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sábado, 12 de outubro de 2019

TRÊS VEZES ROGÉRIO RODRIGUES


Três vezes Rogério Rodrigues” – por Henrique Monteiro, in Expresso online, 12 de Outubro de 2019

O jornalista Rogério Rodrigues, que faleceu esta semana e é cremado este sábado, depois de uma cerimónia simples, como foi sempre toda a sua vida, tem sido alvo de várias homenagens. Aqui fica a despedida do seu amigo de sempre, cronista e ex-diretor do Expresso Henrique Monteiro.
Penso nele, neste momento, a discutir com São Pedro os méritos da entrada no céu. Mas, de acordo com a ética do Rogério, é ele que defende que lhe faltam qualidades e São Pedro que insiste em lhas lembrar.

O Rogério era assim. Já muitos o escreveram, mas poucos, talvez, o tenham conhecido tão bem quanto eu nas várias dimensões que teve. Foi um tremendo jornalista (torpedo, chamava-lhe a Fernanda Mestrinho); foi um poeta e escritor, que apenas a humildade natural e a vontade de se apagar e de ser crítico de si próprio não levou mais longe; foi um maçon exemplar, incorruptível e fraterno que adotou como nome simbólico Antero de Quental, com quem se há-de encontrar na mão direita de Deus (o de quem o substitua).

Conheci-o há mais anos do que é justo dizer aos jornalistas novos. Nos tempos em que as redações tinham dinheiro, vagar e alegria. Sabíamos notícias à segunda e podíamos guardá-las três, seis, 10 dias. E se o Rogério tinha notícias. De todos os lados, de toda a gente. As suas fontes eram diversificadas e a sua escrita rigorosa. Um dia fomos ambos em reportagem ao Alentejo profundo, lá onde ainda não chegara o alcatrão, nem a luz, nem a água canalizada. Difícil, sabem, é o começo do texto que assinaríamos ambos. O Rogério virou-se para mim e disse-me: "escreve aí (eu escrevia à máquina mais depressa do que ele) ": “Naquelas terras cujo pó nem as sandálias do diabo conheceram…” - e eu, que era já aquiliano, virei-me para ele e disse: “De onde te vem isso?”. E ele respondeu: “Da cultura."
Ah, sim! Porque o Rogério era poeta. Em 1972 publicara ‘Livro de Visitas’, um livro de poesia com uma dedicatória arrepiante ao seu irmão morto na guerra colonial, em Angola: “Ao Anísio Manuel Rodrigues - vivo; pelo Anísio Manuel Rodrigues – morto”.

A morte não lhe era mais estranha do que a vida. O seu outro irmão, que ficara cego, morreria atropelado, em Lisboa. E ele, que estudara no seminário, em Macau, por mor de contos que não vêm ao caso, e que mais tarde se fizera à Filologia Românica, deu o salto para Paris, a fugir à tropa. Voltou quando um decreto permitiu que não fosse para a guerra quem fosse amparo de mãe, ou seja, tivesse já um irmão morto nas Forças Armadas.
Andou com Afonso Praça, da mesma terra do que ele – Torre de Moncorvo (o concelho, porque ele era de Peredo de Castelhanos) e com o Assis Pacheco. E com o Cardoso Pires e com tanta gente da cultura – da Graça Morais ao Herberto Hélder. Sempre sem fanfarra nem gabarolices. Caramba! Conheço-os todos graças ao Rogério e talvez por isso a Ana Sá Lopes lembrasse as palavras que eu, mais velho, lhe dissera quando, como estagiária, entrou em ‘O Jornal’: “Aqui somos todos rogeriodependentes!

Escreveu outros livros, o último dos quais de poemas, que assinou com o nome de Pedro Castelhano, em homenagem à sua terra, e me entregou para que eu o apresentasse. Fi-lo com gosto e recomendo-o: "(Re) Cantos d’Amar Morto".
Não! A morte não lhe era estranha. Ele aprendeu a morrer e, como Sócrates disse, quando tomou a cicuta, agora que chegou a hora de nos separarmos – ele para a morte e nós para continuar a vida – qual tem o melhor caminho? “Eis algo que só Deus sabe”.

Na mão de Deus / Na sua mão direita / Descansou afinal meu coração, escreveu o Antero, que era também o Rogério. “Os meus dias tiveram o pão duvidoso e a fome avara dos humildes”, escreveu o Rogério, que era também Antero.

Penso que nunca fez mal a ninguém, salvo a ele próprio. A mulher, a Arlete, médica de quase todos nós na Casa da Imprensa, os filhos Tiago e Diogo, eram a sua luz. Mas entre mim e ti, Rogério, havia sombras. O que nós dizíamos mal e gozávamos com tantos (e tantas) que andam por aí. Dizíamos mal até nos fartarmos e passarmos a dizer mal um do outro e depois mal cada um de si próprio. Qual psiquiatria, como tu dizias alto e bom som, com a tua voz inesquecível: “Eu não tenho problemas pessoais!”.

Um dia, no Grémio Lusitano, sede da Maçonaria, encontrámo-nos. Nem ele foi pela minha mão nem eu pela dele. Pura e simplesmente encontrámo-nos onde se podem encontrar homens bons. Crentes na humanidade (apesar de haver por lá muito quem não mereça); crentes na vida que supera a morte, porque como a semente morre para que nasça a árvore e o fruto, assim nos encontraremos no que chamamos Eterno Oriente. A última publicação em que estivemos juntos foi a da Maçonaria, a pedido do saudoso António Arnaut, que nos desafiou, com aquele ar dele sempre ingénuo: vocês é que podiam… e tal. E nós pudemos. E fizémos. Algumas vezes os dois sozinhos, porque outros tinham sempre muito que fazer e, por muito que nós tivéssemos também, sempre guardámos um espaço para o mistério do espírito, da vida e da morte.

Conheci-te, Rogério, nas tuas várias dimensões. Como diz o nosso ritual funerário, partiste um pouco antes de nós. Lá nos encontraremos, com aqueles que estivemos: o Nunes de Almeida, o Gabriel Viegas, o Luís Conceição, o Óscar Gois.

E com todos os camaradas de profissão – da nossa profissão a sério – que fomos perdendo e aqueles que hão de chegar, como eu, o Castanheira, o Garcia, o Adelino, a Fernanda, o Grego Esteves e todo o pessoal da ‘cozinha’ de ‘O Jornal’. E com o mundo todo, porque como dizia o Assis, a puta da vida é pior do que a puta da morte, mas não temos mais nada a que nos encostar. Talvez aí o Praça, que representou tão bem o papel de padre num filme, nos abençoe a todos e nos conduza ao pé do Antero e de ti; à mão direita de Deus.

Até já!”

