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segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

MÁRIO SOARES – 100 ANOS DO SEU NASCIMENTO

 

Mário Soares. 100 Anos do seu Nascimento; n.º hors-série de 7 de Dezembro 2024Edição BMBMRedação: Vale do Mondego; Edição Fora de Mercado (tiragem de 33 exemplares), 12 pags.

 Trata-se de um número comemorativo do Centenário de Mário Soares, com curiosos testemunhos de quem o conheceu, de tiragem muito reduzida e para bibliófilos, lançado pela Biblioteca Maçónica do Baixo Mondego, que tem alojamento no Archive.org

https://archive.org/details/@biblioteca_ma_nica_do_baixo_mondego

“Eu sou contra todas as ditaduras e a favor da liberdade. Sem liberdade política nada se passa, só se entra, a prazo, em decadência” [Mário Soares]

As comemorações do Centenário do nascimento de Mário Soares são uma lúcida, admirável e bela jornada de homenagem a um dos fundadores da Democracia portuguesa contemporânea. Memorar o seu legado imorredouro de luta pela Liberdade e Democracia é voltar a falar no sonho dessa confraternidade cívica que em (e por) Abril une todos os Homens como Irmãos. Um Abril de utopia, um Abril de retomar a palavra, um Abril sem muros e de afetuosa solidariedade, um Abril com luzimento e de felicidade. Mário Soares foi um cidadão, e nosso irmão, com muita luz, possuidor de um ânimo inabalável e de coragem certa nas horas incertas. Mário Soares foi um dos nossos, pelo Amor da Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Obrigado Mário Soares.

[Os Bibliotecários]

TÁBUA: 100 Anos do Nascimento de Mário Soares (José Lamego); Mário Soares “detestava o bajulador” (Vasco Franco); Eu conheci Mário Soares ... [Manuel da Costa (da Quinta)]; Mário Soares também foi iniciado (Manuel Seixas); Uma grande figura da nossa história moderna (José Manuel Martins); Discurso à Maçonaria em França [Manuel Seixas, anotação de um extracto do livro de Mário Soares, Cartas e Intervenções Políticas no Exílio, Temas e Debates, 2014 (reimp.), Discurso à Maçonaria em França, pp 97-116]; Sobre Mário Soares … (extratos de testemunhos); Fotografias & Livros

 [Algumas páginas ...]


[Download AQUI]

    J.M.M.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

AS IDEIAS POLÍTICAS E SOCIAIS DE TEÓFILO BRAGA – MÁRIO SOARES


LIVRO: As Ideias Políticas e Sociais de Teófilo Braga com notas de Leitura de António Sérgio e Cartas sobre a Obra;
AUTOR: Mário Soares;
EDIÇÃO: Imprensa Nacional (reed. da ed. 1950 pelo Centro Bibliográfico ), 2021, 240 p.

Trata-se da edição do “primeiro livro que Mário Soares publicou, em 1950, há exatamente 70 anos, sob o título As Ideias Políticas e Sociais de Teófilo Braga, com prefácio de Vitorino Magalhães Godinho, mas, nesta edição, acrescentado de notas de leituras inéditas de António Sérgio, seguido de diversas cartas sobre a obra…” [José Manuel dos Santos (coordenador da coleção)]


► 
 Nesta publicação, que anuncia as Obras de Mário Soares, reedita-se o seu primeiro livro, resultado da dissertação de licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas, apresentada em julho de 1950, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com o título «Teófilo Braga — Tentativa de Determinação do Seu Pensamento Político». Contrariamente ao que antes desejara — estudar Direito — Mário Soares ingressa em Ciências Histórico-Filosóficas, com dezassete anos, em outubro de 1942. No momento de escolher o curso superior, a influência de três figuras que marcaram a sua formação cultural, política e ideológica é decisiva:

«Eu entrara em Letras por influência de Álvaro Salema, Agostinho da Silva e do próprio [Álvaro] Cunhal, que me haviam demovido de seguir a minha inclinação inicial — o curso de Direito — com o argumento de que se tratava de uma Escola ultrarreacionária e burguesa. Empurraram-me para Letras, invocando o estudo da Filosofia, e acenaram-me com a possibilidade de vir a ser escritor».

Mário Soares estudara, a partir do segundo ano do liceu, no Colégio Moderno, fundado pelo seu pai, João Soares. É então que estreita a ligação com estas três personalidades, que passariam a ser seus professores. De todos, quem tem uma influência «mais decisiva» sobre ele é o professor de Filosofia do Colégio, Álvaro Salema, que lhe dá lições particulares e com quem tem longas conversas. «Ele dava-me também explicações de cultura geral, em passeios de bicicleta que fazíamos no Campo Grande, que então era muito campo», recorda Soares.

Salema era também jornalista e crítico literário, designadamente na Seara Nova, revista de oposição ao regime, onde colaboravam alguns dos principais intelectuais portugueses. Enquanto regente de estudos no Colégio Moderno, Álvaro Cunhal, membro do Comité Central do Partido Comunista Português (PCP), que já fora preso, por razões políticas, diversas vezes, apoia o jovem Soares na área da Geografia. 

«Suscitou também o meu interesse pela literatura e pelo movimento cultural do neorrealismo, que na época começava a ser pujante», lembra Mário Soares. Agostinho da Silva, filósofo, escritor, professor de Literatura, também colaborador na Seara Nova, é igualmente recordado pelo seu aluno: «Dava-me aulas, se assim lhes posso chamar, divertidíssimas e encantadoras. Inolvidáveis! […] Falava-me de tudo: de livros, de pessoas, de comportamentos, de exposições (que me aconselhava a ver), de filmes, de teatro, e vagueava».

