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sábado, 11 de maio de 2019

CONFERÊNCIA – AQUILINO RIBEIRO, CARBONÁRIA E MAÇONARIA



CONFERÊNCIA: Aquilino Ribeiro, Carbonária e Maçonaria

ORADOR: Prof. António Ventura [Centro de História da FLUL];

DIA: 16 de Maio 2019 (10,15 horas);
LOCAL: Biblioteca Nacional de Portugal (Campo Grande 83, Lisboa);

A Biblioteca Nacional de Portugal acolhe no próximo dia 16 de Maio de 2019 um Colóquio consagrado à figura e à obra de Aquilino Ribeiro. A partir da oportunidade oferecida pelo centenário da primeira edição do romance Terras do Demo (1919), esta iniciativa está centrada na análise dos anos que decorreram entre o regresso de Aquilino a Lisboa, vindo do seu primeiro exílio em Paris, e o início do segundo exílio do escritor, ditado pela sua participação na frustrada tentativa de derrube da ditadura militar, em Fevereiro de 1927.
 
Os participantes no Colóquio estão convidados a explorar a Lisboa de Aquilino, articulada entre os seus diversos lugares de residência na cidade, o Liceu Camões, onde ensinou, e a Biblioteca Nacional, na qual ingressou pela mão de Raúl Proença e Jaime Cortesão. Estarão também presentes a França e a Alemanha que observou nestes anos e veio a transpor para títulos tão importantes como É a Guerra e Alemanha Ensanguentada.
 
Numa época marcada pela I Guerra Mundial e pela implantação da República em Portugal, este é um dos mais sugestivos períodos da vida do grande escritor que foi Aquilino Ribeiro, marcado pela escrita de viagens, pela criação de personagens intemporais como as que dão vida a O Malhadinhas e ao Romance da Raposa ou, ainda, pelos textos que compôs para o Guia de Portugal de Raúl Proença.
 
A par deste Colóquio, será inaugurada uma exposição biobibliográfica ilustrativa da temática debatida no evento. A exposição estará patente na Sala de Referência da Biblioteca Nacional entre 16 de Maio e 30 de Agosto, com entrada livre. O Colóquio «Aquilino, Anos 20: entre o exílio e as geografias de Lisboa» é organizado conjuntamente pelo Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa (CEG-ULisboa) e pelo Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (CLEPUL), em parceria com a Biblioteca Nacional de Portugal.

 
Esta iniciativa é realizada no âmbito das actividades do grupo de investigação ZOE – Dinâmicas e Políticas Urbanas e Regionais do CEG e do grupo de Investigação Literatura e Cultura Portuguesas do CLEPUL. A Exposição beneficia da colaboração complementar do Arquivo e da Biblioteca da Escola Secundária de Camões” [AQUI] - sublinhados nossos]
 
A não perder.
 
J.M.M.

sábado, 20 de outubro de 2018

O CAVALEIRO DE OLIVEIRA, ALIÁS, FRANCISCO XAVIER DE OLIVEIRA – NOTA BREVE



A 18 de Outubro de 1783 morre, em Hackey (Inglaterra) o Cavaleiro de Oliveira, aliás, Francisco Xavier de Oliveira.
O mundo é a pátria natural, universal de todos os homens” [Cavaleiro de Oliveira, in Carta à Condessa de Roccaberti]
O Cavaleiro de Oliveira nasceu em Lisboa a 21 de Maio de 1702. Era filho do “Contador de Contos do Reino e Casa”, José de Oliveira e Sousa, e de Isabel da Silva Neves [cf. Dicionário de Inocêncio, tomo III; ver, ainda, Portugal, Diccionario  Histórico, …, de Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, 1911, vol. V; Álvaro Manuel Machado, “Dicionário de Literatura Portuguesa"; Aquilino Ribeiro, “O Cavaleiro de Oliveira”; Gonçalves Rodrigues, “O Protestante Lusitano”, 1950], tendo por isso tido educação esmerada [sob os auspícios do padre Lourenço Pinto]. Apenas com 14 anos foi nomeado oficial do Tribunal dos Contos do Reino, cargo que manteve durante longo tempo, o que curiosamente lhe permitiu uma vasta informação acerca dos “homens, das cousas e dos costumes”, servindo-lhe para publicar, mais tarde, as suas memórias, com curiosas observações, quase sempre satirizantes.

Francisco Xavier de Oliveira era visto como um sujeito “pouco ortodoxo”, “um maldito de Deus”, um “protestante” ou mesmo um “ateu”, assunto que evitava de todo debater, mas que o colocava debaixo do exame atento da Inquisição, tendo escapado às suas mãos graças aos (poderosos) amigos que tinha [principalmente o embaixador D. Luís da Cunha, Sebastião José de Carvalho e Melo, Diogo Barbosa Machado, algumas importantes personalidades francesas e inglesas, ou até mesmo o livreiro português Francisco da Silva Sul, fora as inúmeras mulheres com quem “inscreveu a arte de amar”, como, entre elas, a princesa de Valáquia, Maria Elizabeta]. Tal espírito “irreligioso” era o traço de um libérrimo pensador (por mais maquiavélico que tenha sido), um cosmopolita irrequieto, a que se associava um varonil espirito de bon-vivant, um dom juan de “vida solta” (e em constantes “rixas”), “aristocrata libertino” de fina inteligência, graça e humor. Em 1729 é feito Cavaleiro da Ordem de Cristo, tendo por isso assinado muita da sua obra francesa com o nome de “Chevalier d’Oliveira”.

