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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

OS QUATRO AVISOS DE D. PEDRO: 600 ANOS DE ACTUALIDADE


 
Os quatro avisos de D. Pedro:600 anos de actualidade” – por António Valdemar, in Público

 A vocação da política do Atlântico e da política da Europa voltam a estar na ordem do dia e constituem tema de debates nacionais e internacionais. A descolonização (inevitável mas tardia) e a entrada (necessária e urgente) na União Europeia recolocaram, uma controvérsia que tem percorrido os séculos, que dividiu e continua a dividir henriquistas e pedristas.
Todas as homenagens foram prestadas ao infante D. Henrique mas está por fazer a reparação devida à memória de D. Pedro, traído e assassinado, às portas de Lisboa, o cadáver, entregue à voracidade dos cães e dos milhafres, a apodrecer dias e dias seguidos, nos campos de Alfarrobeira. Só muito depois teve sepultura, ao lado dos pais e dos irmãos, na Capela do Fundador, no mosteiro da Batalha.

Ínclita geração de altos infantes assim celebraram Os Lusíadas, os filhos legítimos masculinos de D. João I e de Filipa de Lencastre. Além deste verso emblemático, Camões tem outras referências ao Infante D. Henrique e ao Infante D. Pedro, ambos classificados de «generosos», na acepção peculiar atribuída a esta palavra, entendida como genuína estirpe e elevada linhagem. Mas Fernando Pessoa, na Mensagem, já definiu particularidades que singularizaram cada um dos infantes. D. Henrique, surge n'A Cabeça do Grifo «entre o brilho das esferas/ tem aos pés o mar novo e as mortas eras,/ o globo mundo em sua mão». D. Pedro, o infante das «sete partidas», destaca-se «fiel à palavra dada e à ideia tida,/ claro no pensar e claro no sentir/e claro no querer/indiferente ao que há em conseguir/que seja só obter».
Pessoa apresentou nestes termos os protagonistas da política do Atlântico e da política da Europa. D. Fernando, na caracterização de Pessoa, ficou «sagrado em honra e em desgraça».
 
Nada mais exato. Assim o descubro nas tábuas do políptico de São Vicente de Fora. E qual o retrato de D. Duarte? Pessoa é muito explícito. É o rei que se debate com as angústias interiores, as lutas familiares e as discórdias conjunturais: «A regra de ser rei/ almou meu ser/em dia e letra /escrupuloso e fundo./Firme em minha tristeza/ tal vivi./Cumprir contra o destino/ meu dever/ inutilmente?/ Não, porque o cumpri».

 
Robert Ricard, no estudo L’Infant D. Pedro de Portugal et “O Livro da Virtuosa Bemfeitoria”, resumiu tópicos essenciais da Carta de Bruges enviada, em 1426, pelo Infante D. Pedro ao seu irmão D. Duarte, antes de ocupar o trono. A Carta de Bruges assenta nos conhecimentos recolhidos, vividos e comprovados por D. Pedro ao percorrer, demoradamente, a Europa, nos contactos em várias cortes, a estabelecer relações diplomáticas e politicas para a consolidação da independência de Portugal após a crise de 1383-1385 e a expedição a Ceuta, em 1416.
A viagem foi, ainda, decisiva para a acção que o infante D Henrique viria a desempenhar. Sem os livros e os mapas, trazidos pelo infante D. Pedro, a aproximação com os cartógrafos judeus e outras informações náuticas e científicas, o infante D. Henrique nunca teria iniciado e prosseguido os descobrimentos marítimos, a expansão de Portugal no mundo. Enquanto D. Pedro, em complementaridade com a política do Atlântico, lançou as bases da política da Europa, cruzamento de afinidades geográficas e de vínculos históricos para formar, acima das pátrias, a união de todas as pátrias, uma consciência universal para o salto qualitativo, na aproximação com as realidades. Encerrado o ciclo do império colonial, representou a solução estratégica para a modernização e desenvolvimento do País, a identificação com os valores da cultura europeia e da civilização ocidental, a busca de um modelo político, económico e social, para superar fatalidades periféricas, egoísmos nacionais e opções paralisantes.

