se faz este livro, sobre sementes perenes de modernidade» [Do Prefácio de Guilherme d’Oliveira Martins - sublinhados nossos]

J.M.M. 

sexta-feira, 11 de junho de 2021

[EXPOSIÇÃO] A MAÇONARIA AO VAL∴ DE ÂNCORA E A LOJA VEDETA DO NORTE (1903-1929)

 


EXPOSIÇÃO/CATÁLOGO: A Maçonaria ao Val de Âncora e a Loja Vedeta do Norte (1903-1929):

AUTOR DO CATÁLOGO: Paulo Torres Bento

DIA: 12 de Junho (16,00 horas):

LOCAL: Centro Social e Cultural de Vila Praia de Âncora [Avenida do Centro Cívico], Vila Praia de Âncora;

ORGANIZAÇÃO: Centro Social e Cultural de Vila Praia de Âncora | Câmara Municipal de Caminha | Apoio da NUCEARTES, da ETAP e do Arquivo do Grémio Lusitano

“No dia 12 de junho, pelas 16h00, é inaugurada no Centro Social e Cultural de Vila Praia de Âncora a exposição “A Maçonaria ao Val. de Âncora e a Loja Vedeta do Norte (1903-1929)”, uma organização do CSCVPA e da Câmara Municipal de Caminha, que conta como apoio do NUCEARTES, ETAP e Arquivo do Grémio Lusitano.




Na ocasião, será apresentado o livro-catálogo da exposição, da autoria de Paulo Torres Bento, e formalizada a oferta da cópia digital do espólio da Loja Vedeta do Norte, na posse da Família Morais Cabral, ao Grande Oriente Lusitano, que para o efeito se fará representar pelo Grão-Mestre Adjunto, Carlos Vasconcelos.

A mostra, de entrada livre, ficará patente em Vila Praia de Âncora ao longo dos meses de verão de 2021, até ao dia 12 de setembro, e poderá ser visitada de segunda a sexta-feira das 10h00 às 12h30 e das 15h00 às 17h30, e aos sábados e domingos das 10h00 às 12h30 e das 15h00 às 19h00.

A Loja Vedeta do Norte, de matrícula nº 384 no Grande Oriente Lusitano Unido, foi uma Oficina maçónica que esteve ativa ao Val. de Âncora entre 1915 e 1929, evolução de um Triângulo formado no ano anterior e sucessora distante de outro Triângulo que existiu na Praia de Âncora em 1903-1905. Fundada por um grupo pequeno de republicanos locais, crescerá rapidamente até atingir a vintena de obreiros, notável para uma localidade fora das grandes cidades, ainda mais extraordinário se atentarmos que, além da Fraternidade, em Viana do Castelo, e da Luz e Liberdade, de Braga, na época em causa não houve qualquer outra loja no Minho.

A partir do estudo de uma extensa e inédita documentação interna, que sobreviveu ao tempo, procura-se com esta exposição — e a monografia que se constitui como o seu catálogo —, contribuir para a mais ampla história da Maçonaria portuguesa e da nossa contemporaneidade. Estarão disponíveis para os visitantes, mais ou menos familiarizados com a temática maçónica, os documentos originais da Loja Vedeta do Norte, bem como alguns dos paramentos dos seus obreiros, e ainda diversos artefactos simbólicos desta sociedade iniciática, tudo devidamente enquadrado por painéis gráficos explicativos” [via Press Release & AQUI]

J.M.M.

quarta-feira, 9 de junho de 2021

HERCULANO, OS AÇORES E OS AÇORIANOS – POR ANTÓNIO VALDEMAR

 


O leilão realizado em Lisboa com numerosos manuscritos de Herculano, juntamente com outros manuscritos de figuras literárias e políticas de renome permite uma revisão de obras publicadas de Herculano; esclarece alguns aspetos da sua intervenção literária e política; dá oportunidade para retificar o que se sabe acerca da permanência nos Açores; e, porventura, revela, fatos desconhecidos da vida familiar, nos últimos dez anos, em Vale de Lobos.

Mas, para já, convém salientar algumas questões: este leilão põe termo ao mistério e ao silêncio a propósito da real existência e da identificação da propriedade de manuscritos de Herculano, na posse de herdeiros; não se trata de um manancial de inéditos pois, em diversas circunstâncias houve a divulgação de parte do espólio.

A correspondência com personalidades de renome não significa que todas as cartas tivessem sido dirigidas a Herculano. Teve, sem dúvida relações com algumas ou muitas, mas com outras não é provável que tivesse tido relações. A informação da casa leiloeira cita, por exemplo, Manuel Fernandes Tomaz. Ora quando faleceu, em 1822, Herculano tinha 12 anos.

Finalmente, a Câmara de Santarém arrematou o conjunto por trinta mil euros. Reuniram – se condições para se constituir, em Santarém, um Centro de Estudos Herculanianos. Todavia, a Biblioteca Nacional nos termos estabelecidos pela lei, poderá exerceu o direito de preferência.

