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sábado, 15 de agosto de 2020

ÁLVARO SOARES ANDREA (1864 – 1939) - NOTA BREVE


“… Álvaro Soares Andrea acredita ter aprendido a navegar antes de o mar ter nascido. Durante décadas vagueou ao longo da costa africana e desbravou rios que estão ainda por nomear. E foram tantas as viagens que não há noites que bastem para contar as suas aventuras. Daí o seu desdém pelos caprichos de Mouzinho de Albuquerque.

- Quem sabe do mar sabe dos céus -proclama o comandante enquanto percorre, para cá e para lá, toda a extensão da sua corveta.

Está alvoroçado, não pregou olho toda a noite. Foi visitado por sonhos, estranhos presságios. Sonhou que se tinha convertido num prisioneiro negro e que viajava no porão do seu próprio navio. No mesmo sonho, Mouzinho desamarrava-lhe os pulsos e agitava um caderno em frente do seu rosto: É isto que andas a escrever contra mim, meu filho da puta? No cano das botas ia roçando uma nervosa vergasta. Depois ia roçando uma nervosa vergasta. Depois atirava-lhe o caderno para o colo. Queria que o lesse em voz alta. Andrea segurava as folhas com mãos trémulas. Dava conta de que aquela era a sua caligrafia. Mas logo se apercebia de que escrevera tudo aquilo numa língua que não entendia. Parecia-lhe zulu, não tinha a certeza. E despertava, estremunhado.

- Quem sabe do mar sabe dos céus -repete Andrea, como se o mote o ajudasse a permanecer desperto. Volta a olhar as nuvens escuras por cima do oceano. Sujeita-se, enfim, ao comando das insondáveis forças da natureza. Confia mais nessa estrela interior - que alguns designam de intuição - do que em mapas e bússolas que se mostram imprestáveis nos mares tropicais …”

[Mia Couto, in As Areias do Imperador – Livro Três. O Bebedor de Horizontes]

 


Álvaro Simões de Oliveira Soares Andrea nasce em Lisboa em 31 de Agosto de 1864. Era filho do contra-almirante liberal Tomás José de Sousa Soares de Andrea (1824-?) e de Maria Luísa Virgínia de Sequeira e Oliveira. O avô paterno, Tomás José de Sousa Soares de Andrea (1777-1826) era oficial do exército e esteve a Guerra Peninsular e lutado ao lado das forças liberais durante a guerra civil, comandando os esquadrões do Regimento de Cavalaria N.º 7 de Vila Viçosa, tendo morrido por ferimentos em combate em 1826 [ver livro de Álvaro Soares de Andrea, O Systema decimal mundial e o Relogio decimal, Typografia e Papelaria Corrêa & Raposo, Lisboa, 1909].

Álvaro Soares Andrea foi um distintíssimo oficial da marinha, servindo nas Colónias, onde participou (1895) na Campanha de Gaza, em 1895 e no Combate de Macontene (1897, Moçambique). Foi na campanha de Moçambique que se distinguiu, principalmente na operação e prisão de Gungunhana, o último imperador de Gaza, comandando a Capelo.

Tinha elevadas condecorações: o Colar da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito; era Cavaleiro e Oficial da Ordem Militar de Avis, Oficial da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa; tinha as Medalhas de Valor Militar, de Comportamento Exemplar, e da Campanha do Tungue (1889), de Moçambique (1894-1895), e do Niassa (1899).

Em 1905 é iniciado como maçon, na Loja Simpatia e União, com o nome simbólico de Tomás Andrea [possivelmente em memória do seu avô]. Pertenceu à Carbonária, sendo na época um republicano radical, integrando, após o 5 de Outubro, a denominada Federação Republicana Radical. Em 1910, no levantamento do 5 de Outubro, teve Soares Andrea uma importante intervenção, na tomada do Quartel de Marinheiros, de Alcântara.

Reformou-se a 18 de Novembro de 1910. Participou, a 27 de Abril de 1913, no que será a primeira revolta republicana, de civis e militares [Curiosamente a revolta integrava vários elementos da maçonaria] contra o governo da Republica, então dirigido pelo dr. Afonso Costa. Foi preso e enviado para os Açores com residência fixa.

Morre a 14 de Agosto de 1939, estando sepultado no cemitério dos Prazeres. Era casado com Elisa Sofia Pinto Andrea.
 
J.M.M.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

APONTAMENTOS DAS PRELEÇÕES DO DR. AFONSO COSTA SOBRE CIÊNCIA ECONÓMICA E DIREITO ECONÓMICO PORTUGUÊS


AUTOR: Dr. Afonso Costa [coord. & prefácio de Guilherme Oliveira Martins];
EDIÇÃO: INCM (Colecção Biblioteca Res Publicana).

