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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

NO CENTENÁRIO DA UNIVERSIDADE LIVRE DE COIMBRA (1925-2025)

 

NO CENTENÁRIO DA UNIVERSIDADE LIVRE DE COIMBRA (1925-2025)

DIA: 5 de Fevereiro de 2025 (16,30 horas);

LOCAL: Museu Municipal de Coimbra/Galeria Almedina (Arco de Almedina/Rua Ferreira Borges);

ORGANIZAÇÃO: Grupo de Arqueologia e Arte do Centro (GAAC) | Museu Municipal de Coimbra | CMC 

“Na próxima quarta-feira, dia 5 de fevereiro, assinalam-se os 100 anos da fundação da Universidade Livre de Coimbra. Para assinalar a efeméride, o Museu Municipal vai expor na Galeria Almedina do Museu Municipal a exposição “No Centenário da Universidade Livre de Coimbra 1925 – 2025”, organizada pelo GAAC. Pelas 16h30, a cerimónia de inauguração vai contar com a presença do presidente da Câmara Municipal (CM) de Coimbra, José Manuel Silva, do vice-presidente da CM de Coimbra, Francisco Veiga, e do presidente do GAAC, Valdemar Rosas.

A exposição pretende assinalar os oito anos de funcionamento da Universidade Livre de Coimbra (ULC), na Torre de Almedina, de 1925 a 1933. As universidades livres nasceram do ideal civilizador, laico e republicano de promoção social, moral e intelectual das camadas populares. A Universidade Livre, que tinha sede em Coimbra e secções ou delegações em quaisquer localidades, pretendia ser um instituto de educação popular que atuava fora de qualquer escola política ou religiosa e que tinha por função fomentar a cultura e a educação moral e social, promover a aproximação dos trabalhadores manuais e intelectuais e auxiliar a obra de extensão universitária.

Para atingir as suas finalidades, a Universidade Livre propunha-se, de um modo geral, a organizar conferências, cursos, lições, palestras, excursões e viagens de estudo, espetáculos e sessões cinematográficas, festas de caráter educativo, concertos musicais, auxiliar e manter bibliotecas e salas de leitura. Museus de carácter pedagógico, venda e edição de livros, estampas, folhetos e quaisquer outras publicações e colaboração com todas as escolas na realização de uma mais intensa e extensa ação educativa no seio das classes de trabalho manual faziam parte também da sua ação. Os cursos mistos ministrados versaram história, francês, escrituração comercial, botânica, dactilografia, aritmética, num total de 19 especializações.

“No Centenário da Universidade Livre de Coimbra 1925 – 2025” pode ser visitada, gratuitamente, de terça a sexta-feira, das 10h00 às 18h00 e, no fim de semana, das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 18h00. A mostra vai estar patente até 23 de março, dando a conhecer documentação, referências e obras produzidas por alguns dos protagonistas e mentores da ULC” [AQUI]

J.M.M.

terça-feira, 8 de outubro de 2024

I CONGRESSO IMPRENSA DE EXÍLIO(S)

 

A cidade de Coimbra acolhe nos próximos dias 10 e 11 de outubro de 2024, organizado pelo Grupo Internacional de Estudos da Imprensa Periódica Colonial do Império Português.

Ao longo de dois dias vários investigadores vão apresentar os resultados das suas pesquisas e investigações já concluídas ou em curso sobre a temática da Imprensa de Exílio, a ter lugar no Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra. 

No dia 10 de Outubro, o congresso começa com:

Painel 1. Exilados e Jornalistas 

Moderadora: Alice Santiago Faria (CHAM - FCSH UNL)

Hédia Sioud (Université de Monastir) - Un journaliste “musulman” à Paris au milieu du 19 ème siècle (presencial) 

Cielo G. Festino, (Universidade Paulista) - A volta do exilio. O caso das traduções de Evágrio Jorge da obra de Munshi Premchand (online – Brasil) 

Daniela Spina (CHAM - FCSH UNL) – “Lutemos, porque, vive só quem luta”. A transição de migrante a exilado do goês no estrangeiro, em três periódicos publicados na Índia Inglesa na década de 30 (presencial) 

Sushila Sawant Mendes (Investigadora independente) - An Exiled Pamphleteer: T.B. Cunha as Journalist, Activist and Ideologue (online – India)

Painel 2. Experiências de exílio

Moderadora: Noemi Alfieri (CHAM - FCSH UNL)

Mahamadou BD Maiga (Institut Grotius, Centre Africain de Recherche et d'Innovation) – Liens entre les réseaux d`exil et clandestins dans la lutte anticoloniale (online – Mali) 

Andrea Vacha (CIES – ISCTE-IUL)  - A campanha do Brado Africano para libertar Zixaxa (o último exilado) (presencial)

 Elisa Scaraggi, (IHC - FCSH UNL) - Internacionalismo no exílio. Um mapeamento das publicações de Mário Pinto de Andrade na imprensa periódica internacional (online – EUA) 

Heloísa Paulo (Investigadora independente) – Imprensa colonial no Exílio: de Goa à Angola (presencial)


17.00h – 19.00h Mesa redonda. 

