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domingo, 1 de dezembro de 2019

ASILO POLÍTICO EM TEMPOS DE SALAZAR



LIVRO: Asilo político em tempos de Salazar. Os casos de Humberto Delgado e Henrique Galvão;
AUTOR
: Luís Bigotte Chorão;
EDIÇÃO: Edições 70, Novembro de 2019, 336 p.

LANÇAMENTO:

DIA: 5 de Dezembro (18,30 horas);
LOCAL: Livraria Almedina Rato (R. da Escola Politécnica, 225 - Lisboa);
ORADORES: António Araújo | José Pacheco Pereira.

Henrique Galvão e Humberto Delgado assinalaram os difíceis tempos de oposição e luta à ditadura salazarista, tendo deixado um rasto de esperança e de ilusão nas camadas populares. Ambos tinham sido apoiantes da ditadura militar e do Estado Novo, ornamentando as suas fileiras. Na verdade, o tenente aviador Humberto Delgado e autor Da Pulhice do Homo Sapiens (Casa Ventura Abrantes, 1933), virulento escrito antirrepublicano e antimonárquico, acompanhou desde o início a ditadura e teve cargos relevantes no regime salazarista; Henrique Galvão, apoiante sidonista e caloroso adepto do salazarismo, exerceu devotamente cargos institucionais no início do Estado Novo. Essa ainda pouco esclarecida página negra da história contemporânea, levaram-nos, mais tarde, para o campo da oposição a Salazar e à Ditadura, fosse no escolho por uma pacífica luta eleitoral ou no ardor colocado em acções de grande espetacularidade e duro enfrentamento ao regime.

Este último trabalho de Luís Bigotte Chorão, aprofundamento de uma sua intervenção sobre o pedido de asilo político de Henrique Galvão à embaixada argentina, na FLUC, apresenta o enquadramento político e alguns marcos importantes em torno do asilo de Humberto Delgado (Janeiro de 1959) e Henrique Galvão (Fevereiro de 1959), incluindo, ainda, neste no seu estimado estudo outros asilados, como Rodrigo Teixeira Mendes de Abreu, Luís Cesariny Calafate, Manuel Serra, Sebastião Ribeiro, Manuel Sertório, Horácio Augusto Fernandes Gradim, Rogério de Oliveira e Silva, Joana Francisca Fonseca Simeão, Raúl Miguel Marques, Carlos Dionísio, entre outros.

Obra estimada e copiosa, com importantes fontes e demais anotações, apresenta no seu final (pp. 285-325) uns Anexos, provenientes do Arquivo Família Mairal, correspondência epistolar entre Henrique Galvão e Ernesto Pablo Mairal.  

Henrique Galvão e Humberto Delgado foram figuras extremamente populares durante o Estado Novo, nos meios oposicionistas não afetos ao Partido Comunista Português. Adversários destemidos do regime salazarista, viram-se ambos obrigados a pedir asilo político em circunstâncias que merecem a recuperação da memória histórica que este livro lhes concede. Enquanto Humberto Delgado o fez a 12 de janeiro 1959, na embaixada do Brasil, em Lisboa, Henrique Galvão formulou um pedido semelhante a 17 de fevereiro do mesmo ano, na representação diplomática da Argentina. Os dois pedidos de asilo transformaram-se rapidamente em acontecimentos políticos de primeira linha, com uma projeção internacional surpreendente. Em causa estavam duas personalidades que exaltavam, por maus motivos, os meios diplomáticos e a opinião pública. Enquanto o general Humberto Delgado tinha acabado de sair de um confronto violento com o regime, o capitão Henrique Galvão arrastava-se por inúmeras prisões ao longo de sete anos. Luís Bigotte Chorão reflete, assim, sobre um tempo de alta tensão política na história do século [AQUI]

J.M.M.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

LEITÃO DE BARROS REVISITADO



Leitão de Barros revisitado” – por António Valdemar, in Revista do Expresso
É um outro Leitão de Barros que nos confronta e nos surpreende na multiplicidade dos sete ofícios evidenciados no cinema, no teatro, nas artes plásticas, no jornalismo, na criação da Feira Popular, na organização de espetáculos que concebeu e realizou, nas festas da cidade que enchiam as ruas de Lisboa. Joana Leitão de Barros e Ana Mantero, duas netas que se recordam ainda do avô, acabam de publicar “Leitão de Barros — A Biografia Roubada”. É um livro repleto de factos e documentos, até agora desconhecidos e inesperados para os que não tiveram o privilégio de uma relação pessoal próxima. Apesar de teses universitárias, com a linguagem pesada e retorcida e os inevitáveis e preopinantes rodapés, este é, ainda, o livro que faltava e se encontra ao alcance do grande público.

