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segunda-feira, 20 de maio de 2019

A HOSTILIDADE AOS PROFESSORES – POR JOSÉ PACHECO PEREIRA


A Hostilidade aos Professores" – por José Pacheco Pereira, in Público, 18 de Maio de 2019

[Os professores têm muitas culpas, mas isso não esconde que têm hoje uma das mais difíceis profissões que existem. E que, sem ela, caminhamos para o mundo de Camilo]  
A hostilidade aos professores é evidente em muitos sectores da sociedade portuguesa. Manifestou-se mais uma vez no último conflito gerado pelas votações dos partidos na Assembleia atribuindo aos professores a contagem integral do tempo de serviço. Antes, durante e depois deste processo, a vaga de hostilidade aos professores atingiu níveis elevados, com a comunicação social a escavar fundo a ferida, com sondagens orientadas e uma miríade de artigos de opinião e editoriais.

Valia a pena parar para pensar, porque este movimento de hostilidade é mais anómalo do que se pensa, e acompanha outros, como o ataque aos velhos como sendo um “fardo” dos novos. Mostram que estamos a entrar numa cosmovisão social que implica um retrocesso enorme naquilo a que chamamos precariamente “civilização”. É preciso recuar muito para encontrar ataques aos professores, o último dos quais teve expressão quando a escola laica, em países como a França, foi um alvo importante da Igreja, que tinha o monopólio do ensino.
Mas eu seria muito cuidadoso sobre as razões dessa actual hostilidade, porque ela incorpora aspectos muito negativos da evolução da nossa sociedade. É um caminho que muita gente está a trilhar, sem perceber que ele vai dar a um profundo retrocesso. E isso acontece muitas vezes na história: anda-se para trás quase sem se dar por ela, contando com a inacção, a apatia, ou a acédia de quem deveria reagir. Como a democracia é uma fina película contra a barbárie e é apenas defendida pela vontade dos homens e não por nenhuma lei da natureza, mais vale prevenir com todos os megafones possíveis.

Há vários aspectos na actual hostilidade. Há uma agravante no caso português que tem a ver com a vitória muito significativa da ideologia da troika, que está longe de ter desaparecido e, nalguns casos, migrou para sectores que lhe deveriam ser alheios e não são: os socialistas, por exemplo. Disfarçada de “economia”, essa ideologia assenta numa visão pseudocientífica, muito rudimentar e simplista, cheia de variantes neomalthusianas, que se apresentou como não tendo alternativa, a nefasta TINA. Isto encheu-nos as cabeças e não saiu delas.
Essa ideologia centra-se na crítica do Estado, em particular do Estado social, e transforma os funcionários públicos em cúmplices de uma rede de privilégio, sendo descritos apenas como “despesa” excessiva. Vale a pena ensinar-lhes um pouco de história europeia e lembrar-lhes o papel do Estado desde Bismarck como instrumento para impedir sociedades bipolares de “proletários” e ricos, com a consequente conflitualidade social extrema. Acresce que esse processo criou à volta do Estado uma classe média, os tais desdenhados funcionários públicos, que não só funcionou como tampão como arrastou muita gente que vinha da pobreza e acedeu à mediania. A economia privada e o dinamismo das empresas, quando existiu ou existe, teve e tem igualmente esse papel, mas não chegou para criar este elevador social.


Portanto, gritem contra a função pública e os malefícios do Estado - que também existem como é obvio -, mas percebam que o pacote de não ter professores, enfermeiros, médicos, jardineiros, funcionário das repartições, leva atrás de si o ensino e a saúde pública, que são componentes essenciais do elevador social, o único meio de retirar as pessoas da pobreza, quer no privado, quer no público. Pais lavradores, que conheceram a verdadeira pobreza, filha professora primária ou funcionária pública, neto estudante universitário – sendo que o papel da educação é um elemento fundamental para esta ascensão.
Depois, há outros ingredientes. Os professores protestam, fazem greves, boicotam exames, fecham escolas, e hoje há uma forte penalização para as lutas sociais. Quem defende os seus interesses é penalizado e de imediato tem contra si muita comunicação social, o bas-fond das redes sociais e a maioria da opinião pública. São os enfermeiros, os camionistas, os professores, os trabalhadores dos transportes – manifestam-se, são logo classificados de privilegiados e egoístas. Os mansos que recebem migalhas no fundo do seu ressentimento invejam quem se mexe. Sem mediações, a sociedade esconde os que não precisam, e pune os que lutam. As greves hoje são solitárias.