Os arquivos da imprensa de exílio

 Moderadora: Sandra Ataíde Lobo (CHAM - FCSH UNL)

Participantes: 

Alexandrina Buque, Arquivo Histórico de Moçambique, Universidade Eduardo Mondlane 

Catarina Santos, Fundação Mário Soares e Maria Barroso 

Filipe G. Silva, Fundação Mário Soares e Maria Barroso 

Inês Ponte, Arquivo de História Social, ICS, Universidade de Lisboa 

Maria Cristina Freitas, Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra 

Simão Jaime, Arquivo Histórico de Moçambique, Universidade Eduardo Mondlane


11 de Outubro 

10h – 12.30h

Painel 3. Jornais e revistas 

Moderadora: Adelaide Vieira Machado (CHAM - FCSH UNL)

Brahim Jadla (Université de La Manouba) – Loughat al-ʿArab (1911–1931): Une revue arabe à l’écoute du monde (presencial) 

Pedro Marques Gomes (LIACM -IPL; Fundação Mário Soares e Maria Barroso – Um jornal de luta a partir do exílio: o Portugal Socialista e o combate contra a ditadura (online) 

Augusto Nascimento (Centro de História da Universidade de Lisboa) – O Faúlha: o voluntarismo efémero (presencial) 

Simão Jaime e Alexandrina Buque (Arquivo Histórico de Moçambique, Universidade Eduardo Mondlane) – O Jornal Tunduru e o Projecto de Educação da FRELIMO (presencial) 


14h – 16.30h 

Mesa redonda: Imprensa anticolonial, exílios e exilados

Moderadores: 

Pedro George (exilado em Londres/exiled in London, exilé à Londres) & Cristina Clímaco, Laboratoire d'Études Romanes, Université de Paris 8 

Participantes (lugares de exílio): 

- Álvaro Miranda (Londres) 

- Guiomar Ramos (São Paulo) 

- Henda Ducados (Rabat) 

- Joaquim Saraiva (Aarhus, Copenhaga) 

- Luísa Tito de Morais (Paris, Praga, Argel) 

- Óscar Monteiro (Argélia, Tanzania, França, Itália, etc) 


16.30 – 17.15 

Apresentação de livro:

Cristina Clímaco, Laboratoire d'Études Romanes, Université de Paris 8, Os exilados de Salazar (Lisboa: Âncora, 2024) de Heloísa Paulo 

17.15-18.30 Arquivos e investigação

Visita guiada à exposição “A imprensa e outros documentos de exilados no CD25A” 

Apresentação: “A imprensa de exílio nas colecções do AHS/ICS-ULisboa, do CD25A e da FMSMB: um trabalho colaborativo” 

Para acesso online, contactar até dia 9 de Outubro:

imprensadeexilios@gmail.com 

O programa completo do congresso pode ser consultado/obtido AQUI. 

A pagina do congresso pode ser consultada aqui: https://imprensaexilios.weebly.com/  

Com os votos do maior sucesso para tão interessante iniciativa.

Entrada Livre e gratuita. 

A.A.B.M.

sábado, 19 de novembro de 2022

[19 DE NOVEMBRO DE 2022] 200 ANOS DO NASCIMENTO DE JOAQUIM MARTINS DE CARVALHO

 



200 ANOS DO NASCIMENTO DE JOAQUIM MARTINS DE CARVALHO

Joaquim Martins de Carvalho foi um notável jornalista conimbricense – talvez o mais admirável do seu tempo – e ocupa, por mérito próprio, um singular relevo na imprensa liberal da segunda metade do século XIX. Os trabalhos jornalísticos, disponibilizados nas “páginas faladas” do periódico O Conimbricense (nº 1, 24 de Janeiro de 1854) que sabiamente administrou e redigiu, permitem-nos antever a eloquência e generosidade do seu saber, compreender o seu infatigável combate e firmeza pela causa da liberdade e testemunhar o seu enorme afecto e amor a Coimbra.

O seu fecundo labor pelas belas letras e em prol das associações operárias retrata um inquieto “filho do seu tempo”, um homem de acção, de combate e de sonhos. De facto, em tempos de grande agitação política e onde se combatia e morria pela liberdade, Joaquim Martins de Carvalho “simbolizou a luta do homem pela vida. Pertenceu a essa raça privilegiada de batalhadores que devem tudo o que são a si mesmo, à sua perseverança, ao seu trabalho e à sua dedicação pela causa que perfilham e defendem" (revista do Grémio Lusitano, Ano IX, n.20) [AQUI]

J.M.M.

sábado, 23 de julho de 2022

VIVA LIBERATO! – NOS 250 ANOS DO SEU NASCIMENTO (1772-2022)

 


Viva Liberato! (20 de Julho de 2022); Editorial Moura Pinto & Comissão Liberato – Capa de Alberto Péssimo; Coimbra, Edição Gratuita (tiragem de 200 exemplares).