Por outro lado, a Carta de Bruges, um dos textos doutrinários do pensamento político, enumera directrizes para a correcta administração pública e dos serviços públicos. O infante D Pedro recomendava a D. Duarte, quando tivesse de assumir funções:  «O governo do Estado deve basear-se nas quatro virtudes cardeais e,  sob esse ponto de vista, a situação de Portugal não é satisfatória. A força — começa por indicar — reside em parte na população; é pois preciso evitar o despovoamento, diminuindo os tributos que pesam sobre o povo».
Pondera, noutro passo: «Impõem-se medidas que travem a diminuição do número de cavalos e de armas. É preciso assegurar um salário fixo e decente aos coudéis, a fim de se evitarem os abusos que eles cometem para assegurar a sua subsistência». Exemplifica: «É necessário igualmente diminuir o número de dias de trabalho gratuito que o povo tem de assegurar, e agir de tal forma que o reino se abasteça suficientemente de víveres e de armas». Para verificar incumprimentos de objectivos sugeria: «uma viagem de inspecção, atenta a estes aspectos, deveria na realidade fazer-se de dois em dois anos».

A justiça era outra das causas que mobilizavam D. Pedro. Tinha a convicção (e provas inequívocas) que a Justiça «só parece reinar em Portugal no coração do Rei [D. João I] e de D. Duarte; e dá ideia que de lá não sai, porque se assim não fosse aqueles que têm por encargo administrá-la comportar-se-iam mais honestamente. A justiça deve dar a cada qual aquilo que lhe é devido, e dar-lho sem delonga. É principalmente deste último ponto de vista que as coisas deixa a desejar: o grande mal está na lentidão da justiça».
Outra questão que preocupava D. Pedro mereceu este oportuno conselho: «um dos erros que lesam a prudência é o número exagerado das pessoas que fazem parte da casa do Rei e da dos príncipes. De onde decorrem as despesas exageradas que recaem sobre o povo, sob a forma de impostos e de requisições de animais. Acresce que toda a gente ambiciona viver na Corte, sem outra forma de ofício».
 
 

Quase 600 anos depois, deparamos os mesmos condicionalismos estruturais. Todos sabemos que os cavalos são outros. São outros os coudéis. E também são outras as bestas. Mudaram, apenas, algumas denominações, transportes e indumentárias. Se a situação de Portugal não era satisfatória confrontámo-nos com uma situação abaixo dos limites aceitáveis. Os últimos governos encerram empresas e fábricas, revogaram contratos, despediram milhares e milhares de trabalhadores. Houve a emigração de desenhas de milhares de jovens qualificados. Foram anuladas conquistas fundamentais na saúde, na educação, na segurança social e na cultura. Agravaram impostos. Atingiram rendimentos e bens reais ou potenciais. Acentuaram o espírito punitivo, com raízes na Inquisição e na PIDE. A banca encontra-se desmantelada. Responsáveis impunes, em liberdade, a coberto de atestados médicos, pagos a peso de ouro.
Portugal está subjugado ao Fundo Monetário Internacional, à Comissão Europeia, ao Banco Central Europeu, a multinacionais de telecomunicações e de comunicação. Vivemos sob a ameaça da divida e o terror do défice, que têm de ser reestruturados, a fim de promover crescimento e gerar emprego. A multiplicação de homicídios, abusos sexuais, violência doméstica, roubos, falsificação de documentos, fraudes fiscais, subornos, corrupção e outros crimes económicos e financeiros, requer a operacionalidade da Justiça, a dignificação da magistratura, a eficácia e funcionamento de todos os Tribunais. E em todas as instâncias. Mesmo do Tribunal de Contas e do Tribunal Constitucional. O grande mal da lentidão da justiça, prolonga-se inaceitavelmente. Ultrapassa a morte de centenas de injustiçados. Favorece as prescrições de processos escandalosos.