 Três vezes Rogério Rodrigues” – por Henrique Monteiro, in Expresso online, 12 de Outubro de 2019 – com sublinhados nossos

 
J.M.M.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

JOAQUIM MARTINS DE CARVALHO [1822-1898] - NOTA BREVE

 
Joaquim Martins de Carvalho nasceu em Coimbra [a 19 de Novembro de 1822, curiosamente no mesmo dia em que morre Manuel Fernandes Tomás]. Frequenta (1833 e 1834) aulas de latim nos jesuítas [os pais queriam que seguisse o estudo eclesiástico – ver Diccionario de Esteves Pereira, vol IV; idem Dicionário Bibliográfico de Inocêncio, vol XII, Suplemento J, p. 113 e ss], foi empregado comercial [ficou órfão prematuramente e não pode prosseguir os estudos] e trabalhou no ofício de latoeiro [daqui nasce a alcunha posta pelos académicos de antanho de “doutor latas”]; fez parte do movimento da "Maria da Fonte" (1846), tendo por isso sido preso [4 de Fevereiro de 1847] e levado de Coimbra para a Figueira da Foz e daí para Buarcos, onde o embarcaram num barco de guerra com destino a Lisboa, sendo enviado de imediato para o Limoeiro [onde fica de Fevereiro a Junho – foge a 29 de Abril mas é rapidamente recapturado], de onde sai pela convenção de Gramido [redigida pelo punho de Teixeira de Vasconcelos], a 28 de Junho [cf. O Século, 20 de Outubro de 1898]  

Foi um notável jornalista, talvez o mais admirável do seu tempo: colaborou (1851) no Liberal do Mondego, foi revisor, redator e (depois) proprietário do Observador  [fundado a 16 de Novembro de 1847; o seu primeiro escrito no jornal, “Sociedades de Socorros Mútuos”, data de 13 de Agosto de 1850] e fundou e redigiu, quase que integralmente, esse incontornável, erudito e precioso jornal, O Conimbricense  [nº 1, 24 de Janeiro de 1854, ao nº 6230, de 31 de Agosto de 1907, saindo um nº a 1 de Julho de 1908; continuação d’Observador], uma verdadeira “enciclopédia de história politica, literária e artística do nosso país” [Silva Pereira, in Occidente, 30/10/1898]. Funda a 30 de Outubro de 1855 uma Tipografia, para a impressão d’O Conimbricense, na rua de Coruche (ou, depois, Visconde da Luz), mudando-se posteriormente para a rua das Figueirinhas (depois chamada, rua Martins de Carvalho), num prédio onde veio a residir.

N'O Conimbricense, Joaquim Martins de Carvalho “expandia todas as suas ideias de liberal sans peur et sans reproche, atacando todos os movimentos reacionários e retrógrados, tudo o que fosse voltar aso tempos nefastos da opressão ou que apresentasse um ataque às liberdades públicas” [cf. O Século, 20 Outubro 1898; jornal Resistência, ibidem]

 


Defensor das liberdades públicas, liberal “sem nódoa” [cf. Occidente, ibidem] e convicto associativista, foi um admirável defensor da instrução do operariado, pertencendo aos fundadores da Sociedade de Instrução dos Operários (1851), do Montepio Conimbricense (1851; e que depois tomou o seu nome), do Centro Promotor de Instrução (antiga Biblioteca Popular da Sociedade Terpsychore Conimbricense), da Associação Liberal de Coimbra, da Sociedade Protetora do Asilo de Mendicidade de Coimbra, foi sócio honorário da Associação de Artistas de Coimbra, da Assembleia Recreativa de Coimbra, da Escola Livre das Artes de Desenho de Coimbra, da Associação Comercial de Coimbra, do Instituto de Coimbra, do Grémio dos Empregados de Comércio e Industria de Coimbra, dos Bombeiros Voluntários, da Sociedade Tipográfica Lisbonense e Artes Correlativas, da Sociedade Protetora dos Animais, da Sociedade União Beneficente A Voz de Operário, do Centro Promotor de Melhoramentos das Classes Laboriosas de Lisboa, da Sociedade de Geografia e Comercial do Porto, da Academia Real das Ciências de Lisboa, do Clube Literário Limoeirense de Pernambuco, da União Beneficente do Rio de Janeiro, do Grémio de Instrução e Recreio de Bragança, do Grémio Literário de Angra do Heroísmo, foi correspondente da Sociedade de Geografia de Lisboa, da Sociedade de Geografia do Porto, da Associação Liberal Portuense, da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, da Real Associação dois Arquitetos Civis e Arqueólogos Portugueses [idem, ibidem]. Já perto do final da sua vida, além de colaboração esporádica em periódicos estudantis [como o Académico (1880), a Folha Literária (1882) e Portugal (1896)], o “integérrimo liberal” torna-se um “liberal desiludido” [cf Magalhães Lima, Vanguarda, 19 Outubro de 1898], “fez-se republicano” e filia-se (1895) no Partido Republicano, porque era na República que via “a salvação do país” [cf. jornal Resistência, Coimbra, 20 de Outubro 1898; idem O Século, Lisboa]   

Joaquim Martins de Carvalho foi agraciado, em Novembro de 1869, com o “hábito da Conceição”, mas renunciou, tendo sido aceite pelo diploma de 5 de Janeiro de 1870. E é o principal animador da Exposição Distrital de Coimbra, inaugurada a 1 de Janeiro de 1884, onde é presidente da Comissão Executiva. Em 1888, por ocasião do seu 66º aniversário, a Associação dos Artistas de Coimbra “tomou a iniciativa de imponentes manifestações em sua honra”, tendo realizado um “cortejo cívico majestoso”, com representações de todas as associações e dando lugar, a noite, a uma sessão solene onde discursaram o conde de Valenças e o conselheiro José Dias Ferreira [O Século, ibidem].   

 


"Não tendo ele sido verdadeiramente um escritor, na acepção estilística do termo, foi um jornalista ardoroso e intemerato, arrostando tão corajosamente os perigos como afrontava sobranceiramente chufas e arruaças, em luta permanente contra tudo e contra todos pelo Progresso, pela Ordem e pela Verdade" [José Pinto Loureiroin Índice Ideográfico de O Conimbricense, Coimbra, 1953]

"... A collecção do Conimbricense, escripto da primeira columma à última por Martins de Carvalho, é um repositório interessante da nossa historia pátria, em que o fallecido jornalista era aprofundadíssimo e excavador extremado de factos históricos ..." [Portugal Moderno, Rio de Janeiro, 1901]

"É preciosa a collecção do Conimbricense. Mais vasto repositório de história não é possível encontrar-se em nenhum jornal político dos muitos que se tem publicado no paiz. É um arquivo inestimável de factos e documentos valiosíssimos, uma bússola indispensável a todos os cavouqueiros da história pátria. Quando mais não seja a história contemporânea de Portugal não pode fazer-se com segurança sem a consulta previa da collecção do Conimbricense ..." [Marques Gomesin O Conimbricense e a História Contemporânea. Publicação comemorativa do 50º aniversario do nosso mesmo jornal, Aveiro, 1897]

De facto, como se pode ler pelo Índice Ideográfico de O Conimbricense  (sob direcção de Pinto Loureiro), a vastidão e a importância dos assuntos publicados no jornal ao longo dos anos, faz dele uma fonte inultrapassável sobre os acontecimentos económicos, políticos, sociais e literários de finais do século XIX. São curiosas e estimadas as referências sobre Garrett, ArqueologiaLutas AcadémicasBibliografia e Bibliofilia, JornalismoCabralismo, Costumes, Duelos, Tauromaquia, Teatro, Tipografia (importante os seus Apontamentos para a História da Tipografia em Coimbra), Viticultura, Eleições, Epistografia, Évora, Manuel Fernandes Tomás, Freire de AndradeGuerra Peninsular, Herculano, Iberismo, Índia Portuguesa, Lisboa, Macau, José Agostinho de Macedo, Mosteiros, Mutualismo, OperariadoMarquês de Pombal, etc .

