domingo, 9 de maio de 2021

IV ENCONTRO DE HISTÓRIA DE LOULÉ DE 2021

 O programa do IV Encontro de História de Loulé de 2021, a realizar nos próximos dias 21 e 22 de maio de 2021.




São treze comunicações ao longo de dois dias que podem ser acompanhados em directo via plataformas online. Contando com investigadores de várias proveniências e percorrendo os vários períodos da História, desde a Idade Média até à Época Contemporânea.

Com os votos de maior sucesso para esta iniciativa promovida pela Câmara Municipal de Loulé através do Arquivo Municipal de Loulé - Professor Joaquim Romero Magalhães.

A.A.B.M.






sexta-feira, 7 de maio de 2021

O LIBERAL DE GAYA. SEMANÁRIO ANTI-JESUÍTICO (1899-1900)

 


O LIBERAL DE GAYA. Semanário Anti-Jesuítico [ao ano II, nº1: Órgão da Concentração Democrática de Gaya] - Ano I, nº 1, 30 de Janeiro de 1899 até Ano II, nº 1, 1 de Janeiro de 1900; Administrador: ao nº 19 (3 Junho 1899): Abílio Azevedo; Secretário da Empresa: Ernesto Pinto; Editor-responsável: Celestino Luiz; Redacção e Administração: Rua do Marquez Sá da Bandeira (Vila Nova de Gaya); Redactor Principal: (ao nº19) A. de Pinho Ferreira; Impressão: Typ. Gutenberg (Rua dos Caldeireiros, 43, Porto; Vila Nova de Gaya, 1899-1900

Trata-se de um semanário publicado em Gaia, um dos vários periódicos [como, A Semana de Loyola. Semanário anti-jesuítico (1884-1886), O Anti-jesuíta (1894-1895) ou 0 Jesuíta (1901)] que contribuíram, no final de oitocentos, para a vigorosa campanha do antijesuitismo em Portugal. O periódico foi querelado e suspendeu a publicação ao nº 33 (9 de Setembro 1899), através de um curioso Suplemento (“Explicação aos nossos bondosos leitores”), só regressando a 1 de Janeiro de 1900 (último nº ?) como Órgão da Concentração Democrática de Gaya (curiosamente a 29 de Julho desse ano a organização ofereceu um banquete aos deputados republicanos de Gaia, tendo assistido 80 pessoas – cf. A. H. de Oliveira Marques, Correspondência política de Afonso Costa, p. 181).

 “ … O Liberal de Gaya, surgiu como synthese do sentir da alma revoltada d'este concelho contra os que, a esta hora adeantada da civilisação, se persuadiram de que, n'esta terra de trabalhadores, podia ainda fazer ninho, medrar e crescer o odioso plano de Ignacio de Loyolla contra a humanidade, concebido por esse seductor de fidalgas no dia em que se convenceu que a bala recebida no cerco de Barcellona o tinha privado para sempre de continuar a ser o militar gentil, mais conquistador de corações de mulheres que mesmo de sarracenos.

Vimos a proclamar bem alto os sentimentos liberaes dos habitantes d'esta terra; a desmascarar a chantage que se pretende aqui fazer com a religião, para fios ignóbeis, para propaganda de retrocesso, para augmentar proventos que o povo vai desviando do pé d'altar, conforme abraça outras crenças ou se resolve a passar sem ellas […]

Não vimos a commungar n'este ou n'aquelle partido; d'aqui só falíamos em nome da liberdade, e unicamente por ella vimos a combater.

Esperamos pois que em todos os campos onde a bandeira liberal pode hastear-se, os seus soldados venham a nós, para derrotarmos o inimigo commum, que pela lei em vigor do grande marquez de Pombal está expulso d'este paiz, mas cá introduzido pelos inimigos da Patria. [“A que vimos”, in nº1, 30 Janeiro 1899]

[Alguma] Colaboração/textos assinados: A. de Pinho Ferreira, A. J. Machado, Abílio Azevedo, António d’Almeida, António de Clermont, António Martins, Augusto Dias, Bruno, Campos Lima, Danton, Frei João, Gil Vaz, Gregório, Heliodoro Salgado, Henrique de Macedo, Lima Barreto, Luthero, Manuel P. dos Santos, Marte, Monteiro Borges, Oliveira Rios, Sá Gomes, P. Madeira, Platão, R. da Rocha, Robespierre, Tobias Moreno, Violeta, Voltaire.

 J.M.M

domingo, 2 de maio de 2021

UMA DENÚNCIA


A PIDE, nos anos 40, tendo em conta o leque alargado de competências que exercia, possuía ainda uma estrutura débil e era incapaz de efectuar uma cobertura ampla e permanente do País, sendo a sua acção especialmente limitada em todo o interior de Portugal. Para suprir estas limitações, a PIDE contava com a colaboração de várias outras entidades, tais como a PSP, a GNR, a Guarda Fiscal, a Legião Portuguesa, os responsáveis concelhios, os Governadores Civis, ou a rede de informadores que entretanto foi construindo.

Outra ajuda substancial de que a PIDE se serviu foram as denúncias. Sabemos que a PIDE organizou elevado número de processos a partir deste tipo de informações. No entanto, estas, muitas vezes, também representavam um problema para a Polícia Política pois, frequentemente, as denúncias nem sequer tinham motivos políticos, sendo antes fruto de rivalidades, de vinganças ou de pequenas ambições. Havia raparigas que denunciavam antigos namorados, pais que denunciavam amigos ou colegas dos filhos, doentes que denunciavam médicos. Denunciaram-se pessoas por estas vestirem de vermelho, por não irem à missa, por terem conversas suspeitas em determinados locais públicos, ou por serem vistos na rua fora de horas.

Nada disto tinha muito interesse para a PIDE e originava outro problema: por vezes, a Polícia Política queixava-se do grande volume de denúncias, tendo dificuldade em efectuar a sua triagem. Tal aconteceu, por exemplo, em relação às informações enviadas pela Legião Portuguesa.