Mantém-se o «número exagerado de pessoas» ao «serviço do rei e dos príncipes». Sempre os mesmos e que se revezam e aumentam em cada governo, em cada autarquia, em cada legislatura. Chamam-se assessores, técnicos especialistas, facilitadores, intermediários, a trupe dos aparelhos partidários, gente ociosa e incapaz de «outra forma de ofício». Instalados em escritórios de advogados e gabinetes de consultores, para justificar negócios, planear manipulações, exercer tráfico de influências constituem a praga do favoritismo descarado e o vírus da intriga permanente.
Volvidos 600 anos, após a Carta de Bruges, perduram as lacunas, os defeitos, os vícios que inviabilizam perspectivas para impedir os desgastes da rotina e estagnação. A análise e a hierarquização feitas por Robert Ricard não tiveram em vista abranger os governos dos últimos vinte, trinta ou quarenta anos. Datam de 1953. Daí ganharem mais amplitude e significado as advertências de D. Pedro ao rei D. Duarte e a todos quantos lhe sucederam em monarquia ou aos chefes de estado em regime republicano.

Revejo D. Pedro, nestes momentos de crise e incerteza, no poema que lhe consagrou Sophia: nunca choraremos bastante nem com pranto/assaz amargo e forte/aquele que fundou glória e grandeza/e recebeu em paga insulto e morte. Este foi e é o meu D Pedro que regulamentou o povoamento da ilha de S. Miguel, que sempre o desconheceu e levantou outras estátuas. Reencontro-o, mais uma vez, tão vivo quanto o seu legado permanece por cumprir. Modelo de cidadania activa, de aposta continua no futuro e luta aberta contra as mãos sujas da corrupção.

Os quatro avisos de D. Pedro: 600 anos de actualidade – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], jornal Público, 22 de Agosto de 2016, p.46-47 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

sábado, 12 de março de 2011

LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE


"As sociedades não se governam só com leis, só com a força, só com a palavra. Há outro meio de influência sobre os Homens, mais poderoso, mais eficaz; os seus efeitos são tanto mais maravilhosos, quanto a causa é muitas vezes despercebida. O exemplo vale mais do que as máximas e as doutrinas. Reúne às seduções da eloquência a verdade dos factos. Desbarata argumentos; dissipa dúvidas; emudece desculpas. Com o exemplo acobardam-se os maus, e alentam-se os bons. No exemplo tudo é claro, definido, perceptível. Quem o não segue condena-se; quem o adopta está seguro da aprovação pública"

[José Estêvão, in Discursos Parlamentares]

LOCAIS: La 'Revolución Precaria' toma las calles de Lisboa [El Mundo] / Decenas de miles de portugueses se manifiestan contra la precariedad en la mayor concentración al margen de los partidos [El País] / Protesto Geração à Rasca juntou entre 160 e 280 mil pessoas só em Lisboa e Porto [Público] / 280 mil na rua contra a precariedade [i] / 300 mil protestaram em Lisboa e no Porto contra a precariedade [Expresso]

J.M.M.
A.A.B.M.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

LER HISTÓRIA 2009


Foi apresentada recentemente, no ISCTE, em Lisboa, o novo número da revista Ler História (56) dedicada ao tema Emigração e Imigração. Este número temático apresentado por Miriam Halpern Pereira e Fernando Luís Machado inclui os seguintes artigos:

Emigração
- Emigração portuguesa para o Brasil e geo-estratégia do desenvolvimento euro-americano, Miriam Halpern Pereira;
- «E continuam a partir»: as migrações portuguesas contemporâneas, José Carlos Marques;
- Ineficiência, fragilização e duplicidade. O velho Estado Novo perante a emigração para França (1960-1968), Victor Pereira;
- Migração ultramarina: contradições e constrangimentos, Cláudia Castelo;
- Padrões de migração transatlântica e escolhas de destino no Sul de Portugal, Marcelo Borges;
- «A Taste of Portugal»: transmigração, políticas culturais e a mercantilização da «saudade» em tempos neoliberais, Bela Feldman-Bianco;

Imigração
- Imigração portuguesa de 1975 até aos nossos dias, Maria Ioannis Baganha, José C. Marques e Pedro Góis;
- Quarenta anos de imigração africana: um balanço, Fernando Luís Machado;
- Imigração brasileira na virada do século XX: processos de exotização no Porto, Igor J. de Renó Machado;
- Imigrantes russos e ucranianos na AML: um breve «retrato social», Maria Manuela Mendes;
- Imigrantes portugueses na Califórnia. Um projecto de história oral, Donald Warrin.

