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quarta-feira, 8 de abril de 2009


JOÃO PAIS PINTO
(conhecido Abade de S. Nicolau – Porto) - PARTE IV

Para além de João Pais Pinto houve outros casos de padres como Domingos António Guerreiro, de Viana do Castelo e Padre Oliveira que colaboraram com Pais Pinto, num folheto dedicado aos vencidos do 31 de Janeiro feito em 1892 [Dicionário Bibliográfico Português, org. de Inocêncio Francisco da Silva e Brito Aranha, Tomo XVIII, Lisboa, Imprensa Nacional, 1906, p. 21]. Mais tarde outras personalidades ligadas à Igreja vão aderir também ao republicanismo como o abade Casimiro Rodrigues de Sá, padre António Duarte Silva, o padre Manuel Ribeiro da Silva, o padre António Augusto de Vila Seca, o padre Manuel Pires Gil e o reverendo Esteves Rodrigues [Fernando Catroga, A Militância Laica e a Descristianização da Morte em Portugal (1865 - 1911), Vol I, Coimbra, Faculdade de Letras, 1988, nota 4, p. 517-518. Cf. Ainda Vítor Neto, “A Questão Religiosa na 1ª República: A posição dos padres pensionistas”, Revista de História das Ideias, vol. 9, Coimbra, 1987, p. 675-731].

A partir do momento da sua absolvição pelo conselho de guerra, Pais Pinto entra num período de recolhimento. Esta situação pode relacionar-se com a sua mudança de local, já que em Junho de 1892 regressa à sua terra onde pouco se houve falar dele durante algum tempo.

Em 1903 voltamos a ter notícias do padre Pais Pinto, quando ele, surge defendendo a Irmandade dos Clérigos Pobres. Este acontecimento terá sido desencadeado porque esta irmandade contava entre os seus inimigos os Jesuítas e alguns membros do alto clero português.

A Irmandade dos Clérigos Pobres foi transformada pelo Monsenhor Elviro dos Santos em Associação de Socorros Mútuos em 1887. A ela terão aderido cerca de 1600 presbíteros de todo o País [Vítor Neto, O Estado, A Igreja e a Sociedade em Portugal (1832-1911), Lisboa, Col. Análise Social, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1998, p. 130]. Com o apoio do poder civil, esta irmandade, cuja sede estaria na Igreja da Encarnação, passaria para o Convento de Santa Marta. Porém, o clero paroquial atravessava uma crise profunda, já que desde o tempo de Pombal que a classe eclesiástica se sentia oprimida. Perderam liberdades, sujeitaram-se ao arbítrio do poder secular, sofreram humilhações com a venda dos bens das ordens religiosas, as expulsões frequentes a contento dos liberais. Por outro lado, o próprio clero descurou a formação eclesiástica, mas também se desenvolveram sociedades secretas que tinham como objectivo fundamental desacreditar o clero, e os sacerdotes passaram a ser considerados como agentes da reacção.

Pais Pinto que era amigo pessoal de Monsenhor Elviro dos Santos, envolve-se novamente em polémica ao lutar contra o encerramento do Hospício do Clero em Lisboa. Contra essa situação reage o então pároco de Cabanas [de Viriato] ao publicar uma série de artigos no jornal Vanguarda de inspiração republicana.

Esta questão da Irmandade do Clérigos Pobres chega a ser discutida na Câmara dos Deputados, em Maio de 1903, quando Hintze Ribeiro, que na altura era ministro do Reino, decidiu que não dissolvia a Mesa da Irmandade, porque tinha sido feito rigoroso inquérito e provou-se que esta era zelosa na sua administração. Esta decisão trouxe no entanto um problema, o Governo retirou momentaneamente o edifício do Convento de Santa Marta à Irmandade.
Segundo Vítor Neto, a Liga do Clero Paroquial foi fruto da evolução que se registou com a Irmandade dos Clérigos Pobres onde a classe eclesiástica começa a demonstar algumas preocupações em unir-se e reivindicar os seus direitos. As articulações e desavenças que se fizeram sentir dentro do clero tornaram esse movimento cada vez mais uma necessidade. Por isso, assiste-se em 1907 à criação dessa Liga do Clero Paroquial Português que teve a dinamizá-la Monsenhor Elviro dos Santos. Também nessa altura, Pais Pinto, novamente activo politicamente vai defender essa instituição e sobretudo o seu grande amigo, pároco de Santa Engrácia, contra os ataques do Partido Nacionalista.

Pais Pinto volta à ribalta política, quando se organiza uma manifestação na cidade do Porto em sua honra que terá envolvido “mais de mil cidadãos” para receber na estação de S. Bento “o intransigente e velho republicano”. Esta recepção aconteceu em 16 de Junho de 1906, nas vésperas da realização de uma conferência que se efectuou na salão do Centro Democrático no dia 17 [Anónimo, “Dr. Paes Pinto”, Vanguarda, Lisboa, 18-06-1906, Ano XI (XVI), nº 3450 (6311), p. 1, col. 1.]