Na morte de seu pai (1733), na altura secretário do Conde de Tarouca, e ministro em Viena, tomou o seu lugar, tendo saído, com esse fim a 19 de Abril de 1734, em direção à Alemanha, nunca mais tendo regressado a Portugal. Teve seis anos a [tentar] exercer a função de secretário da embaixada portuguesa [nunca foi empossado do cargo, por razões nunca expostas, tendo por isso reclamado energicamente, como consta num curioso processo e que aqui não cumpre desenvolver], mas, entre outras mais razões, as desavenças pessoais com o Conde de Tarouca fê-lo abandonar o lugar em 1740, refugiando-se na Holanda. Sem recursos monetários, ali passou duras “privações”, tendo recorrido à escrita para o necessário sustento [embora as despesas de impressão dos seus escritos o tenha arruinado], auxiliado por “patrícios” e “judeus portugueses”. Publica, então:
 
Memórias das viagens de Francisco Xavier de Oliveira” (1741 – apenas o tomo I, nunca tendo saído a prelo os restantes volumes, no total de VI); “Cartas familiares históricas, politicas e criticas, discursos sérios e jocosos” (1741-1742, III tomos – foram reimpressas em Lisboa, em 1855; foi obra importante e da maior referência, passe o seu rebuscado mundanismo – ver sobre o assunto Jacinto de Prado Coelho); “Carta ao sr. Isaac de Sousa Brito, …” (1741); “Mille et une observations (ou reflexions) sur divers sujets de morale, de politique, d´histoire et de critique" (1741, II tomos); “Mémoires de Portugal avec la Biblioteque Lusitane” (1741, II tomos – os III e IV ficaram manuscritos); “Reponse à la lettre de mr. C.D.M.M." (1741; folheto que não se conhece qualquer exemplar); “Memoires historiques, politiques, concernat le Portugal” (1743); “Viagem à ilha do amor, escripta a Philandro” (1744; reed. em 1790, Lisboa; é comum aceitar que esta obra é uma tradução livre de uma outra saída anónima, em 1664, mas atribuída ao abade Paul Tallemant, dito o Jovem).
Em 1744, fixa residência em Inglaterra. Data de 1746 (?) a sua “abjuração” ao catolicismo e ligação ao protestantismo luterano, com o casamento (o terceiro) com a inglesa, de ascendência inglesa e huguenote, Françoise Hamon. Porém a vida de exilado não lhe corria de feição, os protectores que tinha abandonam-no, e as inúmeras dividas contraídas levam-no à prisão (21 meses e dez dias), tendo sido amnistiado pelo Acto de Insolvência, em 1748, e libertado.

Publica (1751), em Londres, o muito curioso “Amusement Périodique” (Recreação Periódica, título em português, publicado por Aquilino Ribeiro, em 1922, II vols), saído em fascículos mensais nas Oeuvres Mêlées, “publicação de circunstância" [Aquilino Ribeiro] um conjunto de traços anedóticos sobre a corte portuguesa de D. João V, “armazém de curiosidades e uma obra memorialista importante sobre a sociedade portuguesa e europeia do século XVIII. Não deixa de ser curioso que Francisco Xavier de Oliveira nos diga que tinha em Portugal quatro assinantes, sendo um deles o não menos célebre Jacome Ratton, sendo os outros o dr. Castro Sarmento, o sr. Rabelo de Mendonça e o sr. Abraham Vianna.
 
Esta invulgar e raríssima obra memorialista do Cavaleiro de Oliveira teve a atenção dos bibliófilos, com trabalhos avulsos de Cunha Rivaro [bibliotecário eborense], do dr. Joaquim de Carvalho, de António Francisco Barata (ver Arquivo Histórico Português, vol. I, nº11, Novembro de 1903 e vol. II, 1904], exerceu muito interesse em Camilo Castelo Branco [ver, p. expl. “O Judeu”, “Noites de Insónia”; “A Caveira da Mártir” ou “O perfil do Marquês de Pombal”; o próprio Camilo pretendia biografar o Cavaleiro de Oliveira, mas jamais veio a lume tal pretensão; sobre do que Camilo se “serviu” de Oliveira, consultar a Carta de Camilo a Joaquim de Araújo, 17 de Junho de 1884, in "Cartas de Camilo", por Cardoso Marta, 1918], como anos depois em Joaquim de Araújo [possuidor da raríssima Oeuvres Mêlées, adquirida no leilão da livraria que foi do bibliófilo figueirense Aníbal Fernandes Tomás; Araújo imprimiu numa raríssima edição de apenas 36 exemplares, o “Discours Pathétique do Cavaleiro de Oliveira”, em 1893: do mesmo modo publicou um opúsculo do pai do Cavaleiro de Oliveira, José de Oliveira e Sousa, “No casamento de D. João V”, 1902], Aquilino Ribeiro [veja-se “O Galante Século XVIII”, “Abóboras no Telhado”], observando-se mesmo uma curiosa polémica entre Aquilino Ribeiro e Gonçalves Rodrigues (autor de “O Protestante Lusitano", estudo biográfico e critico sobre o Cavaleiro de Oliveira”, 1950; à polémica suscitada por Aquilino Ribeiro, publicou Rodrigues, “O Cavaleiro de Oliveira, o senhor Aquilino Ribeiro e eu”, 1956).

Depois publica o famoso opúsculo “Discours pathétique au sujet des calamités présentes, arrivés en Portugal. Adressé a mes compatriotes et en particulier a Sa Magesté Três-Fidéle Joseph I. Roi de Portugal”, Londres, 1756 [saíram, posteriormente várias edições: uma em 1757, a que junta um "Extrait d'une lettre de Lisbonne", edição raríssima; a edição de Londres de 1762, também raríssima; outra, muito limitada (36 expls) e muito rara, saída em 1893, sob edição do bibliófilo Joaquim de Araújo, na tipografia Ocidental do Porto; e a rara reimpressão preparada por Joaquim de Carvalho, em 1922, pela Imprensa da Universidade]. Na mesma altura, o Cavaleiro de Oliveira faz sair uma edição em inglês (“A Pathetic Discourse on the present calamities of Portugal, …”) e uma impressão em português, com o título “Discursos patheticos a respeito das calamidades presentes sucedidas em Portugal, dirigidos aos seus compatriotas, e em particular a S.M.F.” (foi reeditado, em 2004, uma nova edição pela Frenesi, de Paulo da Costa Domingos, com 284 pags). A obra inicial teve imediata proibição de leitura e circulação pelo Santo Ofício [por denúncia do dr. Joaquim Pereira da Silva Leal, membro da Academia Real da História], abriu corpo de delito e o seu autor, dito herege, revel e relaxado, foi “condenado a ser queimado em estátua [queima da sua efígie], visto que a sua estada em Londres impedia os inquisidores de terem o gosto de o queimar em carne, como fizeram ao padre Gabriel Malagrida, que padeceu a horrível morte pela fogueira, no mesmo auto da fé de 20 de Setembro de 1761, em que saiu a publico a imagem do cavalheiro de Oliveira para ser devorado também pelas chamas” [ver Esteves Pereira, ibidem]. De imediato (1762), Francisco Xavier de Oliveira, além de reimprimir a obra na sua versão francesa, responde [em francês e português] com o opúsculo “O Cavalheiro de Oliveira, queimado em estatua por herege. Como e porque? Anedotas e reflexões sobre este assumpto, dadas ao publico por elle próprio”.
 
