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sábado, 31 de março de 2018

ALMANACH DE S. BRAZ D’ALPORTEL (ALGARVE)



ALMANACH DE S. BRAZ D’ALPORTEL. Ano I (1893) ao Ano II (1894); Proprietário: João Manuel Rodrigues de Passos; Editor e Redactor: João Manuel Rodrigues de Passos; Impressão: Tipographia do “Recreio” (Rua da Barroca, 109; depois, ano II, Rua do Marechal Saldanha, 59-61), Lisboa; 1892-1893, II numrs

Trata-se da edição de dois curiosos Almanaques, ambos editados por João Manuel Rodrigues de Passos (1856-?), de São Brás de Alportel. A divulgação destes Almanaques locais/regionais são raros e valiosos. Conhecem-se, antes deste(s) Almanach de S. Braz d’Alportel, o Almanaque Curioso do Porto (1803?), muitos e interessantes de Lisboa (a partir de 1806?), a sugestiva Folhinha da Terceira (1831), outra Folhinha a Açoriana Micaelense (1843), o Almanaque de Leiria (1854), o competente Almanaque de Instrução Pública em Portugal de Coimbra (1857), o de Moçambique (1859?), de Aveiro (1862), o de Ponta Delgada (Arquipélago dos Açores, 1864), o Maragato da Terceira (1865), de Goa (1864), o de Margão (da Mocidade, 1868), o Almanaque do tio Brás (Horta, 1872), de Viseu (da Beira, 1872), o Almanaque do Faialense (1872), o Almanaque Insulano (para Açores e madeira, Angra, 1873), o curioso Almanaque Liberal de Coimbra (1875), o magnifico Almanaque da Praia da Figueira (1878), o de Barcelos (do Minho, 1880), de Estremoz (Almanaque Ilustrado, 1884), o de Castro Daire (1888), o Almanaque Estremocense (1889), de Bastorá (de Paredes e Bastorá, 1889?), o de Braga (1893) e o de Montemor-o-Novo (Alentejo, 1884).

Os Almanaques de São Brás de Alportel são “documentos importantes para a história de São Brás de Alportel” [José do Carmo Correia Martins (JCCM), Subsídios para uma Biobibliografia São-Brasense, 2017, p. 169]. De muita “ousadia” e de franco “pioneirismo” regional, o(s) Almanaque de São Brás de Alportel, como habitual assente no seu “kalendário”, tem enigmas, curiosidades e passatempos variados, insere um brevíssima monografia da povoação (Ano 1893) e outras mais anotações antigas sobre São Brás (ver, artigo de Ataíde de Oliveira, Ano 1894), apresenta curiosas secções sobre agricultura, “relações de mercados e feiras de gado em todo o país”, apresenta um artigo sobre João de Deus, supostamente da pena de Bernardo de Passos (Pa …Pi; Ano de 1893, pp. 20-21), replica artigos da “Folha do Povo” e outras mais crónicas a consultar [ver sobre a sua importância, JCCM, ibidem].   


