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domingo, 25 de agosto de 2019

FRANCISCO AUGUSTO CORREIA BARATA (PARTE II)



Enquanto deputado fez parte da Comissão de Redacção, da Fazenda, de Legislação Criminal, da Instrução Superior (1885-1886), do Bill de Indemnidade (1885), da Comissão de Inquérito sobre os impostos do Sal (1885), da Comissão de Resposta ao Discurso da Coroa (1886) e da Comissão para Estudar as Causas da Emigração (1886). Neste período tomou parte em vários debates na Câmara dos Deputados e apresentou uma proposta de projecto de lei para a organização do curso geral da Faculdade de Filosofia, em Abril de 1885. Envolveu-se no debate sobre a revisão constitucional defendendo a manutenção do beneplácito na Constituição, procurando garantir o bom relacionamento entre a Igreja e o Estado. Numa das sessões, o deputado republicano Consiglieri Pedroso solicitou maior rapidez na obtenção de resultados da Comissão de Inquérito ao Imposto do Sal e Correia Barata fez questão de apresentar os resultados até ali obtidos, bem como todas as iniciativas que tinha tomado para melhor esclarecer a situação e no final solicitou que o dispensassem da referida comissão, porque talvez assim os trabalhos avançassem mais depressa.

Recebeu o título de Conselheiro e já jubilado, exerceu ainda as funções de director da Secretaria da Câmara dos Deputados, por diploma de 1 de Fevereiro de 1897 tendo tomado posse do cargo a 3 de Fevereiro seguinte. Desempenhava estas funções quando faleceu.
Foi dos primeiros a acolher com entusiasmo as ideias positivistas de Augusto Comte e conquistou alguma reputação no plano internacional, principalmente em França, onde um dos seguidores de Comte, Pierre Lafitte, o citava com frequência nas suas aulas.

Foi um dos impulsionadores das comemorações do Centenário do Marquês de Pombal na Universidade de Coimbra. Em 15 de Novembro de 1881, na reunião do conselho da Faculdade de Filosofia, apresentou a proposta para se fazer as comemorações do centenário do Marquês de Pombal. A proposta foi aprovada por unanimidade e, no dia 8 de Maio de 1882, discursou na sessão solene juntamente com António Cândido, tendo o discurso sido publicado no Anuário da Universidade de Coimbra 1882/1883, p. 3 a 20. No entanto, a crítica às comemorações surgiram e, entre eles, Ramalho Ortigão, nas suas Farpas foi dos mais críticos. Este discurso encontra-se reproduzido no Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, vol. 19, Lisboa, Imprensa Nacional, 1908, p. 79 a 83.

Tornou-se sócio da Sociedade de Geografia, uma das mais prestigiadas instituições portuguesas na segunda metade do século XIX, em 27 de Março de 1877, sendo o sócio nº 170.

Foi um dos principais responsáveis pela elaboração da Carta de Lei que criou na Universidade de Coimbra a cadeira de Antropologia, Paleontologia Humana e Arqueologia Pré-Histórica, substituindo a de Agricultura que era lecionada até 1885. Juntamente com Bernardino Machado, foi um dos impulsionadores das ideias que foram discutidas e apresentadas no Congresso de Lisboa de 1880. Os professores responsáveis pela cadeira a partir de 1885/1886 foram H. Teixeira Bastos, seguiu-se Bernardino Machado e mais tarde Eusébio Tamagnini.

Em 1886, traduziu a obra de Júlio Verne, Cinco Semanas em Balão, viagem através de África, para editora de David Corazzi.

Sobre a sua personalidade dizia-se que, “era o algarvio menos falador que se conhecia. Calado e taciturno, firme e austero. Irritava-se facilmente e seria um declarado inimigo do obscurantismo católico reacionário, sendo frequentemente atacado por ser um confesso ateu” [Paulo Jorge Fernandes, apud Carlos Lobo d’Ávila, “Barata, Francisco Augusto Correia”, Dicionário Biográfico Parlamentar, vol. I (A-C), coord. Maria Filomena Mónica, Col. Parlamento, Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais/Assembleia da República, 2004, p. 296]

Colaborou com os Estudos Cosmológicos, red. A. M. de Senna, Bernardino Machado, F. A. Corrêa Barata. - Nº 1 (1870) - nº 4 (1871). - Coimbra : Imprensa da Universidade, 1870-1871. Disponível aqui: http://purl.pt/30403/4

O Século. Publicação de Filosofia Popular e de Conhecimentos para todos, quinzenalmente, entre Dezembro de 1876 e Maio de 1878, em duas séries, onde colaboravam também: Zeferino Cândido;

A Revista de Coimbra, Coimbra, 1879, tendo sido director da publicação.

Colaborou regularmente com a revista O Instituto, de Coimbra.

Colaborou ainda em Fraternidade Militar, Coimbra, 1887 (número único). Refere Inocêncio a propósito desta publicação: “organizado pela comissão promotora da festa militar realizada em Coimbra pelos oficiais do regimento de infantaria nº 23, em favor da viúva e filhos do desditoso capitão do mesmo regimento José Maria de Sousa Neves. Publicado em 10 de abril de 1887.

Bernardino Machado, faz-lhe o elogio fúnebre n’O Instituto de 1900, conforme se pode ler aqui:

No final da sua vida, envolta em grande sofrimento provocado por doença, acabou por se converter ao Cristianismo, ele que tinha sido fortemente critico da religião fruta da aproximação à filosofia positivista acabou por receber os sacramentos da Igreja, conforme noticiava o jornal A Nação [ver aqui: http://purl.pt/28600/1/j-2976-g_1900-03-30/j-2976-g_1900-03-30_item2/j-2976-g_1900-03-30_PDF/j-2976-g_1900-03-30_PDF_24-C-R0150/j-2976-g_1900-03-30_0000_1-4_t24-C-R0150.pdf ].

Era casado com Rosalina Amélia do Couto d’Almeida Vale Correia Barata, de quem teve filhos. 

Alguma correspondência entre Correia Barata e Bernardino Machado pode ser consultada na Casa Comum da Fundação Mário Soares, disponível aqui: http://casacomum.org/cc/arquivos?set=e_5373

Faleceu em Lisboa, em 28 de Março de 1900.

