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quarta-feira, 12 de março de 2008

EPITÁFIO - POR MIGUEL DE UNAMUNO [PARTE III]


EPITÁFIO - por Miguel de Unamuno [Parte III]

"O povo português tem, como o galego, fama de ser um povo sofrido e resignado, que tudo suporta sem protestar, a não ser passivamente. E, no entanto, há que ter cuidado com povos como esses. A ira mais terrível é a dos mansos. Nem me espanta que no complexo sentimento produzido pela notícia do regicídio, na alma dos portugueses aqui imigrados, entre em não pequena medida algo de orgulho nacional. Condenavam a execução, mas pareciam dizer: «vejam do que ainda somos capazes». Um destes imigrados, ao ler nos jornais que um dos regicidas era espanhol, deixou escapar este desabafo: «não, não, eram todos portugueses, tenho a certeza». Sem qualquer cumplicidade no acto, ainda que remota, ao serem surpreendidos pela notícia, orgulhavam-se de que na sua pátria tivesse havido homens com a coragem suficiente para levar a cabo essa execução terrível, da maneira como o fizeram, cara a cara e expondo-se, e não como Morral atentou contra os nossos reis no dia em que se casaram, tomando precauções para poder escapar-se.

E então eu disse a Guerra Junqueiro da diferença grande que existe entre os anarquistas galegos e catalães. Havendo como há em La Coruña, relativamente, tantos ou mais anarquistas do que em Barcelona – eu creio que mais -, na capital galega não tem havido atentados à bomba, desses perpetrados por um homem isolado actuando sem risco para si, enquanto na capital catalã os tem havido com deplorável frequência; por outro lado os operários de La Coruña já andaram, em consequência de uma greve, a combater a tiro nas ruas e de peito descoberto, coisa que não sucedeu em Barcelona. E o sangue português é o mesmo que o galego.

Portanto, nem o Rei D. Carlos nem João Franco conheciam o seu povo. E aquele demonstrou cabalmente não o conhecer nas suas famosas declarações ao redactor de Le Temps, declarações que constituíam uma verdadeira provocação à mansidão de um povo. Este dormia e rei e ditador juntos despertaram-no. É muito doloroso mas o certo é que a consciência dos povos adormecidos só desperta com actos de violência. E é ainda mais doloroso porque no comum dos casos não chega um abanão apenas; o dormente volta a adormecer, embora de um sono mais ligeiro e necessita de nova excitação. Mas pondo de parte o caso concreto, há que reconhecer todo o trágico da escravidão de um monarca.

Um presidente do Conselho de Ministros, um presidente da República, é um homem que se dedicou à política, escolhendo com mais ou menos consciência e determinação essa profissão; é alguém que procurou o lugar, apresentando a sua candidatura ou deixando que outros a apresentassem. Um rei, não. Um rei é um escravo de nascimento que, como quase todos os nascidos em escravidão, não têm força de vontade nem lucidez para se libertar das cadeias com que nasceu. Não seria terrível obrigar os filhos mais velhos a seguir a profissão dos seus pais? Não consideraríamos que era uma tirania intolerável? Podia falar-se de abdicações. Mas é muito raro, raríssimo, que os que nasceram para reis sejam capazes de abdicar. Aqui, em Espanha, abdicou do trono D. Amadeu; mas este secundogénito da Casa de Sabóia não nasceu para rei de Espanha nem para tal foi criado. E por isso não estava imbuído dessa espécie de honor régia de que os pobres reis são vítimas, como quase todos somos vítimas da honra especial da nossa profissão ou da nossa classe.
Escrevi uma vez, ao falar do socialismo, que compreendo perfeitamente que uma pessoa se faça socialista tanto por amor aos ricos como por amor aos pobres, pois o que liberta a estes da sua pobreza libertará aqueles da sua riqueza. Assim, compreendo que nas convicções republicanas de alguém pese um pouco um certo sentimento de compaixão pelos desgraçados dos reis, levando em conta que aquilo que liberta os bons povos dos maus reis libertará os bons reis dos maus povos. E é tal a condição dos reis que ninguém considera os atentados de que são vítimas ao mesmo nível de qualquer outro atentado a um particular. «São ossos do ofício», contam que disse D. Afonso XIII a seguir a um dos atentados contra si dirigidos. Se bem que o regicídio seja considerado crime, há que reconhecer que a maior parte das vezes é um crime de direito público, não de direito privado.

E neste caso concreto do regicídio de D. Carlos não se deve perder de vista que foi levado a cabo num país como Portugal, onde a pena de morte foi abolida há já algum tempo e onde chegou a haver distúrbios públicos para impedir que se executasse um condenado a ela. É mais uma prova do que é a ira do manso. Nesse povo brando, pacífico, sofrido e resignado, mas por dentro cheio de paixão, os crimes de sangue são raros, muito raros, raríssimos; mas entre os que ocorrem muitos parece haver que são mais atrozes e violentos do que aqui, em Espanha, onde por desgraça tais crimes são mais frequentes, muito mais frequentes do que lá.

Não tenho dúvida de que este epitáfio parecerá a mais de um leitor um tanto implacável e nada piedoso. Acredito, não obstante, que a suprema piedade é a da verdade e procurei dizer aquilo que dentro de dois, quatro ou vinte anos diria sobre esta morte. Um rei é sempre um sujeito histórico; como tal o considerámos. E a dor que a sua morte causa, mesmo nos seus parentes, próximos e amigos - quando os tem verdadeiros -, é uma dor histórica ou, melhor dizendo, é uma dor litúrgica e oficial. O terrível Fado, ao colocá-los fora da condição geral doméstica dos demais homens, colocou-os fora dos comuns
sentimentos domésticos. E para concluir cabe dizer: descanse em paz o infortunado D. Carlos, mas descanse Portugal também em paz. Se é que a um povo, e a um povo
como o de Portugal, se pode desejar descanso.

