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quinta-feira, 20 de agosto de 2020

PELA LIBERDADE! NO DEALBAR DA REVOLUÇÃO DE 1820



Pela Liberdade! No dealbar da Revolução de 1820” [Extracto] – por Maria Otilia Pereira Lage, in Público, 18 de Agosto de 2020
[…] 1. Quais os antecedentes da Revolução de 1820?
Estruturalmente, Portugal ocupava já no sistema-mundo capitalista e na economia-mundo europeia um lugar semiperiférico em que se reflectiam as disputas interestaduais pelo domínio e posição hegemónica. A França e a Inglaterra, lutando entre si pela supremacia, desde 1682 a 1815, procuraram afastar das redes comerciais mundiais os países que sucessivamente as dominaram: Portugal, Espanha e Holanda, alterando a geografia política do comércio mundial, radicalmente reestruturada. Do conflito social generalizado nas lutas pelo poder resultou, no século XVIII, o abalo das revoluções americana e francesa e o caos do sistema políticosocial do Antigo Regime, só se encontrando novo equilíbrio, mais tarde, com o Tratado de Viena (1815) que marcou, ao tempo, um período de paz na Europa. A hegemonia passará a ser do imperialismo britânico de livre comércio, todo o sistema interestados será reorganizado e uma única potência, a inglesa, passaria a dominar quase todo o mundo.

Entrecruzava-se nessa estrutura uma adversa conjuntura político-económica nacional e internacional de Portugal, marcada pelo impacto das três invasões napoleónicas (1807-1810), tendo-se verificado em 1808, a fuga da família real e da corte, de Lisboa para o Rio de Janeiro, enquanto as forças britânicas comandadas pelo duque de Wellington aqui desembarcaram para conduzir militarmente a resistência contra os invasores franceses até à sua expulsão definitiva e derrota da política imperial francesa na Península Ibérica. Outros factores agudizavam as contradições e conflitos internos do país agravando as dificuldades financeiras do Estado: ameaça de perda dos mercados brasileiros, gastos e prejuízos da Guerra Peninsular (1808-1814), uma quase imobilidade produtiva do país, aliada à persistente presença e manutenção entre nós do Exército britânico.
Após a expulsão das tropas francesas de Portugal (1812-1813), a conjuntura política portuguesa continuava marcada por grande fragilidade devido à dependência e pressões externas, contradições e dissensões internas de ordem governativa, e factores adversos, de ordem económico-financeira, militar, jurídica e social. Eram múltiplos e de diversa natureza os condicionalismos existentes: permanência da corte no Rio de Janeiro, indesejada na metrópole, relegada a estatuto subalterno; comando militar do Exército português a cargo do marechal britânico Beresford; despesas com as tropas nacionais financiadas pela potência aliada; implicações do cumprimento obrigatório das cláusulas dos tratados de Comércio e Amizade de 1810, favoráveis a Inglaterra; frustração dos interesses portugueses nas negociações do Congresso de Viena (1815).

Tudo isso e a constante interferência britânica na política governativa do Reino, tornava a Regência luso-britânica em Lisboa incapaz de tomar decisões em matérias fulcrais, dado o seu poder limitado nas esferas política, financeira, militar e judicial, e a dependência quer das orientações do príncipe regente e do Governo instalados no Rio de Janeiro, quer das obrigatórias consultas aos agentes políticos e diplomáticos britânicos. O facto sui generis de Portugal estar a ser governado por uma regência dual constituída por Beresford e pelos governadores nomeados em Lisboa espartilhava o poder político, mantendo-o instável e enredado em contradições, sob os olhares complacentes da corte sediada no Rio. A polarização destes poderes paralelos afectava os seus interesses pecuniários, influía nas questões financeiras e impedia o desenvolvimento do país com urgência de grandes mudanças.
 
2. Que papel tiveram as sociedades secretas e a imprensa liberal no exílio londrino?
A conturbada e contraditória atmosfera político-económica e sociocultural da época, marcada por férrea censura repressiva e ausência de expressão pública e de liberdade de imprensa em Portugal eram debatidas nas sociedades secretas que conspiravam em prol do constitucionalismo e se encontravam já em formação na Península Ibérica depois da Guerra Peninsular. Desde 1808-09 que emergiam na Península Ibérica tendências liberais, que em Espanha irão desembocar na Constituição de Cádis que viria depois influenciar a nossa Constituição vintista e, em Portugal, em 1808, se traduziram numa “súplica” redigida por um grupo de notáveis da cidade de Lisboa que pedia “uma constituição e um rei constitucional”.

Entretanto, “o desmantelamento sofrido pela instituição maçónica, devido às perseguições dos anos 1809, 1810 e 1811, não lhe permite já desempenhar qualquer papel, quer como veículo ideológico, quer como congregação de forças. […] Fácil se torna agora à facção jacobina apoderar-se dos comandos da ordem maçónica. É então que a maçonaria muda em Portugal, trocando, para sempre, a bandeira da Inglaterra pela bandeira da França.” (Dias, 1980: 402). A partir de 1812, a maçonaria reorganizou-se, embora a reacção antimaçónica não tivesse abandonado a sua propaganda em panfletos e outras publicações, sucedendo-se deportações e perseguições que levaram muitos maçons a emigrar para Inglaterra.
De 1813 a 1815, os trabalhos maçónicos foram reincentivados, alguns deportados e exilados regressaram, fundaram-se outras lojas e tentou-se reorganizar o Grande Oriente Lusitano. Mas esse empenho maçónico partilhando ideais iluministas e jacobinos da Revolução Francesa, viu-se comprometido pelas agitações políticas de 1817 no Brasil, com a revolta republicana de Pernambuco e, em Portugal, com a designada conspiração de Gomes Freire de Andrade, cuja repressão feroz acabaria por levar à proibição de todas as sociedades secretas declaradas criminosas por alvará real de 30 de Março de 1818, de D. João VI.