Absolutamente notável as inúmeras e preciosas referências que se dispõe sobre CoimbraInquisição, Ordens Religiosas, Invasões Francesas, Lutas Liberais, Miguelismo, Jesuítas, Maçonaria e Carbonária, Sociedades Secretas (como S. Miguel da Ala).

Diga-se, que o próprio Joaquim Martins de Carvalho pertenceu à Carbonária Lusitana de Coimbra , instalada a 29 de Maio de 1848, pelo Padre António Maria da Costa  [o Benigno Primo, ou B. P., Ganganelli] e José Joaquim Manso Preto [B. P. Lagrange] e dissolvida em 1850. Joaquim Martins de Carvalho integrou a “Choça 16 de Maio” [título em homenagem à data da vitoria popular contra o Cabralismo, a 1847 em Coimbra; reunia a choça em frente ao Colégio Novo, quando se sobe a Couraça dos Apóstolos), era Joaquim Martins de Carvalho o Orador, o B. P. “Ledru Rollin”; foi presidente da choça "Segredo" – que sucede à "Choça 16 de Maio", que muda de nome dada a descoberta e o assalto executado pela polícia cabralina e que reúne depois, não sem alguns curiosos percalços, no convento de Santo António dos Olivais - e é 1º secretário da Barraca "Igualdade", que chegou a reunir no Jardim Botânico de Coimbra. Refira-se que a Carbonária Lusitana de Coimbra é diferente daquela que se denomina de Carbonária Portuguesa  (1896/7??) e não se deve confundir com a Carbonária Lusitana, de pendor anarquista - ou Carbonária dos Anarquistas - muito sigilosa, a que pertenceram os anarquistas José do ValeRibeiro de Azevedo, entre outros [vidé a Carbonária em Portugal, por António Ventura, Museu Republica e Resistência, 1999]. Joaquim Martins de Carvalho foi iniciado na maçonaria em data incerta, com o nome simbólico de “Lamartine”, tendo feito parte da loja maçónica de CoimbraPátria e Caridade  [1852-53? – sob obediência da Confederação Maçónica Portuguesa; curiosamente fez parte da loja, sendo seu Venerável, Filipe de Quental (Chatterton) e José Luciano de Castro; a loja situava-se junto ao Colégio dos Grilos e mais tarde muda-se para o Colégio da Trindade – ver Encyclopedia das Encyclopedias, vol. VI M-MAG, p. 396; ver, ainda, Francisco A. Martins de Carvalho, “Algumas horas na minha Livraria", 1910, p.99 e ss].

 


Refira-se que a sua admirável livraria [que contava com peças manuscritas de grande valor e raridade], em parte vendida em 1923 (em Coimbra), era extraordinária - principalmente o conjunto raríssimo de jornais, revistas e publicações várias, autógrafos e um notável conjunto de opúsculos políticos - sendo que o leilão realizado foi um dos acontecimentos mais excepcionais entre os bibliófilos portugueses.

Faleceu em Coimbra a 18 de Outubro de 1898 [curiosamente, 81 anos decorridos da “horrorosa” morte de Gomes Freire de Andrade]. O funeral, que saiu da igreja de S. Bartolomeu para o cemitério da Conchada, apesar de copiosa chuva, foi uma homenagem “imponentíssima”. Todas as associações de Coimbra e um numeroso grupo de trabalhadores marcaram presença, em “alas compactas” na Praça do Comércio [ver “A Voz Pública", 21 de Outubro de 1898], o comércio local fechou as portas, tendo discursado no cemitério Brito Aranha (pelo DN e Associação dos Jornalistas), A. X. da Silva Pereira (pela Associação da Imprensa Portuguesa e como correspondente do Conimbricense em Lisboa), Guilherme Alves Moreira (pelo Partido Republicano), João José Sabino (pela Voz do Operário), José do Carmo (pelo jornal A Voz do Operário), Teixeira Bastos (pelo Século), Ernesto da Silva (pela Liga de Artes Gráficas), António Ferreira Carneiro (carpinteiro e artista conimbricense), José Pereira da Cruz (pelo 1º de Janeiro) e António Bahia (em nome dos pobres de Coimbra). Estiveram presentes um elevado número de representantes de periódicos nacionais e regionais (como a Gazeta da Figueira, Resistência) e a comissão municipal republicana do Porto fez-se representar pelo dr. Afonso Costa [idem, ibidem; ver, ainda, jornal “Vanguarda”, de 20 de Outubro de 1898].  

Algumas ObrasApontamentos para a Historia Contemporânea, Imp. da Univ., 1868 / Novos apontamentos para a História contemporânea os assassinos da Beira, Imp. Univ., 1890 / A Nossa Aliada! Artigos publicados pelo redactor do Conimbricense, Porto, 1883 / Homenagem a Joaquim Martins de Carvalho, Typ. Operaria, 1889 / O Retrato de Venus. Edição Comemorativa do nascimento de Garrett, Coimbra, 1899 / Os assassinos da Beira, Coimbra, 1922 / Catálogo da... livraria que pertenceu ... a Joaquim Martins de Carvalho e ... Francisco Augusto Martins de Carvalho, Imp. da Univ., 1923

NOTA: este texto foi inicialmente publicado, por nós em 2003, no Almocreve das Petas, e apresenta-se agora com novos aditamentos.

J.M.M.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

LEITÃO DE BARROS - “O INVENTOR” [CONCLUSÃO]



O Inventor” [Conclusão] – por António Valdemar, in Caderno E, Expresso

LANÇAMENTO DE SALAZAR

Espectador e crítico dos primórdios do século XX, Leitão de Barros assistiu à desagregação da monarquia e a sucessivos episódios trágicos que derrubaram a República. Apoiou o consulado de Sidónio Pais e também o golpe de 28 de Maio de 1926, que implantou a ditadura militar e preparou a ditadura do Estado Novo. Participou no lançamento e consolidação da imagem de Salazar. António Ferro, por sugestão de Mário Barros a Eduardo Schwalbach, diretor do “Diário de Notícias” (Augusto de Castro estava, na altura, em Bruxelas, à frente da Legação de Portugal), fez as entrevistas, depois publicadas em livro e traduzidas em várias línguas, que revelaram os objetivos políticos de Salazar como chefe do Governo.
Leitão de Barros, diretor de “O Domingo Ilustrado” e de “O Notícias Ilustrado”, acompanhou essa promoção de Salazar e também a completou no cinema, por exemplo, em documentários acerca de algumas das instituições do salazarismo, como a Mocidade Portuguesa e a Legião Portuguesa. Enquanto esteve no jornal “O Século”, nos anos 30 e 40, entre numerosas iniciativas que desenvolveu, Leitão de Barros criou “O Século Ilustrado” e a Feira Popular de Lisboa; entrevistou Salazar e também, no Castelo de Bellevue, nos arredores de Paris, a rainha D Amélia, que enalteceu as obras do Estado Novo e a ação de Salazar.