Para mais informação:
ler.historia@iscte.pt
telefone 217903013

Consultar também a página institucional da revista e consultar os índice de números anteriores AQUI.

A.A.B.M.

domingo, 18 de maio de 2008

O ENSINO E EDUCAÇÃO NOS NOSSOS DIAS



Temos acompanhado, por dever profissional, as transformações que têm vindo a acontecer ao nível do ensino. Nas poucas vezes que dedicamos atenção à nossa actualidade, verificamos com tristeza e desagrado, as alterações de forma e conteúdo, que a reforma imposta no ensino tem vindo a causar entre os docentes do ensino básico e secundário, assistindo, por outro lado, de forma quase incrédula, à forma impávida e serena com que as instituições de ensino superior têm sido postas em causa pela equipa do actual Ministério da Educação.

Numa reflexão que nos vem acompanhando há alguns dias, decidimos colocá-la à discussão de outros interessados nestes assuntos. As dúvidas assaltam-nos logo quando se colocou a questão de saber porque razão os professores em início de carreira têm que realizar uma prova de ingresso. Só é possível concluir uma coisa: as instituições de ensino superior que formam os professores não são credíveis para o nosso Ministério da Educação. Nós sabemos que os titulares da equipa do Ministério da Educação, são professores do ensino superior, mas não sabemos se têm ou tiveram a seu cargo a formação de professores. Provavelmente não. Mas há universidades e faculdades que há muito tempo o fazem. Sentir-se-ão confortáveis com a desconfiança que sobre eles recai na formação que ministram aos futuros professores?

Curiosamente, sobre esta questão ouvimos poucas reflexões de importância aos docentes unversitários, excepto a opinião do Prof. Doutor Reis Torgal, a que já fizemos referência aqui, e mais recentemente, o Prof. Doutor Amadeu Carvalho Homem no seu blog pessoal colocou alguns problemas com que nos identificamos e levantou todo um conjunto de questões importantes que ainda não encontraram resposta por parte das entidades que (des)cuidam do nosso ensino, quando afirma, a propósito da entrevista da actual Ministra da Educação, Doutora Maria de Lurdes Rodrigues, na RTP:

"[...] a governante afirmou, para quem a quis ouvir, que iria consagrar o melhor do seu esforço para que fossem evitadas as retenções, ou seja, as reprovações, no sistema de ensino sob a sua tutela. A entrevistadora perguntou-lhe, logo de seguida, se isso iria significar o fim do processo das avaliações. A conspícua Senhora fez uma pausa, em esforço, e acabou por responder qualquer coisa de parecido como “depois se vê”, ou como “ainda não sei, mas…”. Para que não sobrassem dúvidas a ninguém, informou que a sua filosofia de escola é “inclusiva”, procurando distingui-la da escola “do passado” (???), que referiu como “selectiva”.
Salvo o devido respeito, com a Educação de um Povo não se brinca. Nem esse mesmo Povo pode ser submetido a certa casta de “experimentalismos”, no sistema de ensino, denunciador de mentalidades especiosas, ainda que as mesmas se autoproclamem como assaz “vanguardistas”, “modernas” e “deveras inteligentes”.
"

