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terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

AS “OITO LUAS” DE GOMES LEAL NUNCA FORAM SEPULTADAS – ANTÓNIO VALDEMAR

 


As “oito luas” de Gomes leal nunca foram sepultadas – por António Valdemar, in Expresso

Poeta de surpreendentes ruturas e inovações, exerceu influência na sua geração e projetou-se no século XX ao ser reconhecido pelos movimentos de “A Águia”, do “Orpheu”, da “Presença”, dos surrealistas e outros representantes das atuais tendências literárias

1921 foi um dos anos horríveis da república. Vivia-se num sobressalto contínuo. Multiplicavam-se as guerrilhas partidárias, as revoltas militares, as reivindicações sindicais. Lisboa concentrava o auge do tumulto que se repercutia através do país. A situação atingiu o rubro com a “noite sangrenta”, o 19 de outubro, os assassínios do primeiro-ministro, do fundador da república e outras altas personalidades civis e militares. Mercenários contratados, por adversários políticos, foram buscá-los a casa, introduzidos numa “camioneta-fantasma” para serem abatidos a tiro. A sangue frio.

O poeta Gomes Leal faleceu a 29 de janeiro. Quase todos os jornais encontravam-se em greve. Não havia as condições que permitiram, na 1ª República, os funerais apoteóticos de Cândido dos Reis, Miguel Bombarda, Sidónio Pais, Guerra Junqueiro e Teófilo Braga, os três últimos com honras de Panteão Nacional, ainda nos Jerónimos.

Gomes Leal caíra em desgraça. Pessoal, política e social. Apesar de tudo isto, prestaram-lhe homenagem o chefe de Estado, António José de Almeida, e compareceram, no cemitério do Alto de São João, Henrique Lopes de Mendonça, presidente da Academia das Ciências, outros poetas e escritores, muitos estudantes universitários. Fernando Pessoa consagrou-o em versos emblemáticos: “Seus três anéis irreversíveis são/ a desgraça, a tristeza, a solidão./ Oito luas fatais fitam no espaço. (…) Inúteis oito luas da loucura/ quando a cintura tríplice denota/ solidão e desgraça e amargura!/ Mas da noite sem fim um rastro brota,/ vestígios de maligna formosura:/ é a Lua além de Deus, álgida e ignota.”

Em maio de 1910, morrera a mãe com quem sempre vivera. Gomes Leal estava com 62 anos. Os efeitos devastadores do alcoolismo aceleraram a progressiva desagregação física e intelectual, enquanto resvalava na mais deplorável miséria. Nesta situação de angústia e desespero, Gomes Leal — o poeta com relâmpagos satânicos, mas com um cristianismo afetivo que se manifestara em “História de Jesus” (1883), um dos seus livros de maior êxito — é levado a converter-se ao catolicismo. Repetia-se a situação que Roger Martin du Gard analisou no livro “O Drama Jean Barrois”, Premio Nobel da Literatura em 1913.

A conversão de Gomes Leal transpôs o domínio da privacidade. Ficou devassada na “Carta aos Sacerdotes Christãos”. Entre outras afirmações que deram brado, avulta esta confissão perentória: “Solenemente declaro que me retrato, repilo, abjuro de todos os escritos e poemas em que se mantém matéria contrária aos ideais que atualmente professo, e que foram de escândalo para Cristo e a sua Igreja.”

Foi a 2 de agosto de 1910, no jornal católico e monárquico “A Liberdade”, órgão do Partido Nacionalista que relatou a conversão de Gomes Leal. Pouco antes Gomes Leal mantivera uma coluna de opinião n’ “O Mundo”, a tribuna oficial do Partido Republicano. A 5 de outubro implantou-se o regime que tivera nele um dos mais inflamados propagandistas, mas que, na hora da vitória, o encontrou no outro lado da barricada


MEMÓRIA NA CIDADE

Numa época de exacerbado anticlericalismo, a conversão de Gomes Leal e o seu aproveitamento deram lugar a muitas especulações e afastaram-no de antigos correligionários. Pouco depois também era abandonado por católicos e monárquicos. Ficou só. Pobre, desamparado, sapatos rotos, calças esburacadas, fato velho e cheio de nódoas. Assobiado e apedrejado nas ruas, pelos garotos e pelos vadios, sem ter onde comer e dormir, passava as noites nos bancos do Rossio e da Avenida.

Transformara-se na imagem que visionara, em 1880, em ‘Fome de Camões’ ao reconstituir os passos do poeta, a caminhar “altas horas, ao frio das nortadas,/ é Camões que de fome se definha/ nas ruas de Lisboa abandonadas.” (…) “Triste, velho, sem-abrigo,/ faminto, abandonado e vagabundo,/ tenta esmolar também pelas esquinas.” (…) “A mão recusa-se a suster o passo/ a fome roí-o, curva-o o cansaço./ Cospem-lhe a neve, a chuva os aguaceiros./ Ó calçadas fatais! nas enxurradas/ vai muito fel de lágrimas choradas.”

