domingo, 8 de dezembro de 2019

[COIMBRA - COLÓQUIO INTERNACIONAL] – DOIS SÉCULOS DA REVOLUÇÃO DE 1820: LIBERALISMO, ANTI-LIBERALISMO E PÓS-LIBERALISMO




DIAS: 20 a 23 de Abril 2020;
LOCAL: Coimbra (UC, FLUC e FEUC);

ORGANIZAÇÃO: F.L.UC. | F.E.U.C. | CEIS20 | IHC/FCSH/UNL

As Faculdades de Letras e de Economia da Universidade de Coimbra, em parceria com o Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra (CEIS20-UC) e o Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, promovem o colóquio internacional “Dois Séculos da Revolução de 1820: Liberalismo, anti-liberalismo e pós-liberalismo”, a realizar entre os dias 20 e 23 de abril, em Coimbra [AQUI]

Call for papers [LER TUDO AQUI]

A problemática delimitada resulta da adoção de uma abordagem inter-epocal e comparatista, interdisciplinar e, também, técnico-cívica dos dois séculos de soluções liberais, antiliberais e pós-liberais em Portugal e em outras zonas da Europa do Sul (antes de mais, Espanha e Itália), no Brasil e em outros países da América Latina, nos países dominantes.

Apela-se à apresentação de propostas de comunicação relativas às seguintes subáreas temáticas:

·         - Sistema político e administrativo;

·         - Estruturas e relações sociais;

·         - Pensamento económico e atividade económica;

·         - Correntes e fenómenos culturais;

·         - Relações internacionais.
 
Publicar-se-ão textos em obras coletivas e em dossiers de revistas.
Línguas de trabalho: português, castelhano, italiano e inglês.

As propostas de comunicação deverão ser submetidas por email para inscrições.ceis20@gmail.com e obedecer às seguintes características: título, resumo (até 4000 carateres com espaços), 5 palavras-chave, nome do(s) autor(es), nota biográfica (até 500 carateres com espaços), enquadramento institucional e email
Calendário:

·         Submissão de propostas: 15 de janeiro de 2020

·         Comunicação de aceitação/recusa: 31 de janeiro de 2020

·         Data limite de inscrição para comunicantes aceites: 7 de fevereiro de 2020

·         Divulgação do programa: 15 de fevereiro de 2020

·         Data limite para envio dos textos para publicação após revisão científica: 30 de junho de 2020
 
J.M.M.

domingo, 1 de dezembro de 2019

ASILO POLÍTICO EM TEMPOS DE SALAZAR



LIVRO: Asilo político em tempos de Salazar. Os casos de Humberto Delgado e Henrique Galvão;
AUTOR
: Luís Bigotte Chorão;
EDIÇÃO: Edições 70, Novembro de 2019, 336 p.

LANÇAMENTO:

DIA: 5 de Dezembro (18,30 horas);
LOCAL: Livraria Almedina Rato (R. da Escola Politécnica, 225 - Lisboa);
ORADORES: António Araújo | José Pacheco Pereira.

Henrique Galvão e Humberto Delgado assinalaram os difíceis tempos de oposição e luta à ditadura salazarista, tendo deixado um rasto de esperança e de ilusão nas camadas populares. Ambos tinham sido apoiantes da ditadura militar e do Estado Novo, ornamentando as suas fileiras. Na verdade, o tenente aviador Humberto Delgado e autor Da Pulhice do Homo Sapiens (Casa Ventura Abrantes, 1933), virulento escrito antirrepublicano e antimonárquico, acompanhou desde o início a ditadura e teve cargos relevantes no regime salazarista; Henrique Galvão, apoiante sidonista e caloroso adepto do salazarismo, exerceu devotamente cargos institucionais no início do Estado Novo. Essa ainda pouco esclarecida página negra da história contemporânea, levaram-nos, mais tarde, para o campo da oposição a Salazar e à Ditadura, fosse no escolho por uma pacífica luta eleitoral ou no ardor colocado em acções de grande espetacularidade e duro enfrentamento ao regime.

