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sábado, 21 de outubro de 2023

CONDEIXENSES PRESOS PELA PIDE: EXPOSIÇÃO


 Foi inaugurada hoje, 21 de Outubro de 2023, pelas 17 horas, na Biblioteca Municipal Eng. Jorge Bento, em Condeixa-a-Nova, a Exposição Condeixenses presos pela PIDE.

Com organização do investigador, Dr. Paulo Silva, foi preparada a exposição que se encontra patente na Biblioteca Municipal, onde é possível encontrar várias personalidades que passaram pelos calabouços da polícia política do Estado Novo.

Uma exposição a que se recomenda uma visita nos próximos dias.

Com os votos do maior sucesso!!

A.A.B.M.

sábado, 25 de setembro de 2021

CONDEIXA SOB VIGILÂNCIA II Delação… mas, com alguma honra! - por PAULO MARQUES DA SILVA

 

1 - Os cafés, os estabelecimentos comerciais locais, ou a própria rua, eram todos bons locais para a PIDE/DGS tentar obter informações. Vejamos alguns exemplos.

No dia 25 de Março de 1970, um informador encontrava numa mesa do Café Conímbriga, os médicos João Ribeiro e Albano Lencastre, com o comerciante Amílcar Morgado e a sua esposa, todos eles democratas, como sentenciava o colaborador da PIDE. Depois dos cumprimentos habituais, o informador largava o seu “isco” e atirava para os convivas que o movimento oposicionista se encontrava paralisado, pois, após as eleições, não tinha tido conhecimento de mais movimentações. No entanto, nas conversas cruzadas que se seguiram, o assunto que vingou acabou por ser os cursos da cristandade, não permitindo ao nosso informador que aprofundasse o tema que habilmente havia lançado.
Em Agosto desse mesmo ano, o colaborador da PIDE utilizava outro método para tentar obter os comentários que, posteriormente, transmitia nos seus relatórios. Munido de um comunicado sobre a audiência dos guerrilheiros (trata-se da audiência em que o Papa Paulo VI recebeu os líderes dos três movimentos de libertação das colónias portuguesas, no dia 1 de julho de 1970) mostrou-o ao comerciante Manuel Pena, que manifestou o desejo de possuir um exemplar para mostrar ao seu cunhado, chamado João Geraldo, que trabalhava em Angola, e que era, segundo o informador, um protegido de Fernando de Sá Viana Rebelo.
Já num relatório de Março de 1974, sobre José Rasteiro Relvão, comerciante bem conhecido de Condeixa, o informador ficava a saber que era intenção dos operários da Fábrica de Colchões Molaflex efectuar uma greve, referindo que José Rasteiro Relvão estaria bem colocado para obter informações credíveis sobre o assunto, uma vez que fora passar o Carnaval ao Rio de Janeiro, acompanhado de um dos gerentes da Molaflex, de nome Raúl Moreira.
2 – Por outro lado, nas relações entre indivíduos da oposição e apoiantes do regime imperava por vezes uma lógica particular e, por vezes, paradoxal à lógica política, em função das amizades ou dos laços familiares existentes entre os diversos indivíduos. Num trabalho anterior, já fiz referência ao caso de Manuel Deniz Jacinto, homem da oposição, mas que era genro do tenente José Beato, presidente da Comissão Concelhia da União Nacional. Este último será acusado, através de uma denúncia, de se ter deslocado a Lisboa juntamente com elementos oposicionistas, para defender num processo em instrução, o médico João Ribeiro, que se encontrava preso por motivos políticos.
Veja-se agora um exemplo diferente, mas não menos interessante. Um relatório de Dezembro de 1968, sobre o Ateneu de Coimbra, indicava como presidente do Conselho Fiscal desta agremiação, Manuel Pires da Rocha, natural de Condeixa e funcionário do Banco de Portugal, em Coimbra. O informador explicava quem era esta figura e descrevia as ligações de vários dos seus familiares à oposição:
“Seu pai já falecido era juiz de Direito, aposentado, o qual fez parte, com o médico Dr. ALFREDO PIRES DE MIRANDA, da Comissão Concelhia a favor do General NORTON DE MATOS, quando das eleições. Seu tio, Dr. JÚLIO PIRES DA ROCHA, farmacêutico, também é contra a situação e, portanto, é muito possível que ele perfilhe a mesma doutrina da família […]”.
O facto de este colaborador da PIDE/DGS conhecer esta família e de, eventualmente, ter com ela relações de cordialidade, perfeitamente natural para uma pequena vila, não o impediu de efectuar esta denúncia sobre Manuel Pires da Rocha. No entanto, talvez para minimizar alguns problemas de consciência daí decorrentes, veja-se a frase com que o informador termina o seu relatório:
“[…] Trata-se, contudo, de um excelente rapaz”.
Paulo Marques da Silva