Soares nunca esqueceu a relevância dos três professores no seu percurso. No Portugal Amordaçado, escreve:

«Estes três homens, tão diferentes entre si, nas posições ideológicas e nos temperamentos, exerceram uma influência profunda em mim — no sentido de que todos representavam, embora cada um a seu modo, uma contestação moral intransigente do regime, num plano declaradamente socialista que os situava numa posição de distância (que, aliás, gostavam de fazer sentir!) relativamente aos “opositores burgueses” ancien style, simpáticos mas ultrapassados (diziam!), do tipo do meu Pai e dos seus amigos…».

Dez anos depois de Salazar tomar posse como Presidente do Conselho, Mário Soares ingressa na Faculdade de Letras, no rescaldo da Guerra Civil de Espanha e em plena II Guerra Mundial. A sua opinião sobre o estado do ensino superior estava longe de ser positiva, porque, afastados ao longo dos anos inúmeros professores antifascistas de grande reconhecimento académico e científico, muitos dos que permaneciam nas universidades eram, segundo Soares, «conformistas» em relação ao regime. Também por isso, fazendo um balanço da sua experiência enquanto estudante na Faculdade de Letras, classifica-a de «terrível» e descreve o que viveu e observou: 

«incompetência e desinteresse dos professores; sentimento generalizado de que a cultura verdadeira nada tinha a ver com as bizantinas matérias ensinadas; revoltantes injustiças nas classificações; absoluta falta de estímulo; arreigada convicção de que só a mediocridade e a subserviência seriam premiadas e poderiam, finalmente, triunfar».

[in História de um Livro, por Pedro Marques Gomes e Teresa Clímaco Leitão, pp. 32-34]

J.M.M. 

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

MÁRIO SOARES – HOMENAGEM NA FIGUEIRA DA FOZ – DIA 8 DE DEZEMBRO



Soares é Fixe” – Homenagem da Figueira da Foz a Mário Soares;

DIA: 8 de Dezembro de 2018 (a partir das 11,00 horas);
LOCAIS: Biblioteca Municipal Da Figueira da Foz | Buarcos (Rotunda do Farol) | Restaurante Teimoso (Buarcos);

ORGANIZAÇÃO: Núcleo de Amigos de Mário Soares | Câmara Municipal da Figueira da Foz

PROGRAMA – HOMENAGEM AO DR. MÁRIO SOARES

11.00 Horas – Exposição “Mário Soares”. Mostra Documental e Fotográfica (Biblioteca Municipal da Figueira da Foz);

12.00 Horas – Descerramento de placa toponímica na Av. Mário Soares (Rotunda do Farol, Buarcos);

12.30 Horas – Almoço no restaurante “Teimoso” (Buarcos) e descerramento de placa alusiva.



► "Por ocasião do 94º Aniversário do seu nascimento, um núcleo de amigos, socialistas e independentes, ligados à vida cívica e política de Mário Soares e com a colaboração da Câmara Municipal da Figueira da Foz, organiza, no próximo dia 8 de dezembro, pelas 13 horas, no restaurante Teimoso, em Buarcos, Figueira da Foz, um almoço de homenagem “Soares É Fixe”, com o descerramento de uma placa alusiva ao evento, e outros atos importantes que constam do programa, que imortaliza o local e uma cidade que lhe dizia muito.

Segundo a organização, “o local onde se irá realizar a homenagem tem uma simbologia histórica, desde os anos 40, pois foi neste sítio, que Mário Soares teve um encontro com Álvaro Cunhal, ambos na clandestinidade".

Soares sentiu-se “incentivado” pelas palavras do líder comunista e decidiu ficar em Portugal, e assim fez uma escolha decisiva, tanto para a sua vida pessoal e política, como para Portugal e para os portugueses”, acrescentam os promotores do encontro.

O programa da homenagem promovida, entre outros,  por Lucas Santos, Carlos Beja e Rosa Pita  inclui: 11 horas – Biblioteca Municipal- Exposição“Mário Soares na Figueira da Foz” – mostra documental e fotográfica; 12 horas – Buarcos – Rotunda do Farol- Descerramento de placa toponímica na Avenida Dr. Mário Soares; 12.30 horas – Almoço no Restaurante Teimoso com família e amigos de Mário Soares e descerramento de placa alusiva.

No entender de Carlos Beja, elemento do núcleo organizador, foi no período em que Mário Soares foi Primeiro-ministro e até enquanto Presidente da República “que o concelho teve vários obras de grande vulto, tais como a regularização do Baixo Mondego e a Ponte Edgar Cardoso, inaugurada em 1982”.

“Também foi numa Presidência Aberta, sobre o Ambiente, que Mário Soares fez a melhor divulgação da mais importante “biblioteca” do mundo sobre a época jurássica do Cabo Mondego. Mário Soares lembrou, em 2010, quando recebeu a Chave de Honra da cidade, “o grande apoio que sempre granjeou no seio das peixeiras e pescadores. Aqui, sempre se sentiu muito acarinhado, fazendo parte do percurso das suas memórias de infância descer o rio num “gasolino”, que era uma das grandes recordações da sua vida”, lembra Carlos Beja.

O evento deverá contar com a presença de familiares de Mário Soares, que faleceu em 7 de janeiro de 2017.

INFORMAÇÕES/CONCTATOS: Lucas Santos | Carlos Beja | Carlos Monteiro | Rosa Pita " [AQUI]

J.M.M.

terça-feira, 16 de maio de 2017

EXPOSIÇÃO – SOARES SEMPRE FIXE!



EXPOSIÇÃO – Soares Sempre Fixe!
 
DIA: 16 de Maio 2017 (18,00 horas);

LOCAL: Galeria Carlos Paredes [Rua Gonçalves Crespo, 62], Lisboa;

ORGANIZAÇÃO: Sociedade Portuguesa de Autores.

