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domingo, 20 de outubro de 2019

CATALUNHA – POR FERNANDO PESSOA


CATALUNHA – Por Fernando Pessoa

"Dos problemas que hoje agitam e perturbam a indisciplinada vida da Europa, o problema do separatismo catalão é talvez o que mais flagrantemente foca o conflito fundamental que se trava hoje no mundo, e, portanto, aquele que mais curiosos ensinamentos contém.

No pleito, que o Destino faz que se digladie entre a Espanha e a Catalunha, há o facto essencial de todos os dramas. Como em todos os dramas, um momento criado pelo Destino, mas segundo inevitáveis resultados de um passado surdamente se acumulou, faz entrar em conflito forças e ideias que é absurdo que entrem em conflito, que é doloroso que se encontrem em guerra Como em todos os dramas, não há solução satisfatória para problema, porque a única arbitragem certa, e por isso injusta, é a do Destino. E como em todos os dramas, ambas as partes têm igual razão.
 
O conflito entre a Catalunha e a Espanha é o conflito entre o conceito nacional de país, e o conceito civilizacional de país. Um conceito é geográfico, supõe-se ser étnico, e afirma-se como linguístico. O outro conceito é histórico, supõe-se ser imperialista e afirma-se como cultural.

Do ponto de vista nacional, e exclusivamente nacional, a Catalunha é uma nação, um país, com índole própria, tendências especiais, com um idioma à parte, que as define, e uma aspiração, que as deseja.

Não é uma pseudo-nação como, por exemplo, a Bélgica ou a Suíça, a que falta, logo de princípio, a base linguística para mostrar ao mundo que tem personalidade. Não é uma nação artificial, como os Estados Unidos da América, onde a unidade linguística não exprime mais que uma tradição de colonização, sem bases em uma cultura própria, nem psique nacional a que corresponda. Não é uma nação morta, como a Irlanda, em que a [...]

Não é uma região espiritualmente conquistada, como as províncias da Alsácia e Lorena, originalmente germânicas, e que Luís XIV roubou à Alemanha, que Bismarck depois (de modo territorialmente legítimo) reaveu para a Pátria, e que hoje [1918] passam outra vez para as mãos do usurpador que as conquistara espiritualmente […]

A Catalunha está para a Espanha exactamente como a Provença para a França. Em ambos os casos a nação cultural se sobrepôs às nações naturais.

Quem da posteridade saberá, salvo só por sabê-lo, que houve catalão, que houve provençal, ou, mesmo, que houve holandês ou qualquer das línguas escandinavas? Ninguém. Só as línguas imperiais sobrevivem. Só as línguas dos povos que criam império têm direito ao futuro, e, portanto, ao presente nacional. Nós portugueses, somos um povo pequeno, mas somos um povo imperial, cuja língua alastrou por sobre o mundo, que criámos civilização, e não simplesmente a vivemos.

Por que razão deve Catalunha viver subordinada a Castela? Pela razão de que [...]

Ingleses, franceses, italianos, alemães, espanhóis, portugueses — todos criámos civilização, os outros viveram a civilização que qualquer de nós criou. A maior conquista que os impérios fazem é a conquista da posteridade. A conquista da posteridade, a língua imperial a grava nos muros da eternidade, a latteras [sic] de fogo. A Holanda quase que criou civilização mas a sua obra histórica, de relevo comercial e não cultural, não teve força para subsistir culturalmente. É como se não houvesse existido. Só os Boers, na extrema África, a registam. São óptimos lavradores e lêm a Bíblia todos os domingos. Vivi e sei, infelizmente […]

A Catalunha, porém, só tem que escolher entre as desvantagens menores da sua integração, como até aqui em Espanha, embora, porventura, com outras regalias, e as desvantagens maiores da sua independência absoluta. Ninguém na Ibéria lhe dá licença que escolha a terceira, a ignóbil hipótese, que seria a união com a França, a que parece secretamente visar parte da tendência catalanista"

[Fernando Pessoa, in Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, Lisboa, Ática, pp. 183-187 - sublinhados nossos]
 
J.M.M.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

ALMADA NEGREIROS, IDENTIFICAÇÃO COM LISBOA


“Almada Negreiros, Identificação com Lisboa” – por António Valdemar, in Tempo Livre, Setembro-Outubro 2018

A relação com a cidade que lhe abriu o caminho para a arte, a literatura e outras formas de intervenção que que também lhe consagrou a memória.   
A diversidade de percursos de Almada Negreiros, o artista plástico, o poeta, o romancista, o novelista, o dramaturgo e o panfletário tem uma relação de diálogo com Lisboa. Foi tão íntima essa relação física e cultural que se poderia dizer que Lisboa era a sua casa. O tempo de Almada Negreiros em Paris foi rápido e disperso. Já o tempo de Madrid foi mais demorado e teve consequências decisivas na sua obra. Uma das mais relevantes terá sido o contato direto e profissional com a arquitetura permitindo–lhe, no regresso a Portugal, integrar–se nas equipas que realizaram grandes edifícios e incluíram trabalhos de Almada com dimensões assinaláveis.