Este último trabalho de Luís Bigotte Chorão, aprofundamento de uma sua intervenção sobre o pedido de asilo político de Henrique Galvão à embaixada argentina, na FLUC, apresenta o enquadramento político e alguns marcos importantes em torno do asilo de Humberto Delgado (Janeiro de 1959) e Henrique Galvão (Fevereiro de 1959), incluindo, ainda, neste no seu estimado estudo outros asilados, como Rodrigo Teixeira Mendes de Abreu, Luís Cesariny Calafate, Manuel Serra, Sebastião Ribeiro, Manuel Sertório, Horácio Augusto Fernandes Gradim, Rogério de Oliveira e Silva, Joana Francisca Fonseca Simeão, Raúl Miguel Marques, Carlos Dionísio, entre outros.

Obra estimada e copiosa, com importantes fontes e demais anotações, apresenta no seu final (pp. 285-325) uns Anexos, provenientes do Arquivo Família Mairal, correspondência epistolar entre Henrique Galvão e Ernesto Pablo Mairal.  

Henrique Galvão e Humberto Delgado foram figuras extremamente populares durante o Estado Novo, nos meios oposicionistas não afetos ao Partido Comunista Português. Adversários destemidos do regime salazarista, viram-se ambos obrigados a pedir asilo político em circunstâncias que merecem a recuperação da memória histórica que este livro lhes concede. Enquanto Humberto Delgado o fez a 12 de janeiro 1959, na embaixada do Brasil, em Lisboa, Henrique Galvão formulou um pedido semelhante a 17 de fevereiro do mesmo ano, na representação diplomática da Argentina. Os dois pedidos de asilo transformaram-se rapidamente em acontecimentos políticos de primeira linha, com uma projeção internacional surpreendente. Em causa estavam duas personalidades que exaltavam, por maus motivos, os meios diplomáticos e a opinião pública. Enquanto o general Humberto Delgado tinha acabado de sair de um confronto violento com o regime, o capitão Henrique Galvão arrastava-se por inúmeras prisões ao longo de sete anos. Luís Bigotte Chorão reflete, assim, sobre um tempo de alta tensão política na história do século [AQUI]

J.M.M.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

[JANTAR LITERÁRIO] – A FIGUEIRA DE JORGE DE SENA


JANTAR LITERÁRIO - A FIGUEIRA DE JORGE DE SENA – 100 ANOS

 
DIA: 30 de Novembro de 2019 (20,00 horas);

LOCAL: Salão Cafée (Casino da Figueira da Foz);

PRESENÇA: António Valdemar | Luís Machado | Orquesta de Jazz da Escola do CAE da Figueira da Foz

ORGANIZAÇÃO: Câmara Municipal da Figueira da Foz | Casino da Figueira 

A CMFF em parceria com o Casino da Figueira tem patrocinado um conjunto de eventos na evocação do Centenário do nascimento do escritor e cidadão Jorge de SenaA Figueira de Jorge de Sena 100 Anos.

Recriando a curiosa obra de Sena, “Sinais de Fogo”, decorreu o “Percurso Jorge de Sena”, entre a estação e o casino, essa Figueira dos anos 30, lugar onde Jorge de Sena veraneava. Jorge Fazenda Lourenço e o escritor, professor figueirense e ex-vereador da Cultura António Tavares conversaram sobre o escritor e a sua obra.

Amanhã – dia 30 de Novembro – há lugar a um JANTAR LITERÁRIO, onde a arte gastronómica se alia ao culto das letras, tomando assento na mastigação, libação & palavras ditas, além dos inúmeros admiradores do precioso escritor, o emérito jornalista António Valdemar e Luís Machado, que serão acompanhados nesta colegiada pela Orquestra de Jazz da Escola de Artes do Centro de Artes e Espetáculos

Lá estaremos, em espirito makavenkal e  … para o resto.

A não perder!

J.M.M.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

ATÉ SEMPRE, COMPANHEIRO!



