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sexta-feira, 17 de junho de 2016

BENTO DE JESUS CARAÇA: RECORDADO NO MUSEU DO ALJUBE

Bento de Jesus Caraça vai ser recordado amanhã, 17 de Junho de 2016, pelas 18 horas no Museu do Aljube em Lisboa, com uma exposição bibliográfica e testemunhas de quem o conheceu e investigou o seu percurso biográfico, como Helena Neves, João Caraça, Cristina Antunes e Diana Andringa. No âmbito do ciclo Intelectuais e Artistas da Resistência que tem vindo a ser promovido nos últimos meses com organização do Professor Luís Farinha.

Pode ler-se na nota de divulgação:

No dia 17 de junho, às 18 horas, temos uma evocação de Bento de Jesus Caraça - vida e obra: com Helena Neves e João Caraça e a presença de Cristina Antunes e Diana Andringa, realizadora e autora, respetivamente, do documentário «Bento de Jesus Caraça. Matemático Cidadão». O Museu do Aljube reúne ainda um conjunto de documentos originais, numa mostra biobibliográfica de Bento Caraça, que estará patente ao público até 30 de junho´.

Uma iniciativa a acompanhar com todo o interesse.

A.A.B.M.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

BENTO DE JESUS CARAÇA: RECUSAR, RESISTIR, MOBILIZAR

 

“A rejeição do pensamento único, implantado em todos os domínios, é uma das afirmações da autonomia intelectual e cívica do homem, na plenitude das suas liberdades e direitos fundamentais. Tanto maior é a força e o significado da rejeição quanto ela resulta de um imperativo de consciência em luta contra o fantasma do medo incutido nas homilias dos profetas da desgraça que, em nome da prudência e estabilidade social, anunciam sempre o pior como se estivéssemos às portas do fim do mundo.
A vida de Bento Caraça (1901-1948) indissoluvelmente ligada à sua obra pedagógica e à sua intervenção cívica, nos anos negros do consulado de Salazar, pode resumir-se em três verbos: recusar, resistir, mobilizar. Recusar a ditadura, resistir à prepotência e ao arbítrio. Mobilizar vontades dispersas para ultrapassar o isolamento e restabelecer um Estado de Direito, com as liberdades e garantias constitucionais que asseguram as estruturas de um regime democrático.
Mestre de matemática e de matemáticos, na Universidade Técnica de Lisboa, atingiu aos 28 anos o cume da carreira. Contudo, não se limitou a ficar, como tantos, na torre de marfim de uma cátedra. Exerceu influência decisiva na sua geração, na geração anterior à sua e nas gerações que lhe sucederam. Tomou parte nas lutas democráticas, sendo vítima de todas as perseguições entre as quais a expulsão do ensino universitário.
Uma das obras mais relevantes que o Paísa deve a Bento Caraça foi a criação e direção da 'Biblioteca Cosmos'. A partir de 1941 a 1948 com a colaboração de figuras de várias tendências políticas e diferentes opções religiosas, editou mais de uma centena de pequenos livros que permitiram a divulgação e, por vezes, o aprofundamento de temas nucleares no âmbito das ciências e técnicas, da economia e da gestão, das filosofias e religiões, das artes e letras. Este conjunto tão diversificado - dentro das limitações impostas pela repressão da Censura e da polícia politica –abrangeu a análise de alguns problemas contemporâneos.
Tal como os Cadernos de Iniciação Cultural de Agostinho da Silva, os Cadernos Inquérito lançados por Eduardo Salgueiro e os opúsculos da Seara Nova dirigidos por Camara Reys, Antonio Sérgio e Rodrigues Lapa, a Biblioteca Cosmos de Bento Caraça representou um contributo fundamental para a cultura portuguesa e a sua aproximação com as solicitações da Europa.
Para os jovens e os próprios adultos, numa linguagem, clara e acessível, promoveu a difusão e o conhecimento dos grandes temas nacionais e universais. Atribuía à cultura a descoberta do homem e do mundo num impulso contínuo de procura da liberdade. Grande parte da minha formação, que decorreu do final dos anos 40 e através da década de 50, assentou na Biblioteca Cosmos e também nos ensinamentos das outras coleções de textos exemplares.
Houve, nas últimas décadas, novas e irrecusáveis aquisições científicas, filosóficas, literárias, artísticas e históricas em todas as áreas abrangidas na Biblioteca Cosmos. Contudo, permanece vivo o sentido de abertura e pluralismo de opinião e de crítica que inspirou o projeto e se assinala nos volumes que o integram.
A memória de Bento Caraça vai ser homenageada hoje (dia 19),em Lisboa às 18 horas, na Fundação Mário Soares e presidida por Mário Soares um dos raros sobreviventes da ação desenvolvida por Bento Caraça, no MUD e outros movimentos antifascistas.
O legado de Bento Caraça tem como linha de rumo sempre oportuna e atual: 'Sem cultura, não pode haver liberdade e, sem liberdade, não pode haver cultura'. Todavia, a sua conceção é mais abrangente: 'a aquisição da cultura significa uma elevação constante, servida por um florescimento do que há de melhor no homem e por um desenvolvimento sempre crescente de todas as suas qualidades potenciais, consideradas do quádruplo ponto de vista: físico, intelectual, moral e artístico; a conquista da liberdade, a cultura integral do indivíduo'.
Predomina, contudo, uma norma de conduta, a todos os títulos notável, e que acentuou ainda maior dimensão humanista no magistério de Bento Caraça. No edifício do Instituto Superior de Economia e de Gestão (ISEG e antigo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras) onde foi professor catedrático, encontra-se inscrita uma das afirmações lapidares de Bento Caraça: 'se não receio o erro é porque estou sempre pronto a corrigi-lo'.
Palavas que representam uma regra de ouro para transpor o medo que intensifica a inércia, a indecisão, a falta de transparência, as meias palavras, os jogos do poder, a opacidade dos negócios, a paz podre.
Perante os bloqueios às mudanças, a falta de ousadia, as ameaças da corrida acelerada para o abismo, as advertências de Bento Caraça, deveriam constituir motivo de reflexão intelectual e cívica. Para estimular coragem e determinação, repelir certezas absolutas, o prolongamento de impasses e a ausência de alternativas que promovam reformas urgentes para recuperar o país. Dia a dia cada vez mais devastado nas áreas da educação, da saúde, da segurança social, da economia e da cultura. Não esqueçamos, ainda, destruído no proficiente e indispensável funcionamento da justiça. Em muitos aspetos a situação é de rutura e de caos”.
Bento de Jesus Caraça: recusar, resistir, mobilizar – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Academia das Ciências], jornal Público, 19 de Fevereiro de 2015, p.47 – com correcções do pp. autor e sublinhados nossos.