O Chiado, com a sua vida cultural e social, ficou associado aos primeiros e mais incendiários anos da afirmação de Almada Negreiros. Apresentou–se, em 1912, no Iº Salão dos Humoristas, que decorreu no Grémio Literário. E quando não é no Chiado é nas suas fronteiras que o deparamos nos momentos mais exuberantes e mais provocatórios. Realizou, a primeira exposição individual, em 1913, na Escola Internacional, na rua da Emenda. A Ilustração Portuguesa referiu a exposição, reproduziu alguns desenhos, publicou a fotografia de Almada.
Entretanto, Fernando Pessoa escreveu sobre Almada: «Eu creio que ele tem talento. Basta reparar que ao sorriso do seu lápis, se liga o polimorfismo da sua arte para voltarmos as costas a conceder – lhe inteligência absoluta.» Começou a visibilidade pública de Almada. Mas começou, sobretudo, o convívio e cumplicidade com Pessoa. Abria – se o caminho para o Orpheu.


Almada viveu, escreveu, desenhou, pintou, na rua do Alecrim, uma das fronteiras do Chiado. Em 1915, o ano do Orpheu, tinha 22 anos. A colaboração no Orpheu, limitou-se a pequenos textos com o título genérico Frisos e que se podem inserir na área moderada do primeiro número daquela revista. As garras e as asas de Almada vão evidenciar-se no Manifesto Anti Dantas, na Cena do Ódio e na Engomadeira. O Manifesto Anti Dantas  tornou-se a ofensiva mais feroz contra Júlio Dantas figura do maior destaque na literatura, no teatro e na política, ao mesmo tempo que arrasou outras personalidades e atingiu as instituições mais conceituadas.

A renovação da língua portuguesa ocorreu com a Ode Triunfal e a Ode Marítima de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos e com a Cena do Ódio de Almada Negreiros que  está em paralelo com a desconstrução criativa e o furor épico de Álvaro de Campos e a Engomadeira, também  de Almada Negreiros.
Modelo da escrita e da inovação narrativa a Engomadeira assinala um outro ciclo perante a língua e o imaginário de Eça de Queiroz, que já se demarcara de Camilo e de Herculano. E o episódio da chave antecipou o surrealismo. Em França e em Portugal. A rutura com a escrita tradicional vai prosseguir no romance Nome de Guerra, a principal obra de ficção de Almada que também denuncia os comportamentos institucionalizados. «Temos sempre – adverte – de perder o nosso tempo em desfazer o bem que os outros fizeram por nós»


Em 14 de Abril de 1917, Almada apresentou no São Luís (antigo Teatro República) O Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX, uma explosão de energia para romper a indiferença e sacudir a rotina. Também, em 1917, em Novembro participou na revista Portugal Futurista, outro marco fundamental que reúne a colaboração de Robert e Sónia Delaunay, de Marinetti, de Apollinaire, de Blaise Cendras e de outras personalidades do futurismo internacional. Publica os manifestos futuristas de Almada e Álvaro de Campos.

Um dos focos da polémica introduzida pelo Portugal Futurista é o texto de Almada Negreiros Saltimbancos - «contrastes simultâneos”, de cunho intersecionista, e que desencadeou escândalo ao pormenorizar: «soldados em exercício na parada do quartel, garanhões militares em ato de cobrição de éguas, paisagem rural e paisagem de circo». Portugal participava na guerra e esta alusão direta ao que se verificava com as atividades do Corpo Expedicionário português levou a polícia a apreender o primeiro e único número do Portugal Futurista.
Um mês depois, Diaguilev e companhia dos Bailados Russos ao chegarem a Lisboa são apanhados de surpresa com a revolução de Sidónio Pais. Apesar disso realizam dois memoráveis espetáculos, no Teatro de São Carlos e no Coliseu de Lisboa. Em Abril de 1918, Almada Negreiros fez a coreografia e desenhou os figurinos do bailado A Princesa dos Sapatos de Ferro. Pisou o palco e dançou os papéis da Bruxa e do Diabo.

Vai ser ainda no Largo do Calhariz, outra fronteira do Chiado, que Almada proferiu na Liga Naval, em Maio de 1921, a conferência A Invenção do Dia Claro, um ano depois publicada em livro com a chancela da Olisipo, uma das aventuras editoriais de Fernando Pessoa. Estabeleceu o reencontro da poesia com o desenho e a pintura; aprofundou a reflexão sobre a linguagem e através dela sobre a condição humana.
Outra proclamação futurista de Almada Negreiros verificou – se no Chiado Terrasse, a 18 de Dezembro de 1921, no Comício dos Novos. Presidiu Gualdino Gomes e, entre a assistência perplexa, via–se a Preta Fernanda, dona da mais famosa casa de prostituição. Foi um dos escolhidos para decorar a Brasileira do Chiado que, juntamente com o Bristol Club, promoveu em espaços públicos a consagração da arte moderna.