José Mário Branco, “português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro”, espalhou luminosamente a palavra, a melodia e o canto. Traçou a poesia, celebrou o sonho, inquietou-nos a alma. Com ternura e alegria.

Zé Mário tinha essa elevada arte de “estar aqui connosco”. Cantou a “margem do outro lado”, essa travessia ou “vaga de fundo” estremecida, atribulada, mas sempre digna. Essa bem-aventurança. Confiou-nos “a luz que vem do fim do mundo”, essa viagem daqueles que ainda não nasceram. Esteve connosco e nós com ele. “Para cantar e para o resto” – disse. E sim …. valeu a pena a travessia.

Até sempre, Companheiro!

FOTO de Alfredo Cunha, com a devida vénia

J.M.M.

sábado, 9 de novembro de 2019

[FIGUEIRA DA FOZ – EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIAS] ESCRITORES. MEMÓRIAS E OLHARES



EXPOSIÇÃO “Escritores. Memórias e Olhares” – Fernando Bento

DIAS: 8 de Novembro de 2019 a 2 de Fevereiro de 2020;
LOCAL: Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz ;
ORGANIZAÇÃO: CMFF | CAE | Apoio da APE ! Antena 1



► “ … Estes rostos de escritores, propostos por Fernando Bento, suscitam um encadear de ideias e até um eternizar de memórias. Por detrás de uma fisionomia humana há sempre uma história e uma memória. Se pensarmos assim, percebemos que o fotógrafo de que falamos não se limita a fixar e a reproduzir imagens. Ele capta, para além da máscara, a expressão dos gestos, revelando sentimentos e identificando emoções. No visor da sua máquina escolhe o melhor ângulo, enquadra, surpreende a autenticidade e só depois dispara. Resultado final: verdadeiras fotografias com alma, cunho pessoal e aquele rebeldismo a que já nos habituámos a admirar.

Escolher 25 fotografias, entre largas centenas de imagens, não foi fácil […] Nesta viagem onde o passado e o presente transportam memórias para o futuro, estes Escritores - grandes referências da portugalidade - constituem uma importante afirmação da nossa identidade cultural […]

[Luís MachadoO Curador & secretário-geral da APE - in Fotografar com Alma (do Catálogo da Exposição) ]
 
 

“A exposição de Fernando Bento no Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz integra uma serie de retratos de escritores portugueses contemporâneos da segunda metade do século vinte. A força e a irradiação das imagens, que resultam da sagacidade do olhar, do poder de análise e de síntese, transpõem o circunstancial imediato e mobilizam a nossa atenção.
 
 
Apesar de algumas ausências, não faltam personalidades de referência. A exposição fica, portanto, circunscrita ao trabalho realizado para a Associação Portuguesa de Escritores, desde 1995 e ao percurso de Fernando Bento, iniciado nos anos 80, concretamente, após janeiro de 1988 quando adquire a carteira profissional de jornalista. É a partir de então - e estando na posse de uma formação em técnicas fotográficas da imagem e no conhecimento estético da obra de pintores, escultores, ceramistas e cartunistas de gerações tão diversas - que se afirma com visibilidade crescente o fotógrafo e o editor fotográfico, Em 30 anos de ofício exercido em tempo inteiro predomina, contudo, o repórter.

[…] A presença do repórter ganhou projeção em realizações promovidas pela Associação Portuguesa de Escritores. Alguns exemplos: o ciclo Herculano 200 anos depois; as comemorações dos 150 anos do nascimento de Raúl Brandão; a evocação de Aquilino Ribeiro na Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris, E neste contexto o levantamento fotográfico dos cafés lendários e de outros locais relacionados com a vida e a obra de Aquilino nos dois exílios políticos, em Paris - um, no final da Monarquia; outro, na luta contra a ditadura militar que levou Salazar ao poder,

Destacam-se, entretanto, as sucessivas reportagens de Fernando Bento das tertúlias organizadas por Luís Machado no Café Martinho da Arcada, com a participação das maiores figuras literárias, artísticas e políticas. Tudo isto poderia ter ficado perdido na efeméridade das palavras e no acaso dos gestos e das atitudes. Mas restam dessas sessões memoráveis, a gravação das intervenções e o registo das imagens que permitem reconstituir testemunhos inéditos e revelações inesperadas para a clarificação de equívocos e para a reposição da história.