No contexto europeu do combate entre as forças pró-revolução e contra– revolucionárias, teve grande influência no alastrar das ideias liberais e pró- constitucionais a imprensa portuguesa londrina resultante da primeira vaga de exilados liberais. Entre os periódicos em língua portuguesa editados em Londres mas que circulavam clandestinamente em Portugal, destacam-se O Correio Brasiliense, precursor dos chamados “jornais de Londres” e um dos mais importantes, publicado de Junho de 1808 a Julho de 1822, O Investigador Português, periódico influente entre os exilados em Londres e elites portuguesas, sendo inclusive lido em Trás-os-Montes, O Portuguêz e O Patriota […]
 
3. Em que consistiu a “Conspiração de Gomes Freire de Andrade”?

Na complexa realidade de Portugal à época, para a qual a resposta política encontrada foi a da criação em 1815, pelo então príncipe regente D. João de Bragança (futuro Rei D. João VI), do “Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves”, com capital no Rio de Janeiro, numa tentativa fruste de remodelação do império português em desagregação, mantinha-se uma grande instabilidade política, fazia-se sentir a insatisfação de certos interesses corporativos face à influência privilegiada dos britânicos, bem como o descontentamento de sectores sociais, económicos e mercantis (mormente negociantes ingleses cujos interesses colidiam com os privilégios da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, cuja extinção defendiam).
Esta atmosfera político-económica e social foi registando progressiva expressão pública na imprensa portuguesa em Londres, designadamente em O Investigador Portuguez em Inglaterra, ou Jornal Literário, Político, &., periódico dirigido desde 1814 pelo jornalista liberal maçónico, exilado em Inglaterra, José Liberato Freire de Carvalho, que aí polemizou, a propósito da Conspiração Gomes Freire, com “Frei Mateus de Assunção Brandão cuja obra fazia defesa acérrima do absolutismo”.

Nesse cenário de um Portugal velho de Antigo Regime em crise e processo de transição para o Portugal Liberal, teve lugar em Lisboa, em 1817, a chamada “Conspiração de Gomes Freire de Andrade”, afloramento desses conflitos do poder político cujo desenlace trágico se traduziu na “primeira manifestação violenta da contra-revolução“ (M.H. Pereira, 2018: 219). Este acontecimento político-militar, na sua dupla face de instrumento do poder vigente e propulsor da memória liberal, fundador do constitucionalismo oitocentista, prenunciou a Revolução de 1820 que instituiu o regime constitucional português, quando nobres e burgueses, civis e militares, exigiram o regresso do rei e expulsaram Beresford e os comandos militares ingleses.
De 1816 a 1820, a situação geral do reino degradara-se e o relacionamento na metrópole entre os governantes portugueses e a autoridade investida de Beresford atingira o seu ponto crítico. Germinavam por outro lado, anseios de “Regeneração”, o que poderia significar o confronto entre o “partido da França” e o “partido da Inglaterra” e a luta entre três correntes: conservadores; liberais favoráveis a reformas por “graça” de um soberano dador outorgante de liberdades; partidários românticos de uma radical “regeneração”, ideia que andava no pensamento dos liberais portugueses e se expandia nesses anos.

Em 1817, a “Conspiração” de Gomes Freire de Andrade, alegadamente encabeçada por Gomes Freire, venerável da loja maçónica dita “Regeneração” e pelo organismo secreto “Conselho Supremo Regenerador de Portugal, Brasil e Algarves”, foi evidente manifestação, com desenlace trágico, desses conflitos e confrontos (ibidem). Conhecem-se as reacções e os debates que desde logo a envolveram, designadamente pelos periódicos da época publicados em Inglaterra, como O Investigador Portuguez, que assim começou por se lhe referir: “Reino de Portugal. Demos principio neste N.º á publicação da Sentença e Acordaons proferidos contra os reos de alta traiçaõ, justiçados em Lisboa no memorável dia de I8 de Outubro, de 1817. Este facto hé importantíssimo, e deve formar uma grande epocha na interessante historia de Portugal desde os fins de 1807 até nossos dias; e por isso merece ficar perpetuado em todos os escriptos do tempo.”
Tratou-se de um intrincado processo político violentamente repressivo levado a cabo contra duas dezenas de militares e civis liberais, suspeitos conjurados e focado na figura de Gomes Freire que “visou a desarticulação de um movimento liberal, essencialmente militar, centrado na capital, com ramificações no Porto e outras zonas do país” (M.H. Pereira, 2018:149-150).

Tal acontecimento, “decorridos apenas três anos, vai ocupar um lugar destacado na construção da memória do novo regime liberal em Portugal”, vindo a configurar um acontecimento histórico nacional “fundador do liberalismo oitocentista” (M.H. Pereira, 2018:149-150) de grande significado e repercussão prolongada. Após a fase apologética do período vintista, a construção dessa memória consolidou-se com a “estabilização da monarquia constitucional e atravessou o século XIX, sendo retomada pela República no primeiro centenário, em 1917” (ibidem).
Pela Liberdade! No dealbar da Revolução de 1820 – por Maria Otilia Pereira Lage, jornal Público, 18 de Agosto de 2020, pp. 34/35 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

[FIGUEIRA DA FOZ - DIA 24 AGOSTO] – HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS / SESSÃO EVOCATIVA DOS 200 ANOS DA REVOLUÇÃO LIBERAL


Homenagem a MFT / Sessão Evocativa dos 200 anos da Revolução Liberal e apresentação do Livro "Manuel Fernandes Tomás, Escritos Políticos e Discursos Parlamentares (1820-1822)"

PROGRAMA:

DIA: 24 de Agosto de 2020

- 17,30 Horas: Deposição de Coroa de Flores junto ao túmulo de Manuel Fernandes Tomás;

- 18,15 Horas: CAE – Auditório João César Monteiro

- Sessão Evocativa dos 200 Anos da Revolução Liberal;

- Apresentação do Livro "Manuel Fernandes Tomás, Escritos Políticos e Discursos Parlamentares (1820-1822)", de autoria do professor José Luís Cardoso

ORADORES: Pres. da CMFF | Familiar de Manuel Fernandes Tomás | prof. Vital Moreira | prof. José Luís Cardoso

NOTA: O ESPAÇO ESTÁ LIMITADO.

J.M.M.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

UM POEMA PREMONITÓRIO DO 24 DE AGOSTO DE 1820



Um Poema Premonitório do 24 de Agosto de 1820” [Extracto] – por Luís Miguel Queirós, in Público, 17 de Agosto de 2020
No dia 15 de Junho de 1819, um jovem estudante de Leis, que pouco antes começara a usar os apelidos Almeida Garrett, escreveu no Porto, sua cidade natal, um poema que resumia com veemência quase pitoresca a indignação e rancor que a presença e o ascendente dos mili­tares ingleses vinha alimentando na sociedade portuguesa.

"Opressora da Lusa liberdade/Esta canalha d'Al­ b-on soberbo/ aqui fixou seu trono./ De botelhas coroadas, e d’olhos, boca,/ Das orelhas, nariz e doutras partes/ Esguichando cerveja, numa glória/ De espesso nevoeiro,/ Pou­sou seu génio bruto em nossos muros;/ Co nacional God-damn, e o frasco a pino,/ Nos bebe o vinho, nos esbulha as bolsas."
 