Refira-se que, mesmo considerado herege, relaxado e “ter sido queimado em estatua”, tal não impediu de ter sido encarregado (possivelmente !?) pelo Marquês de Pombal [diga-se que Pombal não o tinha em boa simpatia; porém veja-se o “Elogio historico do Marquês de Pombal”, sob a pena de Cavaleiro de Oliveira, na Revista Litterraia do Porto, nº 67] de escrever uma obra contra “os abusos da curia romana”, pelo que o Cavaleiro de Oliveira deu á estampa (1767) a luminosa [tomada aqui não no sentido iluminista, que, de facto, Cavaleiro de Oliveira  nunca foi, mas sim como cuidada reflexão e livre-exame em matéria de religião]  Reflexões de Felix Vieyra Corvina dos Arcos, …” (que é o anagrama dele próprio), obra publicada em Londres, na Oficina de Jacob Lister, em 1762. Nesta obra está presente uma forte critica à Inquisição e a práticas da Igreja [de notar que só em 1942 é publicado os “Opúsculos Contra o Santo Ofício”] e em defesa da liberdade de consciência. Como curiosidade, é registado (via Barbosa Machado, in Biblioteca Lusitana) ter existido um conjunto de obras manuscritas do Cavaleiro de Oliveira, sendo que algumas delas (bem como parte da sua livraria) ficaram na posse do liberal Duarte Lessa, exilado em Inglaterra nos tempos do infausto governo miguelista, e que pela sua morte se lhes perdeu o rasto. Dessa colecção manuscrita, é refrido o “Tratado do Princípio, Progresso, Duraçam, e Ruína do Reinado do Anti-Christo” e é aceite a obra com o título “Oliveyriana”, não citada por Barbosa Machado, mas que Inocêncio Francisco da Silva (ver Dicionário) diz possuir e dele dando breve anotação.    

Morre Francisco Xavier de Oliveira, o Cavaleiro de Oliveira, a 18 de Outubro de 1783, em Hackey (Inglaterra).

J.M.M.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

AQUILINO RIBEIRO. EVOLUÇÃO DO HOMEM REPUBLICANO - TERTÚLIA

Na Biblioteca Municipal de Faro, António Ramos Rosa, em Faro, hoje, 11 de Novembro de 2016, pelas 18 horas, realiza-se uma interessante tertúlia sobre a figura de Aquilino Ribeiro. Evolução do Homem Republicano, com Celina Moura Arroz.

Excelente iniciativa recordando Aquilino Ribeiro que deu os primeiros passos na sua vida literária colaborando na imprensa algarvia.

Entrada Livre.

A.A.B.M.

domingo, 18 de janeiro de 2015

A RAZÃO DAS BIOGRAFIAS - POR MANUEL MENDES

 
 
[clicar nas fotos para ler]
 
MANUEL MENDES, “A Razão das Biografias”, inO Primeiro de Janeiro”, 19 de Outubro de 1966
 
NA FOTO (acima): Aquilino Ribeiro, Manuel Mendes, Ribeiro dos Santos e Oliveira Guimarães (no Chiado, Lisboa) - via Casa Comum, com a devida vénia
J.M.M.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

MEMÓRIAS ESQUECIDAS. A VIDA DO CAPITÃO ANTÓNIO BRAZ


AUTORA: Isabel Braz;
EDITORA: Chiado Editora, 2014, 526 p.

“Dizem que as crianças de hoje têm muita facilidade em lidar com as tecnologias, mas Isabel Braz lembra-se de, desde muito pequenina, saber exactamente como pôr a funcionar aquele gravador de bobines, de o rebobinar para voltar a ouvir o bisavô António Braz a falar das suas histórias passadas na Primeira Guerra Mundial, em Angola e depois em França. 'Os miúdos gostam de ouvir histórias' (…)

Assim começa o livro as Memórias Esquecidas - A vida do capitão António Braz (Chiado Editora) … : “O que eu mais temia concretizou-se praticamente três anos depois de ter iniciado a Grande Guerra. A ordem para mobilizar para França estava escrita nas minhas mãos (...) Parti de Elvas no dia 7 de Agosto de 1917”, escreve a bisneta, recriando os acontecimentos vividos por ele.

Quando terminou o livro, é como se Isabel Braz tivesse finalmente conseguido fazer a vontade ao bisavô que queria muito que alguém da família lhe escrevesse a vida, com princípio, meio e fim. Ele deixou muita coisa escrita em apontamentos, cartas, portais, mas achava-se sobretudo homem de factos, não se via capaz de contar uma história. O que deixou escrito em forma de livro, em 1936, fê-lo porque sentiu, naquele momento, que se impunha “repor a verdade”. O livro Como os Prisioneiros Portugueses foram Tratados na Alemanha, editado em 1935 pela Tipografia Popular de Elvas, é feito em resposta a Aquilino Ribeiro. Admirador do escritor, estava um dia a ler-lhe um escrito intitulado Alemanha Ensanguentada, sobre as impressões do escritor beirão durante uma viagem na Alemanha, no pós Primeira Guerra Mundial, quando, de repente, lê o testemunho de um alemão que tinha sido intérprete no campo de prisioneiros onde ele tinha estado, Breesen.

O alemão a quem Aquilino dava voz dava “a entender que entre nós havia rixas e desarmonias, o que não são factos verdadeiros. As horas tristes que passámos em cativeiro só nos permitiram ter sentimentos de solidariedade, estabelecendo elos de amizade que se vincularam pela vida fora. Quanto muito havia uma má disposição natural entre homens que tinham fome. Posso efectivamente testemunhar que a fome dá mau estar psicológico e uma irritabilidade difícil de disfarçar.”

Um dos documentos que deixou e que a família guardou documenta essa experiência no campo alemão, dando conta de como era meticuloso o capitão Braz. Criou um “gráfico da fome” onde diariamente foi apontando a sua perda de peso. O seu peso antes de ser preso era de 86 quilos. “A primeira vez que me pesei, no dia 10 de Julho, tinha 72 quilos, menos 14 quilos que o meu peso normal. Pesei-me de novo 16 dias depois e já só pesava 68 quilos.” (…)

Em vida, acabou por ver reposta “a verdade” sobre a realidade dos prisioneiros portugueses nos campos alemães pela pena do próprio Aquilino Ribeiro. Em Abóboras no Telhado, o escritor acaba por contar a versão dos presos portugueses, das condições difíceis lá vividas. Isabel Braz termina assim o livro que escreve como se fosse o bisavô: “Fiquei satisfeito com o que li e tranquilo por se fazer justiça. Aquilino era um homem de bem e não podia deixar em branco tamanha imprecisão.” O escritor repôs a verdade em vida, a bisneta contou-lhe a história.