Salamanca, Fevereiro de 1908
" [Miguel de Unamuno]

[pré-publicação de um texto de M. Unamuno, que faz parte da Antologia sobre esse importante pensador, intitulada "Portugal, Povo de Suicidas" e a sair brevemente sob edição da Livraria Letra Livre (com tradução de Rui Caeiro)]

J.M.M.

EPITÁFIO - POR MIGUEL DE UNAMUNO [PARTE II]


EPITÁFIO - por Miguel de Unamuno [Parte II]

"Mas de entre as muitas coisas, todas elas vergonhosíssimas, que ouvi acerca do infeliz monarca, a que porventura se me afigura mais grave, se bem que de um ponto de vista de moral corrente possa aos outros não o parecer, é que ele desprezava o seu povo. O pecado mais grave de D. Carlos, o seu pecado imperdoável, é que desprezava Portugal. Costumava dizer, falando da pátria onde reinava: Isto é uma piolheira. E assim como o Evangelho diz que pecados contra o Espírito Santo não têm remissão nem nesta vida nem na outra, assim é pecado irremissível o desprezo de um soberano pelo seu povo. A circunstância de não ser um homem privado de inteligência ou sequer vulgar, agrava a sua culpa a este respeito. O defunto D. Carlos não era um idiota nem se pode dizer que fosse uma inteligência inteiramente vulgar. O que ele foi sempre foi um egoísta astuto e um desenfreado gozador da vida. O seu corpo era reflexo da sua alma: nele o físico revelava o moral. Era do tipo de Falstaff.

E este desgraçado monarca fez uma espécie de pacto com João Franco, o ditador, a quem muitos agora culpam da morte daquele e do seu filho. Incluindo a própria rainha viúva. O pacto consistiu em que Franco daria ao rei aquilo de que este necessitava, ouro, justificando de uma ou de outra maneira os adiantamentos ou antecipações ilegais do Tesouro Público e aumentando-lhe a lista civil, e o rei daria a Franco o que a este apetecia com frenesi do monomaníaco: o poder.

Porque o apetite do poder que atingira Franco era uma verdadeira loucura. Recordando o que se conta do negociante Yanque ao dizer ao seu filho: my son, make money, honestly if you can, but make Money (meu filho, faz dinheiro, honradamente se puderes, mas faz dinheiro), - cabe dizer que o lema de Franco era: conserva o poder, honradamente se puderes, mas conserva-o.

Entre os portugueses que conheço, até os mais hostis ao ex-ditador reconhecem, quando falam serena e desapaixonadamente, que Franco tinha de princípio certas boas intenções e propunha-se, caso lhe fosse possível, introduzir ordem e rigor na desconcertada e corrompida administração pública portuguesa. Mas antes disso, e sobretudo, o seu propósito era exercer e deter o poder. Para lograr levar a cabo esses seus supostos bons propósitos havia um grande obstáculo, que era a própria causa do seu poder: ter transigido com as artimanhas do rei. É difícil cimentar uma administração honrada com um poder que deve a sua origem a uma violação da estrita honradez pública.

Franco cometeu imensos atropelos para reduzir o montante das dívidas do rei. E chamar-lhes dívidas é o menos que se pode dizer... No fundo, para o ditador tratava-se, mais do que ser honrado, de parecê-lo. A virtude era para ele uma arma. Ao serviço do seu frenético apetite de mandar tinha uma enorme dose de hipocrisia. Mentia com o coração na mão, segundo palavras de Guerra Junqueiro. Assim chegou a enganar muita gente acerca dos seus propósitos de regeneração económica. E contribuía para que nele acreditassem o facto de João Franco, sendo riquíssimo, dono de uma enorme fortuna pessoal, estar livre da suspeita de perseguir o lucro.

E ambos, o rei e o seu ministro, desconheciam o seu povo. O que nada tem de estranho, visto que o desconhecia - e continua talvez a desconhecer - a maior parte dos portugueses europeizantes ou europeizados e tão pouco o conhecemos muitos dos que, há algum tempo, atentamente o tomamos como objecto do nosso estudo
".

(continua)

[pré-publicação de um texto de M. Unamuno, que faz parte da Antologia sobre esse importante pensador, intitulada "Portugal, Povo de Suicidas" e a sair brevemente sob edição da Livraria Letra Livre (com tradução de Rui Caeiro)]

J.M.M.

EPITÁFIO - POR MIGUEL DE UNAMUNO [PARTE I]


EPITÁFIO - por Miguel de Unamuno [Parte I]

[pré-publicação de um texto de M. Unamuno, que faz parte da Antologia sobre esse importante pensador, intitulada "Portugal, Povo de Suicidas" e a sair brevemente sob edição da Livraria Letra Livre (com tradução de Rui Caeiro)]

"Há uns oito dias atrás falava eu nesta cidade de Salamanca com o grande poeta português Guerra Junqueiro, que andava evitando presenciar os acontecimentos que já então se previa haviam de ter lugar. E falando-me do Rei D. Carlos, após salientar uma vez mais o rebaixamento moral desse pobre monarca que teve um fim tão trágico, acrescentou: «Não sei como isto vai acabar; mas acreditando, como acredito, que em Portugal há uma família a mais e que o Rei é um monstro de perversão, se eu daqui pudesse matá-lo com o pensamento, fá-lo-ia.» Poucos dias depois, anteontem, domingo 2, quando Guerra Junqueiro estava ainda nesta cidade, chegou a notícias do assassínio do Rei D. Carlos e do príncipe herdeiro D. Luís Filipe.