Trata-se da reimpressão do texto original publicado na época de 1896-1897, no âmbito das lições do Dr. Afonso Costa proferidas na Universidade de Coimbra, quando ministrou a cadeira de Economia Política
[O dr. Afonso Costa ingressa na Faculdade de Direito de Coimbra no ano lectivo de 1887/1888. Em Março de 1890 funda, com António José de Almeida, um jornal, O Ultimatum. Folha Académica, 23 Março de 1890 (António José de Almeida publica nesse número o conhecido artigo “Bragança, o último” – sobre o jornal e a questão Afonso Costa e a Economia Social, afinal matéria versada nesta edição dos seus Apontamento, consultar AQUI & AQUI os importantes artigos de Jorge Pais de Sousa) onde exprime “a opinião de que a Monarquia ou o trono eram a causa do abatimento moral do País” – cf. Luís Bigotte Chorão, “Afonso Costa”, in “A Faculdade de Direito de Lisboa no seu Centenário”, vol II, 2013, p. 16. Participa nos acontecimentos de 31 de Janeiro e adere à greve académica de 1892 (ibidem). Realiza o seu exame de licenciado a 17 de Janeiro de 1895 com a dissertação: “Os Peritos no Processo Criminal, Legislação Portuguesa, Crítica, Reformas”. Apresenta-se a concurso para lente substituto em Janeiro de 1896 com a dissertação, “Commentario ao Código Penal Portuguez”. Via então reger a cadeira de Economia Política nos anos de 1896/1897 e 1897/1898 (ibidem). “A respeito das suas lições, Paulo Merêa – acompanhando o juízo de Marnoco e Sousa e José Alberto dos Reis – escreveu que ‘revelam um grande interesse pelo movimento socialista e reflectem a forma sociológica desta escola’ (L. B. Chorão, ibidem)] 


A presente edição é uma excelente iniciativa do Tribunal de Contas e da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República Portuguesa, e de muita estimação.

A presente obra, há muito detectada na biblioteca de Afonso Costa e que não tinha sido editada fora do âmbito académico e do momento em que as lições foram ministradas, oferece ao leitor as lições do Professor Doutor Afonso Costa alusivas ao ensino da ‘Economia Social’, atinente a um modelo do magistério no âmbito das ciências económicas para estudantes de Direito, no longínquo ano letivo de 1896-1897. Conforme prefaciado por Guilherme d’Oliveira Martins, ‘[a] edição que agora se apresenta corresponde à transcrição de um documento no qual encontramos não só o testemunho vivo do ensino do Doutor Afonso Costa, mas também elementos preciosos sobre o seu pensamento económico’ [AQUI]
[c/ um abraço ao dr. Rincon Peres]

J.M.M.

terça-feira, 14 de julho de 2015

AFONSO COSTA E O REVISIONISMO EM HISTÓRIA


Afonso Costa e o revisionismo em história” – por Jorge Pais de Sousa, in jornal Público

Sou leitor assíduo da crónica Consoantemuda, que Rui Tavares assina no jornal PÚBLICO, a qual, normalmente, expressa pontos de vista singulares sobre a complexa realidade política que nos envolve.

Todavia, no dia 24 de junho, escreveu uma crónica histórica que intitulou de “Tempos elétricos.” E nela abordou dois episódios da vida de Afonso Costa (1871-1937) que, na sua leitura, caraterizavam a sua personalidade: a cobardia política, referindo-se ao episódio da queda do elétrico em andamento que lhe causou um traumatismo craniano e o impediu de assumir de imediato a presidência do governo, pois julgou estar a ser alvo de um atentado à bomba, em resultado de um curto-circuito que produziu um clarão e um estrondo; e a corrupção, que estaria na origem da sua prisão, na Fortaleza de Elvas, entre dezembro de 1917 e 30 de março de 1918. Neste último caso, para lembrar, alegadamente, que não seria a primeira vez que os portugueses tiveram um ex-primeiro-ministro detido por corrupção.

Considero muito infeliz a escolha destes dois episódios para caraterizar o perfil moral do político Afonso Costa. Será que o ministro da Justiça do Governo Provisório, enquanto autor da Lei da Separação do Estado das Igrejas (1911), não teve coragem política para promulgar e aplicar esta lei, típica de um Estado moderno, causadora de enormes clivagens políticas na sociedade portuguesa, mas que nem o ditador Salazar se atreveu a revogar?