[Ler TUDO AQUI]

J.M.M.

sábado, 13 de setembro de 2014

AQUILINO, O REGRESSO HÁ 100 ANOS


Aquilino, o regresso há 100 anos” – por António Valdemar, in Público

Aquilino voltou a Portugal há 100 anos. Regressava do primeiro exílio político. Estivera refugiado em Paris, devido à participação revolucionária contra a ditadura de João Franco. Integrou-se no grupo de outros exilados portugueses como Magalhães Lima, Luz de Almeida, Alves da Veiga, Leal da Câmara, também empenhados na militância ativa para implantar a República. A França, depois da história do Renascimento, ocupava um lugar equivalente ao da Grécia, na Antiguidade Clássica. Paris era, na síntese de Aquilino, outra Atenas – “sol e sal da terra, segunda pátria para os rebeldes que tiveram que perder a sua, Jerusalém de todos os sonhadores e aflitos”.

Todavia, de 1908 a 1914, Aquilino partilhou a festa da vida e as torrentes da cultura, conheceu as obras dos escritores, poetas e artistas plásticos já consagrados e alguns representantes das vanguardas. Privilegiou, acima de tudo, os primores do convívio e da amizade. Matriculou-se na Sorbonne para cursar estudos clássicos. Ouviu as preleções de Jerôme Carcopinau, de Bergson e outros mestres famosos.

Assistiu ao princípio da aviação e à generalização dos automóveis, embora os fiacres continuassem a circular nas ruas. Paris era um paraíso, que recordou nas Abóboras no Telhado e em Por Obra e Graça, ao traçar os perfis de Anatole, do pintor Manuel Jardim, do escultor Anjos Teixeira e outros intelectuais e artistas portugueses que Diogo de Macedo, também, evocará em 14, Cité Falguière. Ainda perdurava a belle époque, embora já se pressentisse a aproximação da Primeira Grande Guerra que virá flagelar a Europa.

Aquilino andou de livraria em livraria e de atelier em atelier, em Montmartre e Montparnasse. Frequentou um clube de políticos e letrados na Rue du Faubourg de Saint Honoré, o Café Voltaire, no Quartier Latin, no qual também se juntavam, assiduamente, os círculos republicanos. O café La Bohème, Deux Magos e La Cloiserie des Lilas, constituíam outros pontos de encontro obrigatório. Algumas vezes esteve no cais do Sena, próximo de Anatole France, quando ambos, em peregrinação, farejavam os alfarrabistas

A França, pátria de grandes figuras, despertou Aquilino para o sinal dos tempos, para a transformação das estruturas políticas e sociais. Anatole France foi um dos seus mestres raiz e suporte da sua formação cultural, libertária e racionalista, que o ajudou a transpor o formalismo do magistério dos jesuítas, no Colégio da Lapa, e o sarro teológico incutido no Seminário. Jamais esqueceu a exortação de Anatole dirigida aos jovens no Monte Latino: “não tenham medo de passar por utopistas, de arquitetar repúblicas imaginárias”. (…) “Não se preocupem em ser prudentes. A prudência é a mais vil de todas as virtudes.”

Conheceu, entretanto, nas aulas na Sorbonne, Grete Thiedeman que viria a ser a sua primeira mulher. A seu lado iniciou e concluiu, na atmosfera calma e erudita da Biblioteca de Sainte Genevieve, a redação dos contos que vão constituir o seu primeiro livro Jardim das Tormentas onde concilia o apelo forte da Beira Alta, com a sensualidade escaldante da Surflame, “uma dessas loiras do faubourg, frágeis, egípcias, sem ancas, quase sem peitos”, que fazia acreditar nos momentos bons do mundo.

Mais dois exílios, depois do golpe militar e ditadura instaurada em 28 de Maio de 1926, permitiram-lhe aprofundar, em França, uma cultura que decorre entre o hedonismo e o epicurismo, que se cruza com a emanação profunda da Beira agreste e cercada de isolamento.

Há 100 anos Aquilino Ribeiro, pouco depois de regressar, foi admitido, no ano letivo de 1914, como professor contratado do Liceu Camões, onde permanecerá até 1918. Residiu no Campo Grande, frequentou o Chiado, gozava férias na Idanha, próximo de Belas. Entre os que passaram pelas suas aulas no Liceu Camões destacam-se Marcello Caetano, Francisco Leite Pinto, duas figuras de proa do regime de Salazar. Mas, também, outras figuras que se vão evidenciar na oposição democrática como Henrique de Barros, a seguir ao 25 de Abril, primeiro presidente da Assembleia Constituinte

A experiencia pedagógica e o ambiente de Lisboa da época registou Aquilino na novela Domingo de Lázaro,  incluída na obra Estrada de Santiago, dedicada a Gualdino Gomes e onde saiu, pela primeira vez em livro, o Malhadinhas. Irá depois, a convite de Jaime Cortesão, para o quadro da Biblioteca Nacional. Constitui um outro período do seu percurso: a participação no grupo fundador da Seara Nova e a colaboração no Guia de Portugal, coordenado por Raul Proença.

Mas na sequência do Jardim das TormentasAquilino vai escrever e publicar, durante meio século, sessenta obras que marcaram a língua e a literatura portuguesas: dezassete romances; dez volumes de novelas e contos; livros de crónicas, ensaios, biografias, traduções, contos para crianças e jovens.

Muito brevemente será lançado pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), e edições Colibri, com prefácio de José Jorge Letria, o livro Aquilino visto por Urbano e para o qual dei um modesto contributo numa introdução e organização dos textos. Trata-se da edição de um conjunto de sete ensaios de Urbano Tavares Rodrigues em redor de um Aquilino numeroso e vário, criador de uma língua própria, voltado para grandes questões da condição humana, para a fugacidade do tempo, o peso da memória e, simultaneamente, para a defesa da República.

Hoje, 13 de Setembro, dia do aniversário natalício, Aquilino será evocado em Viseu, com várias cerimónias públicas e o lançamento de um volume dos cadernos aquilinianos, com inéditos e outros documentos políticos e literários. Novos contributos para lembrar o escritor que, à margem de escolas e cartilhas, defendeu os valores da liberdade e da cidadania, enquanto revelou o universo da Beira Alta, o comportamento das populações, os usos e costumes, a diversidade da fauna e da flora, os montes, os vales, os rios e outros elementos telúricos e humanos que definem a vida própria de uma região.