No final do mês de Junho, Pais Pinto surge indicado como candidato republicano em Cabanas no Congresso Republicano de Lisboa. Mais tarde, já no mês de Julho desloca-se a Lisboa devido a problemas de saúde e fica hospedado em casa do Monsenhor Elviro dos Santos e, o jornal Vanguarda, pedia mesmo aos republicanos, que o fossem esperar à estação do Rossio, para lhe prestarem homenagem pelo seu papel de difusor do ideal republicano pela província. Essa homenagem é concretizada quando Pais Pinto chega e tem à sua espera “grande número de correligionários nossos que enchiam a gare e aclamaram freneticamente o distinto eclesiástico republicano (...) que foi alvo duma eloquente e estrondosa manifestação, que tomou ainda maior incremento à saída da estação até ao Rossio, onde os centenares de pessoas dispersaram” [Anónimo, “Dr. Paes Pinto”, Vanguarda, Lisboa, 10-07-1906, Ano XI (XVI), nº 3472 (6333), p. 1, col. 4]. Sendo esta visita realizada sobretudo por motivos médicos e para assistir à assembleia-geral da Irmandade dos Clérigos Pobres. Por estas manifestações de apreço, realizadas pelos republicanos do Porto e de Lisboa, pode-se concluir que ele seria uma pessoa relativamente conhecida nos meios políticos e as suas posições políticas eram admiradas pela população que o considerava sobretudo como o herói da revolta republicana de 31 de Janeiro.

Na sequência desta manifestação de apreço do povo de Lisboa, Pais Pinto, publica um manifesto ao Partido Republicano de Lisboa, onde agradece a organização da referida manifestação e aponta os laços de “solidariedade” que ligam os elementos deste partido, pela dedicação que manifestava à pátria, em que a República seria a “única forma de governo capaz de regenerar a nacionalidade portuguesa”. Como era padre, acreditava também, qualquer que fosse a religião dos correligionários da república “ou mesmo, nenhuma, que eu não deixarei de cooperar com eles para o restabelecimento de costumes austeros, implantação de virtudes cívicas, amor ao trabalho e administração justa e económica”, deixando mesmo ficar uma nota importante, “se a República acabar com o clero nacional, proclamando a separação do Estado da igreja, nada mais fará do que dar o golpe de misericórdia a uma instituição ludibriada por quem a devia honrar” [João Paes Pinto, “Ao Partido Republicano de Lisboa”, Vanguarda, Lisboa, 11-07-1906, Ano XI (XVI), nº 3473 (6334), p. 1, col. 6]. Acrescentava ainda acerca da posição do clero, que vivia numa situação vergonhosa porque era sustentado pelos emolumentos dos mortos, tendo a Monarquia prometido resolver o problema já havia muito tempo.

Será com a subida ao poder de João Franco, com a instauração da ditadura franquista que Pais Pinto desencadeará novamente um conjunto de acções na imprensa republicana que propaga as suas ideias e princípios. Assim, critica a monarquia pela ausência de liberdade que se vivia, pela corrupção que grassava, pela crueldade e imoralidade da situação.

No vasto número de artigos que se encontrou da autoria do padre Pais Pinto, 26 deles estavam subordinados ao título: “Os Padres Republicanos”.
Outro dos aspectos com que o padre republicano se defrontava era com o peso da Maçonaria e as críticas que lhe eram feitas por ele escrever num jornal que era dirigido por um grão-mestre da Maçonaria portuguesa, Sebastião Magalhães Lima. Quanto a este aspecto, Pais Pinto considerava-a como um inimigo civilizado, porque “combate princípios, mas não se incompatibiliza com as pessoas”, por saber travar uma batalha, por colocar em seu redor “pessoas de todas as cores políticas”, “pessoas de todas as confissões religiosas” [Abade Paes Pinto, “Os Padres Republicanos”, Vanguarda, Lisboa, 05-09-1908, Ano XII (XVIII), nº 4184 (7055), p. 1, col. 1.]. Estes elementos opunham-se aos que eram propostos pelo nacionalismo, fazendo o confronto de ideias entre a Monarquia e a República.

Finalmente, a sua concepção de Deus e da religião é apresentada de forma clara porque “tudo se firma na autoridade de Deus” dentro do campo religioso. Para Pais Pinto “Deus só quer o que é bom, portanto se a religião manda amar mesmo os que não crêem em Deus, é porque estes, seguindo embora o erro, têm alguma coisa de bom e de digno de ser amado”. Mas conduz essa noção para a ideia de liberdade porque “a liberdade de pensamento é um direito igual para todos”, portanto “o sectarismo é inadmissível” no entanto, ele estava bem presente na forma de agir dos católicos ligados ao nacionalismo. Conclui afirmando: “a religião (...) é superior à política, e a política é superior às formas de governo” [Abade Paes Pinto, “Os Padres Republicanos”, Vanguarda, Lisboa, 04-08-1907, Ano XI (XVII), nº 3849, p. 1, col. 1].

