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segunda-feira, 20 de maio de 2019

A HOSTILIDADE AOS PROFESSORES – POR JOSÉ PACHECO PEREIRA


A Hostilidade aos Professores" – por José Pacheco Pereira, in Público, 18 de Maio de 2019

[Os professores têm muitas culpas, mas isso não esconde que têm hoje uma das mais difíceis profissões que existem. E que, sem ela, caminhamos para o mundo de Camilo]  
A hostilidade aos professores é evidente em muitos sectores da sociedade portuguesa. Manifestou-se mais uma vez no último conflito gerado pelas votações dos partidos na Assembleia atribuindo aos professores a contagem integral do tempo de serviço. Antes, durante e depois deste processo, a vaga de hostilidade aos professores atingiu níveis elevados, com a comunicação social a escavar fundo a ferida, com sondagens orientadas e uma miríade de artigos de opinião e editoriais.

Valia a pena parar para pensar, porque este movimento de hostilidade é mais anómalo do que se pensa, e acompanha outros, como o ataque aos velhos como sendo um “fardo” dos novos. Mostram que estamos a entrar numa cosmovisão social que implica um retrocesso enorme naquilo a que chamamos precariamente “civilização”. É preciso recuar muito para encontrar ataques aos professores, o último dos quais teve expressão quando a escola laica, em países como a França, foi um alvo importante da Igreja, que tinha o monopólio do ensino.
Mas eu seria muito cuidadoso sobre as razões dessa actual hostilidade, porque ela incorpora aspectos muito negativos da evolução da nossa sociedade. É um caminho que muita gente está a trilhar, sem perceber que ele vai dar a um profundo retrocesso. E isso acontece muitas vezes na história: anda-se para trás quase sem se dar por ela, contando com a inacção, a apatia, ou a acédia de quem deveria reagir. Como a democracia é uma fina película contra a barbárie e é apenas defendida pela vontade dos homens e não por nenhuma lei da natureza, mais vale prevenir com todos os megafones possíveis.

Há vários aspectos na actual hostilidade. Há uma agravante no caso português que tem a ver com a vitória muito significativa da ideologia da troika, que está longe de ter desaparecido e, nalguns casos, migrou para sectores que lhe deveriam ser alheios e não são: os socialistas, por exemplo. Disfarçada de “economia”, essa ideologia assenta numa visão pseudocientífica, muito rudimentar e simplista, cheia de variantes neomalthusianas, que se apresentou como não tendo alternativa, a nefasta TINA. Isto encheu-nos as cabeças e não saiu delas.
Essa ideologia centra-se na crítica do Estado, em particular do Estado social, e transforma os funcionários públicos em cúmplices de uma rede de privilégio, sendo descritos apenas como “despesa” excessiva. Vale a pena ensinar-lhes um pouco de história europeia e lembrar-lhes o papel do Estado desde Bismarck como instrumento para impedir sociedades bipolares de “proletários” e ricos, com a consequente conflitualidade social extrema. Acresce que esse processo criou à volta do Estado uma classe média, os tais desdenhados funcionários públicos, que não só funcionou como tampão como arrastou muita gente que vinha da pobreza e acedeu à mediania. A economia privada e o dinamismo das empresas, quando existiu ou existe, teve e tem igualmente esse papel, mas não chegou para criar este elevador social.


Portanto, gritem contra a função pública e os malefícios do Estado - que também existem como é obvio -, mas percebam que o pacote de não ter professores, enfermeiros, médicos, jardineiros, funcionário das repartições, leva atrás de si o ensino e a saúde pública, que são componentes essenciais do elevador social, o único meio de retirar as pessoas da pobreza, quer no privado, quer no público. Pais lavradores, que conheceram a verdadeira pobreza, filha professora primária ou funcionária pública, neto estudante universitário – sendo que o papel da educação é um elemento fundamental para esta ascensão.
Depois, há outros ingredientes. Os professores protestam, fazem greves, boicotam exames, fecham escolas, e hoje há uma forte penalização para as lutas sociais. Quem defende os seus interesses é penalizado e de imediato tem contra si muita comunicação social, o bas-fond das redes sociais e a maioria da opinião pública. São os enfermeiros, os camionistas, os professores, os trabalhadores dos transportes – manifestam-se, são logo classificados de privilegiados e egoístas. Os mansos que recebem migalhas no fundo do seu ressentimento invejam quem se mexe. Sem mediações, a sociedade esconde os que não precisam, e pune os que lutam. As greves hoje são solitárias.

O papel mais negativo é o da comunicação social, que se coloca sempre na primeira linha do combate ao protesto social. Despreza por regra os sindicatos, que considera anacrónicos, aceita condições de trabalho de sweatshop e ajuda a apagar e a tornar incómoda a memória de que o pouco que muitos têm no mundo do trabalho foi conseguido com muito sangue, e não ficando em casa a jogar gomas no telemóvel ou a coscuvilhar no Facebook.
Por fim, e o mais importante, há uma desvalorização do papel do professor, de ensinar, de transmitir um saber. Vem num pacote sinistro que inclui o falso igualitarismo nas redes sociais, o ataque à hierarquia do saber, o desprezo pelo conhecimento profissional resultado de muito trabalho a favor de frases avulsas, com erros e asneiras, sem sequer se conhecer aquilo de que se fala. É o que leva Trump a dizer que se combatia o incêndio de Notre-Dame com aviões-tanques atirando toneladas de água, cujo resultado seria derrubar o que veio a escapar, paredes, vitrais, obras de arte. É destas “bocas” que pululam nas redes sociais que nasce também a hostilidade aos professores. É o ascenso da nova ignorância arrogante, um sinal muito preocupante para o nosso futuro.

Os professores têm muitas culpas, deveriam aceitar uma mais rigorosa avaliação profissional, deveriam evitar ser tão parecidos como estes novos ignorantes, deveriam ler e estudar mais, deveriam ser severos com as modas do deslumbramento tecnológico, mas isso não esconde que têm hoje uma das mais difíceis profissões que existe. E que, sem ela, caminhamos para o mundo de Camilo. Não de Eça, mas de Camilo, do Portugal de Camilo. Verdade seja que isto já não significa nada para a maioria das pessoas. Batam nos professores e depois queixem-se …"

A Hostilidade aos Professores – por José Pacheco Pereira, Público, 18 de Maio de 2019, p.8  – com sublinhados nossos.

J.M.M.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A UNIVERSIDADE LIVRE DE COIMBRA. DISCURSO PRONUNCIADO NA SUA SESSÃO INAUGURAL POR AURÉLIO QUINTANILHA




LIVRO: A Universidade Livre de Coimbra (reed. 1925);
AUTOR
: Aurélio Quintanilha; Prefácio de Paulo Archer de Carvalho
EDIÇÃO: Editora Lema d’Origem (2017); 

APOIOS: Pró-Associação 8 de Maio | União das Freguesias de Coimbra | GAAC | Ateneu de Coimbra




LANÇAMENTO DA OBRA:

DIA: 12 de Outubro 2017 (18,00 horas);
LOCAL: Casa Municipal da Cultura de Coimbra (R. Pedro Monteiro, 64);
ORADOR: Professor Doutor Carlos Fiolhais.