O exemplo que reproduzo aqui hoje é uma daquelas denúncias que, em princípio, não teria qualquer interesse para a PIDE. No entanto, estava em causa uma palavra que estava proscrita e, assim sendo, a PIDE tratou de actuar com a rapidez necessária. Esta carta, remetida à PIDE por um cidadão que desconhecemos, data de 30 de Maio de 1947:

“Exmo. Senhor
Para os efeitos que V. Ex.ª julgar convenientes tenho a honra de informar o seguinte:
Ontem cerca das 21,30 horas, quando me utilizava do «mictório» do Café Montanha desta cidade, observei que numa das paredes se encontravam escritos os seguintes dizeres: «Viva o comunismo» e mais qualquer coisa que não consegui ler, em virtude da iluminação no local ser muito fraca”.

Perante esta denúncia e ainda no mesmo dia, o chefe da delegação da PIDE de Coimbra deu as suas instruções, escrevendo na própria carta, no seu canto superior esquerdo: 

“Ao agente de serviço externo, para intimar o proprietário a fazer desaparecer a inscrição”.

No dia seguinte o assunto foi tratado e a informação do agente para a chefia, voltou a ser escrita na mesma carta, agora no canto superior direito:

“O despacho por V. Ex.ª exarado ao lado foi cumprido. Os escritos foram apagados na minha presença”.

Mais uma missão realizada com sucesso![1]



[1] Documentos do arquivo da PIDE/DGS, processo Del. C. n.º 829, de Joaquim Namorado.

 


Publicado originalmente na edição em papel do Jornal Terras de Sicó

Paulo Marques da Silva

sábado, 1 de maio de 2021

VIVA O 1º DE MAIO

 


“… Tenhamos sempre presente que, em política, os paizinhos

tendem sempre a durar quase cinquenta anos pelo menos.

E aprendamos que, em política, a arte maior é a de exigir a lua

não para tê-la ou ficar numa fúria por não tê-la,

mas como ponto de partida para ganhar-se, do compromisso,

uma boa lâmpada de sala, que ilumine a todos …”

 

[Jorge de Sena, Com que então libertos, Hein? …, Moraes, 1982]


VIVA O 1º DE MAIO!


SAUDAÇÕES REPUBLICANAS

SAÚDE E FRATERNIDADE!



domingo, 25 de abril de 2021

QUE VIVA ABRIL! – 25 DE ABRIL SEMPRE!

 


«Contarás de Abril, aos meus filhos, que os meus olhos ardidos, urbanos, ficaram cheios de um ofício de dizer coisas singelas, humildes: como amor, liberdade. Contarás de Abril os idos e os que voltaram, os que ficaram e ficam. Contarás de Abril pequenas pilhas de palavras, armazenadas numa necessidade que inventei; e as nossas almas ledas e limpas: e os braços que se estendem a outros abraços; e a cordialidade de anotarmos um nome, um número, uma flor […]»

[Baptista-Bastos, Venham mais 25, in O Diário, 25 Abril 1990]












REVOLUÇÃO

Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação

[Sophia de Mello Breyner Andresen, in O nome das coisas, 1977]

 

«Lá vai o português, diz o mundo, quando diz, apontando umas criaturas carregadas de História que formigam à margem da Europa.

Lá vai o português, lá anda. Dobrado ao peso da História, carregando-a de facto, e que remédio – índias, naufrágios, cruzes de padrão (as mais pesadas). Labuta a côdea do sol-a-sol e já nem sabe se sonha ou se recorda. Mal nasce deixa de ser criança: fica logo com oito séculos […]

Tem pele de árabe, dizem. Olhos de cartógrafo, travo de especiarias. Em matéria de argúcias será judeu, porém não tenaz: paciente apenas. Nos engenhos da fome, oriental. Há mesmo quem lhe descubra qualquer coisa de grego, que é outra criatura de muitíssima História.

Chega-se a perguntar: está vivo? É claro que está: vivo e humilhado de tanto se devorar por dentro. Observado de perto pode até notar-se que escoa um brilho de humor por sob a casca, um riso cruel, de si para si, que lhe serve de distância para resistir e que herdou dos mais heroicos, com Fernão Mendes à cabeça, seu avô de tempestades. Isto porque, lá de quando em quando, abre muito em segredo a casca empedernida e, então sim, vê-se-lhe uma cicatriz mordaz que é o tal humor. Depois fecha-se outra vez no escuro, no olvidado.

Lá anda, é deixá-lo. […]»

[José Cardoso Pires, in E agora José, 1977]

J.M.M. | A.A.B.M.

terça-feira, 13 de abril de 2021

VERDADEIRA LITANIA PARA OS TEMPOS DA REVOLUÇÃO



Mário nós não somos todos burgueses

os gatos e os ratos se quiseres,

os literatos esses são franceses

e todos soletramos malmequeres.


Da vida o verbo intransitivo

não é burguês é ruim;

e eu que nas nuvens vivo

nuvens! O que direi de mim?


Burguês é esse menino extraordinário

que nasce todos os anos em Belém

e a poesia se não diz isto Mário

é burguesa também.


Burguês é o carro funerário.

Os mortos são naturalmente comunistas.

Nós não somos burgueses Mário

o que nós somos todos é sebastianistas.


[Natália Correia, in Poesia Completa, 1999] 

J.P.P.

sábado, 20 de março de 2021

UM ASSUNTO DE “DETECTIVISMO”

 


Em Maio de 1940, apareceu na Granja do Ulmeiro um indivíduo que se hospedou na Pensão Carioca, mesmo em frente à estação dos Caminhos de Ferro de Alfarelos.

O procedimento e o viver deste indivíduo era algo misterioso e começou a intrigar a população local. Fazia a sua vida na estação, aparecia a todos os comboios, quer fosse de dia, quer fosse de noite, incluindo os comboios que transportavam o correio, que passavam de madrugada, só se deitando pelas 4 horas da manhã.