(NOTA: Na Foto o Dr. João Ribeiro, um dos oposicionistas identificados em Condeixa, no texto da autoria de Paulo Marques da Silva. Ainda que não venha no texto original fica a ilustrar o interessante apontamento).

domingo, 2 de maio de 2021

UMA DENÚNCIA


A PIDE, nos anos 40, tendo em conta o leque alargado de competências que exercia, possuía ainda uma estrutura débil e era incapaz de efectuar uma cobertura ampla e permanente do País, sendo a sua acção especialmente limitada em todo o interior de Portugal. Para suprir estas limitações, a PIDE contava com a colaboração de várias outras entidades, tais como a PSP, a GNR, a Guarda Fiscal, a Legião Portuguesa, os responsáveis concelhios, os Governadores Civis, ou a rede de informadores que entretanto foi construindo.

Outra ajuda substancial de que a PIDE se serviu foram as denúncias. Sabemos que a PIDE organizou elevado número de processos a partir deste tipo de informações. No entanto, estas, muitas vezes, também representavam um problema para a Polícia Política pois, frequentemente, as denúncias nem sequer tinham motivos políticos, sendo antes fruto de rivalidades, de vinganças ou de pequenas ambições. Havia raparigas que denunciavam antigos namorados, pais que denunciavam amigos ou colegas dos filhos, doentes que denunciavam médicos. Denunciaram-se pessoas por estas vestirem de vermelho, por não irem à missa, por terem conversas suspeitas em determinados locais públicos, ou por serem vistos na rua fora de horas.

Nada disto tinha muito interesse para a PIDE e originava outro problema: por vezes, a Polícia Política queixava-se do grande volume de denúncias, tendo dificuldade em efectuar a sua triagem. Tal aconteceu, por exemplo, em relação às informações enviadas pela Legião Portuguesa.


O exemplo que reproduzo aqui hoje é uma daquelas denúncias que, em princípio, não teria qualquer interesse para a PIDE. No entanto, estava em causa uma palavra que estava proscrita e, assim sendo, a PIDE tratou de actuar com a rapidez necessária. Esta carta, remetida à PIDE por um cidadão que desconhecemos, data de 30 de Maio de 1947:

“Exmo. Senhor
Para os efeitos que V. Ex.ª julgar convenientes tenho a honra de informar o seguinte:
Ontem cerca das 21,30 horas, quando me utilizava do «mictório» do Café Montanha desta cidade, observei que numa das paredes se encontravam escritos os seguintes dizeres: «Viva o comunismo» e mais qualquer coisa que não consegui ler, em virtude da iluminação no local ser muito fraca”.

Perante esta denúncia e ainda no mesmo dia, o chefe da delegação da PIDE de Coimbra deu as suas instruções, escrevendo na própria carta, no seu canto superior esquerdo: 

“Ao agente de serviço externo, para intimar o proprietário a fazer desaparecer a inscrição”.

No dia seguinte o assunto foi tratado e a informação do agente para a chefia, voltou a ser escrita na mesma carta, agora no canto superior direito:

“O despacho por V. Ex.ª exarado ao lado foi cumprido. Os escritos foram apagados na minha presença”.

Mais uma missão realizada com sucesso![1]



[1] Documentos do arquivo da PIDE/DGS, processo Del. C. n.º 829, de Joaquim Namorado.

 


Publicado originalmente na edição em papel do Jornal Terras de Sicó

Paulo Marques da Silva

sábado, 20 de março de 2021

UM ASSUNTO DE “DETECTIVISMO”

 


Em Maio de 1940, apareceu na Granja do Ulmeiro um indivíduo que se hospedou na Pensão Carioca, mesmo em frente à estação dos Caminhos de Ferro de Alfarelos.