Outro assunto que Pais Pinto apresenta nestes artigos é a polémica em que se envolveu com o jornal Portugal representante do Partido Nacionalista [Manuel Braga da Cruz, “Os católicos e a política nos finais do século XIX”, Análise Social, 2ª Série, vol. XVI (61-62), Lisboa, 1980, p. 269.] e onde desfere algumas críticas bastante fortes aos membros desse partido e sobretudo ao apoio que lhe era fornecido pela Igreja católica. Afirmava, portanto, a propósito desse partido “perdeu para mim toda a consideração de um partido sério, austero e capaz de pela prática das virtudes cívicas, influir na regeneração dos costumes sociais, por vê-lo eivado dos mesmos vícios”, mas o grave eram as intenções manifestas de utilizar os párocos para “onde explicam o evangelho e fazem a catequese, tratassem dos assuntos políticos e económicos”.
Para Pais Pinto só poderia falar-se em República e em política se se pensasse em democracia. Ele próprio afirmou “politicamente falando, para mim não há deístas nem ateus, judeus ou muçulmanos, católicos ou protestantes: há só cidadãos com a liberdade de seguirem as crenças que quiserem” [João Paes Pinto, “Dr. Pais Pinto”, A Beira, Viseu, 02-03-1909, Ano III, nº 177, p. 3, col. 2]. Assim, temos logo à partida definidos os parâmetros por onde se guiava este padre: liberdade, democracia, tolerância e concórdia. Portanto, quase todos os temas vão desaguar nestes valores e princípios fundamentais da sua personalidade que o tornaram tão admirado na sua época.
No seu entendimento, a República tinha que ser democrática, tinha que deixar o povo exprimir as suas opiniões livremente e sem restrições. Por isso, a democracia, na sua concepção “é a nação falando por si , e o começar dos argumentos mais simples para os mais complexos”. As palavras religião e democracia tinham, no seu entender, “uma missão parecida; a primeira dissipa as trevas do materialismo, a segunda, as da tirania, ou do poder absoluto; a primeira faz raiar na consciência a luz de Deus, a segunda, a do direito e da justiça. Ambas militam na terra sob a mesma bandeira - Liberdade”. Note-se como este homem consegue estabelecer um raciocínio sobre política e manter a coerência em todos estes aspectos, porque ele via a vida política com estes princípios fundamentais, o que na altura era bastante raro e mesmo inovador, sobretudo para um membro da igreja católica que obviamente não via com bons olhos todas estas afirmações.

A sua morte surpreendeu quase toda a gente a 7 de Abril de 1909, aos 54 anos, sem nunca ter conseguido ver concretizado o seu sonho de ver a República implantada em Portugal. No seu funeral estiveram presentes as figuras republicanas do distrito de Viseu e Bernardino Machado em representação do directório nacional do Partido Republicano. A imprensa, mesmo a religiosa, fez referência à sua morte, pois apesar de não concordar com as suas opiniões políticas o certo é que nunca conseguiram provar que ele era mau sacerdote, apesar de por vezes ser alvo de críticas bastante feias, sobretudo dos órgãos nacionalistas.

Conhecem-se colaborações nos seguintes jornais:
A Beira, Viseu, Dir. Alberto da Silva Basto, 1906-1911
O Futuro, Olhão, Dir. Gustavo Cabrita, 1891-1909
Palavra (A), (1837 188). Sábado, 31 de Dezembro de 1887, N.° 169, Ano XVI, Leão XIII. Homenagem dos católicos portugueses a Sua Santidade Leão XIII, no seu jubileu sacerdotal, Porto, 6 pág.
Protesto de sympathia á Hespanha, Porto, Imp. Moderna, 1 de Dezembro de 1890, 4 pág.
A Voz de Ourém, Vila Nova de Ourém, 1908.
Vanguarda, Lisboa, Dir. Sebastião de Magalhães Lima, 1890-1908

Folhetos e Opúsculos:
Abbade de S. Nicolau e o Bispo de Coimbra, O (Um Incidente da Sublevação do Porto), Porto, Typographia da Empreza Litterária e Typográphica, 1891.
Anno (Um) depois. (Aos vencidos). 31 de Janeiro de 1831 - 31 de Janeiro de 1892. Porto, Typ da Empreza Litteraria e Typographica, 20 pag.
PINTO, João Paes, O Hospício do Clero em Lisboa, Lisboa, Typogrphia Minerva Central, 1903.

A.A.B.M.

terça-feira, 7 de abril de 2009


JOÃO PAIS PINTO
(conhecido Abade de S. Nicolau – Porto) - PARTE III

No mês de Setembro, após a saída do jornal A República Portuguesa, que provocou grande tumulto e ainda como reacção à assinatura do referido tratado voltamos a encontrar o abade de S. Nicolau envolvido num comício realizado no teatro do Príncipe Real que se realizou no dia 7. Nele discursaram para além de Pais Pinto, José Ventura dos Santos Reis que também se tinha filiado no Partido Republicano após o Ultimato e Ernesto de Vasconcelos que foi impedido de falar pelo Comissário de Polícia presente no teatro. Por essa altura, reconhece Basílio Teles, “tinha-se já por facto averiguado as disposições revolucionárias dos regimentos” tendo a revolta estado quase eminente [Basílio Telles, Do Ultimatum ao 31 de Janeiro (Esboço de História Política), Porto, Basílio Telles Editor, 1905, 333]. Só não terá eclodido nessa altura porque o novo Directório do Partido Republicano enviou uma circular recomendando aos republicanos que se abstivessem de obedecer a homens que eram conhecidos como conspiradores, o que certamente dividiu os ânimos da população. Somente ao chegar a Janeiro de 1891 é que voltam a reunir-se as condições propícias para essa tentativa revolucionária.