Perante o farrapo humano e intelectual a que Gomes Leal chegara, Teixeira de Pascoaes ofereceu-lhe a sua casa em Amarante. Não quis sair de Lisboa. Jaime Cortesão, ao tempo deputado, fez um apelo veemente ao Parlamento para que lhe pagassem uma pensão de sobrevivência. Graças à solidariedade de um dos poucos amigos, o deputado socialista Ladislau Batalha, foi recolhido em sua casa onde viria a falecer. Fez na semana passada cem anos.

A memória de Gomes Leal revive em Lisboa, numa rua da cidade, num pequeno jardim e ainda num monumento no cemitério do Alto de São João, logo à entrada, no centro da alameda principal. Inaugurado em dezembro de 1925 ficou a dever-se ao poeta Alfredo Guisado, quando pertencia à Câmara de Lisboa, à última vereação da 1ª República. Em vez do retrato físico de Gomes Leal o escultor Francisco dos Santos (1878-1930), um dos autores do busto da República e da estátua do Marques de Pombal, optou pela figuração simbólica. Incorporou Gomes Leal na representação mitológica de “Orpheu”.

AS DUAS FACES

Nas últimas décadas do século XIX, Gomes Leal arrebatou Lisboa — e Lisboa era o país — com torrentes de sátira feroz e de harmonias líricas. Em 1872, a revista “Espectro de Juvenal”, que fundou com Magalhães Lima, incluía no estatuto editorial: “Juvenal é para nós o símbolo da consciência indignada. Nós somos a indignação. Nós somos incorrigíveis.” Esta declaração programática — que se acentuará em publicações de audiência diária como, por exemplo, o jornal “O Século” — vai marcar toda uma trajetória.

Desafiou o poder e os poderosos em situações pontuais com protestos incendiários que o levaram aos tribunais e às prisões. Batia-se por causas políticas e objetivos sociais. O escândalo suscitado pelo Tratado com a Inglaterra para a venda de Moçambique foi um dos momentos retumbantes de intervenção pública, no poema ‘A Traição — Autópsia de um Rei’. Não poupou o rei D. Luís, nem os ministros envolvidos neste processo.

O mesmo sucedeu ao interpelar o jornalista António Rodrigues Sampaio que, ao ascender a membro do Governo e a primeiro-ministro, era acusado de perseguir a imprensa, esquecendo o seu passado revolucionário: “Eis-me, em frente de ti velho urso na caverna (…) perguntando-te, ó Velho — onde está o Direito?/ o que fizeste ao Povo, á Consciência ao Brio?/ Onde está o pudor, rude ancião sombrio?/ Quem és? Quem és? Quem és — velho cheio de fel?/ Onde está, ó Caim o teu irmão Abel?/Quem és? Quem és? Ó Gloria! Ó nome hoje aviltado!/ Tu foste a alma do povo, hoje um renegado.”

Mas Gomes Leal teve, desde sempre, a consciência da precariedade destas intervenções, ao advertir “um panfletário é uma bexiga inchada/ de cólera, de fel, de inveja e dinamite/ que um dia explodirá assim que o fogo excite/ fazendo rebentar o mundo em estilhaços”.

A amplitude do seu génio literário — ele próprio o sabia — não se limitava à cólera dos panfletos, à ferocidade de gargalhadas nas implacáveis anotações do quotidiano. Tem outra face, num outro universo que construiu em vários ciclos e que mergulha nas vulnerabilidades da natureza humana. Atingiu em ‘Mulher de Luto’ e ‘Serenadas de Hilario no Céu’ a interioridade dos prantos sem resposta, que se deparam nas redondilhas de Camões, ‘Sobolos Rios’; em ‘Elegia do Amor’, de Teixeira de Pascoaes; e na invocação à ‘Noite’, de Álvaro de Campos.


REIVINDICAÇÃO GEOGRÁFICA

Uma das referências da obra de Gomes Leal situa-se em 1875 ao publicar “Claridades do Sul”. Coincidiu com a versão definitiva de “Odes Modernas”, de Antero de Quental, e a primeira versão de “O Crime do Padre Amaro”, de Eça de Queiroz. Gomes Leal tinha 27 anos e logo se afirmou um dos maiores poetas, em face dos seus contemporâneos. Teve uma celebridade precoce.

A grande viragem na poesia verificara-se com Antero, a partir de 1864, em “Odes Modernas”. Introduzia uma nova linguagem que se afastava das confissões ultrarromânticas, dos madrigais empolgantes, dos sentimentalismos bucólicos, para integrar a poesia nos ideais humanitários da revolução, no projeto do socialismo e na campanha para instaurar o Partido Republicano.

O aprofundamento literário, filosófico político e social vai desenvolver-se, na polémica “Bom Senso e Bom Gosto”, liderada por Antero contra António Feliciano de Castilho e seus epígonos. Acompanhou Gomes Leal este movimento e o debate ideológico desencadeado com a realização, em 1871, das Conferências do Casino.

Obra de inovação e de rutura, “Claridades do Sul” assinala, no próprio título, uma reivindicação geográfica, em face dos outros centros literários: de Coimbra das centenárias tradições culturais repartidas entre a Universidade e o Mondego; das névoas e brumas do Porto e de outros locais do norte, por vezes, em intercâmbio com a Galiza.

