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segunda-feira, 31 de agosto de 2020

LUÍS DE MELO E ATAÍDE (1863 – 1925) - NOTA BREVE


Luís de Melo e Ataíde nasce em Lisboa a 29 de Agosto de 1863. Assentou praça em 24 de Novembro de 1878 (tinha 15 anos), no Regimento de Infantaria 16, tendo sido promovido a alferes a 26 de Dezembro de 1895, a tenente em 22 de Junho de 1900 [in Revista Militar, 1925, Julho-Agosto, nº 7-8], terminando a sua “veneranda” figura no exército português como coronel [ibidem; ver, ainda, jornal A Luz, Junho de 1925]. Serviu na Secretaria da Guerra, comandou tropas e teve a seu cargo, já no fim da carreira, o comando do Regimento de Infantaria da Reserva nº 16. Passou à reserva em 1923.

Luís de Melo e Ataíde tinha uma sólida cultura literária e militar. Porém, não cursou, “por circunstâncias independentes da sua vontade” [ibidem], a Escola do Exército, e só mais tarde frequentou com aproveitamento o Curso Superior de Letras. A sua colaboração periodística é curiosa: foi proprietário e redactor do jornal Marte; teve colaboração no Diário Popular (de Mariano de Carvalho), no jornal Tempo (de Dias Ferreira), no Diário Popular (de Mariano Presado); foi o director do importante periódico maçónico A Luz [1918-1928; editado pelo Grémio Luso-Escocês, mais tarde pelo Grémio Lusitano; esteve na sua direcção até ao seu nº 166, Ano VI – ver AQUI]; colaborou na Revista de Infantaria e foi, ainda, sócio efectivo, director-gerente e secretário da conceituada Revista Militar.

Nessa época a sua actividade era o estudo de “técnicas militares”, tendo publicado vários artigos e opúsculos: Programma para exame de cabo esquadra, ordenado no capítulo quinto do regulamento para o serviço dos corpos do exército (1880); História do fogo da infantaria e da sua influência sobre as formações tacticas e resultado dos combates por M. J. Ortus (Gazeta Militar, 1885-86); Estudos Tacticos dum subalterno d’infantaria, II tomos (Typ. Universal, 1902 e 1904), trabalho distinguido pelo então ministro da guerra; e o trabalho Combate de Infantaria contra a Cavalaria (1904), premiado como 2º prémio no concurso promovido pela antiga Revista de Infantaria.

Em 1906 afastou-se da imprensa política, arrendou uma propriedade urbana e rústica, dedicando-se à agricultura, ao mesmo tempo que cumpria “pontualmente” os seus deveres no Ministério da Guerra. Os seus estudos sobre agricultura estão espalhados na imprensa da especialidade, tendo-lhe sido atribuído, em 1909, a comenda de Mérito Agrícola [A Luz, ibidem].

Em 1910 faz uma comissão de serviço (“julga-se a seu pedido”) na África Ocidental, como capitão-mor das Ganguelas e Ambuelas e comandante da 13.ª Companhia Indígena de Infantaria, ali permanecendo até Março de 1912, regressando à metrópole, sendo colocado em Chaves e depois vindo para Lisboa. Nesse período escreveu vários artigos sobre Angola [veja-se, principalmente, “O Perigo de Despovoamento de Angola”], no Diário de Notícias e no Boletim da Sociedade de Geografia

Luís de Melo e Ataíde era republicano, situando-se na área do partido evolucionista de António José de Almeida. Foi iniciado na maçonaria na poderosa loja Liberdade [Oficina de Lisboa instalada em 1896 e que acompanhou a dissidência do Supremo Conselho do Grau 33 – ou Grémio Luso-Escocês, como foi conhecido no mundo profano – tendo regressado ao GOL em 29 de Maio de 1820, mantendo-se ativa durante a clandestinidade] em Julho 1913 e, como já dissemos, foi o principal fundador, orientador e diretor do jornal A Luz, tendo apresentado (1917) a proposta da sua publicação - como “órgão de combate à reação” - nos trabalhos do Grémio Liberdade, não sem algumas dificuldades e muitas descrenças. Fez Melo e Ataíde inúmeras e importantes conferências sobre estudos filosóficos e livre-pensamento (como a que teve o título “Equação da Felicidade”], deixando escrito, sob o nome de Luiz de Camões (possivelmente o seu nome simbólico), o opúsculo “Aspirações de um Maçon” (Tip. Comércio e Industria, 1915, p. 34) e “Primeiros Passos”. Foi diretor do Asilo S. João, criando o Prémio em homenagem ao benemérito [Augusto Frederico] Gazul dos Santos.