Mais curioso é que neste poema, intitulado Férias, Garrett parecia também adivinhar não só que a revolta estava para breve, mas que nasceria no Porto, como efectivamente veio a acontecer um ano depois, no dia 24 de Agosto de 1820.
Ressurgir[á] daqui" a "nobre inde­pendência de outras eras", escreve, acrescentando um voto que é todo um programa revolucionário: "Oh! quando te hei-de eu ver, pátria que­rida/ Limpa de ingleses, safa de conventos,/ E varridas tuas ruas da imundície/ Do fidalguesco lixo!
Férias foi recolhido uma década mais tarde, em 1829,na primeira edição da Lírica de João Mínimo, publicada em Londres, e é justamente numa nota a estes versos que Garrett inclui um dos seus ditos mais célebres: "Se na nossa cidade, há muito quem troque o b por v, há muito pouco quem troque a honra pela infâmia, e a liberdade pela servidão."
Garrett veio a envolver-se na revolução liberal, viu aquele que seria o seu primeiro poema impresso, o Hino Patriótico, ser recitado no Teatro de S. João logo no dia 27 de Agosto de 1820, e chegou a ser secretário particular de José da Silva Carvalho, um dos líderes civis do movimento. Não é, pois, implausível que em meados de 1819 já lhe tivessem chegado alguns ecos da actividade do Sinédrio, para o qual um seu amigo próximo, Duarte Lessa, fora cooptado em Fevereiro do ano anterior. Mas talvez não lhe fosse necessário estar ao corrente da conspiração, ou possuir dotes divinatórios, para prever que mais tarde ou mais cedo se desencadearia uma revolta e que a probabilidade de ela vir a eclodir no Porto era considerável.

O magistrado José Maria Xavier de Araújo, penúltimo membro a ser recrutado pelo Sinédrio - o último foi o coronel Bernardo Sepúlveda, que a exemplo da generalidade dos oficiais implicados no pronunciamento de 24 de Agosto passou para o campo absolutista logo na Vilafrancada -, deixou umas memórias da Revolução de 24 de Agosto, na qual via "o resultado necessário dos acontecimentos que conduziram o Príncipe Regente de Portugal ao Brasil no ano de 1807, onde lançou as bases de um novo Império, com uma Administração separada, um Erário separado, e todos os Estabelecimentos próprios de uma Monarquia absoluta". E prosseguia: "Se este sistema não fosse levado ao seu extremo resultado, o Povo Português (...) toleraria por mais tempo a pesada carga, e digamos ainda, a humilhação de ser Colónia do Brasil, [mas] (...) o jugo tinha-se tornado, além de pesado, odioso, desde que o mais insignificante emprego temporário ou vitalício era dado do Rio de Janeiro com grande despesa de dinheiro e tempo."
Xavier de Araújo constatava ainda: "O nosso Exército, governado em chefe por um general Inglês, e na maior parte das Divisões e Brigadas, também por Ingleses, era conservado no pé de guerra com grave peso do nosso Tesouro." Se o domínio britânico sobre o Exército e a administração pública era um dos mais óbvios focos de descontentamento, a cruel execução, em Maio de 1817, de Gomes Freire de Andrade e dos oficiais que com ele tinham conspirado para derrubar o Governo, acirram o ódio aos ingleses. Xavier de Araújo não hesita mesmo em sugerir uma relação de causa e efeito entre o enforcamento dos conspiradores, atribuída a Beresford, e a criação do Sinédrio: "Cousa notável, e que evidentemente mostra a inutilidade da pena de morte aplicada a delitos políticos! No mesmo ano da morte de Gomes Freire foi assentada a Associação que produziu a Revolução de 24 de Agosto de 1820."

No entanto, era no país de Beresford que se imprimiam os vários jornais portugueses que contribuíram para difundir o ideário liberal nos anos que antecederam a revolução, como O Português, do bacharel Bernardo da Rocha Loureiro, ou O Campeão Português, de José Liberato Freire de Carvalho. E foi em Inglaterra que vários revolucionários do vintismo, incluindo Silva Carvalho e Xavier de Araújo, procuraram refúgio após a reviravolta absolutista da Vilafrancada, em 1823.
 
Um tratado ruinoso

Como o principal ideólogo da revolução, Fernandes Tomás, salientará no seu Relatório sobre o Estado e Administração do Reino, no qual pormenorizou perante as Cortes, em Fevereiro de 1821, a situação calamitosa da agricultura e do comércio, da indústria e das finanças, o país estava arruinado. Mas continuava a manter, em tempo de paz, um exército numeroso e oneroso, cujos postos principais eram ocupados por britânicos, que bloqueavam a progressão dos oficiais portugueses. Um aspecto que ajuda a explicar, aliás, a circunstancial conjugação de interesses, pouco duradoura mas instrumental para o sucesso da revolta, entre as ilustradas elites burguesas portuenses, genuinamente empenhadas numa viragem liberal, e um grupo de militares nortenhos, intrinsecamente conservadores, que se tinham em muitos casos distinguido nas guerras peninsulares e que agora se viam a marcar passo.

[…] O Porto, uma cidade burguesa, onde a presença da nobreza de sangue era residual e o poder estava nas mãos de uma elite de juízes, desembargadores, grandes comerciantes e industriais, ressentiu-se particularmente. A urbe crescera muito na segunda metade do século XVIII, tornando-se mais ampla e desafogada com as ambiciosas intervenções dos Almadas, e beneficiou de um forte dinamismo económico muito devedor do comércio do vinho do Porto, cujas exportações triplicaram no último quartel do século.
No mesmo período, a importância das relações comerciais com o Brasil, não só do Porto, mas também dos principais pólos urbanos do Minho, crescera consideravelmente. E se é verdade que este período afortunado acabou de algum modo com as invasões francesas e os anos de guerra, a recuperação que depois se iniciou foi fortemente abalada pelo fim do exclusivo comercial com o Brasil e a concorrência dos produtos ingleses, que contribuiu também para a decadência das fábricas portuenses, que deixaram de conseguir escoar os seus produtos.

