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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

LITORAIS. REVISTA DE ESTUDOS FIGUEIRENSES (PARTE II)




Para concluir a análise dos artigos publicados na revita Litorais, resta-nos o texto da autoria de Cândida Ferreira, O Tempo da Saudade, onde a autora nos apresenta um conjunto de ideias sobre o devir do tempo. Iniciando pela noção de tempo, o tempo do tempo, o tempo do não tempo, o tempo da duração e, por fim, o tempo da saudade.

Quanto ao conceito, a autora, começa por traçar o problema entre duas dimensões diversas, a filosófica e a científica. O tempo afirma-se, por um lado, como "uma convenção ou uma dimensão configuradora do real que, por razões pragmáticas o homem produziu para organizar a sua praxis e até a sua própria identidade" (p. 67). Por outro lado, "o tempo existe e nele se fixa a história de cada ser que nele existiu, existe e existirá" (p. 69). Porque, conclui-se, o tempo é evolução e esta opera transformações ao longo dos tempos do tempo.

Cândida Ferreira explica ainda, com base em alguns autores como R. Le Poidevin, R. Damatta, I. Prigogine, J. E. Mctaggart, César Ades, entre outros, as suas ideias acerca da noção da temporalidade nas suas várias interpretações para o ser humano. Porém termina dando especial atenção à problemática da saudade tão característica dos portugueses. Segundo esta autora, a saudade assenta em dois grandes vectores: lembrar e sentir. Assim, sustenta, "a saudade é um sentimento do presente (construído pela contemporaneidade pessoal) e que a lembrança evoca o que não é real, ou seja, evoca um real (re)criado pela dinâmica de uma memória que o produz enquanto o narra" (p. 76). Conclui, portanto, que "o momento da saudade é também um momento de correcção da trajectória do existir e mesmo quando idealiza o passado projecta o arquétipo da contemporaneidade antecipando já a dimensão futurante do presente" (p. 78-79).

Relativamente ao ultimo artigo, não vamos, como é óbvio, tecer qualquer comentário, pois ele foi inicialmente publicado aqui e aqui embora tenha sofrido ampliação e novos desenvolvimentos em aspectos pontuais, procurando simplesmente contribuir para relembrar alguns aspectos do envolvimento político do Doutor Joaquim de Carvalho.

Foto: caricatura (por ?) do Dr. Joaquim de Carvalho

A.A.B.M.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

LITORAIS. REVISTA DE ESTUDOS FIGUEIRENSES



A Associação Doutor Joaquim de Carvalho, da Figueira da Foz, lançou no passado dia 20 de Novembro, no decorrer da II Tertúlia Joaquim de Carvalho, o nº 9 da Litorais. Neste número do segundo semestre de 2008, podem encontrar-se os seguintes artigos:

- Paulo Archer de Carvalho, A escola nova que Joaquim de Carvalho frequentou o Collegio Lyceu Figueirense (1902-11); p. 7-30;

- Miguel Real, Joaquim de Carvalho (1892-1952) - Um liberal heterodoxo; p. 33-64;

- Cândida Ferreira, O Tempo da Saudade; p. 65-80;

- Artur Barracosa Mendonça e José Manuel Martins, Notas políticas sobre Joaquim de Carvalho; p. 81-88.

No primeiro artigo, Paulo Archer acompanha o movimento da Escola Nova e a influência que este movimento exerceu na Figueira da Foz através do Colégio Liceu Figueirense, instituição onde Joaquim de Carvalho fez a sua formação escolar. Constata-se que era "uma escola elitista e dispendiosa"(p. 11), que "atrai cada vez mais meninos ricos de longe" (p. 12), mas "com a República, o Collegio Lyceu Figueirense, entra em colapso"(p. 19). Entre 1911 e 1914, o Colégio Liceu vive em "itinerância", porque o seu director José Luís Mendes Pinheiro se vê compelido a mudar com frequência de local de residência, acabando por retornar à Figueira da Foz em 1914, porque entretanto se assiste ao eclodir da guerra na Europa central. O Colégio transforma-se por decisão da diocese de Coimbra, a partir de 1935, num seminário menor.

Paulo Archer conclui de forma lapidar "A formação filosófica de Carvalho e o desenvolvimento metódico duma obra pioneira não arrancaram na Figueira. Mas da escola nova terá nascido e se terá consolidado o amor pela liberdade a um dos poucos filósofos que por ela verdadeiramente se bateu na primeira metade do século XX". Um contributo significativo para se compreender melhor a formação de Joaquim de Carvalho e o papel que nele desempenhou a corrente educativa da Escola Nova.

Por seu lado, Miguel Real apresenta-nos um texto sobre o pensamento liberal de Joaquim de Carvalho. Considerando-o herdeiro dos movimentos racionalistas, Miguel Real, enquadra-o nas ambiguidades que um conjunto de autores da mesma época viveram, mas sempre numa linha comum de combate "contra o conservadorismo nacionalista e o espiritualismo filosófico, seja monárquico constitucional, seja integralista, seja católico tradicionalista" (p. 34). Teria sido a "alma burguesa" de Joaquim de Carvalho que o conduziu à retirada da vida pública "resguardando-se assim de borrascas, exílios e desempregos, sofridos por todos os seus amigos racionalistas" (p. 34). Reconhece também a dificuldade em sistematizar o pensamento de Joaquim de Carvalho, embora destaque, seguindo Pina Martins, a tendência para "os grandes vultos reformadores do espírito filosófico da época moderna, bem como a galeria de pensadores heterodoxos de origem portuguesa" (p. 41).

Segundo Miguel Real, Joaquim de Carvalho evoluiu do jacobinismo inicial para um liberalismo, republicanismo e agnosticismo crescentes. Analisando a sua intervenção política, considera que o filósofo reconheceu a "total contradição com a oligarquia dirigente do Estado - era inevitável o confronto, que só poderia acabar com o esmagamento do elo mais fraco" (p. 53) - ou seja o próprio Joaquim de Carvalho. Conclui lamentando o desprezo a que tem sido votada esta figura desde os anos oitenta, embora saliente o seu "racionalismo rigoroso e escrupuloso, herdeiro da escola racionalista cientificista" (p. 60) que fica como "exemplo de um dos maiores cidadãos portugueses do século XX" (p. 60).

[em continuação]

A.A.B.M.