Estamos perante um Leitão de Barros revisitado, que permanecia oculto num espólio — felizmente recuperado —, em mais de vinte caixotes, ao abandono, numa arrecadação, sem qualquer referência e, muito menos, sem a mínima ordenação. Assim surgiu, a pouco e pouco, muita correspondência recebida; muita cópia da correspondência enviada; muitas fotografias e muitos recortes de jornais e revistas.
Ao cabo de uma investigação exaustiva, que demorou sete anos, a decifrar, a sistematizar e a contextualizar milhares e milhares de documentos, já existia, pelo menos, um livro a propósito do homem, da sua obra e de tantas outras circunstâncias que representam a presença viva da primeira metade do século XX e dos seus grandes protagonistas.
Leitão de Barros ficou na história do cinema português e recebeu alguns importantes prémios internacionais. Marcou uma época. Desde “Malmequer” (1918), até “Vendaval Maravilhoso” (1949), passando pela “Severa”, extraída da peça e da narrativa romanceada de Júlio Dantas e que foi, em 1931, o primeiro filme sonoro português. Fixou o cenário marítimo e piscatório da Nazaré e da Póvoa de Varzim; o universo rural das “Pupilas do Senhor Reitor”, o pitoresco dos bairros humildes de Lisboa e a realidade telúrica e humana das populações dos arredores.
Ficou na história do jornalismo da primeira metade do século XX. Fundou e dirigiu o “Domingo Ilustrado” (1925-1927) e o “Notícias Ilustrado” (1928-1935). Estes dois semanários impuseram-se pela renovação gráfica, pela abundância de temas relatados e comentados. Teve a colaboração dos nomes famosos da época: Afonso Lopes Vieira e António Correia de Oliveira, entre os poetas; Carlos Malheiro Dias e Antero de Figueiredo, entre os escritores; e Carlos Reis e Roque Gameiro entre os artistas plásticos. Nos momentos solenes, Júlio Dantas era infalível.
Mas não hesitou publicar, e com todo o relevo, n’O Domingo Ilustrado o último manifesto de Almada NegreirosPa-Ta-Pom”, uma catilinária fulminante contra Martinho Nobre de Melo, catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa. Jovem ministro da Justiça de Sidónio e, na altura, um dos ministros da ditadura militar que, pela primeira vez, incluiu no Governo, o ainda desconhecido Oliveira Salazar. Leitão de Barros antecedeu António Ferro no lançamento de Salazar e do Estado Novo. Encontra-se provado neste livro.
 
Também n’O Domingo Ilustrado e no “Notícias Ilustrado” contribuiu para o conhecimento e valorização não só de Almada Negreiros, mas, também, de outros intervenientes do modernismo. Tais como os poetas e escritores: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro (a título póstumo), Alfredo Guisado, Luís de Montalvor; os pintores Eduardo Viana, Jorge Barradas e Sarah Affonso; os escultores Francisco Franco, Canto da Maya, Rui Gameiro e Barata Feyo; e os cartunistas e desenhadores Stuart Carvalhais, Carlos Botelho, José Tagarro e Bernardo Marques. Com Leitão de Barros começou — descoberto por Rodrigues AlvesEduardo Teixeira Coelho (o famoso ETC), o criador do “Mosquito”, para crianças e jovens, precursor do “Cavaleiro Andante” e da primeira adaptação de Eça de Queiroz para banda desenhada. O centenário do nascimento de Eduardo Teixeira Coelho — que este ano se completa — não teve o devido relevo e julgo que, nos Açores de onde era natural, também não lhe prestaram a devida homenagem
O escultor Leopoldo de Almeida que, a partir de indicações de Cottinelli Telmo e de Leitão de Barros, executou a figuração histórica do Padrão dos Descobrimentos para a Exposição do Mundo Português de 1940 (págs. 101 a 103) e que foi ampliado e inaugurado em 1960, durante as comemorações do centenário do Infante D. Henrique. Desde então passou a ser uma das imagens emblemáticas de Belém.
Ficou, também, Leitão de Barros na história do jornal “O Século”, no fim dos anos 30, até ao começo dos anos 50. Entre numerosas iniciativas criou o “Século Ilustrado” e a Feira Popular de Lisboa; voltou a entrevistar Salazar e entrevistou, no Castelo de Belleuve, nos arredores de Paris, a rainha D. Amélia, que enalteceu as obras do Estado Novo e a ação de Salazar.
É nesse período, de extraordinária dispersão e criatividade que Leitão de Barros concebeu e procurou viabilizar — e durante 17 anos atribulados — a nau “São Vicente”, réplica de um galeão do século XVII que se destinava a divulgar, através do Atlântico, das Américas, da África e do Oriente o que existia de mais significativo não só na história e nas diversas expressões da cultura portuguesa mas, também, o melhor que tínhamos nos vários sectores da produção comercial e industrial. Salazar inviabilizou o projeto depois de se terem gasto, na época, milhares e milhares de contos. Hoje correspondiam a cerca de €9 milhões.
 