O procedimento e o viver deste indivíduo era algo misterioso e começou a intrigar a população local. Fazia a sua vida na estação, aparecia a todos os comboios, quer fosse de dia, quer fosse de noite, incluindo os comboios que transportavam o correio, que passavam de madrugada, só se deitando pelas 4 horas da manhã.

Dizia o próprio ser elemento da Polícia Internacional (PVDE), já tendo exibido a sua identidade de polícia, e andava sempre armado com uma pistola.



Nos intervalos da passagem dos comboios frequentava os vários estabelecimentos comerciais e tabernas, pagava o seu copo de vinho aos presentes, sempre com “um risinho de pomba”, fazendo-se grande “companheiro da borga”. Quando, durante estes convívios, alguém começava a falar do conflito internacional em curso, com alguns comentários, ele imediatamente aconselhava ao silêncio sobre a matéria e que se abstivessem de se pronunciar publicamente, devendo fazê-lo apenas intimamente.

Duas vezes por semana, aparecia também por ali um outro indivíduo, também polícia, vindo geralmente de Lisboa, e os dois eram vistos a trocar sinais e a passarem entre si pequenos papéis. Numa outra ocasião foram encontrados, numa sala de espera da estação, a conversar em segredo.

As opiniões locais sobre o assunto dividiam-se: para alguns, o indivíduo que ali vinha fazer os encontros devia ser um chefe da Polícia Internacional que fazia serviços nos comboios, enquanto para outros, tratar-se-ia de um polícia de investigação criminal ao serviço da CP.

Voltemos ao personagem principal. O indivíduo em questão chamava-se Gustavo, teria pouco mais do que 40 anos, de faces vermelhas e bem apresentado. A sua conduta, cheia de mistério, trazia assustada as gentes do local, que começava a esperar que a qualquer momento surgisse “novidade grossa e num mau ambiente”.

Este texto, mais não é do que um resumo de um relatório do informador Inácio, incumbido, por determinação do inspector Sales Velez, duma investigação “muito secreta” e conduzida “com o maior cuidado possível” em Alfarelos e na Granja do Ulmeiro. Este é mais um de tantos mistérios de que não conhecemos o seu final, pois os documentos encontrados não permitem tal. Possivelmente, nunca saberemos quem foi Gustavo, se é que era este o seu nome, nem o que, verdadeiramente, andava a fazer por aquelas bandas. Verificamos, no entanto, que este indivíduo, talvez ao contrário do que seria de esperar, não primou por passar despercebido e que o informador Inácio entrou neste jogo de disfarces, tentando descodificar o enigma. E o que concluiu Inácio após o seu trabalho de pesquisa. Vejamos o final do seu relatório: 

“Se é realmente um polícia da PVDE tem procedido tão desastradamente e com tanta falta de senso que pasma, pois toda a gente está de sobreaviso e ele nada consegue.

Se é outro género de polícia o facto é o mesmo, porque a sua misteriosa maneira de viver, faz acautelar toda a gente e à sua volta, há por isso, as mais desastrosas versões.

É possível que se venha a tratar de um qualquer aldrabão com a mania de detectivismo, mas então pergunta-se: quem lhe paga tantas despesas que faz?”

A análise de Inácio parece fazer todo o sentido. Certamente, esta não terá sido a forma mais eficaz de actuar de um agente de uma polícia de informações, com a exibição da pistola e do distintivo pelos cafés do lugar. Evidentemente, hoje, um polícia (secreto) teria uma actuação bem diferente. Até porque, hoje em dia, tudo é diferente: as técnicas, as tácticas e a tecnologia, claro. Existe, no entanto, uma situação (ou preocupação) que permanece inalterável, desde 1947 até aos dias actuais, quer para a Polícia, quer para o cidadão comum: o problema do pagamento das despesas!