Expôs, ao regressar de Espanha, nos anos 30, na UP, uma galeria na rua Serpa Pinto, dirigida por António Pedro, onde Vieira da Silva apresentou os primeiros trabalhos. A editorial Ática, fundada por Luís de Montalvor, um dos participantes do Orpheu – e autor do título da revista – teve a primeira sede na esquina da rua do Carmo, com a rua Garrett. Ao lançar, a partir de 1942, a obra ortónima e heterónima de Fernando Pessoa, Montalvor colocou na capa de cada volume um desenho de Almada, um Pégaso, símbolo mitológico e vivo da poesia em movimento. A amizade com Fernando Amado incorporou-o na história do Centro Nacional de Cultura ao debater, em 1946, a «posição do artista na sociedade».

O vínculo de Almada a Lisboa decorreu nos seus cafés, nos seus teatros, nos seus clubes, nas suas livrarias, nos seus museus, nas suas galerias e nas suas próprias esquinas. Sem procurar fazer um levantamento exaustivo acrescento que residiu mais de 30 anos no Rato. Morava na rua S. Filipe Nery e tinha atelier na rua Rodrigo da Fonseca.
Está representado nos mais diversos bairros e, em muitos deles, em contacto diário com a população e com todos os que chegam a Lisboa. Retratado por Júlio Pomar e por António, em duas estações do Metro. Pinturas e desenhos de Almada, transpostas para azulejo, revestem outra estação do Metro.

No Porto de Lisboa, as duas gares marítimas, a de Alcântara e a da Rocha de Conde de Óbitos, têm frescos de Almada, com alusões ao Tejo, á expansão marítima, á história de Lisboa, a motivos e figuras celebrados por Cesário Verde, o poeta da cidade e um dos mestres da geração de Orpheu, em especial Fernando Pessoa e Almada Negreiros
 
Na Avenida da Liberdade, na antiga sede do Diário de Notícias, o primeiro edifício construído de raiz, em Portugal, para a instalar um jornal e todos os seus departamentos ficou com a marca de Almada: na fachada e nos frescos do grande átrio e, ainda no rés-do-chão, no espaço de acesso á redação e administração. Próximo no Hotel Ritz, três grandes tapeçarias, com recriações co Centauro, ocupam parte do salão principal.
Nas Avenidas Novas, a igreja de Fátima, o primeiro edifício de arquitetura moderna na arte religiosa, ficou com vitrais de Almada Negreiros. Perto, a Fundação Gulbenkian tem logo no átrio o painel Começar, a síntese do encontro de Almada com a geometria. No Campo Grande, na cidade universitária preencheu, com a representação de figuras tutelares as fachadas da Reitoria, da Faculdade de Direito e da Faculdade de Letras. Nesta última destacam - se Fernando Pessoa e os heterónimos Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis. Ainda não ganhara dimensão nacional e internacional Bernardo Soares. Apenas se conheciam fragmentos do Livro do Desassossego.


A memória de Almada Negreiros perdura nos Museus e em grandes edifícios públicos que marcaram a transformação e expansão da cidade, num diálogo com as vanguardas europeias. Deu o nome a uma rua, em Olivais Sul; e a uma escola, na Charneca do Lumiar, na Urbanização Alta de Lisboa. Está consagrado num monumento (na entrada ou saída do viaduto Duarte Pacheco) e noutro monumento, na avenida Ribeira das Naus, junto ao Tejo, uma estrutura de ferro que incorpora o autorretrato de 1949.

Para Almada, Lisboa constituiu a arena dos grandes combates, uma das linhas de intervenção do grupo e da geração de Orpheu, num momento histórico da cultura portuguesa. Lisboa foi a casa de Almada, onde cabia a ambição de atingir o mundo.
Almada Negreiros, Identificação com Lisboa – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], Tempo Livre, Setembro-Outubro 2018, p. 8 – com sublinhados nossos.
 
António Valdemar
J.M.M.

domingo, 23 de setembro de 2018

FERNANDO PESSOA, UM RETRATO FORA DA ARCA



Da Resistência a Fernando Pessoa” – por António Valdemar, in Caderno E, Expresso
Motivos literários, políticos e religiosos ajudam a explicar a lenta, polémica e difícil compreensão do poeta

"Fernando Pessoa, Um Retrato Fora da Arca”, por Zetho Cunha Gonçalves, integra mais de 400 páginas com artigos e depoimentos repartidos em quatro núcleos temáticos: a homenagem da revista “Presença” em 1936, os próximos do seu convívio, o presente da amizade retribuído e as vozes da intimidade comunicantes. Pretende ser “a mais alentada recolha de textos alguma vez dada a público, não só de Fernando Pessoa sobre os seus pares mais próximos, como também, sobretudo daqueles com que eles mais intimamente conviveram humana e literariamente”. É um contributo, sem dúvida, mas não se poderá considerar exaustivo.
A recuperação de textos dispersos principiou com as “Páginas de Doutrina Estética”, coligidas por Jorge de Sena, em 1946, e insere-se, a partir de 1942, no âmbito das obras completas editadas pela Editorial Ática, de Luís de Montalvor. Disponibilizou elementos fundamentais para elaborar as primeiras biografias e estudos críticos. Assinala os primórdios da divulgação ainda muito contestada da produção ortónima e heterónima de Fernando Pessoa.

