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quinta-feira, 27 de outubro de 2022

ALEXANDRE VIEIRA (1884-1973). DE VIANA A CAMINHA

 


LIVRO: "Alexandre Vieira (1884-1973). De Viana a Caminha;
AUTOR: Paulo Torres Bento;
EDIÇÃO: Edições Afrontamento | Caminh@2000, Outubro de 2022.

LANÇAMENTO:

DIA: 28 de Outubro (18,00 horas);
LOCAL: Biblioteca Municipal de Caminha;

Trata-se do último trabalho de investigação de Paulo Torres Bento, professor de História na Escola Básica e Secundária de Caminha, curiosamente sobre o tipógrafo, revisor, artista gráfico, jornalista e sindicalista revolucionário, confrade e figura grada do movimento libertário e do anarco-sindicalismo. Alexandre Vieira viveu a sua adolescência em Caminha (antes de se fixar em Lisboa em 1906), onde chegou a imprimir num “velho prelo” o Jornal de Caminha, ao mesmo tempo que era o correspondente do órgão da Federação das Associações Operárias de Viana de Castela, O Lutador. O mestre impressor Alexandre Vieira, muito cá de casa, fundou estimados periódicos, como A Greve (1908), O Sindicalista (1911), O Movimento Operário (1917), A Batalha (1919). Este último jornal chegou a ser o terceiro periódico mais vendido em Portugal, a seguir ao Diário de Notícias e O Século. Estudioso do movimento operário, foi preso por diversas vezes (uma delas por agredir o director da Biblioteca Nacional, Fidelino de Figueiredo) e esteve exilado (em Paris). Foi membro da Universidade Popular. Publicou obra importante para o estudo do movimento operário, como Em volta da minha profissão: Subsídios para a história do movimento operário (1950), Como se corrigem provas tipográficas: Noções úteis para quem manda executar impressão às tipografias (1951: em pareceria com Gonçalves Piçarra), Figuras Gradas do Movimento Social Português (1959), Delegacia a um Congresso Sindical (1960), No Domínio das Artes Gráficas (1967), Para a História do Sindicalismo em Portugal (1970).

J.M.M.

segunda-feira, 7 de março de 2022

ASSIM CANTAVA UM CIDADÃO DO MUNDO – ROBERTO DAS NEVES


LIVRO: Assim cantava um cidadão do Mundo;
AUTOR: Roberto das Neves (1907-1981);
EDIÇÃO: Hora de Ler (reed. da obra publicada em 1952 pela Germinal do Rio de Janeiro – livro proibido pelo Estado Novo), 2022, 160 p.

PEDIDOS: horadelercf@gmail.com

Trata-se da reedição do livro de poemas, de forte inspiração libertária e anticlerical, de autoria do ilustríssimo pedroguense e cidadão do Mundo, Roberto das Neves, anarquista individualista, poeta, espiritualista, maçon (o Irmão Satã, iniciado na Loja Rebeldia, em 29 de Fevereiro de 1930), grafólogo, esperantista, vegetariano, naturista, jornalista e editor [ver, AQUI]. Preso pela polícia política, em 1926 em Coimbra (pela publicação e distribuição de poemas político-satíricos – como o Espectro de Buiça, curiosamente dedicado aos seus amigos e camarada anarquistas como Arnaldo Januário, Afonso de Moura, Mário Castelhano, Lomelino Lentes e José de Almeida), continuou a ser alvo de intensas perseguições políticas desde o inicio do Estado Novo, tendo passado por inúmeras prisões e algumas rocambolescas fugas, empenhado desde sempre no movimento libertário, anarquista e anticlerical. Em 1942 parte para o Rio de Janeiro, falecendo aí a 28 de Setembro de 1981 [consultar, com proveito, esta 2ª ed. do “Assim cantava um cidadão do mundo”, Aires B. Henriques, pp. 17-35].


UMA PÁTRIA PLANETÁRIA

Natural de Pedrógão Grande, ROBERTO DAS NEVES é uma daquelas personalidades cuja vida e obra se fundem. A sua vida (1907-1981) desenrolou-se num tempo pródigo em acontecimentos mundiais de forte impacto global (duas guerras mundiais, a guerra civil de Espanha e, mais próximo, o 25 de abril de 1974). Sem dúvida um tempo pródigo em mudanças globais, mas também em 'debates políticos, culturais, espirituais e artísticos' muito intensos.

ROBERTO DAS NEVES foi um devotado anarquista. Sendo, ainda, esperantista; maçon; ateu; vegetarianista; pacifista; jornalista; anticlerical; antissalazarista e anticomunista (recusando o caráter concentracionário do socialismo real). Foi, sem dúvida, um incansável lutador pela liberdade em todas as suas vertentes.

Depois de conhecer, por diversas vezes, o cárcere salazarista, escolheu o Brasil como terra para tentar realizar os seus sonhos e ideais. Digamos que nessa escolha mostrou muito do seu apego à Língua Portuguesa que tanto amava e que tanto cultivou. ROBERTO DAS NEVES foi um escritor de vasta e multifacetada obra e foi poeta. Alguém lhe chamou de poeta maçónico.


O livro "
ASSIM CANTAVA UM CIDADÃO DO MUNDO", da autoria de ROBERTO DAS NEVES, é reeditado pela mão de um pedroguense da melhor casta: o Dr. Aires B. Henriques. Saúdo aqui, especialmente, esta iniciativa de defesa da memória e do património cultural de Pedrógão Grande, de Portugal e, claro, também do Brasil e da Lusofonia!