Dizia o próprio ser elemento da Polícia Internacional (PVDE), já tendo exibido a sua identidade de polícia, e andava sempre armado com uma pistola.



Nos intervalos da passagem dos comboios frequentava os vários estabelecimentos comerciais e tabernas, pagava o seu copo de vinho aos presentes, sempre com “um risinho de pomba”, fazendo-se grande “companheiro da borga”. Quando, durante estes convívios, alguém começava a falar do conflito internacional em curso, com alguns comentários, ele imediatamente aconselhava ao silêncio sobre a matéria e que se abstivessem de se pronunciar publicamente, devendo fazê-lo apenas intimamente.

Duas vezes por semana, aparecia também por ali um outro indivíduo, também polícia, vindo geralmente de Lisboa, e os dois eram vistos a trocar sinais e a passarem entre si pequenos papéis. Numa outra ocasião foram encontrados, numa sala de espera da estação, a conversar em segredo.

As opiniões locais sobre o assunto dividiam-se: para alguns, o indivíduo que ali vinha fazer os encontros devia ser um chefe da Polícia Internacional que fazia serviços nos comboios, enquanto para outros, tratar-se-ia de um polícia de investigação criminal ao serviço da CP.

Voltemos ao personagem principal. O indivíduo em questão chamava-se Gustavo, teria pouco mais do que 40 anos, de faces vermelhas e bem apresentado. A sua conduta, cheia de mistério, trazia assustada as gentes do local, que começava a esperar que a qualquer momento surgisse “novidade grossa e num mau ambiente”.

Este texto, mais não é do que um resumo de um relatório do informador Inácio, incumbido, por determinação do inspector Sales Velez, duma investigação “muito secreta” e conduzida “com o maior cuidado possível” em Alfarelos e na Granja do Ulmeiro. Este é mais um de tantos mistérios de que não conhecemos o seu final, pois os documentos encontrados não permitem tal. Possivelmente, nunca saberemos quem foi Gustavo, se é que era este o seu nome, nem o que, verdadeiramente, andava a fazer por aquelas bandas. Verificamos, no entanto, que este indivíduo, talvez ao contrário do que seria de esperar, não primou por passar despercebido e que o informador Inácio entrou neste jogo de disfarces, tentando descodificar o enigma. E o que concluiu Inácio após o seu trabalho de pesquisa. Vejamos o final do seu relatório: 

“Se é realmente um polícia da PVDE tem procedido tão desastradamente e com tanta falta de senso que pasma, pois toda a gente está de sobreaviso e ele nada consegue.

Se é outro género de polícia o facto é o mesmo, porque a sua misteriosa maneira de viver, faz acautelar toda a gente e à sua volta, há por isso, as mais desastrosas versões.

É possível que se venha a tratar de um qualquer aldrabão com a mania de detectivismo, mas então pergunta-se: quem lhe paga tantas despesas que faz?”

A análise de Inácio parece fazer todo o sentido. Certamente, esta não terá sido a forma mais eficaz de actuar de um agente de uma polícia de informações, com a exibição da pistola e do distintivo pelos cafés do lugar. Evidentemente, hoje, um polícia (secreto) teria uma actuação bem diferente. Até porque, hoje em dia, tudo é diferente: as técnicas, as tácticas e a tecnologia, claro. Existe, no entanto, uma situação (ou preocupação) que permanece inalterável, desde 1947 até aos dias actuais, quer para a Polícia, quer para o cidadão comum: o problema do pagamento das despesas!

Publicado originalmente na edição em papel do Jornal Terras de Sicó

Paulo Marques da Silva

domingo, 14 de março de 2021

A IMPRENSA LIBERAL DO PORTO (BORBOLETA CONSTITUCIONAL E BORBOLETA DURIENSE) E JOÃO NOGUEIRA GANDRA

Periódico fundado e redigido por João Nogueira Gandra, surge na sequência do jornal Borboleta Constitucional, fundado em 12 de Maio de 1821 e que se publica até 31 de Dezembro de 1822 (295 números).

Seguiu-se entretanto a Borboleta dos Campos Constitucionais, que se publicou entre 14 de Maio e 25 de Agosto de 1821 (89 números), portanto houve uma alteração de nome neste período. Posteriormente publicou-se o Borboleta Duriense, entre 2 de Janeiro de 1823 e 30 de Junho de 1823 (144 números).

Por fim, já noutro contexto, mas ainda com o mesmo redactor, vamos ter A Borboleta, que se publicou entre 16 de Julho de 1826 e 5 de Março de 1828 (90 números). Foi neste jornal que pela primeira vez, no Porto, se apresentou uma ilustração xilogravada.



Sobre João Nogueira Gandra:

Nasceu na paróquia de Santo Ildefonso, na cidade do Porto, a 17 de Julho de 1788, e morreu a 5 de Dezembro de 1858. Frequentou, por ter realizado a matrícula na Faculdade de Matemática, na Universidade de Coimbra, em 15 de Outubro de 1806, mas não consta nada mais a partir daí, pelo que se conclui que não continuou os seus estudos. Consta que na sua mocidade pretendera seguir a profissão de medicina, porém contrariedades sobrevindas o impediram de concluir os estudos respetivos. Foi um defensor da ideias liberais na cidade do Porto, onde contribuiu para a divulgação dessas ideias através da publicação de diversos jornais.

Foi membro da Sociedade Patriótica Portuense (1822/1823) e da Sociedade Patriótica Instrutiva da Juventude Portuense (1823). Chegou a ser acusado de pertencer à Maçonaria, mas refutou sempre essa acusação.

Comendador da Ordem de Cristo, Cavaleiro da N. S. da Conceição, condecorado com a medalha n.º 2 da Campanha Peninsular. Foi em 1821 e 1822 redator principal do periódico Borboleta Constitucional, publicado no Porto; e depois em 1833 colaborador da Crónica Constitucional, do Artilheiro, e de outros jornais. Publicou ainda Diário do Porto. Porto: Gandra & Filhos, suplemento ao n.º 1 (16 de janeiro de 1835); n.º 1 (19 de janeiro de 1835) a n.º 128 (11 de julho de 1835).