O POLEIRO DE ‘OS CORVOS’
Leitão de Barros ficou na história do “Diário de Notícias” dirigido por Augusto de Castro. Fez crónicas e reportagens na Inglaterra, na Espanha e no Brasil. Mas, durante os 15 anos de permanência no jornal, assinalou-se fundamentalmente através da coluna semanal ‘Os Corvos’. Eram textos que se aproximavam da intimidade alfacinha introduzida nos folhetins do século XIX, de Júlio César Machado e Gervásio Lobato, e da mordacidade satírica de “As Farpas”, de Ramalho, e de “Os Gatos”, de Fialho.

'Os Corvos’ denunciam o temperamento irrequieto de Leitão de Barros. Ele conciliava a efusão lírica, a toada elegíaca e o entusiasmo patriótico com erupções irreprimíveis de sarcasmo. Era feroz — e regra geral oportuno — perante a mediocridade, o mau gosto e o vazio da pompa académica. Mas não ponderou a advertência de Fernando Pessoa num texto de acaso de Álvaro de Campos: “O poeta superior diz o que efetivamente sente. O poeta médio diz o que decide sentir. O poeta inferior diz o que julga que deve sentir.” Esse foi um dos erros que cometeu ao apreciar os poetas, escritores e artistas do seu tempo. E de outros tempos.
CERCADO DE INVEJAS

Os Corvos’ — de que há uma reduzida seleção, feita pelo próprio Leitão de Barros, em 1959 e 1961, dois volumes ilustrados por João Abel Manta — mobilizaram a curiosidade e interesse de milhares de leitores. Refletiam as tendências estéticas, os modelos literários e as opiniões políticas e sociais de Leitão de Barros, que registou de 1953 a 1967, no “Diário de Notícias”, o que ocorria na cidade, no país e alguma coisa do que chegava até nós.
Insistiu, alguns meses antes de falecer, na autópsia possível da realidade do Portugal que tivemos. Debatia-se com a degradação física, o envelhecimento progressivo, a consciência aguda da morte. Procurava ajustar ideias e projetos para enfrentar um mundo bastante diferente daquele em que assumira intervenção decisiva. Tinha propostas para Lisboa: valorizar a Avenida, recuperar Alfama, as ruínas do Carmo; cuidar dos jardins e dos miradouros; incentivar o turismo e a hotelaria; ajudar as crianças e os velhos.

Contudo, mesmo na agonia do salazarismo, eram outras as conceções na arquitetura, na urbanização, na educação e no ensino, na segurança social, nas exigências das populações. Em especial dos jovens.
Morreu, como viveu, cercado de invejas. Não lhe perdoavam nem o talento nem o êxito. Numa carta inédita — no espólio, a cargo das netas —, Eduardo Malta descreve, com minúcia, citando nomes, a sabotagem para inviabilizar uma votação para Leitão de Barros ser eleito sócio correspondente da Academia de Belas-Artes. Não era uma questão de currículo, mas aversão pessoal. Faltou-lhe até, naquela altura, para ter quórum, a solidariedade de uma pessoa muito próxima e da família. Em nova votação admitiram-no. Era tarde. Não tomou posse. Estava moribundo...

POSTERIDADE INEXORÁVEL
José Leitão de Barros, cidadão de Lisboa, falecido há 50 anos, a 29 de julho de 1967, recebeu as maiores homenagens e teve um enterro imponente, da Basílica da Estrela para um jazigo no Cemitério dos Prazeres. Estou certo de que ele gostaria de ter feito a notícia da sua morte e a reportagem do funeral, distribuindo os adjetivos de luxo para verter as lágrimas e acentuar as condolências

Teve honras na toponímia, com o nome numa rua em São Domingos de Benfica. É pouco para quem deu muito. Não é única a situação. Em diversas circunstâncias, já verificáramos outros casos de retumbante prestígio oficial ou oficioso que se eclipsaram decorrido meio século ou talvez menos. Mergulharam no esquecimento. O mesmo que envolve a memória de Leitão de Barros. Manter na íntegra, depois da morte, o protagonismo atribuído em vida não é fácil. A posteridade é inexorável
O Inventor – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], revista E, Expresso, 15 de Julho de 2017, pp. 46/50 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

LEITÃO DE BARROS - “O INVENTOR” [PARTE II]


O Inventor” [parte II] – por António Valdemar, in Caderno E, Expresso

A FESTA DE DESPEDIDA

A nossa relação pessoal passou a ser assídua. Uma ou duas vezes tentei entrevistá-lo: “Quanto é que tu me pagas? Vais receber dinheiro um texto feito com as minhas ideias? Resolvi dizer o que penso apenas nos ‘Corvos’. Começo a ficar seco e não desejo repetir-me”, declarou com um ar desconcertante. Apareceu recentemente no espólio, inventariado pelas netas, uma carta minha, que revela a proximidade que tivemos, a propósito da festa que Leitão de Barros ofereceu, cerca de um ano antes de falecer, na Casa do Banzão, em Colares. Foi, ao pressentir a morte, uma despedida dos amigos e de algum mundo oficial. Teve o aparato barroco dos cortejos históricos: GNR a cavalo e com uniforme de gala, à chegada dos visitantes, em redor da moradia e da torre... Reuniu quase todo o mundo das letras, das artes, da música, do teatro e do cinema. Incluiu, ainda, gente do Governo e da oposição. Do reviralho republicano. Compareceram, como é óbvio, do “Diário de Notícias” o diretor Augusto de Castro, a coordenadora do suplemento “Artes e LetrasNatércia Freire, o chefe da redação João Coito, o jornalista Artur Maciel. Surpreendeu-me a distinção do convite que Leitão de Barros me fez pelo telefone e o cartão que mandou, pelo correio, para minha casa. Não vi mais ninguém do “Diário de Notícias”. Estiveram, possivelmente, administradores.
APOSTA NO INSTITUCIONAL

