sábado, 7 de novembro de 2026

XX ANIVERSÁRIO DO ALMANAQUE REPUBLICANO



“O futuro é o passado que amanhece” [Teixeira de Pascoaes]

O Almanaque Republicano comemora Vinte Anos no vosso aconchego. Vinte Anos a traçar o itinerário e os luminosos fragmentos da Grande Alma Republicana. Vinte Anos sereníssimos, “devagar no depressa dos tempos”, murmurando antiquíssimas veladas d’armas, viagens de Soidade, cantigas de Amigos. Vinte anos a desenhar a Res Publica com língua de Sol, numa jornada de escrita cúmplice que acalma a alma e ilumina o tempo.

A nossa herança é uma viagem sem fim - dissemos. Que assim seja! Num “mundo a fazer”, embalados e felizes no incêndio dos nossos corações, esta morada d’escrita, este lugar d’amor, este sentimento saudoso de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, continua … no Vosso Aconchego.

Abraço humílimo

Saúde e Fraternidade!


J.M.M. [José Manuel Martins]

A.A.B.M. [Artur Barracosa Mendonça]

sexta-feira, 6 de novembro de 2026

ALMANAQUE REPUBLICANO: 20 ANOS DE EXISTÊNCIA

 



O blogue Almanaque Republicano assinala hoje 20 anos de atividade.

4 milhões de visualizações nestes 20 anos, segundo o contador interno do blogger. 

Vendo o quadro do referido contador encontramos 322 196 pessoas que visitaram o Almanaque Republicano no mês de Outubro de 2026, em busca de informações. Podemos dizer com segurança que a informação publicada tinha validade e qualidade, tanto que continua a ser procurada, mesmo sem fazermos senão pontualmente algumas atualizações.

Tudo começou com dois amigos, professores, bibliófilos, interessados em recuperar e assinalar o advento do Centenário da República, depois de dois anos de trabalho em conjunto queriam manter o contacto e a ligação. Decidiram manter esse contacto através de um blogue, que espelhava os nossos interesses e conhecimentos. 

Começaram as publicações neste dia 6 de Novembro, mas de 2006, com o nosso ÉDITO.

Seguiram-se onze anos de publicações regulares, algumas diárias e, por vezes com mais do que uma publicação diária. Conhecemos autores, investigadores, divulgamos eventos, conferências, colóquios, congressos e seminários. Divulgamos estudos que se publicavam, investigações que se editavam em livro, bibliotecas digitais que ficavam disponíveis online, arquivos e museus que digitalizavam documentação interessante sobre o tema da Implantação da República. 

A partir de 2017, mas sobretudo em 2018 fomos diminuindo as nossas publicações: biografias de republicanos (algumas delas ficaram incompletas), leilões de livros em alfarrabistas, organizações e organismos criados durante a segunda metade do século XIX, jornais e revistas do século XIX foram imensamente referidos, mas também os referidos eventos. Não abandonamos o tema, nem o gosto pelo mesmo, mas surgiram outras obrigações, a investigação que publicamos foi muitas vezes utilizada por outros sem indicação de autoria, nem referência ao local de onde era retirada, conversamos sobre isso e optamos por não fazer muitas publicações desse género. Foi sempre o nosso princípio, por influência das ideias republicanas, de divulgar o conhecimento sem pedir nada em troca. 

Nunca aceitamos publicidades, nem cobramos qualquer valor, mas fazemos e divulgámos gratuitamente obras e conferências de dezenas de investigadores e historiadores, desde os de história local aos mais conhecidos historiadores portugueses. Recebemos mais de três mil e quinhentas mensagens, muitas clarificando temas, questões, emitindo opiniões e criticando algumas das nossas escolhas. A muitos fomos respondendo em particular, outras ficaram sem resposta, muitas vezes porque não tínhamos resposta ou porque não conseguíamos em tempo útil acudir às solicitações que nos chegavam. 

Com 20 anos de experiência passados, mantemos o contacto - que era o grande objectivo - e mantemos o gosto pela bibliófilia e pela investigação histórica desde o Liberalismo até à I República. O nosso reconhecimento aos que nos visitam em busca de informações e esclarecimentos. Como dissemos em 6 de Novembro de 2006: "o Almanaque Republicano é um panfleto aberto e frontal da Alma Republicana. E será, doravante, o nosso "companheiro de trabalho". 

Continuamos por aí, vigiando, pesquisando, publicando e lendo o que se vai produzindo ao longo do ano. Estamos activos e vigilantes, críticos de algumas políticas e solidários com algumas opções.

 Defendemos e defenderemos: a LIBERDADE, a DEMOCRACIA  e a REPÚBLICA!!


Artur Barracosa Mendonça [A.A.B.M.]

José Manuel Martins [J.M.M.]

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

QUE VIVA O 5 DE OUTUBRO!