Luís de Melo e Ataíde faleceu no dia 2 de Junho de 1925. O seu funeral partiu da sua casa na Rua da Saudade, 13, para o cemitério Oriental de Lisboa. Tinha a comenda de Avis e a medalha de ouro da classe de Comportamento Exemplar.

J.M.M.

sábado, 15 de agosto de 2020

ÁLVARO SOARES ANDREA (1864 – 1939) - NOTA BREVE


“… Álvaro Soares Andrea acredita ter aprendido a navegar antes de o mar ter nascido. Durante décadas vagueou ao longo da costa africana e desbravou rios que estão ainda por nomear. E foram tantas as viagens que não há noites que bastem para contar as suas aventuras. Daí o seu desdém pelos caprichos de Mouzinho de Albuquerque.

- Quem sabe do mar sabe dos céus -proclama o comandante enquanto percorre, para cá e para lá, toda a extensão da sua corveta.

Está alvoroçado, não pregou olho toda a noite. Foi visitado por sonhos, estranhos presságios. Sonhou que se tinha convertido num prisioneiro negro e que viajava no porão do seu próprio navio. No mesmo sonho, Mouzinho desamarrava-lhe os pulsos e agitava um caderno em frente do seu rosto: É isto que andas a escrever contra mim, meu filho da puta? No cano das botas ia roçando uma nervosa vergasta. Depois ia roçando uma nervosa vergasta. Depois atirava-lhe o caderno para o colo. Queria que o lesse em voz alta. Andrea segurava as folhas com mãos trémulas. Dava conta de que aquela era a sua caligrafia. Mas logo se apercebia de que escrevera tudo aquilo numa língua que não entendia. Parecia-lhe zulu, não tinha a certeza. E despertava, estremunhado.

- Quem sabe do mar sabe dos céus -repete Andrea, como se o mote o ajudasse a permanecer desperto. Volta a olhar as nuvens escuras por cima do oceano. Sujeita-se, enfim, ao comando das insondáveis forças da natureza. Confia mais nessa estrela interior - que alguns designam de intuição - do que em mapas e bússolas que se mostram imprestáveis nos mares tropicais …”

[Mia Couto, in As Areias do Imperador – Livro Três. O Bebedor de Horizontes]

 


Álvaro Simões de Oliveira Soares Andrea nasce em Lisboa em 31 de Agosto de 1864. Era filho do contra-almirante liberal Tomás José de Sousa Soares de Andrea (1824-?) e de Maria Luísa Virgínia de Sequeira e Oliveira. O avô paterno, Tomás José de Sousa Soares de Andrea (1777-1826) era oficial do exército e esteve a Guerra Peninsular e lutado ao lado das forças liberais durante a guerra civil, comandando os esquadrões do Regimento de Cavalaria N.º 7 de Vila Viçosa, tendo morrido por ferimentos em combate em 1826 [ver livro de Álvaro Soares de Andrea, O Systema decimal mundial e o Relogio decimal, Typografia e Papelaria Corrêa & Raposo, Lisboa, 1909].

Álvaro Soares Andrea foi um distintíssimo oficial da marinha, servindo nas Colónias, onde participou (1895) na Campanha de Gaza, em 1895 e no Combate de Macontene (1897, Moçambique). Foi na campanha de Moçambique que se distinguiu, principalmente na operação e prisão de Gungunhana, o último imperador de Gaza, comandando a Capelo.

Tinha elevadas condecorações: o Colar da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito; era Cavaleiro e Oficial da Ordem Militar de Avis, Oficial da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa; tinha as Medalhas de Valor Militar, de Comportamento Exemplar, e da Campanha do Tungue (1889), de Moçambique (1894-1895), e do Niassa (1899).

Em 1905 é iniciado como maçon, na Loja Simpatia e União, com o nome simbólico de Tomás Andrea [possivelmente em memória do seu avô]. Pertenceu à Carbonária, sendo na época um republicano radical, integrando, após o 5 de Outubro, a denominada Federação Republicana Radical. Em 1910, no levantamento do 5 de Outubro, teve Soares Andrea uma importante intervenção, na tomada do Quartel de Marinheiros, de Alcântara.

Reformou-se a 18 de Novembro de 1910. Participou, a 27 de Abril de 1913, no que será a primeira revolta republicana, de civis e militares [Curiosamente a revolta integrava vários elementos da maçonaria] contra o governo da Republica, então dirigido pelo dr. Afonso Costa. Foi preso e enviado para os Açores com residência fixa.