O papel mais negativo é o da comunicação social, que se coloca sempre na primeira linha do combate ao protesto social. Despreza por regra os sindicatos, que considera anacrónicos, aceita condições de trabalho de sweatshop e ajuda a apagar e a tornar incómoda a memória de que o pouco que muitos têm no mundo do trabalho foi conseguido com muito sangue, e não ficando em casa a jogar gomas no telemóvel ou a coscuvilhar no Facebook.
Por fim, e o mais importante, há uma desvalorização do papel do professor, de ensinar, de transmitir um saber. Vem num pacote sinistro que inclui o falso igualitarismo nas redes sociais, o ataque à hierarquia do saber, o desprezo pelo conhecimento profissional resultado de muito trabalho a favor de frases avulsas, com erros e asneiras, sem sequer se conhecer aquilo de que se fala. É o que leva Trump a dizer que se combatia o incêndio de Notre-Dame com aviões-tanques atirando toneladas de água, cujo resultado seria derrubar o que veio a escapar, paredes, vitrais, obras de arte. É destas “bocas” que pululam nas redes sociais que nasce também a hostilidade aos professores. É o ascenso da nova ignorância arrogante, um sinal muito preocupante para o nosso futuro.

Os professores têm muitas culpas, deveriam aceitar uma mais rigorosa avaliação profissional, deveriam evitar ser tão parecidos como estes novos ignorantes, deveriam ler e estudar mais, deveriam ser severos com as modas do deslumbramento tecnológico, mas isso não esconde que têm hoje uma das mais difíceis profissões que existe. E que, sem ela, caminhamos para o mundo de Camilo. Não de Eça, mas de Camilo, do Portugal de Camilo. Verdade seja que isto já não significa nada para a maioria das pessoas. Batam nos professores e depois queixem-se …"

A Hostilidade aos Professores – por José Pacheco Pereira, Público, 18 de Maio de 2019, p.8  – com sublinhados nossos.

J.M.M.

domingo, 4 de março de 2018

O COMBATE CIVILIZACIONAL PELOS LIVROS E PELA LEITURA


O Combate Civilizacional pelos Livros e pela Leitura” – por José Pacheco Pereira, in Jornal Público, 3 de Março de 2018
O problema é o mito perigoso de que a “leitura”, mesmo numa forma diferente, está a emigrar de um meio para outro, porque não está.
“Estas últimas semanas passei pelos restos de um mundo que foi o meu, mas que está a acabar. A Livraria Leitura no Porto acabou. Era seu frequentador desde os tempos em que era Divulgação e tinha a loja da esquina da Rua de Ceuta e a outra que depois foi dos Livros do Brasil e o seu livreiro era Fernando Fernandes, juntamente com o editor José Carvalho Branco. Não era difícil perceber, nos últimos anos, a sua agonia para quem, como eu, já viu muitas livrarias moribundas. O stock começa a não ser renovado, as estantes têm quase sempre os mesmos livros, as novidades começam a ser sempre as mesmas de todas as livrarias, até que começam também a desaparecer. Não há dinheiro para diversificar as encomendas ou as compras e isso na Leitura era uma ruptura com a prática de Fernando Fernandes de encomendar sempre dois exemplares dos livros que os professores da Universidade do Porto mandavam vir, um para eles e outro para a livraria. Deixou há muitos anos de haver a Galeria de Arte. Pouco a pouco fechou a secção de livros artísticos, desapareceram muitos livros estrangeiros e sobravam os chamados “monos”, mesmo assim aqueles em que ainda ia descobrindo livros para comprar. Havia uns restos de filosofia, alguns livros de história, e para os professores uma boa secção de pedagogia. As montras pareciam sempre iguais e os esforços dos empregados, e dos clientes fiéis que ficaram até ao fim, não chegavam para dar vida ao espaço. Quem queria apresentar novos livros rumava para outros locais menos fúnebres. E, mesmo no anúncio da sua morte, alguns dos artigos jornalísticos publicados eram tão estereotipados e pobres, que era fácil perceber que havia uma ruptura da memória do papel da Leitura no Porto, desde os tempos da resistência, nessa rua emblemática onde havia tertúlias no Café Ceuta dos oposicionistas do Porto, onde vários destacados membros da oposição à ditadura viviam ou tinham os seus escritórios profissionais. Foi na Leitura (e na Divulgação) que vi muitas exposições, recordo-me de uma de Tapiés, escrevi textos para alguns dos catálogos, conheci Francisco Sá Carneiro e vi pela única vez Aquilino Ribeiro.
 