 

“Quem diz Democracia diz naturalmente República; se a Democracia é uma ideia, a República é a sua palavra” [Antero de Quental, in Prosas, vol.2, p. 59]

"Sou republicano e livre-pensador por um ditame de consciência ou, por outras palavras, por um mandamento de moral" [Raul Proença]

“... para um verdadeiro democrata, não há apenas a liberdade, mas nada existe, como fim humano, superior à liberdade; nada se pode fazer só com a liberdade, mas nada de humano de pode fazer também, sem ou contra ela " [Raul Proença]

"Não mais sermos salvos por mais ninguém – que impressão de inefável serenidade! Como será bom quando tivermos a repousante certeza de estarmos, enfim, salvos dos salvadores"

Raul Proença, Seara Nova, nº 246, 16 de Abril de 1931


VIVA A REPÚBLICA!

Saúde e Fraternidade

J.M.M | A.A.B.M.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

CARLOS MAIA TEIXEIRA – IN MEMORIAM

 


CARLOS MAIA TEIXEIRA – IN MEMORIAM; Publicação da Editorial Moura Pinto, distribuída na Homenagem da Editora e da Junta de Freguesia de Folques, a que se associou o GAAC e a Pró-Associação 8 de Maio, ao Dr. Carlos Maia Teixeira.

► ler ou download AQUI - https://archive.org/details/in-memoriam-carlos-maia-teixeira

J.M.M.

domingo, 10 de maio de 2026

CAMILO PESSANHA NO CENTENÁRIO DA SUA MORTE

 

Camilo Pessanha no Centenário da sua Morte, Periódico Único, Edição BMM, Typographia Todos Manos, 2026, 24 pp.

A Biblioteca Maçónica do Baixo Mondego (BMBM), no Centenário da Morte do poeta, republicano e maçon, Camilo Pessanha (Irmão Angélico), lançou uma interessante publicação destinada a homenagear essa admirável e representativa  figura da moderna poesia portuguesa. Espécie bibliográfica primorosamente executado, de tiragem muito reduzida e fora do mercado, está curiosamente publicada em diferentes versões e esmeradamente impressa com excelentes ilustrações nas páginas de texto.  

[ALGUMAS PÁGINAS IMPRESSAS]



[DOWNLOAD AQUI]

J.M.M.

quarta-feira, 11 de março de 2026

REVISTA DE MAÇONARIA N.º 9

 


Revista de Maçonaria n.º 9 (Semestral, Abril 2025); Propriedade: Fine Mirabilis Consulting, Lda; Administração e Redacção: Av. 5 de Outubro, 31, 6.º Andar, Lisboa; Editor: Manuel Pinto dos Santos; Director: Fernando Marques da Costa; Impressão: Europress, Indústrias Gráficas (Lisboa); Lisboa, 201 p.

► Publicação semestral independente, dirigida por Fernando Marques da Costa [FMC] e editada por Manuel Pinto dos Santos, “centrada na investigação” e no estudo da Maçonaria “enquanto fenómeno social, nos seus diversos aspectos”; acolhe “trabalhos que vão da História à contemporaneidade, do ritual ao simbólico, do individual ao coletivo, da espiritualidade ao ceticismo” (in Estatuto Editorial, n.º1, p. 1).

Este projecto cultural é um lugar de reflexão e debate acerca da diversidade maçónica, aquela que, segundo FMC, “nos liberta do dogma, de visões estreitas, que tantas vezes se arrogam uma autoridade que decorre apenas de não aceitar o Outro na sua identificação diversa” (in Estatuto Editorial, n.º 2, p. 3). Por isso, esta atitude na orientação da revista, será o caminho de “aceitar que toda essa diversidade deve ser estudada como fenómeno social, cultural e iniciático” [ibidem].

No seu quinto ano de publicação, este seu nº 9, mantém o debate e a reflexão dos confrontos, numa escrita que procura as palavras num tempo que parece “escoar-se entre as nossas mãos”.    

REVISTA AQUI



TÁBUA: Fake New; A presença do grande Oriente Lusitano e do Grémio Luso-Escocês em Moçambique (1872-1935) [Joaquim Greve dos Santos] | Os processos sobre maçons e a maçonaria no Arquivo Nacional da Torre do Tombo [Manuel Pinto dos Santos] | Pensar Livremente [Fernando Marques da Costa] | O Templo, o poder da Palavra e o Nome Inefável: anotações [José Manuel Martins] | O humor, o riso e a espiritualidade: o caso do grau 20 do REAA [Luís Natal Marques] | Uma abordagem à Justiça: Graus 1º ao 8º [Carlos Anjos] | (Recensões) Lisboa Maçónica [Manuel Pinto dos Santos] | (Alfarrábios) O diabo a quatro de rabo alçado e o grande segredo publicado para desengano de toda a gente que ate’gora vivia enganada (1823) | (Alfarrábios) Memoria semestral de los trabajos de la Log Capitular Fraternidad Ibérica al valle de Sevilla, 1869 | O Grande Oriente Lusitano é agora uma organização Maçónica plural.  

J.M.M.

quinta-feira, 5 de março de 2026

IN MEMORIAM DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES (1942-2026)

 


“Quando a gente houve o Sinatra cantar, o que o torna ainda mais extraordinário é o silêncio. Como aquele homem gere as pausas! Outro dia estava a ouvir (tanto quanto consigo ouvir) os Impromptus de Schubert, pelo [Alfred] Brendel, salvo erro. Aquilo está cheio de silêncio, meu Deus! Se calhar toda a arte devia tender para o silêncio. Quanto mais silêncio houver num livro, melhor ele é.”