Morre a 14 de Agosto de 1939, estando sepultado no cemitério dos Prazeres. Era casado com Elisa Sofia Pinto Andrea.
 
J.M.M.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

CARTAS PARA HOJE – POR ANTÓNIO VALDEMAR


Cartas para hoje” – por António Valdemar, in Revista do Expresso

[Segunda edição das cartas que Manuel Teixeira Gomes mandou a João de Barros, selecionadas por Manuela de Azevedo. Fragmentos de umas memórias que não chegaram a existir] 

“As memórias de Teixeira Gomes fizeram parte de vários projetos. Memórias políticas com a militância partidária republicana, a carreira diplomática e o exercício da Presidência da República. Memórias literárias resultantes do convívio com escritores, poetas, pintores e músicos. Em Coimbra, onde fez o secundário. No Porto, onde estudou Medicina sem concluir o curso. Em Lisboa, onde frequentou as principais tertúlias do fim do século XIX e começo do século XX. Somem-se as memórias familiares do Algarve — as relações difíceis com o pai e ainda mais difíceis com a mãe, que o deserdou, por viver maritalmente e ter filhos de uma empregada; e as do comerciante de figos com meios para passar metade do ano em viagens através da Europa. Finalmente, as memórias do exílio voluntário, após a renúncia à Presidência da República em 1925, que lhe permitiu retomar com intensidade a escrita. Nunca concretizou o grande livro de memórias que prometeu, mas deixou em correspondência pessoal, política e literária reminiscências de 80 anos de existência repleta de contrastes.

Desde sempre as cartas foram para Teixeira Gomes um modo de comunicar. Publicou em vida três livros de cartas: “Cartas Sem Moral Nenhuma”, “Cartas a Columbano” e “Miscelânea”, com relatos de viagens e reflexões literárias e estéticas. Castelo Branco Chaves também recolhera, no âmbito das edições promovidas em 1960, no centenário do nascimento, outros volumes de correspondência. Mas além da epistolografia coligida em livros existia correspondência inédita e dispersa para amigos, em especial o poeta João de Barros e que o seu filho Henrique de Barros selecionou, incumbindo Manuela de Azevedo da edição. A investigação tem prosseguido com António Barros, o neto de João de Barros, que ficou a cuidar do espolio do avô para novas edições.

Ficamos a saber, através do próprio Teixeira Gomes, o que pensava dessa literatura de testemunho que praticou com abundância: “Eu tive sempre, mais ou menos, a mania epistolar, e pouca gente terá havido que escrevesse tantas cartas como eu, no decorrer desta minha agitada, longa, e curiosa vida. (...) Talvez porque o meu temperamento se compraz no desalinho da conversação despretensiosa, e repugna às composições oratórias; seja qual for a razão o certo é que, escrever uma carta nunca me foi pesado.”

Confidenciou nas cartas a João de Barros: “Como sabe, nunca fui popular, mas a Presidência da República tornou-me detestado. Situação que abrangeu também, um pouco, os meus amigos pessoais. (…) Sem ter feito nada de bom, nem de mau, limitei-me ao estreito cumprimento das minhas obrigações de mestre de sala — levantei, no meu país, contra mim, os ódios que só costumam levantar os grandes benfeitores da Humanidade.”

Em vida e depois da morte, Teixeira Gomes foi muito criticado. Sem nunca lhe ter falado, Miguel Torga, no “Diário”, ao registar a morte de Teixeira Gomes não hesitou a chamar-lhe “manjerico”. Antes e depois do exílio, tinha inimigos de estimação, como Bernardino Machado, por incompatibilidades políticas recíprocas; João Chagas, que o insultou no “Diário”; ou Augusto de Vasconcelos, que despreza por motivos de carácter e ausência de lealdade política. Fez comentários arrasadores a Ginestal Machado, chamando-lhe “o seráfico Ginestal Machado a quem os rapazes de Santarém cognominaram o cu frouxo”. Mas um dos grandes ódios de estimação foi Cunha Leal, que lhe movera uma campanha sistemática na tribuna de São Bento ao ler, quando era Presidente da República, as passagens dos livros com referências sexuais. A divulgação provocou os efeitos desejados: Teixeira Gomes não perdoou a Cunha Leal.
 
 
Era com desdém que o antigo Presidente se pronunciava acerca de intelectuais portugueses que, em vida, o lisonjearam e depois o atacavam e de forma insultuosa. Júlio Dantas, além da ferocidade do manifesto de Almada Negreiros, não escapou à sátira de Teixeira Gomes. Chamou-lhe “merdiflor”. E acrescentava, entre outras considerações fulminantes: “Deve-se-lhe um invento genial: a aplicação dos pastéis de nata em supositórios. Uma vez na confeitaria Marques, engoliu, por ‘ali’ uma grande bandeja cheia deles.”