Obras Publicadas:
Da Atomicidade – Estudo sobre as teorias químicas modernas, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1871 disponível aqui: https://almamater.uc.pt/cn/fundo_antigo/da_atomicidade_estudo_sobre_theorias_chimicas_modernas_por_francisco_augusto_corr%C3%AAa
As raças históricas da Península Ibérica, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1872
Origens Antropológicas da Europa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1873, disponível aqui:
“Juízo Crítico e Científico em desfavor das Teorias do Génesis”, In O Instituto, Julho de 1876, nº 12.
Lições de Química Inorgânica, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1881.
Carta ao sr. Ramalho Ortigão a propósito do Centenário Pombalino, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1882.

Bibliografia Consultada:
Cardoso, Augusto Correia, “Excertos da História do Laboratorio Chymico da Universidade de Coimbra. Parte II: Período 1860–1930”, Boletim da Sociedade Portuguesa de Química, vol. 42, n.º 148 janeiro–março 2018, p. 33-44. Disponível aqui: https://www.spq.pt/magazines/BSPQuimica/683/pdf
CATROGA, FERNANDO, “Os Inícios do Positivismo em Portugal”, Revista de História das Ideias, nº1, Coimbra, 1977
FERNANDES, Paulo Jorge, “Barata, Francisco Augusto Correia”, Dicionário Biográfico Parlamentar, vol. I (A-C), coord. Maria Filomena Mónica, Col. Parlamento, Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais/Assembleia da República, 2004, p. 296-297
FRANCO, Mário Lyster, Algarviana. Subsídios para uma bibliografia do Algarve e dos Autores Algarvios, vol. I (A-B), Faro, Câmara Municipal, 1982, p. 243-245.
OLIVEIRA, Francisco Xavier de Ataíde, Monografia do Concelho de Loulé, Faro, Algarve em Foco, 1990
SILVA, Inocêncio Francisco da, Dicionário Bibliográfico Português, Lisboa, Imprensa Nacional, vol. 19, Lisboa, Imprensa Nacional, 1908, p. 79 a 83



NOTA: Apesar de percorrer várias Enciclopédias e Dicionários, jornais e revistas da época não se conseguiu localizar uma gravura ou fotografia de Francisco Augusto Correia Barata. Ela existirá certamente, mas não foi possível, em tempo útil, conseguir uma fotografia. Alerta-se também para o facto de na página da Universidade de Coimbra, AQUI, existirem alguns dados biográficos sobre este professor, a data de falecimento que se encontra publicada não corresponde, conforme chamámos a atenção na primeira parte destes apontamentos biobibliográficos.

A.A.B.M.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

FRANCISCO AUGUSTO CORREIA BARATA (PARTE I)



A III edição do Encontro de História de Loulé no final deste mês de Agosto conta com uma palestra sobre um dos filhos da terra que foi professor na Universidade de Coimbra: Francisco Augusto Correia Barata, cuja biografia muitos desconhecem e que na Universidade de Coimbra, consta com uma data de falecimento que não corresponde. Veja-se o que encontramos sobre esta personalidade que foi Professor de Química, Positivista, Deputado entre outras facetas que vamos descobrir.

Francisco Augusto Correia Barata nasceu em Loulé a 3 de Abril de 1847, filho de Joaquim José da Silva Barata e de Maria Emília das Dores, ambos naturais de Loulé. O pai era um pequeno comerciante/lojista na então vila de Loulé.

Estudou em Faro e fez os preparatórios na capital algarvia, matriculando-se em Outubro de 1866 na Universidade de Coimbra.

Concluiu o seu bacharelato em Coimbra, em Filosofia, em 1870, licenciou-se depois em 27 de Março de 1871. Viveu na cidade dos estudantes a polémica “Questão Coimbrã” e foi influenciado por algumas das ideias que estavam em confronto e afirmação. Completou o doutoramento em 14 de Julho de 1872, tendo sido apresentado por outro ilustre algarvio, neste caso de Olhão, o professor João José Mendonça Cortez. Professor substituto em 1873 e substituto de nomeação definitiva em 1875. Ascendeu a professor catedrático em 30 de Maio de 1877. A sua dissertação de licenciatura reflecte alguns aspectos novos, que estavam a ser integrados no ensino da Química em Coimbra, através do Congresso de Karlsruhe, realizado na cidade alemã em 3 a 5 de Setembro de 1860, onde se realizou o primeiro encontro internacional de químicos.

Foi responsável pelas cadeiras de Zoologia entre 1872 e 1873, nesse mesmo ano letivo, foi substituto extraordinário de Química; no ano lectivo seguinte foi professor substituto de Agricultura. A partir de 1873, professor substituto de Zoologia e ao mesmo tempo de Química Inorgânica (1873 a 1877) e também de Mineralogia (1873-1877). A partir de 1882 foi lente de Química Orgânica até 1897, quando se aposentou, ocupando também as funções de Director do Laboratorio Chimico (1890-1898).


Em termos políticos, apesar de alinhar na corrente filosófica do Positivismo, alinhou com o Partido Regenerador, na sua intervenção política e foi nomeado para Governador Civil de Viana do Castelo (19-10-1882 a 4-02-1884), sendo depois eleito deputado pelo círculo uninominal de Armamar.
O projecto positivista, de Augusto Comte, encontrou eco em Portugal com alguma rapidez. Esse acolhimento foi feito sobretudo nos núcleos mais elitistas da Universidade, das Escolas Politécnicas e das Escolas Médicas, onde as ideias começaram a ser veiculadas por alguns professores. Entre eles, como assinala Fernando Catroga, ["Os Inícios do Positivismo em Portugal", Revista de História das Ideias, nº1, Coimbra, 1977, p. 314 e ss disponível aqui: https://digitalis-dsp.uc.pt/bitstream/10316.2/43977/1/Os_inicios_do_Positivismo.pdf  ] encontramos Teófilo Braga, Manuel Emídio Garcia, José Falcão, Bernardino Machado, Rodrigues de Freitas, Júlio de Matos, Alves de Sá, Bettencourt Raposo, Augusto Rocha e Correia Barata, entre outros. Todos estes homens começaram a difundir algumas destas ideias através dos órgãos de imprensa periódica, entre eles: A Evolução(1876), O Século (1877), O Partido do Povo (1878) e O Positivismo (1878). 