Trata-se de um curioso jornal e peça bibliográfica estimada e de grande merecimento, impresso sob os auspícios do Editorial Moura Pinto e da Comissão Liberato (de distribuição gratuita), que acompanha as Comemorações dos 250 Anos do Nascimento de José Liberato Freire de Carvalho. O periódico saiu a público no decorrer da interessante e cuidada Homenagem a um dos mais distintos liberais vintistas, alevantada pela Comissão Liberato, ao vale do Mondego, e que se tem vindo a realizar. E promete continuar e ilustrar-nos com os seus devotos trabalhos. Vale!


Colaboração: Ana Maria Leitão Bandeira (Procuração de Liberato), Comissão Liberato (Obras publicadas), Daniel Estudante Protásio (José Liberato e a Junta Apostólica), João Pinho (Breve história da Comissão Liberato), José Liberato Freire de Carvalho-capa (Alberto Péssimo), José Liberato Freire de Carvalho (Da força da opinião), José Manuel Martins (Londres e as luzes do exílio), Manuel Seixas (José do Loreto).





NOTA: para ler fazer download

J.M.M.

quinta-feira, 21 de julho de 2022

[COIMBRA] – JOSÉ LIBERATO FREIRE DE CARVALHO. EXPOSIÇÃO DOCUMENTAL E BIBLIOGRÁFICA

 

JOSÉ LIBERATO FREIRE DE CARVALHO. EXPOSIÇÃO DOCUMENTAL E BIBLIOGRÁFICA

DIA: 22 de Julho de 2022 (16,00 horas);

LOCAL: Sala de D. João III do Arquivo da Universidade de Coimbra (Universidade de Coimbra);

ORADOR: Luís Francisco Munaro (videoconferência)

ORGANIZAÇÃO: Arquivo da Universidade de Coimbra | Comissão Liberato 

O Arquivo da Universidade de Coimbra e a Comissão Liberato patrocinam uma Exposição Documental e Bibliográfica nos 250 Anos do Nascimento de José Liberato Freire de Carvalho (1772-1855). Trata-se de mais um tributo de Homenagem, das reconhecidas e bem estimadas levadas a bom termo pela incansável Comissão Liberato, à memória do cidadão de Montessão, emérito jornalista e figura relevante do nosso primeiro liberalismo.


► “Os atos recordatórios têm por finalidade evocar acontecimentos e personalidades que se procuram fazer reviver, contextualizando-os, trazendo-os ao conhecimento das novas gerações, alargando o entendimento que deles fazem os especialistas e conhecedores íntimos dessas vidas e momentos. José Liberato Freire de Carvalho (1772-1855) veio ao encontro do Arquivo da Universidade de Coimbra (AUC) pela mão da Comissão Liberato, particularmente acompanhado pelo Sr. Dr. Manuel Seixas, sugerindo a sua evocação, neste ano em que perpassam 250 anos do seu nascimento. As obras que, recentemente, têm sido lançadas, sobre a sua vida e obra, com particular ênfase na sua atividade como jornalista de opinião, em Londres (nos jornais O Campeão Portuguez, O Investigador Portuguez em Inglaterra e Paquete de Portugal) ou, ainda, a reedição dos seus trabalhos, são bem reveladores de como José Liberato, ainda desconhecido para muitos, abraçou a causa da liberdade de expressão e pensamento e foi fiel aos mais altos valores que regeram a sua vida. Começou a redigir as Memórias da Vida em 1852, aos 80 anos, tendo escolhido uma frase de Plínio (Epistola II) que surge na folha de rosto da obra, só publicada em 1855: «Aqui de que vivi deixo a lembrança».

Foi essa sua lembrança de vida que se procurou seguir, em pesquisa documental no acervo do AUC, começando por trazer a lume os que o ajudaram a formar a personalidade, em ambiente familiar e solidário: seu avô paterno e seu pai, ambos formados na Universidade de Coimbra e seus irmãos. A vocação religiosa, foi decidida em tenra idade. A sua entrada na Congregação dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, em idade muito jovem veio a revelar-se uma escolha não desejada. Quando decidiu a secularização, invocou que entrara aos 15 anos para o claustro daquela congregação «sem ter conhecimento das obrigações que devia observar...pelo que tem vivido aflito e descontente», tendo-se ausentado para Londres, onde vivia quando, em 1818, solicitou a secularização. O acervo do AUC, infelizmente, não guarda fundos monásticos íntegros, os quais se fracionaram, por várias instituições, após a nacionalização de bens e extinção das ordens religiosas, em 1834. Por essa razão, não se puderam apresentar documentos que confirmam o ingresso no citado Mosteiro, ou a frequência no Colégio da Sapiência, da mesma ordem religiosa Mas foram selecionados muitos outros documentos que, juntamente com o acervo bibliográfico cedido para a exposição, formam um conjunto documental significativo, evocador de diversos momentos da vida de José Liberato. Entre os diversos trabalhos que preencheram a sua longa vida, estão o de editor, tradutor, parlamentar e também arquivista da Câmara dos Pares.