Herculano é uma personalidade emblemática de historiador, de escritor e de cidadão, cuja vida e obra permanecem, sobretudo, ligadas a Lisboa e a Santarém. Senão vejamos: em Lisboa nasceu, num dos velhos pátios da cidade, o Pátio do Gil, na rua de São Bento, mesmo defronte da casa de Amália Rodrigues e hoje reduzido a um improvisado parque de automóveis. Estudou nas Necessidades, no Colégio dos Oratorianos, a ordem religiosa escolhida pelo Marques de Pombal, a fim de preencher as lacunas no ensino resultantes da expulsão dos Jesuítas. Recebeu dos Oratorianos um lastro de cultura clássica. Em Lisboa frequentou a aula de diplomática na Torre do Tombo e a Academia de Marinha para aprender Matemática. Depositou na Torre do Tombo documentação fundamental para sistematizar, a parte inicial do Portugaliae Monumenta Historica que lhe foi solicitado pela Academia das Ciências; e para elaborar a História de Portugal que desencadeou uma das mais ruidosas polémicas com a igreja, por não admitir o Milagre de Ourique. Esteve á frente da revista Panorama que definiu a defesa e a valorização do património edificado e do património imóvel. Em Lisboa dirigiu a Biblioteca da Ajuda e enquanto ali residiu estimulou a formação intelectual e cívica de D. Pedro V; e manteve uma tertúlia com os seus mais notáveis contemporâneos. Tudo isto ficou pormenorizado nas Memórias de Bulhão Pato.


Herculano tem fortes vínculos com o Açores e alguns açorianos. Exilado político em França e na Inglaterra, dirigiu - se para os Açores; primeiro, para o Ilha Terceira depois para São Miguel. Incorporou – se na expedição que embarcou, sob o comando de D. Pedro, para o Cerco do Porto a fim de derrubar as forças miguelistas. Ernesto do Canto no Arquivo dos Açores revelou fatos e publicou elementos da maior importância. Entre outros historiadores e críticos Vitorino Nemésio, em pesquisas nos manuscritos agora leiloados, completou muita informação para reconstituir a história do exilio para a instauração do liberalismo.

A relação de Herculano com Santarém tornou - se outra referência obrigatória. Comprou em Azoia de Baixo a Quinta de Vale de Lobos. Os dez anos em Vale de Lobos (1867/ 1877) e que coincidiram com o casamento de Herculano com Mariana Meira não se resumiram ao interesse pela agricultura e à produção de azeite, em circunstâncias que se ignoravam e passaram a ser utilizadas. A tranquilidade de Vale de Lobos foi interrompida com visitas de amigos, de discípulos e de figuras como Madame Ratazi e o Imperador do Brasil.

Era, contudo, o ambiente propício para se concentrar, refletir e escrever. Em Vale de Lobos, por exemplo, manifestou o apoio às Conferências Democráticas do Casino e o protesto em face do encerramento pelo Governo do Duque de Avila. Se amplitude da obra de Herculano foi analisada por Joaquim Veríssimo Serrão, os vínculos de Herculano a Santarém foram examinados, contextualizados e divulgados por Virgílio Arruda.

Um dos grandes conhecedores de Herculano, Vitorino Nemésio apresentou, em 1935, para as provas de doutoramento na Faculdade de Letras de Lisboa uma tese inovadora sobre Herculano. Um ano antes publicara Cenas de um ano da minha vida. Mais tarde compilou e anotou As Cartas de Vale de Lobos ao Duque de Palmela e a João Cândido dos Santos.

Herdeiros do espólio

Num prefácio escrito, em 1933, Vitorino Nemésio incluiu «palavras de vénia» a David Lopes a quem se deviam «algumas das mais sólidas páginas de estudos herculanianos» e por ter indigitado Nemésio, aos editores da Bertrand, «para o substituir na «vigilância das obras do Mestre». Outras «palavras de vénia», de agradecimento pelas oportunidades concedidas, abrangeram o coronel Herculano Galhardo, «sobrinho de Alexandre Herculano e um dos herdeiros do seu espólio».

Esta citação, há quase 90 anos, desvendou a origem e a propriedade dos manuscritos leiloados, pois não existiam filhos do casamento de Herculano com Mariana Meira. Havia sobrinhos. A irmã mais velha de Herculano, Maria da Assunção casara com Eduardo Galhardo. Nos anos 60, Vitorino Nemésio voltou a contatar a família. Procurou José Galhardo, na antiga sede da Sociedade de Autores, para ter acesso ao espólio. Apesar do apoio de um amigo comum Luís de Oliveira Guimarães - tive o privilégio de assistir ao diálogo - os resultados foram infrutíferos. Qual a justificação? A publicação era suscetível de provocar «melindres familiares». Após a morte de José Galhardo, e quando se aproximava – se o centenário da morte de Herculano e Nemésio presidia às comemorações nacionais, fez outra diligencia junto da advogada Maria José Galhardo. Também foi cordialmente infrutífera.


Memória da açoreanidade

Decorridos mais de 40 anos os manuscritos – mas … foram, agora, leiloados todos os documentos que os herdeiros possuíam? -já podem ser consultados. E a correspondência - integral e completa - com Mariana Meira com quem Herculano só viria a casar tinha, então, 57 anos, a 1 de Maio de 1867? É evidente que não se trata de um manancial de inéditos. Nem vão alterar a visão de conjunto registada pela história e a crítica.

A permanência de Herculano nos Açores não foi extensa. Apenas cerca de cem dias e associada a momentos decisivos da história política. Perdura, no entanto, em muitas páginas da sua obra. Mas de todas as memórias ficou uma referência no poema Tristezas do Desterro «Eu já vi numa ilha arremessada/às solidões do mar, entre dois mundos/ vestígios de vulcões que hão sido extintos/ em não sabidos séculos» (…) Pedras que em parte amarelece o enxofre, /que a lava em rios dispersou, deixando/ só dele a cor em lascas arrancadas/das entranhas dos montes penhascosos.»

Viveu, sentiu e evocou alguns dos traços fundamentais da essência da açoreanidade.

Herculano, os Açores e os Açorianos – por António Valdemar [jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], in Diário dos Açores, 6 de Junho de 2021, p.14 – com sublinhados nossos.

J.M.M.