Na sua tipografia foram impressos pelo menos 9 periódicos portuenses, a que se juntam mais 9 na Gandra & Filhos.

Sobre o início da sua actividade como tipógrafo, no Porto, deve consultar-se aqui, onde consta um requerimento para instalar uma oficina na referida cidade, apresentado em Março de 1821. Consultar AQUI.

Com João António Ribas, em 1828, que compõe a musica para "Il Giubilo Nazionale", tendo por base um texto de João Nogueira Gandra.

Devido ao apoio prestado à causa liberal, foi preso e condenado ao degredo, em 1829, durante o consulado miguelista, tendo sido ordenada a sua saída para Moçambique, segundo ofício do Ministro Assistente ao Despacho e Secretário de Estado da Guerra, Duque do Cadaval, D. Nuno Caetano Alves Pereira de Melo, para o então Secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Conde de Basto, José António de Oliveira Leite de Barros.

Dedicou-se à tradução do libreto da ópera Ana Bolena, escrito por Felici Romani, com música de Caetano Donizetti, em 1837. 

Começou por ser 2.º bibliotecário da Biblioteca Pública do Porto e, em 24 de Maio de 1842, por Decreto, passou a 1.º Bibliotecário interino. 

Em 7 de dezembro de 1858, realizou-se o funeral, com responso, à noite, na Igreja do Terço para João Nogueira Gandra, com música oferecida pela orquestra nacional (i.e. italiana) do Teatro S. João, em reconhecimento dos inúmeros serviços prestados pelo sr. Gandra ao teatro, assistindo mais de 400 pessoas, sendo depois conduzido o cadáver ao Prado do Repouso, sendo as honras militares prestadas pela Infantaria n.º 5, porque o finado fora secretário do Governo Militar da província (jornal “O Porto e a Carta”, 9 dez.1858, p. 3 e retificação no dia 10, p. 3).

Conhecem-se ainda, publicados na sua tipografia:

- Hymno Patriotico que se cantou em 24 de Agosto e se ha de cantar na praça da Constiuição. Porto: Imprensa do Gandra,1821.

- Hymno Constitucional cantado no Real Theatro do Porto em Julho de 1826. A Letra he de J.N.Gandra. A Musica he de A.J.Nunes. Porto

- Hymno Imperial-Constitucional da composição do Senhor D. Pedro, em 1822.(Porto): Imprensa do Gandra. 1826

- Hymno dedicado à Senhora Infanta D. Izabel Maria, pela música do Hymno Imperial do Senhor D. Pedro.. Porto:Imprensa do Gandra. 1826

- Hymno à vinda de S.A. o Serenissimo Senhor Infante D. Miguel, para reger estes Reinos (A musica he do Hymno Imperial-Constitucional do Sr. D. Pedro IV (sic).Porto: Imprensa do Gandra.1828.Com licença da Commissão de Censura.

- A APOTHEOSO DOS MARTIRES DA PATRIA. Elogio dramático para se representar no Real Theatro de S. João em 8 de Abril de 1837, por José de Sousa Bandeira. Porto. Imprensa de Gandra e Filhos. 1837. In-8º peq.º de 13 págs. B.

- O ASSEDIO DE CORINTHO. Tragedia Lirica, em 3 actos, em Musica de Joaquim Rossini, para se representar no Real Theatro de S. João na Cidade do Porto. Traducção de João Nogueira Gandra. Porto : Imprensa de Gandra e Filhos. 1837. In-8º peq. de 56 págs. B.

- HUM MEZ DE FERIAS. Drama em quatro actos, representado no R. Theatro de S. João na Cidade do Porto, na noite de 21 de Fevereiro de 1838. Porto. Na Typographia CommercialPortuense. 1838. In-8º de 141-I págs. B.

- MARIA STUART, tragedia lyrica em 4 actos. Musica do Mestre Caetano Donizetti; ‘para se representar do Real Theatro de S. João da Cidade do Porto. Porto : Typographia de Gandra & Filhos. 1842. In-8º peq. de 31 págs. B.

- SAPHO. Tragedia lyrica em três partes, ou actos. Musica do Mestre C. J. Pacini para se representar no R. Theatro de S. João na cidade do Porto. Porto : Typographia de Gandra & Filhos. 1845. In-8º peq. de 61 págs. B.

- A FAVORITA. Melodrama em 4 actos, Musica do Mestre Caetano Donizetti, para se representar no Real Theatro de S. João da Cidade do Porto. Porto : Typographia de Gandra & Filhos. 1843. In-8º peq. de 31 págs. B.

- O JURAMENTO. Melo-Drama em 3 actos; em musica de X. Mercadante. Para se representar no Real Theatro de S. João da Cidade do Porto. Porto : Typographia de Gandra & Filhos. 1846. In-8º peq. de 32 págs. B.

- ATILA. Opera séria em 1 prologo, e 3 actos. Musica do Mestre Verdi, para se representar no R. Theatro de S. João da Cidade do Porto. Porto : Typographia de Gandra & Filhos. 1849. In-8º peq. de 24 págs. B.

- CONRADO D’ALTAMURA. Drama lyrico em 3 actos, Musica do Maestro Frederico Ricci, para se representar no Real Theatro de S. João da Cidade do Porto. Porto. Typographia de J. N. Gandra & Filhos. 1851. In-8º peq. de 16 págs. B.

- LUIZA MILLER, Melodrama trágico em 3 actos, em musica do celebre compositor José Verdi, para se representar no Real Theatro de S. João da Cidade do Porto. Typographia de Gandra & Filhos. 1854. In-8º peq. de 23 págs. B.