Suponho que os meus leitores estão ao corrente dos acontecimentos. O rei, depois de abandonado por todos os políticos, que desconsiderara e ofendera, teve que colocar-se nas mãos de João Franco, que inaugurou uma era de ditadura e favoreceu as manobras reais, preparando a justificação dos adiantamentos que o monarca tinha conseguido do Tesouro Público. Dizia-se e repetia-se que toda a agitação em Portugal era uma tempestade num copo de água, obra unicamente dos políticos. Eu mesmo cheguei a acreditar nisso. No entretanto, o partido republicano crescia e ia engrossando com homens prestigiosos que para ele mudavam, vindos das fileiras monárquicas. Preparava uma sublevação popular para fins de Janeiro; foi denunciada a conspiração e os implicados foram presos e tiveram de fugir. E quando menos se esperava chega a notícia do assassínio do rei e do príncipe em Lisboa.

Disse-se que moralmente foi João Franco, o ditador, quem o matou. Eu creio ser mais exacto o que dizia Guerra Junqueiro: foi mesmo um suicídio.

O Rei D. Carlos - que Deus lhe perdoe - não precisava de João Franco para atrair a si o ódio do seu povo. Era quase unanimemente execrado. Tinha conseguido unir os seus súbditos num sentimento comum a seu respeito; um sentimento de ódio misturado com desprezo. Está correcto que de todos os lados a imprensa tenha condenado o assassínio; assim o pede a moral que professamos com maior ou menor sinceridade; mas como penso que acima de todos os amores se deve colocar o amor à verdade, tenho que dizer que os tiros sobre o rei partiram das próprias entranhas do povo português. E se a execução do Rei D. Carlos é execrável, é-o como o é a execução de qualquer réu. D. Carlos estava julgado e condenado pelo seu povo.

Estive por diversas vezes em Portugal. Convivi com muitos portugueses e a nenhum ouvi alguma vez defender o defunto rei. Não tinha, em rigor, um único partidário. Contavam-se a seu respeito coisas execráveis e horrendas. Ouvi a pessoas que com ele trataram, até a um que foi seu ministro, coisas realmente incontáveis em público


Oliveira Martins, esse enorme talento - acaso o mais robusto que Portugal teve no século passado -, deixou o Ministério dizendo que o rei era um monstro de perversidade. Há que ouvir contar as circunstâncias que precederam o suicídio de Mouzinho de Albuquerque, o herói de África, que ao regressar do seu governo colonial, rodeado de imenso prestígio, foi nomeado preceptor dos filhos do rei e acabou por suicidar-se.

Talvez a história algum dia venha a guardar alguma coisa de tudo isto - muito já a piedade ou o servilismo mergulhou no esquecimento - e a julgar o desgraçado D. Carlos
".

(continua)

[Miguel de Unamuno, in "Portugal, Povo de Suicidas" (a sair em breve), Ed. Letra-Livre, 2008]

J.M.M.

REI D. CARLOS


Rei D. Carlos

"The King of Portugal Assassinated, 1 Feb. 1908"

J.M.M.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

ORAÇÃO FÚNEBRE ... NAS EXÉQUIAS DE EL-REI D. CARLOS I


Oração Fúnebre 

"... Meus senhores:

Não ha arvore sem raizes e não ha rio sem affluentes. Assim o progresso d'um povo, assim a sua decadencia. Nem uma civilisação surge de repente, de
organismo já feito, no meio d'uma nacionalidade, nem a decadencia d'um povo apparece tambem de improviso, promovida rapidamente pelos homens d'uma epoca. Depende de muitos factores, de circumstancias diversas que successivamente se vão accumulando pelo tempo adiante. O mal da patria portugueza vem de longe, e difficilmente pôde determinar-se-Ihe a sua verdadeira origem. O que é certo é que o senhor D. Cados, ao ser investido na suprema magistratura, recebeu com a corôa a triste herança d'uma nação já decahida, illaqueada por enormes encargos, sem administrações vigilantes e quasi desprovida de homens de estado.


Logo, pois, no inicio do seu reinado veio denunciar-se o estado decadente da patria. O ultimatum da Inglaterra, a revolta de 31 de janeiro, a crise financeira, o enorme augmento de impostos que d'ella derivou, são paginas funebres, escriptas umas com sangue, outras com lagrimas, mas todas ellas sem culpa do Rei. Todos estes factos constituem o primeiro período d'este reinado, periodo triste, verdadeiramente lugubre, recingido de bulcões aterradores, prenúncios de tempestades maiores. Dir-se-ia que nos horisontes da patria se apagára para sempre o sol da felicidade (...)

A escola politica d'onde provinha el-rei o senhor D. Carlos I estava radicada de mais no doutrinarismo exaggerado da acção ministerial. E assim o senhor D. Carlos entregára, quasi em absoluto, a governação publica á politica. A politica, porém, senhoreando-se dos destinos da nação não logrou cobrir-se de gloria. Teve lampejos de prosperidade, alguns reflexos de grandeza, não digo que não, mas sem luz bastante para formar uma aureola. D'ahi o accentuar-se cada vez mais a decadencia da patria, e com essa decadencia o descredito da politica, que fatalmente ia incidir na pessoa do Rei. D'esse descredito nasceu uma reacção – a interferencia directa do Rei nos negocios do estado. Pennas brilhantes, e de innegavel valor e auctoridade, advogavam calorosamente essa interferencia, traçando o doloroso quadro da politica portugueza. O Rei hesitou durante longo tempo: medindo o alcance da tentativa e a magnitude das responsabilidades, mal podia decidir-se a tomar por esse caminho. Mas um dia, como que acordando, volveu um olhar retrospectivo e meditativo para as decadencias da patria e julgou emfim dever intervir, chamando um homem que se identificasse comsigo e com o seu plano. Era um plano muito arriscado, ainda assim... (não digo que não) talvez de exito salvador. Mas um tal plano, uma evolução governativa d'esta natureza, reclamava um estadista de grande valor, um estadista completo:- de cabeça bem organisada e sciencia bem fundada; de orientação clara, sem contradições, sem desequilibrios, sem os zig-zags da incerteza; homem sem preoccupação de partidarismos, - porque, meus senhores, o estadista que em horas afflictivas e angustiosas para a patria, tiver tal preoccupação, esse estadista é um elemento nocivo ao seu paiz (...)"