"O carácter “inclusivo” a que se reporta a detentora da pasta da Educação seria eventualmente defensável ( e, mesmo assim, com grandes reservas! ) para aquilo que se decretasse ser uma escolaridade obrigatória, precedendo esta, em alguns anos, a frequência de uma formação de acesso a títulos profissionais ou a cursos superiores. Dito assim, com esta ligeireza e nonchalance, com este sentido de generalidade, com esta latitude de “inclusão”, soa-nos a um truísmo, digno de Sancho Pança ou do Anão dos Assobios. E mesmo que tal se pensasse, aconselharia a prudência mais elementar que esse pensamento, vindo de quem vem, não fosse levado à Praça Pública com tamanho desplante. O estudo constitui um esforço. A aprendizagem significou desde sempre (e irá continuar a significar) – por muito que isto custe à pedagogia do facilitismo e da festarola – uma disciplina, uma exigência de concentração, uma mobilização de energia mental e psíquica. Daí que o estudante comum, entregue a si mesmo e ao simples império do seu hedonismo, sinta a tentação de evitar ou iludir a tarefa de aquisição de saber que sobre ele impende. Vir uma governante declarar, com tamanho impudor, perante toda uma colectividade nacional, que a sua filosofia “inclusivista” aborrece os processos de avaliação e sonha com a sua supressão é o mesmo que empurrar esse estudante para a inércia, para o desprezo pela Escola e para a desqualificação do conhecimento. Foi como se a Drª Maria de Lurdes tivesse incitado muitos dos discentes do ensino sob a sua tutela a remeterem-se à pior das cabulices, que é aquela que se assume sem vergonha."

"Mas existe uma outra importantíssima implicação. É que, prescindir tão “generosamente”, tão militantemente, de processos verdadeiramente selectivos de avaliação dos conhecimentos é conduzir ao patamar dos Institutos Politécnicos, das Universidades, das Escolas de Formação Profissional, de todas as Instituições terminais dos processos de ensino e de aprendizagem, é conduzir aí, com um arzinho de troça ou de cinismo, uma coorte de castrados mentais, de inaptos intelectuais, de madraços habituais e de irresponsáveis contumazes. Se a Senhora Ministra conhecesse verdadeiramente o país onde governa (???), saberia que a massa de estudantes que desagua em tais Escolas já é, neste preciso momento, suficientemente romba e ignorante para dispensar mais este empurrão da sua lavra. Há candidatos que chegam aos cursos técnicos, científicos ou literários num calamitoso, deplorável e gravíssimo estado de impreparação. Há toda uma Colectividade a saber que assim é – talvez exceptuando a prestimosa Ministra …
Se vencerem os seus desejos, teremos amanhã electricistas que não serão capazes de unir dois fios sem fazerem um feérico curto-circuito, canalizadores que deixarão todas as torneiras prontas para o espectáculo da inundação, engenheiros que planearão casas prontas a cair, médicos que darão garantias de certidões de óbito aos doentes, literatos que não saberão interpretar, sequer, as instruções das cabines dos elevadores, etc., etc.
"

Um conjunto de reflexões com que nos identificamos e que só lamentamos que não encontrem mais adeptos ao nível do ensino superior, até porque, não tenhamos quaisquer ilusões, a realidade das transições automáticas já não anda muito longe de nós, mas, mesmo assim, o português continua entretido, na espuma dos dias, a procurar antes saber se o Primeiro-Ministro fumou durante a sua viagem de avião à Venezuela. Pobres de nós e da nossa comunicação social que (se) alimenta estes fait-divers!!!

O primeiro é que é verdadeiramente um problema para a sociedade portuguesa se pronunciar alto e bom som. Até porque os senhores professores do ensino superior que formam futuros docentes vão começar a sentir, também eles, os problemas de enfrentar alunos que até ali nunca viram limitado o seu percurso escolar e, como serão já adultos, não aceitarão de ânimo leve que naquele momento lhes imponham um travão às ambições mais ou menos realistas que sempre lhes foram permitidas.

Será que a "Lei das Rolhas" ainda continua em vigor? Ou pior ainda, será que ninguém está preocupado com o futuro da escola e do ensino em Portugal?