Primeiro, chegou um cabeleireiro ocupando a parte “histórica” da livraria e ficou apenas a nova parte na Rua José Falcão, para onde antes se passava por uma espécie de túnel com livros por todo o lado. Nada tenho contra os cabeleireiros, mas aquele ficou-me atravessado, sem culpa nenhuma. E depois veio o estrangeirismo na moda “Leitura Books & Living”, depois veio a doença terminal, e depois veio a Morte.
Nesta mesma semana, fui pela última vez à Pó dos Livros em Lisboa. Consegui a proeza de entrar, ver com algum tempo tudo o que lá havia e não conseguir encontrar nada para comprar. Este para mim é sempre o sinal. Mesmo no mercado dos livros na Estação da Gare do Oriente consigo comprar dezenas de livros de cada vez, fruto de uma outra realidade do mundo dos livros: a caótica e paupérrima distribuição, que deixa dezenas de títulos de pequenas editoras por distribuir e lá, junto dos comboios, estão como “monos” invendáveis. Comprei, na última vez, livros sobre o PREC, sobre Maria Archer, sobre a história fabril de Portugal, sobre história cultural da música popular portuguesa, etc., etc. O mesmo me acontece com os livros dessa empresa que não é uma editora, mas dá o nome de Chiado aos livros que lhes pagam para publicar. O que acontece é que há coisas muito más, mas há também alguns ensaios e estudos muito interessantes. Como de costume não se encontram nas livrarias e só nestes mercados e na Feira do Livro.
O panorama de muitas livrarias que ainda sobrevivem é igualmente paupérrimo. O espaço que têm para expor os livros — um aspecto fundamental de uma livraria — está cheio da mesma tralha de papel pintado que às centenas de títulos se publicam por mês. Quase não há livros estrangeiros, a não ser as mesmas traduções de Pessoa e Saramago para os turistas, com o pretexto de que agora “toda a gente manda vir os livros pela Amazon”. Isto é apenas uma parte da verdade, mas, de novo, ignora-se o papel dos livros expostos para uma espécie de “browsing” físico que nada substitui. Quem compra livros escolhe muitas vezes pela possibilidade de encontrar livros que não conhecia, ou mesmo quando os conhecia por ter a possibilidade de os folhear. Por exemplo, a Fnac e outras livrarias colocaram nas estantes a edição original do livro controverso sobre a Casa Branca de Trump de Michael Wolff. Não tinha a intenção de o comprar, porque pensava que os extractos publicados me chegavam e acabei por o fazer perante o livro físico. O desprezo pelo objecto real em detrimento de um hipotético objecto virtual é cada vez mais acentuado e é suicidário nos livros e nas livrarias. O mercado pode ser mais pequeno, mas é certamente constituído por gente com mais recursos.
E depois há um lado negro pouco conhecido que passa pela manipulação dos “tops”, pelas relações preferenciais entre editores e jornalistas da área da cultura da televisão, rádio e jornais, que promovem apenas alguns livros e alguns autores, há o amiguismo de grupos intelectuais ou das cortes de A e B e C que se autopromovem mutuamente, colocando-se na moda, ou estando presentes nos sítios certos e nos momentos certos, há muitas formas de pequena corrupção nos meios culturais que a ideia da intangibilidade de tudo o que é da cultura impede de ser escrutinado como devia.
Que algumas livrarias estão a morrer é verdade, mas não são todas as livrarias, que o mercado caminha para haver ou grandes livrarias como a Fnac ou livrarias de culto como a Letra Livre é verdade, que o mundo das grandes cidades como Lisboa e Porto, dominado pelos efeitos imobiliários do boom turístico, é hostil ao mercado livreiro, tudo isto é verdade. Mas também é verdade que a edição de livros é muito má, que traduções, edições, revisões, grafismo são pouco cuidados e que os professores que iam encomendar livros à Leitura hoje não compram livros, nem na Amazon — como os estudantes não os lêem. O deserto livreiro que são as universidades estende-se à sua volta onde só os ingénuos pensam que sobrevivem livrarias, quando o que está a dar são casas de fotocópias. 
 