“No próximo dia 16, às 18 horas, será inaugurada na Sala-galeria Carlos Paredes, no edifício 2 da SPA, a exposição "Soares Sempre Fixe!", constituída por um significativo conjunto de fotografias da autoria de Inácio Ludgero que, como fotojornalista, acompanhou a actividade de Mário Soares como dirigente partidário, como Primeiro-Ministro, como Presidente da República, eurodeputado e dirigente socialista internacional. 

Este conjunto de fotografias dá uma ideia da intensa actividade política, pessoal e cultural desenvolvida por um dos fundadores e mais empenhados defensores da democracia e da liberdade em Portugal.

Mário Soares que se estreou como autor literário em 1950, tornou-se associado da SPA, que lhe atribuiu, como forma de reconhecimento e consagração, o Prémio Vida e Obra na gala televisiva de 2012, no CCB. 

Esta exposição, a primeira de homenagem a Mário Soares nos meses que se seguiram ao seu falecimento, deverá ter ampla itinerância, como forma de celebração da sua vida e obra” [AQUI]

J.M.M.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

SOARES, TAL E QUAL – POR ANTÓNIO VALDEMAR


 
Soares, tal e qual” – por António Valdemar, in Expresso [online]
 
António Valdemar, “jornalista, antigo aluno do Colégio Moderno (propriedade da família Soares) e do próprio Mário Soares, privou durante décadas com o antigo Presidente da República. Aqui deixa um testemunho inédito sobre aspectos menos conhecidos da vida do antigo PR. Da cultura, à política ou às viagens. Sem esquecer a gastronomia”

Era um animal político. Mal acordava, Mário Soares queria saber tudo o que acontecera. Mergulhava na leitura dos jornais e revistas. Portugueses. Franceses. Espanhóis. Entretanto, seguiam – se os telefonema. Organizava mentalmente essa informação para enfrentar mais outro dia.

O perfil do homem público não se diferenciava muito do homem no convívio íntimo. Nos afetos calorosos, nas aversões ferozes. Mudou, evidentemente, de opinião sem alterar princípios fundamentais. Há situações que, de momento, não vale a pena enumerar. Todavia, era espontâneo nas simpatias e antipatias. As reconciliações possíveis não erradicaram os motivos de cisão, de incompatibilidade, de afastamento. De corte de relações políticas. De relações pessoais. Ou ambas as coisas.

Não se adaptou à internet. O computador colocado na secretaria, do seu gabinete na Fundação, era apenas um elemento decorativo. Até ao fim, tudo o que leu tinha de ser em papel. Escrevia, com rapidez e fluência, na sua letra miúda. Cada vez mais miúda. Mas, em certas ocasiões, emendava muito. As secretarias, durante décadas, a Osita e a Maria José, habituaram – se a decifrar os manuscritos labirínticos, os «textos aracnídeos» conforme exclamei ao ver uma folha A4 repleta correções, de acrescentamentos, de cortes, de repuxos.

Ao falar – lhe nisso respondeu – me: «Procuro, apenas, ser claro». Insisti: «O seu mestre Prof. Francisco Vieira de Almeida costumava advertir: «O simples não é o fácil». Soares olhou – me de alto a baixo e pediu para repetir. E acrescentou: «Eu que o diga...»

Era um homem de cultura. Apesar de nunca ter sido escritor na verdadeira aceção da palavra, frequentou tertúlias de Lisboa e de Paris e sentia – se em pé de igualdade ao lado dos outros intelectuais. Procurava estar ao corrente das novidades. Comprava tudo o que lhe interessava e alguns livros que, não fazendo parte das suas curiosidades habituais, já constituíam uma referência.

Além dos milhares de livros que tinha em casa, e nas casas de Nafarros e do Algarve, instalou no 4º andar do seu prédio, uma «nova biblioteca». Perante aquele universo bibliográfico, devidamente, sistematizada por temas e autores, confirmei o prazer, mais do que isso, a volúpia de ter edições raras. Encadernações preciosas. Primeiras edições, de livros com dedicatórias dos autores e anotações dos possuidores.

Não esqueço o deslumbramento que manifestou ao visitar a biblioteca de Pina Martins, de folhear primeiras edições de Erasmo e Damião de Gois. «Estou esmagado. É demais...» Nesse dia, ao jantar comigo e com o José Manuel dos Santos -  seu colaborador direto, durante décadas e amigo muito próximo - embora houvesse matéria política escaldante, continuava dominado pela emoção que lhe causara a coleção de Pina Martins. E, de vez em quando, repetia: «Estou esmagado. ... Estive para cheirar o papel mas o Pina deve usar inseticidas».

Mário Soares toda a vida também frequentou livrarias e alfarrabistas. Mesmo quando era Primeiro- Ministro, Presidente da Republica, deputado do Parlamento Europeu. Incluiu entre os seus amigos poetas e escritores. Uns ainda da geração do pai, como Jaime Cortesão e Aquilino;  da geração seguinte Rodrigues Migueis e Miguel Torga; outros da sua geração como Carlos de Oliveira, Cardoso Pires, Sophia, Natália Correia, Mário Cesariny ou Luís Pacheco. Outros ainda das gerações mais recentes.

O mesmo aconteceu com artistas plásticos. Admirava Columbano mas o seu apreço e convívio estenderam – se, por exemplo, a Júlio Pomar, a Vieira da Silva, a Jorge Martins. Escapava – lhe a música. Perguntava – me um dia: «Consegue escrever com música?». «Sempre que estou em casa escrevo melhor com música». «Mas que música?" – insistiu. «Com os clássicos. Quase sempre os mesmos». «Compreendo perfeitamente...».