A.A.B.M.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

[ACTUALIDADE] SOBRE A AVALIAÇÃO DOS PROFESSORES - TEXTO DE REIS TORGAL


ACTUALIDADE

Nesta revista deparamo-nos com uma opinião muito actual do Prof. Doutor Luís Reis Torgal [Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra] sobre a problemática da avaliação dos professores e como ela parece arrastar cada vez mais os docentes para uma profunda tristeza e desilusão com as medidas tomadas ao nível ministerial. Diz, o professor Torgal, tecendo algumas considerações acerca do problema da eleição de António de Oliveira Salazar como o “Grande Português” no ano transacto, que:

"[…] a extensa bibliografia sobre o Estado Novo e o Salazarismo, grande parte dela elaborada na universidade por professores e investigadores, por vezes em teses de mestrado e de doutoramento, não é geralmente lida e assimilada pelo leitor comum, nem mesmo por muitos professores de História. À maneira do jornalista do Diário de Coimbra, estes, por “falta de tempo” ou de interesse, limitam-se à consulta de manuais repletos de ilustrações mas não de informação, obras de autores nem sempre competentes cientificamente e de sites de valor duvidoso. Num ensino cada vez menos preocupado com a ciência dos alunos e dos seus docentes, sobretudo em matéria de humanidades e ciências sociais, como de resto se vê pela menor importância concedida à História (ou à Filosofia) que, enquanto disciplina autónoma, parece estar, de resto, em vias de extinção nos ensinos básico e secundário, os professores encontram-se cada vez mais envolvidos na burocracia escolar, no acompanhamento pedagógico e didáctico de alunos (numa lógica de pseudopedagogismo ou de panpedagogismo) não tendo possibilidade ou sensibilidade para constituírem bibliotecas pessoais ou escolares, para frequentarem bibliotecas públicas de referência, para assistirem a cursos de actualização de conhecimentos e até para prosseguirem os seus estudos tendentes a desenvolver a ciência em que se formaram.

O próprio decreto-lei nº 200/2007, de 22 de Maio, parece revelar, ainda que de modo indirecto e velado, essa intenção oficial de se pensar o ensino como uma prática em que a “ciência fundamental” é pelo menos desvalorizada. Trata-se da legislação relativa ao concurso para professores titulares, em que são pontuados os professores candidatos pelas várias categorias das suas actividades.

Repara-se (Anexo II, 1.2 e 1.3) que são valorizados os mestrados e os doutoramentos (cada vez se tornam mais difíceis de frequentar pelos professores), mas não se deixa de se fixar uma ordenação arbitrária (mas não causal e bem significativa), em que se referem primeiro os graus obtidos em Ciências da Educação e só depois os graus alcançados “em domínio directamente relacionado com o respectivo grupo de docência”. E quando dissemos que essa ordenação não era “causal”, afirmámo-lo baseados em argumentos suplementares. Com efeito, os professores do ensino básico e secundário doutorados só podem ser considerados “investigadores integrados” nos Centros financiados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia devido ao facto de haver doutores nessas condições na área das Ciências da Educação! Por outro lado, verificar-se-á que, no mesmo decreto-lei, nenhuma pontuação é atribuída pela autoria de livros e de artigos de História ou de qualquer outra ciência considerada fundamental, mas apenas ao facto de se ter sido autor de programas e manuais escolares (idem, 3.1), como se a Educação fosse apenas uma “forma” ou uma metodologia de ensino e não uma “matéria” ou conteúdo científico, e não devesse ter por missão fundamental desenvolver o espírito crítico. […]

A consciência histórica e a memória não devem constituir um património que apenas se conserva e se respeita, mas um património que se interroga. […]"

Nós subscrevemos a totalidade do que afirma este ilustre professor de História Contemporânea. Mais, sentimos que nos vão cerceando a nossa liberdade de emitir as opiniões, seja nos órgãos internos das escolas, porque existe claramente um clima de respeito reverente/medo/represálias [chamem-lhe o que quiserem!] que é imposto pela hierarquia; seja nos debates públicos, como aconteceu no programa televisivo de debate, sempre que alguém colocava problemas incómodos ou fazia afirmações, que todos os que estão por dentro do sistema sentem e dizem cada vez em voz mais baixa (porque até as paredes já têm ouvidos), mas são verdades incontornáveis, que o nosso sistema educativo tem vindo a agravar. Essas pessoas poucas oportunidades tiveram para voltar a intervir. Não sei se foi intencional ou não, mas ficou-me a dúvida que certamente outros partilharão.