Não nos demoraremos na análise dos acontecimentos que são por demais conhecidos, procuraremos sim acompanhar alguns dos passos do padre republicano durante os acontecimentos. Assim, nessa manhã de 31 de Janeiro, segundo uma testemunha dos acontecimentos que os relatava durante o julgamento dos envolvidos na tentativa revolucionária afirmava ter visto entre outras pessoas “Felizardo de Lima, o reverendo abade de S. Nicolau” junto à Câmara Municipal do Porto [João Chagas e ex-Tenente Coelho, História da Revolta do Porto de 31 de Janeiro de 1891 (Depoimentos de Dois Cúmplices), Lisboa, Empreza Democrática de Portugal, 1901, p. 334 quando fazia o seu depoimento o bombeiro municipal, Joaquim Carvalho da Costa]. Porém, segundo João Chagas, “o abade de S. Nicolau, João Pais Pinto (...) apareceu dentro da revolução do Porto nas mesmas circunstâncias em que tantos outros, todavia alheios a ela, se encontraram implicados nela” [João Chagas, Trabalhos Forçados, vol. I, Paris/Lisboa, Livraria Aillaud e Bertrand, 1926, p. 120-121]. Mas o padre é acusado “de ter até certa forma tomado parte nos actos de rebelião de 31 de Janeiro, e acrescenta: de ser um republicano mais ou menos agitador”. Portanto, a figura em que se centra este estudo foi simplesmente envolvido na revolta sem nada saber dos preparativos da revolta. Esta posição é também confirmada por outro dos envolvidos nos acontecimentos, como foi Francisco Manuel Homem Cristo que afirmava convictamente “o abade de S. Nicolau não pertencia à conspiração. Sabia daquilo como toda a gente. O único crime que cometeu foi entrar na Câmara Municipal, como entrou meio mundo (...) Não tomou parte activa nos trabalhos da revolta” [Francisco Manuel Homem Christo, Os Acontecimentos de 31 de Janeiro e a minha prisão, Lisboa, Empreza Editora J. J. Nunes & Cª, 1891, p. 204-205]. No entanto, devido às suas tomadas de posição públicas e ao seu envolvimento com alguns elementos do Partido Republicano acaba por ser preso, segundo se pensa, com base em denúncias feitas por alguém não identificado.

O próprio Pais Pinto, no seu depoimento, refere que “tinha por costume recolher a casa todos os dias, às 7 da tarde, sendo falso que conspirasse na sombra contra as instituições vigentes” [Jorge de Abreu, A Revolução Portuguesa - O 31 de Janeiro (Porto 1891), Lisboa, Casa Alfredo David, 1912, p. 154] . Além disso a sua entrevista ao jornal A Palavra, de 20 de Fevereiro de 1891, o próprio esclarece como se desenrolaram os acontecimentos em que esteve envolvido [ O Abbade de S. Nicolau e o Bispo de Coimbra (Um incidente da sublevação do Porto), Porto, Typ. da Empreza Litterária e Typográphica, 1891, p. 16 e 17]. Esta circunstância permite concluir que certamente o padre não terá tido nenhum envolvimento na preparação e desencadear dos acontecimentos do Porto. Reconhecia, no entanto, ter tido conhecimento na véspera de que se ia desencadear uma revolta no Porto, mas necessitava sair de casa para realizar os serviços religiosos. Ouviu falar na concentração de tropas e dirigiu-se para a “praça de D. Pedro”, aí foi aclamado pelos populares e entrou no edifício da Câmara, mas a desorganização era grande acabou por se afastar do local.

A sua prisão ocorreu a 1 de Fevereiro, juntamente com as de “Azevedo e Albuquerque, indigitado membro do governo provisório proclamado pelo dr. Alves da Veiga na casa da Câmara; o dr. Paes Pinto, abade de S. Nicolau; o dr. Aureliano Cirne, redactor da República; Miguel Verdial, actor da companhia Alves Rente; Dionízio Ferreira dos Santos Silva, industrial; Santos Cardoso, como aliciador e promotor de toda aquela empresa; e Felizardo de Lima” [Heliodoro Salgado, A Insurreição de Janeiro (História, Filiação, Causas e Justificação do Movimento Revolucionário do Porto), Porto, Typ. da Empreza Litterária e Typográphica, 1894, p. 131]. Todas estas prisões provocaram reacções emotivas entre os defensores do ideal republicano que os proclamam heróis, promovem manifestações de apoio.