De todos os escritores portugueses o que mais admirava era Eça de Queiroz. Outra das suas admirações profundas era Teixeira Gomes. Várias vezes, na sua casa do Vau, partilhamos a leitura de páginas antológicas do Agosto Azul e de pequenos grandes textos acerca das metamorfoses da luz e da cor, das praias e do mar do Algarve, das pedras com memória e das terras com aromas.


Era um homem de coragem. Política e pessoal. Deu provas da sua determinação na resistência ao salazarismo, nas prisões que suportou. No verão quente de 75, ao insurgir – se contra outros totalitarismos. Em campanhas eleitorais, ao ser agredido na Marinha Grande. Ao assistir, no encerramento de um Congresso da Internacional Socialista, da qual era vice – presidente, ao atentado a Sartawi, observador da OLP e abatido por um membro de um grupo radical, do Abu Nidal, no Hotel de Montechoro.

Estava preparado para as situações mais diversas. Trágicas, cómicas, insólitas. Em 1990, como Presidente da Republica entregou o Premio de Poesia a Natália Correia e, ao mesmo tempo, aproveitou a oportunidade para a distinguir com a Ordem da Liberdade. Natália Correia ouvia o discurso com o seu ar desafiador.

Enalteceu, de início, em duas frases os méritos literários de Natália e os seus contributos para a Democracia, antes e depois do 25 de Abril. A seguir Mário Soares, numa breve nota pessoal, quando salientava, apenas e tão só, que Natália Correia fora «uma das mulheres mais belas da Lisboa dos anos 40 e 50» ouviu – se, em toda a sala, sem necessidade de microfone, a cólera vulcânica e impetuosa de Natália; «Lá está ele a falar do meu corpo. Olhou sempre para mim como uma fêmea. Nunca contemplou o meu espírito. Nem mesmo aqui...»

Era de mais. Excedera os limites aceitáveis. Ultrapassara broncas sucessivas que marcaram a sua presença na Presidência Aberta nos Açores. A cerimónia começava a perder a dignidade institucional. Mário Soares decidiu abreviar o discurso. Horas depois, num jantar reservado, riu. Riu imenso. Rimos todos com ele. A amizade manteve – se na íntegra. Continuou a prestar a Natália todas as homenagens. Em vida, por ocasião da morte e depois da morte.

Era um apreciador da boa mesa. A mulher é que tratava dos assuntos domésticos. Tal como acontecera com a mãe. Mas havia pequenas coisas que lhe davam satisfação. Ir comprar doces e alguns queijos. No tempo das castanhas, de regresso a casa, mandava o motorista parar numa esquina e comprava uma ou duas dúzias de castanhas para a sobremesa. Com tinto.

Frequentou os melhores restaurantes do mundo. Saboreou os pratos mais diversos. Evitava ementas sofisticadas. Gostava, sobretudo, de pratos tradicionais: uma sopa de legumes, a abrir; carne à jardineira; uma boa posta de pescada cosida; uma omelete cremosa, com salsa picada. Pastéis de bacalhau. Pataniscas com arroz de feijão. Comida caseira portuguesa. E gostava de bons vinhos. Comia e bebia com moderação. Apreciava queijos. Olhava para a tábua com varias marcas como um filatelista percorria as folhas de um álbum. Jean Daniel, num jantar de família, ao experimentar vários queijos não se conteve perante um Serpa: «Ça c’ est le fromage». Um sorriso, de orelha a orelha, traduziu o contentamento de Mário Soares ao verificar que os amigos, se sentiam bem recebidos, na sua casa e à sua mesa.

Deliciava – se, por exemplo, com pão-de-ló. Oferecia, generosamente. «Desculpe não gosto de doces!». Com o ar mais sério do mundo dizia: «Comprei por sua causa. Coma ao menos uma fatia?!». Em face da minha recusa exclamava: «Então como eu. Está ótimo. Não sabe o que perde». Repetia. E com uma colher de sopa rapava ainda o doce de ovos que estava dentro do pão-de-ló. Ficava regalado. Como uma criança. O menino de sua mãe.

Era um apaixonado pelas viagens. Nos anos 60 conheceu parte da Europa com a mulher e os filhos. De país em pais. Surpreendendo os contrastes das paisagens. Percorrendo monumentos e museus. Visitou o Brasil, após a fundação do Partido Socialista, para falar com exilados políticos, desde militares da Rotunda e seareiros que participaram na revolta do 7 de Fevereiro, como Sarmento Pimentel e Jaime de Morais, até Casais Monteiro, Vítor da Cunha Rego e Manuel Pedroso Marques.


Voltou ao Brasil em viagens de Estado, recebido com todas as honras. Foi noutras ocasiões fazer conferências e tomar parte em colóquios. Tinha relações pessoais com Jorge Amado, Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, António Cândido, Celso Furtado, Cândido Mendes de Almeida, Fernando Henrique Cardoso, António Houaiss, José Aparecido de Oliveira, entre muitas outras personalidades.

Era agora o que não queria ser. Das últimas vezes que esteve no Rio convidaram – no para uma jantar, com políticos e intelectuais. Ali se encontrou com Roberto Marinho, o diretor e proprietário do jornal O Globo, da Televisão O Globo, da rádio CBN, do Globonews, do maior império da comunicação social não só do Brasil, mas também da América Latina. Marinho com noventa e muitos anos que pareciam robustos fazia confusões tremendas. Ao cumprimenta–lo, Soares logo ficou intrigado quando Marinho o interpelou: «Sabe alguma coisa daquele político português, muito simpático, parece – me que se chama Soares e que foi ou ainda é Presidente da Republica? Ele está bem? Se estiver com ele apresente – lhe os meus cumprimentos...»