Ficou, ainda, Leitão de Barros na história do “Diário de Notícias”. Fez crónicas e reportagens na Inglaterra, na Espanha e no Brasil, mas, durante os 15 anos, assinalou-se, em ‘Os Corvos’ (1953-1967). Era uma crónica semanal, que saía aos domingos, sempre na mesma página. Tinha repercussão nos mais diferentes extratos sociais: desde Salazar ao merceeiro da esquina. Não trazia assinatura e vinha paginada num espaço próprio e com carateres tipográficos próprios. Todos sabiam quem era o autor. Ocupava-se do que lhe apetecia e se passava em qualquer parte do país e do estrangeiro. (Entre muitos serviços de reportagem, também estive com Leitão de Barros e o José Rui a fazer a cobertura de uma Semana Santa, em Braga, onde, a certa altura, para surpresa minha e do José Rui introduziu no texto o elogio da Opus Dei). Mas, fundamentalmente, escrevia sobre Lisboa. ‘Os Corvos’ — de que há, apenas, a seleção, feita pelo próprio Leitão de Barros, uma até 1959, outra até 1961, em dois volumes ilustrados por João Abel Manta — mobilizaram milhares de leitores. Tinha propostas concretas para Lisboa: para valorizar a Avenida, para recuperar Alfama, para destacar a beleza das ruínas do Carmo, do Castelo e da orla ribeirinha do Tejo; para cuidar dos jardins e dos miradouros; para incentivar o turismo e a hotelaria, para ajudar as crianças e os velhos.
Outra singularidade deste livro de Joana Leitão de Barros e Ana Mantero mostra-nos e em toda a sua autenticidade, as implacáveis reações de Leitão de Barros em face da mediocridade, do mau gosto, do vazio de ideias e da pompa académica. Protestou junto de Salazar e com assiduidade e veemência — ao contrário do que muitos julgavam, pois consideravam-no um incondicional do regime, do Chefe e dos ministros — contra as picardias da censura (pág. 90). Numa das muitas cartas agora divulgadas afirmava a Cunha Leal, um dos temíveis líderes da oposição democrática: “Gostaria bem que me deixassem escrever — a mim que não sou escritor — que me deixassem ter opinião, que me não cortassem as unhas todos os sábados, depois do duche do capilé em que o ‘Diário de Noticias’ me encharca (…). Assim, tudo quanto escrevo é pífio, como pífio é o ar que respiramos…” (págs. 350, 351).
Numa outra carta a António Ferro, no auge das comemorações do Mundo Português, presididas por Júlio Dantas declarou (e Leitão de Barros investido em funções oficiais) que o Governo tinha “um par de botas para descalçar” e com urgência inadiável. Exigia perentoriamente, de António Ferro e, por extensão do ministro Duarte Pacheco, o afastamento imediato de Júlio Dantas. Sem quaisquer rodeios insistia: “Você não calcula o que esse homem tem feito de complicações, de gaffe, de possidonismo, de ‘ceroulas de malha’. É um sarilho a cada hora” (pág. 99). Trata António Ferro em diversas cartas com espantosa ferocidade. Denuncia a opinião inacreditável de Augusto de Castro acerca do cinema (pág. 98). Insurge-se oficialmente devido às desastrosas e infelizes decorações do “alegre arquiteto” Luís Benavente (pág. 108) E descreve, ainda, uma das suas atrevidas conversas com Salazar (págs. 108 a 112).
O livro expressivamente documentado revela os méritos tão diversificados de Leitão de Barros e, nas circunstâncias mais diferentes, o Leitão de Barros sem papas na língua. Também Joana Leitão de Barros e Ana Mantero tiveram a coragem de transcrever outros documentos polémicos do espólio, sem receio de enfrentar melindres familiares.
 
Numa das muitas cartas sepultadas, até agora, no espolio, o pintor Eduardo Malta, em delação premiada — se assim podemos classificar — descreveu, com enorme minúcia e citando nomes e factos, a deplorável sabotagem que se gerou para inviabilizar a votação favorável para ser Leitão de Barros sócio da Academia de Belas Artes. Não era uma questão de currículo, mas de aversão pessoal. Mais: de inveja e de medo da sua irreverência visceral e irreprimível e onde quer que fosse. Na Academia, fizeram os possíveis e impossíveis para que não houvesse quórum. Alinhou nessa cabala o próprio cunhado, o pintor e professor liceal Jaime Martins Barata, colaborador direto de anos seguidos de projetos profissionais comuns, o “taciturno” Martins Barata, protegido e defendido por Leitão de Barros ao ser marginalizado e excluído numa exposição a efetuar no Rio de Janeiro (pág. 74). Leitão de Barros não pode contar com a solidariedade de Martins Barata para ir para a Academia. Era um “desconfiado que tudo acautela” (pág. 74). Tão desconfiado que — relata o próprio Martins Barata, não esconde a sua conduta. Quando estava em Roma a pintar o altar de Nossa Senhora de Fátima, na basílica de Santo Eugénio — pormenorizou em carta a Leitão de Barros de 7 de julho de 1950 como tinha de proceder e para se defender: “Estas hordas seminuas não são de confiança, roubam tudo uns aos outros e a mim, se puderem, claro. Eu defendo-me com cadeados (7!) em vários sítios, mas estou sujeito como qualquer” (pág. 74).
Em nova votação, Leitão de Barros acabou, afinal, por entrar. Raul Lino, desta vez na presidência, quis resolver a questão. Era tarde. Leitão de Barros não chegou a tomar posse. Estava moribundo. Mas ainda deixou uma carta que arrasa a Academia e os que a constituíam (págs. 345 a 349). Carta tão virulenta como os textos mais sarcásticos de Camilo ou como os manifestos mais provocatórios e agressivos de Almada Negreiros e Fernando Pessoa. Um documento que saltou do espólio a fim de constituir mais um dos grandes panfletos contra todas as Academias nacionais e internacionais.
Tudo isto se destaca neste livro polémico, com verdades como punhos, de Joana Leitão de Barros e Ana Mantero, e que terá, pelo menos, mais uma outra edição.

LEITÃO DE BARROS — A BIOGRAFIA ROUBADA
Joana Leitão de Barros e Ana Mantero
Bizâncio, 2019, 367 págs., €18
Biografia

 

 
 
 
 
Leitão de Barros revisitado – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], E revista do Expresso - 26 de Outubro de 2019, pp.68-69 – com sublinhados nossos.
 