Os tempos de hoje precisam de mulheres e de homens que defendam uma Pátria Planetária como ROBERTO DAS NEVES militantemente defendeu no seu tempo.

[MÁRIO MÁXIMO, Escritor e poeta Ex-Presidente da Associação Fernando Pessoa/ Gestor de Assuntos Lusófonas – in contracapa do livro]

RAZÕES DE UMA EDIÇÃO

Jornalista e escritor, maçon, homem culto e de causas, Roberto Barreto Pedras das Neves é porventura um dos cidadãos que em Portugal mais viveu intensamente o curso dos diferentes períodos da política nacional, ao ponto de, pela acção e pelo verbo, nelas pretender intervir a bem dos valores da paz, da livre convivência e do progresso.

Por isso, Roberto das Neves foi lembrado pela Casa (regional) de Pedrógão Grande em Lisboa em 2006, quando se celebrava o centenário do seu nascimento, decorrido a 7 de Setembro de 1907, e quando então presidíamos à sua Direcção.

Com a colaboração do seu genro, o coronel Manuel Pedroso Marques, também ele refugiado no Brasil, e que com Roberto mais de perto convivera, tivemos a oportunidade de publicar uma primeira nota biográfica sobre o homem e o cidadão, as suas convicções, as suas lutas e os seus desfechos, que o forçaram a procurar refúgio no Brasil após o período dramático da Guerra Civil de Espanha e o início da II Guerra Mundial em que a repressão policial mais se agudizava em Portugal.

 


Ora, que se celebram 40 anos sobre a data do falecimento de Roberto das Neves no Rio de Janeiro, não podemos deixar de mais uma vez o relembrar, encontrando na reedição deste seu livro de poemas - "Assim Cantava um Cidadão do Mundo" - porventura a mais grata forma de o fazer, homenageando o cidadão e o escritor, enquanto fazemos prova do seu imenso talento, imbuído de ardentes palavras de paz e amor às comunidades por quem, não escusando a liça, sempre se empenhou.

Irmanado dos mesmos propósitos cívicos de muitos outros concidadãos amigos e de ideal - como Tomás da Fonseca, Francisco Barata Dias, o Padre Joaquim Alves Coreia e Vasco da Gama Fernandes -, Roberto das Neves esmerou-se ao longo de toda a sua vida por que o trabalho de burilamento do seu ser - a sua pedra “milheira" beirã – se convertesse numa imensidão de reluzentes "grãos” ou tocantes partículas capazes de iluminar o mundo à sua volta, de preferência sem iníquas fronteiras e falando urna só língua universal.

A leitura da sua obra e mensagem é para nós por demais gratificante. Por isso, depois de "Pestana Júnior, Profeta Republicano" (2010) e de "Leiria no Reviralho - João Lopes Soares às Avessas" (2020), o Museu da República e Maçonaria não poderia deixar de promover mais uma honrosa edição que verdadeiramente atesta do melhor que a nossa "História & Memória" colectiva do republicanismo tem para nos presentear. E que com ela, ora 70 anos após a edição brasileira, bem possamos ainda sublinhar os dotes poéticos de Roberto das Neves a iluminar um caminho mais fraterno, de esperança, justiça, tolerância e paz, inspirador dos cidadãos de boa vontade.

Dotes poéticos esses que o também poeta Tomaz da Fonseca sublinha ao caracterizar o "Assim Cantava um Cidadão do Mundo" como "um livro que esmaga quem o lé", pois "jamais se escreveu em língua portuguesa nada mais arrasador contra os privilégios e os preconceitos", como "um grito a favor dos humilhados"; como um livro a que está "destinado um lugar inconfundível na história da literatura mundial e, particularmente, na da literatura libertária e da resistência ao totalitarismo em Portugal, que encontrou em (Roberto das Neves) o seu épico".

[O Editor (Aires B. Henriques), Villa Isaura, 7 de Dezembro de 2021, pp.7-8]

 J.M.M. 

sábado, 11 de setembro de 2021

SIM! AURÉLIO QUINTANILHA (1892-1987) FOI ANARQUISTA

 


Uma das figuras cimeiras do movimento intelectual libertário português foi o sábio cientista Aurélio Quintanilha (1892-1987). A filiação de Quintanilha na corrente anarquista é por demais conhecida, não podendo ser desautorizada nem omitida, como foi o caso que iremos citar.

Acontece que Aurélio Quintanilha foi na página do Facebook dos Antifascistas da Resistência muito biograficamente maltratado: omissão total da sua condição de anarquista. E, pasme-se, a resposta dada pelo impressionado administrador da página a um leitor que lhe autopsiou a biografia, questionando a não alusão à militância libertária do célebre intelectual libertário, foi de um miserabilismo grosseiro e arrogante, espantosamente deslocada e inaceitável vindo de uma pagina que é um dos mais importantes espaços biobibliográficos, digitalmente ao nosso dispor. A ignorância e a falta de humildade intelectual - quando se é confrontado com justos reparos biobibliográficos (sempre bem-vindos em todas as situações) - é, por vezes, muito atrevida, como nos parece ser o caso.