Felizmente, perduram nesta exposição de Fernando Bento e também nos livros de Luís Machado "Conversas à Quinta-Feira" e "Rostos da Portugalidade". Assim como os diálogos inseridos noutro livro de referência: "Amália, Confissões em Noite de Primavera".

Fernando Bento também fica ligado aos tratamentos de imagem do universo de Fernando Pessoa para exposição permanente no Martinho da Arcada. Outro trabalho que demonstrou os seus recursos técnicos assinala-se em "Ministros do Reino à Administração Interna" que inclui governantes desde 1834 até à atualidade, para a exposição, na sede do Ministério da Administração Interna e, depois, repetida nos Governos Civis de todo o país.
 
 
Tem como curador Luís Machado, esta exposição constituída por mais de vinte "memórias e olhares" a preto e branco, selecionadas de reportagens das atribuições de prémios literários, de festivais de poesia e outras homenagens que decorreram em Lisboa, em Tróia e na Figueira da Foz. Uma das singularidades da exposição reside essencialmente no facto de Fernando Bento, sem procurar efeitos sofisticados, ter captado em flagrante - com o faro visceral do repórter - personalidades tão diversificadas, na sua autenticidade humana e na evidência da sua relação quotidiana.

Os olhos e a intuição do repórter Fernando Bento - já consagrado a nível nacional e internacional - fixaram os rostos, as mãos, o perfil de figuras conhecidas de todos nós e que, na poesia, na ficção, no ensaio, aprofundaram e de modos tão diferentes, a paixão e os sonhos, as ambições e os terrores que denunciam o tempo em que viveram. Fernando Bento teve a capacidade de surpreender em cada rosto, o que existe para além das aparências.

António Valdemar - in Memórias e Olhares (do Catálogo da Exposição)

 J.M.M.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

LEITÃO DE BARROS REVISITADO



Leitão de Barros revisitado” – por António Valdemar, in Revista do Expresso
É um outro Leitão de Barros que nos confronta e nos surpreende na multiplicidade dos sete ofícios evidenciados no cinema, no teatro, nas artes plásticas, no jornalismo, na criação da Feira Popular, na organização de espetáculos que concebeu e realizou, nas festas da cidade que enchiam as ruas de Lisboa. Joana Leitão de Barros e Ana Mantero, duas netas que se recordam ainda do avô, acabam de publicar “Leitão de Barros — A Biografia Roubada”. É um livro repleto de factos e documentos, até agora desconhecidos e inesperados para os que não tiveram o privilégio de uma relação pessoal próxima. Apesar de teses universitárias, com a linguagem pesada e retorcida e os inevitáveis e preopinantes rodapés, este é, ainda, o livro que faltava e se encontra ao alcance do grande público.