[Em continuação]
A.A.B.M.

sábado, 7 de abril de 2018

PEDRO FRANCISCO MASSANO DE AMORIM (Parte III)



René Pélissier na sua obra História de Moçambique. Formação e Oposição, vol. I, Histórias de Portugal, Editorial Estampa, Lisboa, 1994, p. 291 considerava Massano de Amorim um conquistador metódico. Tinha feito um percurso feito de combates e o seu desempenho na guerra luso-umbunda (1902) e na repressão da revolta dos ovibundizados de Seles e de Amboim (1917), bem como os ataques a Farelay e Ibrahimo permitiram-lhe fazer a afirmação da presença portuguesa face ao poder suahili e instalar colonos portugueses no coração da região dominada pela etnia macua. Estes feitos são apontados como dos mais importantes operações militares no final da Monarquia constitucional.

O perigo das tropas alemãs em Moçambique, sobretudo as acções de Lettow-Vorbeck e do major Kraut, representaram um perigo para os interesses de Portugal em Moçambique. Estas acções militares ainda continuam relativamente pouco conhecidas e mal estudadas, pelo menos pela historiografia portuguesa. A sua acção, sobretudo na região do rio Rovuma, invadindo os territórios portugueses na colónia africana e, em poucos dias, entre finais de Abril e meados de Maio de 1917 fomentou a revolta dos Ajauas, que se aliaram aos alemães contra a presença portuguesa.

Após a missão em Moçambique regressou a Lisboa, onde assumiu as funções na 5ª Repartição da Direcção-Geral das Colónias, de onde partiu para Angola. Nesse território assumiu as funções de Governador-Geral entre 9 de Janeiro de 1916 e 11 de Janeiro de 1918. Segue depois para Moçambique, onde assume idênticas funções entre Fevereiro de 1918 e Abril de 1919. De regresso a Moçambique, foi pessoalmente, em 7 de Julho de 1918, ao porto de Quelimane, para receber as funções do coronel Sousa Rosa. Nesta expedição a Quelimane acompanharam-no três companhias indígenas e seis metralhadoras. Nessa altura terminam as operações militares das tropas portuguesas em Moçambique contra as tropas alemãs comandadas pelo general Lettow-Vorbeck. As tropas alemãs retiram embora ainda se assinalem algumas escaramuças ao longo do tempo.

Regressado a Portugal, assume as funções de Director Geral dos Serviços Militares do Ministério das Colónias.
Na sessão do Parlamento de 4 de Julho de 1924, no âmbito do projecto-lei nº 484, aprova-se a promoção a general, atendendo a uma serie de pressupostos que tinham sido cumpridos. A proposta tinha sido aprovada em reunião do Senado, em 23 de Julho de 1923, por proposta de Luís Augusto de Aragão e Brito. [Ver a informação detalhada sobre o processo AQUI .

Massano de Amorim assume as funções de governador dos territórios da Companhia de Moçambique, mas as funções não lhe agradam e acaba por ser exonerado do cargo. Em 16 de Junho de 1923 volta a ser nomeado Governador-Geral de Moçambique onde se mantém até 1925. Em 1925 foi nomeado Secretário-geral do Ministério das Colónias.  Segue depois para a Índia, onde desempenha funções de Governador-Geral da Índia, até que veio a falecer em a 31 de Maio de 1929, na cidade de Nova Goa, após demorada doença oncológica que lhe causou grande sofrimento.

No breve apontamento biográfico sobre Massano de Amorim na Revista Militar[1] destaca-se a sua ligação a Mouzinho de Albuquerque e as suas características “intrépido, leal, usando no convívio rude franqueza que, longe de ofender captava simpatias”. Além disso, apontava-se a sua coragem, energia, decisão e tenacidade.

O seu corpo foi trasladado de Goa para Lisboa no ano seguinte, ficando sepultado no cemitério do Alto de S. João em 28 de Janeiro de 1930.

Por sugestão da Sociedade de Geografia de Lisboa  foi o nome do General Massano de Amorim atribuído na Rua 1 à Travessa da Memória, também designada por Rua Projectada nº 1, através do Edital municipal de 28/10/1960, Freguesia da Ajuda, em Lisboa.

Um pequeno apontamento sobre o General Massano de Amorim pode ser consultado no Boletim Geral das Colónias AQUI.

Pedro Francisco Massano de Amorim deixou vários textos publicados, entre eles destacam-se:
- Relatório do governador, 1906-1907. Distrito de Moçambique, Lourenço Marques, Imprensa Nacional, 1908.
- A Occupação do districto de Moçambique, Bol. Da Soc. De Geografia de Lisboa, nº 5, 29ª s., Lisboa, Typ. Universal, 1911
- Relatório sobre a occupação de Angoche : operações de campanha e mais serviços realizados : anno de 1910Lourenço Marques, Imprensa Nacional1911.
- Notícia histórica sobre a região de Angoche1910.
- “Projecto das bases para a organização dos serviços e trabalhos agrícolas e para o desenvolvimento e fomento da agricultura da província de Moçambique”, Boletim da Agência Geral das Colónias, Nº 2 e nº 3, 1925.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA E RECOMENDADA:
- Abecassis, Fernando et. al., A Grande Guerra em Moçambique, [disponível online aqui: http://www.socgeografialisboa.pt/wp/wp-content/uploads/2017/09/A-Grande-Guerra-em-Mocambique-LIVRO.pdf ]
- ARQUIVO HISTÓRICO ULTRAMARINO, I GUERRA MUNDIAL, EXPEDIÇÕES MILITARES - ANGOLA E MOÇAMBIQUE Inventário Parcial [Disponível para consulta e onde se encontra o arquivo pessoal de Massano de Amorim aqui: http://actd.iict.pt/eserv/actd:AHUMUd002/AHU_MU_DGM_ExpedicoesMilitaresIGuerra.pdf ]
- Afonso, Aniceto, “Grande Guerra – A Campanha Portuguesa em África”, Actas do Colóquio Internacional A Grande Guerra – Um Século Depois, Academia Militar, Lisboa, 2015, pp. 153-161 [disponível online aqui: http://www.portugalgrandeguerra.defesa.pt/SiteCollectionDocuments/Noticia%20Atas%20Academia%20Militar/10_Aniceto%20Afonso.pdf ]
- Coutinho, João de Azevedo, As duas conquistas de Angoche, Col. Pelo Império, Lisboa, 11, 1935, p. 40-41.
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (Maldo-Mermit), vol. 16, Editorial Enciclopédia, Lisboa/Rio de Janeiro, S.d., p. 524-526.
- Freire, João, “Moçambique perante a hipótese de um ataque alemão”, A Grande Guerra (1914-1918): Problemáticas e Representações [disponível online aqui: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/14690.pdf ]
- Pelissier, René, História de Moçambique. Formação e Oposição, 2 vols., Histórias de Portugal, Editorial Estampa, Lisboa, 1994.
- Pires, António, A Grande Guerra em Moçambique, Porto, 1924.
- Sá, José do Espírito Santo de Almeida Correia (Marquês de Lavradio), Pedro Francisco Massano de Amorim, Col. Pelo Império, Lisboa, 1941.