“A formação da Universidade Livre de Coimbra – Instituto de Educação Popular (ULC, 1925-1933) obedeceu ao estratégico desiderato de efectiva instrução pública complementar, gratuita, voluntária e demopédica que anima a acção programática das similares universidades populares que, entre nós e após a instauração da República, se possibilitaram e expandiram. Acção inscrita num movimento europeu muito vasto (Bélgica, França, Inglaterra) de congéneres universidades populares e livres (em rigor, não sinónimas, por vezes mesmo dicotómicas), originado após os meados do século XIX, do qual manterá no fundamental a matriz democrática e laica.

No específico contexto histórico marcado, contudo, pela derrisão da I República, a ULC representou um dos derradeiros programas práticos da militância laica e da livre solidariedade dos intelectuais com o operariado e o pequeno funcionalismo. Não admira, também por isso, que na sua plural circunstância fundadora convirja dúplice e indesmentível influência republicana e maçónica, concatenada na pedagogia, prática, dos direitos, liberdades e garantias fundamentais da cidadania: materializando reivindicações populares de acesso das mulheres à escolarização, de educação sexual, de higiene e implementação de infantários, na exigência de construção do ensino técnico profissional e na formação contínua dos formadores. Propostas estas que a Constituição da República Portuguesa de 1911 não asilara” [Paulo Archer de Carvalho, inAlgumas anotações póstumas: a apresentar a conferência e o conferencista”, p. 9-10]




Trata-se da reedição do raro e estimado opúsculo do cientista, investigador, professor, pedagogo, libertário e maçon, Aurélio Quintanilha (1892-1987) e que transcreve o discurso por si pronunciado na sessão inaugural da Universidade Livre de Coimbra, a 5 de Fevereiro de 1925, no Salão Nobre dos Paços do Concelho.

As Universidades Livres nascem do ideal civilizador, laico e republicano, de ser a instrução um factor, por excelência, de promoção social, moral e intelectual das camadas populares. A educação popular, o ensino e o amparo moral eram, assim, tomadas como “extensões universitárias” e onde os professores, saindo das suas “torres de marfim” uniam o intelectual ao “manual”, espalhavam conhecimentos e sábios ensinamentos, cumprindo o dever de formar e unir homens livres. De facto, os cursos livre, as conferências realizadas e as inúmeras atividades realizadas (visitas de estudo, excursões), despertaram grande interesse, e dizem que estávamos, sem dúvida, na presença do melhor e mais valioso escol intelectual da nossa Primeira República.

ANOTAÇÃO SOBRE AS UNIVERSIDADES LIVRES: a Universidade Livre do Porto aparece em Dezembro de 1903, renovando-se a partir de 1912, com o magistério de Leonardo Coimbra.

Por sua vez, após a terceira tentativa gorada, a Universidade Livre de Lisboa [que teve sede na Praça Luís de Camões, nº42, 2º, Lisboa] surge publicamente em 28 de Janeiro de 1912 [pelo esforço do deputado republicano, mutualista, associativista e benemérito Alexandre Ferreira (pai do poeta José Gomes Ferreira) e maçon (irmão “Verdade”, da Loja Montanha), e seu primeiro presidente e pela dinamização de Tomás Cabreira (propagandista da República, mais tarde ministro das Finanças, ele próprio maçon, o irmão Solon, iniciado na Loja Portugal, de Lisboa, e na altura integrando a Loja Marquês de Pombal]. A sua sessão inaugural decorreu no Coliseu de Lisboa (Rua da Palma) e contou com a presença do presidente da República, Manuel de Arriaga, Queiroz Veloso (diretor da Faculdade de Letras e que presidiu à sessão), capitão Simões Veiga, tenente-coronel Almeida Lima (da Faculdade de Ciências), Tomás da Fonseca (pelas Escolas Normais) e Carneiro de Moura (pela Escola Colonial). Usaram da palavra, além de Queiroz Veloso e Alexandre Ferreira, Agostinho Fortes, Rui Teles Palhinha e Carneiro de Moura. Publicou a Universidade Livre de Lisboa um curioso Boletim [nº1, Janeiro de 1914; em 1916 denomina-se Boletim Patriótico da Universidade Livre], tendo a dirigi-lo Alexandre Ferreira. Cessa, a Universidade de Lisboa, as suas atividades em Março de 1935. O seu valioso património foi legado à Sociedade “A Voz do Operário”.

Em Coimbra, a Universidade Livre, é fundada em 5 de Fevereiro de 1925 e tendo como fundadores, Joaquim de Carvalho, Adolfo de Freitas, Alberto Martins de Carvalho, Alcides de Oliveira, Almeida Costa, Álvaro Viana de Lemos, António Sousa, Aurélio Quintanilha, Darwin Castelhano, Floro Henriques, Manuel Reis e Tomás da Fonseca.

A Universidade Livre teve a sua delegacia na Figueira da Foz, com sessão inaugural a 5 de Abril de 1929 e realizada no salão Nobre dos Paços do Concelho. Abriu a sessão o dr. João Monsanto, lendo uma carta do dr. Joaquim de Carvalho, impossibilitado de marcar presença, estando na mesa o capitão Melo Cabral (presidente da Comissão Administrativa Municipal), José Nicolau Borges (secretário e representante do operariado figueirense) e Francisco Águas de Oliveira (pelo professorado), seguindo-se uma palestra pelo dr. Luís Carriço (figueirense e professor da UC) com o tema “Como se viajava dantes e como se viaja hoje em África”. A delegacia da Figueira da Foz teve a sua sede nas instalações da Biblioteca Municipal e a sua comissão executiva era constituída por António Vítor Guerra, Mário Dias Coimbra, Manuel Neves da Costa, Fausto Pereira de Almeida e Jaime Viana. Abriu, posteriormente, a delegacia, uma escola nocturna de Instrução Primária, bem como cursos de geometria e escrituração comercial, na sede da Associação dos Carpinteiros. Inaugurou, em 1932, uma biblioteca móvel. Comemorou, com dignidade, o 31 de Janeiro, o 5 de Outubro, o 1º de Dezembro de 1640, o centenário de João de Deus. Tomás da Fonseca, Manuel Jorge Cruz, Cristina Torres, Maurício Pinto, comandante Jaime Inso, dr. Rocha Brito, Alexandre Ferreira, Neves Rodrigues, Afonso Perdigão, Afonso Duarte, Manuel Mariano, Manuel Gaspar de Lemos, Fernando Correia, foram alguns dos palestrantes das inúmeras conferências realizadas.       