Aquilino, o regresso há 100 anos – por António Valdemar [Jornalista e investigador], jornal Público, 13 de Setembro de 2014, p.53 - sublinhados nossos.

J.M.M.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

VIDA CONTEMPORÂNEA (1934-1936)


VIDA CONTEMPORÂNEA. Revista Mensal de Estudos Económicos, Financeiros, Sociais e Literários. Ano I, nº 1 (Maio de 1934) ao Ano II, nº 24 (Abril de 1936); Propr. e Director: Cunha Leal; Editor e secretário da redacção: Victor Júdice da Costa; Admin: António Casanovas Augustine; Redacção: Rua Cidade da Horta, nº 19, 1º, Lisboa; Redactor Principal: Vasco da Gama Fernandes; Chefe da Redacção: Álvaro Machado; Impressão: Tipografia “A Renascença”, Lisboa (Imprensa Lucas & C.ª, Lisboa); 1934-36, 24 numrs

Colaboração: Abel Salazar, André Brun, Almada Negreiros, Almerindo Lessa, Álvaro Marinha de Campos, Armando Cortesão, Aquilino Ribeiro, Campos Lima, Carlos Amaro, César Ferreira, Cunha Leal, Fidelino de Figueiredo, Germano Rocha, Henrique Vilhena, Hipólito Raposo, José Lopes, Lobo Vilela, Manuel Maria Coelho, Moura Vitória, Nuno Rodrigues dos Santos, Pimenta da Castro, Salvado de Carvalho, Sebastião Ribeiro, Severo Portela, Vasco da Gama Fernandes
A revista Vida Contemporânea surgiu em Maio de 1934, ano marcado por eventos dramáticos em Portugal: a Revolta de Marinha Grande em 18 de Janeiro, a entrada em vigor da Constituição de 1933 e a realização das primeiras eleições, em 16 Dezembro, para a Assembleia Nacional. Perante estes momentos iniciais a consolidação do Estado Novo, a oposição ao regime, dividida e cada vez mais enfraquecida pela repressão, parecia mostrar-se incapaz de inverter a marcha dos acontecimentos propícia ao salazarismo nascente (…)

(…) O proprietário e director era o engenheiro Francisco Pinto Cunha Leal (1888-1970), chefe de ministério na Primeira República, antigo reitor da Universidade de Coimbra e opositor ao Estado Novo. O periódico nasceu na sequência do regresso de Cunha Leal de um dos seus exílios, resultantes justamente das actividades contra o regime político, institucionalizado com a Constituição de 1933. Esteve exilado desde 1930 na Galiza (Corunha), onde estabeleceu uma forte amizade com o líder nacionalista galego e futuro chefe do governo espanhol, Casares Quiroga. Aproveitaria a amnistia de finais de 1932 para regressar a Portugal e lançar a Vida Contemporânea, no conturbado ano de 1934 (…)

(…) O projecto educacional da revista torna-se um elemento de mobilização das elites da oposição, devido ao seu impacto cultural na sociedade portuguesa da época. Em 31 de Janeiro de 1935 realiza-se um almoço de confraternização, no Hotel Avis, com o objectivo explícito de organizar uma estrutura cultural destinada a propagandear as ideias de instrução pública. A expulsão, em Maio de 1935, de Francisco Pinto da Cunha Leal para Espanha, pelo governo do Estado Novo, esteve ligada à sua participação na falhada intentona, desse mesmo mês, em ligação com republicanos e nacionais sindicalistas (…)"

[LER MAIS AQUI - Júlio Rodrigues da Silva, “Cunha Leal e a Vida Contemporânea (1934-1936)” - sublinhados nossos]

 


A alma portuguesa caracteriza-se por uma doentia sensibilidade, que se manifesta por formas aparentemente contraditórias: por um lado, a exaltação hiperbólica das glórias do passado; por outro lado, a apreciação pessimista das misérias do presente. Somos como os velhos fidalgos excessivamente maltratados pelo destino, que se comprazem em exagerar a grandeza da sua queda, fazendo para isso subir a nível do ponto donde vieram e baixar o nível do ponto aonde chegaram. Somos ainda como o mendigo que, ao receber do transeunte parcamente caritativo a magra esmola, tem uma chama estranha a iluminar-lhe as pupilas e lhe diz com voz rouca e misteriosa: Ah! Se o senhor pudesse adivinhar o homem que eu já fui!
Há uma explicação plausível para êste modo de ser espiritual. A nossa história tem, como as histórias dos outros povos — nem mais, nem menos do que elas — altos e baixos, acções nobres e acções reles, façanhas heróicas e manifestações de poltronaria. Quiseram, porém, os fados que a trajectória portuguesa tivesse influenciado sobremaneira a evolução da civilização mundial e que, em grande parte, os nossos empreendimentos colectivos não estivessem em proporção com a nossa capacidade material, com as nossas possibilidades práticas de execução. Desta maneira, a história de Portugal surge como um fogacho, que se erguesse muito alto para logo quási se extinguir. Isto criou em nós a propensão para os sonhos épicos e para os contrastes bruscos da suma grandeza e da suma miséria.

Assim, pois, falta-nos equilíbrio espiritual e bom senso — qualidades aliás muito mais raras do que se supõe. Um exame de consciência, mesmo superficial, deve convencer-nos disso. Um grande esfôrço intelectual pode fazer-nos adquirir o sentimento das proporções, a noção das realidades universais, condição indispensável para que sejamos mais comedidos em quebrar a paz e sossêgo de que gozam nos sarcófagos das catedrais os 'barões assinalados' dos tempos idas e para que possam tornar-se menos desageitados e mais eficientes os homúnculos fabricados em série pela fraqueza genética da era contemporânea. Oxalá as gerações presentes e futuras ousem lançar ombros à obra de resgate espiritual e de renovação material, requerida imperativamente pelas circunstâncias! (…)"
[Cunha Leal, inNo Começo da Nossa Viagem", Vida Contemporânea, n.º 2, Junho de 1934 - sublinhados nossos]

FOTOS via FRENESI

J.M.M.

sábado, 23 de novembro de 2013

EL HOMBRE QUE MATÓ AL DIABLO – AQUILINO RIBEIRO


AQUILINO RIBEIRO – “El Hombre Que Mató al Diablo” [trad. A. González-Blanco], Madrid, Publicaciones Prensa Gráfica (1ª ed.), 20 de Setembro de 1924, 64 pags


Trata-se da absoluta edição original de uma novela a que, mais tarde, em 1930, Aquilino veio a dar uma forma literária diversa, expandindo-a para um romance com umas boas três centenas e meia de páginas

via FRENESI
 
J.M.M.
 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

AQUILINO RIBEIRO & RAUL PROENÇA [1921]


O meu avô Aquilino [Ribeiro] com o seu amigo Raul Proença, em 1921.