Augusto de Castro é outro visado, e com extrema contundência. Refere que lhe devia, quando Presidente da República, favores políticos, ao desejar interromper a direção do “Diário de Notícias” para ingressar na carreira diplomática, em Inglaterra e em Itália, junto do Papa. Outra crítica virulenta atingiu Afonso Lopes Vieira, com quem tivera, aliás, relações muito cordiais e expressas em correspondência. A opinião alterou-se quando Lopes Vieira derivou para a exaltação de Fátima, de que terá sido o primeiro poeta oficial.

A opinião de Teixeira Gomes acerca da literatura portuguesa era radical. Considerava-a “um mito” e insistia: “Nós parecemos tudo menos o que na realidade somos, isto é, plagiários inveterados, do princípio ao fim, de uma literatura de décima ordem.”

Mesmo assim, demonstrou apreço por algumas obras e escritores, como Camões — “o melhor exemplo de uma repentina e salutar renascença, de pureza de formas e claridade de ideias e de estilo”. “No entanto”, advertia, “o publico pouco se importa com o genuíno Camões, que não distingue senão pelo nome (e por ventura pelo olho de menos) dos demais poetas dos tempos idos”. Era Fernão Mendes Pinto a figura que “sempre exerceu fascinação irresistível”, sobretudo “pela graça e cristalina simplicidade do seu estilo, que parece de agora”. Eça não o satisfaz tanto como Camilo, que apontou como o maior escritor português do século XIX. Bernardes e Castilho são referências assíduas e cita Bernardim Ribeiro quando pretende justificar estados de alma.

Perante os seus contemporâneos, Teixeira Gomes é um clássico. Condenava o desalinho e a confusão. Rejeitava a forma rebuscada e pomposa, a frase seca e o “estilo embaçado como se fosse temperado com sumo de marmelo cru”. Para ser espontâneo teria de haver um trabalho de “ferreiro, que passa da forja à bigorna, e daí à lima”.

A Republica desiludiu-o: “Sabia muitíssimo bem que, na incapacidade de resumir os seus ideais em princípios, o nosso povo os havia encarnado em meia dúzia de figuras representativas da Republica, e avaliava o que ela sofria em desdoiro e desonra, com os insultos infâmias que esses homens, sem o menor rebuço e desbragadamente, se assacavam e lançavam uns aos outros.” O modo como foi tratado quando exerceu a Presidência da República magoou-o profundamente. Em abril de 1927, escrevia a João Barros: “É, ou parece, um país de réprobos, onde todos vociferam, ardendo em ódio, consumidos de inveja.”
De país em país encontrou, finalmente, em Bugia (Argélia francesa) o local para se instalar nos últimos dez anos de vida. Passara já os 70 anos de errância contínua. Por diversas vezes, Teixeira Gomes falou do envelhecimento, das doenças que o atingiram. Porém, manteve até ao fim uma espantosa memoria. Na reta final, não deixou de confidenciar: “Estas cartas já se vão dando ares de ‘capítulos de memórias’, que não é intenção minha escrever. (...) Eu sigo, tanto quanto possível, saboreando este resto de vida, como criança que come o seu último bolo, às migalhas.
Ao corresponder-se com João de Barros, Teixeira Gomes sabia que as cartas não seriam destruídas e, mais cedo ou mais tarde, seriam publicadas. Construiu a imagem que fazia de si próprio e que teria sido adulterada, a propósito da ação que exerceu na vida publica. Escreveu sempre para a posteridade
Cartas para hoje – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências] – E revista do Expresso - 22 de Fevereiro de 2020, pp. 69 – com sublinhados nossos.com sublinhados nossos.

J.M.M.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

EXPOSIÇÃO – BEJA REPUBLICANA



EXPOSIÇÃO: Beja Republicana;
DIAS: 18 de Outubro a 12 de Novembro de 2019;
LOCAL: Centro Unesco para a Salvaguarda do Património Cultural e Imaterial de Beja [Rua do Sembrano, 78], Beja;
ORGANIZAÇÃO: Câmara Municipal de Beja - coord. de Constantino Piçarra (IHC-U.N.L).

Decorre a mostra de Beja Republicana (1910-1926), Exposição que “mostra a formação e afirmação do Partido Republicano Português no distrito de Beja”, descrevendo “a evolução política ao nível do poder local, evidencia aspectos marcantes da vida quotidiana da cidade, sublinha as principais realizações do poder republicano municipal e apresenta o panorama da imprensa local  e “o quadro do movimento operário de Beja durante a I República, com referência às suas organizações e principais lutas desenvolvidas” [AQUI].