- Soneto à primeira actriz contemporanea no theatro portuguez de declamação Emilia das Neves e Sousa, no dia do seu beneficio no R. T. de S. João do Porto em 25 de Março de 1851/ João Nogueira Gandra . - Porto: Typ. Gandra, 1851

- Sonetos ao Marechal de Saldanha recitados no Theatro de S. João do Porto, na occasião da sua despedida em 12 de Maio de 1851/ João Nogueira Gandra . - Porto: [s.n.], 1851

A gravura de João Nogueira Gandra pode ser obtida AQUI.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

- Susana Simões Moncóvio, O CENTRO ARTÍSTICO PORTUENSE (1880-1893). SOCIALIZAÇÃO DO ENSINO, DA HISTÓRIA E DA ARTE MODERNA NO PORTUGAL DE OITOCENTOS, FLUP, 2015.

- Agostinho Araújo, "Pequenas anotaçoes sobre a actividade do tipógrafo e jornalista Joao Nogueira Gandra (1788-1858)", Cadernos do noroeste, ISSN 0870-9874, Vol. 20, Nº 1-2, 2003, págs. 127-146.

Vide ainda: - “Boletim dos Amigos do Porto”, 2015, p. 129-145.

A.A.B.M.


domingo, 7 de março de 2021

JOSÉ DE JESUS GABRIEL – LIBERTÁRIO, CARBONÁRIO E MAÇON (NOTA BREVE)

 


“Um fundador do Partido Comunista Português quase desconhecido. José de Jesus Gabriel: torneiro mecânico, carbonário e maçon Entre os fundadores do PCP, em 1921, estava José de Jesus Gabriel, nascido em Lisboa em 1879. Membro do seu Conselho Económico em 1921 integrou em 1923 a Comissão Reorganizadora. Quem era este homem que não ficou na História?

José de Jesus Gabriel, operário metalúrgico do Arsenal do Exército, dirigente da Associação de Classe dos Fabricantes de Armas e da Confederação Metalúrgica, fundou o jornal O Metalúrgico e foi redactor e administrador de A Obra (1905).

Era em 1905 dirigente da Federação Socialista Livre, organização de cariz anarquista intervencionista que colaborou com os republicanos. Nas páginas de O Metalúrgico, onde os intervencionistas, maioritários na Confederação Metalúrgica, detinham grande influência, José de Jesus Gabriel criticava, em 1904, os que recusavam colaborar com os republicanos «sorrio-me do fanatismo de vários elementos propagandistas dos ideais avançados, que intolerantes nas suas vastas concepções, consideram como inimigos terríveis os que pronunciam doutrinas que mais se aproximam na síntese dos seus ideais». Curiosa afirmação…

Jesus Gabriel recusou um convite para ingressar na Carbonária Portuguesa, acabando por ser iniciado na Carbonária Lusitana, apadrinhado por Benjamim Rebelo e Júlio Dias, ascendendo a chefe de barraca. A Carbonária Portuguesa – também conhecida como Carbonária dos Anarquistas -, foi fundada em 1897, com sede na Rua 24 de Julho, próximo da Rocha do Conde de Óbidos.

Segundo informações prestadas pelo próprio a José Nunes «quase todos os carbonários mais graduados desta instituição [Carbonária Lusitana] pertenciam ao Grémio Obreiros do Futuro e à Confederação Metalúrgica, como delegados de algumas associações de classe. Gabriel, em vista de manter uma certa afinidade com esses elementos, foi também convidado a pertencer a esse Grémio, tendo-se efectuado a sua iniciação em Fevereiro de 1905» (José Nunes, «E Para Quê?», p. 47).

A Loja Obreiros do Futuro era o núcleo central, reservado, ao qual só pertenciam «os carbonários mais graduados», o que justifica o seu papel nos preparativos revolucionários. Tal como Jesus Gabriel declarou, fora no interior da própria oficina maçónica que ele, Rebordão, Brito Bettencourt, Cerqueira, António Alcochetano e outros fabricaram umas duzentas bombas destinadas à revolução republicana…

No rescaldo do Regicídio, José de Jesus Gabriel foi preso, juntamente com outros anarquistas. José Nunes conforma que Jesus Gabriel também teve parte activa no movimento que implantou a República. Foi administrador do jornal O Sindicalista e opôs-se firmemente à lei da greve, subscrevendo uma moção, aprovada em reunião na Caixa Económica Operária, em 22 de Dezembro de 1910, com a presença de 62 associações sindicais, proclamando a intenção de «saltar por cima dessa lei quando for preciso» e de «iniciar uma forte e activa propaganda contra o governo entre as classes trabalhadoras». Foi delegado ao Congresso Sindicalista de 1911 e teve sempre uma participação muito activa na vida da sua classe, desempenhando os cargos de Presidente da Assembleia Geral Associação de Socorros Mútuos do Pessoal do Arsenal do Exército e da Associação de Classe (1918, 1924), Delegado à Liga das Associações de Socorros Mútuos (1923).

Foi um dos fundadores do Partido Comunista Português. Em Março de 1923 esteve envolvido na enorme confusão que o PCP então conheceu, com expulsões entre facções adversas. Subscreveu em Maio de 1923, na qualidade de delegado do seu sindicato à Confederação Geral do Trabalho, o manifesto «A Questão das Internacionais - Berlim ou Moscou?» onde apoiou a Internacional Sindical Vermelha. Esteve presente no I Congresso do PCP (10, 11 e 12 de Novembro de 1923), onde participou activamente, presidindo à 3ª sessão.

Em Abril de 1932 – segundo o jornal O Arsenalista – encontrando-se numa situação económica e de saúde muito difícil, que levou os seus camaradas a promoverem um sorteio em seu benefício, cujo produto foi entregue a sua mulher e que ele agradeceu em carta publicada no jornal, na qual refere a «liberdade que me foi vergonhosamente roubada», pelo que deduzimos que estava preso. Ao referir-se a «antigos camaradas» leva-nos a crer que já não trabalhava no Arsenal. Em 1937 era empregado de escritório, sendo preso em 22 de Abril daquele ano; deu entrada no Forte de Caxias e foi libertado em 9 de Novembro.