A sua personalidade íntegra manifesta-se em diversos atos ao longo da sua vida, mencionemos apenas um: renunciou ao seu subsídio de deputado, por ser já remunerado como arquivista e tesoureiro da Câmara dos Pares e não aprovava «a pluralidade de ordenados na mesma pessoa». Aí está, perante visitantes desta exposição e leitores deste catálogo, uma vida que merece ser conhecida, apreciada e homenageada.”

[Ana Maria Leitão Bandeira (Arquivista do AUC) – in Introdução ao Catálogo da Exposição Documental e Bibliográfica]

J.M.M.

sexta-feira, 3 de junho de 2022

O NASCIMENTO DO JORNALISMO PORTUGUÊS LIVRE. O JORNALISMO LUSO-BRASILEIRO EM LONDRES (1808-1822)

 


LIVRO: O Nascimento do Jornalismo Português Livre. O jornalismo luso-brasileiro em Londres (1808-1822);

AUTOR: Luís Francisco Munaro

EDIÇÃO: Lema d´Origem, Março de 2022.

NOTA: Baseia-se esta edição (2.º ed.) na muito importante tese de doutoramento em História (Universidade Fluminense) de Luís Francisco Munaro. Apresenta um prefácio do professor Guilherme Pereira das Neves. 

LANÇAMENTO:

DIA: 6 de Junho 2022 (18,00 horas);
LOCAL: Casa da Cultura (Rua Pedro Monteiro, Coimbra);

ORADORES: Prof.ª Isabel Nobre Vargues | Prof.ª Adelaide Machado | Prof.º Vital Moreira | Prof.º Luís Reis Torgal;

ORGANIZAÇÃO: Lema d’Origem, Comissão Liberato, União das Freguesias de S. Martinho e Ribeira de Frades

► “… Este é um trabalho sobre identidade, uma investigação sobre determinados indivíduos a partir dos vestígios escritos daquilo que viveram, levando em conta que o jornalismo constituiu uma parte fundamental da trama de suas vidas. Visto como herói ou como vilão pela historiografia nacional, Hipólito da Costa inaugurou a produção periódica portuguesa livre da censura. Ao longo de quatorze anos, nos quais viu a arquitetura do Reino luso-brasileiro se retransformar radicalmente, manteve firme o propósito de levar a cabo uma publicação para instruir o público brasileiro. Nada mais ilustrativo, portanto, do que começar e terminar a narrativa com ele, chamado por João Bernardo da Rocha Loureiro de "patriarca" da imprensa portuguesa, ou por Joaquim de Freitas de "Adão" da terra dos periódicos.

Tanto quanto seus colegas portugueses, Hipólito precisou reiventar-se e reinventar a sua escrita para alcançar setores cada vez mais inquietos da população. Entre 1808 e 1822, tempo em que durou o Correio Braziliense, os jornalistas portugueses buscavam inserir a razão iluminista no mundo ibérico ainda governado pelas tradições e pela política do Antigo Regime. Mesmo que mergulhado nesse universo de etiquetas e devoção à Casa Monárquica, Hipólito se envolveu precocemente com a República norte-americana, conheceu o modo de funcionamento dos jornais na Filadélfia e, depois, em Londres, misturou-se aos negociantes que buscavam interagir mais livremente com o mundo britânico. O Correio serve, assim, como um veículo privilegiado para a compreensão da difícil transição do reino que queria incorporar, da forma menos traumática possível, as Luzes de que tanto falavam os philosophes.

Tarefa ingrata, como se perceberá. Tarefa, ademais, impossível de ser com-preendida em sua real dimensão sem que conheçamos mais profundamente a comunidade em que Hipólito estava inserido, seu círculo de interlocutores, sua necessidade de rebater escritos que pregavam a subserviência do Brasil a Portugal ou que panfletavam a causa republicana. Com a firme convicção de que essa produção que estabeleceu as bases do jornalismo lusófono não pode ser entendida isoladamente, buscamos estender a análise para o circuito de interações que envolvia vários jornais publicados no exterior. Jornais tão diversos como O Português, O Espelho, O Campeão, O Investigador, O Microscópio de Verdades, O Padre Amaro, Argus, Zurrague e o efemero Navalha de Figaró, publicados no espaço que vai da invasão de Napoleão na península ibérica até a proclamação da independencia brasileira.

Cada um desses periódicos possui uma identidade que pode ser determinada a partir do conflito criado com os outros. Cada um desses busca criar uma forma particular de se relacionar com o pensamento das Luzes, tornando-o adequado às idiossincrasias intelectuais do reino luso-brasileiro […]

Estes jornais publicados em Londres para o público lusófono, ao serem consumidos, davam aos seus leitores a segurança de estarem sendo lidos concomitantemente por vários indivíduos semelhantes a eles e diferentes dos outros. Eles geravam a possibilidade de criar vínculos imaginados, espaços de fraternidade e discussão intelectual até então impossíveis em Portugal e Brasil. Portanto, criaram um canal de difusão de ideias que ajudou a expandir as sociabilidades portuguesas e garantir alguma variedade nas formas de imaginar o Reino luso-brasileiro. Sobretudo, entre estes jornais, existe uma apreensão que gira em torno dos planos e projetos relativos à sede do Reino luso-brasileiro. Se, na utopia mais cara à época, o reino deveria abrigar os portugueses em ambos os lados do Atlântico, a demora do rei no Brasil gerava um clima de desconforto e orfandade entre os portugueses.