Estamos perante um Leitão de Barros revisitado, que permanecia oculto num espólio — felizmente recuperado —, em mais de vinte caixotes, ao abandono, numa arrecadação, sem qualquer referência e, muito menos, sem a mínima ordenação. Assim surgiu, a pouco e pouco, muita correspondência recebida; muita cópia da correspondência enviada; muitas fotografias e muitos recortes de jornais e revistas.
Ao cabo de uma investigação exaustiva, que demorou sete anos, a decifrar, a sistematizar e a contextualizar milhares e milhares de documentos, já existia, pelo menos, um livro a propósito do homem, da sua obra e de tantas outras circunstâncias que representam a presença viva da primeira metade do século XX e dos seus grandes protagonistas.
Leitão de Barros ficou na história do cinema português e recebeu alguns importantes prémios internacionais. Marcou uma época. Desde “Malmequer” (1918), até “Vendaval Maravilhoso” (1949), passando pela “Severa”, extraída da peça e da narrativa romanceada de Júlio Dantas e que foi, em 1931, o primeiro filme sonoro português. Fixou o cenário marítimo e piscatório da Nazaré e da Póvoa de Varzim; o universo rural das “Pupilas do Senhor Reitor”, o pitoresco dos bairros humildes de Lisboa e a realidade telúrica e humana das populações dos arredores.
Ficou na história do jornalismo da primeira metade do século XX. Fundou e dirigiu o “Domingo Ilustrado” (1925-1927) e o “Notícias Ilustrado” (1928-1935). Estes dois semanários impuseram-se pela renovação gráfica, pela abundância de temas relatados e comentados. Teve a colaboração dos nomes famosos da época: Afonso Lopes Vieira e António Correia de Oliveira, entre os poetas; Carlos Malheiro Dias e Antero de Figueiredo, entre os escritores; e Carlos Reis e Roque Gameiro entre os artistas plásticos. Nos momentos solenes, Júlio Dantas era infalível.
Mas não hesitou publicar, e com todo o relevo, n’O Domingo Ilustrado o último manifesto de Almada NegreirosPa-Ta-Pom”, uma catilinária fulminante contra Martinho Nobre de Melo, catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa. Jovem ministro da Justiça de Sidónio e, na altura, um dos ministros da ditadura militar que, pela primeira vez, incluiu no Governo, o ainda desconhecido Oliveira Salazar. Leitão de Barros antecedeu António Ferro no lançamento de Salazar e do Estado Novo. Encontra-se provado neste livro.
 
Também n’O Domingo Ilustrado e no “Notícias Ilustrado” contribuiu para o conhecimento e valorização não só de Almada Negreiros, mas, também, de outros intervenientes do modernismo. Tais como os poetas e escritores: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro (a título póstumo), Alfredo Guisado, Luís de Montalvor; os pintores Eduardo Viana, Jorge Barradas e Sarah Affonso; os escultores Francisco Franco, Canto da Maya, Rui Gameiro e Barata Feyo; e os cartunistas e desenhadores Stuart Carvalhais, Carlos Botelho, José Tagarro e Bernardo Marques. Com Leitão de Barros começou — descoberto por Rodrigues AlvesEduardo Teixeira Coelho (o famoso ETC), o criador do “Mosquito”, para crianças e jovens, precursor do “Cavaleiro Andante” e da primeira adaptação de Eça de Queiroz para banda desenhada. O centenário do nascimento de Eduardo Teixeira Coelho — que este ano se completa — não teve o devido relevo e julgo que, nos Açores de onde era natural, também não lhe prestaram a devida homenagem
O escultor Leopoldo de Almeida que, a partir de indicações de Cottinelli Telmo e de Leitão de Barros, executou a figuração histórica do Padrão dos Descobrimentos para a Exposição do Mundo Português de 1940 (págs. 101 a 103) e que foi ampliado e inaugurado em 1960, durante as comemorações do centenário do Infante D. Henrique. Desde então passou a ser uma das imagens emblemáticas de Belém.
Ficou, também, Leitão de Barros na história do jornal “O Século”, no fim dos anos 30, até ao começo dos anos 50. Entre numerosas iniciativas criou o “Século Ilustrado” e a Feira Popular de Lisboa; voltou a entrevistar Salazar e entrevistou, no Castelo de Belleuve, nos arredores de Paris, a rainha D. Amélia, que enalteceu as obras do Estado Novo e a ação de Salazar.
É nesse período, de extraordinária dispersão e criatividade que Leitão de Barros concebeu e procurou viabilizar — e durante 17 anos atribulados — a nau “São Vicente”, réplica de um galeão do século XVII que se destinava a divulgar, através do Atlântico, das Américas, da África e do Oriente o que existia de mais significativo não só na história e nas diversas expressões da cultura portuguesa mas, também, o melhor que tínhamos nos vários sectores da produção comercial e industrial. Salazar inviabilizou o projeto depois de se terem gasto, na época, milhares e milhares de contos. Hoje correspondiam a cerca de €9 milhões.
 