No que diz respeito a recomendáveis fontes biobibliográficas que o putativo administrador da página displicentemente sugere para se assegurar da qualidade libertária do prof. Aurélio Quintanilha, pois elas são tantas que incomoda o curioso pedido e nos enche de tédio. Porém, porque a página do FB pertence (também) à Helena Pato, por quem nutrimos especial admiração, aqui deixamos o nosso reparo e a nossa brevíssima anotação á questão colocada em torno da militância anarquista de Aurélio Quintanilha.

Saúde e Fraternidade!


Aurélio Quintanilha (1892-1987) foi cientista, investigador, professor, pedagogo (fundador da Universidade Livre de Coimbra), libertário e maçon [o irmão Brotero, iniciado, em 1925, na loja de Coimbra, A Revolta, e depois (Dezembro de 1931) um dos fundadores da loja maçónica de Coimbra, Construir - com, e entre outros, Tomás da Fonseca, Alberto Martins de Carvalho, César Abranches, Firmino da Costa, Raul Miranda].

Se tivermos o cuidado de ler Quintanilha, ver-se-á que as suas propostas educacionais e pedagógicas e a vertente pedagógico-libertária que sempre distinguiram as suas conferências [ver, p. expl., Educação de Hoje, Educação de Amanhã (1921), a conferência inaugural (5 de Fevereiro de 1925) da Universidade Livre de Coimbra ou idêntica conferência (26 de Março de 1933 – O papel social e as necessidades da investigação cientifica em Portugal) nas instalações do jornal O Século], nos elucida com clareza acerca do seu ideal anarquista, seguindo a velha linha do anarquismo individualista de Silva Mendes [“o mais vermelho dos republicanos de Famalicão”] e se prolonga até à sua morte.

Não será necessário, portanto, recorrer à leitura da entrevista que concedeu a João Medina [publicada na revista Clio, 1982, vol.4] para desocultar e fazer prova do seu ideal libertário. Nem percorrer, mesmo que seja com um brilho nos olhos, as sábias palavras de Vitorino Nemésio no “Perfil de Aurélio Quintanilha” (revista Brotéria, 1975, nº3/4, p. 175 e ss – vide a propósito deste assunto a p. 179). Ou até consultar o verbete do Dicionário dos Educadores Portugueses (dir. António Nóvoa, p.p.1137-1139) onde se lê: “ [Aurélio Quintanilha] conhecido especialmente como cientista e doutrinador do anarquismo …”]. Na verdade a leitura atenta da biografia activa e passiva do biografado é, prudentemente, sempre boa conselheira.    

Em breve anotação, e cingindo-nos apenas à questão em debate – isto é, ter sido ou não Aurélio Quintanilha anarquista -, diremos o seguinte:

- em 1912, Quintanilha, com Adriano Botelho (dirigente anarco-sindicalista da CGT, e outros) participa nas comemorações do 1º de Maio, integrado na corrente anarquista;

 - colabora depois (a partir de 13 de Fevereiro de 1913) um dos mais importantes jornais anarquistas, dirigido por Pinto Quartim, o semanário Terra Livre, de muita memória;

- ainda em 1913 (4-8 de Outubro), participa no Congresso de Lisboa do Livre Pensamento Universal (distribuindo a sua companheira, Susana, um manifesto assinado pelos sindicalistas presos pelo governo de Afonso Costa) e solicita por várias vezes a palavra em reuniões republicanas, interpelando o governo, sendo por isso ameaçado pela “Formiga Branca”;

- em 1914 faz parte do grupo anarquista “A Brochura Social” (Lisboa), juntamente com Neno Vasco e Sobral de Campos, grupo que pretendia editar mensalmente “folhetos de propaganda libertária” (ver João Medina, A Sementeira do arsenalista Hilário Marques, revista Análise Social, vol. 17;

- ainda em 1914, um núcleo de mulheres anarquistas – de que faziam parte Susana Quintanilha (professora), Elvira Lopes, Eugénio Silva, Rosalina Correia da Silva e Margarida Paula – reúnem-se para debater “assuntos relativos a gênero e promover agitação política”;

- por iniciativa do grupo libertário Aurora (Porto), ainda em 1914, realizou-se um comício  na cidade do Porto (teatro Antero de Quental) contra as arbitrariedades do governo republicano, onde participa como orador, acompanhando Neno Vasco e Sobral de Campos;

- participa na Conferência Anarquista da Região Sul (Junho de 1914, no prédio da Caixa Económica Operária, largo da Graça, Lisboa), onde, curiosamente, decide imprimir e divulgar obras de Malatesta (ver “Em Tempos de Eleições”) e irá apresentar a tese escrita por Neno Vasco, Os Anarquistas no Movimento Operário. Foram sessões muito vivas, como o debate sobre a participação de anarquistas nos sindicatos, onde Quintanilha sustem “não ser possível para o ponto em questão determinar regras rígidas”, porém a posição “de consenso” de Jerónimo de Sousa (do quinzenário O Arsenalista de Lisboa) prevalece, isto é, ganhou a tese de evitar a entrada dos anarquistas nos corpos diretivos sindicais (ver Alexandre Simas, Neno Vasco …, p. 346). De referir que alguns dos mais importantes militantes anarquistas tinham o hábito (então) de se reunirem em casa de Aurélio & Susana Quintanilha, nas noites de Domingo (entre eles, Emílio Costa, Afonso e António Manaças, Sobral de Campos, Gaspar dos Santos, Neno Vasco, Bernardo Sá, Sebastião Eugénio, Carlos Freire);