A escolha para “Um Retrato Fora da Arca” dos dois artigos de Alfredo Guisado no semanário “O Diabo”, de 1935 e de 1936, escritos sob o impacto da morte de Pessoa, e devido a muitos disparates nos jornais e de lamentáveis omissões, merece, todavia, ser completada com a entrevista que Alfredo Guisado concedeu à revista “Autores”, (número 10, de 1960) e que, embora não assinada, é da autoria do diretor e único redator Luís de Oliveira Guimarães.
Ainda sobre Alfredo Guisado aguarda-se, há muito, a colheita e a seleção de centenas de artigos e crónicas acerca do grupo e da geração do Orpheu, no jornal “República”, do qual foi um dos diretores de fins dos anos 40 a fins dos anos 60. Traçou perfis de amigos e companheiros, descreveu episódios desconhecidos, envolveu-se em guerrilhas com Gaspar Simões e Casais Monteiro.
 
 

ERROS CRASSOS
A polémica desencadeada, em 1950, por Gaspar Simões, nos dois tomos de “Vida e Obra de Fernando Pessoa” motivou a crítica pertinente de Augusto Ferreira Gomes, em entrevista de que lemos, agora, alguns excertos reveladores. Todavia, o ataque mais documentado e profundo depara-se em “Fernando Pessoa — Notas a uma Biografia Romanceada”, por Eduardo Freitas da Costa. Pertencia à família, convivera de perto com Pessoa, nos últimos anos. Estava habilitado para rebater opiniões, apontar lacunas e denunciar erros, alguns deles crassos. Por ser um adversário político confesso, João Gaspar Simões recusou-se a proceder às retificações que se impunham em edições posteriores.

A propósito de erros crassos existem outros nas “Páginas Íntimas e de Autointerpretação”, organizadas por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho. São, por exemplo, detetáveis na identificação de Esther Duval, que era a atriz Esther Leão, ou acerca de Carlos Corado, como mais um possível heterónimo de Pessoa. Tratava-se, afinal, de Carlos Celestino Corado, grande contador de histórias de bastidores políticos e culturais, colega de Pessoa no Curso Superior de Letras, bibliotecário do Palácio de São Bento e do “Jornal do Comércio”. Retificou o equívoco Hernâni Cidade, num artigo publicado n’ “O Primeiro de Janeiro”.
AS RESTRIÇÕES DA IGREJA

A igreja católica, durante décadas, formulava as maiores restrições a Fernando Pessoa, enquanto glorificava Mário Beirão, autor do hino da Mocidade Portuguesa e, sobretudo, António Correia de Oliveira, a proposta sempre na manga para um candidato português ao Nobel da Literatura. Uma das vozes mais influentes da igreja, o padre Moreira das Neves, consultor da nunciatura e do episcopado, biógrafo encartado do cardeal Cerejeira, chefe de redação do jornal “Novidades”, órgão diário do episcopado até ao 25 de Abril, depôs no inquérito do semanário “Acção”, mas não foi selecionado para “Um Retrato Fora da Arca”.
Não seria despiciendo divulgar o que, então, disse Moreira das Neves. Reconhecia Fernando Pessoa “um dos poetas mais densos da literatura portuguesa” e, logo a seguir, afirmava perentoriamente: “Crivado de enigmas e com sede de luz, debateu-se entre Deus e o poder das trevas. Daí o hermetismo de muitos dos seus versos e o pendor profético de tantos outros. Lastimo todos os erros que Fernando Pessoa não soube evitar.”

Afonso Lopes Vieira, um dos denominados “mestres da portugalidade”, autor do Avé de Fátima e da Oratória de Fátima musicada, em 1932, por Ruy Coelho, no inquérito da “Acção”, sobre Fernando Pessoa foi categórico: “Quanto à sua vasta obra poética, pelo que conheço, encontro um exoterismo (sic) ou cabalismo que sinto pouco e entendo mal.”
FRASEOLOGIA UNIVERSITÁRIA
Catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, até ao fim dos anos 50, fundador e diretor da revista “Colóquio”, até 1975, Hernâni Cidade, colega de Pessoa no Curso Superior de Letras — em texto agora não recuperado do inquérito da “Acção” — ao pronunciar-se acerca de Fernando Pessoa considerava que a sua poesia “procura, acima de tudo intuir os frémitos desconexos, os nevoentos emaranhamentos do mundo interior, em sua atividade subconsciente pré-lógica”.