Estará patente ao público até ao dia 12 de Novembro.

A não perder!

J.M.M.

sábado, 5 de outubro de 2019

QUE VIVA O 5 DE OUTUBRO!




O mundo inteiro não é senão uma grande República, da qual cada nação é
uma família e cada indivíduo, um filho” [Cavaleiro de Ramsay]

O 5 de Outubro de 1910 – dia de muita Luz - foi projecto de Soidade, um alicerce claro da Alma Lusitana, uma paixão aberta de virtude e generosidade espiritual. A Hora dessa gente assinalada, o seu antiquíssimo cantar em prol da Liberdade, Igualdade e Fraternidade ainda não nos consumiu, que no seu Cântico ainda temos esse Sonho por cumprir.

O Almanaque Republicano em testemunho e memória dessa Gente Sonhadora, Livre e Fraterna, cumprindo o que não acaba nem começa, em sentida Homenagem e de coração ao alto grita … PRESENTE! 

VIVA O 5 DE OUTUBRO!
VIVA A REPÚBLICA!

SAÚDE E FRATERNIDADE!

J.M.M.
A.A.B.M.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

A MAÇONARIA PORTUGUESA E A GRANDE GUERRA (1914-1918)



LIVRO: A Maçonaria Portuguesa e a Grande Guerra 1914-1918;
AUTOR
: António Ventura;
EDIÇÃO: Edições Vega, 2019

Trata-se da última obra do professor António Ventura, onde se estuda “a posição oficial face ao conflito e à participação portuguesa das duas Obediências maçónicas portuguesas então existentes [o Grande Oriente Lusitano, por um lado, e o Supremo Conselho do Grau 33.º, dissidente da anterior e que tomou o nome profano de Grémio Luso-Escocês, tendo como representante o seu Soberano Grande Comendador, o general Luís A. Ferreira de Castro]. Inclui diversa documentação inédita.

O livro contém ainda uma relação de militares portugueses maçons mortos durante a guerra nas três frentes - França, Angola e Moçambique - com as respectivas biografias e outra documentação iconográfica e documentos inéditos. Alguns desses nomes são bem conhecidos e foram consagrados na toponímia [AQUI]

   “ …. Quando procuramos compreender o envolvimento de Portugal na Grande Guerra, resultam de grande utilidade os estudos sectoriais, incidindo sobre instituições, organizações e entidades particulares. O recurso a esses estudos monográficos ajudam a elaborar um quadro mais completo da forma como a sociedade portuguesa reagiu perante o conflito nas suas diferentes fases, desde as primeiras manifestações, em Julho de 1914, a discussão sobre o apoio a dar aos Aliados, a participação ou não na guerra no teatro europeu, o evoluir dos acontecimentos dentro e fora do país e, finalmente, as negociações de paz e suas consequências. Já foram produzidos alguns trabalhos significativos, mas muito há a fazer. Refiro-me a estudos sobre os partidos republicanos, o movimento monárquico, as associações sindicais e patronais, a Igreja Católica e as igrejas protestantes, as associações de carácter cívico, cultural e de instrução, etc.

 A Maçonaria ganhou um cunho republicano depois de 1910, mas não pode ser considerada no seu todo como uma organização de pressão, com uma agenda determinada de cariz político e até partidário, dada a pluralidade de opções dos seus membros, o que inviabilizava, à partida, o alinhamento com um agrupamento determinado. Basta comprovarmos que a ela pertenceram políticos dos mais diversos partidos, o que desmente qualquer intuito de controlo e manipulação por parte daquela instituição.

De facto, a ela pertenceram dirigentes do Partido Republicano Português como Afonso Costa e António Maria da Silva, do Partido Republicano Evolucionista como António José de Almeida e Simões Raposo, da União Republicana como Brito Camacho e o almirante Tasso de Figueiredo, do Partido Centrista Republicano como o general Simas Machado e Alberto Osório de Castro, do Partido Nacional Republicano (sidonista) como João Tamagnini Barbosa e José Alfredo de Magalhães, do Partido Republicano Conservador como os capitães José Marcelino Carrilho e João Sarmento Pimentel, do Partido Republicano Liberal como António Granjo e Tomé de Barros Queirós, da Federação Nacional Republicana como Machado Santos e o capitão-de-fragata José de Freitas Ribeiro, do Partido Republicano de Reconstituição Nacional como o general Sá Cardoso e José Barbosa, do Partido Republicano Nacionalista como o comandante José Mendes Cabeçadas e Alberto de Moura Pinto, da União Liberal Republicana como Constâncio de Oliveira, da Esquerda Democrática como José Domingues dos Santos e Manuel Gregório Pestana Júnior, do Partido Socialista como Ramada Curto e José António da Costa Júnior, e até o primeiro secretário do Partido Comunista Português, Carlos Rates, foi maçon… Os exemplos são infindáveis, mas atestam bem que, tendo como denominador comum os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, cada um assumia individualmente posições distintas sob o ponto de vista partidário ….”