 


Um facto curioso é que José de Jesus Gabriel entrou para a Maçonaria em 1913, na Loja Obreiros do Trabalho. Era então membro da Associação de Classe dos Fabricantes de Armas e Ofícios Acessórios e Metalúrgicos de Lisboa, da Associação do Registo Civil, de Associação Crécherie e da Academia de Estudos Profissionais Humanidade Futura. Os inquéritos produzidos no âmbito do processo, para aquilatar das suas qualidades, apresentam diversas informações sobre o candidato: «para além de torneiro mecânico dava explicações de Matemática»; era considerado «um bom cidadão que tem trabalhador bastante a bem da República e da Humanidade»; «republicano, ou mais alguma coisa», «livre-pensador», «parece ter elevados conhecimentos literários e serem suficientes para compreender os elevados princípios maçónicos»; «conquanto o seu ideal político seja bastante avançado, trabalhou bastante para a queda do antigo regime, chegando por vezes a ser perseguido pelos agentes da Bastilha monárquica»; «foi um grande revolucionário e foi um dos presos que estiveram na esquadra do caminho-de-ferro nos dias da revolução que proclamou a República», «dizem ser anarquista e livre-pensador».

Iniciado em 17 de Fevereiro de 1913 com o nome simbólico de «Lisippo», foi, em 22 de Maio de 1916, um dos fundadores da Loja Integridade, do Rito Simbólico, assumindo as funções de Venerável, na qual se conservou até à dissolução da mesma em 1919. Reproduzimos a fotografia da sua prisão em 1937 e a última página do questionário que preencheu em 1913, ao solicitar a entrada na Maçonaria”

[ADENDA"… O único texto de cariz maçónico conhecido da autoria de José de Jesus Gabriel, foi a sua intervenção, em 22 de Maio de 1916, na sessão de instalação da Loja Integridade, fundada por antigos membros da Loja Obreiros do Trabalho.

Significativamente, e revelador do seu prestígio, foi ele eleito Venerável e não o capitão José Marcelino Carrilho, o mais antigo maçon do grupo, velho republicano federalista e venerável da Loja Obreiros do Trabalho durante vários anos.

Olhando para os membros da nova Loja, o grupo era constituído por uma dúzia de elementos, dois dos quais italianos, Amadeo d'Alassandro, serralheiro mecânico, Domenico de Domenico, agente comercial, dois farmacêuticos, vários funcionários públicos, um comerciante, um alfaiate, um maquinista fluvial, um maquinista da Empresa Nacional de Navegação, um telegrafista, Luís Cipriano de Araújo, que desempenhava as funções de Orador, e um companheiro de trabalho de José de Jesus Gabriel, Manuel José da Silva Lúcio, um dos mais respeitados dirigentes sindicais do Arsenal do Exército”

[António Ventura, via Facebook, com a devida vénia – sublinhados nossos]

J.M.M.

sábado, 6 de março de 2021

DR. AFONSO COSTA - NOS 150 ANOS DO SEU NASCIMENTO

 


Viva o Dr. Afonso Costa (Seia, 6 de Março de 1871)

“Há três meses que domina em Portugal, absoluta e olímpica, a Republica nova do sr. Sidónio Pais. O que se tem passado durante este afadigado, incerto e nevrótico consulado dava já para publicar volumes. Mas uma coisa destaca, por entre todas, que desperta o pasmo e sobressalta os espíritos.

Refiro-me à situação dos presos políticos que eu já tratei, em público, discursando, mas a que não posso deixar de voltar mais uma vez.

Há republicanos que estão metidos nos cárceres há três meses precisos. Qual o seu crime, a sua culpa, a sua falta? Ignora-se. Alguns mal foram interrogados e só ultimamente; nenhum tem processo instaurado; e, sendo a lei clara a respeito destes casos judiciários, não se encontra, afinal, explicação razoável, para tamanho encarniçamento contra cidadãos a que se não atribui ainda, com fundamento legal, o mínimo delito.

A República que ai temos foi feita por entre destroços e devastações para, disse-o o sr. Sidónio Pais, restaurar em Portugal o império da lei. Mas a lei não foi instaurada, porque o que impera é a vontade de um homem, tão pessoal e tão autoritário que supomos estar em frente da de um rei absoluto.

 O Pais sente-se mal desalentado e oprimido […]

Em Elvas, há precisamente três meses, está encarcerado Afonso Costa. Refiro-me a ele em especial, não porque a sua liberdade valha para mim mais do que a dos outros presos políticos, mas porque contra o chefe do partido democrático se tomaram medidas mais despoticamente severas.

Sobre ele recaíam as acusações mais graves; era ele o alvo dos ódios mais acesos; dizia-se, sob a protecção das autoridades e com aplauso delas, que a República, destes sete anos tinha sido um regime de atentados e crimes e fazia-se de Afonso Costa o símbolo vivo desses atentados e crimes. Mais uma razão, portanto, para lhe não taparem a boca, deixando-lhe a liberdade de amplamente se defender.

Vem de longe esta lei moral: — que ao acusado se não tolha a defesa, que parece ser um atributo sagrado conferido ao homem pelos primeiros rudimentos da civilização.

Todavia Afonso Costa está, metido no seu in-pace, onde não chegam os rumores da vida social que o cerca. Ele é mais do que um proscrito dentro da própria pátria; é uma espécie de morto dentro da própria vida. Têm-lhe atirado para cima as acusações mais sangrentas e os epítetos mais degradantes. Ondas de lama têm rolado sobre ele, cobrindo de podridão e de esterco a sua vida de homem público. Mas ele não pode falar. Se ao seu cárcere tem chegado, alguma vez, a notícia dessas torpes acusações à sua honra, ele tem curtido o desespero de não lhes poder responder. Não foi bastante tirarem-lhe direito à liberdade; também lhe tiraram o direito à vida moral, - o que de mais respeitável há no homem …”

[António José de Almeida, in jornal República, 9 de Março de 1918]

J.M.M.