Ficou, ainda, Leitão de Barros na história do “Diário de Notícias”. Fez crónicas e reportagens na Inglaterra, na Espanha e no Brasil, mas, durante os 15 anos, assinalou-se, em ‘Os Corvos’ (1953-1967). Era uma crónica semanal, que saía aos domingos, sempre na mesma página. Tinha repercussão nos mais diferentes extratos sociais: desde Salazar ao merceeiro da esquina. Não trazia assinatura e vinha paginada num espaço próprio e com carateres tipográficos próprios. Todos sabiam quem era o autor. Ocupava-se do que lhe apetecia e se passava em qualquer parte do país e do estrangeiro. (Entre muitos serviços de reportagem, também estive com Leitão de Barros e o José Rui a fazer a cobertura de uma Semana Santa, em Braga, onde, a certa altura, para surpresa minha e do José Rui introduziu no texto o elogio da Opus Dei). Mas, fundamentalmente, escrevia sobre Lisboa. ‘Os Corvos’ — de que há, apenas, a seleção, feita pelo próprio Leitão de Barros, uma até 1959, outra até 1961, em dois volumes ilustrados por João Abel Manta — mobilizaram milhares de leitores. Tinha propostas concretas para Lisboa: para valorizar a Avenida, para recuperar Alfama, para destacar a beleza das ruínas do Carmo, do Castelo e da orla ribeirinha do Tejo; para cuidar dos jardins e dos miradouros; para incentivar o turismo e a hotelaria, para ajudar as crianças e os velhos.
Outra singularidade deste livro de Joana Leitão de Barros e Ana Mantero mostra-nos e em toda a sua autenticidade, as implacáveis reações de Leitão de Barros em face da mediocridade, do mau gosto, do vazio de ideias e da pompa académica. Protestou junto de Salazar e com assiduidade e veemência — ao contrário do que muitos julgavam, pois consideravam-no um incondicional do regime, do Chefe e dos ministros — contra as picardias da censura (pág. 90). Numa das muitas cartas agora divulgadas afirmava a Cunha Leal, um dos temíveis líderes da oposição democrática: “Gostaria bem que me deixassem escrever — a mim que não sou escritor — que me deixassem ter opinião, que me não cortassem as unhas todos os sábados, depois do duche do capilé em que o ‘Diário de Noticias’ me encharca (…). Assim, tudo quanto escrevo é pífio, como pífio é o ar que respiramos…” (págs. 350, 351).
Numa outra carta a António Ferro, no auge das comemorações do Mundo Português, presididas por Júlio Dantas declarou (e Leitão de Barros investido em funções oficiais) que o Governo tinha “um par de botas para descalçar” e com urgência inadiável. Exigia perentoriamente, de António Ferro e, por extensão do ministro Duarte Pacheco, o afastamento imediato de Júlio Dantas. Sem quaisquer rodeios insistia: “Você não calcula o que esse homem tem feito de complicações, de gaffe, de possidonismo, de ‘ceroulas de malha’. É um sarilho a cada hora” (pág. 99). Trata António Ferro em diversas cartas com espantosa ferocidade. Denuncia a opinião inacreditável de Augusto de Castro acerca do cinema (pág. 98). Insurge-se oficialmente devido às desastrosas e infelizes decorações do “alegre arquiteto” Luís Benavente (pág. 108) E descreve, ainda, uma das suas atrevidas conversas com Salazar (págs. 108 a 112).
O livro expressivamente documentado revela os méritos tão diversificados de Leitão de Barros e, nas circunstâncias mais diferentes, o Leitão de Barros sem papas na língua. Também Joana Leitão de Barros e Ana Mantero tiveram a coragem de transcrever outros documentos polémicos do espólio, sem receio de enfrentar melindres familiares.
 
