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quarta-feira, 31 de maio de 2023

A MAÇONARIA PORTUGUESA 1926-1974

 


LIVRO: A Maçonaria Portuguesa. As suas ideias e a sua relação com a sociedade e as forças políticas;
Autor: António Lopes;
EDIÇÃO: Âncora Editora, Maio de 2023, 744 p.

LANÇAMENTO:

DIA: 2 de Junho de 2023 (18,00 horas);
LOCAL: Feira do Livro de Lisboa, Parque Eduardo VII (Palco Praça Amarela);
ORADOR: Dr. Fernando Marques da Costa;

► “ … Este estudo é o resultado de uma investigação e reflexão sobre a relação da Maçonaria com as oposições ao Estado Novo, num período pouco abordado, lacuna cujas causas tanto podemos ver no seu tempo recente, como no facto do assunto ser frequentemente remetido para um certo nicho de secretismo, como ainda por uma nítida dificuldade em o abordar pela escassez de documentação e também pela cristalização de alguns mitos. Temos, portanto, consciência da dificuldade de enfrentar esta temática num território relativamente virgem, com todas as desvantagens de que tal se reveste.

Pretende-se, mais do que apresentar nomes, ainda que estes sejam importantes, refletir sobre as ideias que circulavam nas lojas maçónicas ou entre os maçons e as suas relações com os movimentos de oposição à Ditadura, contribuindo para a emergência de uma ideia global sobre o pensamento e a prática maçónica durante este período. Visíveis na correspondência das diversas Lojas, nos trabalhos desenvolvidos pelos maçons e, mais raramente, nos já muito poucos testemunhos orais, essas informações permitem colmatar espaços e traçar um quadro da atividade da Maçonaria numa época que à primeira vista se afigura desértica. Pretende-se ainda perceber os momentos de maior mérito, de vivida dificuldade ou de ausência e de presença nas grandes questões sociais e políticas do país ou ainda as flutuações ou mesmo alterações no discurso dos dirigentes maçónicos enquanto tal ou no âmbito da sua atividade política. Por isso não é uma abordagem desapaixonada.

[…] Ainda que o Estado Novo tenha o seu início em 1933, por motivo de contextualização, o período cronológico abrangido vai do golpe de 28 de maio de 1926 à revolução de 25 de abril de 1974. Período longo, mas que interessa abordar de forma única, permitindo por isso verificar linhas dominantes que justificam coerências ideológicas ou posições conjunturais decorrentes de fenómenos políticos momentâneos e que possibilitam a justificação de alguns acontecimentos. E esta é outra dificuldade inerente a este projeto, que por ser um espaço temporal longo e acrescido da necessária contextualização, implica uma gestão que oscila entre o seu gigantismo e o evitar de quaisquer riscos de superficialidade.

Dividimos a história da Maçonaria e da sua relação com os movimentos oposicionistas ao Estado Novo em três grandes períodos: o primeiro, a Ditadura Militar, entre 1926 e 1933, porque nos permite compreender o ambiente antimaçónico persistentemente construído, com as propostas e anseios da direita republicana, boa parte presente nas Lojas do GOLU (Grande Oriente Lusitano Unido), e ainda porque nos permite perceber as bases ideológicas e estruturais do regime, assim como as convulsões políticas vividas no início da década de trinta e, naturalmente, o trabalho desenvolvido nas Lojas, incluindo as suas próprias contradições ou derivas.

[…] O segundo período vai de 1933 ao início da década de sessenta. É um período longo, e ainda que diferente antes e depois da II Guerra Mundial, em que o regime persiste em nada mudar, mesmo vindo a ser obrigado a fazê-lo face às contingências da Guerra Fria. É um período onde não são claras as fronteiras entre os movimentos republicanos e socialistas e a Maçonaria, onde a ilegalização da Maçonaria constitui um momento marcante, e onde muitos protagonistas atuam simultaneamente em papéis, estruturas e funções diferentes.

[…] O terceiro período, a década de sessenta e a década de setenta até à Revolução de 1974, é aquele em que o regime se mostrou mais desadaptado às novas realidades políticas, sociais e económicas, do país e do mundo, enfrentando novas formas de oposição, que desconhecia e para as quais não estava preparado, nomeadamente por novas camadas sociais, por novas forças políticas e recorrendo com mais frequência a ações de confronto direto.

[…] Este trabalho tem também por intenção que não se percam nas brumas do esquecimento todos aqueles que lutaram pela Liberdade, à sua maneira, de acordo com as suas ideias, numa tarefa árdua e persistente, almejando uma sociedade melhor. Por isso, complementarmente são elencados muitos dos nomes que construíram esse pensamento e as ações de oposição ao regime.

[…] A Maçonaria atravessa todo o período da Ditadura com momentos diferenciados. Mais viva, mais discreta, mais ou menos organizada, até mais ou menos interventiva, mas em todos eles conspirando para mudar o regime e trazer a Portugal a chama da Liberdade. Por isso, a este propósito, em entrevista concedida à RTP em 1988, Adelino da Palma Carlos lembrava que o que faz alguém entrar para a Maçonaria é o amor à Liberdade e a vontade de lutar pela Liberdade.

[in Nota Prévia – sublinhados nossos]

J.M.M.

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

NUNO RODRIGUES DOS SANTOS. COERÊNCIA E CONVICÇÃO


LIVRO: Nuno Rodrigues dos Santos. Coerência e Convicção;
AUTOR: António Ventura;
EDIÇÃO: Assembleia da República, 2022.

LANÇAMENTO DA OBRA:

DIA: 16 de Novembro 2022 (18,00 horas);
LOCAL: Biblioteca Passos Manuel (Assembleia da República);

► Trata-se da publicação da biografia de Nuno Rodrigues dos Santos (1910-1984), um dos "republicanos históricos", ativo e convicto lutador anti-salazarista, membro do Grande Oriente Lusitano – o Irmão “Danton” da loja Magalhães Lima (depois da loja Liberdade) -, fundador do MUD, membro da Liga dos Direitos do Homem, da Causa Republicana, Renovação Democrática, União Socialista, Acção Democrata-Social, é candidato a deputado nas listas da oposição em 1953, 1961, 1965, integra as listas de apoio à candidatura de Quintão Meireles, Norton de Matos, Humberto Delgado e deputado à Assembleia Constituinte pelo PPD, depois de Abril 1974.