“Achava-me investido de uma grande autoridade. Achava que ia ou que estava a renovar a arte do romance. E então, embriagado pelo sucesso, comecei desajeitadamente e de uma maneira injusta, a ser arrogante e violento para pessoas que não o mereciam. Inclusivé para pessoas de quem depois me tornei muito amigo, como o Zé [Cardoso Pires]. A literatura não existia, começava comigo. Há maneiras mais delicadas de se pensar isso [ri]. Tinha necessidade de o dizer - 'Vejam, vejam, vejam!' -, como o menino que achou a bola.”

“Outro dia a minha tradutora sueca, a propósito da doença de uma pessoa muito amiga, dizia: "Deus está a chorar" Para ela, Deus é uma entidade que sofre, a braços com uma criação que muitas vezes o excede. Eu julgo que Deus está presente em todos nós. Nunca vi ninguém morrer e chamar pelo pai. Chamavam pela mãe ou por Deus.”

[«P - Se pudesse escolher os convidados desta noite da homenagem, quem gostava de ver?]

R - Charlie Parker. Alguns músicos de jazz. A gente aprende a frasear com eles. John Lester. Johnny Rodgers. Thelonious Monk. Gostava de ouvi-los a tocar. Não sei se gostaria de falar com eles. Eu tenho muito medo, sabe. A gente mitifica as pessoas. Lembro-me de ter ido ter com um escritor que me convidou para almoçar. Eu disse "Bom dia", ele disse "Bom dia", e fiquei logo desiludido. A gente espera que um escritor diga sempre coisas inteligentes e é muito raro aparecer um Oscar Wilde; um Churchill a quem perguntam aos 80 anos a que é que atribui o segredo da longevidade e ele - "A ginástica, que nunca pratiquei"; um De Gaulle que confrontado com as reivindicações dos operários de uma fábrica de chocolates que visitava diz - "Ora deixa tomar nota aqui na minha tablette"...»

“Sinto-me em paz comigo. Fiz o melhor que pude. Trabalhei muito e fiz o melhor que pude. Se não fiz melhor foi porque não fui capaz. Isto parece a linguagem de um futebolista no fim de um jogo. Mas fiz o melhor que pude. Se os livros não são melhores a culpa é minha.”

«[P - Vai querer que a literatura o recorde como quê?]

R - Vai-me ser igual - porque tenho a boca cheia de terra, não é? - que me ponham nos Jerónimos ou que me deixem na vala comum. Aqui há tempos tive um sonho. Era um pesadelo horrível. Tinha morrido há 20 ou 30 anos, e as pessoas estavam a discutir os livros. E eu queria voltar porque não era nada daquilo. Não imagina como foi desconfortável. Só para explicar: "Não é, não é!»

“Gostava que me acontecesse como ao Tolstoi. Naquela gare onde ele morreu, puseram-lhe um lençol por cima. Ele estava deitado e no lençol a mão dele continuava a desenhar as letras. Era assim que eu gostaria de acabar...”

[António Lobo Antunes, in Entrevista com António Lobo Antunes nos Seus 25 Anos de Carreira: "Acho Que Já Podia Morrer", Público, 9/11/2004]

J.M.M.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

ANTÓNIO VENTURA – SEMEAR TRIÂNGULOS DO MINHO E TIMOR. A EXPANSÃO MAÇÓNICA EM PORTUGAL (1893-1935)

 


LIVRO: Semear Triângulos do Minho a Timor. A expansão maçónica em Portugal (1893-1935)

AUTOR: António Ventura;
EDIÇÃO: Âncora, Janeiro 2026, 223 pags.

LANÇAMENTO:

DIA: 24 de Fevereiro 2026 (17,00 horas);
LOCAL: Grémio Lusitano (Rua do Grémio Lusitano, 25, Lisboa);
ORADORES: Fernando Marques da Costa

ORGANIZAÇÃO: Âncora Editora | Grémio Lusitano

► “[…] Em Portugal, ao longo de mais de 150 anos, nas diferentes fases da existência, enquanto funcionou com Lojas independentes, como a partir do início do século XIX, com a formação e posterior proliferação de Obediências, a Maçonaria considerou sempre a Loja enquanto centro fundamental. Pode haver Maçonaria sem Obediências, mas não há Maçonaria sem Lojas.

Percorrendo a História da Maçonaria em Portugal, encontramos centenas de Lojas e um número significativo de Obediências, em contexto de dispersão e, posteriormente, a partir de 1869, num sentido inverso, de unificação. Nas respectivas constituições e regulamentos ficaram plasmadas as condições necessárias à formação de novas Oficinas, podendo a autorização depender dos critérios definidos pelas Obediências e pelas Câmaras Litúrgicas que dirigiam os ritos; também estabeleciam o número mínimo de Mestres no processo fundacional. Aqui residia a principal dificuldade […]

A criação de novas Lojas em Lisboa ou em localidades onde existissem Oficinas não constituía problema, uma vez que, como sucedeu na maior parte dos casos, resultavam do desdobramento amigável de uma estrutura pré-existente, ou de cisões ditadas por incompatibilidade entre os membros. A dificuldade residia na constituição de Lojas de raiz, noutras localidades. Como seria possível reunir treze Mestres num local onde não existiam maçons?