J.M.M.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

BENTO DE JESUS CARAÇA - "A CULTURA INTEGRAL DO INDIVÍDUO PROBLEMA CENTRAL DO NOSSO TEMPO"

 
 

BENTO DE JESUS CARAÇA, “A Cultura Integral do Indivíduo Problema Central do Nosso Tempo” [Conferência lida pelo dr. Bento de Jesus Caraça na U.P.P. (Universidade Popular Portuguesa) em 25 de Maio de 1933 – promovida pela U.C.M.L. (União Cultural “Mocidade Livre”)], Cadernos de Cultura Vanguardista nº1, Mocidade Livre, Tipografia da Seara Nova (Calçada do Tejolo, 37-A, Lisboa), 1933, 48 p.
 
J.M.M.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

PEDAGOGIA E EMANCIPAÇÃO NOS ESCRITOS E NA ACTIVIDADE DE BENTO DE JESUS CARAÇA



Realiza-se amanhã, 8 de Novembro de 2013, pelas 21.30 horas, uma nova conferência do ciclo "Os Pedagogos e a Pedagogia em Portugal", desenvolvido pelo Museu Bernardino Machado, tendo por base o pensamento e a figura de Bento de Jesus Caraça.

A con
ferência a proferir pelo Professor Luís Crespo de Andrade  intitula-se Pedagogia e Emancipação nos escritos e na Actividade de Bento de Jesus Caraça.

Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1977), mestre em História Cultural e Política pela FCSH-UNL (1996), doutor em História e Teoria das Ideias pela FCSH-UNL (2006).

O conferencista é Professor Auxiliar do Departamento de Filosofia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, doutor em História e Teoria das Ideias (Ideias Políticas), tem-se dedicado à investigação de temas ligados à História do Pensamento Contemporâneo.
Tem leccionado as disciplinas de Filosofia da História, Filosofia da Natureza e Didáctica da Filosofia. Coordenador do Mestrado em Ensino da Filosofia no Ensino Secundário.

Entre as suas publicações contam-se:
“Planetário Utópico e Cultura Integral: aspectos do discurso utópico português contemporâneo”, 1996;
- “O substantivo ‘intelectuais’”, Cadernos de Cultura, nº. 2, Centro de História da Cultura – Universidade Nova de Lisboa, 1999. pp. 23-41.
- Revistas, ideias e doutrinas. Leituras do pensamento contemporâneo, Lisboa, Livros Horizonte, 2003 (coord. com Zília Osório de Castro).
- “A grande viragem. Transformações na figura do intelectual nos anos 30”, in António Pedro Pita e Luís Trindade (coords.), Transformações estruturais do campo cultural português 1900-1950, Coimbra, Ariadne Editora/ceis20, pp. 315 a 331.
- Fundamentos da esperança política. A alegria comunista, Lisboa, FCSH, 2006.
- “Utopia: conceito e concepção”, Cultura. Revista de História e Teoria das Ideias, vol. XXII, Centro de História da Cultura – Universidade Nova de Lisboa, 2006, pp. 71 a 83.
Sol Nascente: da cultura republicana e anarquista ao neo-realismo, 2007;

- Intelectuais, Utopia e Comunismo: a inscrição do marxismo na cultura portuguesa, 2010.