Para a necrologia de Leitão de Barros, preparada com razoável antecipação, li ‘Os Corvos’, no livro e no jornal. Voltei a lê-lo para o artigo que escrevi no centenário do seu nascimento. Consultei, ainda, número a número, a coleção de “O Domingo Ilustrado” e de “O Notícias Ilustrado”. Encontrei, por exemplo, textos de Fernando Pessoa e desenhos e textos de Almada Negreiros. Leitão de Barros não hesitou publicar, em “O Domingo Ilustrado”, uma versão do último manifesto de Almada Negreiros, “Pa-Ta-Pon”, uma catalinária fulminante contra Martinho Nobre de Melo, catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa. Jovem ministro da Justiça de Sidónio, na altura, Martinho era um dos dirigentes da ditadura militar que, pela primeira vez, incluiu no Governo o ainda desconhecido Oliveira Salazar. Entretanto, Leitão de Barros teceu rasgados elogios a Almada, classificando- o “o maior nome da arte modernista”. Contudo, as preferências de Leitão de Barros, ao recolher opiniões para um inquérito ou qualquer outro destaque, recaíam em Afonso Lopes Vieira e António Correia de Oliveira, entre os poetas; em Carlos Malheiro Dias e Antero de Figueiredo, entre os escritores; e em Carlos Reis e Roque Gameiro, entre os artistas plásticos.
Nos momentos solenes, o Dantas era infalível. Apostava, portanto, nos valores institucionais. Não se apercebeu do significado das vanguardas europeias nem da importância do “Orpheu”. Enredou-se nas anedotas de café, na chicana das gazetilhas, nas ferroadas das caricaturas. Não reparou, ignorou ou encolheu os ombros quando — dois ou três anos antes do “Manifesto Anti-Dantas” de AlmadaFernando Pessoa, ao criticar o “Bartolomeu Marinheiro” de Afonso Lopes Vieira, escrevia sem papas na língua: “Os portugueses de amanhã, se forem educados na estupidez pela leitura das obras infantis como o ‘Bartolomeu Marinheiro’ [...], terão por Shakespeare o sr. Júlio Dantas, por Shelley o sr. Lopes Vieira e... serão espanhóis.” (Não ficámos espanhóis, mas Afonso Lopes Vieira, durante o salazarismo, era um dos poetas que figuravam nos livros de instrução primária... Ilustrados por Raquel Roque Gameiro)

A DISPERSÃO CONTÍNUA
A opção que Leitão de Barros tomou, no decurso de uma dispersão contínua, por fazer muitas coisas e ao mesmo tempo, se impediu que ficasse reduzido a pão e laranjas, mas sem o conforto financeiro que pretendia, em termos culturais transformou- o, como artista plástico, escritor e homem de teatro, num epígono de epígonos. Uma tarde, no ateliê da Rua D. Pedro V, perguntei-lhe se já tinha refletido na ascensão de artistas, poetas e escritores da sua idade ou ligeiramente mais velhos (casos de Fernando Pessoa, Almada, Eduardo Viana, Jorge Barradas e António Soares), uma vez que ele se colocara à margem de uma geração com um contributo inovador em que poderia ter participado?

A resposta foi imediata: “Não tenho nada a ver com o Amadeu Cardoso e muito menos com o Picasso.” E pormenorizava: “O Viana é um pintor excecional. O Almada é e foi sempre o Almada. O Barradas só ganhou projeção nacional, aos 50 anos, ao abandonar as colaborações nos jornais e ao dedicar-se à cerâmica. Formou uma nova escola de ceramistas. Mas, por exemplo, o António Soares, os seus óleos, guaches e desenhos situam-se antes do Picasso e do Amadeu. Lá fora, é claro, pois aqui estávamos agarrados ao Silva Porto e ao Pousão, ao Columbano e ao Carlos Reis. E quem frequentou a Escola de Belas-Artes era triturado pela severidade do desenho lecionado pelo Condeixa e pelo Luciano Freire. O Soares teve a sorte de não passar por lá...”
A OBSESSÃO DO SOARES

“Eu poderia ter escolhido outro caminho... Todos gostam imenso do Soares, embora seja um indivíduo intratável. É o autor da maior parte das capas dos principais livros do António Ferro. Foi duas vezes Primeiro Grande Prémio de Pintura, atribuído pelo Ferro nos Salões de Arte Moderna do SNI. Consagrado na Exposição Internacional de Paris. O Almada nunca perdoou isso ao Ferro. O Soares fez um retrato estupendo do cardeal Cerejeira, outro retrato estupendo da rainha Leonor de Gusmão, para o Paço Ducal de Vila Viçosa. Não te esqueças do retrato da Natacha e do retrato da irmã. Não têm nada a ver com o modernismo, com o retrato do Fernando Pessoa feito pelo Almada ou com os retratos do Mário Eloy. Se lho encomendassem, o Soares teria retratado o Salazar e o Dantas. Eu sabia e sei fazer o mesmo que o Soares faz e que vai repetindo há 40 anos com pequenas variações. Ele compra revistas francesas da moda e de turismo: pega naquilo, dá uma volta e aparecem aquelas mulheres, deslumbrantes e esquisitas, de Paris, num cabaret, lábios pintados, um cigarro na mão ou entre os lábios; ou, então, numa terrasse de Montmartre, com blusas e casacos lindíssimos. Quem é que não gosta?”
SETE DIAS E MEIO...

“Conheces aquela história do Soares imaginada pelo Bernardo Marques? Uma delícia!” É evidente que já a ouvira ao próprio Bernardo Marques e a Abel Manta ou a Jorge Barradas. Disse que a ignorava, e Leitão de Barros, como um gato arrepiado e com rasgos impetuosos de farsa, à maneira de Gervásio Lobato, recriou com humor cáustico: “O Mário Ribeiro, dono do Bristol Club, instalado onde está a sede do Benfica, arranjou, dentro do edifício, um ateliê para o Soares e, mais tarde, outro para o Guilherme Filipe. O Mário Ribeiro adorava as pinturas e desenhos do Soares. Entrava em êxtase com as mulheres nas capas do ‘ABC’. Pagou ao Soares uma viagem a Paris para ele ir mesmo a Paris. Tinha muito dinheiro. As roletas chegavam a funcionar 24 horas. Nenhum artista ou escritor amigo do Mário Ribeiro pagava nada no Bristol. Comiam e bebiam à vontade. Só pagavam às putas se fossem com elas para a cama. Como era possível o Soares a impingir-nos Paris sem nunca ter posto lá os pés? Então o Soares andou em Paris quinze dias para ver mesmo Paris. Mas, como viveu sempre de noite e se levantou sempre às 5h ou 6h da tarde, o Bernardo dizia, com imensa graça e toda a verdade, que ele ficou apenas sete dias e meio... Daí para cá o Soares cria mulheres e faz paisagens de Paris quando, afinal, são vestidas e despidas, à noite e de madrugada, na casa onde mora, na Rua de Santo António dos Capuchos, cujas traseiras dão para as traseiras do Patriarcado. É assim que ele e o Cerejeira se cumprimentam. O retrato do Cerejeira foi executado a partir de fotografias escolhidas pelo padre Moreira das Neves. O Cerejeira nunca posou, é inimaginável, às horas em que o Soares trabalha...
O LEGADO DE RAMALHO

Um dos mestres de Leitão de Barros era o Ramalho Ortigão das “Últimas Farpas” e de “O Culto da Arte em Portugal”. Incutiu-lhe, a ele e a muitos outros jovens da sua geração, desiludidos e inconformados com a I República, a chama do nacionalismo e o fervor do regionalismo, a urgência da salvaguarda e recuperação do património, da conservação e restauro de monumentos. Ramalho também fez despertar a nova geração para o aprofundamento das raízes históricas e culturais que emergem dos cancioneiros medievais, dos ‘Amadizes’, da obra lírica e épica de Camões, do teatro de Gil Vicente, do teatro, da poesia e da literatura de viagens de Garrett.
Este legado, que ganhou forte expressão em Afonso Lopes Vieira e em Roque Gameiro, também perdura em Leitão de Barros e na atividade que este desenvolveu no cinema, no teatro, no jornalismo, nos cortejos históricos e na Exposição do Mundo Português.