Se somarmos a estas circunstâncias a proverbial independência da cidade face ao poder central, a circulação de jornais, panfletos e livros que lhe faziam chegar as novas ideias filosóficas e políticas que se discutiam na Europa, ou ainda a rede de contactos que a elite burguesa do Porto mantinha em toda a região norte, e que abarcava os comandos militares, talvez se deva reconhecer que a convicção de Almeida Garrett de que seria o Porto a libertar o país, embora plasmada em verso, nada tinha de lírica.
Não só a revolução nasceu no Porto, como durante algumas semanas a junta de governo proclamada na cidade liderou de facto o país, conseguindo quase de imediato o apoio do Minho, e avançando depois numa digressão nacional que foi encontrando pouquíssima resistência, até entrar no dia 1 de Outubro em Lisboa, que entretanto aderira já ao movimento revolucionário na sequência da revolta de 15 de Setembro, na qual o povo da capital tivera participação decisiva. E apesar das várias disputas internas que de imediato marcaram o período de preparação das Cortes, e que desde logo testemunharam a fragilidade da aliança entre os líderes civis e militares, a junta Provisional do Supremo Governo do Reino, que resultou da fusão da junta portuense com o governo interino de Lisboa, seguiu, no essencial, o programa delineado pelos juristas do Sinédrio.
No entanto, segundo o testemunho de Silva Carvalho, a associação, em bom rigor, não tinha sido originalmente criada para promover uma revolução, mas antes para assegurar que não lhe faltariam líderes esclarecidos quando ela rebentasse. Convicto de que o Governo de Fernando VII, que restaurara o absolutismo com mão pesada, não poderia durar, e que o inevitável levantamento espanhol não deixaria de ter repercussões em Portugal, o que Fernandes Tomás propôs aos seus amigos Silva Carvalho e Ferreira Borges foi a formação de um grupo de homens íntegros que deveria preparar-se em segredo para uma revolta que não poderia deixar de se dar e que lhes competiria a eles tentar orientar para os melhores fins.
Mas quando as suas previsões finalmente se cumpriram e estalou uma revolta liberal em Espanha, iniciada no dia 1 de Janeiro de 1820 com um levantamento militar que impôs o restabelecimento da Constituição de Cádis de 1812, a organização portuense, então já alargada a oito membros, a que se juntariam ainda mais cinco a partir do final de Maio de 1820, não esperou por um contágio que tardava a materializar-se e começou a manter contactos com os revolucionários espanhóis e a mobilizar os chefes militares de que carecia para lançar a revolução.

Os homens do Sinédrio viam-se como moderados e fizeram sempre questão de assegurar a sua fidelidade ao rei e à religião católica - raras revoluções terão começado com as tropas em parada a assistir a uma missa campal, como aconteceu no Porto -, mas nem por isso o seu programa deixava de ter alguns aspectos profundamente radicais. Se a libertação da tutela inglesa, a exigência do regresso do rei ou mesmo a frustrada reivindicação de que o Brasil revertesse à condição de colónia, respondiam diretamente às circunstâncias, já a insistência numa Constituição que emanasse de uma assembleia eleita e representativa da nação, e à qual o próprio rei ficaria subordinado, representou uma revolucionária primeira pedra do edifício jurídico do Portugal moderno, que ainda levaria bastantes anos a consolidar-se.

Um Poema Premonitório do 24 de Agosto de 1820 – por Luís Miguel Queirós, [Jornalista], jornal Público, 17 de Agosto de 2020, pp. 34/35 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

PERIÓDICOS ANTINAPOLEÓNICOS: O SEMANARIO LUSITANO CONTINUADO PELO MERCURIO LUSITANO


O Semanário Lusitano. Ano I, nº 1 (3 Maio de 1809) ao nº ??, de Agosto 1812; Redactor: Teodoro José Biancardi; Oficinas da Impressão Régia de Lisboa, Lisboa, 1809-1812.

O Mercúrio Lusitano. Ano I, nº 1 (1 Setembro 1812) ao nº 695 (22 Dezembro 1815; Redactor: Teodoro José Biancardi; Oficinas da Impressão Régia de Lisboa, Lisboa, 1812-1815.
Vendia-se na loja da Gazeta, na de Carvalho (defronte à boca da rua de S. Francisco), na loja de Nascimento (rua dos Algibebes).

Trata-se de uma folha informativa escrita pelo publicista Teodoro José Biancardi que tinha antes editado e colaborado no periódico Lagarde Portuguez de Luís Sequeira Oliva, como aqui nos referimos. Como outras folhas, dava notícias políticas, a que se seguia curiosos considerandos e reflexões. O Semanario Lusitano tem inicio a 3 de maio de 1809 e vai até 1812, onde muda de título para Mercurio Lusitano, terminando em 1815.  
A questão do periodismo depois das invasões francesas é bem curioso. Na verdade, a imprensa periódica portuguesa até aí não tinha expressão, apenas existia a Gazeta de Lisboa. Deste modo o aparecimento de folhetos, opúsculos, impressos nacionalistas e do jornalismo antinapoleónico (os franceses tinham na sua alçada, a Gazeta de Lisboa e o Diário do Porto), como o Leal Português (Porto, 1808-1810), Minerva Lusitana (Coimbra, 1808-1811), a Gazeta de Almada (1808), o Correio do Outro Mundo (1808), o Lagarde Portuguez ou a Gazeta depois de jantar, o Semanário Lusitano (1809-1812), o Diário Lisbonense (1809-1813; de Estêvão Brocard), e muitos outros, que rapidamente surgiram (com autorização tácita da Regência), tornaram as posições e interesses patrióticos sobejamente defendidas. Entre 1808-1809 existiram muitos periódicos no país (aponta-se para a existência de 24), quase todos circulando entre Portugal e Espanha ou então citados e traduzidos, pelas notícias militares dos êxitos obtidos por ambos os exércitos contra a França de Bonaparte (cf. Péricles Pedrosa Lima, A corte no Brasil e os periódicos portugueses:1808-1821).
O tom satírico, panfletário, a par de conteúdos políticos mais sérios, a circulação e o debate de ideias, fizeram destas folhas ou periódicos, na sua maior parte antinapoleónicos, num país pouco habituado a tais expressões de (relativa) liberdade de imprensa terem uma extraordinária importância, quer informativa quer literária. A censura volta em força a partir de 1810, curiosamente no período da Setembrizada e da perseguição à Maçonaria, o que explica, em parte, o enorme sucesso obtido pelos jornais da emigração entre nós. Porém, a aprendizagem adquirida por esses papéis “libertinos e sediciosos” (Agostinho de Macedo) fez com que o país jamais pudesse ser a mesmo: foi dado ao grande público a possibilidade de aceder a notícias e informações relevantes da sociedade e do mundo, e portanto à divulgação de novas e civilizadas ideias, procurou-se o debate político e a procura de uma maior ilustração, pelo tudo isso deixou marcas profundas. Isto é, as transformações operadas nas mentalidades, principalmente nas classes emergentes com interesses desenvolvimentistas liberais ou constitucionais, fizeram o seu próprio e silencioso percurso. Os jornais da emigração souberam muito bem ler e compreender essa avidez de liberdade.