Durante o período de prisão até ao julgamento, Pais Pinto, convive de perto com João Chagas, que o descreve em pormenor, não só em termos físicos, mas também psicológicos. Seguindo essas informações podemos notar como a população protestava pelo tratamento que era dado aos prisioneiros, que tudo indica era semelhante ao dos prisioneiros de guerra. Os desfiles públicos com os prisioneiros rodeados de soldados a pé e a cavalo com as suas baionetas revelam de certo o propósito de impedir novas tentativas idênticas aquela. Para João Chagas, o padre que ele descrevia assim: “era novo; não teria mais de trinta e dois anos ao tempo, muito alegre, muito expansivo e excepcionalmente inteligente. Vivia no entanto uma vida de uma grande pureza , sem instintos, sem apetites e sem vícios” [João Chagas, Trabalhos Forçados, vol. I, Paris/Lisboa, Livraria Aillaud e Bertrand, 1926, p. 121]. Também Homem Cristo que conviveu com Pais Pinto durante esse período descrevia o padre como “crente, e ingénuo algum tanto” e “um cavalheiro, um homem de bem, um carácter cheio de paciência pela injustiça com que o tratavam e anelando a toda a hora a felicidade da sua pátria” [Francisco Manuel Homem Christo, Os Acontecimentos de 31 de Janeiro e a minha prisão, Lisboa, Empreza Editora J. J. Nunes & Cª, 1891, p. 225]. A acreditarmos nestes dados, Pais Pinto era admirado entre os seus pares republicanos pelo seu espírito tranquilo, pela sua inteligência, pelo seu carácter bondoso, pelo desejo de bem para a pátria, pela cultura e discrição.

Esteve detido na cadeia do Aljube até final do mês de Fevereiro. Depois os prisioneiros foram instalados em barcos como o Moçambique, o Índia e o Bartolomeu Dias onde se mantiveram até ao inicio dos respectivos julgamentos. Porém, esta situação não os impediu de reclamar melhores condições para os da sua condição, pois conseguem produzir um protesto que foi publicado na imprensa republicana. Assim, aqueles que se encontravam prisioneiros a bordo do vapor Moçambique protestavam contra os vexames que os oficiais militares e os presos civis eram sujeitos ao serem “conduzidos como salteadores, em carros celulares desde a Relação até Massarelos, e a pé, no meio de uma escolta, desde a Foz até Matosinhos, depois de terem corrido graves riscos na barra do Porto a bordo do vapor chamado D. Luís”. Além disso, chamavam também a atenção para o facto de “nos exigirem a cada um uma quantia suficiente para um tratamento regular”. Era uma situação insustentável e penosa. E, seria ainda mais complicada, para quem a viveu sabendo que estava inocente das suspeitas de que o acusavam.

A sua principal preocupação, durante o tempo em que esteve preso, foi com a sua mãe e os irmãos. Porque ela tinha alguns problemas de saúde que se teriam agravado após a morte de um seu irmão, também padre, pouco tempo antes. Além do mais como ele próprio afirmava ao jornal A Palavra: “A minha consciência está tranquila. Parece-me desnecessário dizer-lhe que não tenho culpabilidade alguma nos factos do dia 31” o que revela algum sentimento de tranquilidade e inocência, confiando na justiça [O Abbade de S. Nicolau e o Bispo de Coimbra (Um incidente da sublevação do Porto), Porto, Typ. da Empreza Litterária e Typográphica, 1891, p. 16].

No final do julgamento, enquanto quase todos foram condenados a fortes penas de cadeia ou degredo, como já se esperava. Por seu lado, Pais Pinto, foi julgado no 1º conselho de guerra da 3ª divisão militar e foi absolvido “por unanimidade de votos em sentença proferida no dia 23 de Março”.

[Em continuação]

A.A.B.M.


JOÃO PAIS PINTO
(conhecido Abade de S. Nicolau – Porto) - PARTE II

Pais Pinto era conhecido pelos seus colegas de curso como o “Casal Juzão”, já que era a sua terra natal, alcunha que era normal nesta época entre os estudantes da Lusa Atenas. Apesar de ser uma “alcunha extravagante” ele sempre a aceitou como boa pessoa que era, “sempre com o mesmo e inalterável sorriso, correcto, mas franco e sincero” [ Luíz Osório, “O Abbade de S. Nicolau João Paes Pinto”, O Abbade de S. Nicolau e o Bispo de Coimbra (Um Incidente da Sublevação do Porto), Porto, Typographia da Empreza Litterária e Typográphica, 1891, p. 10], convivia naturalmente com os seus colegas e procurando ser amigo de todos, por isso “não se podia dizer mal de ninguém”. Segundo, a análise deste colega de Pais Pinto, em termos religiosos ele era visto como “excessivamente religioso, talvez um místico; mas um místico sereno, que se não exaltava nunca” [Idem, Ibidem, p.11].

Vivia numa modesta habitação, para os lados de Santa Clara, onde usufruía de um ambiente calmo e sereno para se dedicar a contemplação. Aí viveu até terminar a sua licenciatura e ninguém podia prever que ele se viesse a tornar tão conhecido nas lides da vida política. Segundo os livros de matrículas consegue o grau de bacharel em 15 de Junho de 1882 e a 3 de Julho de 1883 termina a sua formatura em Direito [ AUC- Livro de Matrículas da Universidade de Coimbra, Livro 101 (1878-1879), fl. 35, nº 39].