Nuno Rodrigues dos Santos foi uma figura muito curiosa da vida política portuguesa. Nasceu em Luanda, faz os estudos secundários no Funchal e os universitários na Universidade em Coimbra e Lisboa, terminando a licenciatura de Direito em 1933.


Em 1935 foi iniciado na maçonaria, com o n.s. de “Danton”, na Loja ”Magalhães Lima” [loja do RF instalada em Lisboa em 1929], transitando depois, durante a clandestinidade, para a Loja “Liberdade” [do REAA e que se manteve em exercício até ao derrube do fascismo], tendo atingido o 30º grau do REAA. Colaborou na imprensa, principalmente no jornal “República”, “O Povo”, na revista Seara Nova, tendo sido um dos fundadores do jornal clandestino antifascista “Resistência”. Foi um distinto advogado, defensor de presos políticos no Tribunal Plenário, pertenceu à direcção da Ordem dos Advogados  

Depois do 25 de Abril, aderiu ao Partido Popular Democrático, pelo qual foi eleito deputado à Assembleia Constituinte nas eleições de 25 de Abril de 1975, e, depois, nas eleições subsequentes à Assembleia da República, até à sua morte. Membro do Conselho de Estado, presidiu a todos os congressos do PSD realizados entre 1976 e 1981 e foi presidente do partido até à sua morte.

J.M.M.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

SEARA NOVA – “EM DEFESA DE UMA DEMOCRACIA SOCIAL”

 


Em Defesa de uma Democracia Social” – por António Valdemar, in Caderno E, Expresso, 9 de Outubro de 2021

Apesar de todas as adversidades da repressão política, no salazarismo e no marcelismo, o impacto da doutrinação e crítica da revista “Seara Nova” constitui um legado cívico e cultural dos mais notáveis do século XX. Esta semana passam 100 anos desde que saiu o primeiro número.

A “Seara Nova” apareceu há 100 anos e num momento de extrema crispação política e social. O desassossego era permanente e nunca se sabia o que reservava o dia de amanhã. A conspiração monárquica principiou no próprio 5 de Outubro de 1910, com a instauração da República. Prosseguiu sem tréguas. As derrotas dos monárquicos nas incursões (1911-1912) chefiadas por Paiva Couceiro repetiram-se na escalada de Monsanto (1919), comandada por Aires de Ornelas, e na implantação no Porto, também em 1919, da Monarquia do Norte.

A fragmentação dos republicanos em três partidos e a formação de grupos divergentes em cada partido geravam uma turbulência permanente. Os partidos instrumentalizavam o Exército e a Marinha. Manipulavam a Guarda Republicana e a Polícia. As revoluções sucediam-se. Os governos duravam meses ou apenas alguns dias. Os debates parlamentares eram intermináveis, sem apresentarem soluções alternativas para resolver os grandes problemas.

A criação, em setembro de 1919, da Confederação Geral do Trabalho (CGT) procurou mobilizar o operariado. Tinha como órgão o jornal “A Batalha”, que impulsionava as reivindicações e chamava a atenção para outros problemas nacionais ou internacionais. Também era fundado, em junho de 1921, o Partido Comunista Português. Todas estas circunstâncias provocavam angústia e sobressalto. Multiplicavam-se as greves. A crise económica era profunda. Faltavam produtos essenciais para o dia-a-dia. Continuavam por sarar feridas causadas pela intervenção de Portugal na guerra.

As origens da “Seara Nova” datam dos finais de 1920 e primeiros meses de 1921. Jaime Cortesão, diretor da Biblioteca Nacional, reuniu-se com Raul Proença e Luís da Câmara Reys e juntos conceberam a formação de um grupo, com a edição de uma revista periódica, para responder às preocupações que se manifestavam em todo o país. A eles se juntaram Aquilino Ribeiro, Augusto Casimiro, Faria de Vasconcelos, Ferreira de Macedo, Francisco António Correia, Raul Brandão e, levado por Aquilino Ribeiro, o jovem advogado José de Azeredo Perdigão.

Começou a publicação da “Seara Nova” a 15 de outubro de 1921. Era uma revista quinzenal de doutrinação e crítica, para “criar uma opinião pública nacional que exija e apoie as reformas necessárias”, para garantir “os interesses supremos da nação, opondo-se ao espírito de rapina das oligarquias dominantes e ao egoísmo dos grupos, classes e partidos”. Reclamava a urgência de “protestar contra todos os movimentos revolucionários e, todavia, defender e definir a grande causa da verdadeira revolução”. “Contribuir acima das Pátrias” — outra questão fundamental —, “a união de todas as Pátrias — uma consciência internacional bastante forte para não permitir novas lutas fratricidas”.


A NOITE SANGRENTA

Quatro dias depois do aparecimento da “Seara Nova”, a 19 de outubro de 1921, a revolta dos marinheiros espalhou o pânico em Lisboa, que se estendeu a todo o país. A Legião Vermelha assassinou o primeiro-ministro António Granjo e o fundador da República Machado Santos. Também assassinou o comandante Carlos da Maia, outra figura já histórica da República, o comandante Freitas da Silva, secretário do ministro da Marinha, e o coronel Botelho de Vasconcelos, que apoiara Sidónio Pais. Arrancados das suas casas, seguiram numa “camioneta fantasma” que os levou até ao Arsenal. Ali foram sumariamente abatidos a tiro.

Ficou na história como “A Noite Sangrenta”, uma das páginas negras de toda a Primeira República. Raul Proença, no nº 2 da “Seara Nova”, de 5 de novembro de 1921, referiu que o país mergulhara “na epilepsia da desordem”. E comentou: “Já o tínhamos previsto. Nem foi surpresa para ninguém (...).” Os homens que tombaram às mãos dos assassinos — acentuava com veemência — eram “vítimas de tudo o que fizemos e não fizemos; do que dissemos e do que calamos, do que praticamos e do que consentimos”.