Lisboa, muito antes de Orpheu (1915), além de capital política, desde tempos remotos, possui vida cultural autónoma. Estabelece a transição com áreas de forte significação cultural: o Sado e a Arrábida, definidos na geografia de Orlando Ribeiro e reintegrados na literatura por Frei Agostinho da Cruz, de Sebastião da Gama e João Bénard da Costa; a planície do Alentejo, que revive nas obras de Ficalho, de Brito Camacho e de Manuel da Fonseca; e o Algarve, da serra e do litoral, entre o Atlântico e o Mediterrâneo, recriado por Teixeira Gomes, João Lúcio e Ramos Rosa.

Num poema sobre Lisboa, Gomes Leal exalta a luz, a cor, os aromas, a singularidade das colinas e a configuração dos bairros, enquanto se detém nos anacronismos e contrastes das populações: “A cidade é beata: e às lúcidas estrelas,/ o vício à noite, sai aos becos e às ruelas,/ sorrindo, a perseguir burgueses e estrangeiros.../ E à fosca e dúbia luz dos baços candeeiros,/ — em bairros imorais, onde se dão facadas —/ rola, às vezes, o vinho e o sangue nas calçadas.”(…) “As mulheres são gentis. — Umas frágeis, morenas,/ graves, sentimentais, amigas de novenas,/ ébrias de devoções, releem as suas Horas./ — Outras fortes, viris, os olhos cor de amoras,/ os lábios sensuais, cabelos bons, compridos,/ às vezes, por enfado, enganam os maridos!” (…)

Prossegue a dissecação dos hábitos, superstições e outros comportamentos inveterados que marcam a rotina. É implacável ao denunciar (tese de Antero) os fatores de atraso e mediocridade que, há séculos, contribuíram para a decadência social e cultural não só da cidade, mas do próprio país: “No entanto, a sua vida, é quase intermitente./ Chafurda na inação, feliz, gorda, contente./ E, eclipsando as ações dos seus navegadores,/ abrilhanta a batota e as casas de penhores./ Faz guerra à arte, à Ação, ao Ideal… e, ao cabo,/ — é talvez a melhor amiga do Diabo!”


PROJEÇÃO E ATUALIDADE

Poesia de largo fôlego — onde tudo é sempre levado aos extremos — deixou dezenas de livros e folhetos, recentemente publicados em edições críticas da Assírio & Alvim. Exerceu influência na sua geração e nas gerações seguintes: Cesário Verde e Camilo Pessanha. Abriu caminho à poesia do século XX: aos poetas da Águia e da Renascença Portuguesa, Teixeira de Pascoaes, Augusto Casimiro, Jaime Cortesão e Afonso Duarte não hesitou até em considerá-lo “o maior poeta português de todos os tempos”.

Louvado pelos poetas do “Orpheu”: Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Alfredo Guisado, Luís de Montalvor e Raul Leal, alguns dos quais o reconheceram como mestre. Teve a maior audiência no grupo e na geração da “Presença”: José Régio, António de Sousa, Edmundo de Bettencourt e Vitorino Nemésio que o biografou e antologiou. Os surrealistas Mário Cesariny, Natália Correia e Alexandre O’Neill, e outros representantes das atuais tendências literárias identificaram-se com as explosões de quimeras, de acasos, desvarios, sarcasmos e soluços de Gomes Leal.

Apesar de todas as adversidades nunca foi ignorado, nem esquecido. As “oito luas” de Gomes Leal nunca foram sepultadas. Se perdeu a relação imediata com o grande público que só se entusiasma com incursões pontuais, Gomes Leal também construiu um outro universo apenas com fronteiras na própria poesia. A posteridade reencontrou-o sempre nesse território intemporal, que encerra o que há de mais íntimo e mais secreto, dentro de todos nós.

As “oito luas” de Gomes leal nunca foram sepultadas – por António Valdemar [jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], in E revista do Expresso, 5 de fevereiro de 2021, p.58-59 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

[COIMBRA – 30 DE OUTUBRO] – COMEMORAÇÃO DO CENTENÁRIO DA EDIÇÃO DA “CLEPSYDRA” DE CAMILO PESSANHA

 


“CLEPSYDRA” – TRIBUTO 100 ANOS (1920-2020)

DIA: 30 de Outubro de 2020 (19,00 horas);

LOCAL: Café Santa Cruz, Coimbra;

PRESENÇAS: José Ribeiro Ferreira, Apolinário Lourenço, A. E. Maia do Amaral, Albino Matos, Emília Nave, Francisco Paz, João Rasteiro, Natália Queirós, Rui Damasceno, Rodrigo Queirós;

PINTURAS: José da Costa, Victor Costa.  

ORGANIZAÇÃO: Café Santa Cruz | Pró Associação 8 de Maio | G.A.A.C. 

NOTA: existem limitações em termos de ocupação de espaço, cumprindo as instruções da DGS.


Amanhã – dia 30 de Outubro – há lugar à Comemoração da passagem do Centenário da edição da Clepsidra, único livro de poesia editado (por Ana Castro Osório) ainda em vida de Camilo Pessanha – “um poeta de Coimbra” – e uma obra maior da literatura Portuguesa.