O Almanaque era editado por João Manuel Rodrigues de Passos, natural de São Brás de Alportel. Nascido a 15 de Agosto de 1856, filho de Manuel Rodrigues do Passo e de Inês de Jesus (ibidem). Pertencia à poderosa família Passos, sendo primo paterno de Bernardo Rodrigues de Passos Júnior [1876-1930; poeta, publicista, notável jornalista, republicano e anticlerical, com cargos políticos e administrativos locais e regionais], de Boaventura Rodrigues de Passos [1885-1935; republicano, poeta, escritor, irmão e sócio, com Bernardo, da oficina tipográfica “Regional Editora”, jornalista e director do semanário Ecos do Sul], de Rosalina de Passos [1880-1958; escultora e irmã dos anteriores Passos, tendo reproduzido os seus bustos, bem como, entre outros, o do poeta Cândido Guerreiro] e de Virgínia Passos [1881-1965; pintora]. 
Integrou João Manuel Rodrigues de Passos a primeira geração que “dinamizou” politica e culturalmente São Brás de Alportel [José do Carmo Correia Martins, ibidem, p.168] – a “Barcelona Algarvia”- conjuntamente com o publicista republicano Bernardo Rodrigues de Passos, Sénior [considerado um dos “apóstolos” do republicanismo local], o combativo e intransigente republicano João Rosa Beatriz [1881-1960; comerciante de ferragens e mercearia, carbonário e livre-pensador; integrou a primeira Comissão Paroquial Republicana de S. Brás; foi um dos homens que esteve ao lado de Machado de Santos, na Rotunda, no 5 de Outubro de 1910; pertencia à maçonaria, integrando o triângulo nº189, do GOL, que foi fundado pelo Decreto de 20 de Junho de 1911, como filial da Loja Luís de Camões, de Lisboa; fundador do Batalhão de Voluntários para a Defesa da República (fundamental a repor a ordem no motim de Abril de 1916); elemento dinamizador e reivindicador (acompanhado por Virgílio Passos e José Pereira da Machada) da elevação de S. Brás de Alportel a concelho, conseguindo-o a 1 de Junho de 1914, tendo sido o seu primeiro administrador; vice-cônsul de Portugal em Mazagão; exilou-se após o 28 de Maio de 1926, em Marrocos, onde faleceu], José Pereira da Machada Júnior [farmacêutico e Presidente da Câmara Municipal, em 1916; proprietário da Farmácia Machada Júnior; foi neste estabelecimento que trabalhou, na juventude, o poeta Bernardo de Passos], o importante publicista republicano Júlio Cesar Rosalis [contabilista, fundador do Centro Republicano local; pertenceu ao triângulo maçónico local; foi, em 1911, nomeado governador civil dos Distrito de Faro] e Virgílio de Passos [farmacêutico, republicano, tendo sido nomeado Presidente da Comissão Paroquial Republicana de S. Brás, a 18 de Novembro de 1907; maçon do triângulo maçónico local; era primo do poeta Bernardo de Passos – refira-se que o Triângulo Maçónico de S. Brás de Alportel nº 189, integrava além dos elementos já citados, João de Sousa Uva e Ventura Coelho Vilhena].


João Manuel Rodrigues de Passos foi correspondente do Diário de Notícias e era agente de seguros das Companhias Tagus [fundada em Lisboa, em 1877, com a denominação de Companhia de Seguros Marítimos Tagus, adotando a designação só em 1883] e da Portugal Previdente [1907 – idem, ibidem, p. 168]. Comerciante (proprietário da Loja Progresso), homem culto e defensor intransigente dos interesses locais, ousou editar (1893) os dois Almanaques acima lembrados, que são documentos “importantes para a história de São Brás de Alportel [idem, ibidem).  


[Algumas assinaturas] Colaboração: Annes Baganha, Aleixo Gomes, Alexandrino Flores, “Bengalinha”, Bernardo Roiz de Passos Júnior, Casimiro Dantas, Fialho de Almeida, Hypocrates, J. J. Cyrillo Junior, J. Leonam Sossap, João António Rodrigues de Passos, João de Deus, João Manuel Rodrigues de Passos, João Pimenta, João Xavier de Ataíde de Oliveira, José Bernardo Bonga, José Felix da Cruz, Júlio Teixeira, “Keraunophobuz”, Lima João, Maria Carolina Frederico Crispin (Maria Veleda), Maria Alexandrina, Martinho de Brederode, Mendo d’Athouguia, Nogueira da Carvalho, Pa … Pi [Bernardo de Passos Júnior], Passos Pinto, “Uma Senhora Portuguesa”, Zampironi.
O Almanach de S. Braz D'Alportel AQUI digitalizado.
J.M.M.

domingo, 26 de outubro de 2014

AO ENCONTRO DE BERNARDO DE PASSOS. ENSAIO BIOGRÁFICO, POR JOSÉ DO CARMO CORREIA MARTINS


No próximo dia 29 de Outubro de 2014, no Museu do Trajo, em São Brás de Alportel e inserido no âmbito das comemorações do Centenário da Elevação desta localidade algarvia a concelho, vai ser apresentada uma obra que analisa uma das figuras ilustres da terra: Bernardo Rodrigues de Passos.