E se Afonso Costa, ainda hoje, é o único presidente do Governo e ministro das Finanças português que, em contexto democrático, obteve dois superavites 1912-13 e 1913-14 (cf. Nuno Valério - Os Orçamentos no Parlamento Português, 2001), isso é típico de um político corrupto? É que se os conseguiu foi porque os preparou com, entre outras medidas, a chamada “Lei Travão”, pela qual nenhum deputado, em sede de discussão do OGE, poderia propor medidas que aumentassem a despesa pública ou diminuíssem as receitas sem pedir, previamente, a autorização da Comissão de Finanças e do ministro das Finanças. Esta defesa acérrima, e sobretudo a sua concretização, de políticas de finanças públicas equilibradas caraterizam o comportamento de um político corrupto? Nessa altura, o que dizer das dezenas de ministros das Finanças que de então para cá ocuparam o cargo e só conseguiram défices?

Importa recordar que no final do ano de 1917, Portugal participa na I Guerra Mundial e tem a combater mais de 100 mil homens. Cerca de metade defendiam, desde  o verão de 1914, as fronteiras das colónias de Angola e Moçambique. Enquanto os outros 50 mil portugueses combatiam na Flandres. Nesta altura, Afonso Costa é presidente do Governo e regressa a Portugal depois de ter participado na Conferência dos Aliados de Paris, quando em Lisboa, entre 5 e 7 de dezembro, Sidónio Pais chefia um golpe de Estado que instaura a ditadura “dezembrista” durante um ano, o tempo necessário para realizar a sua política de contramobilização que conduziu ao desastre militar em La Lys. Suspendeu, de imediato, a Constituição da República de 1911, exila o presidente Bernardino Machado e detém no Porto, no dia 8, Afonso Costa, o presidente legítimo do Governo. Na véspera, as autoridades sidonistas tinham sido cúmplices no assalto e destruição em Lisboa, pela populaça, da casa onde vivia a sua família e também do seu escritório. O ditador Sidónio Pais vai manter Afonso Costa detido no Forte de Elvas durante mais de três meses sem nunca lhe ter promovido um inquérito, feito uma acusação, instaurado um processo, político ou criminal, e, portanto, nunca o levou a julgamento. Tudo na mais flagrante violação dos mais elementares direitos humanos e das leis de um qualquer Estado de direito. Onde estão, pois, as provas de que Afonso Costa era um presidente do Governo corrupto?

Esta foi, contudo, apenas a primeira de uma série longa e continuada no tempo de violações dos direitos, garantias e liberdades, em relação ao primeiro português que não só foi fundador (1920), mas também, na qualidade de representante de Portugal, foi eleito para presidir a uma assembleia da Sociedade das Nações (1926). É que, em 1927, por exemplo, a Ditadura Militar demite-o, sem a instauração de qualquer inquérito disciplinar, de diretor e de professor catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, dando origem a um exílio e a uma longa luta antifascista que marcaram os seus últimos onze anos de vida, numa altura em que integra a Junta Diretiva da Liga de Defesa da República.

Não foi por acaso que Salazar o declarou, na nota oficiosa de 1934, seu inimigo político e do Estado Novo, mas em momento algum desse extenso texto o acusa de cobarde e de corrupto. E não obstante, quando Afonso Costa morre no exílio de Paris, em maio de 1937, era o único político que tinha capital e prestígio político para conseguir a formação da Frente Popular Portuguesa e aglutinar nela o PCP.
 
 
 

Se Afonso Costa é apresentado como um político cobarde e corrupto é porque a história contemporânea é objeto, nos tempos que correm, de um processo acelerado de revisionismo. Isto porque Rui Tavares cita, e recomenda, a “curta e ótima” biografia “Afonso Costa” de Filipe Ribeiro de Meneses. Porém, e se não encontrou lá esta e muita outra informação sobre Afonso Costa, eu pensaria duas vezes em a recomendar publicamente. Tenho grandes dificuldades em perceber, por exemplo, como se pode recomendar um livro que nem sequer compila a bibliografia da autoria do biografado, enquanto professor universitário, advogado, deputado, governante e lutador antifascista? É que pelo menos aquela que é conhecida e foi publicada pelo historiador Oliveira Marques, desde os anos de 1970-8O, ali deveria constar.

No entanto, estou à vontade para escrever sobre esta matéria, pois no passado dia 9 de abril tive a oportunidade de debater em público sobre Afonso Costa, enquanto investigador, que o elege como tema de Pós-Doutoramento, com o historiador Filipe Ribeiro de Meneses, na Biblioteca Municipal da Figueira da Foz, em sessão repleta e muito participada. E ali, tal como no seu livro, ficou claro que desconhece a natureza socialista integral do seu pensamento jurídico-político e a programática pela qual orientou toda a sua ação política, expressas, sobretudo, nas teses universitárias que apresentou em 1895 à Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Nesta começou por lecionar Economia Política para assumir, entre 1899 e 1910, a cátedra de Organização Judiciária. O mesmo se diga para os quinze títulos de livros jurídicos que entretanto identificámos, bem como o teor doutrinário dos mais de 300 artigos, também da autoria de Afonso Costa, que estão publicados em diferentes jornais republicanos.