CHRONICA DO ALGARVE, FARO, 1833


CHRONICA DO ALGARVE - Ano I, nº 1, 15 de Julho de 1833 ao nº 3, 20 de Julho de 1833; Direc. Manuel António Ferreira Portugal (Diretor da Imprensa do Governo); Redacção: Rua do Aljube, nº 998; Impressão: Imprensa do Governo, Faro.

Durante bastante tempo pouco se conhecia sobre este primeiro periódico que se publicou na região algarvia. A Hemeroteca Digital do Algarve permitiu a sua localização e disponibilização ao público em formato digital.

A Chronica do Algarve, publicou-se em Faro, em 1833, tendo o primeiro número sido publicado em 15 de Julho desse ano, conforme se pode ver na imagem acima. A publicação de um periódico na região já devia ser uma pretensão das elites dirigentes, que estavam a assumir as funções e a estabilizar o poder dos liberais quando, no resto do País, ainda havia convulsões e travavam-se combates entre os apoiantes de D. Pedro e de D. Miguel. 

José Vieira Branco, antigo tipógrafo e militar, procurou com pouco sucesso descobrir mais informações sobre a fundação do jornal em Faro. Cerca de meio século mais tarde, José Carlos Vilhena Mesquita tentou também, ainda com a ajuda e o conhecimento de Mário Lyster Franco, descobrir mais alguma informação sobre o jornal e chegou a publicar um artigo, num dos primeiros congressos regionais do Algarve em 1984 [José Carlos Vilhena Mesquita, «CHRONICA DO ALGARVE» TERÁ SIDO O PRIMEIRO JORNAL ALGARVIO?, 3º Congresso sobre o Algarve, vol. 1, Silves, Racal Clube, 1984 disponível AQUI]. Porém, foi com a concretização do projeto da Hemeroteca Digital do Algarve que se conseguiu juntar dois dos números do jornal que se publicaram, bem como alguns suplementos.

O jornal apresentava em nota, no canto superior esquerdo, que devia publicar-se às quartas-feiras e sábados. No entanto, o número um publicou-se a uma segunda-feira. Sem qualquer outra simbologia além da coroa do poder real em epígrafe, referia o preço de venda por exemplar (40 réis por número) e o preço dos suplementos (20 réis). Colocava ainda um excerto do Canto X, de Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões. O jornal, como era padrão naquela época, tinha quatro páginas a duas colunas e, sintomaticamente, serviu de forma objetiva para propagandear as vitórias liberais face aos confrontos com as tropas miguelistas.

A organização interna deste órgão da imprensa escrita começava com uma apresentação, intitulada de prospecto, onde se destacavam as finalidades a que se propunha o periódico: "Empenhados em defender a Causa da Honra, e da Legitimidade do Trono, e das Liberdades Pátrias", "Diremos com a ingenuidade própria de um verdadeiro liberal tudo o que ocorrer de notável nas operações da expedição, destinada a quebrar as algemas, que manietavam os pulsos dos fiéis Portugueses neste reino, e província limítrofe" e concluía "Daremos as peças oficiais, e escreveremos lambem o que houver de notável na heroica cidade do Porto, apenas dali recebermos as noticias; e com algumas dos reinos estrangeiros que mais possam Interessar á nossa Causa, encheremos este limitado periódico, em que não tem parte a especulação e interesse pecuniário (que a todo e qualquer renunciamos desde já), mas somente o desejo de ser úteis a nossos honrados hóspedes e concidadãos, e de os esclarecermos sobre a opinião geral do Reino e da Europa, que por certo é a parte mais civilizada do mundo". Seguiu-se depois uma extensa nota, na Parte Não Oficial, sobre a Expedição ao Algarve e concluía essa parte com algumas das proclamações feitas na cidade do Porto, neste caso uma proclamação de D. Pedro e outra do Conde Vila Flor.

Na quarta, e última página, em género de pequeno anúncio, fica-se a saber que o diretor do periódico era Manuel António Ferreira Portugal e que estavam reservadas pequenas vantagens para os assinantes do bissemanário, pagariam menos 10 réis por número do que o público normal e a publicação estava disponível para receber anúncios com preços a combinar. Sobre esta figura pouco se sabe também, mas abaixo aditar-se-á mais alguns elementos biográficos que se conseguiram reunir.

A imprensa utilizada para imprimir a Chronica do Algarve era a Imprensa do Governo, que estava estabelecida na Rua do Aljube (depois Rua do Município) em Faro, 998.

Manuel António Ferreira Portugal era bastante jovem quando foi desafiado a estabelecer-se no Algarve com uma oficina tipográfica. 

Em Outubro de 1833, sabemos que vai ser apontado para criar uma tipografia portátil para acompanhar o exército, solicitando-se mesmo a aquisição de utensílios e equipamentos necessários ao seu funcionamento. Seria já funcionário da Imprensa Nacional e seria dispensado para acompanhar a Tipografia do Exército em operações (1).  Alfredo da Cunha, na sua estimada obra sobre o "Diário de Notícias" diz-nos que Ferreira Portugal foi o representante do jornal de anúncios "Gratis" (1836-1857). Sabe-se que, em 1844, Ferreira Portugal já se encontra estabelecido com uma tipografia em Lisboa (Calçada dos Barbadinhos, Santa Apolónia) e que terá sobrevivido pelo menos até 1867. Nessa tipografia foram impressas entre outras as seguintes publicações:

O Director, Lisboa, Tipografia de M. A. F. Portugal, 1838-1840.
Almanak estatistico de Lisboa em 1841 [a 1853] / coordenado por M.A.F. Portugal, [Lisboa?] : Typographia do Gratis, 1841.
- O Correio Português, ed. M.A.F. Portugal, Lisboa, 01-12-1841 a 31-12-1845, nº 1127
A Restauração. Lisboa: Typ. de M.[anuel] A.[ntónio] F.[erreira] Portugal,  25.5.1842;
O Estandarte, Lisboa, 02-08-1847 a  22-11-1851;
- O Conservador, Lisboa, 15-09-1851 a 14-02-1852;

Tomás Quintino Antunes, que virá a ser chefe da tipografia do Diário de Notícias descrevia num breve apontamento Manuel António Ferreira Portugal descrevia-o assim:

homem grosseiro e irascível, que mal conhecia os processos tipográficos, e não tinha outros merecimentos senão o ter servido como soldado no batalhão dos Voluntários da Rainha durante a guerra da restauração constitucional. Orgulhoso e vingativo, tudo lhe servia de pretexto para tratar os empregados como uma  horda de escravos, sem mesmo poupar os que, por seus longos serviços, e pela sua avançada idade, tinham incontestável direito a serem tratados com a maior consideração (2). 