[1] C.D., “Crónica Colonial”, Revista Militar, Lisboa, Janeiro-Fevereiro, nº1-2, Ano LXXXII, 1930, p. 88.


A.A.B.M.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

PEDRO FRANCISCO MASSANO DE AMORIM (Parte II)



João de Azevedo Coutinho, um conhecido político e administrador colonial português, considerava que Massano de Amorim tinha sido “o homem preciso”, “arrojado”, “de cujas qualidades de inteligência e inteligência estava bem seguro”, “destemido chefe, embora exigente” para dominar o Angoche, quando até ali ninguém ainda o havia conseguido [João de Azevedo Coutinho, As duas conquistas de Angoche, Col. Pelo Império, Lisboa, 11, 1935, p. 40-41]. Coutinho assume que Massano de Amorim teve papel de relevo na questão de Angoche, mas também contava com homens de valor a seu lado como Gomes da Costa, Augusto José da Cunha, Neutel de Abreu e Dâmaso Marques, entre outros [João de Azevedo Coutinho, idem, p. 44, nota 1]. A descrição de toda a acção de Massano de Amorim neste processo do Angoche ficou descrita no relato feito pelo próprio no Relatório sobre a ocupação de Angoche: operações de campanha e de mais trabalhos realizados: ano de 1910, mas também no pequeno opúsculo de João de Azevedo Coutinho acima citado.

Sobre a acção de Massano de Amorim durante a Grande Guerra, a força expedicionária partiu de Lisboa em 11 de Setembro de 1914 e desembarcou em Porto Amélia em 1 de Novembro desse ano. O grande problema com que se defrontaram foi a questão sanitária, que era extremamente deficiente, associando-se a isto uma alimentação de péssima qualidade e as condições de alojamento das tropas também eram paupérrimas. Este conjunto de situações conjugadas, fez com que um quinto da força militar chegada a Moçambique, ficasse fora de combate, mesmo antes de abandonar o local de chegada passado meio ano.

As instruções que recebeu de Lisboa indicavam que teria que desalojar os alemães da ilha de Quionga, onde se encontravam desde 1894. Esta ilha situava-se na foz do rio Rovuma, local onde as tropas portuguesas passaram grandes dificuldades. Para cumprir com as instruções recebidas, Massano de Amorim solicitou o reforço de tropas visto que tinha elevado número de baixas provocadas por doenças que debilitavam cada vez mais as tropas portuguesas.

Para tentar ultrapassar esta situação organiza-se então a segunda expedição, comandada pelo major Moura Mendes, que partiu de Lisboa em Outubro de 1915. Sobre as dificuldades sentidas pelas tropas portuguesas o fica o relato do Capitão António Pires, feito em 1924:

A Campanha da África Oriental Portuguesa, foi feita em condições que a tornaram única na história. A composição das tropas e seu equipamento e a natureza da colónia de Moçambique tudo se combinou para criar dificuldades sem precedentes. Pouca é conhecida até agora esta campanha a não ser meia dúzia de oficiais combatentes que todos os anos a têm comemorado. Pode dizer-se que a Campanha de Moçambique, de sofrimentos e resignações, de combates sangrentos em campo raso e guerra em movimento, ela não é conhecida para o grande público. Para França, foram os políticos, os escritores, os literatos e os militares conhecidos; para Moçambique, foram os que apenas eram militares ou soldados, e por isso a campanha, lá longe, lutando contra todos os inconvenientes possíveis e imaginários, combatendo-se em silêncio, e silenciosamente morrendo pela Pátria, é desconhecida.

Massano de Amorim cumpre as instruções recebidas, porém a chegada de um novo governador, Álvaro de Castro, vai alterar o posicionamento e as ordens seguiram numa nova direcção. Por outro lado, o contexto político em Portugal, com a revolta de Maio de 1915, altera as circunstâncias. Agora a questão não era somente reocupar Quionga, mas entrar deliberadamente em conflito com a Alemanha. O militar e colonialista português foi então enviado como governador de Angola em Janeiro de 1916.

Chegado ao território português na costa ocidental africana, em Abril de 1916, dirige-se a Luanda e depois para a região sul desse território, onde a ameaça alemã e os episódios bélicos já tinham começado. Novamente, as instruções passam por tentar evitar o confronto directo com os alemães, mas tentar proporcionar alguma abertura para facilitar a colonização europeia. No fundo, era um trabalho de continuidade já desencadeado anteriormente por outros governadores da colónia angolana.

Um ano depois da sua chegada eclode uma revolta das populações africanas na região de Angoche, estava em Maio de 1917. Este conflito era provocado pelas prepotências praticadas pelos colonos portugueses estabelecidos na região, entre elas o governador destacava: “a detenção dos indígenas, imposição do trabalho forçado fora dos termos legais, falta de pagamento de salários a par da desobediência à autoridade, do contrabando da pólvora e armas vendidas ao gentio”. Porque não havia tropas suficientes, o próprio governador dirige-se para a região revoltada onde chega em Setembro de 1917. Consegue congregar esforços e apoios no Bailundo o que lhe permite sufocar a revolta. Estabilizada a situação, consegue, um mês depois, obter autorização para partir para Portugal. Em Janeiro de 1918, Massano de Amorim foi demitido do seu cargo.