 
Não há nada pior do que dar uma explicação errada para o que se está a passar, quando essa explicação é uma justificação derrotista de aceitação de fim de um mundo melhor a favor de um mundo pior. É que, meus amigos, às vezes as coisas andam para trás.

Repetem-se quanto à morte das livrarias os mesmos lugares-comuns sobre o arcaísmo dos livros face às novas plataformas digitais, às mudanças de hábitos de leitura geracionais, etc,. etc. Considero que quase tudo isto é, para usar um eufemismo americano, que é substituído nas televisões por um apito, bullshit. Estas “explicações” destinam-se a encobrir muita incompetência, muitos erros de gestão, muito facilitismo, muito ir atrás de modas, muitas afirmações que podem ser virais, mas que não são verificadas; e, pior que tudo, escondem um problema maior, que é o da leitura, não no mundo digital que para estas matérias eu não sei o que é, mas o da ascensão de novas e agressivas formas de ignorância, aquilo a que tenho chamado a “nova ignorância”, que ganharam valor corrente na sociedade dos dias de hoje e que a ajudam a caracterizar. E do mesmo modo que é suposto combater o autoritarismo, a violência, o sexismo, o populismo, e mais uma longa série de “ismos”, é preciso combater essa degradação daquilo que era um valor civilizacional (sim, há valores civilizacionais...) que era caminhar do fim do analfabetismo para uma qualificação da leitura como modo de dominar melhor o mundo e a vida de cada um.

O problema não é substituir os livros por um ecrã de um telefone inteligente ou de um tablet — o problema é o mito perigoso de que a “leitura”, mesmo numa forma diferente, está a emigrar de um meio para outro, porque não está. O que se está é a ler diferente, pior e menos, como se está a “saber” demasiado lixo — meia dúzia de performances rudimentares com as novas tecnologias — e pouco saber. A morte das livrarias é um aspecto desse soçobrar no lixo, mas infelizmente estão demasiado acompanhadas pela morte de muitas outras coisas, do valor do conhecimento, do silêncio, do tempo lento, da leitura, da verdade factual, e da usura da democracia

O Combate Civilizacional pelos Livros e pela Leitura – por José Pacheco Pereira, Jornal Público, 03/03/2018, p. 60 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

domingo, 13 de dezembro de 2015

ÁLVARO CUNHAL. UMA BIOGRAFIA POLÍTICA, VOL. 4, O SECRETÁRIO-GERAL


LIVRO: Álvaro Cunhal. Uma Biografia Política, vol.4, O Secretário-Geral;
AUTOR: José Pacheco Pereira;
EDIÇÃO: Temas e Debates, 2015, p. 480.

Álvaro Cunhal tinha saído algemado da casa clandestina do Luso em 1949. Agora, em 3 de Janeiro de 1960, estava livre mas continuava perseguido e entra de novo na clandestinidade. Tinham-se passado quase onze anos de prisão, uma das penas políticas mais longas do século XX português. Tem quarenta e seis anos, a sua vida pessoal mudaria significativamente a muito curto prazo e a sua acção política torná-lo-á de novo o dirigente máximo do PCP. Depois de uma atribulada estadia no interior de Portugal, sai para a URSS e depois para França, de onde só regressa em 1974. Na década de sessenta, terá uma afirmação indiscutível, como um dos grandes dirigentes comunistas mundiais, internacionalmente reconhecido. O seu pensamento e a sua acção nestes anos moldaram a história de Portugal e das colónias portuguesas até aos dias de hoje. O quarto volume de uma obra monumental, indispensável ao conhecimento da história de Portugal no século XX” [AQUI]

Trata-se do volume IV da estimada biografia política de Álvaro Cunhal (1913-2005), o “mítico” secretário-geral do Partido Comunista Português. O contributo de José Pacheco Pereira para a história do PCP e em particular para a biografia de Álvaro Cunhal é notável e imprescindível. Contra um Cunhal a “preto e branco”, Pacheco Pereira publica em 1999 o primeiro volume – “Daniel, O jovem revolucionário” (1913-1941) - excitando opiniosos protestatórios entre as carpideiras da paróquia.