Por outro lado, poucos referem mas existe, na nossa humilde opinião, um grande dilema que o Ministério da Educação nunca conseguiu resolver e que a sociedade portuguesa também ainda não fez uma opção política clara, que baralha também todo o sistema: escolaridade obrigatória, universal e gratuita. Verdade insofismável que ninguém critica e todos aplaudem, mas nunca ninguém decidiu ou teve a coragem para dizer que as progressões são automáticas. Porque isto levanta um problema de opção de política educativa clara: a escola passa a ser simplesmente um local para se estar durante o dia enquanto os pais trabalham, ou um local de aprendizagem com conteúdos científicos utilizando didácticas diversificadas? Porque é essa que eu aprendi e tenho vindo a ministrar, promovendo sempre que posso o empenho, o trabalho desenvolvido e o estudo realizado. Que cidadãos estaremos a formar se não premiarmos o esforço e o empenho?

O regresso à escola de alunos que já a tinham abandonado, tão propalado como uma conquista do governo, levanta também vários problemas, reflexões e realidades que escapam muitas vezes a quem está de fora do sistema: os alunos quiseram regressar à escola ou foi uma imposição dos Encarregados de Educação? Os alunos regressaram à escola para a família continuar a receber o Rendimento Social de Inserção, ou uma bolsa de estudo que pode significar menos um encargo para as famílias já tão apertadas financeiramente? O regresso à escola não serviu também ao poder político para diminuir um pouco mais a taxa de desemprego, que infelizmente anda tão elevada no nosso país? Eram mais alguns milhares de desempregados que o país teria que apresentar caso tivessem tentado entrar no mercado de trabalho.

O regresso à escola, de alguns alunos, que não encontram nela perspectivas de futuro para que serve e a quem interessa? A escola pode servir a algumas franjas da sociedade para disfarçar ou adiar problemas, mas as “doenças crónicas” da sociedade portuguesa estão bem presentes e a escola reflecte-os. Mais, a esmagadora maioria das escolas não tem psicólogos, assistentes sociais, terapeutas e são os professores que, na sua boa vontade, ou no seu querer ajudar os alunos, levam as coisas para a frente, mas a realidade social é cada vez mais complexa e isso só não basta.

Na nossa humilde opinião, é tempo de dizer basta! É tempo de dizer algumas verdades que provavelmente poucos assumem! É altura de dizer que já chega de tentar disfarçar o mal-estar que todos nós vamos sentindo. A angústia que vivemos num dia-a-dia cheio de burocracias que pouco ou nada resolvem. Faltam meios humanos, equipamentos, respeito e vontade de querer aprender e querer saber mais. E pedem-nos para enfrentar cada novo dia, cada nova hora com forças para manter o mínimo de respeito e dignidade para quem ensina e para quem quer aprender.

Mais que tudo exige-se responsabilidade, conhecimento da situação real e não retratos de gabinete, por parte de quem coordena e quem dirige, porque senão sentimos que caminhamos para um abismo, em que a crise social vai ser bastante mais grave do que a que se vive actualmente, como referia o recente relatório da SEDES.

Para terminar lançaríamos até um desafio: já que o Ministério da Educação quer implementar a avaliação dos docentes e eles têm que ser avaliados pela avaliação que fazem aos alunos, porque não tem o Ministério a coragem de implementar a avaliação do seu próprio desempenho junto dos professores, funcionários, sindicatos e outras entidades externas? Porque é que a avaliação só é feita num sentido e não no sentido inverso? Só porque quem quer e tem poder manda. Mas nós, que andamos por cá, em contacto com as dificuldades do quotidiano, sentimos a verdadeira dimensão destes problemas.

A.A.B.M.