J.M.M.

sábado, 29 de junho de 2019

NO CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE RAMON MACHADO DE LA FERIA (1919-2003)





Ramon Machado de La Feria nasceu na freguesia de São Salvador, concelho de Serpa a 27 de Junho de 1919. Era filho de Helena da Ascensão do Prado Machado e do médico republicano e ilustre maçon Ramon Nonato de La Feria 


[nascido a 18 de Julho de 1886, em Serpa – cf A.H.de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria, vol. 1, p. 563; bacharel em medicina e republicano militante do partido Unionista, de Brito Camacho; é ele que anuncia a boa-nova da implantação da Republica ao povo de Serpa; combateu em França na I Grande Guerra e foi um íntegro combatente contra o Estado Novo, foi preso por diversas ocasiões (na sequência da revolta da Madeira; entre 1937-1939, curiosamente acusado de integrar a maçonaria - Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 29, registo nº 5776), presidiu (1925) à direcção do Grémio Alentejano; pertenceu ao MUD e esteve sempre presente nos diversos combates eleitorais; Ramon Nonato de La Feria foi iniciado na Maçonaria com o n.s. de Claude Bernard, em 1914, na Loja Cândido dos Reis, onde teve diversos cargos, entre eles de Venerável; pertenceu ao Supremo Conselho do grau 33 do REAA, tendo sido eleito Presidente do Conselho da Ordem para o período de 1927-29 e 1930, demitindo-se, neste ano, a 12 de Setembro; integrou, em 1930, a Comissão de Estudos Profanos do GOLU, que presidiu – cf. António Ventura, Uma História da Maçonaria em Portugal, p, 698, 736; integra, em 31 de Março de 1935, o Conselho da Ordem, então presidido por Maurício Costa, mantendo-se no cargo até ao 25 de Abril de 1974; morre a 10 de Novembro de 1970, em Lisboa]


Frequenta os seus estudos liceais no Liceu Camões (em Lisboa), cursou medicina na Universidade de Lisboa (no Campo Santana), ingressando na carreira médica com a especialidade em Anestesiologia Cardíaca. Chefe de clínica, foi desde 1960 responsável pelos Serviços de Anestesiologia e Reanimação do Hospital Pulido Valente. Teve copiosos trabalhos de investigação publicados e diversos cargos na Ordem dos Médicos  e da Liga dos Direitos do Homem


Como estudante universitário foi preso a 28 de Março de 1947, por mandado de captura do inspector da PIDE, capitão José Catela, e enviado para a cadeia do Aljube. Tinha-lhe sido atribuído o crime de ter assinado em nome da direcção universitária de Lisboa do MUD Juvenil (como outros seus companheiros: José Carlos Gonçalves, Fernando Pulido Valente, Joaquim Ângelo C. Rodrigues e Carlos Gomes) e distribuído, um panfleto ciclostilado intitulado “Em defesa da Universidade” e onde se verbera a iníqua detenção do estudante da Faculdade de Ciências (e também membro do MUD Juvenil – organização ilegal e clandestina para a PIDE) Mário Ruivo. Teve como seu defensor em Tribunal Plenário, o advogado João Manuel da Palma Carlos. Cumpriu pena de prisão em Caxias, com perda de direitos políticos por cinco anos.    




Isto é, desde a primeira hora que Ramon Machado de La Feria marcou a sua posição contra o salazarismo e o Estado Novo. Republicano assumido, pertenceu à direcção do MUD Juvenil e integra ao longo da sua vida diversos centros republicanos, assumindo mesmo a Presidência da Comissão Permanente das Assembleias Gerais dos Centros Republicanos de Lisboa, “procedendo à reestruturação das instituições [republicanas] que chegaram até ao 25 de Abril” – cf. António Valdemar, República, 10 de Dezembro de 2003, p. 8. -, presidindo às Comissões Cívicas da Comemoração do 5 de Outubro até à sua morte. 


Em 1952, estando a cumprir o serviço militar como oficial miliciano, foi de novo detido pela PIDE (no Aljube e Caxias, durante 2 meses e meio) por “envolvimento num movimento de oficiais milicianos ligados a Henrique Galvão” [António Valdemar, ibidem] contra Salazar. Em 1968 é de novo preso no Aljube e em Caxias, acusado de ser um dos responsáveis da tentativa de derrube do regime, com apoio de um grupo de militares. Já em 1973, enquanto presidente da Ordem dos Médicos, Ramon Machado de La Feria é preso por ter denunciado em público a intervenção da PIDE no assassínio do estudante do MRPP, Ribeiro dos Santos. Depois de Abril de 1974, integra o MDP/CDE e depois filia-se no PS.  


Em Fevereiro de 1973, seguindo os passos do seu ilustre pai, inicia-se na Maçonaria com o n.s. de Marat, na Loja Simpatia e União [A Loja Simpatia e União, foi das poucas oficinas que não abateram colunas; tinha em Abril de 1974 cerca de trinta e seis obreiros – ver Casa 4. A Loja dos Grão-Mestres Sympathia e União 1859-2009, p. 108], por proposta do então Grão-Mestre Luís Hernâni Dias Amado [n.s. Zacuto Lusitano]. Pertenceu, em 1975, à Loja Cândido dos Reis (ver Manuel Poirier Braz, Eu Maçon me Confesso, p. 38 e ss; foi nesta loja que o seu pai tinha sido iniciado), tendo sido nomeado Grande Secretário das Relações de Justiça do Conselho da Ordem, depois Presidente do Conselho da Ordem Interino (1975 e 1976); atinge o grau 18 (cavaleiro Rosa-Cruz) em 1975, o grau 25, em 1977, grau 30, em 1979 e o grau 33, em 1980, com um curioso trabalho “Maçonaria - Sociedade Iniciática”, integrando o Supremo Conselho do Grau 33 do REAA. Em 1987 pertence ao quadro da Loja José Estêvão. Com um notável curriculum maçónico, é eleito como Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano para o período entre 1990 a 1993, tendo como Adjuntos António [Maria Lobo de Vasconcelos] Corte-Real e Mário de Sousa Dias. Data desse período uma “grave querela” que opõe o REAA e o RF. 