Esta obra de cariz biográfico, resulta do trabalho de pesquisa levado a efeito por José do Carmo Correia Martins, onde analisou a figura do poeta e homem das artes como foi Bernardo de Passos. Pode ler-se na nota de divulgação da obra:

Integrado no I Centenário do Concelho de São Brás de Alportel, J. Correia Martins apresenta um livro que relata os aspetos mais importantes da vida de Bernardo de Passos.

Este trabalho encontra-se dividido em quatro partes.

Na primeira parte, contextualiza-se a vida social da família Passos numa aldeia do interior algarvio (São Brás de Alportel), na época turbulenta que antecede a queda da monarquia.
Convém referir que neste contexto o ambiente que se vivia no Algarve era de agitação política e Bernardo de Passos, republicano, de forte inspiração cristã, era um importante ativista em São Brás de Alportel, como tinha sido seu pai e era seu irmão Boaventura.

Na segunda parte, aborda-se a complexidade da conjuntura política e social que antecedeu a criação do Concelho de Alportel e o papel de Bernardo de Passos.

Na terceira parte o autor vai ao encontro da vida profissional e social de Bernardo de Passos em Faro, dando especial atenção ao que dele relataram outros homens de letras, pessoas com quem conviveu e que, em diferentes situações, fizeram parte da sua rede de sociabilidade.

Na quarta e última parte, pretende-se apresentar como o homem e a sua obra foram reconhecidos em pleno Estado Novo e os estudos literários que a sua obra despertou.

Uma obra que se saúda, porque os estudos sobre Bernardo de Passos ainda são poucos e continua a ser uma personalidade pouco conhecida. Conhece-se razoavelmente a sua vertente poética, mas desconhece-se ainda muito do jornalista e do político que lutou pela conquista da autonomia do concelho de S. Brás de Alportel. Bernardo de Passos num percurso feito de incidentes no contexto da I República que o levaram a desempenhar diversas funções públicas, mas quase sempre em funções secundárias. Pouco dado à luta política, era  uma personalidade mais dedicada à pena e ao papel.


A não perder e com os votos do maior sucesso.

[NOTA: Clicar nas imagens para aumentar.]

A.A.B.M.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

BERNARDO DE PASSOS (Parte II)


Porque somos republicanos?
Somos republicanos porque sabemos prezar a nossa dignidade de homens. Um rei é sempre um vexame para a dignidade humana.
Que simboliza, que quer dizer o ceptro do rei? A vara, o bastão deprimento do mando...
O ceptro dum rei é o seu cajado de pastor. Porque para os reis, o povo é um rebanho de gado humano, rebanho de que eles são os guardadores...

(Bernardo de Passos, "República", O Povo Algarvio, Loulé, nº 46, Ano II, 30-07-1910)

O poeta algarvio, pouco reconhecimento obteve a nível nacional, mas encontrou ainda espaço para publicar algumas das suas poesias em publicações de algum interesse.
Assim, encontram-se poesias de Bernardo de Passos, na Águia, Porto, 1-12-1910 a Maio-Junho de 1932, dirigida inicialmente por Álvaro Pinto (até 1921). Nesta revista colaboravam alguns dos homens importantes da República como Jaime Cortesão,Teófilo Braga, Raúl Proença, entre muitos outros.

Colaborou ainda no semanário literário que se publicou em Faro, Alma Lusitana, dirigido por Gonçalves Torres e João Matos, onde colaboraram também: José Dias Sancho, Manuel Caetano de Sousa, Roberto Nobre, José Neves e António do Nascimento. Esta publicação iniciou em 5 de Outubro de 1919 e terminou a 22 de Fevereiro de 1920.