Em suma, está por fazer com Afonso Costa - e o mesmo é valido, entre outros, para figuras centrais da 1.ª República como António José de Almeida e Brito Camacho - um trabalho semelhante ao que, de há muito, o historiador Norberto Ferreira da Cunha desenvolve no Museu Bernardino Machado em Vila Nova de Famalicão, ou seja, criar uma unidade de interpretação que reúna, conserve e difunda, para o grande público e para a investigação, a memória documental e iconográfica, que com ele se relaciona, e que, entre outras iniciativas, organize a publicação das suas “Obras”.

Afonso Costa e o revisionismo em história – por Jorge Pais de Sousa [bolseiro de pós-doutoramento na FCT], jornal Público, 13 de Julho de2015, p.46 – com sublinhados nossos.
 
J.M.M.

terça-feira, 30 de junho de 2015

LA REPUBLIQUE PORTUGAISE

Encontra-se disponível para consulta uma publicação sobre Portugal nos meses imediatos à implantação da República, intitulada La République Portugaise, somente com um número disponível, datado de 13 de Maio de 1911.

Esta publicação semanal foi dirigida por Xavier de Carvalho (ver nota biográfica deste autor AQUI). Era publicação ilustrada, com quatro páginas, com o texto organizado em seis colunas, escrita em francês. Conta com colaborações de Camille Fróes, Marc Gaudos, A. de Lacerda e um extenso artigo sobre Antero de Quental, da autoria de Virgile Rossel, e algumas notas sobre Viriato, Camões. Além disso fornece informações sobre João Chagas, sobre a Lei de Separação do Estado e da Igreja, de Sebastião de Magalhães Lima  na União Colonial Portuguesa, Afonso Costa (ilustrado com fotografia), de  o vice-cônsul de  Portugal em Rouen (Henry Turpin), de Manuel Teixeira Gomes como novo embaixador em Inglaterra e informa quem seriam os correspondentes do jornal em diferentes localidade de Portugal e do estrangeiro. Depois aborda questões como a participação de Portugal nas festas do milénio na Normandia, do vigésimo aniversário da morte de José Elias Garcia, os estudantes portugueses em Paris e as comemorações do 1º de Maio em Lisboa.

A publicação em epígrafe pode ser consultada na Gallica AQUI.

Vale a pena a visita e a leitura desta publicação.

A.A.B.M.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

CONFERÊNCIA – AFONSO COSTA: VIDA E OBRA


CONFERÊNCIA: Afonso Costa: Vida e Obra;

DIA: 9 de Abril 2015 (21,30 horas);
ORADORES: Prof. Filipe Ribeiro de Menezes (National University of Ireland | Prof. Jorge Pais de Sousa (Universidade de Coimbra);

LOCAL: Biblioteca Municipal da Figueira da Foz (Figueira da Foz);
ORGANIZAÇÃO: Biblioteca Municipal Pedro Fernandes Tomás | Divisão de Cultura CMFF.

No âmbito do programa de actividades evocativas do Centenário da I Guerra Mundial, a Divisão de Cultura da Câmara Municipal da Figueira da Foz promove uma CONFERÊNCIA sobre o Dr. “Afonso Costa – Vida e Obra”, a realizar na próxima Quinta-Feira (dia 9 de Abril, pelas 21.30 horas), com a presença do professor Filipe  Ribeiro de Menezes  e do prof. Jorge Pais de Sousa.

“Afonso Augusto da Costa foi um dos políticos dominantes durante a Primeira República. Foi Presidente do Ministério de Portugal por três vezes, Ministro da Justiça e Cultos, Ministro das Finanças, dirigente do Partido Republicano e do Partido Democrático.

Em outubro de 1917 visitou as tropas do Corpo Expedicionário Português na Flandres, acompanhado por Bernardino Machado. Em 1919, após o assassinato de Sidónio Pais e o fim do Sidonismo, passou a chefiar a delegação portuguesa à Conferência de Paz, assinando em representação de Portugal o Tratado de Versalhes. Foi também o representante português na primeira assembleia da Sociedade das Nações” [via Biblioteca Municipal da CMFF].

J.M.M.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A MENTIRA MONARCHICA - ALFREDO PIMENTA


ALFREDO PIMENTA, “A Mentira Monarchica: Analyse do Momento Actual da Politica Portugueza”, Centro Republicano de Coimbra, Coimbra, Imprensa Academica, 1906, 19-I p.