 [António Ventura, in A Maçonaria Portuguesa e a Grande Guerra, Actas do Colóquio Internacional “A Grande Guerra – Um Século Depois”, Academia Militar, 2015, pp. 33-34 - sublinhados nossos]

J.M.M.

sábado, 29 de junho de 2019

NO CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE RAMON MACHADO DE LA FERIA (1919-2003)





Ramon Machado de La Feria nasceu na freguesia de São Salvador, concelho de Serpa a 27 de Junho de 1919. Era filho de Helena da Ascensão do Prado Machado e do médico republicano e ilustre maçon Ramon Nonato de La Feria 


[nascido a 18 de Julho de 1886, em Serpa – cf A.H.de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria, vol. 1, p. 563; bacharel em medicina e republicano militante do partido Unionista, de Brito Camacho; é ele que anuncia a boa-nova da implantação da Republica ao povo de Serpa; combateu em França na I Grande Guerra e foi um íntegro combatente contra o Estado Novo, foi preso por diversas ocasiões (na sequência da revolta da Madeira; entre 1937-1939, curiosamente acusado de integrar a maçonaria - Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 29, registo nº 5776), presidiu (1925) à direcção do Grémio Alentejano; pertenceu ao MUD e esteve sempre presente nos diversos combates eleitorais; Ramon Nonato de La Feria foi iniciado na Maçonaria com o n.s. de Claude Bernard, em 1914, na Loja Cândido dos Reis, onde teve diversos cargos, entre eles de Venerável; pertenceu ao Supremo Conselho do grau 33 do REAA, tendo sido eleito Presidente do Conselho da Ordem para o período de 1927-29 e 1930, demitindo-se, neste ano, a 12 de Setembro; integrou, em 1930, a Comissão de Estudos Profanos do GOLU, que presidiu – cf. António Ventura, Uma História da Maçonaria em Portugal, p, 698, 736; integra, em 31 de Março de 1935, o Conselho da Ordem, então presidido por Maurício Costa, mantendo-se no cargo até ao 25 de Abril de 1974; morre a 10 de Novembro de 1970, em Lisboa]


Frequenta os seus estudos liceais no Liceu Camões (em Lisboa), cursou medicina na Universidade de Lisboa (no Campo Santana), ingressando na carreira médica com a especialidade em Anestesiologia Cardíaca. Chefe de clínica, foi desde 1960 responsável pelos Serviços de Anestesiologia e Reanimação do Hospital Pulido Valente. Teve copiosos trabalhos de investigação publicados e diversos cargos na Ordem dos Médicos  e da Liga dos Direitos do Homem


Como estudante universitário foi preso a 28 de Março de 1947, por mandado de captura do inspector da PIDE, capitão José Catela, e enviado para a cadeia do Aljube. Tinha-lhe sido atribuído o crime de ter assinado em nome da direcção universitária de Lisboa do MUD Juvenil (como outros seus companheiros: José Carlos Gonçalves, Fernando Pulido Valente, Joaquim Ângelo C. Rodrigues e Carlos Gomes) e distribuído, um panfleto ciclostilado intitulado “Em defesa da Universidade” e onde se verbera a iníqua detenção do estudante da Faculdade de Ciências (e também membro do MUD Juvenil – organização ilegal e clandestina para a PIDE) Mário Ruivo. Teve como seu defensor em Tribunal Plenário, o advogado João Manuel da Palma Carlos. Cumpriu pena de prisão em Caxias, com perda de direitos políticos por cinco anos.    




Isto é, desde a primeira hora que Ramon Machado de La Feria marcou a sua posição contra o salazarismo e o Estado Novo. Republicano assumido, pertenceu à direcção do MUD Juvenil e integra ao longo da sua vida diversos centros republicanos, assumindo mesmo a Presidência da Comissão Permanente das Assembleias Gerais dos Centros Republicanos de Lisboa, “procedendo à reestruturação das instituições [republicanas] que chegaram até ao 25 de Abril” – cf. António Valdemar, República, 10 de Dezembro de 2003, p. 8. -, presidindo às Comissões Cívicas da Comemoração do 5 de Outubro até à sua morte. 