[A. Ayres Pacheco. Cónego da Sé de Lisboa, in No Templo dos Jeronymos. Oração Fúnebre pronnunciada nas exéquias de El-Rei D. Carlos I e do Príncipe Real D. Luiz Filippe mandadas celebrar pelo governo no dia 25 de Abril de 1908, Lisboa, Impr. Typ. Castro Irmão, 1908]

J.M.M.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

O MARQUEZ DA BACALHOA - ROMANCE DE ANTÓNIO ALBUQUERQUE (II)


O Marquez da Bacalhoa - romance de António de Albuquerque (II)

Gomes Leal fez a devida recensão do livro "O Marquez da Bacalhoa" nos seus opúsculos "Verdades Cruas" [nº15-16], o que suscitou a seguinte carta de António de Albuquerque:

"Meu caro Mestre - Corri ontem Lisboa à sua procura, pois desejava absolutamente agradecer-lhe o seu favor (...)

Resolvo pois escrever-lhe daqui, esperando ter amanhã o prazer de lhe apertar a mão, às duas horas, no seu escritório. Se alguma vez me senti vaidoso, confesso-lhe tê-lo sido, ao acabar a leitura do seu magnífico número das Verdades Cruas em que o Gomes Leal se ocupa exclusivamente da minha defesa com tanto brilho, valor e amizade. Se acaso lhe mereço tal deferência, será certamente pela sincera admiração que sempre senti por si. É V. como todos os grandes espíritos um látego cortante ferindo profundamente a canalha a quem não teme e despreza.

Tem razão em me chamar um revoltado e dizer que o meu romance O Marquês da Bacalhoa é um livro sincero e audaz. Eu sou efectivamente um revoltado, mas creia que o não sou por ódio, mas simplesmente pelo dó que desde criança me inspiraram sempre os oprimidos, os fracos e os ignorantes. Nem doutra forma se poderia explicar a transformação radical dum aristocrata, nascido e criado entre preconceitos religiosos e de raça. Da minha origem resta-me todavia uma consolação, se acaso evoco a memória dos meus ilustres avoengos, e quem sabe mesmo se uma explicação lógica da minha transformação. É que se êles cometeram crimes e crueldades, nenhum-posso-lhe afirmar-foi lacaio de rei ou cobarde. Dos ditos crimes absolve-os certamente a época em que viveram, e as erradas ideas do seu tempo. A exemplo dêles tambêm eu quis sacudir todos os jugos, e por isso me revoltei contra a injustiça social, passando de fidalgo ao mais convicto dos anarquistas, graças talvez à audácia e independência de caracter que dêles herdei-qualidade que para mim os absolve das suas criminosas façanhas guerreiras.

Algumas críticas lisonjeiras se fizeram ao meu livro em França, Espanha, Bélgica, algumas até firmadas por nomes ilustres, creia porêm, caro Mestre, que nenhuma me calou tam doce e carinhosamente no coração, como a do maior poeta português, Gomes Leal. Quem me diria, há tantos anos, ao ler a Traição que o autor dela se ocuparia um dia da minha insignificante pessoa! Envaideceu-me-é certo-a sua crítica, mas um outro sentimento mais íntimo ela me despertou:-uma espécie de infinito enternecimento ao contacto da sua carícia fraternal, carícia dum poderoso a um exilado mal compreendido, bálsamo sereno curando um coração em chaga. O seu elogio era escrito em português, mas apesar do meu incurável internacionalismo, a nossa língua é sempre para mim a mais bela e harmoniosa.

Tendo sido em português que me vibraram os mais rudes e injustos golpes, os quais vibrados é certo por gentes insignificantes me magoaram todavia profundamente pela inveja que os inspirava, calcule o quam grato me foi o ver-me por si desafrontado.
O Gomes Leal vingou-me plena e cruelmente, e fique certo do meu eterno reconhecimento. Sei odiar e sei igualmente estimar.

Breve espero poder enviar-lhe o meu novo livro a Execução do Rei Carlos e oxalá êle lhe leve distracção e lhe mereça aplauso. Firo nele muita gente - é verdade - mas convencido de minha justiça e da obrigação cumprida. Dir-lhe-ei, para terminar, o quanto lastimo não haver em Portugal homens possuidores do seu talento, da sua audácia, e convicção libertária. Mas valerá a pena por acaso lutarmos ainda por esta gente?

Aperto-lhe cordealmente a mão, dizendo-lhe: até amanhã.

Sintra, sexta 18 de Junho de 1909, Laurence's Hotel. - Amigo gratíssimo, António de Albuquerque
" [in Dicionário Bibliográfico Português de Inocêncio F. da Silva]

J.M.M.

O MARQUEZ DA BACALHOA - ROMANCE DE ANTÓNIO ALBUQUERQUE (I)



António de Albuquerque [aliás Alardo de Amaral Cardoso e Barba de Meneses e Lencastre, n. Viseu, 1866 - m. Sintra, 1923 – ler mais aqui] publica em 1908 o romance "O Marquez da Bacalhoa" [Bruxelles, Imp. Liberté] que causou enorme sucesso e não menos escândalo. A história pretende contar a vida de um ministro em plena governação do dito "Marquez da Bacalhoa", onde as personagens, sob o manto de varias escândalos e outra ignomínias, escondem putativas personagens reais, como o Rei D. Carlos, D. Amélia, João Franco, a Condessa de Sabugosa, a Condessa de Freixosa, Mouzinho de Albuquerque, etc. [Vasco Pulido Valente, in O Independente, Janeiro de 1998]

