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terça-feira, 11 de junho de 2013

DR. EDUARDO MAIA (PARTE II)

Existe uma curiosa carta de Nobre França a Friedrich Engels, datada de 24 de Junho de 1872 [Cf. Carlos da Fonseca, Integração e Ruptura Operária. Capitalismo, Associacionismo, Socialismo (1836-1875), Editorial Estampa, Lisboa, 1975, que publica um conjunto interessante de documentação operária desse período] em que ainda era estudante de medicina e o autor da carta o reconhece como tendo sido o autor de uma folheto que circulava anónimo, sobre a Comuna de Paris, que se publicou em Lisboa, intitulado A Comuna de Paris vista por um Verdadeiro Liberal. Além disso atribui-lhe a colaboração regular no jornal Pensamento Social, com vários artigos publicados ao longo da existência da publicação.

A saída de Eduardo Maia do republicanismo federal para o anarquismo terá acontecido devido às influências que sobre ele exerceu Tomás Gonzalez Morago, que juntamente com Francisco Mora e Anselmo Lorenzo estiveram em Portugal em 1871, numa missão para criar a secção portuguesa da Associação Internacional dos Trabalhadores. Esta acção foi importante, porque se estima que um ano depois desta viagem existiriam, em Portugal, vários milhares de aderentes, contando a região de Lisboa com 10 000 aderentes e 8 000 no Porto. Além da influência de Morago também se refere a leitura dos jornais anti-autoritários acabaram por influenciar a sua aberta adesão ao anarquismo sobretudo na sua linha bakunineana, tornando-se no fundador da corrente anarquista pós-proudhoniana em Portugal.

Anos mais tarde, Silva Pinto recorda-o num pequeno parágrafo, onde afirma: “Foi meu companheiro no período do jacobinismo. Depois perdi-o de vista e de notícia, até vir encontrá-lo, muito mais tarde, rico, médico e chamando nomes feios e deprimentes a Sousa Martins. Toda a gente se riu; eu não tive tempo para chorar.” [Cf. Silva Pinto, Pela Vida Fora: 1870-1900, Livraria Editora Guimarães, Libânio & Cª, Lisboa, 1900, p. 125].

Em 1876 é um dos responsáveis pelo discurso feito à beira da sepultura de José Fontana aquando da sua morte [cf. João Medina, As Conferências do Casino e o Socialismo em Portugal, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1984, p. 251-255].

A partir de 1879, Eduardo Maia adere ao anarco-comunismo de Kropotkine e segue a linha do jornal francês Le Revolté.

Em Abril de 1887 integra o Grupo Comunista-Anarquista de Lisboa, que publica o jornal Revolução Social e onde se destacaram personalidades como Hermenegildo António Martins, João António Cardoso, José Bacelar e Tiago Ferreira.

O Dr. Eduardo Maia escreveu, em 1888, um opúsculo de 32 páginas intitulado "Autoridade e Anarquia. Carta ao Exmo Sr. Conselheiro M. Pinheiro Chagas", rechaçando a impostura que se escondia por trás do episódio: “Agonia da monarquia” de que era porta-voz no parlamento e na imprensa o conhecido escritor e jornalista Manuel Pinheiro Chagas. Este tinha sido agredido pelo operário Manuel Joaquim Pinto, devido aos insultos que tinha dirigido a Louise Michel, a heroína da Comuna de Paris.

Em 1890 foi candidato a deputado pelo partido republicano pelo círculo eleitoral de Setúbal. Deve assinalar-se que os resultados eleitorais obtidos foram surpreendentes: pela primeira vez, o candidato republicano conquistou uma expressiva votação no círculo 80. Analisando com maior detalhe verifica-se que o Dr. Eduardo Maia ganhou na cidade de Setúbal, com 956 votos, contra 502 do seu adversário. Mesmo no concelho de Setúbal, o Dr. Eduardo Maia, com 1.077 votos, aproximou-se bastante do engenheiro Augusto Carlos Sousa Lobo Poppe (1850-1892), candidato do Partido Regenerador, que obteve 1.325. Por seu lado, no concelho de Alcácer do Sal, concelho que também integrava o círculo eleitoral de Setúbal, por acção do caciquismo local, em particular, devido ao papel importante de José Maria dos Santos, o candidato do Partido Regenerador alcançou uma expressiva vitória no concelho com 1266 votos, contra 52 no candidato republicano.

Em 1892 acabou por não se apresentar como candidato a deputado por Setúbal, por não estarem reunidas as condições necessárias para se conseguir a eleição de um candidato republicano, mas indicou aos seus votantes que deveriam votar em João Pinheiro Chagas. Nestas funções políticas, desenvolveu comícios e reuniões populares, destacando-se a sua facilidade de contacto com os mais pobres, ajudando os operários com mais parcos poderes sem exigir qualquer pagamento.

Foi também um dos sócios envolvidos por Sebastião de Magalhães Lima na criação do jornal Vanguarda em 1891, contribuindo com o seu poder económico para consolidar a empresa jornalística ligada aos republicanos.

Em 1894 pertencia ao grupo Revolução Social, de que era animador juntamente com J. M. Gonçalves Viana.

No dia 27 de Janeiro de 1897, foi acometido de uma congestão cerebral, que acabou por o levar ao falecimento em 3 de Fevereiro de 1897, com 52 anos. No seu funeral, realizado civilmente, para o cemitério do Alto de S. João, discursaram junto ao féretro Manuel José Martins Contreiras, Gomes da Silva, Faustino da Fonseca, Martins Vagueiro, Agostinho da Silva, António Maria de Miranda e Brito, e Augusto de Figueiredo.
Foi seu testamenteiro Augusto César Correia.