Foi também colaborador da revista Alma Nova, dirigida por Mateus Moreno, primeiro de Faro e mais tarde de Lisboa, que inicia publicação em 20-09-1914 e termina em Dezembro de 1925.

Publicou poemas seus no Boletim da Sociedade Literária de Almeida Garrett, que se editou em Lisboa em 1903, dirigido por Alberto Bessa.

Era um dos colaboradores do semanário olhanense O Cruzeiro do Sul, onde Aquilino Ribeiro publicou os primeiros textos e onde participaram também Cândido Guerreiro, Carlos Pádua, João Lúcio, Francisco Marques da Luz (Marcos Algarve), Maria Carolina Frederico Crispim (Maria Veleda) e Rodrigues Davim. Este semanário publicou 24 números entre 22 de Janeiro de 1903 e 2 de Julho desse ano.

Publicou ainda no semanário Eco Literário de Vila Fraca de Xira (1911), na revista Figueira, da Figueira da Foz, dirigida por Pedro Fernandes Tomás e Eloy do Amaral. Na revista quinzenal de literatura, do Porto, Germinal, dirigida por J. Gonçalves e A. Bastos, entre 1-07-1901 até Julho de 1901. Na consagrada revista Portucale, publicada no Porto sob a direcção de Augusto Martins, Cláudio Basto e Pedro Vitorino. Também na revista literária mensal editada por Cândido Chaves em Lisboa intitulada Renascença(1903).

Finalmente, encontram-se traços da sua poesia na Revista Coimbrã. Era uma publicação comercial de Coimbra que começou a atacar cada vez mais as políticas que se opunham à Monarquia.


Encontram-se alguns contributos interessantes sobre esta personalidade aqui.

A.A.B.M.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

BERNARDO DE PASSOS (Parte I)



Nasceu em S. Brás de Alportel a 29 de Outubro de 1876. Era filho de Bernardo Rodrigues de Passos (também ele republicano e anticlerical, tendo o seu funeral sido realizado de forma civil e envolto em polémica) e de Maria Joaquina Dias de Passos. Seu pai era figura importante entre os artistas algarvios e desenvolvendo também alguma actividade poética, colaborando em diversos jornais da época.

Desde muito jovem começou a colaborar em jornais locais muitas vezes utilizando pseudónimos como Bráz Brazil ou Passos Junior. Era um dos colaboradores regulares de O Povo Algarvio [semanário republicano de Loulé] e desde jovem se afirmou em defesa do Partido Republicano. Colaborou ainda na Província do Algarve, de Tavira; no Correio do Sul, de Faro, entre outros.

Destinado à vida comercial exerceu ainda funções de caixeiro no estabelecimento de João Manuel Rodrigues de Passos e de José Dias Sancho [importantes casas comerciais no Algarve]. Dedicou-se ainda à farmácia, chegando mesmo a ir a Lisboa para a farmácia de António Augusto da Silva Pratas, na rua de S. Bento, para aprender a profissão.

Regressa a S. Brás como ajudante de escrivão do Juízo de Paz e como solicitador, cargos que exerceu até ao amanhecer do regime republicano. Depois da implantação do novo regime foi Administrador do Concelho de Faro e Comissário de Polícia no Algarve. Anos depois é nomeado Chefe da Secretaria da Câmara Municipal de Faro, cargo que desempenhou até ao fim dos seus dias.

Escreveu algumas obras de poesia que estava muito impregnada da ideologia política que defendia. Publicou um panfleto anticlerical A Reacção no Algarve, em 1909. É considerado um dos principais dinamizadores do republicanismo na região algarvia, em particular na sua freguesia, S. Brás de Alportel que foi elevada à categoria de concelho após a implantação da República.

Entre as suas obras destacam-se: Adeus (1902), Grão de Trigo (1908), Portugal na Cruz (1909), Árvore e Ninho, Bandeira da República (1913) e Aldeia em Festa entre outras obras.

Morreu em Faro a 2 de Junho de 1930.