[Em Continuação]

A.A.B.M.

terça-feira, 3 de abril de 2018

PEDRO FRANCISCO MASSANO DE AMORIM (Parte I)


Nasceu em Fronteira, distrito de Portalegre, a 14 de Janeiro de 1862. Filho de Henrique Teles da Silva Amorim e de Ana Emília Massano da Silva Amorim.

Assentou praça em 5 de Março de 1878, como voluntário, no Regimento de Infantaria nº 16. Ascende a oficial do Exército, da arma de artilharia, tendo sido promovido a segundo tenente em 10 de Janeiro de 1883. Transferido para o Regimento de Artilharia nº3 e, após a conclusão do curso da arma de Artilharia, passou ao Regimento de Artilharia nº 2, em 26 de Novembro de 1884, ascendeu a tenente em 28 de Janeiro de 1885. Foi convidado para leccionar na Escola Regimental de Sargentos entre 1 de Março e 25 de Setembro de 1888. Assumiu depois as funções de Diretor da Escola Regimental de Cabos até 25 de Janeiro de 1892. Ascendeu a capitão em 18 de Outubro de 1894, tendo sido encaminhado para o Estado-Maior de Artilharia, transitando depois para o Regimento de Artilharia nº2 onde permaneceu até Outubro de 1896. Nesse ano ainda, passou para o Regimento de Artilharia nº 4, mas, em Novembro, foi requisitado pelo Ministério da Marinha e do Ultramar para a comissão de serviço em Moçambique. Vamos depois encontra-lo em Moçambique, em Abril do ano seguinte, mais propriamente como governador de Gaza. Acompanhando Mouzinho de Albuquerque na campanha que culminou na captura de Gungunhana e na pacificação de Moçambique.

Em Maio de 1897 era o comandante Militar de Tete, região onde fervilhava a revolta contra a presença portuguesa desde o período do Ultimato de 1890. Nessa altura assumiu também as funções de administrador do concelho e de juiz municipal. Nessa missão conseguiu vencer os Majanjas. Permaneceu nessa região até Dezembro de 1898 quando regressa a Portugal. Em 1899 encontramo-lo em Portugal, no Regimento de Artilharia nº5, tendo depois aceite nova comissão de serviço no mesmo ministério.

Em 1900 parte para Angola, desembarcando em Luanda em Março. Assume as funções de Residente da Circunscrição Administrativa de Santo António do Zaire. No ano seguinte foi nomeado para inspecionar o material de guerra da referida província. Em Novembro foi nomeado em comissão especial de serviço para a Colónia Penal Militar e Agrícola onde permanece até finais de Maio de 1902. Vem a Portugal durante cerca de um mês e regressa depois para Luanda. Nesse período foi nomeado para comandante da Coluna de Operações no Distrito de Benguela, onde permanece até Outubro. Participa, em 1902, na campanha do Bailundo, sendo comandante da Coluna Militar do Norte. Em Maio de 1903 regressa a Portugal onde ficou a prestar serviço na 3ª secção da 2ª Repartição da Direcção-Geral do Ultramar.

Regressa a Moçambique em 1906, tendo sido nomeado governador do distrito de Moçambique, cargo que desempenhou entre 7 de Maio e 13 de Outubro de 1910. Em Dezembro de 1910 ascende à patente de major, tendo entretanto regressado a Portugal. Entre 1908 e 1912 promoveu a campanha de pacificação do Angoche.

Em 1908, casou com Estela Henriqueta Maria Godinho Gomes da Costa e, deste casamento, resultaram cinco filhos.

Em Dezembro de 1912 ascende a tenente-coronel e em 22 de Agosto de 1914 foi nomeado Comandante do Destacamento Expedicionário a Moçambique, tendo passado, em Dezembro desse ano a coronel.

Quando assumiu o comando das forças portuguesas enviadas para Moçambique, parte em Setembro de 1914 e tinha como objectivos fundamentais da sua missão proteger a colónia portuguesa da África Oriental das pretensões germânicas, pacificar a região e cooperar com forças aliadas, particularmente os ingleses, se fosse caso disso.

Esta força expedicionária enviada a Moçambique foi preparada em Lisboa num período muito curto de tempo depois de se publicar o decreto de 18 de Agosto de 1914, onde se contemplava as regras de mobilização a utilizar; elas saíam de várias unidades de Infantaria, de Cavalaria, de Artilharia e dos Serviços de Saúde e de Administração Militar com sede em dispersas cidades do Centro e Norte do país. A força era composta por um Quartel-General, um Batalhão de Infantaria, num total de 1039 oficiais e praças; havia ainda uma Bateria de Artilharia de Montanha composta de 221 homens, 22 equinos e 82 muares. Um Esquadrão de Cavalaria com 189 homens e 169 equinos. Assim sendo, uma força combatente com cerca de 1533 homens. Além disso, eram ainda acompanhados por por 2 médicos e 2 enfermeiros, 15 homens da área de Engenharia, alguns condutores e viaturas, bem como pessoal civil como telegrafistas, sapadores-mineiros, entre outros.


[Em continuação.]

A.A.B.M.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

SUBSÍDIOS PARA UMA BIOBIBLIOGRAFIA SÃO-BRASENSE, POR JOSÉ DO CARMO CORREIA MARTINS

Quinta-feira, 20 de Julho de 2017, pelas 18.30h, no Salão Nobre da Câmara Municipal de S. Brás de Alportel, vai ser apresentada ao público a nova obra do Dr. José do Carmo Correia Martins, desta vez dedicada ao tema da biobibliografia sambrasense, tema ainda por desbravar e onde o autor, ao longo de três centenas de páginas vai dando a conhecer os autores, as obras que se referem à terra, imprensa que se publicou no concelho ao longo do tempo e apontamentos de nota sobre o património concelhio.