A Confederação Maçónica Portuguesa, na Constituição de 1850, mantinha os 13 Mestres, como número mínimo de fundadores, porém, abria excepção para localidades distantes, em pelo menos, duas léguas de Lisboa, onde podiam ser instaladas Lojas com apenas sete Mestres […] A Constituição de 1868, do Grande Oriente Lusitano (Conde de Paraty), já não estabelecia diferença de localização, exigindo 13 fundadores, mas apenas sete com o grau de Mestre […]

Apesar de tudo, era difícil criar uma Loja fora de Lisboa, do Porto e de Coimbra, porque seriam necessários sete Mestres fundadores. As viagens eram morosas e não se afigurava exequível a maçons oriundos de uma determinada localidade distante, residentes em grandes centros urbanos, a possibilidade de ajudarem a fundar uma Loja na terra natal e participarem regularmente nos trabalhos […] Perante esta dificuldade, a Constituição do GOLU de 1878, embora mantendo as condições gerais anteriores, retomava a excepcionalidade:

«Fora das localidades onde existam estabelecidas uma ou mais Lojas, poderão ser instaladas outras apenas com sete obreiros, dos quais cinco pelo menos se achem investidos no grau de Mestre. As Lojas assim constituídas serão consideradas perfeitas, e o carácter de regulares só se adquire quanto tenham preenchido o número de treze irmãos nos termos do antecedente. Estas Lojas, contudo, gozarão das mesmas regalias das Lojas regulares».  

A redução do número de Mestres, para cinco, constituía um avanço, mas persistiam dificuldades. Impunha-se aos cinco fundadores a formação noutras Lojas […]

Importava encontrar outa solução, mais expedita, para permitir a desejável expansão maçónica, inverter a evolução pouco positiva do GOLU, quanto ao número de Lojas, mas, principalmente, de reforço à débil implantação regional […]

Foi este panorama desolador que levou o GOLU a tomar medidas para inverter a situação, com a criação de núcleos maçónicos mais pequenos, os Triângulos [formados por um mínimo de três Irmãos regularmente iniciados]. O fundamental deste nosso livro incide sobre o GOLU, no âmbito do qual foi fundada a imensa maioria dos Triângulos maçónicos. Mas também abordaremos outras situações, embora de menor importância, em que também existiram Triângulos: O Grande Oriente de Portugal, o Grémio Luso-Escocês e a Ordem Maçónica Mista Internacional Le Droit Humain […] [in Introdução. Da Loja ao Triângulo – sublinhados nossos]

No total, estão referenciados 391 Triângulos fundados, para além de algumas dezenas, cuja instalação foi autorizada, mas que não se concretizou. Este livro pretende ser um contributo para o estudo e compreensão da expansão da Maçonaria em Portugal, nos espaços continental, insular e ultramarino, entre 1893 e 1935 [AQUI - com sublinhados nossos]

J.M.M.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

GRÉMIO LUSITANO – REVISTA, ANO 14, N.º 29, 2025

 


Grémio Lusitano – Ano 14, nº 29, 2025, p.80; Propr. Grémio Lusitano; Editor: Grémio Lusitano; Director: Pedro Luiz de Castro; Director-Adjunto: Henrique Monteiro; Coord.: Pedro Luiz de Castro, Álvaro Carrilho, Inês Marques; Grafismo: Álvaro Carrilho; Redacção: Rua do Grémio Lusitano, 25, Lisboa.

► TÁBUA: Maçonaria Inglesa versus Francesa

Editorial: A Universalidade Maçónica [Pedro Luiz de Castro] / Maçonaria Inglesa versus Maçonaria Francesa [Fernando Cabecinha] / Da Religião Natural à Religião Revelada – Pensar livre e plural [José Manuel Martins] / História da Maçonaria Inglesa [John Hamill] / História da Maçonaria francesa no final do século XVIII [Pierre Menvielle Tichadel] / O GADU na Tradição Maçónica Francesa: Dificuldades e Incompreensões Históricas [Roger Dachez] / O Versus e o Paradoxo. Rito Francês versus Rito Escocês. A Maçonaria versus partidos políticos [Inácio Ludgero] / Os arquitetos da maçonaria inglesa (1720-1740) [Richard Andrew Berman] / Dois Ritos: REAA e RF. Dois Caminhos, uma mesma Luz, um só ideal [António Maria da Fonseca] / Regulares Ingleses contra Liberais Franceses. Um panorama atual da Maçonaria Mundial [Jean-Moïse Braitberg] / Representações da Maçonaria Portuguesa na Cultura Popular [Paulo Mendes Pinto & Isabel Landeiro] / Só reconhecidos por todos como livres e iguais [Francisco Carromeu] / Versus. Algumas ideias sobre a convergência das Maçonarias e Ritos Maçónicos [Manuel Pinto dos Santos] / Para lá do canal da mancha. É tudo diferente! [Joaquim Grave dos Santos].