Um dos motivos aparentes do 19 de outubro terá sido a demissão do governo de Liberato Pinto — ligado ao Partido Democrático — e a sua condenação a um ano de prisão, confirmada a 21 de setembro de 1921 pelo Conselho Superior de Disciplina do Exército. Quem se movimentou para organizar esta chacina e quais os seus objetivos? A Legião Vermelha, um grupo de marinheiros radicais influenciado por oficiais da Armada e do Exército e políticos de várias tendências. Inclusive monárquicas e católicas. O cabo Abel Olímpio, tristemente célebre com a alcunha “Dente de Ouro”, arregimentou os marinheiros, mas — e para vingar o Regicídio, executado em 1908 pela Carbonária — houve a intervenção das Juventudes Monárquicas Conservadoras. Houve também a colaboração do padre Maximiano Lima, da administração do jornal “A Época”, de cuja redação faziam parte jornalistas como Manuel Múrias, Pedro Correia Marques e Leopoldo Nunes, que, a 28 de maio de 1926, acompanharam o golpe militar chefiado por Gomes da Costa, em Braga; que avançou para o Porto e para Lisboa e abriu caminho para a entrada de Salazar no governo.

No livro de Berta MaiaAs Minhas Entrevistas com Abel Olímpio, ‘O Dente de Ouro’”, confirmam-se as cumplicidades de militares monárquicos e de figuras da banca. O jornalista Bourbon e Meneses reuniu outros contributos no livro “Os Crimes do 19 de Outubro: Revelações & Interrogações Sensacionais” (1929), ao aprofundar os meandros da conspiração e a concretização do crime. A situação política diagnosticada por Raul Proença na “Seara Nova” desvendava as causas da agitação nas ruas e da incerteza e da perplexidade que se instalara na população. Jaime Cortesão, a propósito, afirmou: “Diga-se a verdade toda. Os crimes que se praticaram não eram possíveis sem a dissolução moral a que chegou a sociedade portuguesa.”


POLÉMICAS MEMORÁVEIS

A entrada, em 1923, de António Sérgio para a redação e direção intensificou as grandes intervenções polémicas. Para um público em especial, os jovens universitários, a “Seara Nova” tornara-se leitura obrigatória. Denunciava erros e omissões de política nacional e internacional nas áreas da educação e da economia. Questionou o fascismo e o comunismo.

Desencadeou polémicas memoráveis. Raul Proença fez a desmontagem do Integralismo Lusitano e da Cruzada Nuno Álvares; definiu as responsabilidades dos intelectuais. Desmascarou as acrobacias políticas de Alfredo Pimenta, Martinho Nobre de Melo. Enfrentou Cunha Leal — que ascendera a primeiro-ministro na crise resultante do 19 de outubro — a propósito da incompatibilidade da política com o mundo dos negócios.

António Sérgio insurgiu-se contra Malheiro Dias acerca do Sebastianismo e sobre os métodos da divulgação científica preconizados por Abel Salazar. Também não hesitou em escrever juízos críticos a propósito da obra de Teófilo Braga e Guerra Junqueiro, ambos considerados intocáveis.

A missão do artista foi outra polémica que se arrastou entre José Régio e Álvaro Cunhal. Mais intervenções com repercussão: de Adolfo Casais Monteiro em torno da arte e da vida e de Mário Dionísio a respeito do neorrealismo. A demissão de António Sérgio, em 1939, resultou das divergências em matéria de orientação ideológica e dos critérios da administração adotados por Câmara Reys. Contou com a adesão de Mário de Azevedo Gomes, de Álvaro Salema e de Castelo Branco Chaves. Mas não impediu uma participação intensa, em alturas decisivas, quando Jaime Cortesão e António Sérgio foram presos e exilados; e Raul Proença ficou doente e totalmente incapacitado para escrever.

A “Seara Nova” atravessou a Guerra de Espanha, a Segunda Guerra Mundial e, no plano interno, a consolidação do regime de Salazar; as repercussões e as consequências do MUNAF (1942) e do MUD (1945); a nova expulsão de catedráticos nas universidades de Lisboa, Coimbra e Porto; os conflitos, as desistências, os avanços e recuos desencadeados em face das candidaturas de Norton de Matos, de Rui Luís Gomes, de Quintão Meireles, de Arlindo Vicente e de Humberto Delgado. Sempre em luta frontal contra o regime e a suportar ameaças tremendas.

Um novo ciclo se abriu nos anos 60 com a morte inesperada de Câmara Reys, candidato a deputado numa lista da oposição para deputados à Assembleia Nacional. A “Seara Nova” ampliou, entretanto, a visão crítica e analítica — quase sempre abafada pela censura — perante a Guerra Colonial, os apelos possíveis para a independência das colónias, a emigração, a saúde, as greves estudantis. É a década em que dois membros do governo de Salazar provocam dois incidentes de enorme gravidade — Adriano Moreira, ministro do Ultramar, reabriu o Tarrafal, com o nome de Campo do Chão Bom; e Inocêncio Galvão Teles, ministro da Educação, encerrou a Sociedade Portuguesa de Escritores. A história da “Seara Nova”, nestes e em muitos outros aspetos, já foi estudada na sua amplitude e dimensão por António Rafael Amaro, António Reis, Sottomayor Cardia, Fernando Catroga, António Pedro Pita, em investigações rigorosas e pormenorizadas.

ORIENTAÇÃO LITERÁRIA

Os principais responsáveis pela criação da “Seara Nova” derivam do grupo da Renascença Portuguesa e da revista “Águia” e surgiram no Porto, em 1910, depois da instauração da República. Teixeira de Pascoaes e Leonardo Coimbra faziam parte — e em lugar de maior evidência — deste movimento cultural. Contudo, Jaime Cortesão, Raul Proença e António Sérgio optaram por outra posição filosófica e outra orientação doutrinária.

Elegeram na “Seara Nova”, entre as suas preferências literárias, os escritores, os poetas, os ensaístas e os críticos mais representativos da segunda metade do século XIX: Antero de Quental, Oliveira Martins, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão. Quase todos selecionados como paradigmas nas “Questões Morais e Sociais da Literatura”, para citar o título de uma série organizada por Luís da Câmara Reys.