Antes mesmo da sua venda [acabou de ser escrito a 6 de Setembro de 1907] já era fortemente procurado nas livrarias. Alguns livreiros, preocupados com seu teor, dado a lei de 13 de Fevereiro de 1896, não aceitavam a sua venda ou faziam-na com muita prudência. Inocêncio Francisco da Silva [in Dicionário Bibliográfico Português] diz-nos que, mesmo assim, o "gerente da livraria Tavares Cardoso, – 5, Largo do Camões, – expunha-o na montra", pelo que no dia seguinte "o agente da polícia Tomé de S. Marcos (...) apreendeu um exemplar do livro, voltando no seguinte a convidar o dito gerente a comparecer perante o chefe Ferreira". De igual modo foram convocados à polícia os "Srs. Joaquim Monteiro, gerente da Parceria António Maria Pereira, José Pereira, sócio do livreiro José António Rodrigues, e Francisco José Gomes de Carvalho, a quem muitos supunham o editor, ou, pelo menos, que havia cedido a casa para a composição do Marquez da Bacalhoa". Ao que nos diz I.F.S., tal "não obstou à continuação da [sua] venda clandestina", o que nalguns casos atingiu preços exorbitantes [o preço de base era de 800 réis, o que já era dispendioso]. Rocha Martins [in D. Carlos] afirma que o romance foi editado [apesar da edição ter o nome do próprio escritor] pelo maçon Gomes de Carvalho [ler mais, aqui].

[continua]

J.M.M.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

D. CARLOS REPORTAGEM DRAMÁTICA - POR AMADEU DE FREITAS FILHO


D. Carlos. Reportagem Dramática

"D. Carlos
... Tu és um bom amigo, como o Hintze.

J. MARIANO (sem se poder conter)
O Hintze!....

D. Carlos
Sim, o Hintze ... Vocês são os dois pilares do trono neste momento ... Conta com eles a monarquia, conto eu ... e conta o país.

J. MARIANO
É impossível!... Os dois partidos não se entendem. Não pode haver comunhão de ideias ... Ou governa um ou governa outro ...

D. CARLOS
Sacrifiquem essas paixões insensatas!

J. MARIANO
Eis um sacrifício impossível!

D. CARLOS
Impossível? É impossível qualquer sacrifício para o bem do país? Mas é impossível porquê, ó José Mariano? Tu não vês, não compreendes que esse sacrifício que dizes impossível é absolutamente necessário? Os políticos ainda não compreenderam isto? Tu já reparaste bem para o espectáculo que o país inteiro nos oferece, semelhante a um vulcão em véspera de terrível e inevitável erupção? (Amoso entra e assiste, de longe, ao fim do diálogo) Já auscultaste o povo, já o ouviste, já percebeste que toda a gente fala mal de mim e de vocês, que toda a gente, como tu disseste há pouco, tem a necessidade de odiar, porque as paixões, as intrigas e as invejas originaram esse ódio tôrvo e injusto que reclama sangue? Porque não se entendem vocês de uma vez para sempre, a bem da Pátria e do Rei – por amor à pátria, mais que por amizade a mim, José Mariano! - e se não unem à volta da nossa bandeira? Porque não esquecem pequenos agravos, fugidias ofensas de discursos parlamentares e não mostram o vosso patriotismo salvando o país? Que querem mais? Querem continuar a insultar-se no Parlamento, a dizer ao povo que há dois homens em Portugal com o monopólio do poder e que existe um Rei que não passa de um palhaço com que vocês brincam? Não! Acabou-se, José Mariano! Quero vida nova porque o povo reclama a vida nova e eu não posso assistir de braços cruzados ao desenvolver da raiva e ao alastrar da revolta! Não respondes? Não dizes nada? Então que patriotismo é esse, que amor ao rei é esse, ó José Mariano? Porque não acabam com essas cenas vergonhosas no Parlamento? Porque não se entendem e, tu, José Mariano, não ordenaste aos teus correligionários que não prosseguissem na oposição ao Hintze? Vocês não puderam governar – deixem governar os outros! O povo, lá fora, ruge contra mim apresentando-me como o maior culpado. Mas não pensem que só eu sou alvejado com o ódio da rua! Hei-de demonstrar que não sou merecedor dêsse ódio. Hei-de provar a toda a gente, ao país inteiro, que quero salvar a Pátria! (levanta-se. Alto, um pouco entusiasmado) Tenho sido um Rei que reina e não governa e, apesar disso, acusam-me de ser absolutista, de não respeitar a vontade do povo! Pois hei-de provar que não mereço o ódio popular!(breve silêncio). Não tens nada a dizer-me? Compreendes, agora, o meu desgosto?"

[D. Carlos. Reportagem Dramática por Amadeu de Freitas Filho, Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1934. Capa do livro por Ferreira de Albuquerque]

J.M.M.

CARICATURA DO REI D. CARLOS I - POR ALFREDO CÂNDIDO


Rei D. Carlos I

Caricatura do Rei D. Carlos I [1906], por Alfredo Cândido [1879-1960]. Impressão postal d'A Editora.