- em 1915, representa a Federação das Juventudes Sindicalistas (sob orientação anarquista; foi criada em 1913, resultante das Juventudes Libertárias de 1912; tinha a sede na rua do Arco da Graça, nº4, 2ª andar e editava O Despertar) de Portugal e França, no Congresso Mundial contra a Guerra (Ferrol, Espanha) e que se realizou clandestinamente – segundo alguns autores, fazia parte da delegação portuguesa Manuel Joaquim de Sousa. Tendo sido descobertos pela polícia são expulsos de território espanhol os delegados portugueses: Quintanilha, Manuel Joaquim de Sousa, Maria Veloso, Serafim Cardoso Lucena e Ernesto da Costa Cardoso. Curiosamente, Quintanilha não refere nenhum desses nomes, na sua entrevista a João Medina. No seu regresso de Espanha apresenta em várias cidades (a conferência em Coimbra foi proibida) o tema “A Guerra e o Congresso de Ferrol” tendo sido preso em Viana do Castelo sob ordem do administrador da cidade, Bourbon e Menezes, curiosamente ex-anarquista. Seja dito que, perante a conflagração europeia, no movimento anarquista coexiste dois grupos distintos: os guerristas [Emílio Costa, Bernardo de Sá, Mário Costa, Miguel Córdoba, Araújo Pereira] e os anti-guerristas [Neno Vasco, Aurélio Quintanilha, António José de Ávila, Hilário Marques]. Os primeiros estavam organizados em torno do grupo Germinal, enquanto os anti-belicistas agrupavam-se à volta d’A Aurora (Porto) e d’A Sementeira (Lisboa). Não estava longe o tempo em que numa das reuniões anarquistas em casa de Quintanilha, na proverbial tertúlia que ali perorava, a declaração de guerra de 1914 a todos entusiasmou, porque se pensava que estava aberta a porta à revolução social [sobre este assunto, consultar com proveito, Guerristas e Antiguerristas, INIC, 1986]. Curiosamente muitos dos anarquistas “guerristas”, no final da contenda, abandonaram o anarquismo, uns passando-se para o então movimento comunista (na sua versão bolchevista), aliás de onde alguns foram “escorraçados”, e outros enveredaram na defesa da ditadura (ibidem, pp. 116 e ss);

- o golpe militar sidonista de Dezembro de 1917 teve o apoio inicial de militantes libertários e republicanos (como Machado Santos) e entre eles Aurélio Quintanilha. Aliás Quintanilha refere (assim como Alexandre Vieira) que foi (foram ambos e outros mais) à Rotunda falar com Sidónio Pais em nome da UON, na esperança de terminar a perseguição aos sindicalistas e pedindo a libertação dos presos políticos. Por outro lado, não podemos esquecer o conhecimento que Quintanilha tinha de Sidónio Pais, pois Sidónio não lhe era estranho, dado a sua notoriedade na Universidade de Coimbra por ser republicano no tempo da monarquia e pelo exame, que como professor de álgebra, fez ao próprio Quintanilha;

- participa na “tertúlia” revolucionária “Falange Democrática” ou “Falange dos Olivais” (com Sobral de Campos, Pinto Quartim, Neno Vasco, Adolfo Lima, Emílio Costa, Alexandre Vieira, António José de Ávila e outros);

- na tentativa insurrecional monárquica de Paiva Couceiro (Janeiro e Fevereiro de 1919), os anarquistas organizaram grupos armados de resistência, tendo Aurélio Quintanilha vestido o uniforme militar e ido comandar a bateria na Quintinha  (A Batalha, Fevereiro de 1919);  

- a 25 de Setembro de 1927, considerado um “elemento avançado”, é detido pela PVDE.

- em 1928, em Coimbra, frequenta a inolvidável “República das Águias”, sob os auspícios da Maçonaria (pertencentes à loja A Revolta), onde juntamente com os irmãos Cal Brandão, Basílio Lopes Pereira, Manuel de Figueiredo e muitos mais, se conspirava contra a ditadura;

- escreve nos periódicos anarquistas, além do Terra Livre: A Aurora (Porto); A Batalha; O Despertar; A Lanterna (10 de Julho de 1915, Angra do Heroísmo – Quintanilha assumia a sua direcção); O Sindicalista; também colabora na revista Pela Grei (1918-1919); na Seara Nova (era amigo de António Sérgio); na revista de Homens Livres (1923); no Arquivo Pedagógico (Coimbra, 1927-1930); na revisa trimestral de educação LABOR (Aveiro); dirige o periódico bilingue de Moçambique, Memórias e Trabalhos. Centro de Investigação Algodoeira (1947-1961).

- já em 1975, Aurélio Quintanilha, em breve passagem por Lisboa, participa numa reunião anarquista na sede do Movimento Libertário Português.  

