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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

CARTAS PARA HOJE – POR ANTÓNIO VALDEMAR


Cartas para hoje” – por António Valdemar, in Revista do Expresso

[Segunda edição das cartas que Manuel Teixeira Gomes mandou a João de Barros, selecionadas por Manuela de Azevedo. Fragmentos de umas memórias que não chegaram a existir] 

“As memórias de Teixeira Gomes fizeram parte de vários projetos. Memórias políticas com a militância partidária republicana, a carreira diplomática e o exercício da Presidência da República. Memórias literárias resultantes do convívio com escritores, poetas, pintores e músicos. Em Coimbra, onde fez o secundário. No Porto, onde estudou Medicina sem concluir o curso. Em Lisboa, onde frequentou as principais tertúlias do fim do século XIX e começo do século XX. Somem-se as memórias familiares do Algarve — as relações difíceis com o pai e ainda mais difíceis com a mãe, que o deserdou, por viver maritalmente e ter filhos de uma empregada; e as do comerciante de figos com meios para passar metade do ano em viagens através da Europa. Finalmente, as memórias do exílio voluntário, após a renúncia à Presidência da República em 1925, que lhe permitiu retomar com intensidade a escrita. Nunca concretizou o grande livro de memórias que prometeu, mas deixou em correspondência pessoal, política e literária reminiscências de 80 anos de existência repleta de contrastes.

Desde sempre as cartas foram para Teixeira Gomes um modo de comunicar. Publicou em vida três livros de cartas: “Cartas Sem Moral Nenhuma”, “Cartas a Columbano” e “Miscelânea”, com relatos de viagens e reflexões literárias e estéticas. Castelo Branco Chaves também recolhera, no âmbito das edições promovidas em 1960, no centenário do nascimento, outros volumes de correspondência. Mas além da epistolografia coligida em livros existia correspondência inédita e dispersa para amigos, em especial o poeta João de Barros e que o seu filho Henrique de Barros selecionou, incumbindo Manuela de Azevedo da edição. A investigação tem prosseguido com António Barros, o neto de João de Barros, que ficou a cuidar do espolio do avô para novas edições.

Ficamos a saber, através do próprio Teixeira Gomes, o que pensava dessa literatura de testemunho que praticou com abundância: “Eu tive sempre, mais ou menos, a mania epistolar, e pouca gente terá havido que escrevesse tantas cartas como eu, no decorrer desta minha agitada, longa, e curiosa vida. (...) Talvez porque o meu temperamento se compraz no desalinho da conversação despretensiosa, e repugna às composições oratórias; seja qual for a razão o certo é que, escrever uma carta nunca me foi pesado.”

Confidenciou nas cartas a João de Barros: “Como sabe, nunca fui popular, mas a Presidência da República tornou-me detestado. Situação que abrangeu também, um pouco, os meus amigos pessoais. (…) Sem ter feito nada de bom, nem de mau, limitei-me ao estreito cumprimento das minhas obrigações de mestre de sala — levantei, no meu país, contra mim, os ódios que só costumam levantar os grandes benfeitores da Humanidade.”

Em vida e depois da morte, Teixeira Gomes foi muito criticado. Sem nunca lhe ter falado, Miguel Torga, no “Diário”, ao registar a morte de Teixeira Gomes não hesitou a chamar-lhe “manjerico”. Antes e depois do exílio, tinha inimigos de estimação, como Bernardino Machado, por incompatibilidades políticas recíprocas; João Chagas, que o insultou no “Diário”; ou Augusto de Vasconcelos, que despreza por motivos de carácter e ausência de lealdade política. Fez comentários arrasadores a Ginestal Machado, chamando-lhe “o seráfico Ginestal Machado a quem os rapazes de Santarém cognominaram o cu frouxo”. Mas um dos grandes ódios de estimação foi Cunha Leal, que lhe movera uma campanha sistemática na tribuna de São Bento ao ler, quando era Presidente da República, as passagens dos livros com referências sexuais. A divulgação provocou os efeitos desejados: Teixeira Gomes não perdoou a Cunha Leal.
 