Theodoro José Biancardi (1777-1854) nasce em Lisboa (é batizado na Igreja das Mercês) e, ou que se sabe [vide Diccionario de Inocêncio F. da Silva; idem Diccionario de Esteves Pereira], exerceu cargos governamentais, trabalhando como Oficial da Secretaria do Estado e foi um escritor político interventivo.  
Publica, em 1808, o folheto Successos do Alemtejo, onde faz o resumo das ocorrências verificadas no decurso da restauração do reino e expulsão do exército francês. Esta obra, que narra a crueldade do comandante das forças francesas Loison na revolta em Évora, provoca uma resposta do tenente general espanhol, D. João Carrafa (a quem Biancardi pedia responsabilidades), a que sucede a competente réplica de Biancardi (de permeio, outros mais intervieram, caso de Federico Moretti e Cascone), Resposta ao manifesto que fez imprimir em Cadiz o Tenente General D. João Carrafa contra a obra intitulada Successos do Alemtejo (Impressão Régia, 1811).

Em 1809 é autor do romance epistolar Cartas Americanas (Impressão Régia; teve várias edições, a última em 1820, pela Impressão de Alcobia) onde se “descreve os usos e costumes de Lisboa, assim como huma narração desde a sahida de S. A. R. para o Brasil". A novela toma como modelo as Cartas Persas de Montesquieu (cf. Simone Cristina Mendonça de Souza, Cartas Americanas, 2008; Pinheiro Chagas, no seu Dicionário, sobre este assunto entre as Cartas de Biancardi e de Montesquieu, diz que elas se parecem tanto “com um ovo como com um espeto e já não dizemos no talento com que são escritas”), onde o “o luxo, escravidão, modas, educação das mulheres, Teatros, jogo, demandas, influência das Artes e Ciências nos costumes dos povos, e por ultimo o Governo e Administração dos Franceses em Portugal” estão bem presentes. Teve algum sucesso esta novela porque quase de imediato ao Rio de Janeiro. Ainda neste ano surge como colaborador do Telegrafo Portuguez, de Luís de Sequeira Oliva, porém poucos artigos apresentou.
Saindo de colaborador do Telegrafo Portuguez, Biancardi lança a sua própria folha política, Semanário Lusitano [nº 1 (3 Maio 1809) ao nº ??? (1812), Impr. Régia]. Em 1812, é substituído este periódico pelo Mercúrio Lusitano [nº 1 (1 Setembro 1812) ao nº 695 (22 Dezembro 1815), Impr. Régia]. Curiosamente, a 20 de Outubro de 1812, Sequeira Oliva, ao nº 84 do seu Telegrafo Portuguez publica um artigo a propósito do uso excessivo de palavras francesas (“Guerra às palavras afrancezadas”) que Biancardi considera direccionado para a sua pessoa, dando início a uma polémica entre os dois. Segundo o saudoso professor José Tengarrinha (Nova História da Imprensa Portuguesa, p. 228), o periódico chegou “a noticiar as Cortes Constituintes de Cádis, o que certamente não terá sido do agrado das autoridades portuguesas”.  

Em 1810 traduz (surge anonimo, mas é-lhe atribuído a tradução) do espanhol o folheto A voz da America proclamação que circulava por toda a America hespanhola e que manifesta geralmente o voto de que seja eleito para Regente e futura Senhora de Hespanha a senhora D. Carlota Joaquina de Bourbon (Impr. Régia, 1810).
Por volta de 1816, viajou para a cidade do Rio de Janeiro e, após a independência, torna-se brasileiro, de acordo com o artig.º 6 da Constituição de 1824. Exerceu o cargo de Oficial Maior da Secretaria do Estado dos Negócios do Império e em Dezembro de 1822 é encarregue de preparar o local (Cadeia Velha, do Rio de Janeiro) destinado aos trabalhos da Assembleia Geral e Constituinte do Brasil, por José Bonifácio de Andrada e Silva, ao mesmo tempo que está incumbido da organização da futura Secretaria da Assembleia.
Em 1826, pelo Decreto de 25 de Janeiro, é nomeado por D. Pedro I como ministro plenipotenciário para o Congresso Anfictiónico (plano de Bolivar para todas as ex-colónias pensarem uma unidade continental; há quem leia ali o pronúncio da futura Sociedade das Nações), no Panamá, porém o Brasil não marcou presença, aliás como outros países como a Argentina, a Bolívia, o Chile e os EUA. Sobre a ausência no Congresso, as especulações são muitas e, entre elas, sobressai a imperiosa necessidade do Brasil ter o reconhecimento das potências europeias; acresce o facto dos países presentes nessa reunião serem repúblicas (só uma monarquia esteve representada, o Reino Unido), o que poderia ser indesejável e portanto assunto a não desprezar; por outro lado, a notícia do não comparecimento da Argentina ao Panamá e as hostilidades militares entre os dois países pelo actual território o Uruguai estarem já presentes, poderia levar a seguir o mesmo procedimento; por fim, julga-se que a Espanha não veria com bons olhos um Congresso onde marcavam presença novas nacionalidades de expressão hispana. Portanto, muito embora a viagem até ao Panamá fosse longa (à volta de um mês) e difícil, o motivo de súbita doença de um Teodoro Biancardi já posto a caminho (estaria perto de Salvador da Bahia), como alguns tentam argumentar, se bem que possível pode não ser aceitável de todo.

 
Em 1831, pede Biancardi a sua demissão por incompatibilidade com o ministro da tutela e, logo após, toma o lugar de Oficial Maior da Secretaria da Augusta Câmara ou Câmara dos Deputados, até à sua aposentação.
Em 1835 pede licença, por “9 ou 10 meses” para ir a Portugal, às Caldas da Rainha, “procurar remédio para as suas enfermidades” (in Annaes do Parlamento Brasileiro). Permaneceu no Brasil e em 1849 volta a Lisboa, onde desembarcou a 4 de Julho desse ano. Pouco tempo cá esteve, partindo novamente para o Brasil onde morre a 15 de Agosto de 1853, em Niterói (cf. Diccionario, Sacramento Blake, vol.7). Foi casado com D. Maria da Graça Barbosa Biancardi. Era Cavaleiro da Ordem e Cristo (1825) e da Rosa. (1829).