Este quarto volume percorre a vida política e pessoal de Cunhal entre 1960-68, da sua fuga de Peniche (com outros camaradas), passando pela clandestinidade e seu exílio em Moscovo e Paris; fica-nos na memória a sua responsabilidade de dirigir o combate contra o “desvio de direita” no PCP, a permanência, em Cunhal, de uma incomodidade na dissidência de Francisco Martins Rodrigues (que formatou todos os agrupamentos dissidentes do PCP, em especial o movimento “maoista” português, via FAP/CMLP), a sua teorização da revolução democrática e nacional, o debate sobre a questão da luta armada e o conflito ideológico que esteve presente face ao republicanismo reviralhista, a sua posição tomada no conflito sino-soviético, etc; relembra-nos um Cunhal, aliás Manuel Tiago, deslumbrado pela literatura (curioso o que é referido sobre Aquilino Ribeiro), pela pintura e arte. Estamos, uma vez mais, perante um belíssimo testemunho biográfico sobre Álvaro Cunhal que não nos deixa indiferentes e que honra o investigador José Pacheco Pereira.  

J.M.M.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

MÁRIO SOARES – “ESCRITOS POLÍTICOS” (1969)


Mário Soares, “Escritos Políticos”, Edição do Autor [Depositária Editorial Inquérito, Travessa da Queimada, 23, 1º Dto, Lisboa], Tip. do Jornal do Fundão, Lisboa, 1969

«Uma das palavras que melhor caracteriza a Censura portuguesa é "inconveniente". A palavra não implica um julgamento de valor sobre o conteúdo de um livro ou de um artigo, apenas que pode pôr em causa aquilo que é o interesse da ordem estabelecida.

"Inconveniente" é perturbador e, se há coisa que a Censura toma como sua missão, é impedir qualquer perturbação, seja política, seja social, seja cultural, seja nos costumes. Acresce que há um significado conexo, o de mal-educado, malcriado. "Não sejas inconveniente" diziam as mães para os filhos no passado longínquo em que a linguagem não era gutural como é agora. É esta a classificação que a Censura dá aos Escritos Políticos de Mário Soares, uma antologia de textos de circunstância escritos ao sabor das actividades oposicionistas do autor, publicado em 1969.

A PIDE não se limita a mandar o livro para que a Censura o proíba - coisa que faz quase sempre quando lhe é solicitado pela PIDE, o que nem sempre acontece quando o recebe do SNI ou de outras instituições da ditadura - mas, como anota o autor do despacho, faz uma admoestação implícita aos censores por terem deixado passar alguns destes textos "quando apresentados para jornais diários". A PIDE mostra o desconforto com a publicação, o censor dos livros puxa as orelhas aos censores da imprensa. O que é que explica ser esta obra "um puro ataque político mal intencionado e inoportuníssimo", em plena primavera marcelista?

O despacho da Censura explica-o em termos bem mais calmos do que rebarbativos, "inoportuníssimo": trata-se de "um ataque ao Governo e às bases orgânico-políticas do actual sistema político-social". De facto, é disso mesmo que se trata. Mário Soares, então uma personagem em ascensão na oposição moderada, onde ainda compete com um conjunto de velhos dirigentes vindos da República, ou do MUD, ou do Directório, está a deslocar-se com os seus amigos progressivamente de um republicanismo oposicionista para um socialismo que nem sempre é moderado. Fá-lo em competição com o PCP, com quem, nesse ano eleitoral de 1969, demasiado importante porque eram as primeiras eleições sem Salazar, rompe a unidade, apresentando-se a CEUD e a CDE em listas separadas.


Os escritos de Mário Soares são um retrato do que era a actividade da oposição não comunista, muito limitada, operando muitas vezes na semilegalidade, ou na legalidade permitida e vigiada, ao sabor de jantares, pequenos comícios, abaixo-assinados, e artigos no República. Há textos biográficos e políticos sobre os vultos da velha oposição republicana ou da República, como é o caso de Mário de Azevedo Gomes, de Fernão Boto Machado ou dos revolucionários do 31 de Janeiro; há teses enviadas às reuniões republicanas e oposicionistas, entrevistas e intervenções em colóquios censurados ou proibidos, e um ocasional artigo numa publicação estrangeira.