Publicado originalmente na edição em papel do Jornal Terras de Sicó

Paulo Marques da Silva

domingo, 21 de fevereiro de 2021

O PADRE QUE ENSINAVA RUSSO



(Uma das edições da Livraria Cunha, de Coimbra, em 1931)

Num tempo em que a PIDE tinha como principal objectivo combater o comunismo, bem alicerçado, aliás, no discurso de Salazar, de 28 de Janeiro de 1934, em que este afirmara que o comunismo era “a grande heresia da nossa idade”, um cartaz numa montra da baixa da cidade de Coimbra, publicitando o ensino da língua russa, não podia passar despercebido.

E não passou. O informador Inácio, em relatório datado de 7 de Dezembro de 1947, comunicava à PIDE que estava afixado na montra da Livraria Cunha, desde a noite anterior, o dito aviso. Estivera ali afixado durante todo o dia, um pouco de lado, meio oculto pela porta, mas tinha a indicação da tipografia onde fora executado, segundo o informador.

Dois dias depois, o padre Manuel Augusto Rodrigues Esteves, também professor no Seminário de Coimbra e ali residente, com 35 anos de idade, responsável pelo pequeno cartaz sobre o ensino de língua russa, estava sentado na delegação da PIDE daquela cidade, perante o chefe Manuel Nogueira Branco e o agente Júlio Cunha, a responder a um Auto de Declarações.


(Revista Portuguesa de Filosofia, de 1964, sobre o Instituto de Filosofia Beato Miguel Carvalho e o seu 30º aniversário.)

O padre Manuel Esteves tinha aprendido russo quando estudava Filosofia no Instituto de Filosofia Miguel Carvalho, em Braga, e corrigido a pronúncia quando estudou Teologia em Valkenburg, Holanda, dominando igualmente o alemão. Sendo professor no Seminário, já dava aulas particulares de russo a dois alunos universitários “da sua confiança”. A sua ideia era tirar alguma vantagem económica com as aulas de russo. Assim, afixou alguns cartazes pela cidade, obviamente nas condições legais. Pedira a um seu amigo (José Lobo) para lhe tratar do assunto e, seguindo a lei, este dirigiu-se à Câmara com 12 cartazes para a respectiva fiscalização e pagamento, recomendando o padre ao seu amigo que, se lhe parecesse necessário, se dirigisse também à Polícia. Mas, como na Câmara não levantaram qualquer dificuldade, julgou que tudo estava de acordo com a lei. Afirmou também à PIDE que os cartazes tinham a indicação de “inscrições individuais severamente condicionadas ao abrigo da lei”, tendo com isso em vista, segundo o padre, o carácter severamente apolítico de tais lições particulares.

Logo apareceram interessados e o padre expressou-lhes as condições rigorosamente apolíticas de tais lições e que logo as suprimiria, caso houvesse sinais de segundas intenções por parte dos alunos.

Pedindo desculpa pelo trabalho que deu à Polícia, o padre comprometia-se a retirar os cartazes e a parar com as lições, caso não existisse confiança, por parte da Polícia, de que a sua intenção era a de que se conhecesse a cultura e as riquezas do mundo eslavo e que o comunismo estava à margem de tudo isto. Aliás, o padre afirmava que já tinha publicado na revista Brotéria, alguns artigos anti-socialistas e anti-comunistas. De resto, interessava-se unicamente pela Filosofia e pela Teologia, vivendo à margem de “ilusões políticas”, mas apreciando e respeitando o Estado e a “nossa ideologia nacional”.

Enfim, o padre Manuel Esteves defendeu-se como pôde.


(Alberto de Oliveira Vilaça)

O pior foi quando lhe perguntaram quem eram os seus alunos (e as suas moradas). A saber: Joaquim de Sousa Castro, Domingos da Costa Gomes, José Magalhães Simões Freire, Alberto Vilaça, Antero Urbano, José Albuquerque de Sousa, Eduardo Crespo Saraiva, António Afonso Amaral, Ricardo Quadrado, Mário Branco e Armando Nunes Reis. Ou seja, todos eles, nomes sobejamente conhecidos da oposição ao regime em Coimbra, nomeadamente no meio estudantil, fazendo parte ou apoiando as comissões universitárias do MUD Juvenil, naquele ano de 1947, e, pelo menos uma parte deles, perfeitamente referenciados pela PIDE e pelo informador Inácio, nomeadamente os primeiros quatro nomes atrás referidos!