Foi associado do Internato de S. João, integrando por diversas vezes a sua direção, foi sócio da Escola-Oficina nº1, presidiu à Mesa da Assembleia Geral do Centro Republicano Almirante Reis, do Centro Republicano Fernão Botto-Machado, do Centro Republicano da Ajuda e foi membro da Comissão de Romagem aos Heróis de 5 de Outubro (Cemitério do Alto de S. João). A 25 de Julho de 1989 foi feito Comendador da Ordem da Liberdade.   


Morre vítima de doença prolongada a 25 de Maio de 2003


J.M.M.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

ESCOLA PRÁTICA DE CAVALARIA – MEMÓRIA (1890-2013)



LIVRO: Escola Prática de Cavalaria – Memória (1890-2013);
AUTORES: António Xavier Pereira Coutinho | António Eduardo Queiroz Martins;
EDIÇÃO: Fronteira do Caos, 2018, 282 pp.

“A Escola foi detentora de um excecional percurso histórico ligado aos destinos de Portugal, em momentos relevantes e decisivos da nossa História. Desde a Primeira Guerra Mundial, passando pelo papel decisivo na alteração do regime político em Portugal e na defesa de Portugal em África, bem como mais recentemente, na participação em missões internacionais, os Cavaleiros escreveram páginas de honra, lealdade e bravura, individual e coletiva, demonstrando uma notável disponibilidade para bem servir o Exército e a Nação em todas as circunstâncias.

A Escola Prática de Cavalaria sempre soube adaptar-se às sucessivas evoluções dos assuntos militares, introduzindo em cada época os ajustes necessários às exigências estratégicas de Portugal. De forma constante manteve o espírito do Cavaleiro, aquele que domina o animal ou controla a máquina, com o seu rasgo de iniciativa, bravura e audácia, suportado no forte espírito de corpo, na abnegação e no sacrifício.

Este livro é, assim, uma afirmação de que hoje, tal como ontem, a nossa Cavalaria continua a alicerçar a sua força e coesão em valores e tradições intemporais, em idiossincrasias próprias, fatores que associados à criatividade, dinamismo e ambição dos seus militares, lhe confere serenidade e confiança face ao futuro”.

(Da Nota de Abertura pelo CEME General Frederico Rovisco Duarte)


J.M.M.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

A MAÇONARIA EM ÉVORA (1908-1936) - CONFERÊNCIA



DIA: 22 de Novembro de 2018 (18,30 horas);

LOCAL: Biblioteca Pública de Évora [Largo do Conde de Vila Flor 4, Évora];
ORGANIZAÇÃO: Centro de História da UL | IHCFCSH-UNL | Centro de Estudos de História e de Filosofia da Ciência da Universidade de Évora.

ORADOR: Prof. António Ventura

"O Centro de História da Universidade de Lisboa irá promover uma conferência intitulada "A Maçonaria em Évora (1908-1936)", a ter lugar na Biblioteca Pública de Évora, no próximo dia 22 de novembro.

A conferência será proferida pelo Professor Doutor António Pires Ventura, Professor Catedrático do Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Organização: Centro de História da Universidade de Lisboa; Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa; Centro de Estudos de História e de Filosofia da Ciência da Universidade de Évora" [AQUI]

J.M.M.

domingo, 30 de setembro de 2018

IN MEMORIAM FERNANDO FERNANDES [1934-2018]



Partiu de entre todos nós, FERNANDO FERNANDES, livreiro da mítica livraria portuense “Leitura” (com uma entrada na rua de Ceuta e outra pela rua José Falcão; foi fundada em Setembro de 1968 por Fernando Fernandes e José Carvalho Branco, silenciando-se só em 1999), um espaço de encontro, esperança e luta contra a ditadura, um local de culto que uma geração conheceu e venerou. Anos antes (1958) já Fernando Fernandes, o guardião dos livros, tinha decidido entrar no mundo dos livros, criando a livraria “Divulgação”.
Fernando Fernandes nasceu em Águeda e vem residir [em 1941; cf. Pedro Pereira Leite, Pela estrada larga: O Livreiro Fernando Fernandes e as memórias duma geração – texto que seguimos de perto e para qual remetemos a sua gostosa leitura] para a cidade do Porto, que muito amou. Órfão muito cedo, acedeu ao convite para dirigir a sessão de livros da papelaria Aviz. Tinha 18 anos e um especial assombro e entusiasmo pelo papel impresso. Estava traçado o seu destino nessa nobre “arte de vender livros”, da qual muitos dos livreiros herdaram muito do que sabem. O “poeta dos livros” marcou, seguramente, toda uma geração de livreiros.

Fernando Fernandes não era, porém, um simples e erudito livreiro, era um cidadão íntegro e de corpo inteiro, que vivia intensamente o seu tempo, por isso não espanta que tenha (em 1953) integrado o MUD Juvenil [idem, ibidem], combatendo com determinação a ditadura. Foi aí, porventura, pelas tertúlias culturais organizadas pela oposição, e onde participa, que lhe nasce esse gosto e entrega pelo serviço público cultural, ornamento do seu negócio do livro.    