J.M.M.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

LEITURA E IDEOLOGIA REPUBLICANA: AS ESCOLAS E BIBLIOTECAS POPULARES DA FIGUEIRA DA FOZ (1900-1910)


LIVRO: “Leitura e Ideologia Republicana: As Escolas e Bibliotecas Populares da Figueira da Foz (1900-1910)";

AUTORA: Maria Isabel Gaspar Ferreira de Sousa;
EDITORA: CMFF, 2015.

LANÇAMENTO DA OBRA:

DIA: 31 de Janeiro 2015 (18,00 horas)
LOCAL: Biblioteca Municipal Pedro Fernandes Tomás da Figueira da Foz

Palavras-Chave: Bibliotecas Populares, Escolas Populares, Imprensa Local, Maçonaria, Republicanismo.

Este trabalho de dissertação assenta, antes de mais numa matriz geográfica e histórica da cidade da Figueira da Foz, no início do séc. XX assim como as suas freguesias limítrofes mais influentes: Tavarede e Buarcos (contudo, são feitas breves alusões a outras freguesias onde aos poucos foram sendo criadas instituições similares às primeiras freguesias e embebidas do mesmo espírito).

Temos como objeto de estudo a emergência e difusão do ideário republicano junto das populações, assim como a defesa intransigente da ideia do alargamento da instrução a um público cada vez mais vasto, combatendo o maior flagelo cultural do nosso país: o analfabetismo quase generalizado, através da criação de escolas e bibliotecas populares em Associações recreativas, de classe, mutualistas e outras. A certeza de que uma posição cívica e política mais consciente dos cidadãos só seria possível se fosse permitido o acesso à instrução a um maior número de pessoas, norteou a criação destas escolas, um pouco à margem do ensino oficial (que se definia como manifestamente insuficiente) e que tinham como objetivo tirar do analfabetismo uma grande parte do povo trabalhador da Figueira da Foz. Sendo assim, é neste ambiente ideológico fervilhante, na cidade da Figueira da Foz na primeira década do séc. XX que irão surgir as escolas populares, dinamizar conferências e cursos livres, criação de bibliotecas e salas de leitura que eram vistas como uma solução para o atraso cultural das camadas sociais mais baixas, rumo àquilo a que se entendia ser o progresso.

A Figueira da Foz beneficiou com a dinâmica de uma série de personalidades com características humanitárias e benemerentes, republicanos e maçons, que não mediram esforços no sentido de criar condições para 'derramar a luz da instrução' sobre as camadas populares” [in Resumo do livro]

J.M.M.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

I CONGRESSO DOS PROFESSORES PRIMÁRIOS (1892)


DELEGADOS ao I Congresso dos Professores Primários [realizado nos dias 16, 19, 20 e 21 de Maio de 1892, em Lisboa]

1º plano (sentados, a partir da esquerda): Dr. Cândido de Figueiredo, José Narciso Braga Condé, Guilherme José da Silva, Dr. Bernardino Machado, António Sérvulo da Mata, Francisco José Pinto Coelho e Manuel José Ferreira;

2º plano (em pé): José de Carvalho e Silva, D. Maria Cândida Augusta Lopes Castelo, António Francisco dos Santos, João António Carlos de Carvalho, Guilherme Augusto Candeias, D. Carolina Assunção Lima, Manuel José Felgueiras, Francisco José Cardoso, Artur Loureiro Dias, Manuel José Martins Contreiras, Leonídio Cerqueira de Vasconcelos, Ulisses Machado e Padre João António Ribeiro Nobre.

inA Federação Escolar", Porto, 26 de Setembro de 1926

J.M.M.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

ASSOCIAÇÃO ESCOLA 31 DE JANEIRO (PAREDE)


LIVRO: Associação Escola 31 Janeiro: 100 anos de Instrução, Educação e Progresso (Parede) [livro Comemorativo do seu Centenário];
AUTOR: Rui Pinto;
EDIÇÃO: Associação 31 de janeiro, com apoio da C. M. de Cascais.

" ... A Associação-Escola 31 de Janeiro é uma das muitas instituições de ensino fundadas no alvorecer da República. Perseguindo o ideal republicano do direito à instrução e face à insuficiência da oferta prestada pela rede de ensino público da época, a 1 de janeiro de 1911 esta associação sem fins lucrativos fundou [um dos 12 fundadores foi Abeillard de Vasconcelos - ver AQUI] uma escola privada com o intuito de contribuir para a cobertura da escolaridade obrigatória no concelho de Cascais.

'O grande desafio para os fundadores da Escola e dos seus seguidores foi conciliar a sobrevivência de uma instituição privada de ensino com os ideais republicanos da educação', refere o autor do livro, agora editado com o apoio da Câmara Municipal de Cascais. A opção pela gestão direcionada para o alargamento do ensino ao maior número de crianças possível e não para a obtenção de lucros criou algumas dificuldades à sustentabilidade da escola que durante os primeiros anos funcionou sem instalações próprias e totalmente dependente do pagamento das quotas dos associados, do financiamento camarário e da angariação de fundos através do desenvolvimento de atividades lúdicas e culturais. Frequentemente a sua missão estendia-se para além das obrigações educacionais e, a partir de 1927, a escola passou a prestar apoios sociais aos alunos mais necessitados ...
[ler AQUI - ler Origem e História AQUI]

J.M.M.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O JESUÍTA - EM HOMENAGEM À LEI DA SEPARAÇÃO



O JESUÍTA - EM HOMENAGEM À LEI DA SEPARAÇÃO, NO SEU 2º ANIVERSÁRIO (20/04/1913) - clicar na foto para ler

AUTOR: José d'Aquino Falcão

José d’Aquino Falcão foi professor do ensino primário e autor [cf. Dicionário dos Educadores Portugueses, A. Nóvoa, p.524] "de um método de aprendizagem rápido de leitura e da escrita", pelo que procurava fundar uma "escola especial de educação modelar" (seria uma escola modelo, que estava pensada para existir no Largo do Conde Barão). Para isso funda o periódico "O Ensino" (Lisboa, 1916), com que pretendia por em funcionamento o dito projecto. Do mesmo modo, aparece como director do periódico "O Equilíbrio Social" (Porto, 1 de Julho de 1924 a 1 de Maio de 1925), que surge na sequência da sua "Cartilha Nacional" ["Cartilha Nacional. Systema de ensino puramente prático e racional", Cabeceiras de Basto, Typ. Jornal de Cabeceiras, 1898] e onde se procurava fomentar o "mutualismo, promover a beneficência e divulgar o seu método de aprendizagem da leitura em 30 dias" [ibidem].