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O Inventor [Parte II] – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], revista E, Expresso, 15 de Julho de 2017, pp. 46/50 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

LEITÃO DE BARROS - “O INVENTOR” [PARTE I]



O Inventor” – por António Valdemar, in Caderno E, Expresso

O “Diário de Notícias” foi a sua última tribuna. Escrevia a crónica semanal ‘Os Corvos’, que saía aos domingos, sempre na mesma página. Tinha repercussão nos mais diferentes estratos sociais. De Salazar ao merceeiro e ao barbeiro da esquina. A colaboração de Leitão de Barros não trazia assinatura e vinha paginada num espaço próprio e com caracteres tipográficos próprios. Todos sabiam quem era o autor. O título remetia, evidentemente, para Lisboa. Leitão de Barros, porém, ocupava-se do que lhe apetecia e do que se passava em qualquer parte do país e até no estrangeiro. Homem de muitos ofícios, lecionou Desenho, Geometria Descritiva e Matemática nos liceus Camões e Passos Manuel.
Isto constituiu apenas um modo de sobrevivência económica. Os seus interesses repartiam-se por outras áreas. Soube, contudo, atingir o renome intelectual — conforme diversas vezes me disse — para ganhar “o dinheiro que desejo para não pensar no dinheiro”. Ficou na história do cinema. Os seus filmes e documentários marcaram uma época. Desde “Malmequer” (1918) até “Vendaval Maravilhoso” (1948), passando por “Severa”, extraído da peça e da narrativa romanceada de Júlio Dantas e que foi, em 1931, o primeiro filme sonoro português. Fixou o cenário marítimo e piscatório da Nazaré e da Póvoa de Varzim, o universo rural de “As Pupilas do Senhor Reitor”, o pitoresco dos bairros humildes de Lisboa e a realidade telúrica e humana das populações dos arredores. Ficou ainda na história do jornalismo da primeira metade do século XX. António Cortez Pinto apresentou, em 2015, na Universidade Nova de Lisboa, uma tese de doutoramento acerca da orientação que desempenhou em dois semanários. Fundou e dirigiu “O Domingo Ilustrado” (1925-1927) e “O Notícias Ilustrado” (1928-1935), que se afirmaram pela renovação gráfica, pela abundância de temas relatados e comentados e pela diversidade da colaboração.
E como era Leitão de Barros no dia a dia com qualquer um de nós? Ou com o poder político e económico? Ou com os diretores dos jornais? Imprevisível. Umas vezes agradável, outras desagradável. Muito simpático ou ostensivamente antipático. E como era, ainda, Leitão de Barros com a família? Com a mulher, os filhos, os netos, as cunhadas e os cunhados? Joana Leitão de Barros e Ana Mantero, duas netas que privaram ainda com o avô, procuraram-me, recentemente, para obter informações e aclarar dúvidas que lhes suscitou a leitura de um artigo meu de 1996, no dia do centenário do nascimento de Leitão de Barros. Preparam um livro que se baseia em documentação inédita encontrada no espólio, um acervo de muita correspondência, recebida e enviada; de muitas fotografias, de muitos recortes de jornais e revistas. Ao serem divulgados e contextualizados, vão surgir — garantiram-me — “revelações até agora desconhecidas a propósito do homem e da obra”.
José Leitão de Barros nasceu em Lisboa, a 22 de outubro de 1896, e entrou na “ínclita família” dos Gameiros pelo casamento, em agosto de 1923, com Helena, uma das filhas de Alfredo Roque Gameiro, que seguiu o pai na aguarela e no desenho (José tinha 27 anos e Helena 28). Raquel, outra filha de Roque Gameiro, principiou mais cedo na ilustração e na aguarela e atingiu maior notoriedade. Ainda outra filha, Maria, casou com Martins Barata e proporcionou novas ramificações. Havia mais dois filhos, Manuel e Rui. Este último, escultor, em agosto de 1935, com 29 anos, morreu, juntamente com a mulher (que estava grávida), na estrada de Sintra, num choque entre a moto que conduzia e um automóvel. Aos Gameiros juntou-se a dinastia dos Barros. Uma irmã de José casou com o arquiteto Cottinelli Telmo, sogro de Daciano Costa. E outra irmã, Teresa, formada em Letras, lecionou, no tempo áureo das Guardiolas, no Liceu Maria Amália, três ou quatro gerações que, em grande parte, guardaram deplorável memória das suas aulas; integrou o júri do polémico concurso organizado por António Ferro em que Fernando Pessoa enviou a “Mensagem”; e, antes e já depois do 25 de Abril, trabalhou na biblioteca e no arquivo do “Diário de Notícias”. Era feia e assumidamente reacionária. Tinha bigode e vestia mal. Desde o chapéu até aos sapatos.

ALMADA E OS “PAINÉIS”
Em agosto de 1960, entrei como repórter para o “Diário de Notícias”. O lendário chefe da secretaria, Mário Barros — uma das raras pessoas vivas que privaram com o poeta Gomes Leal; que pertencera a uma tertúlia do Café Chave d’Ouro ligada ao 28 de Maio e de que fazia parte o general Gomes da Costa; e que conhecera, de perto, toda a geração do “Orpheu” (tratava por tu Almada Negreiros e Alfredo Guisado) —, disse-me, enquanto marcava, pelo telefone, um serviço de agenda: “O Leitão de Barros quer conhecer-te, por causa dessa trapalhada da questão dos ‘Painéis’, das tuas entrevistas com o Almada. Ele está convencido de que, no ‘Diário de Notícias’, é a única pessoa que pode falar e escrever sobre os ‘Painéis’ e que o que é preciso saber é quem foi que os pintou e para onde se destinavam os ‘Painéis’.” Em ‘Os Corvos’, Leitão de Barros tinha dado algumas alfinetadas que haviam irritado Almada, que me comentou com acidez: “Só faltava agora este preopinante...”
Dias depois, em plena redação, tivemos a primeira aproximação. Eu preparava-me para sair e ele chegava com o texto de ‘Os Corvos’ para publicar no domingo. Dirigi-me ao seu encontro e identifiquei-me. A conversa prolongou-se até às 4h ou 5h da madrugada. Era a ‘Nau Catrineta’. Tinha sempre muito que contar (era um conversador fascinante, como Almada, Nemésio, o professor Vieira de Almeida, António Pedro e poucos mais). Estou a ouvi-lo. Principiou ao ataque: “Como é que tu, que és tão novo, mais ainda do que eu julgava, te atreves a escrever sobre os ‘Painéis’? Já leste o livro de José de Figueiredo? Como é que o monstro sagrado do Almada te deu as entrevistas que nunca me quis dar? Ele, se calhar, não quis foi discutir geometria comigo...”
Deixei-o falar à vontade. Descarregou os nervos. Referi-lhe que passei alguns meses no Museu Nacional de Arte Antiga, apresentado por Almada ao dr. João Couto, que me explicou as várias teses e me pôs à disposição o essencial e o acessório que havia na biblioteca.
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O Inventor [Parte I] – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], revista E, Expresso, 15 de Julho de 2017, pp. 46/50 – com sublinhados nossos.
J.M.M.