Para Hipólito da Costa, o Brasil também surgia como uma espécie de utopia, um projecto de governo ideal deslocado do tempo e espaço europeus, sugerindo a possibilidade de realização da história portuguesa em sua maior pureza […]

[Luís Francisco Munaro, in Introdução, pp. 17 e ss]


J.M.M.

quinta-feira, 31 de março de 2022

JOSÉ LIBERATO - ASSINALAR A MORTE PARA CELEBRAR A VIDA

 


JOSÉ LIBERATO FREIRE DE CARVALHO 
[1772 - m. 31 de Março de 1855]


[Manuel Seixas, Coord. da Comissão Liberato - in Diário de Coimbra]



31 de Março de 2022

QUE VIVA JOSÉ LIBERATO FREIRE DE CARVALHO

J.M.M.

sábado, 11 de setembro de 2021

SIM! AURÉLIO QUINTANILHA (1892-1987) FOI ANARQUISTA

 


Uma das figuras cimeiras do movimento intelectual libertário português foi o sábio cientista Aurélio Quintanilha (1892-1987). A filiação de Quintanilha na corrente anarquista é por demais conhecida, não podendo ser desautorizada nem omitida, como foi o caso que iremos citar.

Acontece que Aurélio Quintanilha foi na página do Facebook dos Antifascistas da Resistência muito biograficamente maltratado: omissão total da sua condição de anarquista. E, pasme-se, a resposta dada pelo impressionado administrador da página a um leitor que lhe autopsiou a biografia, questionando a não alusão à militância libertária do célebre intelectual libertário, foi de um miserabilismo grosseiro e arrogante, espantosamente deslocada e inaceitável vindo de uma pagina que é um dos mais importantes espaços biobibliográficos, digitalmente ao nosso dispor. A ignorância e a falta de humildade intelectual - quando se é confrontado com justos reparos biobibliográficos (sempre bem-vindos em todas as situações) - é, por vezes, muito atrevida, como nos parece ser o caso.

No que diz respeito a recomendáveis fontes biobibliográficas que o putativo administrador da página displicentemente sugere para se assegurar da qualidade libertária do prof. Aurélio Quintanilha, pois elas são tantas que incomoda o curioso pedido e nos enche de tédio. Porém, porque a página do FB pertence (também) à Helena Pato, por quem nutrimos especial admiração, aqui deixamos o nosso reparo e a nossa brevíssima anotação á questão colocada em torno da militância anarquista de Aurélio Quintanilha.

Saúde e Fraternidade!


Aurélio Quintanilha (1892-1987) foi cientista, investigador, professor, pedagogo (fundador da Universidade Livre de Coimbra), libertário e maçon [o irmão Brotero, iniciado, em 1925, na loja de Coimbra, A Revolta, e depois (Dezembro de 1931) um dos fundadores da loja maçónica de Coimbra, Construir - com, e entre outros, Tomás da Fonseca, Alberto Martins de Carvalho, César Abranches, Firmino da Costa, Raul Miranda].

Se tivermos o cuidado de ler Quintanilha, ver-se-á que as suas propostas educacionais e pedagógicas e a vertente pedagógico-libertária que sempre distinguiram as suas conferências [ver, p. expl., Educação de Hoje, Educação de Amanhã (1921), a conferência inaugural (5 de Fevereiro de 1925) da Universidade Livre de Coimbra ou idêntica conferência (26 de Março de 1933 – O papel social e as necessidades da investigação cientifica em Portugal) nas instalações do jornal O Século], nos elucida com clareza acerca do seu ideal anarquista, seguindo a velha linha do anarquismo individualista de Silva Mendes [“o mais vermelho dos republicanos de Famalicão”] e se prolonga até à sua morte.

Não será necessário, portanto, recorrer à leitura da entrevista que concedeu a João Medina [publicada na revista Clio, 1982, vol.4] para desocultar e fazer prova do seu ideal libertário. Nem percorrer, mesmo que seja com um brilho nos olhos, as sábias palavras de Vitorino Nemésio no “Perfil de Aurélio Quintanilha” (revista Brotéria, 1975, nº3/4, p. 175 e ss – vide a propósito deste assunto a p. 179). Ou até consultar o verbete do Dicionário dos Educadores Portugueses (dir. António Nóvoa, p.p.1137-1139) onde se lê: “ [Aurélio Quintanilha] conhecido especialmente como cientista e doutrinador do anarquismo …”]. Na verdade a leitura atenta da biografia activa e passiva do biografado é, prudentemente, sempre boa conselheira.    