Esta fraseologia que sempre foi peculiar a Hernâni Cidade, seja a escrever ou a falar sobre Camões, Vieira e outros poetas e escritores clássicos ou contemporâneos, marcou sucessivas gerações de alunos.
A opinião que predominava na Faculdade de Letras de Lisboa, foi alterada por Vitorino Nemésio, catedrático de Literatura Portuguesa Contemporânea. Não sendo um pessoano militante, incitou Jacinto do Prado Coelho a não continuar com a novela camiliana — uma das especialidades do pai, António do Prado Coelho, discípulo de Teófilo — e a preparar a tese Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, concluída em 1949.
 
 

BANDEIRA POLÍTICA
Outro depoimento do insuspeito José Osório de Oliveira que se limitou à “Mensagem”. “Teve, esse livro — acentuou — a pior sorte que em Portugal pode ter uma obra literária; servir de bandeira política”. Muitos “do outro lado, passaram a admirar Fernando Pessoa só no dia em que ele escreveu contra a extinção das ordens secretas”.

Em face de tudo isto a oposição republicana, socialista e comunista, até aos anos 50/60, rotulava Fernando Pessoa de poeta fascista. Tanto mais que publicara, em 1928, a “Defesa e Justificação da Ditadura Militar”. Recorde-se que Pessoa rejeitou este folheto editado pelo Núcleo de Ação Nacional. Com efeito, na nota biográfica, com data de 30 de março de 1935 escreveu: “Deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isto e talvez que repudiar muito.”
A POSIÇÃO DE MÁRIO SOARES

Os preconceitos dos neorrealistas foram, por vezes, ostensivos. Deveriam ser recolhidos e analisados. Mário Soares — companheiro e amigo dos neorrealistas, editado na coleção do Novo Cancioneiro, casado com Maria Barroso, intérprete dos principais poetas do neorrealismo — aproximou-se de Fernando Pessoa “só no exílio em Paris e, fundamentalmente, depois do regresso a Portugal” — confidenciou-me, recordando o forte impacto na sua formação literária e cívica incutido por Álvaro Salema. “A minha visão democrática de Portugal” — prosseguia — “foi alicerçada com a leitura de escritores, poetas e ensaístas dos séculos XIX e XX“. E enumerava: “Herculano e Garrett, Antero e Oliveira Martins, Eça que li e continuei a ler e a reler, até aos intelectuais da República, ao grande escritor da República, Teixeira Gomes, e aos críticos da República, Sérgio, Cortesão e Proença”. A referência era, portanto, a “Seara Nova” e não o “Orpheu”.
Já Presidente da República, numa viagem a bordo do “Sagres”, em agosto de 1986, entre Ponta Delgada, escala nas Berlengas e desembarque no Tejo, aproveitou a oportunidade para, “em contato direto com o mar” fazer uma leitura da “Mensagem”. Leu e gostou muito. Pessoa, para Mário Soares, passou a constituir uma surpresa. Antes o grande poeta era Antero que Álvaro Salema “o obrigou no 7º ano do liceu a ler e a comentar”, na edição dos sonetos prefaciada por António Sérgio. Diversas vezes disse a Mário Soares que não era a obra principal de Pessoa. Respondia-me que “era o único livro que Pessoa editara em português, que teve o cuidado de rever cada poema e que fez a sistematização num todo simbólico”. Procurei lembrar a Mário Soares a opinião do próprio Pessoa sobre a “Mensagem” e que reencontro agora textualmente na famosa e histórica carta a Casais Monteiro sobre os heterónimos: “Não foi feliz a estreia, que de mim mesmo fiz com um livro da natureza de Mensagem. Sou, de facto, um nacionalista místico, um sebastianista racional. Mas sou, à parte isso — referia Pessoa na mesma carta — e até em contradição com isso, muitas outras coisas.”
 
 

AS DECLARAÇÕES DE ÁLVARO CUNHAL
No Martinho da Arcada, num encontro organizado por Luiz Machado, em maio de 1991, interroguei Álvaro Cunhal sobre Pessoa, a relação de Pessoa com os fascismos europeus e a “Mensagem”. O Pessoa que Cunhal gostava era Álvaro de Campos. Acerca da “Mensagem” — e estou a transcrever um texto gravado — foi ainda mais categórico: “A ‘Mensagem’ é um momento contraditório na obra de Fernando Pessoa. É uma encomenda do Secretariado da Propaganda, do futuro SNI, uma obra para um prémio, fomentada e inspirada por António Ferro.” “É uma obra fraquíssima, porque Pessoa quis conformar a obra poética com a mensagem política. E o resultado foi que a obra poética fracassou completamente. A ‘Mensagem’ — insistiu — é um fracasso.” Fez questão de acrescentar logo: “Mas em Almada Negreiros, um homem profundamente comprometido com a ditadura fascista, eu reconheço o grande desenhador que ele foi. Isto conforma que é preciso saber distinguir a obra de arte do artista e a sua opção política.”