Trata-se também, além da rememoração da sua obra capital - mesmo se o curioso debate em torno das várias versões bibliográficas da Clepsidra esteja sempre presente - e cujo traçado simbolista foi percursor do modernismo do “Orpheu”, de uma justa homenagem a Camilo Pessanha.

J.M.M.   

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

“ANTERO, AS HORAS DO FIM” – POR ANTÓNIO VALDEMAR


Antero de Quental (1889) por Columbano

Antero, as horas do fim" – por António Valdemar, in Diário dos Açores, 11 de Setembro de 2020
O contacto directo com a realidade levou-o a conhecer a vulnerabilidade da natureza humana. A inveja que morde, o ódio que envenena. O país real, por fora e por dentro: egoísmos ferozes, privilégios inexplicáveis. A impunidade absoluta. Os inúteis disfarces. A falta de vergonha. Manifestou as preocupações que o levavam a concluir que a crise era moral

O vento revolve os plátanos e estremece as araucárias. A cidade começa a ficar mais húmida, as ruas mais vazias, acentua-se o peso das horas mortas, antecipando as noites intermináveis, repletas de fantasmas. A memória recusa a paz do esquecimento. Ponta Delgada despede-se do Verão e mergulha numa tarde baça, cor de zinco, cor de chumbo. Antero debate-se com atritos familiares. Debate-se com o tédio de viver e a incapacidade de ser feliz. Debate-se com a situação do País, em face do Ultimatum inglês. Debate-se com a derrota da revolução republicana do 31 de Janeiro. Debate-se, ainda, com o falhanço da Junta Patriótica do Norte, que surgiu para encontrar soluções e mobilizar vontades, perante a crise. Entregaram a presidência a Antero, mas nada pode realizar, enquanto assistia á debandada dos que a constituíram.
Desistiu dos combates políticos e sociais. Da urgência de questionar as estruturas institucionais do regime, definir outras diretrizes, proceder a uma reforma do Estado e da Administração Pública. Incentivar o acesso à Europa e – sempre este objetivo enunciado na inauguração das Conferências Democráticas do Casino - permitir a abertura de Portugal ao mundo. Para formar o jovem e o cidadão. Pensar e intervir de forma ativa e responsável.

O contacto directo com a realidade levou-o a conhecer a vulnerabilidade da natureza humana. A inveja que morde, o ódio que envenena. O país real, por fora e por dentro: egoísmos ferozes, privilégios inexplicáveis. A impunidade absoluta. Os inúteis disfarces. A falta de vergonha. Manifestou as preocupações que o levavam a concluir que a crise era moral: «o que se passou» - comentava, numa carta, a um amigo íntimo - «é a prova mais cabal do estado de prostração do espírito público, entre nós. Berrou-se muito e, afinal, chegaram as eleições, e toda a gente, movido cada qual por mesquinhos interesses, votou nos candidatos do Governo. Governo apoiado pela Inglaterra e que, nessa ocasião, estava lançando a polícia sobre os que faziam manifestações patrióticas».
Refugiou-se, outra vez, em São Miguel. Talvez encontrasse a desejável tranquilidade. Mas a inquietação e a dúvida não cessavam: «E quando o pensamento, assim absorto, /emerge a custo desse mundo morto/e torna a olhar as coisas naturais: /à bela luz da vida, ampla, infinita /só vê com tédio em tudo quanto fita/a ilusão e o vazio universais». Os seus olhos penetram quem os olha. Escreveu no poema para o In Memoriam de Zara, jovem irmã de um amigo: tudo é leve como a sombra sobre a água. Busca o invisível no visível. Multiplicam-se as perplexidades: «tropeço, em sombras, na matéria dura /e encontro a imperfeição de quanto existe».

De rua em rua, concentro-me e revisito lugares da infância e adolescência, casas de amigos. Uns vivos. Outros mortos. «Aqueles que eu amei, onde estão? Idos, dispersos, / arrastados no giro dos tufões, / levados, como em sonho, entre visões, /na fuga, no ruir dos universos». Perdura ainda o essencial da malha urbana e surpreendo os últimos passos de Antero na antiga cidade: «as nuvens parecem fantásticas ruínas /ao longe no horizonte amontoadas». A respiração do mar provoca uma latente e contínua ansiedade. Tudo se converte em cinza de vida ardida.
Oliveira Martins, com as informações de amigos comuns, afirmava a propósito do suicídio de Antero, numa carta a Eça de Queiroz: «cedeu por fim à tentação constitucional da sua vida. Morrer era-lhe uma obsessão. Matou-o principalmente o clima enervante de São Miguel, que estonteia o mais fleumático (…) Matou-o a sua imaginação exacerbada pelo capacete de ozone da ilha».