Em 1952, estando a cumprir o serviço militar como oficial miliciano, foi de novo detido pela PIDE (no Aljube e Caxias, durante 2 meses e meio) por “envolvimento num movimento de oficiais milicianos ligados a Henrique Galvão” [António Valdemar, ibidem] contra Salazar. Em 1968 é de novo preso no Aljube e em Caxias, acusado de ser um dos responsáveis da tentativa de derrube do regime, com apoio de um grupo de militares. Já em 1973, enquanto presidente da Ordem dos Médicos, Ramon Machado de La Feria é preso por ter denunciado em público a intervenção da PIDE no assassínio do estudante do MRPP, Ribeiro dos Santos. Depois de Abril de 1974, integra o MDP/CDE e depois filia-se no PS.  


Em Fevereiro de 1973, seguindo os passos do seu ilustre pai, inicia-se na Maçonaria com o n.s. de Marat, na Loja Simpatia e União [A Loja Simpatia e União, foi das poucas oficinas que não abateram colunas; tinha em Abril de 1974 cerca de trinta e seis obreiros – ver Casa 4. A Loja dos Grão-Mestres Sympathia e União 1859-2009, p. 108], por proposta do então Grão-Mestre Luís Hernâni Dias Amado [n.s. Zacuto Lusitano]. Pertenceu, em 1975, à Loja Cândido dos Reis (ver Manuel Poirier Braz, Eu Maçon me Confesso, p. 38 e ss; foi nesta loja que o seu pai tinha sido iniciado), tendo sido nomeado Grande Secretário das Relações de Justiça do Conselho da Ordem, depois Presidente do Conselho da Ordem Interino (1975 e 1976); atinge o grau 18 (cavaleiro Rosa-Cruz) em 1975, o grau 25, em 1977, grau 30, em 1979 e o grau 33, em 1980, com um curioso trabalho “Maçonaria - Sociedade Iniciática”, integrando o Supremo Conselho do Grau 33 do REAA. Em 1987 pertence ao quadro da Loja José Estêvão. Com um notável curriculum maçónico, é eleito como Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano para o período entre 1990 a 1993, tendo como Adjuntos António [Maria Lobo de Vasconcelos] Corte-Real e Mário de Sousa Dias. Data desse período uma “grave querela” que opõe o REAA e o RF. 


Foi associado do Internato de S. João, integrando por diversas vezes a sua direção, foi sócio da Escola-Oficina nº1, presidiu à Mesa da Assembleia Geral do Centro Republicano Almirante Reis, do Centro Republicano Fernão Botto-Machado, do Centro Republicano da Ajuda e foi membro da Comissão de Romagem aos Heróis de 5 de Outubro (Cemitério do Alto de S. João). A 25 de Julho de 1989 foi feito Comendador da Ordem da Liberdade.   


Morre vítima de doença prolongada a 25 de Maio de 2003


J.M.M.

sábado, 11 de maio de 2019

CONFERÊNCIA – AQUILINO RIBEIRO, CARBONÁRIA E MAÇONARIA



CONFERÊNCIA: Aquilino Ribeiro, Carbonária e Maçonaria

ORADOR: Prof. António Ventura [Centro de História da FLUL];

DIA: 16 de Maio 2019 (10,15 horas);
LOCAL: Biblioteca Nacional de Portugal (Campo Grande 83, Lisboa);

A Biblioteca Nacional de Portugal acolhe no próximo dia 16 de Maio de 2019 um Colóquio consagrado à figura e à obra de Aquilino Ribeiro. A partir da oportunidade oferecida pelo centenário da primeira edição do romance Terras do Demo (1919), esta iniciativa está centrada na análise dos anos que decorreram entre o regresso de Aquilino a Lisboa, vindo do seu primeiro exílio em Paris, e o início do segundo exílio do escritor, ditado pela sua participação na frustrada tentativa de derrube da ditadura militar, em Fevereiro de 1927.
 
Os participantes no Colóquio estão convidados a explorar a Lisboa de Aquilino, articulada entre os seus diversos lugares de residência na cidade, o Liceu Camões, onde ensinou, e a Biblioteca Nacional, na qual ingressou pela mão de Raúl Proença e Jaime Cortesão. Estarão também presentes a França e a Alemanha que observou nestes anos e veio a transpor para títulos tão importantes como É a Guerra e Alemanha Ensanguentada.
 