Em seguida, apresenta-se alguma bibliografia que sobre este (não) assunto da qualidade libertária de Aurélio Quintanilha diz especial respeito:   

Abílio Fernandes, Aurélio Pereira de Silva Quintanilha, na passagem do seu 70º aniversário, Boletim da Sociedade Broteriana, 1962, vol. 36 | Alberto Vilaça, Resistências Culturais e Políticas nos Primórdios do salazarismo, 2003 | Alexandre Samis, Neno Vasco, o Anarquismo e o Sindicalismo Revolucionário em dois mundos, Letras Livre, 2009 | Alexandre Vieira, Para a História do Sindicalismo em Portugal, 1970 | Amélia Filomena de Castro Gomes, A educação libertária segundo Aurélio Quintanilha, Braga, 2005 | António Ventura, Guerristas e Antiguerristas. Análise retrospectiva de um conflito, in João Medina (org.), Portugal na Guerra. Guerristas e Antiguerristas, INIC, 1986, pp. 107-125 | Aurélio Quintanilha, “Discurso pronunciado por A. Quintanilha na sessão promovida pela juventude sindicalista de Lisboa em 22 de Março”, in A Aurora, 29 de Março de 1914, p.1 | Aurélio Quintanilha, “Parlamentarismo e Sindicalismo: Sindicalismo e Integralismo”, in A Batalha, Setembro de 1919 (publicado ao longo de vários artigos) | Aurélio Quintanilha, Entrevista concedida a João Medina, revista Clio, vol.4, 1982, pp.121-132 | Aurélio Quintanilha, A Universidade Livre de Coimbra (pref. Paulo Archer), Lema d'Origem, 2017 | Cláudia Ninhos, De anarco-sindicalista a Catedrático de Coimbra e do saneamento ao “exílio”. Percurso político do cientista-intelectual Aurélio Quintanilha (FCSH/NOVA) | Edgar Rodrigues, Breve História do pensamento e das Lutas Sociais em Portugal, 1977 | Edgar Rodrigues, A Resistência Anarco-Sindicalista à Ditadura, 1981 | Edgar Rodrigues, A Oposição Libertária em Portugal (1939-1974), Sementeira, 1982 | Fernando Namora, Fogo na Noite Escura (pref. de Joaquim Namorado), Caminho, 2018 | Filipa Freitas, Les Jeunesses Syndicalistes au Portugal, 2007 | João de Barros, Cartas Políticas, 1982 | João Medina, Um semanário anarquista durante o primeiro Governo Afonso Costa: Terra Livre, 1981, vol. 17 (67-68) | Luís Salgado de Matos, Lisboa, 1920 - vida sindical e condição operária, in Análise Social, 1981, vol. 17 (67-68) | Manuel Joaquim de Sousa, O Sindicalismo em Portugal, 1972 (3ª ed.) | Quintino Lopes, Aurélio Quintanilha e António Sousa da Câmara: entre distintas ideologias políticas e semelhantes práticas científicas, IHC | Vitorino Nemésio, Perfil de Aurélio Quintanilha (discurso proferido em Homenagem a Aurélio Quintanilha pela Sociedade Portuguesa de Genética, Brotéria Ciências Naturais, 1975 (republicado na Brotéria Genética, em 1993, nº1-2), nº 3-4.

José Manuel Martins

domingo, 7 de março de 2021

JOSÉ DE JESUS GABRIEL – LIBERTÁRIO, CARBONÁRIO E MAÇON (NOTA BREVE)

 


“Um fundador do Partido Comunista Português quase desconhecido. José de Jesus Gabriel: torneiro mecânico, carbonário e maçon Entre os fundadores do PCP, em 1921, estava José de Jesus Gabriel, nascido em Lisboa em 1879. Membro do seu Conselho Económico em 1921 integrou em 1923 a Comissão Reorganizadora. Quem era este homem que não ficou na História?

José de Jesus Gabriel, operário metalúrgico do Arsenal do Exército, dirigente da Associação de Classe dos Fabricantes de Armas e da Confederação Metalúrgica, fundou o jornal O Metalúrgico e foi redactor e administrador de A Obra (1905).

Era em 1905 dirigente da Federação Socialista Livre, organização de cariz anarquista intervencionista que colaborou com os republicanos. Nas páginas de O Metalúrgico, onde os intervencionistas, maioritários na Confederação Metalúrgica, detinham grande influência, José de Jesus Gabriel criticava, em 1904, os que recusavam colaborar com os republicanos «sorrio-me do fanatismo de vários elementos propagandistas dos ideais avançados, que intolerantes nas suas vastas concepções, consideram como inimigos terríveis os que pronunciam doutrinas que mais se aproximam na síntese dos seus ideais». Curiosa afirmação…

Jesus Gabriel recusou um convite para ingressar na Carbonária Portuguesa, acabando por ser iniciado na Carbonária Lusitana, apadrinhado por Benjamim Rebelo e Júlio Dias, ascendendo a chefe de barraca. A Carbonária Portuguesa – também conhecida como Carbonária dos Anarquistas -, foi fundada em 1897, com sede na Rua 24 de Julho, próximo da Rocha do Conde de Óbidos.

Segundo informações prestadas pelo próprio a José Nunes «quase todos os carbonários mais graduados desta instituição [Carbonária Lusitana] pertenciam ao Grémio Obreiros do Futuro e à Confederação Metalúrgica, como delegados de algumas associações de classe. Gabriel, em vista de manter uma certa afinidade com esses elementos, foi também convidado a pertencer a esse Grémio, tendo-se efectuado a sua iniciação em Fevereiro de 1905» (José Nunes, «E Para Quê?», p. 47).