Este opusculo é o desenvolvimento logico d’um artigo na Resistencia publicado, em 25 de novembro d’este anno, sob o titulo — O bloco monarchico. O Centro Republicano de Coimbra, publicando este trabalho do sr. Alfredo Pimenta, não alimenta vaidades pessoais, mas manifesta tão só a sua vontade em contribuir, na medida das suas forças, para a reorganização nacional baseada em principios scientificos e progressivos. A decadencia politica a que chegamos, caracterisada tão claramente nas indecizões da realeza, está pedindo um ataque cerrado e constante, para que o velho regime dê logar ao advento de uma organisação nova e completamente harmonica com a s aspirações do paiz. Esse ataque ha-de ser feito, mesmo pelo seu caracter preparatorio para um movimento decisivo, pela imprensa, pelos comicios, pelos livros. Servindo-se d’esta occasião, o Centro Republicano de Coimbra, julga prestar um serviço ao paiz, publicando o presente trabalho

via In-libris   

Trata-se de um dos opúsculos, de juventude, do irrequieto Alfredo PimentaAQUI por nós referido -, nascido em terras de Penouços, alguns anos depois da sua aventura literária e de poetastro (o “EU” data de 1904). Alfredo Pimenta passou, sucessivamente, do anarquismo ao republicanismo radical

[esteve presente no Congresso Republicano de Coimbra de 1904, pertenceu aos estudantes “intransigentes” da greve académica de 1907 em Coimbra, foi chefe de gabinete do Ministro do Fomento no Governo Provisório da República chefiado por Duarte Leite, torna-se apoiante (1908) de António José de Almeida, redigindo o Manifesto Evolucionista de 1912, está, curiosamente, no centro de uma pendência entre o ofendido Afonso Costa e o director do jornal “República”, António José de Almeida, pelo artigo (12 de Junho de 1914) publicado nesse jornal, “O partido dos escândalos”, (cf. Política e Justiça na I República, de Luís Bigotte Chorão, vol 1, p. 389), é candidato a deputado nas eleições de 1913, abandona o partido em 1915],

muda para o campo monárquico (de que é um dos seus doutrinários), é deputado sidonista (1918), adere ao Integralismo (de que se afasta, mantendo a fidelidade a D. Manuel II e fundando a Acção Tradicionalista Portuguesa, depois Acção Realista), manifesta admiração confessa por Mussolini, torna-se germanófilo assumido e salazarista convicto [delicioso é a sua correspondência com venerado Oliveira Salazar – vide “Salazar e Alfredo Pimenta. Correspondência (1931-1950)”, com curioso prefácio de Manuel Braga da Cruz, Verbo, 2008].

Este opúsculo deve juntar-se outros publicados na sua idade libertária, como “O Fim da Monarchia” (1906) e “Factos Sociais” (1908).

FOTO via In-Libris

J.M.M.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

AFONSO COSTA. O ORADOR PARLAMENTAR

Realiza-se amanhã, 20 de Novembro de 2014, na Biblioteca da Assembleia da República, pelas 18.30 h, após a sessão parlametar a apresentação da obra Afonso Costa - O Orador Parlamentar, da autoria do professor e investigador Paulo Guinote.

Afonso Costa é considerado uma das figuras mais importantes da I República Portuguesa. Admirado por muitos, odiado por outros tantos é sempre uma personalidade polémica e de polémicas. Paulo Guinote acompanha o percurso desta individualidade política enquanto orador parlamentar, analisando os discursos que proferiu e a evolução das suas ideias ao longo do tempo. Pode ler-se no resumo da obra:

Afonso Costa é um dos políticos mais carismáticos e polémicos do século XX em Portugal e, por certo, um dos que mais paixões e ódios despertou de forma duradoura nas primeiras décadas de novecentos.

Antes de Salazar polarizar a vida política nacional, para além da efemeridade de um João Franco ou um Sidónio Pais, ultrapassando os seus principais adversários republicanos como António José de Almeida, Brito Camacho ou mesmo Machado Santos ou João Chagas, Afonso Costa foi a figura nuclear da política nacional, confundindo-se o seu destino com o do próprio regime e a sua acção com a política republicana no seu todo, pelo menos até finais de 1917. Se o seu contributo no combate contra a monarquia foi partilhado com outros protagonistas que muitas vezes o suplantaram perante a opinião pública, a partir de finais de 1910, com a sua entrada para o Governo Provisório com a pasta da Justiça, e apesar dos seus periódicos problemas de saúde, Afonso Costa tornou-se rapidamente sinónimo da República, atraindo as mais diversas críticas, desde os que o consideravam digno de desconfiança por ter contemporizado com diversos políticos monárquicos aos que o achavam um jacobino radical e intolerante. Este estudo procura seguir de perto os principais períodos da sua vida parlamentar.