Com o melhor dos sorrisos disse: «Está bem. Muito bem... Darei. Darei...» Ao contar- me o que se passara com Roberto Marinho disse – me: «Estou a avançar para os 80. Espero que isto não me aconteça. Seria um horror». Entre centenas de outras estórias, de um convívio de muitos anos, recordo – me deste episódio que o estarreceu. E agora nos choca. Profundamente. Basta evocar imagens da televisão, nas últimas aparições públicas. Deixou de ser quem era e do que sempre quis ser. Já estava ausente de tudo e ausente de si próprio.

Soares, tal e qual [texto revisto pelo autor] – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências, antigo aluno de Mário Soares no Colégio Moderno], jornal Expresso (online), 7 de Janeiro de 2017 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

domingo, 8 de janeiro de 2017

[SOBRE MÁRIO SOARES] A LITERATURA COMO ÍMAN DO MUNDO


O Íman do Mundo” – por José Manuel dos Santos, in Público [online]

“Soares achava que a literatura é o grande íman do mundo, tornando-o menos insuficiente, mais inteligível, menos opaco, mais incandescente. Era herdeiro de um ideia de literatura como imortalidade
Nos anos do fim, quando quase tudo nele deixava de ser o que fora, isso ainda lhe era um ponto de aplicação, onde, como Arquimedes, se apoiava para erguer o seu mundo. Depois da conversa na sala, levava ali os que o visitavam. Agora, estamos no escritório. Ele, com a mão incerta, aponta na estante as prateleiras dos livros que, desde jovem, foi publicando e diz: “Com uma vida tão atribulada, ainda consegui escrever alguns livros.” São uma centena, com as traduções. E há na sua voz um orgulho triste. Esse orgulho olha o passado e não o futuro, por saber que já não é possível acrescentar livros novos àquela longa fila deles.

Mário Soares viveu sempre rodeado de livros – os seus e os dos outros. Achava que ler e escrever é aquilo que distingue os homens dos outros animais. E é aquilo que distingue os homens uns dos outros. Olhava de lado, com um olhar de suspeita e troça, os políticos que não escreviam, que não sabiam escrever. Mesmo nos que escreviam, distinguia os que escreviam bem e os que escreviam mal. E um dos seus desdéns era pelos políticos que não liam, senão relatórios, nem escreviam, senão notas. “Aquele nunca leu um livro!”, dizia, com uma voz cheia de desprezo.

A grande razão que o levava a desagradar-se de ler relatórios não era, diferentemente do que se afirmava, a de que não lhe interessavam os assuntos de que os relatórios tratavam. Era porque os relatórios estavam quase sempre mal escritos: redigidos numa linguagem que diz em muitas e impróprias palavras o que poderia (e, achava ele, deveria) ser dito em poucas e exactas palavras. Então, preferia chamar o autor do relatório, olhá-lo nos olhos e fazer-lhe perguntas. Assim, o obrigava a falar claro e a dizer o que não tinha dito. Assim, o forçava a desfazer aquelas perífrases inclinadas e vazias. Assim, o levava a expor a sua ignorância dissimulada com lugares-comuns num inglês ingénuo e prepotente. Vi, várias vezes, muitos autores de relatórios entrarem no seu gabinete com um passo seguro e altivo – e saírem de lá com um passo vacilante e vencido.

Para Soares, um grande político é aquele que tenta coincidir com um grande escritor. Eram esses os que mais o fascinavam: Marco Aurélio, Frederico II, infante D. Pedro, João Pinto Ribeiro, D. Luís da Cunha, Mouzinho da Silveira, duque de Palmela, Passos Manuel, Disraeli, Jaurès, Clemenceau, Teófilo Braga, B.[asílio] Teles, J.[oão] Chagas, Teixeira Gomes, Afonso Costa, Blum, Azaña, De Gaulle, Churchill, Malraux, Senghor, Mendès France, Brandt, Mitterrand, Obama. E talvez fosse o gosto pela escrita a única coisa que ele absolvia no Salazar que condenava. Em Soares, “os dois corpos do rei”, de que fala o famoso ensaio de teologia política sobre a Idade Média, escrito por Ernst Kantorowicz, eram o corpo político e o corpo literário.

No livro em que reúne textos sobre escritores, a que deu o muito intencional e expressivo título de Incursões Literárias, escreve: “O meu pai que era um pedagogo nato, um homem que tinha o dom de conhecer as pessoas, sempre me aconselhou a ser escritor. Pretendia que eu tinha alguma facilidade para escrever e realmente tinha, talvez demasiada, penso hoje, para poder ter sido, alguma vez, um bom escritor. De qualquer modo, a literatura sempre me apaixonou. (…) É certo que sempre tive, talvez, uma visão literária da vida e das personagens romanescas ou não, que encontrei no meu caminho. Adquiri o hábito de inventar histórias, totalmente ficcionadas, de pessoas que conheci e, por esta ou aquela razão, me interessavam.” Em França ou na Grã-Bretanha, um auto-retrato tão discretamente indiscreto teria dado origem a  exegeses e a teses (há imensos livros sobre a relação de Churchill, De Gaulle ou Mitterrand com a escrita e a literatura). Aqui, ninguém deu por isso […]
 
 
[…] Soares achava que a literatura é o grande íman do mundo, tornando-o menos insuficiente, mais inteligível, menos opaco, mais incandescente. Era herdeiro de uma ideia da literatura como imortalidade. Costumava dizer: “Ninguém sabe quem são os primeiros-ministros do tempo do Eça, mas toda a gente sabe quem é o Eça.” Como os da sua geração, achava também que a literatura dá voz. E que é liberdade.