domingo, 23 de agosto de 2015

DINIZ DA LUZ, RETRATO INCOMPLETO DE UM MICAELENSE COMPLETO


Diniz da Luz, Retrato Incompleto de um Micaelense Completo” – por António Valdemar, in Correio dos Açores

“Torrentes da memória a propósito do jornalista, do poeta, do colega e do amigo, a um mês do centenário do nascimento, onde voltará a ser homenageado. Pelo menos, na sua ilha e na sua terra

Conheci imensas pessoas mas dificilmente encontrei alguém como Diniz da Luz. Fumava, vorazmente, quatro ou cinco maços de cigarros. Julgo que excedia o Cardeal António Ribeiro ou o arquitecto Siza Vieira. Bebia cerca de trinta cafés, por dia. Também suplantava o escritor Ferreira de Castro. Os que assistiam, a seu lado, a um desafio de futebol, e se o Benfica tivesse algum azar, ouviam-no proferir os maiores palavrões contra o adversário. Ultrapassavam o recenseamento e as notas de Carolina Michaelis dos Autos de Gil Vicente e das Cantigas de Escárnio e Maldizer. Assemelhava-se ao pior e melhor da irrupção sarcástica e satírica de outro padre, José Agostinho de Macedo, miguelista ferrenho contra os liberais, autor dos Burros, da Besta Esfolada e da Tripa Virada.

Conheci, pessoalmente, em São Miguel, Diniz da Luz, cujo centenário do nascimento, decorrerá, a 8 de Setembro e voltará a ser homenageado. Pelo menos na sua terra e na sua ilha. Apresentou-nos Silva Júnior, no antigo Bureau de Turismo, um dos locais históricos de Ponta Delgada, onde chegavam jornais e revistas portugueses e estrangeiros, que nos traziam os sinais do mundo. Foi ainda num tempo em que tudo permanecia muito mais longe.

Radicava-me, pouco depois, em Lisboa (com a ilha dentro de mim) e víamo-nos, todos os dias e até várias vezes por dia. Na mesma rua, uma das fonteiras do Chiado e do Bairro Alto, berço e túmulo de tantos jornais. Ele trabalhava n’A Voz e eu no República. Todavia, as diferenças políticas e religiosas não representavam qualquer obstáculo a um convívio aberto e assíduo. Diniz da Luz entrara para A Voz, diário católico e monárquico, ainda dirigido por Fernando de Sousa o mais feroz e sistemático adversário da Maçonaria, e continuado por Pedro Correia Marques, também católico e monárquico, e ainda mais; apoiante do 28 de Maio, da ditadura militar de Gomes da Costa e da ditadura de Salazar. Requisitado à diocese de Angra, esteve no quadro d’A Voz de Janeiro de 1940 até fins de 1970. Não estava sujeito a trabalhos de agenda, nem lhe pediam textos de opinião política. Limitava-se à informação religiosa, mas com os condicionalismos de um jornal ligado ao que havia de mais conservador e comprometido com o salazarismo.

As posições frontais de Diniz da Luz causaram-lhe dissabores profissionais. Durante a Guerra apoiou a causa dos aliados. Terminada a guerra, o rei Jorge VI, da Inglaterra, atribuiu a Diniz da Luz uma condecoração. O rei Leopoldo II da Bélgica também o agraciou. Foi um ativo militante contra Hitler, o nazismo e o fascismo.

Logo que foi anunciado o Vaticano II, Diniz da Luz, embora se mantivesse como redator d’A Voz, passou a escrever artigos de opinião no Diário Popular, acerca das mudanças operadas pelo Concilio na estrutura tridentina da igreja. No seu jornal teriam de ser «amputados em questões fundamentais». «Bastam – disse-me várias vezes – as picardias habituais da Censura».

Encontrávamos-nos na Bertrand e, ao fim da tarde, na mesma leitaria. Recusava a Brasileira. Outras vezes, no Rossio, na Mónaco, à procura de jornais estrangeiros. Tínhamos amigos comuns. Dizíamos mal do Salazar e do salazarismo. Eramos controlados pela PIDE, na própria redação. Ele n’A Voz e eu, pouco depois, no Diário de Noticias e n’A Capital. (Fui notificado, com outros colegas, pela Comissão de Extinção da PIDE e interrogado pelo capitão António Pardal, por causa das denuncias de informadores que eram jornalistas, seguiam os nossos passos e escutavam as nossas conversas. Um dos denunciantes espiou Diniz da Luz, desde o primeiro até ao último dia em que trabalhou n’A Voz e exerceu altos cargos no Sindicato dos jornalistas).

Para todos nós, Diniz da Luz constituía uma das referências emblemáticas dos Açores, onde se destacava a figura tutelar de Vitorino Nemésio. Se bem me lembro – há mais de 50 anos – existiam outros açorianos em jornais e revistas: Rebelo de Bettencourt, amigo próximo de Fernando Pessoa, de Almada Negreiros e de Aquilino Ribeiro, na Gazeta dos Caminhos de Ferro, na revista Viagem e correspondente do Diário dos Açores; Jaime Brasil, a chefiar a redação do Primeiro de Janeiro em Lisboa, após a aposentação de Pinto Quartim (tive a honra de lhes suceder durante 12 anos). Num dos jornais mais antigos, o Portugal Madeira e Açores, trabalhava Breno de Vasconcelos, genealogista empenhado, que principiara no Correio dos Açores – suponho que depois de José Bruno – com Manuel Ferreira, Salomão Adrahy, Dias Júnior e Cícero de Medeiros.

Estavam ligados ao Diário da Manhã, A Voz, ao SNI e à agência ANI, Dutra Faria e Ramiro Valadão. Vinham do jornal e do partido de Rolão Preto. Foram sustentáculos indefetíveis do salazarismo e do marcelismo. Foram fundadores do Diário Popular, dirigido por António Tinoco, neto de Charles Lepierre e com raízes açorianas. No entanto, Tinoco e António Pedro derivaram para a oposição como, aliás, o próprio Rolão Preto.