Escritor prolixo deu ao prelo, ainda, outros opúsculos: Reflexões sobre alguns successos do Brasil (Rio de Janeiro, 1822); Eduardo e Lucinda ou a portugueza infiel (Rio de Janeiro, 1829); Inocêncio F. da Silva diz que tinha “ouvido dizer” que Biancardi “redigira e publicara no Rio as sessões da Assembleia constituinte, as quaes saíram impressas em dois grossos volumes, com a singularidade de serem ali cortados todos os discursos pronunciados pelos irmãos Andradas no dia em que se realizou a dissolução da mesma Assembleia” (Diccionário, vol. 7, p. 309).
J.M.M.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

O TELEGRAFO PORTUGUEZ OU GAZETA PARA DEPOIS DO JANTAR


O Telegrafo Portuguez ou Gazeta para depois do Jantar [continuação do Lagarde Portuguez ou Gazeta para depois de Jantar, que termina ao seu nº 8]. Ano I, nº 9 (19 de dezembro de 1808) ao Ano V, em 31 de Dezembro de 1814 [ao nº 24, de 9 de Fevereiro de 1809, muda para Telégrafo Português; depois ao nº 25, de 16 de Fevereiro de 1809, surge com o título de Telegrafo Português ou Gazeta Anti-Franceza; a partir de 1 de Janeiro de 1814 regressa ao título Telégrafo Português, e começa a ser numerado a partir do nº1 seguindo até ao nº 105, de 31 de Dezembro de 1814]; Redactor: Luís de Sequeira Oliva e Sousa Cabral (1778-1815); Colaboração (Editor?): Teodoro José Biancardi; Adm. [em 1814]: Travessa de S. Nicolau, nº 67 (junto ao Pote das Almas), Lisboa; Oficinas da Impressão Régia de Lisboa, Lisboa, 1808-1814.

Lembra-me porém, mudando de tom, converter esta Gazeta n’hum Periodico nacional, em que anime, e esclareça o Patriotismo, refute a politica infernal de Bonaparte, destrua os falsos temores, e patentee as tramas com que os inimigos da Patria pretendem amortecer o nosso valor, e constancia; semelhante papel será muito interessante, e ouso dizello, muito necessario nas actuaes circumstancias …

 [inO Telegrafo Portuguez”, nº24]
Trata-se, como AQUI dissemos, da continuação do periódico satírico Lagarde Portuguez ou Gazeta para depois de jantar que, ao seu número nove, passa a chamar-se O Telegrafo Portuguez ou Gazeta para depois do Jantar. O seu redactor, o espirituoso L.S.O. ou seja Luís de Sequeira Oliva e Sousa Cabral, continua o seu combate no periodismo nacional, de pena e espada, contra os “ímpios” franceses. Não deixa de ser curioso referir que Luís Sequeira Oliva, logo no primeiro número do Telegrafo, diz que mudou o nome ao periódico, não só porque o nome Lagarde era detestado, mas porque as “nossas noticias nos são transmitidas quase que com a mesmo velocidade da luz”. Recruta L. S. O. um colaborador, Teodoro José Biancardi (ver verbete em post seguinte), que, apesar da sua enorme combatividade, pouco ou nada escreveu neste periódico, vindo a fundar o Semanário Lusitano (1809-1812), mais tarde substituído pelo título de Mercúrio Lusitano).
 
Luís Sequeira Oliva muda, de novo, o título do jornal para Telegrafo Português ou Gazeta Anti-Franceza ao seu nº 25 (16 de Fevereiro de 1809), conservando-o até ao nº 48 (15 Junho 1809), em que suspende a sua publicação. Reaparece no dia 4 de Janeiro de 1812, mudando de novo o título da gazeta, a partir de Janeiro de 1814, para Telégrafo Português, terminando a sua publicação a 31 de Dezembro desse ano [ler, com muito proveito, o trabalho, por nós já referido, de Carla da Costa Vieira, Animar a Pátria, refutar Napoleão …”].

Não deixa de ser interessante ter aparecido, a 3 de Julho de 1809, um periódico de cunho marcadamente liberal (talvez o 1º periódico liberal em Portugal – cf. Georges Boisvert), O Correio da Peninsula ou Novo Telegrafo, que se “reclamava” da sua continuidade e que era redigido por João Bernardo da Rocha Loureiro (que lançará em Londres, em 1814, um dos mais importante jornais da emigração, O Portuguez) e de Nuno Álvares Pereira Pato Moniz (o inimigo figadal do padre José Agostinho de Macedo). Porém esta presuntiva reclamação da herança do antigo Telegrafo Portuguez mereceu uma Carta do Author do Verdadeiro Telegrafo a hum seu Amigo de Lisboa, isto é, vindo da parte de Luís Sequeira Oliva, que acusava o novo jornal de plágio. A resposta de Rocha Loureiro ao “Explorador do Salitre” ou “Barbadinho de Moira” (i.é. Sequeira Oliva) é muito sarcástica (ver Carla da Costa Vieira, p. 18). Este Novo Telegrafo, pelas suas manifestações liberais e pela polémica que manteve com o padre Agostinho de Macedo em torno da questão denominada Sebastianistas, não teve autorização para prosseguir pelas autoridades, que não lhe renovaram a competente licença.
O Telegrafo Português, ao longo das suas edições dá conta dos avanços e recuos dos franceses, sob comando de Soult, e a correspondente luta (em diferentes localidades) que se lhe fez frente o exército luso-inglês; apresenta, por vezes, algumas transcrições do periódico coimbrão Minerva Lusitana, nunca esquecendo as importantes situações de confronto contra Napoleão, tanto na Península como em toda a Europa; dá pequenas anotações (muitas retiradas da Gazeta de Lisboa) sobre o diário militar da campanha de Wellesley e de Beresford ao longo do país, as deambulações das tropas de Francisco da Silveira, Bacelar; transcreve artigos do valioso periódico liberal espanhol Semanário Patriótico (1808-1812), redigido pelo poeta Manuel José Quintana (1772-1857), da Gazeta Extraordinária de Madrid (1814).

Como curiosidade seja dito que ao seu nº 26 dá notícia da impressão do folheto “Susto que elles voltem”, ao mesmo tempo que diz vender os 24 números da colecção do Telegrafo, em um volume, por 480 réis. Saiu o periódico, por vezes, com um Suplemento com referência aos “francezes revolucionários”, jacobinos ou “franco-manos”, além do “Resumo das novidades da semana” quase sempre noticias militares. .   
Vendia-se este periódico, como se pode ler no seu número 28 (Março 1809) e ss, na loja de Luiz José de Carvalho (aos Paulistas), na loja de Francisco Luiz Leal (em Alcântara), na loja do Carvalho (aos Mártires; curiosamente vendia-se, também, o “Retrato do Grande Palafox”, herói da independência da península), na Loja da Rua da Prata (ao º 227), na loja de Nascimento (rua dos Algibebes).