Em breve anotação, e cingindo-nos apenas à questão em debate – isto é, ter sido ou não Aurélio Quintanilha anarquista -, diremos o seguinte:

- em 1912, Quintanilha, com Adriano Botelho (dirigente anarco-sindicalista da CGT, e outros) participa nas comemorações do 1º de Maio, integrado na corrente anarquista;

 - colabora depois (a partir de 13 de Fevereiro de 1913) um dos mais importantes jornais anarquistas, dirigido por Pinto Quartim, o semanário Terra Livre, de muita memória;

- ainda em 1913 (4-8 de Outubro), participa no Congresso de Lisboa do Livre Pensamento Universal (distribuindo a sua companheira, Susana, um manifesto assinado pelos sindicalistas presos pelo governo de Afonso Costa) e solicita por várias vezes a palavra em reuniões republicanas, interpelando o governo, sendo por isso ameaçado pela “Formiga Branca”;

- em 1914 faz parte do grupo anarquista “A Brochura Social” (Lisboa), juntamente com Neno Vasco e Sobral de Campos, grupo que pretendia editar mensalmente “folhetos de propaganda libertária” (ver João Medina, A Sementeira do arsenalista Hilário Marques, revista Análise Social, vol. 17;

- ainda em 1914, um núcleo de mulheres anarquistas – de que faziam parte Susana Quintanilha (professora), Elvira Lopes, Eugénio Silva, Rosalina Correia da Silva e Margarida Paula – reúnem-se para debater “assuntos relativos a gênero e promover agitação política”;

- por iniciativa do grupo libertário Aurora (Porto), ainda em 1914, realizou-se um comício  na cidade do Porto (teatro Antero de Quental) contra as arbitrariedades do governo republicano, onde participa como orador, acompanhando Neno Vasco e Sobral de Campos;

- participa na Conferência Anarquista da Região Sul (Junho de 1914, no prédio da Caixa Económica Operária, largo da Graça, Lisboa), onde, curiosamente, decide imprimir e divulgar obras de Malatesta (ver “Em Tempos de Eleições”) e irá apresentar a tese escrita por Neno Vasco, Os Anarquistas no Movimento Operário. Foram sessões muito vivas, como o debate sobre a participação de anarquistas nos sindicatos, onde Quintanilha sustem “não ser possível para o ponto em questão determinar regras rígidas”, porém a posição “de consenso” de Jerónimo de Sousa (do quinzenário O Arsenalista de Lisboa) prevalece, isto é, ganhou a tese de evitar a entrada dos anarquistas nos corpos diretivos sindicais (ver Alexandre Simas, Neno Vasco …, p. 346). De referir que alguns dos mais importantes militantes anarquistas tinham o hábito (então) de se reunirem em casa de Aurélio & Susana Quintanilha, nas noites de Domingo (entre eles, Emílio Costa, Afonso e António Manaças, Sobral de Campos, Gaspar dos Santos, Neno Vasco, Bernardo Sá, Sebastião Eugénio, Carlos Freire);

- em 1915, representa a Federação das Juventudes Sindicalistas (sob orientação anarquista; foi criada em 1913, resultante das Juventudes Libertárias de 1912; tinha a sede na rua do Arco da Graça, nº4, 2ª andar e editava O Despertar) de Portugal e França, no Congresso Mundial contra a Guerra (Ferrol, Espanha) e que se realizou clandestinamente – segundo alguns autores, fazia parte da delegação portuguesa Manuel Joaquim de Sousa. Tendo sido descobertos pela polícia são expulsos de território espanhol os delegados portugueses: Quintanilha, Manuel Joaquim de Sousa, Maria Veloso, Serafim Cardoso Lucena e Ernesto da Costa Cardoso. Curiosamente, Quintanilha não refere nenhum desses nomes, na sua entrevista a João Medina. No seu regresso de Espanha apresenta em várias cidades (a conferência em Coimbra foi proibida) o tema “A Guerra e o Congresso de Ferrol” tendo sido preso em Viana do Castelo sob ordem do administrador da cidade, Bourbon e Menezes, curiosamente ex-anarquista. Seja dito que, perante a conflagração europeia, no movimento anarquista coexiste dois grupos distintos: os guerristas [Emílio Costa, Bernardo de Sá, Mário Costa, Miguel Córdoba, Araújo Pereira] e os anti-guerristas [Neno Vasco, Aurélio Quintanilha, António José de Ávila, Hilário Marques]. Os primeiros estavam organizados em torno do grupo Germinal, enquanto os anti-belicistas agrupavam-se à volta d’A Aurora (Porto) e d’A Sementeira (Lisboa). Não estava longe o tempo em que numa das reuniões anarquistas em casa de Quintanilha, na proverbial tertúlia que ali perorava, a declaração de guerra de 1914 a todos entusiasmou, porque se pensava que estava aberta a porta à revolução social [sobre este assunto, consultar com proveito, Guerristas e Antiguerristas, INIC, 1986]. Curiosamente muitos dos anarquistas “guerristas”, no final da contenda, abandonaram o anarquismo, uns passando-se para o então movimento comunista (na sua versão bolchevista), aliás de onde alguns foram “escorraçados”, e outros enveredaram na defesa da ditadura (ibidem, pp. 116 e ss);