Setembro morno e abafado. Antero resumia sucessivos percursos: “pó e cinzas onde houve flor e encantos /e noite onde foi luz de primavera. /Olha a teus pés o mundo e desespera, /semeador de sombras e quebrantos». Que ficou, afinal, e que valha a pena? «Daquela primavera venturosa, /não resta uma flor só, uma só rosa. /Tudo o vento varreu, queimou o gelo.” As interrogações esmagavam-no. E insistia: «Pura essência das lágrimas que choro /e sonho dos meus sonhos! Se és verdade / descobre-te, visão, no céu ao menos!» Exausto. Dor e pavor. E apenas: «silêncio, escuridão e nada mais».
Os passos de Antero aproximam-se do Campo de São Francisco. Ao fundo o mar e o Castelo: «junto do mar, que erguia gravemente /a trágica voz rouca, enquanto o vento /passava como o voo do pensamento /que busca e hesita, inquieto e intermitente /junto do mar sentei-me tristemente, /olhando o céu pesado e nevoento, /e interroguei, cismando, esse lamento /que saía das coisas vagamente … /que inquieto desejo vos tortura, /seres elementares, força obscura? /em volta de que ideia gravitais?/ mas na imensa extensão, onde se esconde o Inconsciente imortal, só me responde, /um bramido, um queixume, e nada mais…»

Foi na tarde de 11 de Setembro de 1891.Tinha 49 anos. Estava desiludido. Traumatizado. Num acto de angústia e desespero, Antero decidiu o trágico encontro com a morte. Nua e crua. A escorrer sangue. Fora de casa.
Antero, as horas do fim – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], Diário dos Açores, 11 de Setembro 2020, p. 7 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

CARTAS PARA HOJE – POR ANTÓNIO VALDEMAR


Cartas para hoje” – por António Valdemar, in Revista do Expresso

[Segunda edição das cartas que Manuel Teixeira Gomes mandou a João de Barros, selecionadas por Manuela de Azevedo. Fragmentos de umas memórias que não chegaram a existir] 

“As memórias de Teixeira Gomes fizeram parte de vários projetos. Memórias políticas com a militância partidária republicana, a carreira diplomática e o exercício da Presidência da República. Memórias literárias resultantes do convívio com escritores, poetas, pintores e músicos. Em Coimbra, onde fez o secundário. No Porto, onde estudou Medicina sem concluir o curso. Em Lisboa, onde frequentou as principais tertúlias do fim do século XIX e começo do século XX. Somem-se as memórias familiares do Algarve — as relações difíceis com o pai e ainda mais difíceis com a mãe, que o deserdou, por viver maritalmente e ter filhos de uma empregada; e as do comerciante de figos com meios para passar metade do ano em viagens através da Europa. Finalmente, as memórias do exílio voluntário, após a renúncia à Presidência da República em 1925, que lhe permitiu retomar com intensidade a escrita. Nunca concretizou o grande livro de memórias que prometeu, mas deixou em correspondência pessoal, política e literária reminiscências de 80 anos de existência repleta de contrastes.

Desde sempre as cartas foram para Teixeira Gomes um modo de comunicar. Publicou em vida três livros de cartas: “Cartas Sem Moral Nenhuma”, “Cartas a Columbano” e “Miscelânea”, com relatos de viagens e reflexões literárias e estéticas. Castelo Branco Chaves também recolhera, no âmbito das edições promovidas em 1960, no centenário do nascimento, outros volumes de correspondência. Mas além da epistolografia coligida em livros existia correspondência inédita e dispersa para amigos, em especial o poeta João de Barros e que o seu filho Henrique de Barros selecionou, incumbindo Manuela de Azevedo da edição. A investigação tem prosseguido com António Barros, o neto de João de Barros, que ficou a cuidar do espolio do avô para novas edições.

Ficamos a saber, através do próprio Teixeira Gomes, o que pensava dessa literatura de testemunho que praticou com abundância: “Eu tive sempre, mais ou menos, a mania epistolar, e pouca gente terá havido que escrevesse tantas cartas como eu, no decorrer desta minha agitada, longa, e curiosa vida. (...) Talvez porque o meu temperamento se compraz no desalinho da conversação despretensiosa, e repugna às composições oratórias; seja qual for a razão o certo é que, escrever uma carta nunca me foi pesado.”

Confidenciou nas cartas a João de Barros: “Como sabe, nunca fui popular, mas a Presidência da República tornou-me detestado. Situação que abrangeu também, um pouco, os meus amigos pessoais. (…) Sem ter feito nada de bom, nem de mau, limitei-me ao estreito cumprimento das minhas obrigações de mestre de sala — levantei, no meu país, contra mim, os ódios que só costumam levantar os grandes benfeitores da Humanidade.”

Em vida e depois da morte, Teixeira Gomes foi muito criticado. Sem nunca lhe ter falado, Miguel Torga, no “Diário”, ao registar a morte de Teixeira Gomes não hesitou a chamar-lhe “manjerico”. Antes e depois do exílio, tinha inimigos de estimação, como Bernardino Machado, por incompatibilidades políticas recíprocas; João Chagas, que o insultou no “Diário”; ou Augusto de Vasconcelos, que despreza por motivos de carácter e ausência de lealdade política. Fez comentários arrasadores a Ginestal Machado, chamando-lhe “o seráfico Ginestal Machado a quem os rapazes de Santarém cognominaram o cu frouxo”. Mas um dos grandes ódios de estimação foi Cunha Leal, que lhe movera uma campanha sistemática na tribuna de São Bento ao ler, quando era Presidente da República, as passagens dos livros com referências sexuais. A divulgação provocou os efeitos desejados: Teixeira Gomes não perdoou a Cunha Leal.
 