Tentei demonstrar que os poemas da “Mensagem” eram das primeiras duas décadas do século, publicadas em vários jornais e revistas, muito anteriores à fundação do Secretariado dirigido por António Ferro. Imperturbável, Álvaro Cunhal concluiu a rir, “Olhe que não… olhe que não…”

“MALABARISMO” FREQUENTE
Gustavo de Fraga, no mesmo inquérito, promovido pela “Acção” entrevistou — e vem agora na íntegra em “Um Retrato Fora da Arca” — Vieira de Almeida, antigo colega de Pessoa no Curso Superior de Letras, personalidade do maior prestígio intelectual e cívico. Recordo-me muito bem que, ao falar de Pessoa, Vieira de Almeida caía no absurdo de afirmar que “o seu caso não é excecional, pois (António) Feijó também se serviu do heterónimo de Abreu e Lima”, sem distinguir e clarificar a diferença entre pseudónimo e heterónimo. Muito mais grave, ainda, era quando Vieira de Almeida — sem conseguir dilucidar as diversas personas de um “drama em gente” — declarava com veemência: “Pessoa foi, frequentemente, um malabarista. Há na sua poesia malabarismo, ironia… e creio que muitas vezes ele próprio não sabia onde terminava isso e começava algo diferente.”
 
 

DOIS CRIMES DO JORNALISMO
Mesmo em cima da morte e do funeral de Fernando Pessoa, Norberto de Araújo, um dos jornalistas mais celebrados da época e ainda hoje lembrado como “mestre de estudos olisiponenses”, na página semanal que mantinha no “Diário de Lisboa”, enaltecia o teatro de Eduardo Schwalbach e as crónicas de Augusto de Castro — dois diretores do “Diário de Notícias” — com os adjetivos mais retumbantes, enquanto reduzia Fernando Pessoa a uma figura estranha e bizarra, a vaguear nas ruas da cidade (“Diário de Lisboa”, 5- 12- 1935). Não era de esperar outra coisa de Norberto de Araújo e de muitos outros jornalistas. Uma das raras exceções foi António Ferro. Aliás, o próprio Fernando Pessoa, em carta a António Ferro, identificava, na época, o jornalismo português mergulhado em “dois grandes crimes mentais — a lentidão e a tradição”; (…) “o bolor radicalmente póstumo dos Emídios Navarros, Marianos de Carvalho, Eduardo Coelho e quantos mais, de igual estirpe, que pesam no passado do jornalismo presente como calos do abismo.”

Entre os méritos de Fernando Pessoa, um retrato fora da arca, organizado por Zetho Cunha Gonçalves, somos confrontados com testemunhos curiosos. Não deixa de ser interessante conhecer depoimentos que revelam os insólitos motivos literários, políticos e religiosos que determinaram a lenta, difícil e polémica compreensão da obra de Fernando Pessoa até atingir toda a irrecusável dimensão nacional e projeção universal.
Da Resistência a Fernando Pessoa – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], revista E, Expresso, 22 de Setembro de 2018, pp. 66/67 – com sublinhados nossos.
 
António Valdemar
 

J.M.M.

domingo, 10 de junho de 2018

DIA DE CAMÕES, DE PORTUGAL E DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS - PRECE



"Senhor, que és o céu e a terra, e que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo estás — (o teu templo) — eis o teu corpo.
Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.
Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faz com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.
[...]
Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.
Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.
Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim"
[FERNANDO PESSOAin Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação]

J.M.M.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

[EXPOSIÇÃO] PESSOA. TODA A ARTE É UMA FORMA DE LITERATURA



DIA: 7 de Fevereiro a 7 de Maio 2018;
LOCAL: Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia – Edificio Sabatini, Planta 1 [Calle Santa Isabel, 52, Madrid;


 Pessoa e Companhia” – por Celso Martins, in Caderno E, Expresso
Em Madrid, apresenta-se uma grande exposição que capitaliza o estatuto internacional de Pessoa para iluminar também as vanguardas portuguesas.

Toda a arte é uma forma de literatura, porque toda a arte é dizer qualquer coisa.” Escolhida milimetricamente, a frase de Álvaro de Campos, que está na origem do título da exposição dedicada ao universo pessoano, é certeira na forma como define a mostra que acaba de ser inaugurada no Reina Sofía, em Madrid, o museu mais visitado de Espanha. Em bom rigor, ajuda-nos a perceber que esta é e não é uma exposição sobre Fernando Pessoa. Partindo da obra e das suas conceções estéticas, ela funciona, de igual modo, como um apreciável cartão-de-visita para as vanguardas portuguesas do início do século XX, que permanecem pouco conhecidas no país vizinho. Quem o explica é João Fernandes, cocomissário da exposição (com a historiadora Ana Ara) e, desde 2012, subdiretor da instituição madrilena: “O que mostramos é a originalidade das conceções modernistas de Pessoa, a relação delas com as artes visuais do seu tempo e a singularidade das vanguardas portuguesas, que não são meras sequelas do cubismo ou do futurismo parisienses.”
 