- o golpe militar sidonista de Dezembro de 1917 teve o apoio inicial de militantes libertários e republicanos (como Machado Santos) e entre eles Aurélio Quintanilha. Aliás Quintanilha refere (assim como Alexandre Vieira) que foi (foram ambos e outros mais) à Rotunda falar com Sidónio Pais em nome da UON, na esperança de terminar a perseguição aos sindicalistas e pedindo a libertação dos presos políticos. Por outro lado, não podemos esquecer o conhecimento que Quintanilha tinha de Sidónio Pais, pois Sidónio não lhe era estranho, dado a sua notoriedade na Universidade de Coimbra por ser republicano no tempo da monarquia e pelo exame, que como professor de álgebra, fez ao próprio Quintanilha;

- participa na “tertúlia” revolucionária “Falange Democrática” ou “Falange dos Olivais” (com Sobral de Campos, Pinto Quartim, Neno Vasco, Adolfo Lima, Emílio Costa, Alexandre Vieira, António José de Ávila e outros);

- na tentativa insurrecional monárquica de Paiva Couceiro (Janeiro e Fevereiro de 1919), os anarquistas organizaram grupos armados de resistência, tendo Aurélio Quintanilha vestido o uniforme militar e ido comandar a bateria na Quintinha  (A Batalha, Fevereiro de 1919);  

- a 25 de Setembro de 1927, considerado um “elemento avançado”, é detido pela PVDE.

- em 1928, em Coimbra, frequenta a inolvidável “República das Águias”, sob os auspícios da Maçonaria (pertencentes à loja A Revolta), onde juntamente com os irmãos Cal Brandão, Basílio Lopes Pereira, Manuel de Figueiredo e muitos mais, se conspirava contra a ditadura;

- escreve nos periódicos anarquistas, além do Terra Livre: A Aurora (Porto); A Batalha; O Despertar; A Lanterna (10 de Julho de 1915, Angra do Heroísmo – Quintanilha assumia a sua direcção); O Sindicalista; também colabora na revista Pela Grei (1918-1919); na Seara Nova (era amigo de António Sérgio); na revista de Homens Livres (1923); no Arquivo Pedagógico (Coimbra, 1927-1930); na revisa trimestral de educação LABOR (Aveiro); dirige o periódico bilingue de Moçambique, Memórias e Trabalhos. Centro de Investigação Algodoeira (1947-1961).

- já em 1975, Aurélio Quintanilha, em breve passagem por Lisboa, participa numa reunião anarquista na sede do Movimento Libertário Português.  

Em seguida, apresenta-se alguma bibliografia que sobre este (não) assunto da qualidade libertária de Aurélio Quintanilha diz especial respeito:   

Abílio Fernandes, Aurélio Pereira de Silva Quintanilha, na passagem do seu 70º aniversário, Boletim da Sociedade Broteriana, 1962, vol. 36 | Alberto Vilaça, Resistências Culturais e Políticas nos Primórdios do salazarismo, 2003 | Alexandre Samis, Neno Vasco, o Anarquismo e o Sindicalismo Revolucionário em dois mundos, Letras Livre, 2009 | Alexandre Vieira, Para a História do Sindicalismo em Portugal, 1970 | Amélia Filomena de Castro Gomes, A educação libertária segundo Aurélio Quintanilha, Braga, 2005 | António Ventura, Guerristas e Antiguerristas. Análise retrospectiva de um conflito, in João Medina (org.), Portugal na Guerra. Guerristas e Antiguerristas, INIC, 1986, pp. 107-125 | Aurélio Quintanilha, “Discurso pronunciado por A. Quintanilha na sessão promovida pela juventude sindicalista de Lisboa em 22 de Março”, in A Aurora, 29 de Março de 1914, p.1 | Aurélio Quintanilha, “Parlamentarismo e Sindicalismo: Sindicalismo e Integralismo”, in A Batalha, Setembro de 1919 (publicado ao longo de vários artigos) | Aurélio Quintanilha, Entrevista concedida a João Medina, revista Clio, vol.4, 1982, pp.121-132 | Aurélio Quintanilha, A Universidade Livre de Coimbra (pref. Paulo Archer), Lema d'Origem, 2017 | Cláudia Ninhos, De anarco-sindicalista a Catedrático de Coimbra e do saneamento ao “exílio”. Percurso político do cientista-intelectual Aurélio Quintanilha (FCSH/NOVA) | Edgar Rodrigues, Breve História do pensamento e das Lutas Sociais em Portugal, 1977 | Edgar Rodrigues, A Resistência Anarco-Sindicalista à Ditadura, 1981 | Edgar Rodrigues, A Oposição Libertária em Portugal (1939-1974), Sementeira, 1982 | Fernando Namora, Fogo na Noite Escura (pref. de Joaquim Namorado), Caminho, 2018 | Filipa Freitas, Les Jeunesses Syndicalistes au Portugal, 2007 | João de Barros, Cartas Políticas, 1982 | João Medina, Um semanário anarquista durante o primeiro Governo Afonso Costa: Terra Livre, 1981, vol. 17 (67-68) | Luís Salgado de Matos, Lisboa, 1920 - vida sindical e condição operária, in Análise Social, 1981, vol. 17 (67-68) | Manuel Joaquim de Sousa, O Sindicalismo em Portugal, 1972 (3ª ed.) | Quintino Lopes, Aurélio Quintanilha e António Sousa da Câmara: entre distintas ideologias políticas e semelhantes práticas científicas, IHC | Vitorino Nemésio, Perfil de Aurélio Quintanilha (discurso proferido em Homenagem a Aurélio Quintanilha pela Sociedade Portuguesa de Genética, Brotéria Ciências Naturais, 1975 (republicado na Brotéria Genética, em 1993, nº1-2), nº 3-4.