A obra intitulada Subsídios para uma Biobibliografia são-brasense vai ser apresentada pelo Prof. Doutor José d' Encarnação, 

Abaixo segue o convite para o evento: (Clicar na imagem para aumentar)
Porque o trabalho é sobre um tema aliciante, particularmente para os que como nós apreciam o livro e o seu conteúdo, saber mais sobre os autores, os livros e a imprensa de S. Brás de Alportel revela-se de primordial importância. Além disso, também por motivos de uma amizade e respeito, que se tem construído com o autor da obra, em torno destes temas e outros afins, assumimos com todo o prazer a divulgação deste evento e desejando-lhe o maior sucesso.

A divulgar.

A.A.B.M.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

ÍNDICE BIOBIBLIOGRÁFICO DE BOCAGE




LIVRO: Índice Biobibliográfico de Bocage. Colecções documentais da Casa Bocage, Biblioteca Pública, Museus e Arquivo Municipal de Setúbal;

Coordenação Geral: José Luís Catalão; Texto: Daniel Pires;
EDIÇÃO: Câmara Municipal de Setúbal, 2016, p. 151.

“Nunca é demais enaltecer a pertinência das bibliografias. A sua consulta constitui o primeiro patamar de uma investigação profícua; permite-nos, por outro lado, num curto espaço de tempo, encontrar pistas ou soluções para equacionar os assuntos que pesquisamos.

Encontra-se na Casa de Bocage uma preciosa colecção da qual constam obras e outros espécimes bibliográficos que se prendem com o poeta. Trata-se da bibliografia activa e passiva – ou seja, obras de e sobre Bocage – mais exaustiva até hoje reunida. Na verdade, é o corolário da convergência de múltiplas sinergias que, ao longo de décadas – mais concretamente desde que o edifício foi adquirido em 1888 por Edmond Bartissol –, se foram manifestando.

Um passo decisivo para a estruturação do presente acervo foi aquele que Fernando Elói do Amaral deu. Depois de organizar metodicamente uma exposição em Lisboa, na Cooperativa Ajudense, entre 11 e 18 de Setembro de 1965, no âmbito das comemorações do bicentenário do nascimento de Bocage, aquele ensaísta doou à edilidade setubalense um valioso espólio. Pertencera esse pecúlio a seu pai, João Elói Ferreira do Amaral, pintor e professor que nasceu em Setúbal (1839-1927) e que contribuiu para eternizar Bocage com um óleo e com a publicação de uma antologia poética. O respectivo protocolo foi assinado no início de 1967, de acordo com documentos que me foram gentilmente indicados pelas doutoras Maria da Conceição Heleno e Ana Catarina Stoyanoff.

Deste legado faziam parte as primeiras edições das célebres Rimas, os livros de fôlego de Bocage; alguns folhetos publicados em vida do escritor, de extrema raridade; as suas não menos incomuns traduções, feitas a partir do francês e do latim; uma panóplia de obras póstumas, entre as quais poderíamos destacar as Poesias de Manuel Maria de Barbosa du Bocage, da responsabilidade do conceituado bibliógrafo Inocêncio Francisco da Silva – um marco relevante, pois pela primeira vez foi publicada, corria o ano de1853, em seis tomos, a obra completa do bardo sadino.

A colecção não se limitava à bibliografia activa de Bocage: a passiva estava igualmente bem representada. Referimo-nos às obras de carácter biográfico, à iconografia relativa ao poeta e à época, aos poemas manuscritos e a outros textos tecidos sobre o escritor.

O acervo, entretanto, foi crescendo, porquanto recebeu os contributos de coleccionadores bem como de autores, compositores e de artistas plásticos que tiveram Bocage como fonte inspiradora – por exemplo, Rogério Chora, Júlio Pomar, Romeu Correia e Frederico Brito.

Ênfase igualmente para a colecção depositada na Biblioteca Municipal de Setúbal, da qual constam periódicos que dedicaram a Bocage particular atenção, entre outros, O Elmano, A Voz do Progresso, Germinal e A Nossa Homenagem, tendo sido este dinamizado por Ana de Castro Osório e por Paulino de Oliveira. Do acervo faz ainda parte a obra de Bocage mais invulgar, porquanto é particularmente ambicionada pelos coleccionadores e terá tido uma tiragem reduzida: Elogio Poético à Admirável In­trepidez com que em domingo 24 de Agosto de 1794 subiu em balão aerostático o Capitão Vincenzo Lunardi.
 
 
Este levantamento bibliográfico não se circunscreve aos acervos da Casa de Bocage e da Biblioteca Municipal de Setúbal: conta igualmente com os espécimes existentes no Museu de Setúbal / Convento de Jesus, no Museu do Trabalho Michel Giacometti e no Arquivo Municipal. No primeiro, encontra-se o espólio do Manuel Maria Portela, dinamizador da inauguração da estátua de Bocage e da comemoração do centenário do seu falecimento, respectivamente nos anos de 1871 e de 1905.

A presente bibliografia é, deste modo, fulcral para o aprofundamento do conhecimento da poesia e da biografia de uma personalidade ímpar da literatura portuguesa; contribui para a compreensão do século XVIII e sugere, por outro lado, a necessidade de se fazer da Casa de Bocage um pólo irradiador da investigação sobre o poeta e a sua época”

[Daniel Pires, in Bibliografia de Bocage, pp 3-4]

J.M.M.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

HERNÂNI CIDADE (Parte II)

(Hernâni Cidade, fotografia publicada por Jaime Cortesão, Memórias da Grande Guerra, Renascença Portuguesa, Porto, 1919)

Segundo o processo militar de Hernâni Cidade, ele partiu de Lisboa em 17 de Abril de 1917, integrado no Regimento de Infantaria nº 35, 2ª companhia.

Em 11 de Agosto de 1917 foi louvado pela ordem de serviço pela muita coragem demonstrada na noite de 12 de Julho, quando comandou uma patrulha de reconhecimento para que se tinha oferecido voluntariamente, tendo conseguido obter informações acerca das linhas inimigas. No dia seguinte, voltou a fazer nova patrulha de reconhecimento, tendo demonstrado “muita coragem, audácia e sangue frio”. Louvado pela “bravura e abnegação, com que socorreu debaixo de fogo de bombardeamento um praça do Batalhão de Infantaria nº 7”, por Ordem do Exército de 9 de Agosto de 1917. Foi debaixo de fogo à terra de ninguém buscar um soldado alemão ferido que, como forma de agradecimento, lhe ofereceu o cinturão e o sabre, que Hernâni Cidade conservou cuidadosamente em sua casa durante o resto da vida.