Nomeado pelo arcebispo de Évora para professor e director espiritual do seu seminário, vai para esta cidade onde se instala até 1887. Deste período só foi possível encontrar um testemunho deixado pelo também padre M. Martins Capela no jornal A Ordem, de Coimbra, que terá convivido com João Pais Pinto no Colégio da Formiga onde terá trabalhado como professor durante dois anos [M. Martins Capela, “Abbade João Paes Pinto” in O Abbade de S. Nicolau e o Bispo de Coimbra (Um Incidente da Sublevação do Porto), Porto, Typographia da Empreza Litterária e Typográphica, 1891, p. 25] .Aí foi convidado pelo arcebispo para ensinar no seminário de Évora. Finalmente segue-se o Porto como abade de S. Nicolau.

Quando Pais Pinto chega ao Porto envolve-se mais activamente na sua actividade de auxílio aos seus paroquianos e logo no primeiro semestre desse ano participa activamente na organização e preparação do Congresso Católico da Província Eclesiástica Metropolitana de Braga.

Este congresso realizou-se nos dias 26, 27 e 28 de Abril e debateram os seguintes temas: “1º Meios de combater a propaganda protestante; 2º Modo de manifestar a mais completa adesão ao Pontificado Romano e às justíssimas reclamações da Santa Sé para se garantir a liberdade e independência do Chefe supremo visível da Igreja; 3º Maneira de alargar os socorros domiciliários aos indigentes por meio das Conferências de S. Vicente de Paulo; 4º Estabelecimento de asilos para homens e mulheres no derradeiro quartel da vida e na extrema pobreza, sob a direcção caridosa das Irmãnzinhas dos Pobres”. Da comissão organizadora surgia logo em primeiro lugar o “Dr. Pe. João Paes Pinto - Conde de Samodães - José Joaquim Guimarães Pestana da Silva - Monsenhor António Joaquim d’Azevedo e Couto - Monsenhor António José de Mesquita - Monsenhor António José Rodrigues Pereira - Dr. Manuel Carvalho d’Araújo Lima - Padre Sebastião Leite de Vasconcelos - Duarte Huet de Bacelar - Vasco de Macedo - Manuel Frutuoso da Fonseca - João Francisco de Morais” [Anónimo, “Congresso Católico do Porto - Convite”, Instituições Christãs, Coimbra, nº 8, Ano VII, 20-04-1889, 1ª Série, p. 250]

Assim, em Abril de 1889, o seu nome surge como primeiro signatário do convite para participar no congresso que se realizou na cidade do Porto. Neste Congresso, os participantes foram muito inspirados pela doutrina social da Igreja e “produziram relatos e conclusões sobre a promoção da catequese, a difusão das associações de Jesus, Maria, José, a criação de uma editora, o apoio às S. V. P. e às Irmãzinhas dos Pobres, a construção de casas para famílias sem recursos, e a lealdade ao Papa”


Com a eclosão do Ultimato Inglês, em 11 de Janeiro de 1890, padre Pais Pinto também se envolveu na questão ao falar perante a população neste mesmo comício. Segundo Nuno Severiano Teixeira teria sido “das que mais seriamente contribuíram para o movimento patriótico” [Cf. ainda António Álvaro Dória, “Movimentos Políticos do Porto no século XIX”, Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, vol. XXVI, Porto, Mar./Jun. 1963, p. 150 a 312], pois surge nas suas fileiras com personalidades como Antero de Quental, Basílio Teles, Sampaio Bruno, D. Américo (Bispo do Porto), Conde de Samodães, José Joaquim Rodrigues de Freitas, Adriano Antero de Sousa Pinto, Alexandre Braga, Ricardo d’ Almeida Jorge, Augusto Manuel Alves da Veiga e também o abade de S. Nicolau, João Pais Pinto.

Porque razão decide ele intervir publicamente e dar a conhecer a aproximação aos ideais republicanos? Esta será uma resposta que ele próprio dará anos mais tarde ao afirmar num artigo “faz hoje 17-01-1909 precisamente 19 anos que eu, (...) me apresentei numa assembleia pública para aderir aos protestos veementes da alma nacional contra o ultimatum de 11 de Janeiro de 1890, que lancinava o coração dos filhos da pátria” [João Paes Pinto, “Carta ao padre Manuel Ribeiro da Silva”, O Futuro, Olhão, 07-02-1909, Ano XVII, nº 833, p. 1, col. 2.], sendo a partir daqui que ele gradualmente se começará a aproximar dos ideais republicanos, pois este período foi bastante favorável ao desenvolvimento destes ideais. Até porque, por detrás de alguns deste movimentos cívicos, estão algumas grandes figuras do partido republicano que conseguem ganhar bastante notoriedade.

O comício onde vamos encontrar a figura do padre Pais Pinto tinha sido promovido pelos académicos, e, segundo os relatos, estava muito concorrido. A presidir à sessão estava o dr. Oliveira Monteiro e nela discursaram o presidente, o dr. Luís de Magalhães, o padre João Pais Pinto, Vítor Verdial entre outros. Daquilo que João Pais Pinto terá falado não temos muitos elementos, mas um aspecto marcou o seu discurso quando ele referiu que estava pronto a ir derramar o seu sangue como missionário português. São palavras fortes, mas vivia-se um período de fortes emoções nacionalistas, e possivelmente, essa emoção fazia-se sentir de forma mais ou menos marcada por toda a gente.