José d’Aquino Falcão, tem, ainda, a seguinte actividade periodista: é editor e redactor do semanário "O Cabeceirense" [1898 (nº 1, 3 de Novembro?); cf. BNP]; tem a co-direcção do diário liberal independente "O Progresso" [com José de Sousa Coutinho, em 1905] e é editor de "O Liberal" entre 1 de Fevereiro e 15 de Março de 1906; edita [1906] a "Revista - literária humorística e anunciadora", periódico continuador do semanário "Justiça" [com o subtítulo "jornal e revista para todos", Lisboa].

J.M.M.

domingo, 12 de junho de 2011

O ENSINO LIVRE (1871-1872)



O ENSINO LIVRE - [Ano I, nº1 (8 de Outubro 1871) ao nº 51 (29 de Setembro 1872)], Lisboa; Proprietários: Joaquim José Annaya, Carlos Borges; Administrador: Joaquim José Annaya; Colaboração: A. de Castro, A. M. C. L. [correspondência], Alfredo Júlio de Brito [dir. Escola Central Primária de Lisboa], António da Costa, António Sérvulo da Mata, E. [correspondente do Porto], E. Motta, F. J. de Campos Rodrigues, Francisco Adolfo Varnhagen, J. A. Simões Raposo, J. P. [correspondente de Coimbra], João Semana, Lucílio [Cartas a Lucílio], M.C.R. [correspondência], Nelson [correspondência], Pedro Maria de Aguilar, Viscondessa de Tagilde [Folhetim]; Administração e Redacção: Praça de D. Pedro (Rossio), 102, 1º [a partir do nº7, na rua dos Retroseiros, 46, 1º; depois ao nº14, para a rua do Crucifixo, 62-66], Lisboa; Tipografia Central, Rua dos Retroseiros, nº46, Lisboa [ao nº14, Tip. do Ensino Livre, rua do Crucifixo]; publica-se semanalmente, aos Domingos [vende-se na Livraria do sr. Lavado, Rua Augusta, 95].

FOTO: reprodução da capa do nº 2 d’O Ensino Livre, via Biblioteca Nacional.

NOTA: interessante periódico onde se pretende debater o estado da Instrução Pública, apresentando como "indispensáveis para a reforma e desenvolvimento da educação em Portugal: liberdade de ensino, descentralização administrativa e articulação da iniciativa privada com a oficial" [cf. "A Imprensa de Educação e Ensino", dir. António Nóvoa, Lisboa, 1993, p. 347-48]. Alguns textos a registar:

A "História da Instrução Popular em Portugal, desde a fundação da Monarquia até aos nossos dias", por D. António da Costa [do nº1 ao nº6]; a necessidade de "reactivar a Associação de Professores"; um curioso anúncio do "Horário das Aulas da Escola Académica"; as "Cartas a Lucílio"; o "Quadro Nominal dos Discípulos" leccionados no ano de 1871, pelo Instituto Caligráfico, dirigido por Carlos Silva [nº15]; a "Proposta de lei de Instrução Pública” [apresentação e debate, com realce para um texto crítico de Simões Raposo – ao nº19 e segs]; um polémico texto [com cont.] contra o Reitor do Liceu Nacional de Lisboa [nº21 e segs, onde são referenciados abusos, ilegalidades e transgressões da lei na época de exames. A polémica trouxe à liça um curioso (e violento) debate entre os articulistas dos jornais a Crença Liberal e a Gazeta do Povo contra os d’ O Ensino Livre]; um In Memoriam de Pedro Augusto Adolfo Mauperrin [nº28]; uns "Apontamentos para a História do Ensino dos Surdos-Mudos em Portugal" e a notícia da reunião iniciadora da comissão para a fundação de uma Escola própria [nº35].

O Ensino Livre AQUI digitalizado.

J.M.M.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

MANUEL GOULART DE MEDEIROS – NOTA BREVE


Manuel Goulart de Medeiros nasce a 24 de Março de 1861, na cidade da Horta (Ilha do Faial). Era filho do conselheiro Venâncio de Medeiros Júnior e de Maria Alexandrina Goulart de Medeiros [cf. As Constituintes de 1911 e os seus Deputados, Livraria Ferreira, 1911, p.195]. Estuda no liceu da Horta, tendo participado no primeiro jornal editado pelos estudantes desse liceu, "O Lyceu da Horta" [ler AQUI] e, depois, inscreve-se na Escola Politécnica, em Lisboa.

Pertenceu à arma de artilharia, tendo assentado praça a 30 de Outubro de 1880, terminando o seu curso em 1882. Nesse ano, defendendo já ideias liberais e republicanas, e ainda estudante, integra a comissão promotora das comemorações do Centenário do Marquez de Pombal. Curiosamente, era filho de um importante monárquico e chefe do partido Progressista da ilha do Faial. De referir, ainda, que, em 1879, fez parte do Centro Republicano Federal de Lisboa [juntamente com Carrilho Vieira, Teixeira Bastos, Manuel de Arriaga, entre outros], o que explica a sua adesão ao ideário federalista. É promovido a alferes em 1883, a tenente em 1885, a capitão (em Angra do Heroísmo) em 1892 e a major em 1909 [ibidem].

Como capitão, desenvolve já um trabalho de interesse em prol da instrução pública, propagandeando ideais democráticos [cf. Dicionário dos Educadores Portugueses, p. 908]. Com a implantação da República é eleito deputado às Constituintes pelo círculo nº 49, da Horta, participando na proposta de projecto de Bases para a Constituição da República Portuguesa, dando primordial importância às medidas em prol da instrução pública, ao mesmo tempo que aí assumia posições ideológicas federalistas. Foi, posteriormente senador (1911-1915) e assumiu a vice-presidência e a presidência do Senado.

É iniciado [ler AQUI] na Loja "Amor da Pátria" [Loja do RF, inicialmente dentro da Confederação Maçónica Portuguesa, transitando para o G. O. Português e, deste, para o GOLU, em 1869 – cf. Dicionário de Maçonaria Portuguesa, de A. H. Oliveira Marques, vol I]. Em 1911 é obreiro da Loja "Livre Exame", nº 200 de Lisboa [Loja do REAA instalada em 1897 e que cindiu do GOLU em 1914, acompanhando a dissidência do Supremo Conselho do Grau 33, tendo abatido colunas em 1928 – ibidem, vol II]. Escolhe como n.s. o de "Gomes Freire". Alcançou o cargo de Presidente do Conselho da Ordem Interino do GOLU, em 1913.

No governo de Pimenta de Castro, Goulart de Medeiros era membro do Partido Unionista, ocupa o lugar de Ministro de Instrução [de 25/01/1915 a 14/05/1915 – cf. Dicionário dos Educadores, ibidem]. Deve-se-lhe a reorganização do ensino secundário da agricultura, das suas escolas profissionais. Foi administrador, pelo governo [provisório da República], na Companhia dos Caminhos de Ferro e fez parte da comissão "encarregada de estudar a reorganização geral do exército". Foi, ainda, presidente da Assembleia-geral da Casa dos Açores, em Lisboa. Goulart de Medeiros atingiu o posto de coronel, passando à reserva em 1919.