 
Era com desdém que o antigo Presidente se pronunciava acerca de intelectuais portugueses que, em vida, o lisonjearam e depois o atacavam e de forma insultuosa. Júlio Dantas, além da ferocidade do manifesto de Almada Negreiros, não escapou à sátira de Teixeira Gomes. Chamou-lhe “merdiflor”. E acrescentava, entre outras considerações fulminantes: “Deve-se-lhe um invento genial: a aplicação dos pastéis de nata em supositórios. Uma vez na confeitaria Marques, engoliu, por ‘ali’ uma grande bandeja cheia deles.”

Augusto de Castro é outro visado, e com extrema contundência. Refere que lhe devia, quando Presidente da República, favores políticos, ao desejar interromper a direção do “Diário de Notícias” para ingressar na carreira diplomática, em Inglaterra e em Itália, junto do Papa. Outra crítica virulenta atingiu Afonso Lopes Vieira, com quem tivera, aliás, relações muito cordiais e expressas em correspondência. A opinião alterou-se quando Lopes Vieira derivou para a exaltação de Fátima, de que terá sido o primeiro poeta oficial.

A opinião de Teixeira Gomes acerca da literatura portuguesa era radical. Considerava-a “um mito” e insistia: “Nós parecemos tudo menos o que na realidade somos, isto é, plagiários inveterados, do princípio ao fim, de uma literatura de décima ordem.”

Mesmo assim, demonstrou apreço por algumas obras e escritores, como Camões — “o melhor exemplo de uma repentina e salutar renascença, de pureza de formas e claridade de ideias e de estilo”. “No entanto”, advertia, “o publico pouco se importa com o genuíno Camões, que não distingue senão pelo nome (e por ventura pelo olho de menos) dos demais poetas dos tempos idos”. Era Fernão Mendes Pinto a figura que “sempre exerceu fascinação irresistível”, sobretudo “pela graça e cristalina simplicidade do seu estilo, que parece de agora”. Eça não o satisfaz tanto como Camilo, que apontou como o maior escritor português do século XIX. Bernardes e Castilho são referências assíduas e cita Bernardim Ribeiro quando pretende justificar estados de alma.

Perante os seus contemporâneos, Teixeira Gomes é um clássico. Condenava o desalinho e a confusão. Rejeitava a forma rebuscada e pomposa, a frase seca e o “estilo embaçado como se fosse temperado com sumo de marmelo cru”. Para ser espontâneo teria de haver um trabalho de “ferreiro, que passa da forja à bigorna, e daí à lima”.

A Republica desiludiu-o: “Sabia muitíssimo bem que, na incapacidade de resumir os seus ideais em princípios, o nosso povo os havia encarnado em meia dúzia de figuras representativas da Republica, e avaliava o que ela sofria em desdoiro e desonra, com os insultos infâmias que esses homens, sem o menor rebuço e desbragadamente, se assacavam e lançavam uns aos outros.” O modo como foi tratado quando exerceu a Presidência da República magoou-o profundamente. Em abril de 1927, escrevia a João Barros: “É, ou parece, um país de réprobos, onde todos vociferam, ardendo em ódio, consumidos de inveja.”
De país em país encontrou, finalmente, em Bugia (Argélia francesa) o local para se instalar nos últimos dez anos de vida. Passara já os 70 anos de errância contínua. Por diversas vezes, Teixeira Gomes falou do envelhecimento, das doenças que o atingiram. Porém, manteve até ao fim uma espantosa memoria. Na reta final, não deixou de confidenciar: “Estas cartas já se vão dando ares de ‘capítulos de memórias’, que não é intenção minha escrever. (...) Eu sigo, tanto quanto possível, saboreando este resto de vida, como criança que come o seu último bolo, às migalhas.
Ao corresponder-se com João de Barros, Teixeira Gomes sabia que as cartas não seriam destruídas e, mais cedo ou mais tarde, seriam publicadas. Construiu a imagem que fazia de si próprio e que teria sido adulterada, a propósito da ação que exerceu na vida publica. Escreveu sempre para a posteridade
Cartas para hoje – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências] – E revista do Expresso - 22 de Fevereiro de 2020, pp. 69 – com sublinhados nossos.com sublinhados nossos.