Numa época marcada pela I Guerra Mundial e pela implantação da República em Portugal, este é um dos mais sugestivos períodos da vida do grande escritor que foi Aquilino Ribeiro, marcado pela escrita de viagens, pela criação de personagens intemporais como as que dão vida a O Malhadinhas e ao Romance da Raposa ou, ainda, pelos textos que compôs para o Guia de Portugal de Raúl Proença.
 
A par deste Colóquio, será inaugurada uma exposição biobibliográfica ilustrativa da temática debatida no evento. A exposição estará patente na Sala de Referência da Biblioteca Nacional entre 16 de Maio e 30 de Agosto, com entrada livre. O Colóquio «Aquilino, Anos 20: entre o exílio e as geografias de Lisboa» é organizado conjuntamente pelo Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa (CEG-ULisboa) e pelo Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (CLEPUL), em parceria com a Biblioteca Nacional de Portugal.

 
Esta iniciativa é realizada no âmbito das actividades do grupo de investigação ZOE – Dinâmicas e Políticas Urbanas e Regionais do CEG e do grupo de Investigação Literatura e Cultura Portuguesas do CLEPUL. A Exposição beneficia da colaboração complementar do Arquivo e da Biblioteca da Escola Secundária de Camões” [AQUI] - sublinhados nossos]
 
A não perder.
 
J.M.M.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

MANUEL DE ARRIAGA AO SERVIÇO DA REPÚBLICA (1840-1917)



LIVRO: Manuel de Arriaga ao Serviço da República (1840-1917);

AUTORA: Joana Gaspar de Freitas;

EDIÇÃO: INCM, 2018, 96 pp.

“O presente livro centra-se na vida e obra de Manuel de Arriaga, primeiro Presidente da República Portuguesa. Oriundo de uma família aristocrata faialense, formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, onde se revelou um aluno brilhante e um orador notável. Membro da geração de 70, adere aos ideais republicanos e intervém desde muito cedo na vida política e cultural do país, estando na origem da criação dos seus primeiros centros, em 1882.

Nesse mesmo ano, foi eleito deputado pelo círculo do Funchal e em 1890 pelo círculo de Lisboa distinguindo-se no parlamento pela pertinência das suas intervenções e decisões. Foi um dos autores do programa do Partido Republicano Português (PRP) que tinha por objeto servir de base à unificação de todos os centros republicanos. Após a implantação da República foi nomeado para o cargo de reitor da Universidade de Coimbra (18 outubro) e pouco tempo depois para o de Procurador-Geral da República (31 outubro).

Eleito Presidente da República Portuguesa em 2 de agosto de 1911, exerceu o mandato num período conturbado da vida nacional e internacional. Renunciou ao mesmo em 26 de maio de 1915, abandonando definitivamente a vida política. Faleceu em Lisboa a 5 de março de 1917 e está sepultado no Panteão Nacional desde 2003.[AQUI]
 
 

Manuel de Arriaga não fez a República, mas tornou-a possível, conquistando para a sua fé as multidões que vinham escutar as suas palavras inspiradas e ilustrando com a sua própria vida — pública e privada — os altos valores da cidadania e da virtude política.

A 22 de Maio de 2003, a Assembleia da República, através da Resolução n.º 49/2003, resolvia homenagear a memória do primeiro presidente da República portuguesa eleito democrática e constitucionalmente concedendo-lhe as honras do Panteão.

A 16 de Setembro de 2004, os restos mortais de Manuel de Arriaga deixaram o Cemitério dos Prazeres, onde tinham sido sepultados, e percorreram a cidade, em cortejo, até ao Panteão Nacional. Na urna, onde agora repousam, foram inscritos o nome e as datas de nascimento e morte do presidente Arriaga. Este escreveu um dia, no ano de 1899, que sobre a sua sepultura poderiam (deveriam?) ser colocadas as últimas quadras do seu poema Aos Astros, porque elas resumiam toda a sua fé. Assim, aqui se cumpre a sua vontade:

Astros sem fim, ó sóis que estais por cima,
Longe da Terra, em região mais pura!
Deixai que o corpo desça à sepultura
E a vós se eleve o espírito que o anima!
 
O irmão da Luz, o amante da Verdade,
Há-de ir, deixando o invólucro que veste
Como hóspede da abóbada celeste,
Internar-se feliz na imensidade!...
 
Astros! Igual é a lei que nos governa!
Na Terra, o nosso espírito fecundo
Penetra nos recônditos do mundo,
E vive como vós a Vida Eterna


 Sou republicano, porque não há outro nome que simbolize por ora melhor o credo que eu sigo. Sou republicano porque desejo que a alma do meu país esteja no coração de todos nós.”
[M. Arriaga, Discurso na Câmara dos Deputados, 4 de Julho de 1891]

J.M.M.