J.M.M.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

O LAGARDE PORTUGUEZ OU GAZETA PARA DEPOIS DO JANTAR


O Lagarde Portuguez ou Gazeta para depois do Jantar. Ano I, nº1 (21 de Novembro de 1808) ao nº 8 (15 de Dezembro de 1808) [mudou de título em 22 de Dezembro de 1808 para Telégrafo Português ou Gazeta para depois de Jantar; depois para Telégrafo Português, ou Gazeta Anti-Francesa: tem este Telegrafo a colaboração de Teodoro José Biancardi]. Redactor: Luís de Sequeira Oliva e Sousa Cabral (1778-1815); Oficinas da Impressão Régia de Lisboa, Lisboa, 1808, VIII numrs.

«O inimitável Lagarde, redactor francês da Gazeta de Lisboa de 1808, até o memorável mês de Agosto, abandonou a capital com tanta precipitação que não se pôde presumir por que motivo nos privou da sua  amável presença. A Gazeta de Lisboa tem, é verdade, continuado; mas quanto está longe de ser redigida com aquele sal, candidez e frescura com que o era no tempo em que este hábil gazeteiro nos mimoseava com as suas pitorescas descrições! Esta consideração obrigou o autor deste papel periódico a ensaiar se poderia imitá-lo, quando não fosse no estilo nervoso, salitroso e sulfúreo com que nos pintava a situação da França, carater, e prosápia do grande Monarca, que a impera, ao menos no grotesco com que tornava em ridículo as vozes, que a maledicência espalhava contra o governo francês em Portugal. Por isso por se chegar o mais possível ao original, condecora o autor este papel com o título de Lagarde Português, semelhante nisto aos Especuladores, e Entrepreendedores de Casas de Pasto, ou Café, que sempre tomam emprestado um nome famoso para chamariz dos fregueses».
[inAdvertência do Redactor da Presente Folha”, nº1]

Trata-se de uma publicação periódica, de luta contra os invasores franceses, que saiu sob anonimato mas que o sábio Inocêncio nos diz ter como seu redactor, Luís de Sequeira Oliva e Sousa Cabral. Foi uma das várias (e bem curiosas) publicações jocosas e satíricas anti napoleónicas surgidas entre 1808 e 1811, após a invasão de Junot (este género de escritos eram editados em Lisboa e em Coimbra). Alguns desses periódicos (e folhetos) são peças bibliográficas notáveis e muito raras [ver sobre este assunto António Pedro Vicente, Panfletos anti-napoleónicos durante a Guerra Peninsular, in Historia das Ideias, nº20; ver, ainda, Les Pamphlets Portugais Anti-Napoléoniens, Paris, 1978; José Amaro Albuquerque de Oliveira, A Ideologia panfletária durante as invasões francesas, 1963, António Ventura, Os panfletos anti-franceses: subsídios para a sua História, 2007] e, além do que apresentamos supra, podemos apontar a Gazeta do Rocio [apresentava no seu cabeçalho uma águia de pernas para o ar; é atribuída a António Maria do Couto], o Mentor da Moda (redactor António Manuel Policarpo da Silva) e a Gazeta de Almada ou Telescópio Portuguez (redactor José Anastácio Falcão). De poucas páginas (à volta de 4) esta imprensa era lida avidamente nos botequins, cafés e casas de pasto e tinha um número elevado de leitores.

Este Lagarde Portuguez não fugiu à regra: saia duas vezes por semana (Segunda e Quinta-feira), tinha habitualmente duas folhas (4 páginas) e apresentava no seu título o nome do Intendente Geral da Polícia, Pierre Lagarde, cargo que exercia, por indicação pessoal de Napoleão Bonaparte, desde Março de 1808, troçando dele, evidentemente. Lagarde era ao mesmo tempo o redactor oficial da Gazeta de Lisboa (a partir de 5 de Abril de 1808; tornado órgão oficioso do governo francês, não por acaso, mandou Lagarde retirar as armas reais portuguesas do cabeçalho do jornal) e, ao que parece, ditava em francês os artigos que eram traduzidos por oficiais portugueses. José Acúrcio das Neves, na sua valiosa obra, História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal e da Restauração deste Reino [1810; existe uma edição mais recente (1984) pela Afrontamento], diz-nos o seguinte:

Lagarde, que ao emprego de Intendente geral da polícia reunia o de conselheiro do governo, arvorou-se em redactor da Gazeta de Lisboa: ainda existem muitos dos originais escritos pela sua própria letra, e é admirável a fluidez com que os fazia. Muitas vezes estava com gente, e dando expedição a outros negócios; mas continuando sempre a escrever rapidamente, improvisava gazetas, e transmitia ao público o que a sua imaginação inventava. Causavam umas vezes riso, e outras indignações, as reflexões, e os coloridos, com que enfeitava e dispunha os factos, segundo convinha ao seu partido; não cessava de inspirar terror; mas o ridículo e a impostura manifestavam-se a cada passo”.

 
Luís de Sequeira Oliva e Sousa Cabral (1778-1815) nasceu em Casfreires (Sátão), filho do bacharel de direito e almoxarife ouvidor e capitão-mor de Ferreira de Aves, Luis Félix Sequeira e Loureiro, e de Micaela Luísa de Oliva e Sousa Cabral. Depois dos seus estudos, foi para a Universidade de Coimbra onde obtém (1802) o bacharelato em Direito [vide Inocêncio F. Silva, Dicionário …, vol V, pp. 320-321; ver, com proveito, Carla da Costa Vieira, Animar a Pátria, refutar Napoleão ...]. Exerceu a profissão de advogado na sua terra natal, mas “reconhecendo em si pouca inclinação para a vida do foro” partiu para Paris, onde tirou química com o célebre professor Louis Nicolas Vauquelin, regressando depois à pátria. Integra-se como primeiro-tenente do Real Corpo de Engenheiros, químico do Arsenal e fábricas de pólvora, e tem a seu cargo a direcção da fábrica de refinação de salitre na vila de Moura.