Revista à venda no Grémio Lusitano.

► “… A Maçonaria sempre pugnou pelas conquistas sociais, num clima de Liberdade, de Igualdade e de Fraternidade entre os Homens. Sempre foi, por isso mesmo, uma ameaça para aqueles que pretendiam a perpetuação de um determinado «status quo» baseado no controle da sociedade por elites religiosas, políticas, sociais ou económicas.

Não admira, portanto, que a Igreja, e governos totalitários tenham e continuem a perseguir a Maçonaria, exatamente pelos nobres ideais que representou e continua a representar.

Este número da Revista do Grémio Lusitano dedica-se, pois, a uma análise sob vários ângulos do que foram e têm sido, as duas principais correntes de pensamento maçónico existentes no mundo: a inglesa e a francesa.

Muita coisa as une, algumas coisas as separam. Rituais, formas distintas de olhar e interpretar ou interagir com a sociedade, fazem destes «primos», amigos colaborantes e unidos, num desejo comum de tornar o mundo um lugar substancialmente mais decente para se viver, do que aquele em que atualmente nos encontramos” [Pedro Luiz de Castro, p. 3]

 


► “A Maçonaria Inglesa tem as suas ra1zes na fundação da Grande Lo1a de Londres em 1717, considerada o berço da Maçonaria especulativa moderna. Desde então, a influência inglesa espalhou-se pelo mundo, estabele­cendo o que é conhecido como o modelo das Grandes Lojas Regulares.

A Maçonaria Francesa, por sua vez, consolidou-se a partir da criação do Grande Oriente de França em 1773. O contexto iluminista francês e a influência revolucionária moldaram fortemente o seu carácter, tornan­do-a mais aberta a reformas e ao debate filosófico.

Enquanto a Maçonaria Inglesa mantém uma postura trad1c1onaltsra, exigindo a crença num Ser Supremo (o Grande Arquiteto do Universo) como requisito fundamental para a iniciação, valorizando a espirituali­dade, a moralidade e a filantropia, com forte ênfase na discrição e no simbolismo, a Maçonaria Francesa, especialmente após 1877 aboliu a obrigação da crença num Ser Supremo, tornando-se mais secular e racionalista. O foco deslocou-se para a liberdade de consciência, o laicismo, o progresso social e o debate filosófico.

[…] Ambas, no entanto, partilham valores fundamentais como a frater­nidade, o aperfeiçoamento pessoal e o compromisso com a socie­dade, refletindo as suas respetivas culturas e contextos históricos.

Esta Revista convida, pois, à leitura e reflexão dos textos nela inseridos, na procura de conhecimento capaz de nos consciencializar para que serve a Maçonaria, quais as suas principais valências e a mensagem que pretende transmitir.

A bem da dignidade do ser humano e do humanismo” [Fernando Cabecinha, Grão-Mestre GOL, p. 5]

J.M.M.

domingo, 18 de janeiro de 2026

RELEMBRANDO CARLOS [MAIA] TEIXEIRA

 


“Uns vêm outros vão, as pessoas, a luz, as ondas do mar. Mas há Homens que vão e também ficam, que teimam em não partir, que deixaram memória por resgatar e obra para nos elevar.

14 de Janeiro. Há um ano partia um amigo, sem surpresa. O seu fim físico estava anunciado pela evolução acelerada de uma perniciosa e inelutável doença. Diga-se que lutou quanto e enquanto pôde, nunca entregou o jogo, não baixou a guarda e encarou o último dia com a mesma esperança do primeiro.

Carlos [Maia] Teixeira, o médico de Arganil, o poeta e repúblico, cúmplice fraterno de tantas causas: da saúde à assistência social, dos Bombeiros às Misericórdias, da escrita à fotografia, do esoterismo à espiritualidade, da política à intervenção pública. Em todos campos deixou um rasto, de todos os actos ficou um eco. Inconformado, apaixonado, sacrificado. Depois da “escola” de Coimbra na sua juventude, a maturidade fixou-o em Arganil. Contagiado pelo humanismo e entrega profissional de Fernando Valle, viciado no telurismo e na poesia de Torga, inebriado pelos perfumes da Arte Real e Altos Graus, integrou e fez-se rodear dos círculos da sabedoria e da fraternidade serranas do Açor e da Estrela.

Quem vai esquecer o burrico Alexandrino, numa ilustração soberba de Alberto Péssimo e lido pelo José Queiroga na Ordem dos Médicos? Como ignorar os Contos de Palmo e Meio, com fotografias do autor e desenhos de Mário Silva, prefaciado por Sinde Filipe? Ou o Diário das Horas de Mal Dizer? E nós, os mais próximos, que nos ilustrámos com os seus versos tardios e os balaústres da madrugada, que fazer?

Sonhamos que estás vivo, meu amigo, que vais agora declamar Pessanha, Torga ou Pessoa. Que nos ofereces um dos cigarros malditos que te afundaram, e na subtil nuvem de fumo transpareces sorrindo, conformado. Que nos contas a conversa com o Gageiro sobre o 25 de Abril e as suas aventuras da madrugada. E que nos indicas um caminho, com muitas opções mas na mesma direcção – o oriente que perseguimos livremente, e onde repousas eternamente”.