J.M.M.

domingo, 12 de janeiro de 2020

[FIGUEIRA DA FOZ] CARTAS DE MANUEL TEIXEIRA GOMES A JOÃO DE BARROS

LIVRO: "CARTAS DE MANUEL TEIXEIRA GOMES A JOÃO DE BARROS"

APRESENTANTE: António Valdemar

DATA: 16 de Janeiro de 2020

HORÁRIO: 18 horas

LOCAL: Auditório Municipal da Figueira da Foz - Rua Calouste Gulbenkian

Um evento que se recomenda a todos os potenciais interessados, com interesse pelas informações trocadas entre os dois intelectuais portugueses que marcaram a primeira metade do século XX.

Com os votos do maior sucesso.

A.A.B.M.

terça-feira, 7 de maio de 2013

REVISTA DA FIGUEIRA



REVISTA DA FIGUEIRA. Publicação mensal de Arte, Sciencia e Litteratura. Redactores: João Templário, Manoel d’Almeida e Cardozo Marta. Figueira. Imprensa Lusitana. 1903. 19,5x28 cm. 47-I págs. E.

… Tanto podemos condemnar os males d’uma sociedade pelo sentimento, na sua accepção mais restricta, como pela ironia, como pelo combate. O combate, ferindo, produz a exaltação; a ironia, mordendo, produz a vergonha, quando não dá a indifferença, e o sentimento verdadeiro são e forte, falando á alma, incute-lhe o bem com os mais santos exemplos. E assim, o que deve ser, é convicção e sinceridade nas palavras que ellas traduzem bem como a ideia nobre e uma alma nobre, e tenham só em vista a perfeição e o bem. Então que se siga por qualquer caminho. É a isto que nos propômos — rapazes no vigor da vida, e por isso cheios de convicção e justiça …

"Número único desta publicação dada a lume em Abril de 1903 e que contou com a colaboração de: Alberto Bastos, Aníbal Fernandes Tomás, Duarte Lima, João de Barros, Pedro Fernandes Tomás, Sousa Viterbo, Teixeira de Carvalho e de Tomás da Fonseca.

Ilustrada em extra-texto com um desenho do “Caes da Figueira da Foz por occasião da visita regia” impresso em papel couché e em folha á parte.. No final, impressa em folha à parte tem ainda a letra e a notação musical da “Modinha”, de J. F. Pereira da Costa".  [ler TUDO AQUI]
 
J.M.M.

quinta-feira, 11 de março de 2010

CARTAS DE MANUEL TEIXEIRA GOMES A JOÃO DE BARROS



Amanhã, vai realizar-se, em Portimão, a apresentação do livro Cartas de M. Teixeira Gomes a João de Barros. Esta obra resulta da preservação da importante colectânea de correspondência enviada pelo antigo Presidente da República ao poeta, pedagogo e político João de Barros.

Pode ler-se na apresentção da obra, na Câmara Municipal de Portimão:

Uma série de cartas e postais enviados entre estas duas eminentes figuras intelectuais da I República portuguesa, nas quais se abordam temas como literatura, política ou simplesmente os desabafos de Manuel Teixeira Gomes exilado em Bougie (actual Bejaia/Argélia), ao seu amigo de longa data, compreendendo a correspondência seleccionada entre 1905 e até poucos meses antes da sua morte, em Outubro de 1941.

A organização e coordenação das cartas coube a Manuela Azevedo, a jornalista com mais tempo de actividade e responsável pela publicação de outros títulos da correspondência de João de Barros como Cartas a João de Barros e Cartas Políticas a João de Barros.