José Manuel Martins

sábado, 20 de março de 2021

UM ASSUNTO DE “DETECTIVISMO”

 


Em Maio de 1940, apareceu na Granja do Ulmeiro um indivíduo que se hospedou na Pensão Carioca, mesmo em frente à estação dos Caminhos de Ferro de Alfarelos.

O procedimento e o viver deste indivíduo era algo misterioso e começou a intrigar a população local. Fazia a sua vida na estação, aparecia a todos os comboios, quer fosse de dia, quer fosse de noite, incluindo os comboios que transportavam o correio, que passavam de madrugada, só se deitando pelas 4 horas da manhã.

Dizia o próprio ser elemento da Polícia Internacional (PVDE), já tendo exibido a sua identidade de polícia, e andava sempre armado com uma pistola.



Nos intervalos da passagem dos comboios frequentava os vários estabelecimentos comerciais e tabernas, pagava o seu copo de vinho aos presentes, sempre com “um risinho de pomba”, fazendo-se grande “companheiro da borga”. Quando, durante estes convívios, alguém começava a falar do conflito internacional em curso, com alguns comentários, ele imediatamente aconselhava ao silêncio sobre a matéria e que se abstivessem de se pronunciar publicamente, devendo fazê-lo apenas intimamente.

Duas vezes por semana, aparecia também por ali um outro indivíduo, também polícia, vindo geralmente de Lisboa, e os dois eram vistos a trocar sinais e a passarem entre si pequenos papéis. Numa outra ocasião foram encontrados, numa sala de espera da estação, a conversar em segredo.

As opiniões locais sobre o assunto dividiam-se: para alguns, o indivíduo que ali vinha fazer os encontros devia ser um chefe da Polícia Internacional que fazia serviços nos comboios, enquanto para outros, tratar-se-ia de um polícia de investigação criminal ao serviço da CP.

Voltemos ao personagem principal. O indivíduo em questão chamava-se Gustavo, teria pouco mais do que 40 anos, de faces vermelhas e bem apresentado. A sua conduta, cheia de mistério, trazia assustada as gentes do local, que começava a esperar que a qualquer momento surgisse “novidade grossa e num mau ambiente”.

Este texto, mais não é do que um resumo de um relatório do informador Inácio, incumbido, por determinação do inspector Sales Velez, duma investigação “muito secreta” e conduzida “com o maior cuidado possível” em Alfarelos e na Granja do Ulmeiro. Este é mais um de tantos mistérios de que não conhecemos o seu final, pois os documentos encontrados não permitem tal. Possivelmente, nunca saberemos quem foi Gustavo, se é que era este o seu nome, nem o que, verdadeiramente, andava a fazer por aquelas bandas. Verificamos, no entanto, que este indivíduo, talvez ao contrário do que seria de esperar, não primou por passar despercebido e que o informador Inácio entrou neste jogo de disfarces, tentando descodificar o enigma. E o que concluiu Inácio após o seu trabalho de pesquisa. Vejamos o final do seu relatório: 

“Se é realmente um polícia da PVDE tem procedido tão desastradamente e com tanta falta de senso que pasma, pois toda a gente está de sobreaviso e ele nada consegue.

Se é outro género de polícia o facto é o mesmo, porque a sua misteriosa maneira de viver, faz acautelar toda a gente e à sua volta, há por isso, as mais desastrosas versões.

É possível que se venha a tratar de um qualquer aldrabão com a mania de detectivismo, mas então pergunta-se: quem lhe paga tantas despesas que faz?”

A análise de Inácio parece fazer todo o sentido. Certamente, esta não terá sido a forma mais eficaz de actuar de um agente de uma polícia de informações, com a exibição da pistola e do distintivo pelos cafés do lugar. Evidentemente, hoje, um polícia (secreto) teria uma actuação bem diferente. Até porque, hoje em dia, tudo é diferente: as técnicas, as tácticas e a tecnologia, claro. Existe, no entanto, uma situação (ou preocupação) que permanece inalterável, desde 1947 até aos dias actuais, quer para a Polícia, quer para o cidadão comum: o problema do pagamento das despesas!

Publicado originalmente na edição em papel do Jornal Terras de Sicó

Paulo Marques da Silva