Foi condecorado com a Cruz de Guerra, de terceira classe, em 5 de Novembro desse ano, publicado na Ordem do Exército (2ª série) de 15 desse mês. Foi colocado como comandante do batalhão de metralhadoras ligeiras em 18 de Setembro. Obteve licença de campanha por 53 dias desde 26 de Janeiro de 1918, apresentou-se a 20 de Março. Desapareceu a 9 de Abril de 1918, durante a Batalha de La Lys. Feito prisioneiro pelos alemães, foi enviado para Strasburg e mais tarde para Bressen-Port-Roggendorf-Nechlemburg, tendo ficado prisioneiro por 9 meses. Durante esse período aprofundou o seu conhecimento da língua e da cultura alemã, além disso organizou aos domingos conferências sobre Literatura Portuguesa. A primeira, terá sido foi subordinada a “Camões, Poeta Europeu” a que se seguiram outras dentro do mesmo âmbito temático. Foi esta iniciativa que terá suscitado em Hernâni Cidade o desejo por seguir uma carreira académica. Foi presente ao Quartel-General em 27 de Janeiro de 1919, vindo do Paiol do Exército. Em 1 de Fevereiro de 1919 seguiu para Portugal, por via terrestre, e foi abatido ao serviço em 8 desse mês. Ascendeu à patente de tenente em 31 de Março de 1919, por Ordem do Exército nº 10.

Nesse ano de 1919 inicia a sua actividade como docente, por convite, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, dirigida por Leonardo Coimbra e onde se manteve até 1930. Iniciou a carreira como professor contratado do 2º Grupo (Filologia Românica), tendo cumprido dois anos nesta categoria. Conseguiu depois a nomeação para professor ordinário. Regeu as cadeiras de Língua e Literatura Portuguesa, Língua e Literatura Francesa, Gramática Comparada das Línguas Românicas, Filologia Portuguesa, Filologia Portuguesa, História da Literatura Italiana e História da Literatura Portuguesa.

Casa em 1 de Julho de 1920, no Porto, com Aida Feio de Oliveira Tâmega, filha de Manuel José de Oliveira Tâmega e de Carolina Gomes de Oliveira Tâmega, natural da freguesia do Bonfim, na cidade invicta.

Obteve o grau de Doutor em Letras, na área de Filologia Românica, em 19 de Abril de 1926.

 Após o anúncio oficial de extinção da Faculdade de Letras do Porto, pelo Decreto n.º 15 365, de 12 de Abril de 1928, e durante o período que antecedeu o seu encerramento efectivo, em 1931, leccionou no Liceu Rodrigues de Freitas, também no Porto. Neste mesmo ano, transitou para os quadros da Faculdade de Letras de Lisboa, após aprovação em concurso público com a dissertação "Obra poética de José Anastácio da Cunha".

Participou em alguns movimentos de oposição ao regime até meados da década de 1930, mas viu-se obrigado a abandoná-los depois de ter sido ameaçado de expulsão da Universidade de Lisboa. Apesar de a oposição ao Estado Novo o reconhecer como republicano, convidando-o em momentos simbólicos a estar presente, Hernâni Cidade procurou manter-se afastado da vida política activa com receio das consequências.

Dirige, entre 1934 e 1935, o Diário Liberal, juntamente com Joaquim de Carvalho e Mário de Azevedo Gomes.

[Em continuação]
A.A.B.M.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

HERNANI CIDADE


Assinalou-se no passado domingo, 7 de Fevereiro, o aniversário de nascimento de uma das figuras de destaque da cultura portuguesa: Hernâni António Cidade. Apesar de ser sobretudo conhecido como historiador da cultura e da Língua Portuguesa, Hernâni Cidade foi também uma personalidade que combateu na Grande Guerra que agora se assinala o centenário e que temos vindo a recordar neste espaço.

Professor, ensaísta, historiador e crítico literário português, nasceu na vila de Redondo, a 7 de Fevereiro de 1887, filho de António Bernardino Cidade, abegão de profissão, e de Genoveva da Purificação Madeira, moradores no Outeiro de São Pedro. Na nota biográfica de Helena Cidade Moura [filha de Hernâni Cidade] no Dicionário de História do Estado Novo, Dir. Fernando Rosas e José Maria Brandão de Brito vol. I, p. 145-146, recordava-se que o pai de Hernâni Cidade costumava cantar e recitar poemas de Augusto Gil, Guerra Junqueiro, António Nobre e outros poetas da viragem do século. Estudou no seminário de Évora, por falta de condições económicas da família, onde se destacou como aluno brilhante. Em 7 de Fevereiro de 1907, solicitou para se habilitar “de genere”, para ser promovido a prima tonsura e quatro graus de ordens menores. Conseguiu a classificação de Bom nos parâmetros de comportamento religioso, moral e civil, depois de ter examinado e praticado os exercícios espirituais foi considerado apto para promoção em 24 de Maio de 1907.

No entanto, durante este percurso começou a descobrir novos interesses e acabou por recusar a oportunidade para prosseguir estudos superiores na Universidade Gregoriana de Roma. Entre esses novos interesses, sobretudo literários, conheceu as obras de Bakunine, Karl Marx, Friedrich Engels, Johan Heinrich Pestolazzi, Máximo Gorki, entre outros que lhe provocaram um crescente agnosticismo mas, em simultâneo, um sentimento de gratidão ao seminário que lhe tinha proporcionado o acesso ao estudo. Perante este dilema pessoal, Hernâni Cidade expôs a sua situação ao arcebispo da época, D. José Eduardo Nunes, mostrando a sua vontade em estudar na Universidade mas seguindo a vida laica. Frequentou então o Curso Superior de Letras, em Lisboa, tendo trabalhado como explicador particular e no Colégio Caliponense. Conseguiu concluir o seu curso com distinção e obter habilitação para leccionar no Magistério Secundário. Começou a trabalhar como professor supranumerário no Liceu Passos Manuel, em Lisboa.