É muito provável que a possibilidade de estabelecer este engenhoso triângulo conceptual não seja alheia ao facto de um português participar na direção do museu, mas essa escolha deve ser vista à luz da linha programática da instituição: “Temos estado atentos a histórias menos conhecidas da história da arte que refletem o passado a partir de um ponto de vista que não seja colonizado pelas relações de poder que determinaram o reconhecimento de certos centros artísticos”, refere João Fernandes.

À semelhança do que aconteceu com a apresentação de Amadeo em Paris, em 2016, com origem na Fundação Gulbenkian, que também coproduz esta exposição, esta é uma oportunidade de ouro para a divulgação da arte portuguesa da primeira metade do século XX, cuja relativa invisibilidade em Espanha não é alheia à própria centralidade daquele país (com Picasso, Dalí, Miró e outros) no cânone modernista.
A operação é ambiciosa e multifacetada, aproximando-se do universo pessoano a partir de um acervo que inclui cinema, livros, manifestos, revistas e correspondência pessoal e de um conjunto de 160 obras em desenho, pintura e fotografia, bem representativas da arte mais avançada que se fez em Portugal entre 1914 e 1936 e onde pontificam, entre vários outros, trabalhos de Amadeo de Souza-Cardoso, Almada Negreiros, Eduardo Viana, Mário Eloy ou do casal Robert e Sonia Delaunay.
 
 

Os detalhes biográficos incluem aspetos idiossincráticos, como a relação de Pessoa com a cidade de Lisboa ou a astrologia, mas a exposição foca-se decisivamente nas propostas estéticas do português, nomeadamente, os conceitos e movimentos que instigou, em nome próprio ou através dos seus múltiplos heterónimos, como o Paulismo, o Intercecionismo ou o Sensacionismo. O interessante é que a montagem vai estabelecendo nexos entre essas construções dirigidas à literatura e as artes visuais, através de obras que vieram, por exemplo, do Museu do Chiado ou da Fundação Cupertino de Miranda e de museus estrangeiros como o Centro Georges Pompidou ou o Thyssen-Bornemisza.
O primeiro desses ‘ismos’, o Paulismo, que, segundo [João] Fernandes, corresponde a “uma das suas grandes intuições, a de que o simbolismo oitocentista é uma das origens da vanguarda”, reflete o seu interesse pela poesia de Camilo Pessanha ou a cumplicidade com Teixeira de Pascoaes, que o leva a escrever na “Águia”, o órgão oficial do Saudosismo. A formulação de Pessoa apela à convivência de imagens paradoxais e decadentistas e é aqui apresentada na companhia do tríptico “A Vida”, do simbolista António Carneiro, dos desenhos místicos de Pascoaes, das explorações próximas de uma estética déco de Amadeo e de “Orfeu nos Infernos” (1917), uma das duas únicas pinturas de Santa-Rita Pintor que sobreviveram. O núcleo central da exposição dedica-se ao Intercecionismo (que Pessoa considerava mais uma metodologia criativa do que uma estética), que tem pontos de contacto com o cubismo mas corresponde a uma aceção menos rígida dos mesmos fundamentos, e ao Sensacionismo, “o mais amplo conceito das suas vanguardas, que supõe sentir tudo de todas as maneiras e que se manifesta na heteronímia e sua diversidade”.
 
 

A exposição faz acompanhar estes desenvolvimentos com algumas das pinturas de Amadeo que, partindo do cubismo, mais se aproximam da abstração ou do icónico “K4 Quadrado Azul” (1916), de Eduardo Viana. Em algumas das obras é ainda clara uma das especificidades portuguesas: a convergência das práticas mais especulativas com uma atenção sistemática às formas populares e ao artesanato. Não por acaso, essa terá sido uma das fontes de sintonia com os Delaunay, que haviam chegado, com o orfismo, a uma alternativa ao cubismo picassiano e de quem se mostram pinturas alimentadas pelo plasticismo extrovertido da cultura popular minhota assimilado durante a sua estadia.
Paralelamente, incluem-se as revistas — como a “Águia”, a “Orpheu”, a “Portugal Futurista” ou a “Athena” — de importância decisiva, porque é nelas que “artistas e escritores coincidem”. Outro núcleo importante e normalmente pouco visível reflete a relação do modernismo português com as artes cénicas e performativas e que aqui inclui os desenhos de Almada para o ballet “A Princesa dos Sapatos de Ferro”, o seu painel “Jazz” para o Cine San Carlos, em Madrid, e várias notícias sobre os ballets russos em Portugal, bem como folhetos e cartazes de divulgação impregnados por uma estética modernista. A secção final da exposição sinaliza o segundo e menos radical modernismo português com obras em acorde expressionista ou lírico de Mário Eloy, Sarah Afonso ou Júlio e a centralidade cultural da revista “Presença”, que foi decisiva na receção de Pessoa para lá do seu círculo geracional. Como lembra João Fernandes, “os intelectuais da ‘Presença’ não só o publicam na revista como, no caso de João Gaspar Simões, vão fazer a edição da obra do Pessoa nas edições Ática”. A revista é ainda o pretexto para estabelecer outro nexo, desta vez com o cinema de Manoel de Oliveira, de quem se inclui o filme “Douro, Faina Fluvial”, de 1931, que traz a estética vanguardista ao cinema português.
 