[retirado do Blog da Rua Nove, com a devida vénia]

J.M.M.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

A MORTE DO REI CARLOS


A Morte do Rei Carlos [O Mundo, 24-02-1910]

Capa do jornal O Mundo de 24 de Fevereiro de 1910:

«A Morte do Rei Carlos. Factos e documentos comunicados aos homens de bem de todos os países

Ai d’aqueles que só pela violencia e pelo terror se podem manter’ (Carta do Rei Carlos a Hintze Ribeiro em 16 de Maio de 1904»

J.M.M.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

FAMÍLIA REAL DE PORTUGAL EM 1899


Família Real de Portugal em 1899

D. Carlos [n. em Lisboa a 28 de Setembro de 1863, filho de do rei D. Luís I e da rainha D. Maria Pia de Sabóia, neto paterno de D. Fernando de SaxeCoburgo-Gotha e da rainha D. Maria II e neto, pelo lado materno, do rei de Itália Vítor Manuel. Sobe ao trono a 19 de Outubro de 1889. Tolerante, amante dos “prazeres da vida”, de forte “individualidade artística”, cultiva D. Carlos as belas-artes e dedica-se aos estudos oceanográficos, outra das suas (muitas) paixões. Os gravíssimos acontecimentos durante o seu reinado – o Ultimatum, a revolta militar do 31 de Janeiro de 1891 e, de modo geral, a ditadura imposta pelo seu Presidente do Conselho, João Franco – condicionaram a sua regência, que acaba abruptamente no atentado, que lhe pôs termo à vida, do dia 1 de Fevereiro de 1908]

Rainha D. Amélia [n. a 28 de Setembro de 1865 (curiosamente no exílio), filha de Luís Filipe de Orleães e de Maria Isabel de Orleães-Montpensier, e bisneta de Luís Filipe, último rei de França. Casa em 22 de Maio de 1886 com o (então) príncipe D. Carlos. Como rainha, registe-se que fundou o Instituto de Socorros a Náufragos (1892), o Museu Nacional dos Coches e a Assistência Nacional aos Tuberculosos. Depois do regicídio “retira-se para o palácio da Pena” (Sintra), indo para o exílio (primeiro em Londres e, em seguida, para Versalhes, Paris) após os acontecimentos de 5 de Outubro de 1910, que instituiu a República. Morre em Outubro de 1951]

Rainha D. Maria Pia [n. a 16 de Outubro de 1847, filha do rei Vítor Emanuel II da Sardanha e Piemonte e da arquiduquesa de Áustria Adelaide de Habsburgo. Pertencia à casa real italiana de Sabóia, tendo casado com o rei D. Luís no dia 6 de Outubro de 1862, tornando-se rainha de Portugal. Era mãe de D. Carlos e do Infante D. Afonso Henriques, Duque do Porto. Residia oficialmente no Palácio da Ajuda e, como consequência do regicídio, fica muito abalada mentalmente, retirando-se da vida pública. Parte para o exílio para Piemonte, depois da instauração da República. Morre em 1911]

Infante D. Afonso [n. a 31 de Julho de 1865 e era filho de D. Luís e de D. Maria Pia, irmão de D. Carlos I. Popular, era conhecido pela curiosa alcunha do “Arreda”, dada pela sua extravagante condução automóvel, de que foi dos primeiros entusiastas em Portugal. Foi herdeiro “presuntivo” da coroa portuguesa, durante o reinado do seu sobrinho D. Manuel. Parte para o exílio, após o 5 de Outubro de 1910, fixando-se em Itália, onde morre a 21 de Fevereiro de 1920]

Infante D. Luiz Filipe [n. a 21 de Março de 1887, filho de D. Carlos e D. Amélia. Foi príncipe da Beira, depois Duque de Bragança, sendo o herdeiro da coroa portuguesa. Teve como preceptor Mouzinho de Albuquerque que o iniciou na vida militar. Morre no atentado de 1 de Fevereiro de 1908, tendo ainda (diz-se) ripostado contra um dos regicidas (Alfredo Costa)]

Infante D. Manuel [n. a 15 de Novembro de 1889, filho de D. Carlos e D. Amélia, irmão do príncipe D. Luiz Filipe. Sucede a seu pai, morto no atentado de 1908, como D. Manuel II. Parte para Inglaterra na sequência da revolta de 5 de Outubro de 1910. Foi uma figura notável, pelo seu amor a Portugal, pela sua excelente cultura história e literária e a sua grande afeição aos livros, não sendo estranho o legado dos seus trabalhos bibliográficos (pioneiros) sobre a história do livro em Portugal, do qual deixou obra estimada. Morre a 2 de Julho de 1932, estando os seus restos mortais sepultados no mosteiro de São Vicente de Fora em Lisboa]

J.M.M.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

A DERROCADA DE UM TRONO (III)


A Derrocada de um Trono (III)

"(...) O decreto que aparecia no final d'esse mez dava razão ao articulista, justificando, até certo ponto, todos os terrores do público. O arbítrio ficava definitivamente estabelecido por esse estupendo documento.

O rei estava nas suas propriedades de Villa Viçosa, caçando, mas, como o assunto era urgente e se tratava de satisfazer a pressa vingativa do governo, o Ministro da Justiça foi em busca do monarca, e, no dia 31 de Janeiro, publicava-se em Lisboa o extraordinário diploma de que só transcrevemos o primeiro artigo, pois ele basta para se ver quanto havia de ignominioso em tal documento.

«Art. 1.° - Os indivíduos pronunciados por alguns dos crimes compreendidos no art. 1.° do decreto de 21 de Novembro de 1907, poderão, quando os interesses superiores do Estado assim o aconselharem, e por virtude de deliberação do governo, tomada em conselho de ministros, ser expulsos do reino ou transportados para as possessões ultramarinas, nos termos do art. 10º, da lei de 11 de Abril de 1892»

Estas deportações ou expulsões, como adiante se dizia, não dependiam de processo judicial, eram um mero acto do poder executivo. Perante um tal decreto que, para ser extensivo aos indivíduos presos, até era de efeito retroactivo, todas as garantias desapareciam. O poder absoluto ficava estabelecido na sua forma mais celerada e odiosa. Era uma loucura!

(...) D. Carlos, bem como toda a família real, estavam (...) em Vila Viçosa, onde o ministro da justiça tinha levado a assinar o celebrado decreto de 31 de Janeiro. Mas no dia 1 de Fevereiro seguinte voltaram para Lisboa, onde chegaram um pouco depois das cinco horas da tarde.