Outra componente da “Seara Nova” residia na oposição ao modernismo, que se manifestou a partir do “Orpheu”, em termos de criação poética e na aceitação de princípios e valores. Jaime Cortesão é categórico, em 1922, numa das “Cartas à Mocidade” e a propósito da formação dos caracteres e do carácter. Recomendava aos jovens que não se deixassem atrair pelos “corifeus da última grande camada literária que deram extremos foros de desequilíbrio no estilo”. Outra advertência — sem mencionar nomes, mas eram óbvios — incidia no conteúdo da obra de poetas como António Botto, Judite Teixeira e Raul Leal, na chamada “literatura de Sodoma”, que Fernando Pessoa defendeu publicamente.

GRAFISMO E ILUSTRAÇÃO

A configuração da “Seara Nova” não tem qualquer relação com as revistas do modernismo. Tais como “Orpheu”, “Centauro”, “Portugal Futurista”, “Athena” e “Contemporânea”, associadas às inovações introduzidas por Luís de Montalvor, Amadeo de Souza-Cardoso, Christiano Cruz, Santa-Rita Pintor, Almada Negreiros e José Pacheco. Foi encomendado por Luís da Câmara Reys a Leal da Câmara o modelo da “Seara Nova”, enquanto revista e, ainda, de papel para cartas e envelopes da redação e dos serviços administrativos. Leal da Câmara notabilizara-se em Paris, em plano de igualdade com os maiores caricaturistas e cartoonistas que marcaram a transição do século XIX para o século XX.

Ao regressar a Portugal, após a implantação da República, Leal da Câmara exerceu influência nos primórdios de Almada Negreiros, Christiano Cruz e Stuart Carvalhais, em Lisboa, e de Abel Salazar, no Porto. O seu magistério no ensino industrial e comercial foi relevante em várias gerações que frequentaram a Escola Fonseca Benevides. Realizou uma obra pioneira na edição de livros e de revistas, na criação de mobiliário e de objetos decorativos e na montagem de exposições.

A “Seara Nova” tem capas de Leal da Câmara, episodicamente, de Jorge Barradas e de Stuart Carvalhais; nos anos 20, a presença assídua de José Tagarro (que faleceu prematuramente) é da maior importância. Outras referências: Diogo de Macedo, Arlindo Vicente e Roberto de Araújo; nos anos 40 e 50, salientam-se Júlio Pomar e Lima de Freitas.

O reconhecimento dos vários surtos da modernidade encontra-se na crítica de arte de José Ernesto de Sousa e, pouco antes do 25 de Abril, em Rocha de Sousa, enquanto José-Augusto França se distinguiu, muitos anos, na crítica de cinema. Nesta retrospetiva bastante sumária não se podem ignorar a crítica de teatro de João Pedro de Andrade e a crítica de música de Fernando Lopes Graça. Só que Lopes Graça ultrapassou este domínio, ocupando -se de outros sectores culturais e políticos.

CENSURA, ASSALTOS, PRISÕES

A censura, desde que foi instituída e legalmente estruturada — na sequência da implantação da ditadura militar e da chefia do governo presidido por Salazar —, teve intervenção drástica na “Seara Nova”. Os motivos de combate permanente à “Seara Nova”, um dos órgãos de comunicação mais contundentes, ressaltaram nos temas da comemoração do 40º aniversário do 28 de Maio, através das intervenções de políticos, de militares e de um representante da igreja. Estão reunidas em dois volumes. Justificaram e exaltaram as políticas adotadas e que se vão manter até ao 25 de Abril. Também a União Nacional, no âmbito desta comemoração, lançou outros livros, um dos quais “A ‘Seara Nova’ e o Pensamento da Revolução Nacional”, da autoria de Mário Matos e Lemos e publicado na Panorama, a editora do SNI.

A anunciada Primavera Marcelista, de setembro de 1968 a 24 de abril de 1974, continuou a encarar a “Seara Nova” como um perigo político, um dos inimigos a abater e a condenar ao ostracismo. José Tengarrinha estudou na história da “Seara Nova” os dois períodos em que a censura foi mais radical: coincidiram com a direção de Câmara Reys (1927-1960) e, de 1961 a 1974, com as direções de Augusto Casimiro, de Rogério Fernandes, de Augusto Abelaira e de Manuel Rodrigues Lapa. Além da intervenção da censura, também se registaram, ao longo de décadas, os assaltos, os confiscos e as prisões da PIDE, que prendeu e torturou intelectuais marcados pelo estigma da “Seara Nova”.

Entre numerosos casos gritantes, em novembro de 1958, recordam-se as prisões de seareiros históricos como António Sérgio, Jaime Cortesão e Mário de Azevedo Gomes, todos eles com mais de 70 anos. O pretexto era que, fora do tempo de “liberdade suficiente” da campanha eleitoral de Humberto Delgado, promoviam a organização para a vinda a Portugal de Aneurin Bevan, deputado trabalhista britânico, e de Pierre Mendès France, a fim de fazerem conferências sobre democracia.


INTRANSIGÊNCIA DE PRINCÍPIOS

O enquadramento da “Seara Nova” coloca-nos perante várias “Searas Novas” com diferenças políticas e culturais muito assinaláveis. Até ao último número manteve-se fiel a “regras básicas de conduta” — esclareceu Rodrigues Lapa —, como, por exemplo, em não “agrupar todos os seareiros sob um mesmo credo e uma só bandeira”. Especificava que a “Seara Nova” “guardou sempre avaramente a sua independência. Daí a sua autoridade cívica. Contra a política aventureira dos improvisadores da velha democracia. (...) Veio substituir e muitas vezes combater uma forma de radicalismo, muito em moda, que só tinha de avançado o modo truculento como atacava os padres e a religião, mas que se mancomunava, podendo ser, com os príncipes da plutocracia e da finança, tradicionais inimigos da democracia”.

“Essa posição intransigente na defesa dos princípios de uma democracia social” — acentuava Rodrigues Lapa — “teve por consequência a hostilidade dos partidos republicanos que então disputavam o poder”. Durante a ditadura, de 1926 a 24 de abril de 1974, a “Seara Nova” travou “um ferrenho combate, com armas desiguais, mas com o vigor desesperado dos que preferem morrer a ceder um palmo de terreno”.