 
Era com desdém que o antigo Presidente se pronunciava acerca de intelectuais portugueses que, em vida, o lisonjearam e depois o atacavam e de forma insultuosa. Júlio Dantas, além da ferocidade do manifesto de Almada Negreiros, não escapou à sátira de Teixeira Gomes. Chamou-lhe “merdiflor”. E acrescentava, entre outras considerações fulminantes: “Deve-se-lhe um invento genial: a aplicação dos pastéis de nata em supositórios. Uma vez na confeitaria Marques, engoliu, por ‘ali’ uma grande bandeja cheia deles.”

Augusto de Castro é outro visado, e com extrema contundência. Refere que lhe devia, quando Presidente da República, favores políticos, ao desejar interromper a direção do “Diário de Notícias” para ingressar na carreira diplomática, em Inglaterra e em Itália, junto do Papa. Outra crítica virulenta atingiu Afonso Lopes Vieira, com quem tivera, aliás, relações muito cordiais e expressas em correspondência. A opinião alterou-se quando Lopes Vieira derivou para a exaltação de Fátima, de que terá sido o primeiro poeta oficial.

A opinião de Teixeira Gomes acerca da literatura portuguesa era radical. Considerava-a “um mito” e insistia: “Nós parecemos tudo menos o que na realidade somos, isto é, plagiários inveterados, do princípio ao fim, de uma literatura de décima ordem.”

Mesmo assim, demonstrou apreço por algumas obras e escritores, como Camões — “o melhor exemplo de uma repentina e salutar renascença, de pureza de formas e claridade de ideias e de estilo”. “No entanto”, advertia, “o publico pouco se importa com o genuíno Camões, que não distingue senão pelo nome (e por ventura pelo olho de menos) dos demais poetas dos tempos idos”. Era Fernão Mendes Pinto a figura que “sempre exerceu fascinação irresistível”, sobretudo “pela graça e cristalina simplicidade do seu estilo, que parece de agora”. Eça não o satisfaz tanto como Camilo, que apontou como o maior escritor português do século XIX. Bernardes e Castilho são referências assíduas e cita Bernardim Ribeiro quando pretende justificar estados de alma.

Perante os seus contemporâneos, Teixeira Gomes é um clássico. Condenava o desalinho e a confusão. Rejeitava a forma rebuscada e pomposa, a frase seca e o “estilo embaçado como se fosse temperado com sumo de marmelo cru”. Para ser espontâneo teria de haver um trabalho de “ferreiro, que passa da forja à bigorna, e daí à lima”.

A Republica desiludiu-o: “Sabia muitíssimo bem que, na incapacidade de resumir os seus ideais em princípios, o nosso povo os havia encarnado em meia dúzia de figuras representativas da Republica, e avaliava o que ela sofria em desdoiro e desonra, com os insultos infâmias que esses homens, sem o menor rebuço e desbragadamente, se assacavam e lançavam uns aos outros.” O modo como foi tratado quando exerceu a Presidência da República magoou-o profundamente. Em abril de 1927, escrevia a João Barros: “É, ou parece, um país de réprobos, onde todos vociferam, ardendo em ódio, consumidos de inveja.”
De país em país encontrou, finalmente, em Bugia (Argélia francesa) o local para se instalar nos últimos dez anos de vida. Passara já os 70 anos de errância contínua. Por diversas vezes, Teixeira Gomes falou do envelhecimento, das doenças que o atingiram. Porém, manteve até ao fim uma espantosa memoria. Na reta final, não deixou de confidenciar: “Estas cartas já se vão dando ares de ‘capítulos de memórias’, que não é intenção minha escrever. (...) Eu sigo, tanto quanto possível, saboreando este resto de vida, como criança que come o seu último bolo, às migalhas.
Ao corresponder-se com João de Barros, Teixeira Gomes sabia que as cartas não seriam destruídas e, mais cedo ou mais tarde, seriam publicadas. Construiu a imagem que fazia de si próprio e que teria sido adulterada, a propósito da ação que exerceu na vida publica. Escreveu sempre para a posteridade
Cartas para hoje – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências] – E revista do Expresso - 22 de Fevereiro de 2020, pp. 69 – com sublinhados nossos.com sublinhados nossos.

J.M.M.

sábado, 31 de agosto de 2019

“A ESSÊNCIA DO TRÁGICO” OU “ANTERO, PORTUGAL COMO TRAGÉDIA”


"A essência do trágico” – por António Valdemar, in Caderno E, Expresso

Para Eduardo Lourenço, Antero de Quental, marcou o início da modernidade literária no nosso país

"Todos os ciclos da criação poética, todos os ensaios filosóficos, todas as interpelações cívicas e todos os textos políticos de Antero de Quental (1842-1891) foram objeto de estudo e interpretação de Eduardo Lourenço, ao longo de mais de 50 anos. Encontram-se agora reunidos num único volume com o título genérico Antero, Portugal como Tragédia. Destaca-se, em apêndice, um relatório da PIDE — arquivado na Torre do Tombo — acerca da conferência que Lourenço fez sobre Antero, em 1971, no Teatro Gil Vicente, em Coimbra, mencionando nomes de professores e alunos da Universidade de Coimbra que assistiram.