Morre, em Lisboa, a 18 de Fevereiro de 1947.

J.M.M.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

EDUCAR. EDUCAÇÃO PARA TODOS. ENSINO NA I REPÚBLICA



EXPOSIÇÃO: Educar. Educação para todos. Ensino na I República;
ORGANIZAÇÃO: Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República com o apoio da Parque Escolar;
COMISSÁRIA: Maria Cândida Proença

LOCAL: Lisboa, Palácio Valadares (Largo do Carmo);
DATA: 17 de Fevereiro a 30 de Junho de 2011 (das 10,00-18,00 horas).

"Com esta exposição pretende dar-se a conhecer a um público vasto a importância da obra republicana no ensino, realçando o alcance e as características das inovações introduzidas. A exposição desenrola-se ao longo de onze salas onde serão abordados os aspectos mais significativos da obra republicana no ensino ..."

ver TUDO AQUI

J.M.M.

quarta-feira, 18 de março de 2009


Inventário de Livros Raros e Desconhecidos - Memória da Escola Portuguesa (do séc. XVIII ao séc. XX)

"Este livro revela-nos o valioso espólio bibliográfico e arquivístico, pouco conhecido ou mesmo ignorado, existente na Secção de Reservados da Escola Superior de Educação de Lisboa. O espólio, que aqui é enumerado, nasceu da fusão dos acervos de três instituições pedagógicas com vasta tradição na Educação e no Ensino em Portugal: a Escola Normal Primária de Lisboa, a Escola do Magistério Primário e, em menor escala, o Instituto António Aurélio da Costa Ferreira. Organizado e catalogado pelo autor, este património, que o presente livro nos dá a conhecer, é constituído por fontes manuscritas, impressas, obras de autores portugueses e estrangeiros, principalmente francesas, datadas do século XVIII ao século XX. Entre as preciosidades reveladas figura o Dicionário Universal de Educação e Ensino, de 1886, traduzido por Camilo Castelo Branco. Com a publicação deste trabalho, os investigadores vão poder reconstituir situações e acontecimentos, conhecer personalidades e compreender momentos relevantes do percurso educativo, pedagógico e cultural português. Um livro que se assume como um contributo para a História da Educação de Portugal" [ler, AQUI]

Inventário de Livros Raros e Desconhecidos - Memória da Escola Portuguesa (do séc. XVIII ao séc. XX), de José Eduardo Moreirinhas Pinheiro, Colibri

via Almocreve das Petas

J.M.M.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

LIGA NACIONAL DE INSTRUÇÃO



Esta associação, fundada em 1907, com amplo apoio e dinamizada por importantes figuras da Maçonaria, teve como principais impulsionadores José Francisco Trindade Coelho e Manuel Borges Grainha.

Esta associação tinha a sua sede em Lisboa, mas criou núcleos em diversos pontos do País, tinha como objectivo combater o analfabetismo que existia em Portugal. Criaram-se núcleos nas seguintes localidades: Leiria, S. Martinho do Porto, Peniche, Óbidos, Torres Vedras, Caldas da Rainha, Alcobaça, Montemor-o-Velho, Figueira da Foz, Alhadas, Quiaios, Covilhã, Viana do Castelo, Aveiro, Soure, Coimbra e Santarém. Para além disso, conseguiu estabelecer-se na colónia portuguesa de Angola (Bié e Benguela).

Organizou ao longo do tempo vários congressos pedagógicos para debater os problemas do ensino em Portugal, como os de 1908, 1909, 1912 e 1914.

Veja-se o que era importante para a Liga Nacional de Instrução em 1908:




Note-se a preocupação com as questões que envolviam o problema do analfabetismo. Por outro lado, procurava-se "elevar o ensino nacional em todos os ramos e criar uma verdadeira educação cívica e social". Entre os ambiciosos fins desta associação encontramos alguns que, passado um século, ainda continuam por realizar, como se pode observar nos vários pontos do artigo 2.

Fica a questão para reflexão: a que distância ficamos de atingir as metas propostas e formuladas pela Liga Nacional de Instrução? Mesmo que cem anos depois tenhamos consciência de que muitas ainda estão por realizar.

A.A.B.M.

domingo, 8 de junho de 2008

ESTATÍSTICA DA INSTRUÇÃO PRIMÁRIA (1864)



Segundo os dados recolhidos por A. Henriques Carneiro, Evolução e Controlo do Ensino em Portugal. Da fundação da Nacionalidade ao 1º Ministério da Instrução Pública, col. Textos da Educação, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2003, p. 470-471 (adaptado) onde se apresentam os seguintes dados com base num Inquérito levado a efeito em 1863, pela instituição da época semelhante à Inspecção de Geral da Educação, mas cujos dados fundamentais se referem a 1864. Existiam nessa época as seguintes escolas:

- 1514 Escolas Masculinas que foram inspeccionadas 104 que não foram inspeccionadas, num total de 1687 escolas;
- 173 Escolas Femininas que foram inspeccionadas e 32 que não foram, num total de 205 escolas.

De seguida, apresentam-se os dados sobre a capacidade das escolas inspeccionadas, onde se conclui que alguns dos problemas das escolas não são só dos nossos dias, mas que já se arrastam há muito tempo. Uma parte siginificativa das escolas em Portugal, nos meados do século XIX, não tinha capacidade para receber os alunos com que na realidade trabalhava, algo não muito diferente da realidade que se vive em alguns aglomerados populacionais nas periferias dos grandes centros urbanos.

CLASSIFICAÇÃO DAS ESCOLAS INSPECCIONADAS(CAPACIDADE)

- 942 escolas foram classificadas com suficiente;
- 689 escolas consideradas insuficientes;
- 56 escolas em situação desconhecida;


Nos próximos dias apresentaremos novos dados.

A.A.B.M.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

A INSTRUÇÃO PÚBLICA NOS MEADOS DO SÉCULO XIX




A INSTRUÇÃO PÚBLICA NOS MEADOS DO SÉCULO XIX

Vejam-se, de seguida, os números apresentados pela revista O Instituto, de Coimbra, onde se apresentam dados que introduzem uma séria reflexão sobre a importância de se aproveitar as oportunidades para deixar os sinais de retrocesso para o passado e a necessidade de preparar um futuro melhor.

Em 1855, Portugal ainda, como actualmente, manifestava muitos sinais contraditórios e um dos que mais preocupação causava era a questão da falta de instrução pública pelo País. Vejamos então os dados:


Note-se, a título de destaque, a curiosidade dos contrastes entre os universos masculinos e feminino, onde as mulheres tinham muito poucas oportunidadades para estudar.