O primeiro dos períodos referidos corresponde à década de 1900 a 1910 em que Afonso Costa se destaca no combate à monarquia e a todos os seus abusos, políticos, financeiros e judiciais, ficando lendárias algumas das suas intervenções no Parlamento, que terminaram em expulsões da Câmara e desacatos diversos com amplo impacto na opinião pública e na vida política. A análise incidirá nos seus discursos e no ideário neles contido, privilegiando mais as próprias palavras e reações no próprio Parlamento do que os reflexos na imprensa, muito marcada nos seus olhares pelo alinhamento político-partidário que os condicionava.

O segundo (1911-1917) acompanha o apogeu de Afonso Costa e o seu trajeto de poder, desde ministro do Governo Provisório e deputado da Constituinte a presidente do governo em três ocasiões, com destaque para as polémicas parlamentares com os outros líderes republicanos e para a discussão em torno das grandes questões estruturantes e decisivas para a evolução do novo regime, desde a Lei da Separação à participação na Grande Guerra, em que Afonso Costa foi um dos protagonistas mais destacados na opção pela entrada no conflito. Neste capítulo, será dada especial atenção à análise das intervenções parlamentares de Afonso Costa de um ponto de vista do conteúdo e da evolução (ou permanência) das suas posições em relação a aspetos fundamentais como a liberdade, a democracia, os direitos dos trabalhadores, as relações internacionais e a aliança com a Inglaterra, entre outros.

Este estudo de Afonso Costa como orador parlamentar não é uma nova biografia de Afonso Costa, de tipo pessoal, profissional ou mesmo político, nem é uma investigação inédita sobre os meandros da sua vida política. É uma análise das suas intervenções parlamentares entre 1900 e 1917, contextualizando-as no momento histórico em que surgiram, analisando-as enquanto expressão de um pensamento político estratégico ou tático, assinalando as permanências e as inflexões, o que permaneceu de estrutural nos discursos do oposicionista e do governante. Em termos de método, optou-se por dar a voz ao protagonista e orador, reservando-se o texto de enquadramento a isso mesmo, ao acréscimo de informações que permitam melhor compreender determinadas intervenções ou aclarar determinados objetivos.

Esta obra inclui-se na colecção Parlamento, com coordenação do Prof. António Reis que irá proceder à apresentação do livro.

Uma sessão a acompanhar com atenção e uma obra fundamental para conhecer melhor a personalidade de Afonso Costa.

A.A.B.M.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

AFONSO COSTA




Retrato [1912?] do dr. Afonso Costa por Alberto de Sousa [1880-1961], ilustrador e aguarelista, militante republicano – AQUI já referido | Livro de Afonso Costa com dedicatória a Guerra Junqueiro - in suplemento do Diário de Lisboa, 28 de Março de 1968.
 
J.M.M.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O DR. AFONSO COSTA – “A PADEIRA DE ALJUBARROTA”


"A Padeira de Aljubarrota", de Silva e Souza, no jornal "O Pão", de 1910, onde o dr. Afonso Costa, qual "padeira de Aljubarrota", "empurra para o forno da padaria os políticos monárquicos".

NOTA BREVE: [João José da] SILVA E SOUSA nasceu na Figueira da Foz a 3 de Junho de 1876. Frequentou e concluiu os seus estudos na Escola Industrial e Comercial, partindo depois para Lisboa, frequentando a Escola de Belas Artes. Discípulo de Roque Gameiro, foi um notável caricaturista e ilustrador. Trabalhou na Fotogravura de Pires Marinho, colaborou no jornal “O Século Ilustrado”, participou como desenhador-ilustrador de romances e teve uma “intensa colaboração nos jornais humorísticos 'O Pão', 'O Xuão', 'O Zé', 'Os Ridículos” [cf.Os Postais da Primeira República”, de António Ventura; “Figueirenses de Ontem e de Hoje”, de Fausto Caniceiro da Costa].

Regressava sempre à sua cidade natal - Figueira da Foz -, onde se fixou definitivamente em 1922, “montando uma oficina que se encarregava de trabalhos comerciais, aguarelas a preto e a cores, retratos a ‘crayon’ , ampliações fotográficas e gravuras em todos os sistemas” [cf. Fausto Caniceiro da Costa, p. 312]. Teve trabalhos expostos no I Salão de Estética da Figueira, em 1940.