Uma iniciativa que merece a maior atenção e uma personalidade que marcou o século XX português de forma muito significativa.

A.A.B.M.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

A UNIVERSIDADE POPULAR



As Universidades Populares tiveram origem em França nos finais do séc. XIX, procurando difundir os conhecimentos entre as massas populares e tentando ultrapassar as barreiras existentes entre as classes intelectuais e a classe operária.

Em Portugal, esta associação, criada pela iniciativa de Feio Terenas, em 1906, com o apoio e influência da Maçonaria, tinha por objectivo "desenvolver o ensino popular pela mútua educação dos cidadãos".

Procurava seguir os mesmos moldes das organizações congéneres criadas no estrangeiro e organizou cursos livres, conferências, leituras, palestras, concertos, visitas a museus, fábricas, exposições, etc. Os resultados acabaram por ficar aquém das expectativas, porque até 1910 a sua acção foi muito localizada no tempo e no espaço. A partir de 1911, conhece um período de reorganização a que se segue uma intensificação das actividades. Nesse contexto, emerge então a Universidade Popular no Porto, já em 1912.

Faziam parte da Comissão Promotora da Universidade Popular: Sebastião de Magalhães Lima (presidente); José de Castro; António Joaquim Ribeiro; Adelino Furtado; João de Barros; José António Simões Raposo (Filho); Carneiro de Moura; João Teixeira Simões; Ernesto de Vasconcelos e Damásio Ribeiro.

O plano de estudo elaborado por esta comissão incluía as seguintes áreas de estudo a desenvolver: matemáticas, as ciências físico-químicas, as ciências biológicas e as ciências sociais (história, economia, direito, educação, etc).

Com a eclosão da 1ª Guerra Mundial, a situação agrava-se bastante em Portugal, e, somente após o final do conflito surgem novos esforços para recuperar esta forma de promover a cultura. Assim, em 1919, funda-se em Lisboa a Universidade Popular Portuguesa, que o governo republicano da época logo reconheceu a utilidade e decide apoiar de forma mais empenhada com um subsídio para apoiar as actividades a desenvolver. A Universidade Popular renasce e floresce até 1922, tendo publicado por essa altura uma revista de instrução e cultura intitulada Educação Popular.

Várias personalidades de destaque estiveram ligadas à Universidade Popular como Bento de Jesus Caraça, Tomás Cabreira, Manuel de Arriaga, Ferreira de Macedo entre muitos outros.

A Universidade Popular entra em crise com o advento da Ditadura, as desconfianças com o apoio dado aos opositores ao regime conduzem a perseguições declaradas. A instituição termina a sua actividade em 1950, tendo entregue todo o seu património à Sociedade Voz do Operário.

A.A.B.M.

terça-feira, 25 de março de 2008

A POLÍTICA DO MEDO - POR BENTO DE JESUS CARAÇA


A política do medo

"Em que condições exerce hoje o professor o seu mister de ensinar? Pergunta capital, em cuja resposta vai muito da eficiência da Escola e do valor intelectual e moral do ensino. Posso afirmar, sem receio de exagerar, que essas condições se caracterizam essencialmente assim: deficiência de meios pedagógicos; deficiência de meios materiais da vida do professor; limitação das condições de independência mental dos agentes económicos.

O professor hoje, em Portugal, vive com dificuldades de vida e com medo, esse terrível medo que se apoderou da quase totalidade da população portuguesa. Tenho já o tempo de vida bastante para poder ter observado, durante mais de 20 anos, a evolução duma certa corporação científica, e ter verificado nela a instalação e o alastramento desse processo de destruição progressiva do professor português. E é preciso registar que, a despeito de casos isolados de resistência heróica, esse processo de destruição tem produzido os seus efeitos.

A coisa vai mesmo mais longe – a política do medo não atingiu apenas uma determinada camada social ou profissão. Não, essa política foi a todos os sectores da vida nacional e a todos os núcleos de actividade privada e pública, procurando transformar-nos num povo aterrado, reduzido à condição deprimente de passarmos a vida a desconfiar uns dos outros. Mas o que é curioso, nesta questão, é que, ao fim e ao cabo, não se conseguiu apenas que os pequenos tenham medo uns dos outros e dos grandes, ou os indivíduos tenham medo das instituições. O próprio Estado foi vitima do seu jogo e acabou por ser tomado de medo dos cidadãos ...
"

[Bento de Jesus Caraça, in Intervenção feita da Sessão de 30 de Novembro de 1946, realizada pelo Movimento da Unidade Popular, na sala de A Voz do Operário, aliás in Conferências e Outros Escritos, Lisboa, 1978, p. 203 - sublinhados nossos]

Foto: Bento de Jesus Caraça, retirada do blog Ruy Luis Gomes, com a devida vénia

J.M.M.