No seu conjunto, revelam o pensamento de Soares tal como ele se tinha estabilizado depois da sua saída do PCP no início dos anos cinquenta, ainda muito preso ao peso do republicanismo histórico, mas já apresentando-se como a sua ala esquerda socializante, organizada na ASP e depois no PS. Essa tendência socializante e mesmo nalguns casos esquerdizante veio a acentuar-se nos anos seguintes, influenciado ele também pelo Maio de 1968, pelas lutas estudantis e pela sua experiência mais tardia no exílio europeu onde pôde contactar pela primeira vez com outros socialistas europeus.

Esta deriva para a esquerda faz o caminho entre a ruptura eleitoral com os comunistas em 1969, até aos acordos frentistas de 1973 entre o PS e o PCP. Mas não é esse ainda o tempo dos Escritos Políticos. À data da publicação deste livro, como se pode ver nos seus anexos, Mário Soares enfileira numa atitude atentista e, por isso mesmo, benévola, em relação à liberalização caetanista, atitude essa duramente criticada pelo PCP como "ilusória" e perigosa. Num dos abaixo-assinados transcritos no livro, os signatários apresentam-se como "socialistas democráticos" e não como "socialistas totalitários", dispostos a ajudarem Marcelo Caetano a criar o "clima novo" que este anunciava. Conhecendo-se como se conhece, após a leitura de milhares de despachos, a cabeça dos censores é este abraço da oposição moderada a Marcelo Caetano que era "mal intencionado e inoportuníssimo".

Proíba-se pois o livro»

FOTO 2:“Mário Soares em campanha pela CEUD, Outubro 1969” – via Casa Comum

[José Pacheco Pereirain jornal PÚBLICO (02/07/2014), sublinhados nossos]

J.M.M.

terça-feira, 25 de março de 2014

1969 - MÁRIO VIEGAS NA SEDE DA COMISSÃO DEMOCRÁTICA DO PORTO



“O actor e declamador, Mário Viegas, sempre assumiu um envolvimento activo. Cada poema declamado exaltava à resistência conta o fascismo. — com Pedro Ramajal, Romualdo Passos, Marques Gomes e esposa, Artur "Á Gouche", [José] Pacheco Pereira e Bernardino Pimenta no Porto.”

FOTO via Sérgio Valente Facebook, com a devida vénia

J.M.M.

sexta-feira, 1 de março de 2013

AS ARMAS DE PAPEL


LIVRO: As Armas de Papel. Publicações Periódicas clandestinas e do Exílio Ligadas a Movimentos Radicais de Esquerda Cultural e Política (1963-1974), 2013, 598 pág.;
AUTOR: José Pacheco Pereira;
EDITORA: Temas e Debates.


Trabalhei neste livro de forma intermitente nos últimos vinte anos. Fazia e faz parte de um projeto mais vasto sobre a extrema-esquerda em Portugal, que podia ter tido tradução académica, mas que ganhou tais dimensões que muito dificilmente cabe numa tese, com as limitações que hoje existem. (è um trabalho individual, com recursos próprios, como agora se diz, ‘sem apoios’. E não se deu mal por isso […]

Conheci de experiência direta - de a escrever, de a fazer, de a imprimir, de a distribuir - a imprensa clandestina radical. O impulso de revolta, os riscos da ilegalidade, a vida escondida, as tensões subjetivas, morais e éticas desses anos, a política no sentido mais lato de ação cívica pelo bem comum têm a ver com dilemas que sempre estiveram associados à ação e ao pensamento. Isso fica sempre. […]

O meu gosto pessoal por aquilo que no passado era conhecido como «erudição» levou-me a complicar o meu trabalho, até ao limite da incompletude e do erro. […]. Mas tal é útil para as bibliotecas, os centros de investigação, os arquivos, que pretendem salvar todo este material, muitas vezes raríssimo, e quase sempre perecível. Uma das minhas intenções foi ajudar essa conservação, fornecendo um inventário que permita aferir coleções, e circunscrever as faltas. […].