Perante as invasões francesas, Luís de Sequeira Oliva, demitiu-se das suas funções militares para não ter de obedecer a uma autoridade estrangeira, ingressa nas "hostes dos patriotas do Exército do sul" (C. C. Vieira, ibidem)  e entendeu “defender a pátria” pela escrita, como outros o fizeram pelas armas. Assim, redigiu além do Lagarde Portuguez, e do importante, e já citado, Telégrafo Português, ou Gazeta Anti-Francesa (que lhe sucedeu e que existe até ao fim das invasões), curiosos folhetos, a saber:
Verdadeira vida de Bonaparte até á feliz restauração de Portugal. Offerecida ao Ill.mo e ex.mo sr. M… do L… Lisboa, Imp. Regia 1808, 147 p.; Dialogo entre as principaes personagens francezas, no banquete dado a bordo da Amavel por Junot no dia 27 de Septembro de 1808. Lisboa, Typ. Lacerdiana, 1808, 44 p.; Restauração dos Algarves, ou os heroes de Faro e Olhão: drama historico em 3 actos. (Em prosa), Lisboa, Imp. Reg., 1809, 82 p.; Dialogo entre Bonaparte, seu irmão José, Berthier, e Lasnnes : ácerca da declaração de guerra pela Austria, 1809; Carta dirigida a S. A. Mr. Massena, general em chefe da expedição contra Portugal, pelo author do antigo Telegrapho Portuguez, em que se pertende demonstrar a inconquistabilidade da Hespanha, e o absurdo de pertender conquistar Portugal, 1810; Supplemento à Carta dirigida a Massena, 1810; Memoria lida na Academia Real das Sciencias de Lisboa, sobre a fabrica de salitre que se estabeleceu na villa de Moura, in Investigador portuguez, n.º XV, de pag. 457 a 461; Discurso sobre a Independencia do sábio na carreira da vida, 1814.

Como curiosidade, diga-se que Luís de Sequeira Oliva considerando-se “injuriado” pelo padre fundibulário José Agostinho de Macedo, no seu célebre poema satírico Os Burros ou o Reinado da Sandice, onde eram principalmente vilipendiados os frades Bernardos, fez requerimento competente às autoridades pelo abuso do padre. A Secretaria do Reino, em 11 de Fevereiro de 1812, fez um Aviso para apreensão do opusculo que supostamente corria sob redação do padre mas que o próprio negou a sua autoria. Não surtiu, porém, o efeito desejo e até mesmo os Bernardos procuraram amansar o padre, porque, perante a tentativa de desencaminho do padre à freira Maria Cândida do Vale, os frades Bernardos “fizeram vista grossa e transigiram que o padre vivesse de casa e pucarinho com a freira bernarda”.

Morre Luís de Sequeira Oliva e Sousa Cabral  no sítio do Lumiar, “atacado de uma disenteria crónica”, a 1 de Junho de 1815. Deixou à Academia Real das Ciências, de que era sócio, “um legado humanitário de 400:000 réis, destinado para coroar a Memória que indicasse o methodo seguro de curar radicalmente as dysenterias chronicas, seja qual for a sua causa, fundado em princípios, e confirmado por observações praticas” [in Inocêncio F. da Silva, ibidem]. Foi casado com Ana Senhorinha de Barros Lassence.

J.M.M.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

REVISTA DO GRÉMIO LUSITANO ANO 9, Nº 21 – 1º SEMESTRE 2020


Grémio LusitanoAno 9, 21, 1º Semestre 2020, p.87; Editor: Grémio Lusitano; Dir: António Lopes; Coord: António Lopes e Álvaro Carrilho; Red.: Rua do Grémio Lusitano, 25, 1200-211 Lisboa.

«Uma revista como Grémio Lusitano pretende constituir-se como um espaço de livre debate de ideias, tendo por base os valores da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, como de resto se assinala no seu Estatuto Editorial. Com este número assumimos uma viragem no sentido de dar à nossa revista um caráter mais académico e de instrumento de trabalho para todos nós.

Defendendo, como de resto sempre foi timbre da Maçonaria, a existência de uma opinião pública informada, ativa e interveniente, condição essencial para o exercício pleno da cidadania, compatibilizamos o livre pensamento, o refletir sobre as ideias em debate e o equacionar novas questões, com a Tradição, considerada esta como uma memória do passado, fundada na transmissão, onde estão presentes sinais, símbolos ou outras formas de registo, que desembocam no enriquecimento intelectual.

As questões ligadas ao Liberalismo são a base de uma sociedade social e politicamente democrática, participativa civicamente e tolerante na diversidade de opiniões e onde o enriquecimento intelectual é a ferramenta a que a Maçonaria sempre recorreu. São igualmente a base da sociedade que hoje conhecemos e de que usufruímos. Por isso, nada melhor do que recordar estes 200 anos da Revolução Liberal como tributo àqueles que em 1820 abriram a porta para a existência de uma Constituição. Com raízes no Iluminismo do século XVIII, estruturante das sociedades europeias e do continente americano do século XIX, pressupõe o Liberalismo, a existência de Liberdade, de um consentimento e representatividade dos governados e da igualdade perante a Lei. Pressupõe também a liberdade de escolha política, alternância de poder e, naturalmente a liberdade de pensamento. Valores e princípios que facilmente hoje admitimos como “naturais”, mas que infelizmente nem sempre foi assim e dos quais nunca nos devemos esquecer. Lembremo-nos de um dos grandes detratores da Maçonaria, José Agostinho de Macedo, que considerava que a Igualdade era contrária à “ordem natural das coisas” e como tudo na natureza era desigual, referindo como exemplo os dedos de uma mão, as árvores ou os homens, logo a desigualdade era, em seu entender, natural e indispensável à sociedade.

Por isso, o ano de 1820 e a revolução então ocorrida, constitui um marco histórico na História de Portugal, no qual muitos maçons tiveram um papel ativo. Inspirados em Locke, Adam Smith, Rousseau ou Montesquieu construíram o primeiro texto constitucional em 1822, primeiro de vários onde se discutiu se uma Constituição deveria sair dos representantes do povo ou concedida pelo monarca, se era um texto construído diligentemente pelos deputados ou se apenas plebiscitado, um debate que em todas as épocas atravessou a Maçonaria, como interveniente ativo na construção de uma sociedade melhor, mais justa e fraterna» [António Lopes]

TÁBUA: A Revolução em diferido: os Açores e a primeira experiência liberal (José Damião Rodrigues); Soberania Nacional, Monarquia e República: do 24 de Agosto de 1820 ao 5 de Outubro de 1910 (Rui Albuquerque); Vintismo e espaço público (Maria de Fátima Nunes); Transformações da propriedade fundiária: do Antigo Regime ao Liberalismo (Duarte Leite); A Crise do sistema liberal e o advento do novo regime (Amadeu Carvalho Homem); Maçonaria nos Açores: Tipografia e Jornalismo (António Valdemar); O Liberalismo visto pelos seus opositores (António Lopes); Teotónio de Ornelas – a sombra da juventude (Jorge A. Paulus Bruno); Um herói na revolução – Manuel Borges Carneiro (Albino Matos); O Jornalista Conimbricense Joaquim Martins de Carvalho (1822-1898) (José Manuel Martins); Museu Maçónico Português: Acervo do Liberalismo 

Revista à venda no Grémio Lusitano

J.M.M.