De Raul Proença, entre incomensuráveis qualidades, uma superlativa: a coordenação dos primeiros fascículos do "Guia de Portugal". Para mim será sempre o "Sr. Guia de Portugal", este extraordinário Raul Proença

[Aquilino Machado, via Facebook – com a devida vénia]
 
J.M.M.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

AQUILINO RIBEIRO [N. 13 SETEMBRO DE 1885]


Primeiro, uma declaração de interesses: tenho pelo meu grande mestre, uma relação onomástica e familiar. O meu mestre é também meu avô. Posto isto, aquilo que vos posso afiançar é que nada é comparável ao meu mestre, Aquilino Ribeiro.

Na sua vida, nada foi fácil: exílios em França, regresso clandestino, participação na Revolta do Regimento de Pinhel, prisões e fugas aventurosas. Tudo isto, e muito mais, até 1932. Tinha então, 47 anos.

Depois disto, sem outra fonte de receita que a dos seus livros, fez da sua vida uma labuta constante pela sobrevivência. A censura foi a sua pior ameaça. Inúmeras vezes a censura discricionária do regime fascista tolheu a difusão da sua lavra, demoradamente escrita pelo labor glorioso do seu trabalho.

A moldura da sua geografia sentimental encontra-se nas Terras do Demo. 'Eu sou um artista rude', diz ele, 'filho da minha serra. Nasce-se com o berço às costas. A Beira Alta não tem símile no mundo Em poucas dezenas de quilómetros reproduz-se a terra toda: amenidade e avareza, a colina e o vale, a civilização e a selvajaria'.

Mas construiu outras paisagens literárias, todas elas admiráveis e luminosamente belas. A mais perfeita e prodigiosa encontra-se no Alto Minho, 'no antigo solar de Montenegros e Meneses', onde terá criado o mais belo território romanesco da literatura portuguesa, “A Casa Grande de Romarigães”.

O meu grande mestre chama-se Aquilino Ribeiro. Nasceu há 128 anos, no dia 13 de Setembro

[FOTO e TEXTO de Aquilino Machado, via  Facebook, com a devida vénia - sublinhados nossos] 

J.M.M.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

AQUILINO RIBEIRO


"E o que fizeste senão defender a tua liberdade, a liberdade essa coisa que se não vê, mas se concretiza em ligeireza, confiança, autonomia mental, tonicidade da alma e que se respira como um segundo oxigénio?! Sim senhor, cumpriste o teu dever, mostrando-te digno de ti próprio. Afocinhaste, deixa lá, outra vez cantarás tu vitória ou os teus. A vida é feita de voltas e reviravoltas. Não tenhas pena!"

[AQUILINO RIBEIRO, pequeno excerto da novela "Antecipação", escrita em Romarigães: 1957, incluída na 2ª edição da "Maria Benigna", 1958].
 
 
J.M.M.

domingo, 30 de junho de 2013

GUIA DE PORTUGAL


GUIA DE PORTUGAL. Organização de Raul Proença [até ao vol II] e Sant’anna Dionísio. Oficinas Gráficas da Biblioteca Nacional de Lisboa [depois, a partir do vol III, Fundação Calouste Gulbenkian], Lisboa, 1924-1970, V vols em VII tomos [foi feita reedição de todos os volumes pela Fund. Calouste Gulbenkian – apresentação e notas de Sant’ana Dionísio]; responsável gráfico, Raul Lino.

A todos os que não desejam fazer perpetuamente justa a frase célebre de Montesquieu, ao dizer dos portugueses que tinham descoberto o Mundo, mas desconheciam a terra em que nasceram; este livro, inventário das riquezas artísticas que ainda se não sumiram na voragem, e das maravilhas naturais que ainda não conseguimos destruir, antologia de paisagistas, «vade-mecum» de beleza, roteiro dos passos dos portugueses enamorados, indículo das pequenas e grandes coisas, que requerem o nosso amor – pelo passado, pelo presente e pelo futuro – é Oferecido e Dedicado” [Raul Proençain edição primeva do I Vol., 1924] 

Trata-se de uma estimada obra de trabalho/memória colectiva, de minuciosos estudos monográficos, de grande valia e merecimento, levada a cabo pela iniciativa dinamizadora e o espírito luminoso de RAUL PROENÇA [vide o Prefácio, pelo próprio Raul Proença, no volume inaugural, publicado em Novembro de 1924 ou o curioso prefácio do II volume – 1927 -, já com Raul Proença perseguido pela Ditadura Militar e o Fascismo], quando Jaime Cortesão dirigia a Biblioteca Nacional, e que teve o apoio do “Grupo da Biblioteca” [António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Câmara Reys e Raul Brandão] e o grupo da “Seara Nova” [cf. João B. Serra – ler texto AQUI].

O GUIA DE PORTUGAL [“monumento de patriotismo cultural” – cf. José Rodrigues Miguéis, “Uma Flor na Campa de Raul Proença"] contou com COLABORAÇÃO de valiosos autores, especialistas nos mais diversos domínios, os “melhores do seu tempo”, como:

A. Nogueira Gonçalves, Aarão de Lacerda, Abade de Baçal, Afonso Lopes Vieira, Alberto Oliveira, Almeida Fernandes, Amorim Girão, António Mendes Madeira, António José Teixeira, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Azevedo Gomes, Brito Camacho, Carlos Selvagem, Carrington da Costa, Diogo de Macedo, Egas Moniz, Eugénio de Castro, Félix Alves Pereira, Ferreira de Castro, Francisco Keil do Amaral, Garcês Teixeira, Gustavo Matos Sequeira, Hernâni Cidade, J. Pereira Barata, Jaime Cortesão, João Barreira, João de Barros, Jorge Dias, José de Figueiredo, José Rodrigues Migueis, Júlio Dantas, Luís Teixeira de Sampaio, Manuel Oliveira Ramos, Miguel Torga, Montalvão Machado, Orlando Ribeiro, Paulo Freire, Pedro Vitorino, Pina de Morais, Raul Brandão, Raul Lino, Reynaldo dos Santos, Rocha Madahil, Ribeiro de Carvalho, Rodrigues Lapa, Sant’ana Dionísio, Sarmento de Beires, Sarmento Pimentel, Silva Teles, Teixeira de Pascoais, Tomás da Fonseca, Vergílio Correia, Vítor Guerra, Vitorino Nemésio.