A Loja Obreiros do Futuro era o núcleo central, reservado, ao qual só pertenciam «os carbonários mais graduados», o que justifica o seu papel nos preparativos revolucionários. Tal como Jesus Gabriel declarou, fora no interior da própria oficina maçónica que ele, Rebordão, Brito Bettencourt, Cerqueira, António Alcochetano e outros fabricaram umas duzentas bombas destinadas à revolução republicana…

No rescaldo do Regicídio, José de Jesus Gabriel foi preso, juntamente com outros anarquistas. José Nunes conforma que Jesus Gabriel também teve parte activa no movimento que implantou a República. Foi administrador do jornal O Sindicalista e opôs-se firmemente à lei da greve, subscrevendo uma moção, aprovada em reunião na Caixa Económica Operária, em 22 de Dezembro de 1910, com a presença de 62 associações sindicais, proclamando a intenção de «saltar por cima dessa lei quando for preciso» e de «iniciar uma forte e activa propaganda contra o governo entre as classes trabalhadoras». Foi delegado ao Congresso Sindicalista de 1911 e teve sempre uma participação muito activa na vida da sua classe, desempenhando os cargos de Presidente da Assembleia Geral Associação de Socorros Mútuos do Pessoal do Arsenal do Exército e da Associação de Classe (1918, 1924), Delegado à Liga das Associações de Socorros Mútuos (1923).

Foi um dos fundadores do Partido Comunista Português. Em Março de 1923 esteve envolvido na enorme confusão que o PCP então conheceu, com expulsões entre facções adversas. Subscreveu em Maio de 1923, na qualidade de delegado do seu sindicato à Confederação Geral do Trabalho, o manifesto «A Questão das Internacionais - Berlim ou Moscou?» onde apoiou a Internacional Sindical Vermelha. Esteve presente no I Congresso do PCP (10, 11 e 12 de Novembro de 1923), onde participou activamente, presidindo à 3ª sessão.

Em Abril de 1932 – segundo o jornal O Arsenalista – encontrando-se numa situação económica e de saúde muito difícil, que levou os seus camaradas a promoverem um sorteio em seu benefício, cujo produto foi entregue a sua mulher e que ele agradeceu em carta publicada no jornal, na qual refere a «liberdade que me foi vergonhosamente roubada», pelo que deduzimos que estava preso. Ao referir-se a «antigos camaradas» leva-nos a crer que já não trabalhava no Arsenal. Em 1937 era empregado de escritório, sendo preso em 22 de Abril daquele ano; deu entrada no Forte de Caxias e foi libertado em 9 de Novembro.

 


Um facto curioso é que José de Jesus Gabriel entrou para a Maçonaria em 1913, na Loja Obreiros do Trabalho. Era então membro da Associação de Classe dos Fabricantes de Armas e Ofícios Acessórios e Metalúrgicos de Lisboa, da Associação do Registo Civil, de Associação Crécherie e da Academia de Estudos Profissionais Humanidade Futura. Os inquéritos produzidos no âmbito do processo, para aquilatar das suas qualidades, apresentam diversas informações sobre o candidato: «para além de torneiro mecânico dava explicações de Matemática»; era considerado «um bom cidadão que tem trabalhador bastante a bem da República e da Humanidade»; «republicano, ou mais alguma coisa», «livre-pensador», «parece ter elevados conhecimentos literários e serem suficientes para compreender os elevados princípios maçónicos»; «conquanto o seu ideal político seja bastante avançado, trabalhou bastante para a queda do antigo regime, chegando por vezes a ser perseguido pelos agentes da Bastilha monárquica»; «foi um grande revolucionário e foi um dos presos que estiveram na esquadra do caminho-de-ferro nos dias da revolução que proclamou a República», «dizem ser anarquista e livre-pensador».

Iniciado em 17 de Fevereiro de 1913 com o nome simbólico de «Lisippo», foi, em 22 de Maio de 1916, um dos fundadores da Loja Integridade, do Rito Simbólico, assumindo as funções de Venerável, na qual se conservou até à dissolução da mesma em 1919. Reproduzimos a fotografia da sua prisão em 1937 e a última página do questionário que preencheu em 1913, ao solicitar a entrada na Maçonaria”

[ADENDA"… O único texto de cariz maçónico conhecido da autoria de José de Jesus Gabriel, foi a sua intervenção, em 22 de Maio de 1916, na sessão de instalação da Loja Integridade, fundada por antigos membros da Loja Obreiros do Trabalho.

Significativamente, e revelador do seu prestígio, foi ele eleito Venerável e não o capitão José Marcelino Carrilho, o mais antigo maçon do grupo, velho republicano federalista e venerável da Loja Obreiros do Trabalho durante vários anos.

Olhando para os membros da nova Loja, o grupo era constituído por uma dúzia de elementos, dois dos quais italianos, Amadeo d'Alassandro, serralheiro mecânico, Domenico de Domenico, agente comercial, dois farmacêuticos, vários funcionários públicos, um comerciante, um alfaiate, um maquinista fluvial, um maquinista da Empresa Nacional de Navegação, um telegrafista, Luís Cipriano de Araújo, que desempenhava as funções de Orador, e um companheiro de trabalho de José de Jesus Gabriel, Manuel José da Silva Lúcio, um dos mais respeitados dirigentes sindicais do Arsenal do Exército”

[António Ventura, via Facebook, com a devida vénia – sublinhados nossos]

J.M.M.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

[EXPOSIÇÃO] CENTENÁRIO DO JORNAL “A BATALHA”



Centenário do jornal “A Batalha”

DIA: 9 de Outubro de 2019 (17,00 horas) a 27 de Dezembro de 2019;

LOCAL: Auditório da Biblioteca Nacional de Portugal (Campo Grande, 83, Lisboa);

ORGANIZAÇÃO: Jornal A Batalha.