Um dos grandes prazeres que tinha na vida, além do de ler, era o de falar de livros e de escritores – sobretudo com escritores. No meio do tumulto político, viu-o passar horas a falar de Garrett ou Herculano, de Camilo ou Eça, de Antero ou O. Martins, de Ramalho ou Junqueiro, de Pessoa ou Pascoaes, de R. Brandão ou T. Gomes, de Miguéis ou Nemésio, com João Gaspar Simões (tinha muito orgulho na dedicatória cheia de admiração que Simões lhe fez na biografia de Pessoa), Agostinho da Silva (seu antigo explicador, com quem dava passeios de bicicleta a falar de filosofia, literatura, arte, cinema, numa espécie de “Educação do Príncipe”), Casais Monteiro, Maria Lamas, Palma-Ferreira (muito assíduo, muito imaginativo), Torga, V. Ferreira, Cesariny, Pacheco, Natália, David, Abelaira, Urbano, Sophia, Eugénio, O’Neill, Alçada, C. Oliveira, C. Pires, M. da Fonseca, Saramago, Agustina (num jantar memorável com Cela),  Alegre, Abranches Ferrão, Barradas de Carvalho, Joel Serrão, Piteira Santos, António Valdemar. Escutava segredos e intrigas com o sorriso encantado de quem sabia que a maledicência e a conspiração literárias ainda são mais insidiosas e mortíferas do que a má-língua e a maquinação políticas.

Se viajava, ou se algum escritor estrangeiro passava em Lisboa (vários vieram a seu convite, para o Balanço do Século, por exemplo), convidava-o para almoçar ou jantar: Borges, Bellow, le Carré, Eco, Cela, T. Ballester, Brodsky, Semprún, Rushdie, Milosz, H. M. Enzensberger, Soyinka, J. Amado, Vargas Llosa, Garcia Márquez, Octavio Paz e mais, muitos mais. 

Os seus serões eram cheios de política, de literatura, de história, de arte. O tempo passava e os nomes passavam com ele. Saltava-se de Eça para Zola, de R. Rolland para Orwell, de Sérgio para Abel Salazar, de B. Caraça para Martin du Gard, de Régio para Cortesão, de M. Godinho para Braudel, de L. Caballero para Lorca, de Churchill para Malraux, de Roosevelt para Hemingway, de Balzac para Delacroix, de Koestler para Gide, de Manuel Mendes para Soares dos Reis, de V. de Almeida para Ortega, de Steinbeck para Portinari, de S. Pereira Gomes para Pavia, de Aquilino para Almada, de Alberty para Tàpies, de Picasso para Camus, de Cesário para V. da Silva, de Columbano para Pessanha. Falava de escritores como se falasse da família – de uma outra família. Mesmo os que não tinha lido eram para ele parentes que não conhecia, mas que, ainda assim, não pertenciam menos à família. E, quando falávamos de um poeta, as palavras com que  falávamos eram atravessadas pela voz nítida e ardente de Maria Barroso a dizer-nos um poema, uma estrofe, um verso: “Floriram por engano as rosas bravas” (Pessanha); “Naquele piquenique de burguesas” (Cesário) ; “Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!“ (Pessoa / Álvaro de Campos); “Acusam-me de mágoa e desalento” (Carlos Oliveira); “Sob as mordaças/ calam-se as palavras” (J. Namorado). A noite avançava com lentidão rápida, e nós avançávamos com ela.

Outro dos seus contentamentos maiores era o de ouvir e de contar histórias. Aprendeu essa arte, refinada, maliciosa e encantatória, nas conversas quotidianas das tertúlias dos cafés que, desde jovem, frequentara, como era uso na época. Sabia histórias divertidíssimas e, em muitas delas, havia grandes ensinamentos para a política e para a vida. Tinha histórias íntimas e públicas, épicas e cómicas, passadas e presentes. Nelas, havia amores, conquistas, traições, ciladas, infidelidades, poderes, vaidades, aventuras, ridículos. E no seu contar havia diálogos, apartes, anedotas, trocadilhos, mímicas, gargalhadas. Para contar, usava a memória e a imaginação, o imprevisto e o suspense. Contava para fazer aparecer o que desaparecera, levado pelo tempo e pelo esquecimento. Contava com um ritmo seguro, uma cadência certa, um clímax súbito. Soares contava histórias e o fascínio por elas – e por ele – ia aumentando num crescendo glorioso. Um dos livros que, entre gargalhadas, prometia escrever – e nunca escreveu – era o dos funerais oficiais mais divertidos a que tinha assistido (Brejnev, Andropov, Tchernenko, Hirohito, Hassan II, uma cena com o príncipe Rainier no funeral do conde de Barcelona, no Escorial, etc.).

Na escrita, fazia o louvor e a defesa de um estilo clássico, ordenado, directo e claro, de firme precisão e de fria perfeição, que procurava praticar. Mas, por vezes, a sua escrita trocava a recta pela curva e ganhava as sinuosas, ardentes e deleitosas (esta podia ser uma palavra dele) digressões barrocas, com apostos e continuados sucessivos, ênfases e perífrases, vaivéns e ziguezagues, num movimento ondulatório, vibrante e voluptuoso, magnificado aqui e ali por um sopro romântico. Nos seus livros, há quase sempre reflexão e narrativa, argumentação e valoração, descrição e comentário, comemoração (comemorar- lembrar em comum) e predição (predizer  – dizer antes). O Portugal Amordaçado, o seu livro dos livros, é disso um exemplo e é nisso exemplar. Aí, a política está na vida e a vida está na política. E a vontade de liberdade está nas duas […]