ORGANIZAÇÃO:

- I vol: “Generalidades. Lisboa e Arredores”, 1924 [org. por RAUL PROENÇA];

- II vol: “Estremadura, Alentejo e Algarve”, 1927 [org. por RAUL PROENÇA];  

- III vol: “Beira Litoral, Beira Baixa e Beira Alta”, 1944 [org. por “um grupo de amigos de Raul Proença” (R. P. morre a 20 Maio de 1941), que assinavam, Afonso Lopes Vieira, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Câmara Reys, Ferreira de Castro, Raul Lino, Reynaldo dos Santos, Samuel Maia e Sant’Anna Dionísio” e sob coordenação de Sant’ana Dionísio [a reed. do III vol dividiu-se em 2 tomos: tomo I (1993), “Beira Litoral” e tomo II (1994), “Beira Baixa e Beira Alta”];

- IV vol: “Entre Douro e Minho”, 1964/1965 [II tomos: I (1964), “Douro Litoral” e II (1965) “Minho”] [org. por Sant’ana Dionísio];

- V vol: “Trás-os-Montes e Alto Douro”, 1969/1970 [II tomos: I (1969), “Vila Real, Chaves e Barroso” e II (1970) “Lamego, Bragança e Miranda”] [org. por Sant’ana Dionísio].
 
FOTO via IN-Libris
 
J.M.M.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

HOMENAGEM A AQUILINO RIBEIRO NA ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA

Realiza-se amanhã, 23 de Maio, na Academia das Ciências de Lisboa (sessão conjunta da Classe de Letras e Ciências), uma sessão de homenagem à memória de Aquilino Ribeiro, pelas 15 horas, assinalando o cinquentenário da sua morte.

São oradores convidados para a ocasião os académicos Mário Soares, António Valdemar e Manuel João Lemos de Sousa.

Uma sessão a não perder para os apreciadores de Aquilino Ribeiro e para todos os interessados na cultura portuguesa contemporânea.

A.A.B.M.

terça-feira, 30 de abril de 2013

HOMENAGEM À MEMÓRIA DE AQUILINO RIBEIRO


CONFERÊNCIA: "Homenagem à Memória de Aquilino Ribeiro por ocasião do Cinquentenário da sua Morte.

ORADOR: Mário Soares, António Valdemar e Manuel João Lemos de Sousa;
DIA:
23
de Maio (15 horas);
LOCAL: Academia das Ciências de Lisboa;

“A palavra foi para Aquilino Ribeiro o espelho do mundo: uma expressão de vida e de cultura, um instrumento de trabalho, de realidade e de ficção; um encontro permanente com as raízes; e uma descoberta contínua das virtualidades da língua portuguesa. Fez da literatura – caso muito raro entre nós – um ofício em tempo inteiro e empenhou-se na dignidade da condição social do escritor e do seu estatuto profissional (…)

As atribulações da militância política no final da Monarquia e contra o regime de Salazar não conseguiram ofuscar o prestígio de Aquilino Ribeiro. A Academia da Ciências de Lisboa sempre lhe reconheceu os altos méritos. Atribui-lhe, em 1933, o Prémio Ricardo Malheiros ao livro As Três Mulheres de Sansão; admitiu-o, em 1935, como sócio correspondente; elevou-o, em 1958, e por unanimidade, a sócio efectivo. Também partiu da classe de Letras da Academia das Ciências a comemoração, em 1963, das bodas de ouro do primeiro livro, Jardim das Tormentas, prefaciado por Carlos Malheiro Dias.

O jubileu do escritor foi um acontecimento memorável em todo o País, interrompido pela morte inesperada que o surpreendeu a 27 de Maio de 1963, em plena apoteose literária. Decorria, entretanto, uma mobilização nacional e internacional para que lhe fosse atribuído o Prémio Nobel da Literatura”

[António ValdemarLER AQUI]
 
J.M.M.

quinta-feira, 28 de março de 2013

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

CINQUENTENÁRIO DA MORTE DE AQUILINO RIBEIRO


CICLO AQUILINO – CINQUENTENÁRIO DA MORTE


1ª Sessão – “Aquilino – O Homem e o Escritor

DIA: 25 de Fevereiro 2013 (18,30 horas);
LOCAL: Panteão Nacional (Lisboa);
MODERAÇÃO: Luís Machado.

J.M.M.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

EXPOSIÇÃO AQUILINO DESCONHECIDO, EM FAMALICÃO



Está patente, desde o passado dia 4 de Janeiro até ao próximo 31 de Março de 2011, no Museu Bernardino Machado, em Famalicão, uma exposição sobre Aquilino Ribeiro.

Pode ler-se na apresentação:

Exposição de homenagem ao escritor Aquilino Ribeiro (1895-1963)
Composta por doze telas que apresentam uma cronologia da vida e obra do escritor através de textos, ilustrações com documentos e fotografias do escritor em diferentes fases da sua vida, assim como depoimentos do autor em relação a acontecimentos específicos do seu percurso.


Horário
Terça a sexta-feira: 10h00 às 17h30
Sábado e Domingo : 14h30 às 17h30
Encerrado: 2.º feira e feriados


Uma iniciativa a não perder em Famalicão, onde o Museu local está a demonstrar um dinamismo assinalável e digno de menção.

A.A.B.M.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

AQUILINO RIBEIRO - CASAMENTO (27 JUNHO DE 1929)


Aquilino Ribeiro casou em segundas núpcias [a sua primeira esposa foi Grete Tiedemann, mãe do seu filho mais velho, e que morre em 1927] com D. Jerónima Rosa Dantas Machado, filha de Bernardino Machado.

A foto que apresentamos, retirada, com a devida vénia, do blog Bernardino Machado, retrata o casamento de Aquilino realizado a 27 de Junho de 1929.

consultar a foto original AQUI.