PROGRAMA do dia 9 de Outubro

17,00 horas – Inauguração da Exposição;

18,00 horas – Lançamento da obra  [reedição] de Jacinto Baptista, “Surgindo vem ao longe a nova Aurora... Para a história do diário sindicalista A Batalha / 1919-1927" (1ª ed., Lisboa, Livraria Bertrand, 1977, 214 p.)

Apresentação do Prof. António Ventura

► “No âmbito das comemorações do centenário do jornal A Batalha, inaugura no próximo dia 9 de Outubro uma exposição na Biblioteca Nacional, com curadoria de António Baião (CEPS), António Cândido Franco (UÉvora) e João Freire (ISCTE-IUL), patente até ao dia 27 de Dezembro.

Através de material em boa medida inédito ou inacessível, esta exposição dará conta de uma história rica em acontecimentos e transformações, desde o período em que o jornal foi órgão da Confederação Geral do Trabalho e principal voz do anarco-sindicalismo em Portugal (1919-1927) até ao ressurgimento no pós-25 de Abril e ao momento presente, em que, renovado, se assume como «jornal de expressão anarquista».

Ocorre também este ano a efeméride dos 45 anos de criação da revista A Ideia, recordando-se aqui igualmente a sua trajetória, desde Paris, em abril de 1974, até ao atual n.º 84/85/86 como «revista de cultura libertária».

A inauguração terá lugar a partir das 17h00 no Auditório da Biblioteca Nacional, com entrada livre, seguindo-se, às 18h00, a apresentação da reedição de "Surgindo vem ao longe a nova Aurora...", uma história dos primeiros anos deste jornal da autoria de Jacinto Baptista, uma edição conjunta entre a Letra Livre e A Batalha.

Esperamos por ti! Saudações libertárias”

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J.M.M.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

LANÇAMENTO DA REVISTA “A IDEIA” Nº 84/86 (2018) E EVOCAÇÃO DO JORNAL “A BATALHA”




Pastas Temáticas: Surrealismo em Portugal & Agostinho da Silva;

Colaboração/Textos: Agostinho da Silva, António Cândido Franco, Carlos Mota de Oliveira, Cruzeiro Seixas, E. de Melo e Castro, Guy Girard, Grupo Surrealista de Madrid, Grupo Surrealista de Paris, Laurens Vancrevel, Manuel da Silva Ramos, Maria Paiva, Mário Botas, Mário Cesariny Rimbaud, …  

LANÇAMENTO & EVOCAÇÃO DO CENTENÁRIO DO JORNAL “A BATALHA”


DIA: 26 de Janeiro (15,00 horas);

LOCAL: Museu do Aljube - Resistência e Liberdade (R. Augusto Rosa, 42), Lisboa;
ORADORES: Pedro Martins | António Ventura (prof. FLUL) | António Baião
 
"O volume 84-86 (2018) da revista A Ideia  tem as mesmas características do volume anterior e será apresentado na tarde do dia 26 de Janeiro de 2019 no Museu do Aljube, em Lisboa, numa sessão em que evocaremos a dimensão libertária de Agostinho da Silva e o centenário de nascimento do jornal operário A Batalha, com uma palestra do historiador António Ventura e uma intervenção dum dos actuais redactores da folha, António Baião.” [AQUI]
 
 
J.M.M.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

REVISTA DE CULTURA LIBERTÁRIA - “A IDEIA” Nº81/83



A IDEIA. Revista de Cultura Libertária. II Série, Outono de 2017, nº 81-83 (número triplo, Dezembro 2017); Director: António Cândido Franco; Consultor Editorial: Artur Cruzeiro Seixas; Editor Gráfico: Luís Pires dos Reys; Impressão: Europress; Lisboa; 2017, 320 p.

“A Ideia regressa em 2017 reafirmando a sua marca identitária entre as publicações portuguesas, até da área em que nasceu e se situa, através da atenção que consagra ao surrealismo como “caso de estudo” mas também como prática actuante e “modo de vida”. Além dos documentos e dos textos que o leitor pode encontrar neste número que se prendem com o conhecimento activo desse movimento e das suas figuras portuguesas, republicamos na secção “Leituras & Notas” o editorial do número duplo 30/31 d’ A Ideia (Outono, 1983), consagrado à criação picto-poética e que contou com o empenho de Mário Cesariny. Escrito e publicado há 34 anos, o texto não assinado mas redigido por Miguel Serras Pereira mostra a continuidade entre o passado e o presente desta revista e ilustra a seu modo o entusiasmo que desde há muito votamos ao surrealismo e às suas aspirações indeléveis de liberdade, de amor, de imaginação e de poesia.