(Processo de Alberto de Oliveira Vilaça, na PIDE)


(Processo de José Magalhães Simões Freire, na PIDE)

Publicado originalmente na edição em papel do Jornal Terras de Sicó

Paulo Marques da Silva


terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

A VIOLAÇÃO DE CORRESPONDÊNCIA PELA PIDE - EPISÓDIO

Fig. 1 - Miguel Urbano Rodrigues (1925-2017)

Volto ao processo da PIDE de Fernando Namora, mais cedo do que previsto, com um único intuito: homenagear Isabel Freitas, que nos últimos anos dirigiu a Casa Museu Fernando Namora, em Condeixa. Isabel Freitas deixou-me gravado na minha memória o seu sorriso aberto e franco e a sua simpatia permanente, nos vários contactos que tivemos nos últimos anos, em especial, a partir da preparação do centenário de Fernando Namora. Partiu cedo demais para a viagem que todos havemos de fazer. 

No processo de Fernando Namora saliento que, logo após os recortes e as cópias de jornais, os documentos que ali surgem em maior quantidade são as cartas interceptadas pela PIDE.

A intercepção postal estava integrada no sector da Informação da PIDE, conjuntamente com a escuta telefónica, os ficheiros, a vigilância directa e os informadores, tendo sido aquela, como sabemos, uma prática largamente utilizada.

Durante algum tempo, os CTT colaboraram com a PIDE na violação da correspondência, recorrendo a alguns dos seus funcionários, denominados os “catadores” ou “farejadores”. Na posse de listas de moradas dos suspeitos, fornecidas pela Polícia, os carteiros separavam a correspondência, que depois era remetida para a PIDE.

Posteriormente, segundo a historiadora Irene Pimentel, devido a queixas sobre desvio de dinheiro de emigrantes, entre outras situações, a tarefa dos “catadores” ou “farejadores” terminou. A PIDE passou a tratar directamente desse serviço recorrendo a agentes seus, na Estação Central dos Correios, no Terreiro do Paço.

Este processo decorria de forma simples: a correspondência suspeita era aberta, lida, fotocopiada e colocada de novo no envelope, que era fechado e devolvido aos CTT, seguindo depois o seu caminho. Outras vezes, o original era interceptado e o destinatário nunca o recebia. Os elementos recolhidos eram depois analisados, sendo a carta posteriormente arquivada no processo do visado.

Ora, a partir de certa altura, os homens ligados à oposição com problemas com o regime, sabiam que a sua correspondência era vigiada e tentavam minimizar o problema, quer não mencionando nelas nada que não se quisesse que a PIDE soubesse, quer utilizando outras estratégias. Vamos verificar um desses subterfúgios, através de um exemplo de uma carta escrita por Miguel Urbano Tavares Rodrigues a Fernando Namora, a partir de S. Paulo, no Brasil, em 17 de Fevereiro de 1968.

Fig.2 - Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013) e Maria Judite de Carvalho (1921-1998)

Miguel encontrava-se exilado no Brasil e o seu irmão, Urbano Tavares Rodrigues, estava preso há cerca de um mês, aqui em Portugal. E, na verdade, esta carta de Miguel dirigia-se à sua cunhada, a mulher de Urbano, Maria Judith. Mas, como Miguel sabia que a correspondência da cunhada estava a ser vigiada, endereçou a carta para Fernando Namora, pedindo-lhe depois que este entregasse a carta e documentação anexa à mulher de Urbano, explicando-se na carta:

“Para escrever a minha cunhada tenho de recorrer de cada vez a um amigo, pois a correspondência que lhe é endereçada está sob vigilância”.

No final da carta, Miguel Urbano indicava, numa nota manuscrita em post scriptum, na margem esquerda, a forma como devia ser contactado no Brasil, caso Namora assim o entendesse, explicando:

“Para me escrever peça um endereço à minha cunhada. Em meu nome não convém fazê-lo”.