J.M.M.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

REGICÍDIO - UM TESTEMUNHO "SUSPEITO" (CONCLUSÃO)




Neste artigo final, com extractos dos textos publicados por Aquilino Ribeiro em 1922 e 1923, na revista Seara Nova, procuramos trazer a público as impressões, que um dos participantes directos nos acontecimentos, deixou como testemunho. Sabemos de antemão que não é imparcial nas suas análises, mas é um autor muito conhecido e que no ano passado o Almanaque Republicano dedicou alguma atenção a propósito da trasladação dos seus restos mortais para o Panteão Nacional.

Hoje pegamos no artigo publicado em 1 de Março de 1923, no nº 9, da referida revista, p. 226-229, para retirarmos algumas opiniões de Aquilino Ribeiro sobre D. Carlos e a família real. Dizia então Aquilino:

[...] Um rei com mão forte e inteligente poderia ter desviado o curso dos acontecimentos, e ter aproveitado essa pleiade que se nirvanizou ou se perdeu em guerrilhas singulares? De certo. Mas tudo se conjurava para que D. Carlos não fôra esse príncipe necessário e salvador.
Era um Bragança na acepção pejorativa do nome. «Os meus defeitos procedem de duas causas: - confessava ele, segundo os termos de Ramalho [Ortigão] - primeira, a hereditariedade na gestação do meu ser; segunda, a influência do meio em que nasci e me criei». Em D. Carlos, a matéria vibrátil - aquela sua timidez nativa, gosto da comodidade, prespicácia que não inteligência, bonomia pachorrenta e tolerante, todo aquele «não te rales» para tudo o que estivesse fora da sua esfera particular, pois aí não arregimentada a usos e preceitos, a sua actividade mostrava-se viva e expedita - era de todo Bragança. Coburgo no físico, na sensibilidade e carácter neto bem herdado daquele a quem a esposa bradava, num acesso de cólera contra o pusilânime: antes rainha uma hora que duquesa a vida inteira.

Tão pouco teve a educação do príncipe providencial. Qual poderia ser? De certo não essa que lhe ministraram, mecânica de todo, sem presa na alma, Tito Lívio, as armas, a dança, as línguas, de mistura com esse leccionário, todo de vitral, depressivo que não elevador, das glórias passadas dos seus avós e vassalos dos seus avós. Estou a ver o professor de história percorrer com dedo trémulo o mapa, em que poucas são as enseadas e terras remotas, que, no dizer de Vieira, se não infamassem do sangue português. Estou a ver o velho António Augusto de Aguiar penetrando-se e ao discípulo do veneno subtil que levanta o sacudir de todos esses brocados e nobres velharias duma história majestosa. E sinto o adolescente encher-se de ânsia e de inconsolável amargura. [...]


Estava-lhe na massa do sangue esse desinteresse pela causa pública, senão fastio atávico, que a pedagogia ad usum Delphini não saberia corrigir, e um concurso de cousas, uma péssima herança tanto social como política, a noção de pequenez da sua terra, ao compará-la - a piolheira - com outras de intenso trato e vulgo desconforme, noção que conta para todo o portuguesinho e muito mais para um neto de megalómanos, e desalenta, isso e a peia constitucional, esse temível contra-senso que ou torna o soberano logro dos governantes ou o povo logro de soberano, sempre em prejuizo do povo, vieram agravar esse mal ingenito dos Braganças - o desdém pela grei. Podia a Corte, como um crisol de nobreza e virtude, depurar esses vícios de de conformação ou externos do príncipe. Mas a Corte, espelho fiel daquela que cem anos antes Mme. Junot cobriu de ridículo e seu marido de ultrajes, carecia de inteligência e tacto diplomático e até de graça. Exultando parvoinhamente, tanto se não mais que o governo então no poder, subscreveu ao casamento de D. Carlos com D. Maria Amélia de Orleans, destronada e odiosa ao piovo sobre que reinou muitos séculos. E erro foi este com repercussões nefastas na vida doméstica dos Braganças e nos negócios políticos e internacionais da nação.

Uma maquinação surda, de longo folego, simulaneamente empenhada junto do princípe e da princesa, devia determinar essa aliança que a cortesania fácil baptisou de romance de amor. [...]


No domínio da política internacional, o consórcio Bragança-Orleans foi um lamentável desvio. Sob o ponto de vista de política interna, teve também a sua repercussão perniciosa, se não tão sensível, não menos eficiente. D. Carlos, se não era um liberal determinado, não vergava também aos preconceitos religiosos dos seus avós. Não era papa-hóstias como a caterva de D. Joões, nem um timorato perante os juizos de Deus como D. Pedro. Em alguma coisa, já que não em riquezas ou prestígio, devia ser herdado D. Carlos pela linha materna. Às cerimónias religiosas concorria como rei por obrigação. Escreveu Guerra Junqueiro, não sei com que fundamento, que, enquanto se celebravam exéquias por alma do pai, D. Carlos caçava.

Não era fanático, a princesa, ao contrário, conservava viva a tradição de piedade e de fervor que reinavam na família. D. Carlos tinha recebido uma acção educação laica, ministrada por homens que professavam as liberdades do século; D. Maria Amélia tinha sido formada pelas irmãs do Sacré-Coeur.[...]


Na personalidade de D. Carlos há todavia uma distinção a fazer: o rei e o homem. O rei era péssimo, o homem, pelo que li, pelo que ouvi, era óptimo.

No Campo das Salésias pude divisá-lo à vontade seguindo com visível desvanecimento e orgulho as evoluções duma companhia de artilharia, ao lado de Kaiser Guilherme II, seu hóspede. Era um homem sólido, de estrutura maçiça sobre o obeso, todavia não desprovido de agilidade. Pisava com facilidade e potência. Olhos móveis e maliciosos; filamento vermelhos de sangue a sulcarem-lhes a tez rósea do rosto, duma gordura reluzente e simpática; cabelos com leves relfexos ruivos, ligeiramente encaracolados. Em tudo um desses Coburgo que veem nas oleografias, cada vez mais acentuado à medida que os anos passavam por ele.

Guardei esta imagem do homem, a qual, mais tarde, quando a paixão política arrefeceu e me deixou a faculdade de exame, veio ilustrar luminosamente actos seus do domínio particular, tornados públicos, de bonomia, de delicadeza, de compreensível altivez.


Nos próximos dias propomo-nos continuar a trazer outras fontes da época e os acontecimentos vistos por outros intervenientes. Para concluir propomo-nos elaborar uma bibliografia detalhada sobre os acontecimentos, desde a época até aos nossos dias.

A.A.B.M.