Por outro lado, a quase equivalência entre escolas particulares e públicas, sendo que
as escolas particulares eram sustentadas pelos alunos que as frequentavam, situação bem diferente da actual onde o Estado contribui subsidiando as escolas privadas.

A.A.B.M.

sábado, 5 de abril de 2008

MANUEL JOSÉ MARTINS CONTREIRAS (parte I)


MANUEL JOSÉ MARTINS CONTREIRAS

Nasce na Fuzeta (Olhão), em 1848, aí frequentou a escola primária onde aprendeu a ler e a escrever. Filho de um abastado proprietário, falecido ainda ele era bastante jovem, foi ele que se encarregou de continuar os trabalhos nos campos, vigiando os trabalhadores e lendo os livros e jornais que conseguia obter.

Aos 18 anos parte para Lisboa e frequenta a Escola Normal, saiu de lá como aluno distinto, tentando por isso estudos superiores.
Em 1870 foi nomeado professor na escola de Moncarapacho (Algarve), e dois anos depois foi colocado em Oeiras, seguindo-se a escola central de Lisboa.
Em 1875 obteve por concurso em provas públicas a nomeação de professor da escola municipal nº 1, entrando com Simões Raposo, Teófilo Ferreira e outros, na propaganda, pela palavra e pela imprensa, que levou o ministro António Rodrigues Sampaio e o director-geral A. M. de Amorim a fazerem a reforma de 1878.

Assistiu em 1880 aos Congressos de Bruxelas, tomando parte nas discussões daquela assembleia, visitou ainda nessa altura muitas escolas na Inglaterra, Bélgica, França e Espanha. No ano seguinte rejeitou o lugar de inspector, preferindo ficar em Lisboa.

Defensor das ideias liberais e democráticas, tomou parte nos congressos das Associações, na organização de muitas associações operárias, de instrução e cooperativas, e especialmente nas estabelecidas pelo partido republicano, onde muito trabalhou ao lado de Oliveira Marreca, Latino Coelho, Sousa Brandão e Elias Garcia.

Eleito vice-presidente do 1º Congresso de Professores, realizado em Lisboa, nos dias 16, 19, 20 e 21 de Maio de 1892. Na comissão organizadora deste congresso, encontravam-se também Bernardino Machado, António Sérvulo Mata, António Maria de Freitas, Francisco José Cardoso, Francisco José Pinto Coelho, Manuel José Felgueiras, José Narciso Braga Condé, Manuel José Ferreira, Cândido de Figueiredo, e Guilherme José da Silva.

Parte para Angola em 1893 para estudar a instrução primária naquele território. Regressa a Portugal em 1894, onde apresentou um importante e desenvolvido relatório sobre a situação. Durante a sua estadia estudou também a administração colonial portuguesa e publicou um livro sobre o assunto, intitulado A Província de Angola, bem como dois outros opúsculos: O Crédito Predial Agrícola e o Regime Bancário em Angola, e As Fazendas do Banco Ultramarino em Angola. Publicou ainda outras obras como a Cartilha da Escola, por proposta de João de Deus; A Gramática da Escola, Sinopses da História Prática e Análise das Teorias Gramaticais do Sr. Epifânio, trabalhos estes que rapidamente esgotaram e que não conheceram nova reimpressão. Foi também assíduo colaborador da imprensa republicana da época O Século, Encyclopedia Republicana, entre outros.

No regresso da sua viagem de Angola recebeu a notícia da morte de sua esposa a senhora Ana Rosa Nunes Contreiras, que foi regente da escola central nº10.
Dedicou-se sempre ao trabalho, quer na escola nº 20, onde foi regente, quer nos seus negócios particulares, pois tinha constituído fortuna. Dedicou também parte do seu tempo ao estudo do problema colonial convencido que a criação do crédito agrícola e a organização do ensino público naquela província traria grandes vantagens tanto para o país como para a região.

Em 1897 foi presidente do Congresso Nacional do Professorado Primário, que se realizou em Lisboa entre 12 e 15 de Abril desse ano.

Foi também um conhecido elemento do Grande Oriente Lusitano Unido, tendo pertencido a uma loja maçónica entretanto desaparecida, manteve-se activo até às vésperas da República.
Faleceu em data que não conseguimos apurar.

Encontram-se algumas referências dispersas sobre Martins Contreiras aqui e ainda aqui, ou sobre a sua visita a Angola para estudar a instrução popular naquele território a consultar aqui ou ainda aqui.

[Nota: Na fotografia uma imagem de uma sala de aula no final da Monarquia, retirada do Arquivo Fotográfico de Lisboa, com a devida vénia. Não nos foi possível obter neste momento, em formato digital, uma imagem de Martins Contreiras].

A.A.B.M.

terça-feira, 25 de março de 2008

A POLÍTICA DO MEDO - POR BENTO DE JESUS CARAÇA


A política do medo

"Em que condições exerce hoje o professor o seu mister de ensinar? Pergunta capital, em cuja resposta vai muito da eficiência da Escola e do valor intelectual e moral do ensino. Posso afirmar, sem receio de exagerar, que essas condições se caracterizam essencialmente assim: deficiência de meios pedagógicos; deficiência de meios materiais da vida do professor; limitação das condições de independência mental dos agentes económicos.

O professor hoje, em Portugal, vive com dificuldades de vida e com medo, esse terrível medo que se apoderou da quase totalidade da população portuguesa. Tenho já o tempo de vida bastante para poder ter observado, durante mais de 20 anos, a evolução duma certa corporação científica, e ter verificado nela a instalação e o alastramento desse processo de destruição progressiva do professor português. E é preciso registar que, a despeito de casos isolados de resistência heróica, esse processo de destruição tem produzido os seus efeitos.

A coisa vai mesmo mais longe – a política do medo não atingiu apenas uma determinada camada social ou profissão. Não, essa política foi a todos os sectores da vida nacional e a todos os núcleos de actividade privada e pública, procurando transformar-nos num povo aterrado, reduzido à condição deprimente de passarmos a vida a desconfiar uns dos outros. Mas o que é curioso, nesta questão, é que, ao fim e ao cabo, não se conseguiu apenas que os pequenos tenham medo uns dos outros e dos grandes, ou os indivíduos tenham medo das instituições. O próprio Estado foi vitima do seu jogo e acabou por ser tomado de medo dos cidadãos ...
"

[Bento de Jesus Caraça, in Intervenção feita da Sessão de 30 de Novembro de 1946, realizada pelo Movimento da Unidade Popular, na sala de A Voz do Operário, aliás in Conferências e Outros Escritos, Lisboa, 1978, p. 203 - sublinhados nossos]

Foto: Bento de Jesus Caraça, retirada do blog Ruy Luis Gomes, com a devida vénia

J.M.M.

segunda-feira, 24 de março de 2008

JOSÉ ANTÓNIO SIMÕES RAPOSO (1840-1900)




Natural de Lagoaça, concelho de Freixo de Espada à Cinta, onde nasceu a 29 de Abril de 1840. Era filho de Martinho Caetano Simões Raposo e de D. Maria da Conceição Linhares Morgado Raposo, descendentes de famílias ilustres de Trás-os-Montes.