A cerimónia de apresentação vai ter lugar às 18.30, no Museu de Portimão, ficando a apresentação da obra a cargo do ex-ministro e professor universitário Nuno Severiano Teixeira.

Uma actividade a acompanhar com todo o interesse e uma obra a não perder.

A.A.B.M.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

CARTA DE JOAQUIM DE CARVALHO A JOÃO DE BARROS


CARTA DE JOAQUIM DE CARVALHO A JOÃO DE BARROS

21-VI-931

Meu Exmo. e Prezado Amigo

Venho agradecer-lhe, com ânimo penhoradíssimo, a generosidade com que tratou o meu artigo de Hist.[ória] do Reg.[imen] Rep.[licano]. Foi escrito sob a ditadura, daí o encadeamento de factos e ideias num sentido beligerante, e uma ordenação diversa da que ditaria uma época de paz. Dissimulei a erudição, e afastei-me mesmo por vezes; em todo o caso, sem vaidade creio que trabalhei sobre o inédito, e cheguei a algumas conclusões que oxalá sejam directivas para investigações particulares. (...)

Chego a pensar que a queda da ditadura por uma revolução militar seria um crime nacional. Encadeava-nos, de novo, à farda, não havendo forças humanas que nos libertassem dessa coisa horrível que foi o pronunciamento militar - Sá da Bandeira, Saldanha, Machado Santos e os Liberatos Pintos, esteios da ditadura. A ditadura, levando este processo ao paroxismo, deve matá-lo com a sua queda e morte. Se não fossem as vítimas que pedem reparações e justiça, não deveria ser esta a nossa atitude? É admirável que este movimento de conjunção; mas confesso q[ue]me irritou ver tanto general e almirante na direcção suprema. É a reincidência no erro do século XIX e no erro da 1ª República que tivemos. Renovo os mais gratos e cordiais agradecimentos, e nunc et semper mande o seu amigo e ad.[mirador].

Joaquim de Carvalho

[excerptos de uma carta de Joaquim de Carvalho a João de Barros, publicado em Cartas Políticas a João de Barros, com pref. selecção e notas de Manuela de Azevedo, Col. Temas Portugueses, INCM, Lisboa, 1982 p. 398-399]

A.A.B.M.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

PEDAGOGIA E O IDEAL REPUBLICANO


Pedagogia e o Ideal Republicano

"... A organização democrática das sociedades impõe (...) um mínimo de educação a todos os indivíduos que a ela pertencem, e que, chamados a intervir na vida social e no governo (...) nunca o poderão fazer proficuamente sem a consciência cívica resultante da educação (...) Pode dizer-se, sem receio de desmentido, que um regime democrático é tanto mais perfeito e completo quanto mais perfeitas e completas forem nele as instituições educativas"

"(...) a República fez da educação e da instrução duas bandeiras de batalha, e com elas se tem preocupado e ocupado a cada instante. Instruir! Educar! A todo o momento os propagandistas lançam estas palavras mágicas para o meio do público. A todo o momento evocam, por meio delas, um esplendor de civismo e de progresso intelectual que não existe. A todo o momento ligam a sorte das novas instituições à vitória das ideias que estas palavras significam! e porque o farão?

Porque sentem que sem educar e sem instruir as novas gerações, dentro dum critério republicano, que seja ao mesmo tempo um critério pedagógico, ninguém poderá garantir o futuro da República e da Pátria.

Porque sentem, e porque sabem que à influência depressora de trezentos anos de educação jesuítica -desnacionalizando, desvirilizando, deprimindo as almas e os corpos - é indispensabilíssimo opor uma influência de liberdade, de energia, de vontade, de nacionalização inteligente, e de fortalecimento da nossa sensibilidade (...)"

[João Barros, in A pedagogia e o Ideal Republicano, 1979 - sublinhados nossos]

J.M.M.