[…] Um dos grandes gostos de Soares era o de ir a livrarias (tinha uma no prédio onde morava) e alfarrabistas. Visitava-os com avidez, com concupiscência, num desejo de satisfazer a sua logofilia, ou mesmo logofagia (como diria o seu amigo de infância D. Mourão-Ferreira). Comprava muitos livros, numa apropriação simbólica do saber. Cá ou lá fora, conhecia os lugares onde descobria o que lhe interessava. Adorava conversar com os livreiros (quando viveu em Paris, fundou, com outros exilados portugueses, uma livraria na Rue Gay-Lussac) e os alfarrabistas (quando era Presidente, teve uma conversa na televisão com o mais antigo deles, José Maria Almarjão). Os troféus de caça que gostava de exibir eram as compras de livros raros ou manuscritos dos autores que admirava. Lembro: as primeiras edições de Vieira, de Camilo, de Eça, de Pessoa, algumas com dedicatórias. Ou a edição original completa da Enciclopédia de Diderot e d’Alembert, ou a primeira edição de todo o Victor Hugo. Tinha um encadernador, que punha no primeiro lugar da hierarquia dos seus artistas-artesãos, seguido do barbeiro, do alfaiate e do jardineiro…

Quando viajava, Soares transportava uma pesada pasta com livros. Levava muitos para poder escolher bem. Escolher bem – escolher de acordo com a vontade do momento, com o interesse do dia, com o desejo da noite. Lia vários livros ao mesmo tempo, como alguém que assim fica com muitas mãos, muitos olhos e muitos pés para andar por caminhos longos e curtos, conhecidos e desconhecidos, variados e até opostos. Quando descobria um grande livro, esse passava a ser o grande assunto das suas conversas.
 
 
As suas casas foram sendo, a um ritmo crescente, ocupadas, sitiadas, devoradas pelos livros. A sua biblioteca, de dezenas de milhares de volumes, é reveladora dos seus interesses vastos e variados: política, literatura, história, ensaio, geografia, artes. Muitos desses livros têm dedicatórias dos autores, que mostrava com uma vaidade infantil. Como era conhecida a sua paixão, escritores e editores de todo o mundo lhos enviavam. Ao seu gabinete chegavam diariamente dezenas de volumes, ficando amontoados, pois não deixava que os levassem sem os ver e agradecer.

Se Soares vivia rodeado de livros, acrescentava às torres de Babel que o cercavam as revistas e os jornais, portugueses e estrangeiros, que todos os dias recebia numa abundância que exasperava quem queria mantar a sua casa arrumada, ordenada e habitável. Assisti a muitas fúrias de Adamastor num cabo das tormentas matinal, geradas por não encontrar os livros, as revistas ou os jornais que estava a ler ou que queria ler.

A leitura deles era, hegelianamente, a sua oração matinal de homem moderno. E era a sua primeira ocupação como político. Essa leitura, feita com atenção, cuidado e desvelo, inspirava-o, dava-lhe ideias, sugeria-lhe acções. Lia e tomava apontamentos nos seus cadernos e blocos. Dessas notas, mal chegava à Rua da Emenda (PS) , a S. Bento (primeiro-ministro), a Belém (Presidente da República), ou à fundação, fazia telefonemas, dava instruções, escrevia cartas, marcava encontros. Era com leitura que, todas as manhas, punha o mundo a girar.

Soares não deitava papéis fora. Guardou tudo, desde o princípio até ao fim da vida, e obrigava quem trabalhava com ele a guardar tudo. No final das reuniões, mandava recolher o que ficara sobre a mesa. O seu arquivo, depois acrescentado com outros arquivos muito importantes, é assim amplo e diverso. É um dos maiores arquivos da nossa história contemporânea.

Soares lia sempre: livros, jornais, revistas, catálogos. Soares escrevia sempre: livros (até há um romance inédito, escrito na prisão), discursos, artigos, prefácios, apontamentos. Como escrevia à mão (só houve um período, dos anos 60 para os 70, que escreveu à máquina), tinha no dedo um calo da caneta. Esse calo dava-lhe mais orgulho do que qualquer título, cargo ou diploma. 

Ao longo dos anos, foi enchendo de observações e reflexões cadernos íntimos que se foram somando e hoje estão, inéditos, no seu espólio. Um dia, se verá o que esse “diário” diz de uma vida tão longa e tão rica. Como estes cadernos provam, essa vida foi-se olhando a si-mesma no divino e demoníaco espelho da escrita. Os cadernos provam também que aquele Mário Soares extrovertido, ligeiro, espontâneo, intuitivo, inspirado, improvisador, impulsivo era completado por um Mário Soares introspectivo, profundo, reflectido, meditativo, prudente, metódico, aplicado, grave, que pesava os actos da sua vida na balança das palavras. D. Quixote e Sancho Pança ao mesmo tempo, Soares era, afinal, muito mais complexo, enigmático e indecifrável do que parecia e do que queria parecer. Este homem, que passou a vida a dar notícias de si, talvez tenha deixado na letra densa e sinuosa das palavras destes cadernos algumas notícias que não nos tenha dado. Pode ser que sejam as chaves de um mundo não imaginado. 