Um dos “pequenos dramas da vida íntima da ‘Seara’” — observou ainda Rodrigues Lapa — consistiu no “espírito de elite, que cava abismos quase intransponíveis entre o agente e o objeto da cultura”. No entanto, a “Seara Nova” opunha-se “à cultura como privilégio de classe, inacessível ao cidadão vulgar”. Assim, procedeu, desde os anos 30 aos anos 60, à publicação e ampla divulgação dos “Cadernos da ‘Seara Nova’” e dos “Textos Literários”. Rodrigues Lapa e António Sérgio foram os principais responsáveis pela seleção dos autores, a introdução de cada opúsculo e a organização de uma antologia sumária. Procurando sempre — afirmou Rodrigues Lapa — “um estilo claro, que fuja à retórica tradicional e a um gongorismo retorcido, em que o português culto ou semiculto de ordinário se compraz com delícia”.

Todas estas circunstâncias em momentos particularmente atribulados, com a sistemática repressão da censura e da polícia política, a PIDE e a DGS, estabeleceram uma filosofia e uma moral. Apesar de todas as adversidades e de todas as polémicas, a “Seara Nova” deixou um legado cívico e cultural dos mais notáveis dos últimos 100 anos.

Em Defesa de uma Democracia Social – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], revista E, Expresso, 9 de Outubro de 2021, pp. 34/39 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

[MARMELEIRA (MORTÁGUA)] REPÚBLICA, EDUCAÇÃO E LIBERDADE

 


O espaço público do Núcleo Museológico da Irmânia – “Raízes e Memórias”, situado na Marmeleira (Mortágua), em boa hora inaugurado em Maio de 2016, dedica-se à “divulgação e preservação do património cultural e histórico do concelho e das suas gentes, através da representação fiel e rigorosa do quotidiano da vida rural, doméstica e comercial do final do século XIX e início do século XX”.

Com um conjunto assinalável de eventos que nos conduz numa curiosa “viagem à memória coletiva de um povo, que viveu humildemente da terra e ousou sonhar com ideais de educação, liberdade e desenvolvimento”, o Núcleo Museológico da Irmânia apresenta ao público a sala Basílio Lopes Pereira (1894 - 1959), advogado, republicano assumido, jornalista, administrador do concelho de Mortágua, notário, defensor estrénuo da instrução e educação popular, candidato a deputado pela oposição em 1953, associativista e maçon, intrépido opositor ao Estado Novo e, por isso, preso por diversas vezes no seu persistente combate antifascista. Basílio Lopes Pereira foi sem qualquer dúvida uma das figuras mais emblemáticas do concelho e da região Centro.  


Ontem, dia 10 de Outubro, decorreu a inauguração da nova sala de exposição dedicada a Basílio Lopes Pereira, ao mesmo tempo que foi lançado a edição fac-similada do “Memorial Estradas da Região da Irmânia”, que em 1944 a Junta da Marmeleira publica, com a curiosidade de revindicar várias e essenciais estradas para o “desenvolvimento da Região da Irmânia”, aliás assim definida:

 “Vila da Irmânia, ou só Irmanai como alguns lhe chamam para simplificar, é uma aldeia na margem esquerda da Ribeira da Sóidade, que fica ao sul e a 5.800 metros da estação ferroviária de Mortágua na linha da Beira Alta. Irmanai, propriamente, que fica um pouco ao lado, para poente, e ao cimo da colina, entre Santa-Rita e Vale de Eicaide, fica a 5.700 metros. Marmeleira, que dá o nome à freguesia, fica a 5.250 metros também da mesma estação. É a norte da Vila da Irmânia.“


FOTOS via M. Seixas, com a devida vénia

 




J.M.M.

sábado, 4 de setembro de 2021

[27 DE JUNHO 1949] GRUPOS POLÍTICOS DE OPOSIÇÃO AO GOVERNO

 


Apontamento do General Norton de Matos (1867-1955) sob o título "grupos políticos de Oposição ao Governo", enumerando-os:

1) P.R.P.;

2) O grupo B;

3) O grupo do Porto;

4) e 5) Dois grupos de Coimbra;

6) um grupo na Figueira;

7) O grupo do Prof.;

8) Os comunistas extremos;

9) V. S.;

10) e 11) Dois partidos socialistas;

12) Os monárquicos do F. V.;

13) Os monárquicos integralistas;

14) Os monárquicos liberais;

15) Os poucos do P. R. L. P. P. (2ª República);

16) O Cunha Leal e companhia;

17) O Movimento Nacional Democrático;

18) Oposição Democrática.


in Arquivo Municipal de Ponte de Lima, com a devida vénia

J.M.M.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

A PIDE, OS JORNAIS E FERNANDO NAMORA - POR PAULO MARQUES DA SILVA


Se a Censura era uma realidade, e os jornais vinham tão “limpos” que parecia que vinham “de um País onde não acontecia nada”, como se referia na época com vincada ironia, complementada com expressões como aquela que dizia “se queres saber o que se passa em Portugal, compra o Le Monde”, porque estão então os processos da PIDE inundados de recortes de notícias de jornais publicadas? No caso do processo principal de Fernando Namora verificamos que os documentos que estão em maior número são mesmo os recortes ou cópias de páginas de jornais. Mas, o caso de Namora não é único, bem longe disso.

É claro que todos os elementos serviam para compilar um quanto mais robusto processo, melhor. Mas, pergunta-se: mesmo com notícias ditas “inocentes”, que já haviam passado pelo crivo da Censura? A resposta é sim!

Após a análise dos processos da PIDE de Namora verifiquei que, muitas vezes, as notícias publicadas nos jornais pareciam resultar no principiar de diligências ou investigações por parte daquela Polícia. Vejamos alguns exemplos.

O jornal República, de 12 de Junho de 1951, anunciava a exibição no cinema Tivoli do filme Les Visiteurs du Soir, de Marcel Carné, no âmbito das denominadas “terças- feiras clássicas do Tivoli”, com comentário inicial de Fernando Namora. E lá esteve no cinema Tivoli um agente da PIDE que produziu, no dia seguinte, o seu relatório sobre a intervenção do escritor. 