Na estação do Terreiro do Paço demoraram-se uns instantes, recebendo os cumprimentos dos ministros e d'alguns altos personagens, metendo-se a seguir em dois landeaus. Num ia o rei a rainha e os seus dois filhos, noutro, à retaguarda, iam os dignatarios do paço. O infante D. Afonso seguia no seu automóvel.
Quando o carro em que ia o rei dava volta para a rua do Arsenal, um individuo que estivera até então encostado a uma das pilastras da arcada, avançou uns passos, tirou de sob o gabão, em que estava embuçado, uma carabina, e fez fogo contra D. Carlos, parecendo que o feriu mortalmente. Outro individuo, pondo o pé no eixo da mesma carruagem, e segurando-se capota, despejou algumas balas de pistola contra os régios personagens (...)"

in Cronica do Reinado de D. Carlos. A Derrocada de um Trono, de César da Silva, Lisboa, Romano Torres, 1922

J.M.M.

A DERROCADA DE UM TRONO (II)


A Derrocada de um Trono (II)

" ... No dia 29 foi preso, em sua casa, o dissidente sr. João Pinto dos Santos. O chefe desse grupo, dr. José d'Alpoim, mais o Visconde de Pedralva, que sabiam ter também ordem de prisão, fugiram para Espanha.
Com o último se deu um episodio engraçado em Ensinasola, terra castelhana onde ele se fôra acolher. Julgando-o um anarquista perigoso, as autoridades de terra usaram para com o fugitivo d'um extremo de rigor, mas depois, quando souberam quem era e porque motivos ali estava, encheram-no de favores e de distinções.

As medidas de rigor da ditadura começaram pela suspensão de jornais.

No dia 31 foram suspensos o Popular, o Correio da Noite, o Dia, o Liberal e o Paiz. A Vanguarda e o Mundo já estavam suspensos. Ficavam pois unicamente em publicação o Diário de Noticias, o Século e os dois jornais franquistas.

Era de péssimo agoiro esta prepotência. O que iria mais suceder? Os liberais apavoravam-se. Mas um despacho publicado no Matin, de Paris, chegado nesse dia a Lisboa, era um tanto tranquilizador. Simulava uma conferência havida entre João Franco e o correspondente dessa importante folha parisiense, e, como para desfazer os temores do público, a respeito das ideias do ditador em tão tremenda conjuntura, o jornalista punha-lhe na boca estas palavras:

«Pode anunciar aos leitores do seu jornal que não existe nenhum fundamento para as notícias alarmantes que se teem espalhado a respeito de Portugal. Descobrimos, é certo, provas flagrantes de que se planeava uma alteração da ordem pública, porem, logo que o governo adquiriu as suficientes indicações sobre o caso, tomou as medidas necessárias para reduzir a nada essa tentativa
«foram presos os principais organizadores da agitação, e outros virão talvez ainda a ser capturados. Os tribunais os julgarão e é de supor que sejam simplesmente postos fóra da fronteira, tal como se fez no seu paiz a Deroulède e aos seus amigos. Restabelecido o sossego poderão, voltar, mas é indispensável que a tranquilidade reine no paiz
»

(...) Um jornal de Algés, a Praia, publicava, por esses dias, a seguinte apreciação d'essa singularíssima gente:

«O franquismo é principalmente típico. Não representa apenas uma perversão politica, com a evidência de todas as suas opressões, e a ameaça iminente de todos os seus crimes; é acima de tudo uma degenerescência moral, clara e decididamente manifesta, tanto na sua forma íntima, como na sua estrutura externa.
Para quem pense e veja, faça raciocínios e tire conclusões, o franquismo é uma coisa tenebrosa, horripilante. Não é apenas a ambição desenfreada d'um megalómano, posta ao serviço d'uma causa péssima, e fundamente detestada. É coisa muito pior: é o reinado d'uma epilepsia temível, mas desgraçadamente bastante espalhada entre nós, vinda, radicalmente, dos caceteiros de D. Miguel, continuada em sucessivas reviviscencias de reaccionarismo estulto, e evidenciada, em toda a sua pujança, n'este momento, pelo escabujar macabro de doidos furiosos que, nos impetos d'uma insensatez furibunda, estão almejando pelas forcas, pelos fuzilamentos, pelas vindictas mais barbaras, para assim darem satisfação aos seus doentios sentimentos.
«O que se está passando não é uma revolução política, é um desequilíbrio mental. A perversão espiritual d'alguns, venceu a circunspecção da maioria; o arbítrio d'uma tara de intelectos doentios, impoz-se à sanidade cerebral do maior número, e assim vamos n'um revolutear louco. Deus sabe até onde!
"

[continua]

in Cronica do Reinado de D. Carlos. A Derrocada de um Trono, de César da Silva, Lisboa, Romano Torres, 1922

J.M.M.

A DERROCADA DE UM TRONO (I)


A Derrocada de um Trono (I)

" ... Entrou enfim o ano de 1908, que se iniciou (...) pela destituição das vereações municipais. Pelo que, anteriormente ficou indicado é fácil de supor o estado de tensão em que os espíritos se encontravam. A revolta estava latente e tudo fazia prever um grave acontecimento.
Em começos de Janeiro o dr. Júlio de Vilhena dizia no seu Popular: - «O final de tudo isto ha de ser uma revolução ou um crime!
Nos jornais progressistas e designadamente no Correio da Manhã, a oposição à ditadura era áspera e ameaçadora. O Dia, órgão dos dissidentes, não era menos enérgico. Mas a espada de Democles da lei de 20 de Junho, do ano anterior, lá estava sempre alçada como perpetua ameaça aos jornais que discordassem do que se estava passando.
Os periódicos republicanos eram os mais moderados, visto que sobre eles se exercia mais opressora vigilância, mas, usando de subterfúgios vários, iam sempre mantendo o espírito público em profunda rebelião.