 

A exposição desenvolve-se, aliás, entre dois momentos cinematográficos. No início mostram-se imagens de “Conversa Acabada”, um filme em torno de Pessoa e Mário de Sá-Carneiro realizado por João Botelho em 1981; e, no fim, “Conserva Acabada”, uma curta-metragem de João César Monteiro (1990) que ironiza a transformação de Pessoa num ícone pop.
Estes e outros momentos ilustram a fertilidade da figura de Pessoa inscrita na obra, nas ideias, na sua teia de afinidades e na sua irradiação iconográfica como eixo possível de uma apresentação abrangente da especificidade modernista portuguesa.
O catálogo que se edita com a exposição conta com textos de Marta Soares, Fernando Cabral Martins e António Saéz Delgado e vários do próprio Fernando Pessoa sobre as questões que são exploradas na exposição, oferecendo um olhar múltiplo que ajuda a explicar a sua atual universalidade. “Pela valorização da contradição e do paradoxo, e pela heteronímia, Pessoa é um intérprete fundamental da cisão do sujeito e da crise do autor moderno”, salienta João Fernandes. Por estas e outras razões, ele e a sua corte de heterónimos são bem conhecidos dos espanhóis, mas esta é uma oportunidade única de o descobrirem entre os seus companheiros de aventuras modernistas.
 
Pessoa e Companhia – por Celso Martins, revista E, Expresso, 10 de Fevereiro de 2018, pp. 63/65 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

CONFERÊNCIA – O CENTENÁRIO DO “PORTUGAL FUTURISTA”


CONFERÊNCIA: O Centenário do “Portugal Futurista”;

ORADOR: António Valdemar (Academia das Ciências);

DIA: 25 de Outubro (19,30 horas):
LOCAL: Grémio Literário [Rua Ivens, 37 – ao Chiado], Lisboa;
ORGANIZAÇÃO: Grémio Literário

Integrado no Ciclo de Literatura Portuguesa, sob organização do Presidente do Conselho Literário do Grémio Literário, Dr. António Aires Gonçalves, o Grémio Literário realiza uma Conferência sobre a estimada, importante e rara revista literária do nosso modernismo, “Portugal Futurista” (Novembro de 1917, nº único), no próximo dia 25 de Outubro.

 
O Orador será António Valdemar, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências, jornalista, investigador, olisipógrafo e autor de vários livros sobre história, literatura, arte e património e um sério conhecedor da obra de Mestre Almada Negreiros. Diga-se que António Valdemar privou com elementos do “grupo e da geração do Orpheu” e ainda privou “com Armando Cortes–Rodrigues, Raul Leal, Alfredo Guisado, destacando–se, contudo, o convívio e a amizade com Almada Negreiros, durante muitos anos. Este concede-lhe entrevistas acerca da sua vida e obra, parte das quais reunidas no livro “Almada, os Painéis, a Geometria e Tudo[in Boletim do Grémio Literário].

A conferência, a realizar no Salão Nobre do Grémio Literário, que terá início às 19 e 30 horas, “será acompanhada com a projeção de fotografias da época”, a cargo do designer Álvaro Carrilho, “de personalidades e acontecimentos culturais, políticos e sociais”.

A não perder.



«O centenário da publicação do primeiro e único número, da revista Portugal Futurista, uma das referências obrigatórias do modernismo, e que em 1917, provocou grande escândalo e foi apreendido pela Policia, vai ser assinalado, no próximo dia 25, no Grémio Literário, com uma conferência proferida por António Valdemar, que tem realizado, nos últimos anos, investigações em bibliotecas e em arquivos, a propósito dos vários aspectos daquele movimento literário e artístico.

Participaram no Portugal Futurista, Almada Negreiros, Fernando Pessoa, Santa Rita Pintor, Carlos Filipe Porfírio, Rebelo Bettencourt, Amadeo de Sousa Cardoso, Raúl Leal, e, ainda, Guillaume Apolinaire, Blaisse Cendras através de Sonia e Robert Delaunay, ao tempo refugiados em Portugal, devido á eclosão da Iª Grande Guerra Mundial.

O Portugal Futurista incluiu, também, montagem de textos de Boccionni, Carra, Russolo e Severini, e as traduções do manifesto futurista ‘Le Music-Haal’, de Marinetti e o ‘Manifesto Futurista da Luxuri’», de Valentine de Saint Point.

J.M.M.