Já o Diário de Lisboa, de 17 de Março de 1957, destacava um encontro de escritores, realizado na Casa do Alentejo, com a presença de cerca de 60 escritores portugueses, para debater assuntos relacionados com a actividade literária. A notícia terminava com a indicação de que se passaria a realizar, entre os escritores nacionais, uma reunião mensal a ocorrer no primeiro Domingo de cada mês. Quando, no dia 28 de Abril, se realiza novo encontro dos escritores, já será sob a vigilância do agente da PIDEFernando Moutinho, cujo relatório também podemos apreciar no processo de Fernando NamoraTambém, muito provavelmente, a notícia publicada na imprensa diária nacional, sobre um banquete de homenagem a Fernando Namora, por este ter conquistado o prémio Ricardo Malheiros, atribuído pela Academia das Ciências, a realizar no Salão de Chá Imperium, no dia 19 de Dezembro de 1953, terá originado um acompanhamento muito próximo do evento por parte da PIDE, com um primeiro relatório sobre os preparativos do banquete, e a presença no referido jantar de um agente da PIDE, cujo relatório, com seis páginas, sobre quem esteve presente e o que ali se disse, foi elaborado nos dias seguintes. Mas, sem qualquer sombra de dúvida, é a partir de um apontamento noticioso veiculado pelo Diário de Notícias, de 5 de Fevereiro de 1957, que publica uma notícia com origem na Rádio Moscovo, anunciando a participação de obras de escritores portugueses, entre os quais Fernando Namora, numa exposição de livros em Moscovo que, dois dias depois, os serviços de informação americanos, referindo expressamente aquela notícia de jornal, solicitam à PIDE elementos sobre os escritores mencionados na notícia, sobre quem confessam nada saber: Fernando Namora, Manuel Mendes, Carlos de Oliveira e António José Saraiva.



Concluindo, e talvez paradoxalmente, se a Censura cortava cerce, a PIDE ainda conseguia, após o viso daquela, desenvolver investigações e vigilâncias a partir da leitura da imprensa.

PAULO MARQUES DA SILVA

[NOTA  IMPORTANTE: 

Este artigo foi publicado originalmente no jornal Terras de Sicó, 2ª Quinzena de Novembro de 2020Ano 7, nº 139, p. 16, com a epígrafe - Pequenas histórias da PIDE e da Censura.

Itálico, negritos e tratamento da imagem da responsabilidade de A.A.B.M.]

domingo, 1 de dezembro de 2019

ASILO POLÍTICO EM TEMPOS DE SALAZAR



LIVRO: Asilo político em tempos de Salazar. Os casos de Humberto Delgado e Henrique Galvão;
AUTOR
: Luís Bigotte Chorão;
EDIÇÃO: Edições 70, Novembro de 2019, 336 p.

LANÇAMENTO:

DIA: 5 de Dezembro (18,30 horas);
LOCAL: Livraria Almedina Rato (R. da Escola Politécnica, 225 - Lisboa);
ORADORES: António Araújo | José Pacheco Pereira.

Henrique Galvão e Humberto Delgado assinalaram os difíceis tempos de oposição e luta à ditadura salazarista, tendo deixado um rasto de esperança e de ilusão nas camadas populares. Ambos tinham sido apoiantes da ditadura militar e do Estado Novo, ornamentando as suas fileiras. Na verdade, o tenente aviador Humberto Delgado e autor Da Pulhice do Homo Sapiens (Casa Ventura Abrantes, 1933), virulento escrito antirrepublicano e antimonárquico, acompanhou desde o início a ditadura e teve cargos relevantes no regime salazarista; Henrique Galvão, apoiante sidonista e caloroso adepto do salazarismo, exerceu devotamente cargos institucionais no início do Estado Novo. Essa ainda pouco esclarecida página negra da história contemporânea, levaram-nos, mais tarde, para o campo da oposição a Salazar e à Ditadura, fosse no escolho por uma pacífica luta eleitoral ou no ardor colocado em acções de grande espetacularidade e duro enfrentamento ao regime.

Este último trabalho de Luís Bigotte Chorão, aprofundamento de uma sua intervenção sobre o pedido de asilo político de Henrique Galvão à embaixada argentina, na FLUC, apresenta o enquadramento político e alguns marcos importantes em torno do asilo de Humberto Delgado (Janeiro de 1959) e Henrique Galvão (Fevereiro de 1959), incluindo, ainda, neste no seu estimado estudo outros asilados, como Rodrigo Teixeira Mendes de Abreu, Luís Cesariny Calafate, Manuel Serra, Sebastião Ribeiro, Manuel Sertório, Horácio Augusto Fernandes Gradim, Rogério de Oliveira e Silva, Joana Francisca Fonseca Simeão, Raúl Miguel Marques, Carlos Dionísio, entre outros.

Obra estimada e copiosa, com importantes fontes e demais anotações, apresenta no seu final (pp. 285-325) uns Anexos, provenientes do Arquivo Família Mairal, correspondência epistolar entre Henrique Galvão e Ernesto Pablo Mairal.  

Henrique Galvão e Humberto Delgado foram figuras extremamente populares durante o Estado Novo, nos meios oposicionistas não afetos ao Partido Comunista Português. Adversários destemidos do regime salazarista, viram-se ambos obrigados a pedir asilo político em circunstâncias que merecem a recuperação da memória histórica que este livro lhes concede. Enquanto Humberto Delgado o fez a 12 de janeiro 1959, na embaixada do Brasil, em Lisboa, Henrique Galvão formulou um pedido semelhante a 17 de fevereiro do mesmo ano, na representação diplomática da Argentina. Os dois pedidos de asilo transformaram-se rapidamente em acontecimentos políticos de primeira linha, com uma projeção internacional surpreendente. Em causa estavam duas personalidades que exaltavam, por maus motivos, os meios diplomáticos e a opinião pública. Enquanto o general Humberto Delgado tinha acabado de sair de um confronto violento com o regime, o capitão Henrique Galvão arrastava-se por inúmeras prisões ao longo de sete anos. Luís Bigotte Chorão reflete, assim, sobre um tempo de alta tensão política na história do século [AQUI]

J.M.M.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

LEITÃO DE BARROS REVISITADO



Leitão de Barros revisitado” – por António Valdemar, in Revista do Expresso
É um outro Leitão de Barros que nos confronta e nos surpreende na multiplicidade dos sete ofícios evidenciados no cinema, no teatro, nas artes plásticas, no jornalismo, na criação da Feira Popular, na organização de espetáculos que concebeu e realizou, nas festas da cidade que enchiam as ruas de Lisboa. Joana Leitão de Barros e Ana Mantero, duas netas que se recordam ainda do avô, acabam de publicar “Leitão de Barros — A Biografia Roubada”. É um livro repleto de factos e documentos, até agora desconhecidos e inesperados para os que não tiveram o privilégio de uma relação pessoal próxima. Apesar de teses universitárias, com a linguagem pesada e retorcida e os inevitáveis e preopinantes rodapés, este é, ainda, o livro que faltava e se encontra ao alcance do grande público.