Colocado como efectivo no Liceu de Leiria em 9 de Novembro de 1914. Nessa cidade ensina língua e literatura portuguesa até 1916, quando partiu mobilizado para combater na Grande Guerra, em França. Durante a sua estadia em Leiria envolveu-se na vida cultural da cidade, escreveu uma peça de teatro, A Zara, cuja representação serviu para angariar fundos e reconstruir o castelo da cidade.

Mobilizado para o Corpo Expedicionário Português em 26 de Outubro de 1916, foi enviado como comandante de pelotão no Regimento de Infantaria nº 35, onde desempenhou também papel de relevo de que daremos conta proximamente e de forma detalhada.

[Em continuação.]
A.A.B.M. 

domingo, 10 de janeiro de 2016

SEBASTIÃO JOAQUIM BAÇAM (Parte II)


Sebastião Joaquim Baçam que nasceu em Pinheiro de Loures, foi um cidadão com actividade política ligada aos republicanos. Nos anos setenta do século XIX pertenceu ao Partido Republicano, participando nas reuniões do partido no Páteo do Salema, conforme recordam os artigos que esboçam alguns traços biográficos do autor. Além disso também uma carta por ele enviada a Bernardino Machado em 1917, e que o Dr. Manuel Sá Marques nos fez chegar, referia-se ao seu percurso como republicano desde o tempo de “ José Elias, Sousa Brandão, Bernardino Pinheiro e de outros não menos notáveis vultos que me honraram com a sua amizade”.

Estudou também na Casa Pia de Lisboa. Trabalhou como tipógrafo, mas foi sobretudo jornalista conforme já dissemos anteriormente.

Sebastião Joaquim Baçam faleceu em Lisboa na sua residência na estrada de Sacavém 130, em 27 de Dezembro de 1921. No seu funeral estiveram representados o Centro Republicano Afonso Costa, a comissão política do PRP de Arroios e a Junta de Paróquia. Junto ao túmulo, no cemitério oriental de Lisboa, falaram Fernão Pires, Costa Alcântara. Dirigiu o acto fúnebre o sr. João Pedro de Oliveira.

Deixou publicados dois opúsculos

- Monumentos Sacros de Lisboa e outras curiosidades, pref. De Zeferino de Albuquerque, Imp. Comercial, Lisboa, 1900, 96 p.
- Alguns Apontamentos ao Correr do Lápis, Évora,
- A Vila de Estremoz, Typ. Minerva de Adriano Mota, Estremoz, 1913.

Publicou:
 
- “A Vida” (Poema), Ilustração Popular, Lisboa, 25-02-1866, Ano I, Nº 7, p. 1;
- “Meditação”, Ilustração Popular, Lisboa, 11-03-1866, Ano I, Nº 9, p. 5;
- “Portugal” (Poema), Ilustração Popular, Lisboa, 22-04-1866, Ano I, nº 14, p. 5;
- “Progresso e Desordem”, Aurora do Lima, 21-12-1866;
- O Vulcão, Lisboa, 1880;
- Xavier de Paiva, Lisboa, 1882;
- “Ossónoba”, Districto de Faro, Faro, Ano 37, 1912, nº 1887, p. 1;
- “Faro – A Cidade de Faro”, Districto de Faro, Faro, Ano 37, 1912, nº 1888, p. 1;
- “Faro – Estoy”, Districto de Faro, Faro, Ano 37, 1912, nº 1891, p. 1;
- “A Igreja de S. Martinho de Estoy”, Districto de Faro, Faro, Ano 37, 1912, nº 1994, p. 1;
- “Santa Bárbara de Nexe”, Districto de Faro, Faro, Ano 37, 1912, nº 1897, p. 2;
- “São Braz de Alportel”, Districto de Faro, Faro, Ano 37, 1912, nº 1898, p. 1-2;
- “São Braz de Alportel”, Districto de Faro, Faro, Ano 37, 1912, nº 1899, p. 1;
- “A Cidade de Silves”, Alma Algarvia, Silves, Ano IV, 1914, nº 179, p. 2;
- “A Cidade de Tavira”, O Algarve, Faro, Ano 6, nº 303, p. 3;
- “A Cidade de Tavira”, O Algarve, Faro, Ano 6, nº 304, p. 2;
- “Ossónoba”, O Algarve, Faro, Ano 6, nº 310, p. 2;
- “Estoy”, O Algarve, Faro, Ano 7, nº 312, p. 1;
- “Estoy”, O Algarve, Faro, Ano 7, nº 317, p. 2;
- “A Cidade de Faro”, O Algarve, Faro, Ano 7, nº 322, p. 2.

Bibliografia Consultada:
 
- Casa Comum – Carta de Sebastião Joaquim Baçam a Bernardino Machado [http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=06727.268#!3]
  - “Lutuosa – Sebastião Joaquim Baçam”, O Mundo, Lisboa, 28-12-1921, Ano XXII, nº 7292, p. 2, col. 4;
- “Necrologia – Sebastião Joaquim Baçam”, O Século, Lisboa, 29-12-1921, Ano 41, nº 14 326, p. 5, col. 7;
- “Falecimentos – Sebastião Joaquim Baçam”, Diário de Notícias, Lisboa, 28-12-1921, Ano 57, nº 20097, p. 3, col. 3.
- GOMES, Mário Varela; GOMES, Rosa Varela, Levantamento Arqueológico-Bibliográfico do Algarve, Delegação Regional do Sul da Secretaria de Estado da Cultura, Faro, 1988, p. 121.
- FRANCO, Mário Lyster, Algarviana, Câmara Municipal de Faro, Faro, 1982, p.

- NETO, José Luís, A idade do ouro branco - ocontrubuto da arqueología pós-medieval para o conhecimento de Setúbal, uma cidade portuária portuguesa [Dissertação de Doutoramento], Universidade de Salamanca, 2010.


Vera Cruz, S. Paulo, 12-09-1906, Ano III, nº 15,

A.A.B.M.