Para Eduardo Lourenço, Antero é “a maior referência intelectual portuguesa” e “o primeiro português que teve uma consciência trágica do destino humano”. E justifica que vários ensaístas, para retirar Antero do “lote dos suicidas anónimos”, atribuem a procura desesperada da morte a depressões patológicas, a uma peripécia subjetiva ou, ainda, a uma tragédia sentimental, quando se trata do “último ato de uma vida que desejou tocar a face de Deus e não a encontrou”. A essência do trágico resulta do “combate a rosto descoberto que destrói uma por uma, com uma espécie de raiva triste, todas as flores da ilusão, todas as esperanças que o nascer do dia oferece à alma humana”.
Antero — considera Eduardo Lourenço — marcou o início da nossa modernidade, representa “o seu próprio ato fundador”. Verificou-se na criação poética — e esta é a primeira leitura literária profunda que se faz a partir de “Odes Modernas” — não apenas ao nível da ideia, das incursões no universo da filosofia; na poesia social, na “poesia revolucionária do futuro”, mas ao abrir caminho ao imaginário de Cesário Verde, de Camilo Pessanha e de Fernando Pessoa. Teve, contudo, maior impacto na afirmação da modernidade o discurso inaugural das Conferências do Casino (1871): “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”. Introduziu uma revolução cultural que “nem é de natureza literária, nem política, nem mesmo ideológica ou banalmente filosófica, embora se traduza em todos estes planos, mas religiosa”. Proposta sem precedentes em Portugal, “no círculo da religião, não abstratamente visada, mas concreta, institucional”, abrangendo todos os valores intocáveis, desde os da pátria aos da justiça, desde os da ordem aos da família.

Estabeleceu, pela primeira vez em público, um separar das águas, “um ajuste de contas da nossa cultura com ela mesma”. Atingiu o legado doutrinário imposto pelo Concílio de Trento, que amordaçava a liberdade de consciência e todas as outras liberdades e instaurou o Tribunal da Inquisição, implantando o catolicismo dogmático e intolerante. Antero avançou, entretanto, com a urgência de uma rutura frontal. As Conferências do Casino foram proibidas pelo Governo e encerradas pela polícia.

Decorridos 150 anos, apesar dos Concílios do Vaticano e das encíclicas que surgiram, a polémica não perdeu atualidade. Continua a ser — acentua Lourenço — uma questão “recalcada, diluída, escamoteada, não apenas na ordem das ideias (que é essencial) mas nos efeitos delas, no plano dos sentimentos, dos afetos, dos rituais privados e públicos que os encarnam”.
Posto isto, Eduardo Lourenço observou, em 1991, e volta a repetir hoje: “A cem anos da sua voluntária morte, Antero ainda tem inimigos. E merece tê-los. O horror seria que os não tivesse. (…) A visão unanimista da Geração de 70 que tem nele o seu ícone cultural esconde mal os conflitos, os antagonismos, as rivalidades, surdas ou clamadas, que, com matéria viva, o atravessaram.” Antero deixou uma obra que “é a estrela negra, fascinadora e repulsiva. (...) A configuração trágica da obra e da vida de Antero — a primeira entre nós que assumiu esse perfil — é odiosa a gregos e troianos”.

Nestes ensaios, Eduardo Lourenço apresenta-nos uma visão original e clarificadora da problemática anteriana do “prosador e do poeta de génio” e outro aprofundamento do homem múltiplo e trágico. A exigência da palavra verifica-se nos mais diversos textos. Aliás, Vitorino Nemésio, mal saiu a “Heterodoxia”, livro de estreia de Eduardo Lourenço, em 1949, alertou para “um nervo e uma elegância que farão a inveja de muitos prosadores”. Confirmou-se. Eduardo Lourenço, que integra uma geração de escritores consagrados (Vergílio Ferreira e Carlos de Oliveira são exemplos incontestáveis), é também um dos grandes escritores da língua portuguesa”



Antero, Portugal como tragédia, Eduardo Lourenço, FCG, 2019, 666 pp.
 
A essência do trágico – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], revista E, Expresso, 31 de Agosto de2019, pp. 64 – com sublinhados nossos

 
António Valdemar

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

[DIA 4 FEVEREIRO] CONFERÊNCIA – “A INICIAÇÃO DE [VITORINO] NEMÉSIO”



DIA: 4 de Fevereiro de 2019 (17,00 horas);
ORADOR: Luiz Fagundes Duarte;

LOCAL: Academia das Ciências de Lisboa (Rua da Academia das Ciências, 19);
ORGANIZAÇÃO: Academia das Ciências de Lisboa

No decorrer do Ciclo de Conferências “100 Anos de Prosa”, a Academia da Ciências de Lisboa promove, no dia 4 de Fevereiro, uma curiosa Conferência sobre Vitorino Nemésio, sendo ilustre orador o Professor Luiz Fagundes Duarte  


 
► “No seu romance de estreia –  Varanda de Pilatos  (1926) –, Nemésio descreve uma suposta iniciação maçónica: o 'iniciado', que adoptou Bartolomeu dos Mártires como nome simbólico, é a personagem Venâncio, na qual se identificam traços biográficos do autor – que por sua vez, pouco tempo antes (1923), fora iniciado como Manuel Bernardes na Loja ‘A Revolta’, de Coimbra. 