Publica:
- A Comuna por um verdadeiro liberal: A origem da 1ª Internacional, Lisboa, Typ. Do Futuro, 1871;
- A Internacional, Sua História, Sua Organização e seus Fins, Lisboa, 1873;
- Da Propriedade (Conferência), Lisboa, 1873;
- A Autoridade e a Anarquia. Carta ao Exmo Sr. Conselheiro M. Pinheiro Chagas, Lisboa, 1888 (2ª ed., Porto, Tip. Insular, 1907)


Colabora nas seguintes publicações periódicas:
- Noventa e Três
- Pátria
- Partido do Povo
- O Pensamento Social
- O Protesto
- Povo Republicano
- O Rebate
- O Revoltado,  Lisboa, 1897;
- O Século:
- Sufrágio Universal
- Transmontano
- Vanguarda

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:
Diário de Lisboa, 04-02-1897, Ano 26, nº 8578, p. 1, col. 4;
Vanguarda, Lisboa, 04-02-1897, Ano II (VII), nº 84 (2029), p. 1, col. 6; p. 2, col. 1;
Voz Pública, Porto, 04-02-1897, Ano 8, nº 2101,  p. 2, col. 7;

FONSECA, Carlos da, A Origem da 1ª Internacional em Lisboa, Editorial Estampa, 1973;
FONSECA, Carlos da, Integração e Ruptura Operária. Capitalismo, Associativismo e Socialismo (1836-1875), Editorial Estampa, Lisboa, 1975;
MEDINA, João, As Conferências do Casino e o Socialismo em Portugal, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1984;
PINTO, Silva, Pela Vida Fora: 1870-1900, Livraria Editora Guimarães, Libânio & Cª, Lisboa, 1900.

A.A.B.M.

domingo, 2 de junho de 2013

DR. EDUARDO MAIA (PARTE I)

Nasceu em Alijó, distrito de Vila Real, a 8 de Janeiro de 1845.

Ingressou na Escola Médico Cirúrgica de Lisboa, onde apresentou a sua tese subordinada ao título Ruptura do Útero, sendo presidente do jurí José Eduardo de Magalhães Coutinho e como examinadores Manuel Nicolau Bettencourt Pitta, Pedro Francisco Alvarenga, Joaquim Teotónio da Silva e José Gregório Teixeira Marques. Enquanto estudante de medicina, curso que  fez com o apoio dos irmãos e durante o qual se dedicou ao ensino secundário.

Exerceu actividade clínica em Lisboa, tendo inicialmente um consultório homeopático e a partir de 1882 instala-se no Hotel da Saúde, a Rua Saraiva de Carvalho.

Foi um dos fundadores da Associação do Registo Civil em 1876. Além disso foi ainda um dos fundadores da Federação Académica de Lisboa.

Casou em 9 de Setembro de 1877 com Júlia de Faria Maia, celebrando-se a cerimónia na Igreja de S. Nicolau.

Desde muito cedo envolvido na vida política, colaborando na imprensa política da época, em particular a republicana, mas também a socialista e anarquista. Participando no Centro Promotor dos Melhoramentos das Classes Laboriosas foi convidado, em 1872, a participar como relator, na comissão redactora dos novos estatutos para a associação operária juntamente com José Fontana, Sousa Brandão, Nobre França e Luís Eça. Esses estatutos foram aprovados em reunião de 8 de Março de 1872. A propósito, o Dr. Eduardo Maia, assume em 1873, a sua função de membro da secção portuguesa da Associação Internacional dos Trabalhadores e um dos primeiros anarquistas do País, publica nesse ano A Internacional, Sua História, Sua Organização e seus Fins. Colaborando no jornal República Federal, que se publicou em Lisboa que saúdam com entusiasmo a proclamação da República em Espanha em 12 de Fevereiro de 1873. Nessa fase viu dois dos seus artigos serem querelados judicialmente pelas autoridades, facto que demonstra a dureza dos seus escritos. Sabe-se que o Dr. Eduardo Maia esteve também ligado ao primeiro directório do partido republicano, mas que rapidamente se desvinculou do mesmo devido às várias cisões internas a que se assistiram nesse período. Terá participado nas reuniões iniciais mas depois afastou-se desta agremiação política. Era ainda um dos elementos da tertúlia que habitualmente se reunia na Livraria Nova Internacional de Carrilho Videira, juntamente com Silva Pinto, Nobre França, Silva Lisboa e Martins Contreiras.

O seu percurso político inicia-se com o republicanismo federal depois envereda pelo socialismo libertário. Após o congresso da Associação Internacional de Trabalhadores realizado em Haia, em 1872, Eduardo Maia desenvolve claramente uma actividade libertária, convertendo-se mesmo ao anarco-comunismo de Kroptkine, em 1879, facto que assume com naturalidade, mas que é muito criticado pela sociedade do seu tempo, quando essa situação era extremamente rara.

O falecimento do Dr. Ayres Maia, em 1874, irmão de Eduardo Maia e, tudo indica, o primeiro funeral civil que se realizou em Lisboa. Esta situação acabou por gerar alguma polémica, pois no jornal Nação, surgiram alguns artigos do pároco de Santa Justa criticando esta situação e sobretudo o aproveitamento feito pelos defensores do Registo Civil. A estas publicações respondeu o Dr. Eduardo Maia com a publicação de uma carta opúsculo em que defendia a memória do irmão falecido.

[em continuação]

A.A.B.M.