[Manuel Seixas, in Fala o Leitor, Diário de Coimbra, 18 de Janeiro, 2026, p. 10]

J.M.M.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

VOTOS DE UM 2026 FRATERNO


“A amizade é uma filigrana de encontros” [Alberoni]

Aconteceu-nos um 2025 deambulatório, insulado de letras, palavras & carícias, ou não estivéssemos no labor da docência, esse antiquíssimo pranto da modulada ilustração lusitana. Mas muito antes que o tempo nos traia declaradamente a nossa Liberdade, e sem nenhuma licença necessária & presidenciável que seja, no labor da nossa permanência serena de guardar lábios à tradição respublicana, e muito antes do tempo de se inventar de novo aquele “futuro de sermos tudo”, avançamos com Leonardo da Vinci: O espelho é o nosso mestre

Aos nossos estimados leitores, amigos e companheiros deste itinerário da Grande Alma Lusitana e Republicana, aceitai os nossos sinceros VOTOS de um 2026 Fraterno e com muita Luz.

Vale.

                               Saúde, Paz & Fraternidade

José Manuel Martins | Artur Barracosa Mendonça

HISTORIOGRAFIA CONTEMPORÂNEA PORTUGUESA DE 2025 – A NOSSA ESCOLHA

 


HISTORIOGRAFIA CONTEMPORÂNEA PORTUGUESA DE 2025

1. Afonso Costa. O Socialismo do Príncipe da República – Jorge Pais de Sousa (Almedina), 204 p.

2. Dicionário Crítico da Revolução Liberal (1820-1834) – Rui Ramos et al (Dom Quixote), 1656 p. | A Carta e os seus vinte e dois anos de idade – José Liberato Freire de Carvalho (Lema d`Origem), 76 p.  

3. Aristides de Sousa Mendes. Na Encruzilhada de uma Carreira – Lina Alves Madeira (Âncora Editora), 400 p.  | José Bonifácio de Andrada. Patriarca da Independência do Brasil e Fundador da Nacionalidade – José Theodoro Mascarenhas Menck (Tinta da China), 180 p.Parte inferior do formulário

4. Dicionário da Geração de 70 - VV. AA. (Editorial Presença), 832 p. | Montaigne ou a Vida Escrita – Eduardo Lourenço (Gradiva), 136 p. | Lições da História. Podemos aprender com o nosso passado? – Edgar Morin (Critica), 128 p. 

5. «Mas Santo, Porquê?». Tomás da Fonseca e a Polémica Coimbrã sobre Nuno Álvares Pereira – Luís Filipe Torgal (Lema d’Origem), 47 p. | A Iniciação de Voltaire na Loja das Nove Irmãs – A. Germain | D. João VI e o Exército – António Ventura (Âncora Editora), 150 p.

6. A Guerra Civil em Portugal. A Luta Sangrenta entre Liberais e Absolutistas (1817-1834) – Rui Rosado Vieira (Colibri), 284 p. | João Brandão - J.M. Dias Ferrão (Âncora Editora – Edição fac-similada), 510 p.

7. Relações Perigosas. A cumplicidade da PIDE com as secretas ocidentais – Irene Flunser Pimentel (Temas e Debates), 584 p. | Histórias da PIDE: Quando Salazar Mandava - José Pedro Castanheira (Tinta da China), 320 p. | A Caminho do 25 de Abril. Uma organização clandestina de oficiais da Armada – Luísa Tiago de Oliveira (Edições 70), 284 p. 

8. Uma Sociedade Fechada e os Seus Inimigos. O Portugal de Salazar – Fernando Pereira Marques (Gradiva), 500 p. | Revolução. A Construção da Democracia Portuguesa - Maria Inácia Rezola (Dom Quixote), 288 p. | A Marinha de 25 de Abril de 1974 a 25 de Novembro de 1975. As Sequelas Profissionais - Manuel Martins Guerreiro (Colibri), 160 p.

9. O Algarve da Monarquia à República: outros tempos, outras vontades! – Idalécio Soares (Fundação Calçada Correia), 341 p. | Silves ou a Insustentável Essência da Arte – Maria João Raminhos Duarte (Edições Colibri), 262 p. | Viagem ao Reino do Algarve – Virgílio Machado (U. do Algarve)

10. Tarrafal, 1975. O Campo do Silêncio - Sandra Inês Cruz (Afrontamento), 220 p. | O Poder - é seguido de Compêndio e O Cume da Teoria – Nicolau de Cusa /João Maria André (Edições 70), 206 p. | História(s) do Mosteiro de Arouca - Maria de Lurdes Correia Fernandes (Húmus), 114 p.

A.A.B.M.
J.M.M.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

OS CONJURADOS - RESTAURAÇÃO DE 1640

 


“Se há nação no mundo para a qual o mesmo mundo seja pátria, somos nós”

[Padre António Vieira, Sermão de Nossa Senhora da Conceição]

" ... Portugal se achava quebrantado, & consumido com a perda do Rei Dom Sebastião, morte, & cativeiro da melhor, & maior parte da nobreza, & de muito povo, & com peste, que logo se seguiu; não pôde resistir, & logrou-se melhor a violência. D. Philippe não só com o aparato de guerra, mas com promessas, & dádivas rendeu muitos ânimos, & corrompendo tudo, oprimiu o verdadeiro direito..."