O Século, entre os seus fundadores, na década de 80, do século XIX, além de Magalhães Lima e outros pilares do regime republicano, teve a participação de António Furtado, irmão do cientista Francisco Arruda Furtado, o único português que se relacionou com Darwin. Contou, muitos anos, com o profissionalismo de Raposo de Oliveira, que havia sido, na transição da monarquia para a Republica, um dos redatores parlamentares da época áurea d’A Lucta de Brito Camacho, historiada no mesmo livro por Ferreira de Mira e Aquilino Ribeiro.

Nos meus verdes anos de Lisboa, recordo-me n’O Seculo de Geraldo Soares, natural do Pico, colecionador de livros, apaixonado de Natália Correia, até ao delírio. Remédios de Bettencourt, chefiava a seção internacional. Agostinho Vieira de Areia Remédios de Bettencourt, de seu nome completo – como se escrevia em algumas necrologias de luxo – natural da Terceira, também era tradutor dos Livros do Brasil onde assinava Vieira d’Areia.

Entre todos, Diniz da Luz distinguia-se por várias singularidades. Era jornalista e padre, mais jornalista do que padre e, fundamentalmente, pelo seu açorianismo irredutível. Ele próprio se definia: «Em Lisboa sou dos Açores, nos Açores sou de S. Miguel; em São Miguel sou do Nordeste; no Nordeste sou do Nordestino. E no Nordestino sou do Burguete». Na reta final, ao sentir-se sem amigos mesmo à porta de casa, acrescentava: «no Burguete – ai de mim! – sou … de Lisboa que me não sai do pensamento, nem nos sonhos de cada noite. Em Lisboa vivi a minha vida, quase trinta e um anos, pelo que me apetece voltar ao princípio. No Burguete sou de Lisboa».

Observava ainda: «Podia escrever: Porque me orgulho de ser Açoriano. Porém, o que tenho passado por doença e sem família, fez estremecer essa ideia, embora as terras não tenham culpa dos males dos seus filhos. Mas tinha tempo para respirar e ver o Benfica. O cargo anedótico de Cônsul Geral dos Açores tirava-me o sono e o melhor das folgas de tempo útil. Orgulho-me – concluía – de uma coisa: nunca deixei de receber um açoriano ou o fiz esperar. Nunca fui dos açorianos encobertos em Lisboa».

Mas Diniz da Luz era também arisco e refratário às receções e conveniências mundanas. Habituara-se a uma modéstia excessiva. Morava no Rossio, num quarto alugado, de uma velha pensão, onde chovia de Inverno. Almoçava e jantava na cantina da Guarda Republicana, no quartel do Carmo. Tomava o pequeno-almoço no café Gelo quando ainda não estavam os surrealistas. Exatamente o contrario do Padre Moreira das Neves, chefe de redação do jornal as Novidades, órgão do episcopado, outro amigo excelente de muitos anos, de convívio também quase diário, ao almoço, no mesmo restaurante, próximo da redação do Novidades e do Hospital de Santa Marta. Homem de confiança absoluta do Patriarca e dos sucessivos Núncios Apostólicos, Moreira das Neves era autor de muitos textos que saíram com a assinatura do Cardeal Cerejeira. Precursor de Tolentino da Nóbrega, Moreira das Neves, celebrava batizados, casamentos funerais de pessoas importantes. Também era capelão do Visconde do Botelho.
 
 

Por seu turno, Diniz da Luz era capelão de António Medeiros de Almeida que residia muito perto da minha antiga casa, na rua Barata Salgueiro. De manhã, muitas vezes com o ar mais desconsolado do mundo, surpreendia o vulto esguio e trepidante de Diniz da Luz:

«Você não pode calcular» – gritava-me a esbracejar - «o que é dizer missa, todos os dias, com a capela vazia. Não dá tusa nenhuma. O motorista ajuda a missa. Peço-lhe para trazer ao menos a mulher. Responde-me. Só pode ser ao domingo…». «E não há vizinhos para virem à missa? Perguntei-lhe: «Ao domingo vão a outras missas. Até para casa do Visconde Botelho. Ficam deliciados com o Moreira das Neves» …

Foi numa destas manhãs de Lisboa, enquanto eu avançava para o Diário de Noticias, na esquina da rua Barata Salgueiro para o a Avenida da Liberdade (seria, anos depois, a sede do Banco Espírito Santo) que vi Diniz da Luz, depois de celebrar missa, eufórico com o volume da Antologia da Poesia Erótica e Satírica de Natália Correia, já apreendido pela Pide e pela Censura.

«Então que tal? Com um riso luciferino exclamou: – Está aqui tudo. Ofereceu-me com esta dedicatória que você não tem. Sou amigo e admirador da Natália desde que vim para Lisboa. Estou com a Antologia a atualizar o vocabulário para quando as coisas correrem mal ao Benfica…»

Riu. Riu muito. Rimos os dois. Muitíssimo.

Agora, lembro-me, de súbito, da última visita que lhe fiz em São Miguel. Mantinha a palavra rebelde e solta. Como sempre. Mas as frases, de vez em quando, não tinham sentido. Nenhum de nós se riu. Como era costume.

Estava outro. Irreconhecível. Quase um fantasma. Quase como as hortenses na antiga estrada para o Nordeste, na voragem galopante do Outono para o Inverno. Tristemente desbotadas, envelhecidas, exaustas da cor, da explosão de cor que derramaram. Esgotara-se a exuberância, a energia, o viço que Diniz da Luz exaltara na Ponta da Madrugada: «pingos de céu e mar que a terra/ troca em onda de azul que não se perde/nem ao bater de encontro às serranias».

Ao aproximar-se o centenário do nascimento, não consigo afastar a imagem de Diniz da Luz, tal qual o conheci, anos e anos seguidos, igual a si próprio como jornalista, como poeta, como amigo, 25 horas por dia açoriano, voz irreprimível de São Miguel, do Nordeste, do Nordestino e do Burguete, dividido entre a rotina e as solicitações de Lisboa e a presença dominadora do Pico da Vara e, sobretudo, do horizonte vivido e sentido no alto das rochas abertas para o mistério e fascínio do mar absoluto.

[NOTA: nasceu Diniz da Luz a 8 de Setembro de 1915 em S. Pedro Nordestino (S. Miguel), frequentou o seminário em Angra, foi ordenado sacerdote em 1938, trabalhou como prefeito num colégio de Ponta Delgada; foi jornalista, poeta, cronista, ensaísta … e morre a 20 de Dezembro de 1988]







Diniz da Luz, Retrato Incompleto de um Micaelense Completo – por António Valdemar [Jornalista, carteira profissional nº24], jornal Correio dos Açores, 19 de Agosto de 2015, p.16 – com sublinhados nossos.
 
J.M.M.