Aos 23 anos veio para Lisboa, foi frequentar a Escola Normal, então em Marvila, atraído pela sua irresistível vocação para o magistério. Estudante sempre muito laureado, obteve distinção nos dois cursos, elementar e complementar. Obteve as habilitações para as funções de professor de segundo grau pela Escola Normal. Foi professor na Casa Pia, provisor de aulas, sub-director (1877)e encarregado da organização, direcção e inspecção dos estudos. Elaborou diversos relatórios sobre a organização de estudos da Casa Pia e sobre diferentes trabalhos escolares. Destaca-se na Casa Pia por introduzir a progressão de estudos por classes graduadas pela primeira vez em Portugal e que se alargou progressivamente a todo o sistema de ensino. Pertencendo a uma geração de professores normalistas que contribuiram para a formação de professores.

Desempenhou ainda as funções de inspector escolar desde Outubro de 1880; foi ainda vereador da Câmara Municipal de Belém, com o pelouro da instrução. Eleito presidente do Grémio Popular de Lisboa, professor de Pedagogia e Métodos na Escola Normal do sexo feminino. Na Escola Normal, do Calvário, desempenhou funções de professor de Pedagogia, e defendendo, em especial, o ensino pelo Método de Froebel. Desempenhou também o cargo de inspector primário no Porto e apresentou-se como candidato a deputado na legislatura de 1887 pelo "professorado primário".

Era sócio fundador da Sociedade de Geografia de Lisboa e secretário da secção de ensino geográfico, da mesma sociedade, onde realizou conferências importantes. Foi um dos sócios fundadores da Associação dos Jornalistas e Escritores Portugueses em 1880. Nesse mesmo ano fez parte da Comissão de Imprensa que se encarregou de promover o Tricentenário de Camões.

Foi enviado pelo Governo como emissário às exposições universais de Viena de Áustria e de Paris. Participou no Congresso Internacional Pedagógico de Bruxelas, e 1880, realizando, posteriormente, uma visita às Escolas Normais da Bélgica, França, Suiça e Espanha. Foi o representante de Portugal no Congresso Pedagógico de Madrid, em 1882, proferindo algumas conferências em castelhano. Participou como conferente no Congresso Pedagógico Hispano-Português-Americano, de 1892, a convite de Bernardino Machado.

Era sócio honorário da Associação Geral do Professorado Espanhol, tendo sido eleito numa sessão extraordinária da assembleia-geral. Para lhe poder ser conferida esta homenagem, foi necessário alterar os estatutos da referida Associação, porque esta distinção só podia ser concedida a cidadãos espanhóis. Oficial da Academia Francesa, agraciado pelo Governo francês, em virtude da qualidade dos trabalhos apresentados pelos alunos da Casa Pia, na secção portuguesa da Exposição Universal de 1878. Trabalhos esses que mereceram ser arquivados e guardados no Museu Pedagógico de Paris.

Pertenceu a muitas comissões oficiais encarregadas de questões pedagógicas. Por decreto de 1 de Julho de 1880, foi criada uma comissão para organizar e propor os projectos de regulamentos e programas de ensino primário, onde pontificavam entre outros Luís Filipe Leite, José Joaquim da Silva Amado, Dr. Luís Jardim (conde de Valenças), para além de José António Simões Raposo e outros.

Nos últimos anos da sua vida dirige a Escola Normal Primária de Lisboa.
Faleceu em Lisboa a 18 de Junho de 1900.

Colaborou nas seguintes publicações:
- Boletim do Clero e do Professorado;
- Gazeta Pedagógica;
- Revista Pedagógica;
- Ensino Livre;
- Anais de Instrução Pública;
- Froebel;
- A Instrução Portuguesa;
- Revista Semanal do Clero e do Professorado;
- Clamor de Belém;
- Federação (A) escolar, 2.º ano, n.° 54, Número especial, impresso a azul, dedicado á Festa das Crianças, sob a dir. do inspector primário, José António Simões Raposo. Porto, 2 de Outubro de 1887, 4 pag.
- Festa (A) das crianças, 18 de Outubro. Jornal comemorativo da solene distribuição de prémios no Teatro Micaelense aos alunos de ambos os sexos das escolas oficiais e livres, que ficaram aprovados nos exames elementares e complementares no ano lectivo findo. Ilha de S. Miguel, Açores. Ponta Delgada, 1891, Tipografia Popular de Tavares de Resende, 4 innumeradas 27 pag., com colaboração de José António Simões Raposo, entre muitos outros que também fazia parte da comissão directora.

Publicou os seguintes títulos:
- Relatório das Aulas da Real Casa Pia de Lisboa, Lisboa, 1869; idem, 1874; idem, 1878; idem, 1881; idem 1882; idem, 1883; idem, 1884. Nestes relatórios destacam-se o primeiro, de 1869 e o de 1881, porque são os mais volumosos; o de 1869, apresenta um plano de estudos e no de 1881 os resultados obtidos desse plano;
- Tabelas ou Parietais de Leitura, Lisboa, 1866 (nova edição em 1884);
- Ciência para Todos..., Lisboa, 1870;
- Curso Elementar de Escrita, Lisboa, 1877 (reedição em 1880; 3ª ed. em 1882; 4ª ed. 1884);
- Instrução Popular, em três partes, intituladas – Primeiro, Segundo e Terceiro Livro da Escola, publicados em 1877, com gravuras; o Terceiro livro teve mais duas edições (1880 e 1881);
- Conferências Pedagógicas. Relatório das Conferências de Lisboa em 1883, etc. Lisboa na typ. de Matos Moreira, 1884;
- Conferências Pedagógicas do Porto, Porto, 1885.
- Henrique Augusto da Cunha Soares Freire, Selecta, Funchal, 1881, com introdução de Simões Raposo.

BIBLIOGRFIA CONSULTADA:
- Portugal. Dicionário Histórico, Corográfico, Geográfico, Heráldico, Numismático e Artístico, Dir. Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, vol. VI (Q-S), João Romano Torres Editores, Lisboa, 1912, p. 94-95.
- Tiago Moreira, "José António Simões Raposo", Dicionário de Educadores Portugueses, Dir. António Nóvoa, Asa, Lisboa, 2003, p. 1154-1156.

A.A.B.M.

domingo, 23 de março de 2008

1906 - CLASSIFICAÇÕES MENSAIS DA INSTRUÇÃO PRIMÁRIA


Instrução Primária – 4ª Classe

Classificações Mensais, da Instrução Primária (4ª classe), referentes a Fevereiro de 1906, de uma aluna do Colégio de Jesus, Maria, José, de Lisboa.