[António Pais Viegas, Manifesto do Reyno de Portugal, 1641]

 

[Conversa entre D. João com o seu secretário, António Pais Viegas]:

-  [António Pais Viegas] “em caso que o reino se resolvesse a fazer uma república, seguiria sua majestade as partes dela ou as de Castela?” 

- [D. João] “em qualquer acontecimento se havia de acostar sempre ao que o comum do reino seguisse”

[in Restauração de Portugal Prodigiosa, 1753]


J.M.M.

sábado, 22 de novembro de 2025

O CONSTITUCIONAL JUSTIFICADO, OFFERECIDO, E DEDICADO AS CONSCIENCIAS DOS ANTI-CONSTITUCIONAES POR ***

 


LIVRO: O Constitucional Justificado, Offerecido, e Dedicado as Consciencias dosAnti-Constitucionaes;
AUTOR: *** (Anónimo);
EDIÇÃO: Typographia Rollandiana, 1820, 51 pp.

Trata-se de um interessantíssimo opúsculo, muito raro e valioso, publicado anónimo em 1820, contra os "satellites do despotismo" e onde se defende a convocação das "Cortes Extraordinarias, para formarem huma Constituiçaõ analoga ás luzes do século, aos nossos costumes, á nossa prosperidade, e propria para crear hum espirito verdadeiramente Nacional”. 

Peça invulgar e muito curiosa, é de grande interesse para a Revolução de 24 de Agosto de 1820 e a Constituição de 1822 e foi decerto distribuída como propaganda no lançamento da “sabia Constituiçaõ” que “sustentará o justo equilíbrio da sociedade” de modo que – como é referido - a “Concordia termine em socego a Grande Obra, que o Heroismo emprehendeo com enthusiasmo” e que “sejamos surdos ás pérfidas sugestões da Cabála: faça cada hum o seu dever, e seremos felizes”.

Esta espécie bibliográfica muito rara e de grande estimação foi gentilmente digitalizada e disponibilizado ao (selecto) público estudioso das ideias liberais, da Revolução de 1820 e do Constitucionalismo nascente, pela Biblioteca Maçónica do Baixo Mondego (BMBM) que assim cumpre o seu dever: recolha e livre disponibilização de peças bibliográficas […] merecedoras de atenção do amante do livre-pensamento.  

Gratidão!

J.M.M.

domingo, 5 de outubro de 2025

VIVA O 5 DE OUTUBRO! VIVA A REPÚBLICA!

 


“Faça-se a República!” [Afonso Costa]

“O nosso ideal não é construir um mundo – é apenas construir uma casa – a nossa casa – segundo o plano que nos legaram os arquitectos de 89” [João Chagas]

"A República, nesta hora, vive pela recordação dos seus grandes mortos. Ergamos religiosamente a sua memória e juremos sobre os seus túmulos sustentar através de todas as vicissitudes a obra que eles souberam construir, á custa de tantos sacrifícios, iluminados pelo mais puro ideal" [in "O MUNDO", 3 de Outubro de 1926]

VIVA O 5 DE OUTUBRO! VIVA A REPÚBLICA!
SAÚDE E FRATERNIDADE!

J.M.M.
A.A.B.M.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

O OUTRO AFONSO DUARTE – POR ANTÓNIO VALDEMAR

 

O Outro Afonso Duarte – por António Valdemar, in O Figueirense

A descoberta, no contacto direto com as populações, do modo de ser e de estar do povo português através de exemplos recolhidos no tesouro poético das quadras populares e na sabedoria dos adágios e provérbios.

Entre os grandes poetas do seculo XX, Afonso Duarte ocupa um lugar de relevo na História da Literatura Portuguesa e nas principais antologias da poesia portuguesa. Celebrou a energia cósmica da natureza, a exaltação panteísta da vida, o apego as raízes telúricas e humanas e, simultaneamente, os grandes valores universais que fundamentam a liberdade e a democracia.

Afonso Duarte (1884–1958) nasceu na Ereira, concelho de Montemor-o-Velho, no território tão característico do Baixo Mondego, onde nasceram outros poetas, escritores, artistas plásticos, mestres universitários e outras personalidades de projeção cultural, política e social. Todavia, a quase totalidade da vida pessoal, profissional e literária de Afonso Duarte decorreu em Coimbra em cuja Universidade se licenciou (Ciências Físico Naturais) e onde também exerceu o magistério secundário, sendo erradicado do exercício de funções, por motivos políticos, nas primeiras purgas efetuadas pelo governo de Salazar.

A conjugação do real e o imaginário manifesta-se com forte poder metafórico logo nos primeiros livros: Cancioneiro das Pedras [1912]; Tragédia do Sol Posto [1914]; Rapsódia do Sol-Nado e Ritual do Amor [1916] que serão revistos e selecionados, em 1929, num único volume Os 7 Poemas Líricos. Esta fase reflete uma proximidade com a poesia de Teixeira de Pascoaes e da doutrinação literária e estética difundida na revista A Águia e no movimento Renascença Portuguesa.