Foi preso (1955), internado no hospital psiquiátrico [Conde Ferreira; idem ibidem] e julgado no célebre processo [o seu advogado era Alexandre Babo] que levou à prisão 52 democratas do Porto, na violenta repressão salazarista que se abateu contra os estudantes universitários do Porto, e que culminou na proibição legal (1957) do MUD Juvenil. Sai em liberdade e regressa à sua secção de livros da papelaria Aviz.   
Em 1958, na sequência da sua colaboração com o movimento cívico “Convívio” [que editava os cadernos Convívio, como depois publicava livros; tinha os bons auspícios de Afonso Cautela], vendendo no seu estabelecimento as suas edições, foi-lhe feito a proposta de criar uma livraria, convidando Fernando Fernandes para a sua direção. Fernando Fernandes depois de muita hesitação [“foi a decisão mais difícil da minha vida” – ibidem] deixou o trabalho na papelaria Aviz (com alguma tristeza, pela sua grande amizade com o proprietário, Manuel Camanho) e funda em Junho a livraria “Divulgação”, “na esquina da rua de Ceuta nº 88, com a rua José Falcão. Como novidade, a nova livraria organizava-se com secções temáticas, publica um boletim bibliográfico mensal, patrocinava sessões de autógrafos com escritores, tinha uma galeria de arte e secção de discos, organiza exposições bibliográficas [como aquela organizada em 1963, por José Augusto Seabra, sobre o vate Fernando Pessoa, e que ficaria célebre pelo incidente verificado com o dr. Pedro Veiga (Petrus), e que não cumpre aqui referir]. Tudo isso era notoriamente inovador, pelo que desde o seu início foi um centro dinamizador cultural da cidade e um local conotado com o reviralhismo conspirativo e a oposição à ditadura. A Divulgação abriu mesmo duas livrarias mais, uma (1964) em Lisboa e outra em Viana do Castelo, o que de certo modo originou problemas financeiros que se foram agravando, levando ao encerramento da livraria em 1968 [sobre este assunto ver Pedro Pereira Leite, ibidem].



Fernando Fernandes não desiste e, com o apoio de Jaime Castelo Branco (que se torna seu sócio) reabre a livraria [recuperando-a da tutela da Bertrand], agora com o nome de “Livraria Leitura”. De novo impera o mesmo espírito de amor aos livros e tributo aos seus ledores, a mesma “referência da elite intelectual do Porto”, pelo que floresce e alarga-se a outras zonas e regiões (caso de Aveiro).  Até ao 25 de Abril de 1974, foi objeto contínuo de vigilância da PIDE, mas mesmo assim lá se encontravam os inúmeros opúsculos, textos e livros proibidos de circular pela censura, continuando a ser um local de paragem obrigatória ao cidadão democrata e livre, uma espaço de tertúlia cultural e de fraternidade. Em 1998 Fernando Fernandes reforma-se, “descontente com o rumo que estava a ser seguido pelo mercado livreiro, com a emergência de novos espaços comerciais, onde nem sempre o livro é tratado com a devida deferência”. Em 2017, Fernando Fernandes leiloa a sua estimada biblioteca (o Catálogo com a colaboração de Armando Alves e Albano Martins) e sua colecção de Arte.
Morre a 30 de Setembro de 2018.

[NOTA: agradecimento especial a Pedro Baptista]
J.M.M.

domingo, 23 de setembro de 2018

FERNANDO PESSOA, UM RETRATO FORA DA ARCA



Da Resistência a Fernando Pessoa” – por António Valdemar, in Caderno E, Expresso
Motivos literários, políticos e religiosos ajudam a explicar a lenta, polémica e difícil compreensão do poeta

"Fernando Pessoa, Um Retrato Fora da Arca”, por Zetho Cunha Gonçalves, integra mais de 400 páginas com artigos e depoimentos repartidos em quatro núcleos temáticos: a homenagem da revista “Presença” em 1936, os próximos do seu convívio, o presente da amizade retribuído e as vozes da intimidade comunicantes. Pretende ser “a mais alentada recolha de textos alguma vez dada a público, não só de Fernando Pessoa sobre os seus pares mais próximos, como também, sobretudo daqueles com que eles mais intimamente conviveram humana e literariamente”. É um contributo, sem dúvida, mas não se poderá considerar exaustivo.
A recuperação de textos dispersos principiou com as “Páginas de Doutrina Estética”, coligidas por Jorge de Sena, em 1946, e insere-se, a partir de 1942, no âmbito das obras completas editadas pela Editorial Ática, de Luís de Montalvor. Disponibilizou elementos fundamentais para elaborar as primeiras biografias e estudos críticos. Assinala os primórdios da divulgação ainda muito contestada da produção ortónima e heterónima de Fernando Pessoa.

A escolha para “Um Retrato Fora da Arca” dos dois artigos de Alfredo Guisado no semanário “O Diabo”, de 1935 e de 1936, escritos sob o impacto da morte de Pessoa, e devido a muitos disparates nos jornais e de lamentáveis omissões, merece, todavia, ser completada com a entrevista que Alfredo Guisado concedeu à revista “Autores”, (número 10, de 1960) e que, embora não assinada, é da autoria do diretor e único redator Luís de Oliveira Guimarães.
Ainda sobre Alfredo Guisado aguarda-se, há muito, a colheita e a seleção de centenas de artigos e crónicas acerca do grupo e da geração do Orpheu, no jornal “República”, do qual foi um dos diretores de fins dos anos 40 a fins dos anos 60. Traçou perfis de amigos e companheiros, descreveu episódios desconhecidos, envolveu-se em guerrilhas com Gaspar Simões e Casais Monteiro.
 