 

Fig. 3 - Fernando Namora (1919-1989)

Em suma, o processo era mais ou menos o mesmo. Endereçar a carta para uma morada de alguém conhecido que, supostamente, não estivesse debaixo do olhar das autoridades, e que depois fizesse chegar a carta ao verdadeiro destinatário. O que se tornava necessário era acertar neste critério de análise. E, neste caso concreto, Miguel não acertou, pois a correspondência de Namora também era vigiada, como podemos verificar pela elevada quantidade de cartas existentes no seu processo. E, esta carta a que nos referimos, é mais uma dessas que ficou fotocopiada nos arquivos da PIDE, onde, muitos anos depois, a fomos encontrar.

Publicado originalmente na edição em papel do Jornal Terras de Sicó

Paulo Marques da Silva

sábado, 9 de janeiro de 2021

O PÃO DE CADA DIA

Paulo Silva remeteu-nos mais um artigo sobre a questão da Censura, neste caso envolvendo a Diocese de Coimbra e o Bispo de Coimbra, em 1969, D. Francisco Rendeiro. Agradecendo ao autor a divulgação deste pequeno apontamento, inicialmente publicado na edição impressa do Jornal Terras de Sicó, para se perceber as movimentações que iam acontecendo e os critérios que utilizavam os censores perante situações mais ou menos semelhantes. Curioso este episódio, com alerta do bispo para uma situação que lhe merecia uma reflexão critica e as medidas que os censores utilizaram em Coimbra, já na fase do chamado marcelismo. Para ler abaixo:


D. Francisco Rendeiro (15.12.1915 +19.5.1971)

No dia 29 de Março de 1969, o jornal Correio de Coimbra publicava, numa rúbrica intitulada A Palavra ao Pastor, um artigo do bispo de Coimbra, Francisco Rendeiro, com o título "O pão de cada dia". O texto versava o problema da fome, mas não só da comida propriamente dita. Era a questão da privação, da ausência, utilizando o pão como metáfora. Reflectia igualmente a problemática da sua repartição. Vejamos um excerto do texto:

O pão de cada dia é necessidade que volta a sentir-se poucas horas depois de satisfeita; e como não está à mão de quem precisa, é mira dos trabalhos e preocupações, ao menos de noventa e nove por cento da humanidade. O formigueiro humano que, logo de manhã, sai de casa, para o campo, para a oficina, para o escritório e até para a escola, busca o pão.

[…] O pão de cada dia é o padrão de desenvolvimento da humanidade. Ouvimos dizer que nalgumas partes, por maldade dos homens, morrem de fome aos milhares, crianças e adultos. Há fome nas regiões desoladas pela guerra; e para além destas, também há fome em dois terços da superfície da terra.

Não é só de pão de trigo que há fome; há fome de instrução, de cultura, de convivência, de amor.

O pão de cada dia é também o símbolo mentiroso que encobre a ambição daqueles que o buscam para além das legítimas necessidades; são os ganhos desmedidos, são os lucros ilícitos, é a exploração dos fracos, é o tremendo problema da distribuição das riquezas.

O texto é mais longo. Mas é onde termina esta transcrição que está o cerne do problema que viria a eclodir: é que a Censura cortou esta última frase ao texto do bispo.

Valentim Marques (6-03-1937 + 5-06-2015) 

Esta situação gerou a indignação nos responsáveis da Gráfica de Coimbra, e o padre Valentim Marques (1937-2015) entendia que tal corte era inadmissível. O caso chegará ao conhecimento da PIDE, em Coimbra que, por sua vez, fará chegar a informação à sua sede, em Lisboa, através do inspector da delegação, Leite de Faria, nestes termos:

"Junto tenho a honra de remeter a V. Ex.ª a fotocópia da prova tipográfica do artigo intitulado “O PÃO DE CADA DIA”, continuação de outros já publicados no órgão da Diocese “CORREIO DE COIMBRA”, da autoria do Bispo de Coimbra D. FRANCISCO RENDEIRO, no qual os Serviços de Censura eliminaram a expressão “é tremendo o problema da distribuição das riquezas”, que em nada prejudicava o seu contexto.

O facto provocou forte reprovação dos responsáveis da Gráfica de Coimbra, encarregada da impressão do jornal, nomeadamente o Padre VALENTIM MARQUES, vincadamente manifestada na anotação por ele feita à margem: “ISTO É MISERÁVEL! Trata-se de um documento Pastoral, com que a censura nada tem a ver!”.