Numa das muitas cartas sepultadas, até agora, no espolio, o pintor Eduardo Malta, em delação premiada — se assim podemos classificar — descreveu, com enorme minúcia e citando nomes e factos, a deplorável sabotagem que se gerou para inviabilizar a votação favorável para ser Leitão de Barros sócio da Academia de Belas Artes. Não era uma questão de currículo, mas de aversão pessoal. Mais: de inveja e de medo da sua irreverência visceral e irreprimível e onde quer que fosse. Na Academia, fizeram os possíveis e impossíveis para que não houvesse quórum. Alinhou nessa cabala o próprio cunhado, o pintor e professor liceal Jaime Martins Barata, colaborador direto de anos seguidos de projetos profissionais comuns, o “taciturno” Martins Barata, protegido e defendido por Leitão de Barros ao ser marginalizado e excluído numa exposição a efetuar no Rio de Janeiro (pág. 74). Leitão de Barros não pode contar com a solidariedade de Martins Barata para ir para a Academia. Era um “desconfiado que tudo acautela” (pág. 74). Tão desconfiado que — relata o próprio Martins Barata, não esconde a sua conduta. Quando estava em Roma a pintar o altar de Nossa Senhora de Fátima, na basílica de Santo Eugénio — pormenorizou em carta a Leitão de Barros de 7 de julho de 1950 como tinha de proceder e para se defender: “Estas hordas seminuas não são de confiança, roubam tudo uns aos outros e a mim, se puderem, claro. Eu defendo-me com cadeados (7!) em vários sítios, mas estou sujeito como qualquer” (pág. 74).
Em nova votação, Leitão de Barros acabou, afinal, por entrar. Raul Lino, desta vez na presidência, quis resolver a questão. Era tarde. Leitão de Barros não chegou a tomar posse. Estava moribundo. Mas ainda deixou uma carta que arrasa a Academia e os que a constituíam (págs. 345 a 349). Carta tão virulenta como os textos mais sarcásticos de Camilo ou como os manifestos mais provocatórios e agressivos de Almada Negreiros e Fernando Pessoa. Um documento que saltou do espólio a fim de constituir mais um dos grandes panfletos contra todas as Academias nacionais e internacionais.
Tudo isto se destaca neste livro polémico, com verdades como punhos, de Joana Leitão de Barros e Ana Mantero, e que terá, pelo menos, mais uma outra edição.

LEITÃO DE BARROS — A BIOGRAFIA ROUBADA
Joana Leitão de Barros e Ana Mantero
Bizâncio, 2019, 367 págs., €18
Biografia

 

 
 
 
 
Leitão de Barros revisitado – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], E revista do Expresso - 26 de Outubro de 2019, pp.68-69 – com sublinhados nossos.
 
J.M.M.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

[SANTA COMBA DÃO] COLÓQUIO JOSE DA SILVA CARVALHO E O BICENTENÁRIO DA REVOLUÇÃO LIBERAL DE 1820 - PARTE II




DIA: 26 de Outubro de 2019;
LOCAL: Casa da Cultura de Santa Comba Dão (S. Comba Dão);

INTERVENÇÕES/ORADORES:

- Nuno Camarinhas [José da Silva Carvalho na Magistratura Territorial, entre a sua Formatura e a Revolução de 1820];

- Samuel de Paiva Pires [José da Silva Carvalho e o pensamento económico-filosófico britânico];

- António Ventura [José da Silva Carvalho e a Maçonaria];

… e ainda

- Apresentação do livro de BD sobre a Vida e a Obra de José da Silva Carvalho, de Santos Costa e António Neves

A não perder esta excelente iniciativa da Câmara Municipal de Santa Comba Dão a um dois seus mais ilustres filhos e dedicado obreiro da revolução liberal de 1820.
 
J.M.M.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

EXPOSIÇÃO – BEJA REPUBLICANA



EXPOSIÇÃO: Beja Republicana;
DIAS: 18 de Outubro a 12 de Novembro de 2019;
LOCAL: Centro Unesco para a Salvaguarda do Património Cultural e Imaterial de Beja [Rua do Sembrano, 78], Beja;
ORGANIZAÇÃO: Câmara Municipal de Beja - coord. de Constantino Piçarra (IHC-U.N.L).