Mais tarde (no ensaio 'Da Poesia', 1961), Nemésio considera que o soneto de BaudelaireCorrespondances’ – de forte simbologia maçónica –, se viria a transformar em ‘um dos pretextos capitais da teoria da essência poética, senão o seu fundamento’.

Finalmente, na dedicatória de Limite de Idade (1972) a Aurélio Quintanilha, Nemésio aplica a este seu amigo – cientista, professor e maçon, além de conterrâneo da Ilha Terceira –, e à sua obra científica, o conceito maçónico do ‘eterno retorno’.

Sigamos, pois, o trilho de Nemésio pela «floresta de símbolos» que é a sua obra literária” [AQUI]

A não perder. 
 
J.M.M.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

“SE BEM ME LEMBRO …” OU PARA QUE NÃO NOS ESQUEÇAMOS



Se bem me lembro …” ou para que não nos esqueçamos – por Manuel Seixas, in Diário de Coimbra, 19 de Dezembro de 2018

Em 19 de Dezembro de 1901, nasceu Vitorino Nemésio na Praia da Vitória, ilha Terceira, Açores. Hoje, portanto, há 117 anos.

“... um grande poeta em quem Poesia e Vida se uniram servindo de espelho a uma grande alma" - palavras sábias e sentidas que ele próprio proferiu na homenagem ao seu amigo e companheiro "Tríptico"[1] Afonso Duarte. Palavras de Nemésio para o poeta da Eireira, palavras nossas agora para o poeta da Terceira.
A pessoa que "se desfazia em linguagem", "o poeta extraviado" e o mais universal de todos os açorianos, tudo escolheu em Coimbra - o curso, a companheira e a morada definitiva[2]. Aqui se licenciou mas, mais do que isso, aqui se formou.
Um homem de "saber sem pautas" que sobre tudo se interrogou e a todas as portas bateu. Da convivência agnóstica com Jaime Brasil, seu mentor literário inicial, passou pela faminta sobrevivência em Lisboa no meio anarco-sindicalista, seguindo-se a formação humanista com Joaquim de Carvalho. Os amigos que lhe acudiram ao corpo moldaram-lhe também a alma. Aurélio Quintanilha, António de Sousa, Martins de Carvalho, Afonso Duarte, Paulo Quintela e Mário de Castro - de todos foi amigo e cúmplice.
Da Associação Cristã de Estudantes ao Centro Republicano Académico, passou pelo Orfeão Académico e pela Loja A Revolta. Esteve em todos os combates contemporâneos, "poetava" e conferenciava, admirou o espírito de Merea e o brilho de Cerejeira, mas declarou guerra às sua ideias e bateu-se no senado universitário contra o protegido do reitor Fezas Vital.  
"Um homem exerce enquanto vive" afirmaria na sua última lição, naquela que considerou ser um exame de consciência da sua vida. Assim fez - ao viver, produziu uma obra ímpar - de ficção, de crónica, de ensaio, de tradução, de estudos literários e jornalismo, mas sobretudo poesia. Sempre e acima de tudo, poeta.
Rumou a Lisboa para a formatura, depois para o doutoramento, mas sempre voltou a Coimbra para repouso e trabalho. França, Bélgica, Brasil, para aprender e para ensinar mas sempre regressou a Coimbra, às Albergarias ou aos Casareus, a Celas ou ao Tovim. Entre crises místicas de profunda religiosidade e enamoramentos serôdios, a sua riquíssima formação e a curiosidade insaciável pela leitura permitiram-lhe tudo - a ironia e o experimentalismo, o simbólico e o formal, o lirismo e o plebeu. Mas também a insatisfação e a procura constantes. 
O grande público de então recordará sempre o seu contacto semanal televisivo, o comunicador em que a fala competia com as mãos e a admiração do espectador oscilava entre o conteúdo do discurso e a teatralidade do gesto.
A suas raízes de insularidade nunca esquecida e o mar, como elemento eterno, ficaram impressos na singeleza magnífica da sua campa quase rasa no cemitério de Coimbra que escolheu, para nunca termos que lhe dizer adeus, apenas cumprimentá-lo.
Se bem me lembro …” ou para que não nos esqueçamos – por Manuel Seixas, Diário de Coimbra, 19 de Dezembro de 2018 – com sublinhados nossos.


[1] Tríptico - jornal fundado em Coimbra por Nemésio e seus amigos Afonso Duarte, João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca
[2] Vitorino Nemésio está sepultado por sua vontade expressa no cemitério de Santo Antônio dos Olivais, Coimbra

J.M.M.