 

ERROS CRASSOS
A polémica desencadeada, em 1950, por Gaspar Simões, nos dois tomos de “Vida e Obra de Fernando Pessoa” motivou a crítica pertinente de Augusto Ferreira Gomes, em entrevista de que lemos, agora, alguns excertos reveladores. Todavia, o ataque mais documentado e profundo depara-se em “Fernando Pessoa — Notas a uma Biografia Romanceada”, por Eduardo Freitas da Costa. Pertencia à família, convivera de perto com Pessoa, nos últimos anos. Estava habilitado para rebater opiniões, apontar lacunas e denunciar erros, alguns deles crassos. Por ser um adversário político confesso, João Gaspar Simões recusou-se a proceder às retificações que se impunham em edições posteriores.

A propósito de erros crassos existem outros nas “Páginas Íntimas e de Autointerpretação”, organizadas por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho. São, por exemplo, detetáveis na identificação de Esther Duval, que era a atriz Esther Leão, ou acerca de Carlos Corado, como mais um possível heterónimo de Pessoa. Tratava-se, afinal, de Carlos Celestino Corado, grande contador de histórias de bastidores políticos e culturais, colega de Pessoa no Curso Superior de Letras, bibliotecário do Palácio de São Bento e do “Jornal do Comércio”. Retificou o equívoco Hernâni Cidade, num artigo publicado n’ “O Primeiro de Janeiro”.
AS RESTRIÇÕES DA IGREJA

A igreja católica, durante décadas, formulava as maiores restrições a Fernando Pessoa, enquanto glorificava Mário Beirão, autor do hino da Mocidade Portuguesa e, sobretudo, António Correia de Oliveira, a proposta sempre na manga para um candidato português ao Nobel da Literatura. Uma das vozes mais influentes da igreja, o padre Moreira das Neves, consultor da nunciatura e do episcopado, biógrafo encartado do cardeal Cerejeira, chefe de redação do jornal “Novidades”, órgão diário do episcopado até ao 25 de Abril, depôs no inquérito do semanário “Acção”, mas não foi selecionado para “Um Retrato Fora da Arca”.
Não seria despiciendo divulgar o que, então, disse Moreira das Neves. Reconhecia Fernando Pessoa “um dos poetas mais densos da literatura portuguesa” e, logo a seguir, afirmava perentoriamente: “Crivado de enigmas e com sede de luz, debateu-se entre Deus e o poder das trevas. Daí o hermetismo de muitos dos seus versos e o pendor profético de tantos outros. Lastimo todos os erros que Fernando Pessoa não soube evitar.”

Afonso Lopes Vieira, um dos denominados “mestres da portugalidade”, autor do Avé de Fátima e da Oratória de Fátima musicada, em 1932, por Ruy Coelho, no inquérito da “Acção”, sobre Fernando Pessoa foi categórico: “Quanto à sua vasta obra poética, pelo que conheço, encontro um exoterismo (sic) ou cabalismo que sinto pouco e entendo mal.”
FRASEOLOGIA UNIVERSITÁRIA
Catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, até ao fim dos anos 50, fundador e diretor da revista “Colóquio”, até 1975, Hernâni Cidade, colega de Pessoa no Curso Superior de Letras — em texto agora não recuperado do inquérito da “Acção” — ao pronunciar-se acerca de Fernando Pessoa considerava que a sua poesia “procura, acima de tudo intuir os frémitos desconexos, os nevoentos emaranhamentos do mundo interior, em sua atividade subconsciente pré-lógica”.

Esta fraseologia que sempre foi peculiar a Hernâni Cidade, seja a escrever ou a falar sobre Camões, Vieira e outros poetas e escritores clássicos ou contemporâneos, marcou sucessivas gerações de alunos.
A opinião que predominava na Faculdade de Letras de Lisboa, foi alterada por Vitorino Nemésio, catedrático de Literatura Portuguesa Contemporânea. Não sendo um pessoano militante, incitou Jacinto do Prado Coelho a não continuar com a novela camiliana — uma das especialidades do pai, António do Prado Coelho, discípulo de Teófilo — e a preparar a tese Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, concluída em 1949.
 
 

BANDEIRA POLÍTICA
Outro depoimento do insuspeito José Osório de Oliveira que se limitou à “Mensagem”. “Teve, esse livro — acentuou — a pior sorte que em Portugal pode ter uma obra literária; servir de bandeira política”. Muitos “do outro lado, passaram a admirar Fernando Pessoa só no dia em que ele escreveu contra a extinção das ordens secretas”.

Em face de tudo isto a oposição republicana, socialista e comunista, até aos anos 50/60, rotulava Fernando Pessoa de poeta fascista. Tanto mais que publicara, em 1928, a “Defesa e Justificação da Ditadura Militar”. Recorde-se que Pessoa rejeitou este folheto editado pelo Núcleo de Ação Nacional. Com efeito, na nota biográfica, com data de 30 de março de 1935 escreveu: “Deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isto e talvez que repudiar muito.”
A POSIÇÃO DE MÁRIO SOARES