Neste trabalho são citadas (e foram lidas, com frequência duas ou três vezes) integralmente milhares de publicações, não só as coleções de periódicos, mas também panfletos, brochuras, livros, manuscritos associados com a imprensa radical, para além de uma extensa bibliografia nacional e internacional. E, claro, os processos da PIDE, matéria que exige um peculiar cuidado na interpretação e na utilização dos seus dados. […]

Tenho consciência de que a história da imprensa clandestina esquerdista e radical nos últimos quinze anos da ditadura começa aqui, mas não acabará aqui. É o que se pretende" [Da Nota Prévia]

J.M.M.

sábado, 24 de novembro de 2012

"SALAZAR E O PODER. A ARTE DE SABER DURAR" DE FERNANDO ROSAS

Amanhã, domingo, no espaço FNAC ao Chiado, vai ser apresentado o livro do Professor Fernando Rosas, Salazar e o Poder. A Arte de Saber Durar.

A apresentação terá lugar pelas 18 horas e estará a cargo do também historiador e comentador político José Pacheco Pereira.

Uma oportunidade para ouvir as opiniões de dois dos mais reconhecidos historiadores portugueses, em especial sobre o período salazarista, que ambos combateram na sua juventude. Num momento em que também se encontram alguns sinais que alertam para os perigos e para a fragilidade da liberdade e da democracia é importante percebermos esses sinais, sobretudo com os exemplos que nos chegam do passado não muito recuado para se perceber o presente.

Uma apresentação e uma obra a não perder.

A.A.B.M.

terça-feira, 24 de abril de 2012

LIVROS PROIBIDOS NO REGIME FASCISTA (III)



- As lutas operárias contra a carestia de vida em Portugal: a greve geral de Novembro de 1918, José Pacheco Pereira, Porto, Tip. Grafamar, Portucalense Editora (colecção nº2 dos “Textos de Apoio”), Agosto de 1971, 200 pgs;

- Questões sobre o movimento operário português e a revolução russa de 1917, José Pacheco Pereira, Porto, Tip. Orgal, Ed. Autor, Distribuição pela Livraria Júlio Brandão (V. N. Famalicão), 103 pgs.

J.M.M.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

JOAQUIM DE CARVALHO 20 ANOS DEPOIS - FIGUEIRA DA FOZ




TERTÚLIAJoaquim de Carvalho e a ideia de Pátria

Com Carlos Pinto Coelho (moderador), Fernando Catroga e Miguel Real.

Presença de: Alexandre Franco de Sá, António Pedro Pita, Carlos André, Fernando Rosas, José Júlio Lopes, Pacheco Pereira, Paulo Archer, Reis Torgal.

30 DE OUTUBRO: 22 horas – Casino da Figueira da Foz

J.M.M.

terça-feira, 1 de julho de 2008

COLECÇÃO EXTREMÓFILOS


Livros de José Pacheco Pereira na Colecção Extremófilos

Uma nova colecção da Editora AlêtheiaExtremófilos – vai surgir e será dirigida por José Pacheco Pereira. O primeiro livro a publicar será do próprio e terá o título "Um Divide-se em Dois". Diz-nos o autor que "é um estudo sobre o movimento marxista-leninista nos países ocidentais (de cultura política e instituições ‘ocidentais’, da Europa à Nova Zelândia) na sua fase genética, antes sequer de se poder falar de ‘maoísmo’ propriamente dito, antes da Revolução Cultural. Nele se analisa o modo como o conflito sino-soviético foi evoluindo para a cisão do movimento comunista mundial, a política dos chineses e albaneses face aos Partidos Comunistas, e o impacto das teses chinesas no seu interior". Trata ainda, e como seria de esperar face à essa temática histórica, "o impacto do conflito sino-soviético no PCP e a cisão que dá origem à FAP /CMLP, assim como o papel de Francisco Martins Rodrigues".

Um segundo volume a publicar, ainda da sua autoria, será um estudo bibliográfico (detalhado) sobre Publicações Clandestinas e do Exílio Ligadas a Movimentos Radicais de Esquerda Cultural e Política (1964-1974). Para o efeito e de acordo com este texto/post, faz J.P.P. um pedido de ajuda/colaboração aos leitores, que pode e deve aqui ser lido.

Fotos: retiradas, com a devida vénia, dos Estudos Sobre o Comunismo.

J.M.M.