(1) https://imprensanacional.pt/history-heritage/sobre-o-fornecimento-de-utensilios-para-a-organizacao-de-uma-imprensa-portatil-para-o-quartel-general-imperial/?fbclid=IwAR1FjYd1Q9MgyQtCgGDmmxsXwLgbFfnx4M1FOFn5GVcklCJyPSYXe0_pEbs

(2) Cunha, Alfredo da, Diário de Notícias. Sua Fundação e os fundadores. Alguns factos para a História do Jornalismo Português, Lisboa, Diário de Notícias, 1914p. 78 também disponível online  aqui: http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/EFEMERIDES/diariodenoticias/DiariodeNoticias.pdf

A.A.B.M.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

O PADRE QUE ENSINAVA RUSSO



(Uma das edições da Livraria Cunha, de Coimbra, em 1931)

Num tempo em que a PIDE tinha como principal objectivo combater o comunismo, bem alicerçado, aliás, no discurso de Salazar, de 28 de Janeiro de 1934, em que este afirmara que o comunismo era “a grande heresia da nossa idade”, um cartaz numa montra da baixa da cidade de Coimbra, publicitando o ensino da língua russa, não podia passar despercebido.

E não passou. O informador Inácio, em relatório datado de 7 de Dezembro de 1947, comunicava à PIDE que estava afixado na montra da Livraria Cunha, desde a noite anterior, o dito aviso. Estivera ali afixado durante todo o dia, um pouco de lado, meio oculto pela porta, mas tinha a indicação da tipografia onde fora executado, segundo o informador.

Dois dias depois, o padre Manuel Augusto Rodrigues Esteves, também professor no Seminário de Coimbra e ali residente, com 35 anos de idade, responsável pelo pequeno cartaz sobre o ensino de língua russa, estava sentado na delegação da PIDE daquela cidade, perante o chefe Manuel Nogueira Branco e o agente Júlio Cunha, a responder a um Auto de Declarações.


(Revista Portuguesa de Filosofia, de 1964, sobre o Instituto de Filosofia Beato Miguel Carvalho e o seu 30º aniversário.)

O padre Manuel Esteves tinha aprendido russo quando estudava Filosofia no Instituto de Filosofia Miguel Carvalho, em Braga, e corrigido a pronúncia quando estudou Teologia em Valkenburg, Holanda, dominando igualmente o alemão. Sendo professor no Seminário, já dava aulas particulares de russo a dois alunos universitários “da sua confiança”. A sua ideia era tirar alguma vantagem económica com as aulas de russo. Assim, afixou alguns cartazes pela cidade, obviamente nas condições legais. Pedira a um seu amigo (José Lobo) para lhe tratar do assunto e, seguindo a lei, este dirigiu-se à Câmara com 12 cartazes para a respectiva fiscalização e pagamento, recomendando o padre ao seu amigo que, se lhe parecesse necessário, se dirigisse também à Polícia. Mas, como na Câmara não levantaram qualquer dificuldade, julgou que tudo estava de acordo com a lei. Afirmou também à PIDE que os cartazes tinham a indicação de “inscrições individuais severamente condicionadas ao abrigo da lei”, tendo com isso em vista, segundo o padre, o carácter severamente apolítico de tais lições particulares.

Logo apareceram interessados e o padre expressou-lhes as condições rigorosamente apolíticas de tais lições e que logo as suprimiria, caso houvesse sinais de segundas intenções por parte dos alunos.

Pedindo desculpa pelo trabalho que deu à Polícia, o padre comprometia-se a retirar os cartazes e a parar com as lições, caso não existisse confiança, por parte da Polícia, de que a sua intenção era a de que se conhecesse a cultura e as riquezas do mundo eslavo e que o comunismo estava à margem de tudo isto. Aliás, o padre afirmava que já tinha publicado na revista Brotéria, alguns artigos anti-socialistas e anti-comunistas. De resto, interessava-se unicamente pela Filosofia e pela Teologia, vivendo à margem de “ilusões políticas”, mas apreciando e respeitando o Estado e a “nossa ideologia nacional”.

Enfim, o padre Manuel Esteves defendeu-se como pôde.


(Alberto de Oliveira Vilaça)

O pior foi quando lhe perguntaram quem eram os seus alunos (e as suas moradas). A saber: Joaquim de Sousa Castro, Domingos da Costa Gomes, José Magalhães Simões Freire, Alberto Vilaça, Antero Urbano, José Albuquerque de Sousa, Eduardo Crespo Saraiva, António Afonso Amaral, Ricardo Quadrado, Mário Branco e Armando Nunes Reis. Ou seja, todos eles, nomes sobejamente conhecidos da oposição ao regime em Coimbra, nomeadamente no meio estudantil, fazendo parte ou apoiando as comissões universitárias do MUD Juvenil, naquele ano de 1947, e, pelo menos uma parte deles, perfeitamente referenciados pela PIDE e pelo informador Inácio, nomeadamente os primeiros quatro nomes atrás referidos!




(Processo de Alberto de Oliveira Vilaça, na PIDE)


(Processo de José Magalhães Simões Freire, na PIDE)

Publicado originalmente na edição em papel do Jornal Terras de Sicó

Paulo Marques da Silva