Como se verifica, até a PIDE achou despropositado o corte efectuado pela Censura. 

Já muito se escreveu sobre os critérios (ou a sua ausência) utilizados pelos censores.

Como referiu José Cardoso Pires, tal como os próprios escritores, também os censores praticavam a auto-censura, cortando por uma questão de precaução, para não deixar passar algo que a sua hierarquia considerasse depois ser perigoso e, por isso, riscavam quando farejavam a mais longínqua insinuação comprometedora.

No caso concreto, julgo que o teor do texto é bastante sugestivo e creio mesmo que, se não fosse um bispo a escrevê-lo, mas sim um jornalista, por exemplo, todo o texto poderia ter sido cortado. Visto por esta perspectiva, o censor em questão até terá sido benevolente no corte. Afinal, tratava-se do bispo de Coimbra! No entanto, aquele preciosismo na frase em questão terá custado ao censor algum “amargo de boca” posterior. Será?


(O artigo do Correio de Coimbra, 29-03-1969)

Paulo Silva

terça-feira, 24 de novembro de 2020

A PIDE, OS JORNAIS E FERNANDO NAMORA - POR PAULO MARQUES DA SILVA


Se a Censura era uma realidade, e os jornais vinham tão “limpos” que parecia que vinham “de um País onde não acontecia nada”, como se referia na época com vincada ironia, complementada com expressões como aquela que dizia “se queres saber o que se passa em Portugal, compra o Le Monde”, porque estão então os processos da PIDE inundados de recortes de notícias de jornais publicadas? No caso do processo principal de Fernando Namora verificamos que os documentos que estão em maior número são mesmo os recortes ou cópias de páginas de jornais. Mas, o caso de Namora não é único, bem longe disso.

É claro que todos os elementos serviam para compilar um quanto mais robusto processo, melhor. Mas, pergunta-se: mesmo com notícias ditas “inocentes”, que já haviam passado pelo crivo da Censura? A resposta é sim!

Após a análise dos processos da PIDE de Namora verifiquei que, muitas vezes, as notícias publicadas nos jornais pareciam resultar no principiar de diligências ou investigações por parte daquela Polícia. Vejamos alguns exemplos.

O jornal República, de 12 de Junho de 1951, anunciava a exibição no cinema Tivoli do filme Les Visiteurs du Soir, de Marcel Carné, no âmbito das denominadas “terças- feiras clássicas do Tivoli”, com comentário inicial de Fernando Namora. E lá esteve no cinema Tivoli um agente da PIDE que produziu, no dia seguinte, o seu relatório sobre a intervenção do escritor. 



Já o Diário de Lisboa, de 17 de Março de 1957, destacava um encontro de escritores, realizado na Casa do Alentejo, com a presença de cerca de 60 escritores portugueses, para debater assuntos relacionados com a actividade literária. A notícia terminava com a indicação de que se passaria a realizar, entre os escritores nacionais, uma reunião mensal a ocorrer no primeiro Domingo de cada mês. Quando, no dia 28 de Abril, se realiza novo encontro dos escritores, já será sob a vigilância do agente da PIDE, Fernando Moutinho, cujo relatório também podemos apreciar no processo de Fernando Namora. Também, muito provavelmente, a notícia publicada na imprensa diária nacional, sobre um banquete de homenagem a Fernando Namora, por este ter conquistado o prémio Ricardo Malheiros, atribuído pela Academia das Ciências, a realizar no Salão de Chá Imperium, no dia 19 de Dezembro de 1953, terá originado um acompanhamento muito próximo do evento por parte da PIDE, com um primeiro relatório sobre os preparativos do banquete, e a presença no referido jantar de um agente da PIDE, cujo relatório, com seis páginas, sobre quem esteve presente e o que ali se disse, foi elaborado nos dias seguintes. Mas, sem qualquer sombra de dúvida, é a partir de um apontamento noticioso veiculado pelo Diário de Notícias, de 5 de Fevereiro de 1957, que publica uma notícia com origem na Rádio Moscovo, anunciando a participação de obras de escritores portugueses, entre os quais Fernando Namora, numa exposição de livros em Moscovo que, dois dias depois, os serviços de informação americanos, referindo expressamente aquela notícia de jornal, solicitam à PIDE elementos sobre os escritores mencionados na notícia, sobre quem confessam nada saber: Fernando Namora, Manuel Mendes, Carlos de Oliveira e António José Saraiva.