Um século depois da revolução russa de 1917, com certeza o evento que mais marcou o desenvolvimento da história mundial no século XX, pareceu-nos indispensável, mais ainda numa publicação que teve como referencial de origem a cultura operária, reflectir sobre este acontecimento com as perspectivas e as ideias que nos são próprias. Ao longo das várias secções deste volume apresentamos um conjunto diverso de materiais sobre o evento, uns amplamente divulgados internacionalmente, mas deficientemente conhecidos entre nós, como os respeitantes à figura de Nestor Makno e aos sucessos de Cronstadt de Março de 1921, outros quase desconhecidos, como os que documentam o impacto da revolução russa na imprensa operária portuguesa da época – e numa altura em que o jornal A Batalha ainda juntava Bakunine, Kropotkine, Lenine e Trotsky. Neste capítulo, além dos estudos de Paulo Eduardo Guimarães e Gabriel Rui Silva, chamamos a atenção para o levantamento feito por António Baião, incidindo na revista A Sementeira, barómetro afinadíssimo dos eventos russos então em curso. Cumpre destacar a figura do operário caldeireiro Hilário Marques, director da publicação, de quem se republicam alguns dos editoriais então dados à estampa. São peças notáveis de independência, de espírito crítico e de perspicácia analítica, valores aliás comuns ao escol operário da época, formado nos valores emancipadores do sindicalismo libertário e todo notavelmente auto-didacta.

Por fim queremos assinalar a republicação do texto de José Pedro Zúquete, publicado pela primeira vez na revista Análise Social (n.º 221, vol. LI, 4.º trimestre, 2016, pp. 966-989), não por estarmos de acordo com tudo o que diz – estamos longe até dalguns enfoques – mas por nos parecer que pela primeira vez, ao menos nos tempos mais recentes, um texto exterior ao movimento, escrito por um jovem politólogo, a quem agradecemos a autorização que nos deu para reproduzir e comentar o seu trabalho, mostra um genuíno interesse pela história das nossas ideias e um rico e actualizado acervo de informações sobre uma parte do anarquismo contemporâneo, podendo assim tornar-se num ponto de reflexão interna. Daí o pedido que fizemos a dois históricos da revista, João Freire e Jorge Leandro Rosa, para comentarem o texto, que levanta porém questões – nas relações do anarquismo com a violência – que os dois comentários aqui publicados, que só comprometem os autores, não esgotam. É pois possível que a ele regressemos em próximo número. Os libertários bateram-se por uma sociedade livre e sem coacções e por isso há 100 anos não puderam seguir os rumos da revolução russa. Continuam hoje a desejar uma sociedade livre e cooperante, sem coacções, sem guerras, sem violências e por isso não podem aceitar a violência – a desobediência civil como Thoreau, Gandhi e Luther King a praticaram, mesmo quando ilegal, valendo por isso aos seus autores a cadeia, é eticamente irrepreensível – como ponto de partida da sociedade a que aspiram” [in Limiar, p. 7, da revista].

[Alguns Anotações Nossas]: António Baião [A Revolução Russa na Imprensa Operária e Libertária da I República - bibliografia], António Cândido Franco [Henry David Thoreau e a Moderna Tradição Libertária], [Conversa com Cruzeiro Seixas], [Correspondência de Fernando Alves dos Santos para Cruzeiro Seixas], [Correspondência de Luiz Pacheco para Fernando de Paços], [Correspondência Mário Cesariny/Natália Correia], Dossier Portugal Surrealismo, Emma Goldman [Recordações de Kropotkine], Gabriel Rui Silva [Manuel Ribeiro, Eduardo Metzner e a Revolução Russa de 1917], [Memorial de Cronstadt], Fernando J. B. Martinho [Virgílio Martinho: Poeta], Hilário Marques [Editoriais D’A Sementeira], Jaime Brasil [A Rússia dos Sovietes], Jaime Salazar Sampaio [textos … inéditos], João Freire [A Acção Anarquista Hoje e há um Século], João de Sousa [poema], José Maria Carvalho Ferreira [Contradições e Equívocos Históricos da Revolução Russa], José Pedro Zúquete [O Anarquismo está de volta?], Manuel da Silva Ramos [Baptista-Bastos Vivo e Indispensável], Miguel Real [Virgílio Martinho entre o surrealismo e o neo-realismo], Paulo Eduardo Guimarães [O Iconoclasmo Acrata e a Crise da Consciência Revolucionária em Portugal nos Anos 20], Risoleta C. Pinto Pedro [Jaime Salazar Sampaio – O Homem Drama].
J.M.M.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

REVISTA DE CULTURA LIBERTÁRIA - “A IDEIA” Nº75/76



 Vai sair do prelo a revista de “cultura libertária” “A Ideia”, comemorando os 40 anos do seu nascimento. A revista “A Ideia” tem, nesta sua nova fase de vida (a revista suspende a sua publicação em 1991), a direcção de António Cândido Franco e irá no seu número duplo nº75/76 recensear curiosos temas, como “Surrealismo & satanismo poético”, “Tradição Mágica e Anarquia”, assim como irá prestar homenagem ao poeta (surrealista), escritor e teatrólogo Vírgilio Martinho (1928-1994), autor em destaque nesta edição.
  
LANÇAMENTO:

DIA: 19 de Dezembro (15,00 horas);
LOCAL: Museu do Aljube (Rua Augusto Rosa, 42, Lisboa);
ORADORES: João Freire, Rui Martinho (filho de V. Martinho), José Maria Carvalho Ferreira e Manuel Parreira da Silva – Apresentação de Jorge Leandro Rosa.

J.M.M.