Estamos perante um Leitão de Barros revisitado, que permanecia oculto num espólio — felizmente recuperado —, em mais de vinte caixotes, ao abandono, numa arrecadação, sem qualquer referência e, muito menos, sem a mínima ordenação. Assim surgiu, a pouco e pouco, muita correspondência recebida; muita cópia da correspondência enviada; muitas fotografias e muitos recortes de jornais e revistas.
Ao cabo de uma investigação exaustiva, que demorou sete anos, a decifrar, a sistematizar e a contextualizar milhares e milhares de documentos, já existia, pelo menos, um livro a propósito do homem, da sua obra e de tantas outras circunstâncias que representam a presença viva da primeira metade do século XX e dos seus grandes protagonistas.
Leitão de Barros ficou na história do cinema português e recebeu alguns importantes prémios internacionais. Marcou uma época. Desde “Malmequer” (1918), até “Vendaval Maravilhoso” (1949), passando pela “Severa”, extraída da peça e da narrativa romanceada de Júlio Dantas e que foi, em 1931, o primeiro filme sonoro português. Fixou o cenário marítimo e piscatório da Nazaré e da Póvoa de Varzim; o universo rural das “Pupilas do Senhor Reitor”, o pitoresco dos bairros humildes de Lisboa e a realidade telúrica e humana das populações dos arredores.
Ficou na história do jornalismo da primeira metade do século XX. Fundou e dirigiu o “Domingo Ilustrado” (1925-1927) e o “Notícias Ilustrado” (1928-1935). Estes dois semanários impuseram-se pela renovação gráfica, pela abundância de temas relatados e comentados. Teve a colaboração dos nomes famosos da época: Afonso Lopes Vieira e António Correia de Oliveira, entre os poetas; Carlos Malheiro Dias e Antero de Figueiredo, entre os escritores; e Carlos Reis e Roque Gameiro entre os artistas plásticos. Nos momentos solenes, Júlio Dantas era infalível.
Mas não hesitou publicar, e com todo o relevo, n’O Domingo Ilustrado o último manifesto de Almada NegreirosPa-Ta-Pom”, uma catilinária fulminante contra Martinho Nobre de Melo, catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa. Jovem ministro da Justiça de Sidónio e, na altura, um dos ministros da ditadura militar que, pela primeira vez, incluiu no Governo, o ainda desconhecido Oliveira Salazar. Leitão de Barros antecedeu António Ferro no lançamento de Salazar e do Estado Novo. Encontra-se provado neste livro.
 
Também n’O Domingo Ilustrado e no “Notícias Ilustrado” contribuiu para o conhecimento e valorização não só de Almada Negreiros, mas, também, de outros intervenientes do modernismo. Tais como os poetas e escritores: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro (a título póstumo), Alfredo Guisado, Luís de Montalvor; os pintores Eduardo Viana, Jorge Barradas e Sarah Affonso; os escultores Francisco Franco, Canto da Maya, Rui Gameiro e Barata Feyo; e os cartunistas e desenhadores Stuart Carvalhais, Carlos Botelho, José Tagarro e Bernardo Marques. Com Leitão de Barros começou — descoberto por Rodrigues AlvesEduardo Teixeira Coelho (o famoso ETC), o criador do “Mosquito”, para crianças e jovens, precursor do “Cavaleiro Andante” e da primeira adaptação de Eça de Queiroz para banda desenhada. O centenário do nascimento de Eduardo Teixeira Coelho — que este ano se completa — não teve o devido relevo e julgo que, nos Açores de onde era natural, também não lhe prestaram a devida homenagem
O escultor Leopoldo de Almeida que, a partir de indicações de Cottinelli Telmo e de Leitão de Barros, executou a figuração histórica do Padrão dos Descobrimentos para a Exposição do Mundo Português de 1940 (págs. 101 a 103) e que foi ampliado e inaugurado em 1960, durante as comemorações do centenário do Infante D. Henrique. Desde então passou a ser uma das imagens emblemáticas de Belém.
Ficou, também, Leitão de Barros na história do jornal “O Século”, no fim dos anos 30, até ao começo dos anos 50. Entre numerosas iniciativas criou o “Século Ilustrado” e a Feira Popular de Lisboa; voltou a entrevistar Salazar e entrevistou, no Castelo de Belleuve, nos arredores de Paris, a rainha D. Amélia, que enalteceu as obras do Estado Novo e a ação de Salazar.
É nesse período, de extraordinária dispersão e criatividade que Leitão de Barros concebeu e procurou viabilizar — e durante 17 anos atribulados — a nau “São Vicente”, réplica de um galeão do século XVII que se destinava a divulgar, através do Atlântico, das Américas, da África e do Oriente o que existia de mais significativo não só na história e nas diversas expressões da cultura portuguesa mas, também, o melhor que tínhamos nos vários sectores da produção comercial e industrial. Salazar inviabilizou o projeto depois de se terem gasto, na época, milhares e milhares de contos. Hoje correspondiam a cerca de €9 milhões.
 