No dia 12 deste mês deu-se um episódio que ridicularizou bastante a ditadura. Aquele estudante Aquilino Ribeiro, que fôra preso por ser apanhado na casa da rua do Carreão, onde rebentara uma bomba de dinamite conseguiu fugir da esquadra do Caminho Novo, em que o tinham muito bem guardado.
Foi motivo de grande satisfação para todos os liberais.
Apesar desse percalço a policia não dormia. Por intermédio dos seus espiões, que era uma nuvem, descobrira o plano da premeditada revolução, e no dia 21 foram presas os srs. João Chagas, Alfredo Leal, Vitor de Souza e outros, e no dia seguinte o mesmo sucedeu ao sr. dr. António José d'Almeida, que era então o secretário do Directório do partido republicano.

Como os jornais franquistas afirmassem que se tinha descoberto um complot contra a vida de João Franco, o Directório do partido republicano fez espalhar por Lisboa, no dia 26, um curto manifesto em que dizia, principalmente, que: - «o diretorio republicano julga necessario, neste momento de tanta sobreexcitação, declarar bem alto, em contraposição aos ditadores, que o que ele, com o seu partido, quer, é suprimir opressões e não os homens do regime».

Apesar de se sentirem descobertos os organizadores da projectada revolução insistiam em sair com ela, designando para esse fim a noite de 28 para 29, mas, um pouco antes da hora marcada, a polícia assaltou o elevador da Biblioteca, que era d'onde devia partir o sinal, e prendeu aí os dissidentes visconde de Ribeira Brava e dr. Egas Moniz e os republicanos dr. Afonso Costa e tenente Álvaro Pope.

Em diversos pontos da cidade foram também presos alguns populares, encontrados em grupo, e no Rato travou-se renhido tiroteio entre homens do povo e polícias, resultando ficarem seis destes feridos e um morto.
Já a ditadura tinha nas mãos a prova de que se tentara realizar uma rebelião armada, e ia portanto tirar a represália.
E como seria ela? Temia-se que fosse terrível, por isso todos ficaram em dolorosa expectativa.

[continua]

in Cronica do Reinado de D. Carlos. A Derrocada de um Trono, de César da Silva, Lisboa, Romano Torres, 1922

J.M.M.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

CARTA D'EL REI D. CARLOS I


Carta D'El Rei D. Carlos I

"9-5-907

Meu querido João

Depois da nossa conversa tive varias outras noticias de differentes origens que todas confirmam a maneira de vêr e de proceder em que hontem ficamos de accordo. Vamos por certo ter uma campanha sobretudo contra nós dois, mas para isso é que cá estamos. Campanha baseada na minha carta ao Hintze, e nas tuas antecedentes affirmações.
Mas a minha carta ao Hintze não condemna em absoluto as dictaduras. Dizia que n'aquelle momento as não achava convenientes, o que não queria dizer que n'outros, e este é um d'elles, eu não as acceite e, o que é mais, até as ache convenientes e necessarias. E ainda que eu tivesse declarado absolutamente o contrario, diria que não é homem de Estado, nem sabe servir o seu Paiz aquelle que julgando ter affirmado um erro, se não penitenceie d'elle e não esteja prompto, reconhecendo-o, a seguir caminho diverso que julgue mais opportuno e conveniente.
Quanto ás tuas affirmacões … provaste á saciedade que as quizeste seguir; deste uma sessão parlamentar, nunca vista, mas chegaste ao fim, como chegaram todos aquelles que estão de sangue frio e não levados por mesquinhas considerações pessoaes ou partidarias, convencido que não era d'alli que poderia vir o restabelecimento da disciplina social, nem o renascimento do nosso Paiz. N'este sentimento acompanha-te, acompanha-nos, por certo grande parte do Paiz; deixemos, pois, fallar quem falla e continuemos serenamente, com calma, mas com firmeza a nossa obra. N'este caminho encontrarás tu e os teus collegas todo o meu appoio o mais rasgado e o mais franco, porque considero que só assim, dadas as circumstancias em que nos encontramos, poderemos fazer alguma cousa boa e util para o nosso Paiz. Desculpa esta massada, mas tive receio que da nossa conversa d'hontem te tivesse ficado alguma duvida sobre a minha maneira de pensar.
Sempre teu amigo obrigado

Carlos R.
"

[in, Cartas D'El Rei D. Carlos I a João Franco Castello-Branco seu ultimo Presidente do Conselho, Livrarias Aillaud e Bertrand, 1924, 5ª ed., p.119-120]

J.M.M.

domingo, 27 de janeiro de 2008

D. CARLOS


D. Carlos

" ... D. Carlos compreendia muito bem que o ‘rotativismo’ liberal estava esgotado, ou, pelo menos, que não resistiria à violência popular em Lisboa. Existiam duas soluções: reprimir pela força a agitação urbana (como a seguir se fez na ditadura) ou integrar o radicalismo no regime através de um novo arranjo partidário e de eleições, por assim dizer, ‘honestas’. Apoiando João Franco, o Rei tentou a ‘segunda via'. Sucede que a 'segunda via', com 62 por cento da população na agricultura e 75 por cento de analfabetos, para não falar da quase completa ausência de uma indústria fabril, era inteiramente ilusória. Tarde ou cedo acabava mal. Acabou cedo. Os políticos da monarquia e o Partido Republicano viram com alívio a morte do rei, que imediatamente os salvava. Mas D. Carlos tornara impraticável um regresso pacífico ao ‘rotativismo’ e, depois de uns meses de absoluta desordem, veio a revolução ..."

[Vasco Pulido Valente, in D. Carlos, jornal Público, 26/02/2008]

J.M.M.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

D. CARLOS - VISITA RÉGIA A ANGRA DE HEROÍSMO


D. Carlos - visita régia a Angra do Heroísmo

1902 - Postal ilustrado da visita Régia a Angra do Heroísmo.

J.M.M.