Os preconceitos dos neorrealistas foram, por vezes, ostensivos. Deveriam ser recolhidos e analisados. Mário Soares — companheiro e amigo dos neorrealistas, editado na coleção do Novo Cancioneiro, casado com Maria Barroso, intérprete dos principais poetas do neorrealismo — aproximou-se de Fernando Pessoa “só no exílio em Paris e, fundamentalmente, depois do regresso a Portugal” — confidenciou-me, recordando o forte impacto na sua formação literária e cívica incutido por Álvaro Salema. “A minha visão democrática de Portugal” — prosseguia — “foi alicerçada com a leitura de escritores, poetas e ensaístas dos séculos XIX e XX“. E enumerava: “Herculano e Garrett, Antero e Oliveira Martins, Eça que li e continuei a ler e a reler, até aos intelectuais da República, ao grande escritor da República, Teixeira Gomes, e aos críticos da República, Sérgio, Cortesão e Proença”. A referência era, portanto, a “Seara Nova” e não o “Orpheu”.
Já Presidente da República, numa viagem a bordo do “Sagres”, em agosto de 1986, entre Ponta Delgada, escala nas Berlengas e desembarque no Tejo, aproveitou a oportunidade para, “em contato direto com o mar” fazer uma leitura da “Mensagem”. Leu e gostou muito. Pessoa, para Mário Soares, passou a constituir uma surpresa. Antes o grande poeta era Antero que Álvaro Salema “o obrigou no 7º ano do liceu a ler e a comentar”, na edição dos sonetos prefaciada por António Sérgio. Diversas vezes disse a Mário Soares que não era a obra principal de Pessoa. Respondia-me que “era o único livro que Pessoa editara em português, que teve o cuidado de rever cada poema e que fez a sistematização num todo simbólico”. Procurei lembrar a Mário Soares a opinião do próprio Pessoa sobre a “Mensagem” e que reencontro agora textualmente na famosa e histórica carta a Casais Monteiro sobre os heterónimos: “Não foi feliz a estreia, que de mim mesmo fiz com um livro da natureza de Mensagem. Sou, de facto, um nacionalista místico, um sebastianista racional. Mas sou, à parte isso — referia Pessoa na mesma carta — e até em contradição com isso, muitas outras coisas.”
 
 

AS DECLARAÇÕES DE ÁLVARO CUNHAL
No Martinho da Arcada, num encontro organizado por Luiz Machado, em maio de 1991, interroguei Álvaro Cunhal sobre Pessoa, a relação de Pessoa com os fascismos europeus e a “Mensagem”. O Pessoa que Cunhal gostava era Álvaro de Campos. Acerca da “Mensagem” — e estou a transcrever um texto gravado — foi ainda mais categórico: “A ‘Mensagem’ é um momento contraditório na obra de Fernando Pessoa. É uma encomenda do Secretariado da Propaganda, do futuro SNI, uma obra para um prémio, fomentada e inspirada por António Ferro.” “É uma obra fraquíssima, porque Pessoa quis conformar a obra poética com a mensagem política. E o resultado foi que a obra poética fracassou completamente. A ‘Mensagem’ — insistiu — é um fracasso.” Fez questão de acrescentar logo: “Mas em Almada Negreiros, um homem profundamente comprometido com a ditadura fascista, eu reconheço o grande desenhador que ele foi. Isto conforma que é preciso saber distinguir a obra de arte do artista e a sua opção política.”

Tentei demonstrar que os poemas da “Mensagem” eram das primeiras duas décadas do século, publicadas em vários jornais e revistas, muito anteriores à fundação do Secretariado dirigido por António Ferro. Imperturbável, Álvaro Cunhal concluiu a rir, “Olhe que não… olhe que não…”

“MALABARISMO” FREQUENTE
Gustavo de Fraga, no mesmo inquérito, promovido pela “Acção” entrevistou — e vem agora na íntegra em “Um Retrato Fora da Arca” — Vieira de Almeida, antigo colega de Pessoa no Curso Superior de Letras, personalidade do maior prestígio intelectual e cívico. Recordo-me muito bem que, ao falar de Pessoa, Vieira de Almeida caía no absurdo de afirmar que “o seu caso não é excecional, pois (António) Feijó também se serviu do heterónimo de Abreu e Lima”, sem distinguir e clarificar a diferença entre pseudónimo e heterónimo. Muito mais grave, ainda, era quando Vieira de Almeida — sem conseguir dilucidar as diversas personas de um “drama em gente” — declarava com veemência: “Pessoa foi, frequentemente, um malabarista. Há na sua poesia malabarismo, ironia… e creio que muitas vezes ele próprio não sabia onde terminava isso e começava algo diferente.”
 
 

DOIS CRIMES DO JORNALISMO
Mesmo em cima da morte e do funeral de Fernando Pessoa, Norberto de Araújo, um dos jornalistas mais celebrados da época e ainda hoje lembrado como “mestre de estudos olisiponenses”, na página semanal que mantinha no “Diário de Lisboa”, enaltecia o teatro de Eduardo Schwalbach e as crónicas de Augusto de Castro — dois diretores do “Diário de Notícias” — com os adjetivos mais retumbantes, enquanto reduzia Fernando Pessoa a uma figura estranha e bizarra, a vaguear nas ruas da cidade (“Diário de Lisboa”, 5- 12- 1935). Não era de esperar outra coisa de Norberto de Araújo e de muitos outros jornalistas. Uma das raras exceções foi António Ferro. Aliás, o próprio Fernando Pessoa, em carta a António Ferro, identificava, na época, o jornalismo português mergulhado em “dois grandes crimes mentais — a lentidão e a tradição”; (…) “o bolor radicalmente póstumo dos Emídios Navarros, Marianos de Carvalho, Eduardo Coelho e quantos mais, de igual estirpe, que pesam no passado do jornalismo presente como calos do abismo.”

Entre os méritos de Fernando Pessoa, um retrato fora da arca, organizado por Zetho Cunha Gonçalves, somos confrontados com testemunhos curiosos. Não deixa de ser interessante conhecer depoimentos que revelam os insólitos motivos literários, políticos e religiosos que determinaram a lenta, difícil e polémica compreensão da obra de Fernando Pessoa até atingir toda a irrecusável dimensão nacional e projeção universal.
Da Resistência a Fernando Pessoa – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], revista E, Expresso, 22 de Setembro de 2018, pp. 66/67 – com sublinhados nossos.
 
António Valdemar
 

J.M.M.