Ficou, ainda, Leitão de Barros na história do “Diário de Notícias”. Fez crónicas e reportagens na Inglaterra, na Espanha e no Brasil, mas, durante os 15 anos, assinalou-se, em ‘Os Corvos’ (1953-1967). Era uma crónica semanal, que saía aos domingos, sempre na mesma página. Tinha repercussão nos mais diferentes extratos sociais: desde Salazar ao merceeiro da esquina. Não trazia assinatura e vinha paginada num espaço próprio e com carateres tipográficos próprios. Todos sabiam quem era o autor. Ocupava-se do que lhe apetecia e se passava em qualquer parte do país e do estrangeiro. (Entre muitos serviços de reportagem, também estive com Leitão de Barros e o José Rui a fazer a cobertura de uma Semana Santa, em Braga, onde, a certa altura, para surpresa minha e do José Rui introduziu no texto o elogio da Opus Dei). Mas, fundamentalmente, escrevia sobre Lisboa. ‘Os Corvos’ — de que há, apenas, a seleção, feita pelo próprio Leitão de Barros, uma até 1959, outra até 1961, em dois volumes ilustrados por João Abel Manta — mobilizaram milhares de leitores. Tinha propostas concretas para Lisboa: para valorizar a Avenida, para recuperar Alfama, para destacar a beleza das ruínas do Carmo, do Castelo e da orla ribeirinha do Tejo; para cuidar dos jardins e dos miradouros; para incentivar o turismo e a hotelaria, para ajudar as crianças e os velhos.
Outra singularidade deste livro de Joana Leitão de Barros e Ana Mantero mostra-nos e em toda a sua autenticidade, as implacáveis reações de Leitão de Barros em face da mediocridade, do mau gosto, do vazio de ideias e da pompa académica. Protestou junto de Salazar e com assiduidade e veemência — ao contrário do que muitos julgavam, pois consideravam-no um incondicional do regime, do Chefe e dos ministros — contra as picardias da censura (pág. 90). Numa das muitas cartas agora divulgadas afirmava a Cunha Leal, um dos temíveis líderes da oposição democrática: “Gostaria bem que me deixassem escrever — a mim que não sou escritor — que me deixassem ter opinião, que me não cortassem as unhas todos os sábados, depois do duche do capilé em que o ‘Diário de Noticias’ me encharca (…). Assim, tudo quanto escrevo é pífio, como pífio é o ar que respiramos…” (págs. 350, 351).
Numa outra carta a António Ferro, no auge das comemorações do Mundo Português, presididas por Júlio Dantas declarou (e Leitão de Barros investido em funções oficiais) que o Governo tinha “um par de botas para descalçar” e com urgência inadiável. Exigia perentoriamente, de António Ferro e, por extensão do ministro Duarte Pacheco, o afastamento imediato de Júlio Dantas. Sem quaisquer rodeios insistia: “Você não calcula o que esse homem tem feito de complicações, de gaffe, de possidonismo, de ‘ceroulas de malha’. É um sarilho a cada hora” (pág. 99). Trata António Ferro em diversas cartas com espantosa ferocidade. Denuncia a opinião inacreditável de Augusto de Castro acerca do cinema (pág. 98). Insurge-se oficialmente devido às desastrosas e infelizes decorações do “alegre arquiteto” Luís Benavente (pág. 108) E descreve, ainda, uma das suas atrevidas conversas com Salazar (págs. 108 a 112).
O livro expressivamente documentado revela os méritos tão diversificados de Leitão de Barros e, nas circunstâncias mais diferentes, o Leitão de Barros sem papas na língua. Também Joana Leitão de Barros e Ana Mantero tiveram a coragem de transcrever outros documentos polémicos do espólio, sem receio de enfrentar melindres familiares.
 
Numa das muitas cartas sepultadas, até agora, no espolio, o pintor Eduardo Malta, em delação premiada — se assim podemos classificar — descreveu, com enorme minúcia e citando nomes e factos, a deplorável sabotagem que se gerou para inviabilizar a votação favorável para ser Leitão de Barros sócio da Academia de Belas Artes. Não era uma questão de currículo, mas de aversão pessoal. Mais: de inveja e de medo da sua irreverência visceral e irreprimível e onde quer que fosse. Na Academia, fizeram os possíveis e impossíveis para que não houvesse quórum. Alinhou nessa cabala o próprio cunhado, o pintor e professor liceal Jaime Martins Barata, colaborador direto de anos seguidos de projetos profissionais comuns, o “taciturno” Martins Barata, protegido e defendido por Leitão de Barros ao ser marginalizado e excluído numa exposição a efetuar no Rio de Janeiro (pág. 74). Leitão de Barros não pode contar com a solidariedade de Martins Barata para ir para a Academia. Era um “desconfiado que tudo acautela” (pág. 74). Tão desconfiado que — relata o próprio Martins Barata, não esconde a sua conduta. Quando estava em Roma a pintar o altar de Nossa Senhora de Fátima, na basílica de Santo Eugénio — pormenorizou em carta a Leitão de Barros de 7 de julho de 1950 como tinha de proceder e para se defender: “Estas hordas seminuas não são de confiança, roubam tudo uns aos outros e a mim, se puderem, claro. Eu defendo-me com cadeados (7!) em vários sítios, mas estou sujeito como qualquer” (pág. 74).
Em nova votação, Leitão de Barros acabou, afinal, por entrar. Raul Lino, desta vez na presidência, quis resolver a questão. Era tarde. Leitão de Barros não chegou a tomar posse. Estava moribundo. Mas ainda deixou uma carta que arrasa a Academia e os que a constituíam (págs. 345 a 349). Carta tão virulenta como os textos mais sarcásticos de Camilo ou como os manifestos mais provocatórios e agressivos de Almada Negreiros e Fernando Pessoa. Um documento que saltou do espólio a fim de constituir mais um dos grandes panfletos contra todas as Academias nacionais e internacionais.
Tudo isto se destaca neste livro polémico, com verdades como punhos, de Joana Leitão de Barros e Ana Mantero, e que terá, pelo menos, mais uma outra edição.

LEITÃO DE BARROS — A BIOGRAFIA ROUBADA
Joana Leitão de Barros e Ana Mantero
Bizâncio, 2019, 367 págs., €18
Biografia

 

 
 
 
 
Leitão de Barros revisitado – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], E revista do Expresso - 26 de Outubro de 2019, pp.68-69 – com sublinhados nossos.
 
J.M.M.