Disciplinas: Português, Doutrina Cristã, História Sagrada, História de Portugal, Corografia Portuguesa, Aritmética, Geometria, Escrita, Lavores, Francês, Conversação Francesa, Inglês, Piano, Desenho, Arranjo Doméstico.

[clicar na foto]

J.M.M.

A IMPORTÂNCIA DA INSTRUÇÃO PÚBLICA - POR JOSÉ FÉLIX HENRIQUES NOGUEIRA




Segundo José Félix Henriques Nogueira, em Maio de 1853, publicado no jornal A Revolução de Setembro, nº 3373, de 06-07-1853:

Não existe em Portugal ensino para o povo. O que aí se denomina instrução pública, é mais luxo de classificação, do que entidade real. A mesquinha, ignorada e por vezes solitária escola do campo, lá está para bruxulear sua luz duvidosa sobre a povoação de três ou quatro freguesias. Poucos contos de réis bastam no orçamento para satisfazer este momentoso encargo. De resto, quem faz caso de que o povo leia ou deixe de ler. Trabalhe ele, obedeça e pague - que tudo corre às mil maravilhas. É verdade que a ignorância o prejudica a cada instante, que os maus se aproveitam dela em seu prejuízo, e que todo o melhoramento lhe fica vedado. Mas isto toda a vida se viu. O povo não tem tempo para ler. É verdade que a ignorância o faz desprezar os seus melhores e mais importantes direitos políticos. Terras temos que os eleitores vão arrastados como presos de leva. Outras há em que nem eleições se fazem, à falta de quem saiba escrever. Mas também nisto não existe inconveniente. O santo sacramento da eleição celebra-se sempre. A diferença está em pouco. Em vez do povo, oficia o Governo. [...]
É verdade que a ignorância mantém o povo num estado mui vizinho da barbaridade, que com ela, não pode haver progresso nas artes, nem na administração, nem nos costumes. Mas estas coisas não são de primeira necessidade. O dinheiro corre para o Tesouro. As secretarias estão cheias de obra.Os quartéis regurgitam de operários. As prisões aumentam de povoação. Que mais se precisa? Não é esta uma civilização chapada? Será. Nós abominamo-la. E tanto mais a abominamos, quanto estamos convencidos que a felicidade pública, de todos os indivíduos e de todas as classes, depende dum vasto plano de educação, que permita a cada um o desenvolvimento das suas faculdades. Não é decerto com a marcha acanhada, egoísta e meticulosa dos governos de hoje, que tão importante conquista se há-de operar. Toca aos homens de coração filantrópico arredar os primeiros obstáculos que se opõem ao fiat lux e acender o farol que tem de guiar o baixel popular em sua perigosa derrota. É para eles que escrevemos estas linhas - e felizes nós se conseguirmos afervorar sua diligência para meter mãos à obra de tamanho e tão glorioso futuro.

Se a boa instrução é, como ninguém pode negar, uma fonte perene de interesses e de gozos para quem o possui, os livros são indubitavelmente o seu mais seguro depósito. Mas quão poucos dos nossos cidadãos sabem decifrar os mágicos caracteres de que estão cheias as suas páginas! À maior parte deles, a falta de mestres - ao pé da porta -vedou este conhecimento. A outros a cobiça e a rudeza dos pais e amos, serviu de obstáculo. A muitos a dificuldade e aridez do ensino desgostou desde as primeiras lições. Calcule-se por isto de que importância não é a invenção dum método para que pela simplicidade e agrado do seu processo, faz de cada sujeito medianamente instruído, um mestre, e de cada discípulo um leitor. O mestre não necessita de fazer profissão do ensino. Lavrador, artista, negociante, sacerdote, sábio; interrompe por uma hora, nas noites do Inverno, as suas tarefas - e cercado de vizinhos e amigos, de velhos e crianças, dirige-se a todos no caminho da ciência com benignidade e desinteresse. O discípulo não transtorna a sua carreira. Operário, pastor, caixeiro, trabalhador, criado de servir, tira ou pede para tirar essa hora, que tanto pode contribuir para a sua fortuna e de sua família, e vai à escola, apressado e contente como se fosse para uma festa. [...]


[Retirado de: José Félix Henriques Nogueira, Obra Completa, Tomo II, Org. António Carlos Leal da Silva, Col. Estudos Portugueses, INCM, Lisboa, 1979, p. 214-215. Itálicos e Negritos da nossa responsabilidade.]

A.A.B.M.

sexta-feira, 21 de março de 2008

A INSTRUÇÃO PÚBLICA E A REPÚBLICA - ALMANAQUE REPUBLICANO


A Instrução Pública e a República

"... a instrução pública é um arroteamento" [Alexandre Herculano]

Saber ler, escrever e contar, uma instrução pública popular – como direito e obrigação do Estado – e uma educação cívica de homens livres, estiveram sempre na alma socializante e romântica do republicanismo. Mesmo se o "saber ler, escrever e contar" fosse condição de uma técnica de aquisição, a doutrina republicana era entendida como "a entrada da vida" ou o "pão de espírito" que a educação portuguesa necessitaria e a administração republicana assim o exigia.

Na luta contra o analfabetismo, com a "instrução pública" função e domínio do Estado e, ao mesmo tempo, garantia do cidadão, em tal tarefa generosa e educativa, estão sempre presentes os princípios estimados do republicanismo: municipalismo, federalismo e associativismo. Para os republicanos "abrir uma escola, era fechar uma prisão", por isso a educação, no sentido de formar vontades, mentalidades ou "integração na civilização" [Bernardino Machado], era uma tarefa prioritária do ideário republicano.

O ensino livre, a difusão da cultura e o "associativismo educacional", tinham em mente, antes de mais, formar indivíduos, porque "Portugal precisa de fazer cidadãos, essa matéria-prima de todas as pátrias" (1911). A socialização do ensino tornaria os homens iguais, libertos e fraternos. A difusão da cultura pela educação fazia o homem. E o professor, "esse escultor de almas", entre a penúria pedagógica e a miséria salarial mas com esforço e entusiasmo, adere ao trabalho, à acção educativa e torna-se um propagandista da instrução pública.

Num momento particularmente difícil - como o de hoje - em que o ensino público e a educação são objecto da mais subversiva e assustadora contra-reforma, num estranho conúbio entre um economicismo doentio & as trapalhadas e os negócios da educação com interesses corporativos, o Almanaque Republicano - feito por dois professores devotos da instrução - irá publicar um conjunto de textos, documentos e memórias, acompanhadas de notas bio-bibliográficas, de pedagogos e professores que, com entusiasmo, participaram na causa comum da instrução pública republicana.

Saúde e fraternidade

J.M.M.
A.A.B.M.