Concluindo, e talvez paradoxalmente, se a Censura cortava cerce, a PIDE ainda conseguia, após o viso daquela, desenvolver investigações e vigilâncias a partir da leitura da imprensa.

PAULO MARQUES DA SILVA

[NOTA  IMPORTANTE: 

Este artigo foi publicado originalmente no jornal Terras de Sicó, 2ª Quinzena de Novembro de 2020, Ano 7, nº 139, p. 16, com a epígrafe - Pequenas histórias da PIDE e da Censura.

Itálico, negritos e tratamento da imagem da responsabilidade de A.A.B.M.]

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

FERNANDO NAMORA CARICATURISTA


APRESENTAÇÃO DO CATÁLOGO

AUTOR: Paulo Marques da Silva

TÍTULO: Fernando Namora Caricaturista

DATA: 12 de Setembro

LOCAL: Museu PORO's  - Condeixa-a-Nova

HORA: 17 Horas

Segue-se a inauguração da Exposição alusiva às caricaturas desenhadas por Fernando Namora e localizadas pelo autor do Catálogo e responsável pela organização da mostra.

A.A.B.M.


terça-feira, 26 de setembro de 2017

VERGÍLIO CORREIA (1888-1944): UM PERCURSO ÍMPAR NA HISTÓRIA, NA CULTURA E NAS ARTES

Realiza-se na próxima quinta-feira, 28 de Setembro de 2017, nas instalações da Torre do Tombo, em Lisboa, a conferência que marca o encerramento da exposição fotográfica dedicada ao Prof. Vergílio Correia e que foi inaugurada no âmbito da comemoração do Dia Internacional dos Arquivos, realizadas no passado dia 9 de junho, o Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em colaboração com o Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, o Centro de Estudos Vergílio Correia, a Câmara Municipal de Condeixa-a-Nova, a Associação Ecomuseu de Condeixa e a Academia Nacional de Belas Artes, que levou a efeito a exposição evocativa do eminente historiador de arte, arqueólogo, etnólogo e professor universitário, Vergílio Correia, a partir do seu arquivo documental e fotográfico. 

O programa da conferência é o seguinte:

10H00 | 11H15 
Silvestre Lacerda (ANTT): Apresentação 
Alexandre Ramires: Vergílio Correia e a fotografia 
Miguel Pessoa (CEVC): A criação do Centro de Estudos Vergílio Correia 

11H15 | 11H30 pausa 

11H30 | 13H00 
Paulo Silva (Centro de Estudos de Investigação do século XX / UC): Vergílio Correia e o Estado Novo - a sua prisão no Aljube, em 1932 
Fernando Grilo (ARTIS-FLUL): A polémica entre Vergílio Correia e Guido Batelli 
Raquel Vilaça (FLUC): Um périplo pelas arqueologias de Vergílio Correia 

13H00 | 15H00 almoço 

15H00 | 16H30 
Vitor Serrão (ARTIS-FLUL): Vergílio Correia historiador de arte 
Vera Mariz (ARTIS-FLUL): O Inventário Artístico de Portugal da ANBA 
Clara Moura Soares (ARTIS-FLUL): O pensamento patrimonial de Vergílio Correia (à luz dos artigos no Diário de Coimbra) 
16H30 | 16H45 pausa 

16H45 | 17H30 
António Ventura (FLUL): Vergílio Correia e a sua filiação maçónica 
Ana Venâncio e Rosário Salema de Carvalho (ARTIS-FLUL): Vergílio Correia e a comissão de inventariação dos azulejos do estado (1920-1928) 
Nuno Moita da Costa (CMCAN): O movimento para a promoção da candidatura de Conímbriga a Património Mundial da UNESCO 

Encerramento da Exposição.

Interessante iniciativa que permite revisitar a personalidade e o trabalho desenvolvido pelo Prof. Vergílio Correia, nas suas diferentes dimensões.

A acompanhar com todo o interesse.

A.A.B.M.