A escolha de Antero de Quental para dirigir a Liga foi tomada a 1 de Fevereiro, no Porto, facto que suscitou grande entusiasmo entre os seus elementos. Uma semana mais tarde, Antero toma o seu lugar na presidência da Liga e durante as várias reuniões feitas ao longo do mês de Fevereiro de 1890 encontramos quase sempre referência à presença do abade Pais Pinto. Será aquando da apresentação do discurso feito por Antero em 7 de Março desse ano, em que apresenta um quadro da situação e procura estabelecer uma linha orientadora para aquela instituição que começam a levantar-se grandes polémicas. Assim, Antero defendia nesse documento a remodelação da vida nacional, porque era necessário corrigir “os erros profundos e numerosos, acumulados durante muitos anos de imprevidência, de egoísmo, de maus governos e de corrompidos costumes públicos”. Para agravar ainda mais esta situação o autor notava “um verdadeiro divórcio” que se tinha estabelecido entre os governantes e a nação, mas isso não seria resolvido com com uma revolução, mas a função da Liga seria procurar “restabelecer a natural harmonia entre o pensamento nacional e o seu órgão, o Estado”, para tal era necessário proceder à “moralização dos poderes públicos”.

Devido a estas ideias a Liga foi compartimentada por comissões que se encarregariam de estudar os diversos problemas e de tentar encontrar soluções. Havia então a comissão Executiva, de Propaganda, de Fomento Económico, Colonial, de Ensino, de Subscrição Nacional e de Defesa Militar. Vamos encontrar a figura do abade de S. Nicolau entre os vogais da comissão organizadora e instaladora da Liga Patriótica do Norte e posteriormente foi eleito para secretário do directório juntamente com Bento Carqueja. Porém a Liga acabou por não ser mais do que um sonho de alguns bem intencionados que não conseguiram envolver o apoio popular, não tinham suporte económico, tornando-se “apenas uma reacção apaixonada, febril à questão do Ultimatum” [José Luís Vaz e Gala, “A Liga Patriótica do Norte e a sua repercussão em Lisboa (Propósitos e fontes de um trabalho), separata do Boletim da Biblioteca Pública Municipal de Matosinhos, nº 32, Matosinhos, Câmara Municipal de Matosinhos, 1988, p. 8], que vai terminar de forma triste logo a 29 de Abril de 1890. Especialmente após “as providências draconianas tomadas pelo Governo no dia 7” levando Antero a retirar-se da vida pública bastante desiludido e amargurado, o que terá também contribuído para o seu suicídio pouco tempo depois.
Quanto a Pais Pinto, como a Liga se foi desfazendo, e como as ideias republicanas pareciam ser as melhores, iam ganhando adeptos, ele acaba meses mais tarde por aderir também ao Partido Republicano.

Terá sido após a assinatura em segredo do Tratado de 20 de Agosto de 1890, em Londres, entre Barjona de Freitas e Lord Salisbury que provoca novamente uma onde de manifestações antibritânicas, que Pais Pinto decide aderir ao movimento republicano. Este começa a editar no Porto mais um jornal, A República Portuguesa, logo no inicio do mês de Setembro, onde Pais Pinto também terá escrito alguns artigos só que não deviam estar assinados, já que ele confessou esse facto durante o julgamento a que foi submetido após o seu envolvimento na revolta de 31 de Janeiro.

[Nota: A imagem foi recolhida no Almanak do Mundo para 1908, Tip. do Jornal O Mundo, Lisboa, 1907, p. 226. Clique na imagem para aumentar]

[Em continuação]

A.A.B.M.

JOÃO PAIS PINTO(conhecido Abade de S. Nicolau – Porto) - PARTE I

Deixamos aqui algumas notas biográficas sobre uma figura que conseguiu algum relevo dentro do Partido Republicano, em particular por conseguir conciliar algo que era muito difícil na época, a religião católica e o pensamento positivista dos republicanos.
Estas notas foram recolhidas há já alguns anos, resultam de um trabalho de pesquisa que nunca foi publicado. Aqui apresentamos um resumo dos dados biográficos recolhidos com base no referido texto.

Os primeiros elementos contraditórios surgem quanto ao seu local de nascimento. Para uns foi Silgueiros [Portugal: Dicionário Histórico, Corográfico, Biográfico, Bibliográfico, Heráldico, Numismático e Artístico, (dir.de Esteves Pereira; Guilherme Rodrigues), vol. V, Lisboa, João Romano Torres & Cª Editores, 1911, p. 369.], para outros foi em Cabanas de Viriato [ Luís Derouet, J. Ramos , Album Republicano, Vol. I, Lisboa, 1907-1910], sendo o primeiro que nos parece mais provável, sobretudo por aquilo que nos é transmitido pela certidão de idade emitida na época.