Findou os seus dias no Asilo Costa Ramos, onde morre a 14 de Abril de 1952     

J.M.M.

terça-feira, 13 de maio de 2014

RECORDAR O CONGRESSO NACIONAL REPUBLICANO DE 16 DE MAIO DE 1914 NA FIGUEIRA DA FOZ

 
CONFERÊNCIA: "RECORDAR O CONGRESSO REPUBLICANO DE 1914 DA FIGUEIRA DA FOZ
 
ORADORES: Prof. Rui Cascão e Prof. Fernando Catroga;
 
DIA: 16 de Maio 2014 (21,30 horas);
LOCAL: Biblioteca Municipal da Figueira da Foz;
 
ORGANIZAÇÃO: Divisão de Cultura da C. M. da Figueira da Foz
 
Quatro anos depois da implantação da República, a Figueira da Foz acolheu a 16, 17 e 18 de maio de 1914 o Congresso do Partido Nacional Republicano. Exatamente cem anos depois, a Divisão de Cultura convidou os Professores Rui Cascão e Fernando Catroga para uma conversa com a comunidade figueirense,  a realizar na Biblioteca Municipal, dia 16 de maio, pelas 21h30,  oportunidade singular para conhecer alguns aspetos relevantes deste marcante evento do ideário republicano” [via Divisão de Cultura da CMFF]
 
Entre os dias 16 e 18 de Maio de 1914, decorreu na Figueira da Foz o CONGRESSO Ordinário do PRP. Marcaram presença, entre os elementos do Directório e os inúmeros (1300) congressistas, o dr. Afonso Costa, Estêvão de Magalhães, António Maria da Silva, António Macieira, Raul Tamagnini, João de Deus Ramos, Álvaro de Castro, Alberto Xavier, os deputados Victorino Magalhães, Pedro Botto Machado. Usaram da palavra (entre outros, e sob a presidência do dr. Lima Bastos) o dr. Baldaque da Silva [pres. da Comissão Municipal da Figueira da Foz, que saudou – no Casino Mondego - os congressistas, em nome dos republicanos figueirenses], Manuel Gaspar de Lemos, Evaristo de Carvalho, Afonso Costa, Cerveira de Albuquerque, Ferreira da Fonseca, Ricardo Covões, Artur Leitão, Ferreira da Oliveira, Abílio Pereira da Silva, Pinto Torres, Reis Silveira, António Lírio Franco, Palma da Veiga, Oliveira Santos, Rodrigo Rodrigues, Norton de Matos, o padre Henrique Coelho (sobre a Lei da separação da Igreja do Estado), Tavares da Fonseca, Raimundo Alves, Acácio Eduardo Santos, Sousa Júnior, Germano Martins, Ramos da Costa, Santos Silva, Lopes da Gama, Dagoberto Neves (em nome do professorado), … Dos enviados especiais, registe-se a comparência de André Brun (A Capital), Herculano Nunes.
 
As teses a debate foram importantes [fugindo ao lugar-comum da eleição do novo Directório e demais representantes], marcando um conjunto de questões [curiosamente, algumas ainda persistem], entre as quais: o recenseamento, a questão da lei eleitoral (relator: Ferreira da Fonseca); a obrigatoriedade do exercício do voto, representação proporcional, os círculos uninominais ou plurinominais (relatores: Henrique Cardoso e Carneiro Franco); a municipalização dos serviços públicos (relator: Ernesto Júlio Navarro); sobre o “Ensino Neutro” (relator: Gastão Correia Mendes, dado a ausência de João de Barros); sobre o “Estatismo e o Ensino Público” (relator: João de Deus Ramos); sobre “O imposto de Rendimento e a remodelação dos outros impostos” (relator: Álvaro de Castro); as atribuições do Presidente da República (relator: Alberto Xavier).
 
Uma "CONVERSA"  a acompanhar com toda a atenção!
 
J.M.M.

terça-feira, 30 de julho de 2013

DR. AFONSO COSTA


UM DEVER: Affonsos Costas só se trazem ao collo” – caricatura de Afonso Costa por Silva e Sousa.

A Historia do Liberalismo Português, de 1820 em diante, está por fazer. A História da República, a da geração de Afonso Costa, tem sido malsinada, caluniada. Há que apresentar os homens e os factos tais como foram, limpando-os da jaca que os seus inimigos no poder sobre eles lançaram. É um acto de justiça o que Seia hoje rende ao maior dos seus filhos, àquele que mais fez pela pátria comum. Mas essa justiça tem de se estender a todo o país, a todos os homens da República, a quantos viram frustrada a sua vida de cidadãos só porque se recusaram a ser escravos

Prestar justiça a Afonso Costa, à geração de Afonso Costa, que procurou realizar um país de todos os portugueses, é sobretudo empenharmo-nos em refazer essa mesma República de todos os homens, buscando a igualdade e a fraternidade entre todos os homens, nenhum se sentindo com mais direitos do que os outros, nem com menos deveres. A República da igualdade de oportunidades, a República social, uma nação em via para o socialismo. Foi esse o ideal de Afonso Costa, seja também o ideal que nos anime a todos, na liberdade, na igualdade e na fraternidade.