Há na palavra, no verbo, qualquer coisa de sagrado que nos impede de fazer dele um jogo de acaso. Manejar sabiamente uma língua é praticar uma espécie de feitiçaria evocatória”, diz Baudelaire. Para Mário Soares, ler e escrever dava-lhe a certeza de que podia haver sempre um dia seguinte. Um dia seguinte mesmo ao dia da sua morte

O íman do mundo [extracto] – por José Manuel dos Santos, jornal Público (online), 7 de Janeiro de 2017 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

SOARES 65, O ANÚNCIO DO LÍDER


 
"Soares 65, o anúncio do líder” – por António Valdemar, in Público
 
Em 1965, Mário Soares proferiu um discurso que foi um marco, uma fronteira na oposição e uma das componentes do processo que o 25 de Abril irá prosseguir e mudar o curso da História
Há tempo para viver e há tempo para morrer. A saúde cada vez mais precária de Mário Soares tinha-se agravado de modo implacável. Perdera a agilidade de movimentos. Extinguira-se o entusiasmo que lhe fervia nos olhos, se refletia na voz e lhe inundava o rosto. Sentia-se entre os escombros de um mundo que ajudara a construir. Ainda chegou a ter consciência da crise profunda que ameaça a Europa e se tem manifestado em Portugal. 
Depois, ficou reduzido a um espectro do que fora. Mas insistiu sempre em viver. Embora identificasse alguns amigos, estava cada vez mais frágil e mais ausente. O convívio, um dos seus maiores prazeres, passou a ser difícil. Queria citar um nome, referir um acontecimento, mas não conseguia. Faltavam-lhe as palavras que queria dizer. Ou, então, esquecera tudo e todos.
Mário Soares foi em Portugal o maior político da sua geração e do seu tempo. Dominou a segunda metade do século XX e, no início do século XXI, ainda continuou presente. Herdou do pai o vírus da política, o empenhamento na militância, o sentido do risco e a firmeza e vigor na ação para destituir Salazar e erradicar o salazarismo. Orgulhava-se do magistério de António Sérgio, Jaime Cortesão, Bento Caraça, Câmara Reis e Mário de Azevedo Gomes. Considerava-se discípulo, no ensino secundário de Álvaro Salema e Agostinho da Silva; e na universidade de Vieira de Almeida e de Magalhães Godinho. Este último prefaciou-lhe a primeira tese de licenciatura O Nacionalismo Político de Teófilo Braga recusada, por motivos ideológicos, por alguns professores do júri, na Faculdade de Letras de Lisboa.

Para a sua formação, também reconhecia a importância de Álvaro Cunhal, enquanto regente de uma sala de estudos do Colégio Moderno, ao concluir uma disciplina do antigo sétimo ano do liceu. Através dessas explicações criou uma relação direta com uma personalidade que o fascinou. Quando perguntei a Álvaro Cunhal, num encontro no Martinho da Arcada, qual o contributo intelectual e político que exercera em Mário Soares, respondeu-me com o seu humor corrosivo: “Nenhum. Só consegui ensinar-lhe as coordenadas celestes para um exame de Geografia. O dr. Mário Soares nunca conseguiu aprender comigo as coordenadas terrestres”…

A 14 de Dezembro de 1965, falecia Mário de Azevedo Gomes. Chefiava, na altura, a oposição ao salazarismo. A década de 60, a partir de Agosto de 1960, e com a morte de Jaime Cortesão, confrontou-nos com o progressivo desaparecimento das figuras paradigmáticas. O Diretório Democrato-Social  – bastante desativado – admitiu a hipótese de entregar a presidência a Cunha Leal, antigo ministro da I Republica.

Mas a primeira geração, formada na Seara Nova  – Manuel Mendes, Fernando Abranches Ferrão, António Macedo, Carlos Cal Brandão e outros –, não aceitava Cunha Leal. Perduravam os ecos de uma das mais contundentes polémicas de Raul Proença: o conflito entre os princípios e os interesses, o antagonismo entre as conveniências económicas, os valores morais e a ética politica.
 
 

É neste contexto que Mário Soares, no funeral de Mário de Azevedo Gomes, no cemitério dos Prazeres – onde irá agora repousar, transitoriamente, até lhe prestarem honras no Panteão Nacional –, proferiu um discurso que ficou a ser um marco na sua trajetória, uma fronteira na oposição e uma das componentes do processo que o 25 de Abril irá prosseguir e mudar o curso da História.

Estive lá como repórter do Diário de Notícias e como amigo e admirador de Azevedo Gomes, oriundo de famílias açorianas e, ele próprio, nascido na ilha Terceira. Recordo-me do que se passou e do que a Censura truncou e suprimiu. É um momento histórico da carreira política de Mário Soares. Talvez haja um registo no espólio de Igrejas Caeiro. Lembro-me de ter feito a gravação.

Ao usar da palavra, Mário Soares, num ambiente de apertada vigilância policial, falou acerca do futuro da oposição. E disse, perentoriamente, que, falecido Mário de Azevedo Gomes, líder indiscutível, não aceitariam outro líder que não fosse da geração do próprio Mário Soares.

O consenso foi significativo: na sua geração, na geração anterior, e, ainda, nos sobreviventes do grupo originário da Seara Nova e de alguns dos últimos civis e militares que implantaram a República. Afastava-se a hipótese de Cunha Leal suceder a Mário de Azevedo Gomes.

Era a oportunidade de a nova geração dar testemunho e de Mário Soares assumir o papel principal na liderança. Já conquistara protagonismo e visibilidade pública. Já concebera um projeto para Portugal. Assentava na República Moderna e na social-democracia europeia. A oposição passava a ter um rosto jovem. Ganhava maior amplitude e tornava-se mais eficaz.

Em numerosas circunstâncias Mário Soares demonstrara coragem, determinação e energia. Voltou a repetir sempre que necessário. Tinha o perfil adequado para as lutas a travar, à frente da oposição, dentro e fora do País. Estávamos em Dezembro de 1965. Pouco antes completara 41 anos. O discurso, naquele dia, no funeral de Azevedo Gomes, constituiu a afirmação e também o anúncio da grande liderança política nacional e internacional de Mário Soares.

Soares 65, o anúncio do líder – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências, antigo aluno de Mário Soares no Colégio Moderno], jornal Público (online), 7 de Janeiro de 2017 – com sublinhados nossos.

J.M.M.