Um novo ciclo poético se vai evidenciar partir dos anos 30, documentado em livros de referência como Ossadas (1947); Post-Scriptum de um Combatente (1949); Sibila (1950); Canto da Babilónia (1952); Canto de Morte e Amor (1952); Lápides e Outros Poemas (1956-1957), reunidos, em 1956, na primeira edição da Obra Poética. Corresponde ao período em que Afonso Duarte se insere no ideário da Seara Nova, acompanha o movimento da Presença e, mais tarde, o movimento dos neorrealistas reunidos. Embora não tenha livros publicados no âmbito do Novo Cancioneiro, é um colaborador da revista Vértice. Carlos de Oliveira, Mário Braga e Joaquim Namorado, assinalam-se entre os seus amigos que frequentavam as tertúlias instaladas em cafés históricos de Coimbra.

Desde Cancioneiro das Pedras – editado em 1912 –, Afonso Duarte evidenciou uma relação possessiva com a terra natal e em todas as estações do ano: «As cheias vindas às casas! / Tudo afoga em dilúvio, ervilhal e giesta, /o próprio lar, as brasas! /o vento assopra ao desamparo, o vento grita, / como um louco varrido! /A Aldeia é um gemido». (…) «Asa do vento, como vens distante? /E o vento avança, o vento diz: mais longe!». É uma permanente reivindicação das suas origens: «canto o amor de meus campos e baldios/ meu casal que é uma ilha aos quatro ventos». A Ereira, desde então, passou a ser incluída na literatura portuguesa».

Mas além da obra poética, Afonso Duarte realizou, nos anos 20 e 30 do século passado, um trabalho pedagógico que mudou a orientação preconizada no ensino do desenho, rompendo com os métodos existentes, quer na instrução primária, quer nos estudos secundários. Encontra-se, pormenorizada em três ensaios: O Desenho na Escola, Barros de Coimbra (Lúmen, 1925); Carta Metodológica "do desenho decorativo"; e Os desenhos animistas de uma criança de 7 anos (Imprensa da Universidade de Coimbra, 1933). Ficou a ser um dos precursores da «educação pela arte», que seria desenvolvida, a partir dos anos 50 por Calvet de Magalhães (1913-1975), como professor e diretor da Escola Francisco Arruda, em Lisboa, e nas campanhas que, periodicamente, desencadeou no Diário de Lisboa.

Há ainda outra componente muito significativa na criação intelectual de Afonso Duarte: a investigação etnográfica publicada, através da Seara Nova, em duas obras que obtiveram, na altura, o interesse da crítica: O Ciclo do Natal na Literatura Oral Portuguesa (1936) e Um Esquema do Cancioneiro Popular Português (1948).

No texto introdutório desta segunda obra referiu que: «a propósito de tudo, a gente do povo sabe uma quadra; uma sabedoria milenar que passou a herança poética (…) «impregnada de “nuances” afetivas próprias das nossas atitudes mentais», após o que justificou o sentido e oportunidade desta antologia: um «breviário de conceitos morais, formando corpo de doutrina sobre a honra, firmeza, fidelidade, prudência, diligência e persistência, confiança e franqueza, amor da família, e uma filosofia da experiência que é toda perdão, desculpa e paciência perante as fraquezas da vida».

Nestas duas obras de Afonso Duarte – que merecem ser reeditadas e lanço o apelo à Câmara Municipal de Montemor-o-Velho –, perdura o vínculo profundo que o ligava à Ereira e às singularidades dos Campos do Mondego, tão visível na sua poesia: «Sem esta terra funda e fundo rio/ que ergue as asas e sobe em claro voo; / sem estes ermos montes e arvoredos / eu não era o que sou».

Não se pode classificar uma investigação saudosista, à semelhança de muitas outras manifestações promovidas pelo salazarismo, tais como «Monsanto, a aldeia mais portuguesa de Portugal». Afonso Duarte repudiava todas essas incursões no passado. Basta recordar estes versos de forte contundência epigramática incluídos em Ossadas: «O antigo é a doença que eu mais detesto/ É viciar o que já foi virtude! O tornar ao Passado é sempre um resto».

Mas ao proceder à sistematização da poesia popular, Afonso Duarte teve por objetivo recolher quadras, trovas, adágios e provérbios que definem o comportamento do povo português através dos séculos: a humanização da natureza, os sentimentos afetivos, as virtudes e vícios, o riso e as lágrimas, a ironia e o sarcasmo que se aplicam às mais diferentes circunstâncias. Quantas «carapuças» existiam no tesouro do Cancioneiro popular que se poderiam aplicar ao regime político e ao próprio Salazar? A obra poética de Afonso Duarte e as outras criações em que se empenhou colocam-nos perante um notável poeta que associou sempre a literatura e a cultura à militância cívica.

“O Outro Afonso Duarte” – por António Valdemar [Jornalista, carteira profissional número Um; sócio efetivo da Academia das Ciências], in O Figueirense, 27 de Agosto de 2025, p.21 – com sublinhados nossos.

J.M.M.