Viva a República

Raul Rêgo, in Afonso Costa” (Discurso proferido em Seia na inauguração da estatua de Afonso Costa, em 8 de Novembro de 1981), Lisboa, 1988, p. 9 - sublinhados nossos.

J.M.M.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

AFONSO COSTA – CONTINUIDADES E PERMANÊNCIAS NA ORATÓRIA PARLAMENTAR



CONFERÊNCIA: "Afonso CostaContinuidades e Permanências na Oratória Parlamentar.

ORADOR: Paulo Guinote
;
DIA: 30 de Maio (17,30
horas);
LOCAL: Sociedade de Geografia de Lisboa.


J.M.M.

quinta-feira, 14 de março de 2013

DR. AFONSO COSTA

 
 






sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

CORRIDA DE JORNAIS


CORRIDA DE JORNAIS: desenho de Silva e Souza, inO Zé”.

Com Machado Santos [Intransigente], Cruz Moreira [Os Ridículos], António José de Almeida [República], Brito Camacho [A Luta] e Afonso Costa [O Mundo].


J.M.M.  

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

FOTO DO SR. DR. AFONSO COSTA E OUTROS REPUBLICANOS


FOTO DO SR. DR. AFONSO COSTA E OUTROS REPUBLICANOS


[PEDIDO] - "Alguém me ajuda a identificar os restantes convivas deste repasto? — com Dr. João Soares [ao lado de Afonso Costa - 1º esquerda foto], Dr. Simão José [de pé, ao fundo na foto], Dr. António Granjo [sentado à frente de Simão José] e Dr. Afonso Costa [à frente, no topo da mesa]".


J.M.M.

segunda-feira, 26 de março de 2012

ALMOÇO OFERECIDO PELOS REPUBLICANOS DA FIGUEIRA DA FOZ AO DR. AFONSO COSTA


ALMOÇO oferecido pelos REPUBLICANOS DA FIGUEIRA DA FOZ ao 5r. Dr. AFONSO COSTA [datado de 19 de Maio de 1914]

Menu do Almoço oferecido a Afonso Costa pelos Republicanos da Figueira da Foz, no Congresso do Partido Republicano Português (1914), realizado na cidade entre os dias 16-18 de Maio de 1914 [clicar na foto]

J.M.M.

terça-feira, 6 de março de 2012

DR. AFONSO COSTA - n. 6 DE MARÇO DE 1871




DR. AFONSO COSTA [n. 6 de Março de 1871 - 11 de Maio de 1937]

"Ilustre e Grande Cidadão
Dr. Affonso Costa


É soberanamente justo que defendaes a vossa honra, quando ella seja atacada na sua pureza, mas afigura-se-nos que é inteiramente inadmissível que a título d’um capricho por supposta offensa de palavras proferidas no calor d’essa discussão parlamentar, embora irritante pela natureza do próprio assumpto, vós submettaes a vossa vida às contigências d’um duelo
[tratou-se do duelo que travou com o conde da Penha Garcia, em defesa da honra, e a propósito da sua intervenção no Parlamento sobre o “adiantamentos reais”, da qual o estadista sai ferido ligeiramente no braço – ler AQUI e AQUI]

Hoje já a vida vos não pertence, mas antes aos vossos Filhos, á vossa Esposa, ao Partido Republicano, e mais que a todos, á Pátria.

A monarchia pretende eliminar-vos, porque vos sois um terrível estorvo á sua existência, e, se pudesse haver duvida nesse intuito, bastava a opinião do arbitro que deu ao vosso adversário a prioridade de offensa.

Bem podeis comprehender que, embora, vingássemos a vossa morte, isso não remediava para a Democracia tão lamentabilíssima perda, por inevitavelmente irreparável.

Não vejaes um conselho, onde só há a singela opinião d’uma incondicional, fervorosa e sincera estima.

Acceitae os protestos da nossa entranhada estima e firme solidariedade.

Vossos admiradores

Os socios do Grémio Liberdade e Progresso
[… do Porto]

Porto, 15 de Julho de 1908 [segs várias assinaturas …]"

in Correspondencia Política de Afonso Costa 1896-1910, org. de A. H. de Oliveira Marques, Estampa, 1982, p. 311-312.

FOTOS: "Homenagem ao grande estadista Dr. Affonso Augusto da Costa" [s.n, s.l.] e uma credencial do Pres. do Conselho da Ordem do GOLU para Afonso Costa, no exílio após o 28 de Maio de 1926.

J.M.M.