Nasceu a 1 de Janeiro de 1855 no lugar de Casal Juzão, na freguesia de Cabanas de Viriato que era uma das freguesias do concelho de Carregal do Sal, mas terá sido naturalizado em Silgueiros.
O nome do pai era José Maria Pinto e a mãe Maria Delfina, residentes em Casal Juzão. Recebeu o baptismo na freguesia de Silgueiros a 10 de Janeiro do mesmo ano e foram seus padrinhos António Dias de Figueiredo natural e morador em Casal Juzão, e Maria Cândida, casada e moradora em Silvares [ AUC - Livro de Certidões de Idade (1834-1900), Vol. LXII, (org. de João Narciso e João Xavier), fl. 24]. Em Viseu terá iniciado os seus estudos no Seminário e tido como seu professor o famoso bispo e político de Viseu D. António Alves Martins.

Mais tarde João Pais Pinto desloca-se para Coimbra onde frequentará primeiro a Faculdade de Teologia [ Esta informação foi recolhida na obra Portugal: Dicionário Histórico, Corográfico, Biográfico, Bibliográfico, Heráldico, Numismático e Artístico, (dir. de Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues), vol. V, Lisboa, João Romano Torres & Cª Editores, 1911, p. 369. No entanto, a consulta do Livro de Matrículas, na Faculdade de Teologia e no Arquivo da Universidade não faz referência a nenhuma outra matrícula da mesma pessoa noutro curso que não o de Direito de 1878 a 1883] e mais tarde a Faculdade de Direito (1878-1883). Aí vai contactar com personalidades e ideias avançadas para a época, donde vai retirar alguns ensinamentos. Estes vão-lhe permitir mais tarde tomar posições públicas favoráveis ao republicanismo e à democracia, distinguindo também o padre do cidadão.

Em 1877 toma as ordens de presbítero e dois anos depois é-lhe confiada a missão de dirigir espiritualmente o Convento de Santa Clara em Coimbra. Em 1878 [ Cf. Livro de Matrículas da Universidade de Coimbra, Livro 101 (1878-1879), fl. 35, nº 39. Neste é possível determinar quais os exames que tinha obtido aprovação e o que aprendiam os elementos do clero em Portugal. Aprendiam as disciplinas de Português, tradução de Francês, Latim, Latinidade, Filosofia Racional e Moral, Oratória, História, Geografia e Cronologia, Geometria e Introdução à História Natural dos Três Reinos.] matricula-se na Faculdade de Direito. Nessa altura constava no seu acto de matrícula, efectuada em 2 de Outubro de 1878, uma Certidão de Idade e outra dos Exames que tinha efectuado às diferentes disciplinas que compunham o seu estudo.

Inicialmente ele possuía a categoria de capelão adjunto e só obtém a confirmação de capelão efectivo por Despacho de 28 de Janeiro de 1879. Sendo portanto a partir daí que ele se instala no Convento de Santa Clara. Esta circunstância permite-lhe dedicar-se aos estudos e às actividades pastorais. Dirige então algumas associações de beneficência e de auxílio aos pobres, especialmente a Conferência de S. Vicente de Paulo.

A Conferência de S. Vicente de Paulo foi fundada em Coimbra nos finais de 1880, impulsionada pelo Padre Senna Freitas e dirigida por Paes Pinto até 1882. Tinha como sede o antigo convento dos Grilos que pertencia a António de Forjaz. [Cf. Anónimo, “Missa e Sermão”, A Ordem, Coimbra, 14-06-1882, Ano IV, nº 396, p.4, col. 3. Cf. também Anónimo, “Festa de S. Vicente de Paulo”, A Ordem, Coimbra, 07-12-1882, Ano V, nº 420, p. 2, col. 4. Cf. também Pe. Senna Freitas, Ao veio do tempo (Ideias, Homens e Factos), Lisboa, Parceria António Maria Pereira Livraria Editora, 1908, p. 267-282. Curiosamente nunca chega a mencionar o nome de Pais Pinto que era referenciado pela imprensa da época como tendo sido o primeiro presidente da Conferência de S. Vicente de Paulo em Coimbra]. Promove também uma peregrinação de estudantes de Coimbra ao Santuário do Sameiro a 23 e 24 de Agosto de 1882.

A Peregrinação Académica ao Sameiro foi realizada com grande intervenção de Pais Pinto que dos 60 peregrinos que conseguiu arrastar, 30 eram congregados académicos de Maria em Coimbra reunidos por Pais Pinto. Apesar de os peregrinos serem em número relativamente reduzido, teve bastante impacto na população, que, segundo as notícias que A Ordem transmitiu, teria a cerca de 5000 pessoas a esperá-los em Braga. [Cf. Anónimo, “A Peregrinação Académica de Coimbra”, A Ordem, Coimbra, 26-08-1882, Ano, IV, nº 390, p. 3. col. 1]. Tendo durante este período de estudante vivido, primeiro no Bairro de S. José e posteriormente no Convento de Santa Clara.

Entre os seus colegas no curso de Direito figuram nomes Luiz Osório da Cunha Pereira de Castro, Manuel da Silva Gaio, António de Almeida, José Maria Pereira Forjaz de Sampaio, António Joaquim de Castro Feijó, entre muitos outros. Encontram-se aqui alguns nomes que se tornarão conhecidos como poetas, escritores e jornalistas.

[Em continuação]

A.A.B.M.