Decorre a mostra de Beja Republicana (1910-1926), Exposição que “mostra a formação e afirmação do Partido Republicano Português no distrito de Beja”, descrevendo “a evolução política ao nível do poder local, evidencia aspectos marcantes da vida quotidiana da cidade, sublinha as principais realizações do poder republicano municipal e apresenta o panorama da imprensa local  e “o quadro do movimento operário de Beja durante a I República, com referência às suas organizações e principais lutas desenvolvidas” [AQUI].

Estará patente ao público até ao dia 12 de Novembro.

A não perder!

J.M.M.

domingo, 20 de outubro de 2019

CATALUNHA – POR FERNANDO PESSOA


CATALUNHA – Por Fernando Pessoa

"Dos problemas que hoje agitam e perturbam a indisciplinada vida da Europa, o problema do separatismo catalão é talvez o que mais flagrantemente foca o conflito fundamental que se trava hoje no mundo, e, portanto, aquele que mais curiosos ensinamentos contém.

No pleito, que o Destino faz que se digladie entre a Espanha e a Catalunha, há o facto essencial de todos os dramas. Como em todos os dramas, um momento criado pelo Destino, mas segundo inevitáveis resultados de um passado surdamente se acumulou, faz entrar em conflito forças e ideias que é absurdo que entrem em conflito, que é doloroso que se encontrem em guerra Como em todos os dramas, não há solução satisfatória para problema, porque a única arbitragem certa, e por isso injusta, é a do Destino. E como em todos os dramas, ambas as partes têm igual razão.
 
O conflito entre a Catalunha e a Espanha é o conflito entre o conceito nacional de país, e o conceito civilizacional de país. Um conceito é geográfico, supõe-se ser étnico, e afirma-se como linguístico. O outro conceito é histórico, supõe-se ser imperialista e afirma-se como cultural.

Do ponto de vista nacional, e exclusivamente nacional, a Catalunha é uma nação, um país, com índole própria, tendências especiais, com um idioma à parte, que as define, e uma aspiração, que as deseja.

Não é uma pseudo-nação como, por exemplo, a Bélgica ou a Suíça, a que falta, logo de princípio, a base linguística para mostrar ao mundo que tem personalidade. Não é uma nação artificial, como os Estados Unidos da América, onde a unidade linguística não exprime mais que uma tradição de colonização, sem bases em uma cultura própria, nem psique nacional a que corresponda. Não é uma nação morta, como a Irlanda, em que a [...]

Não é uma região espiritualmente conquistada, como as províncias da Alsácia e Lorena, originalmente germânicas, e que Luís XIV roubou à Alemanha, que Bismarck depois (de modo territorialmente legítimo) reaveu para a Pátria, e que hoje [1918] passam outra vez para as mãos do usurpador que as conquistara espiritualmente […]

A Catalunha está para a Espanha exactamente como a Provença para a França. Em ambos os casos a nação cultural se sobrepôs às nações naturais.

Quem da posteridade saberá, salvo só por sabê-lo, que houve catalão, que houve provençal, ou, mesmo, que houve holandês ou qualquer das línguas escandinavas? Ninguém. Só as línguas imperiais sobrevivem. Só as línguas dos povos que criam império têm direito ao futuro, e, portanto, ao presente nacional. Nós portugueses, somos um povo pequeno, mas somos um povo imperial, cuja língua alastrou por sobre o mundo, que criámos civilização, e não simplesmente a vivemos.

Por que razão deve Catalunha viver subordinada a Castela? Pela razão de que [...]

Ingleses, franceses, italianos, alemães, espanhóis, portugueses — todos criámos civilização, os outros viveram a civilização que qualquer de nós criou. A maior conquista que os impérios fazem é a conquista da posteridade. A conquista da posteridade, a língua imperial a grava nos muros da eternidade, a latteras [sic] de fogo. A Holanda quase que criou civilização mas a sua obra histórica, de relevo comercial e não cultural, não teve força para subsistir culturalmente. É como se não houvesse existido. Só os Boers, na extrema África, a registam. São óptimos lavradores e lêm a Bíblia todos os domingos. Vivi e sei, infelizmente […]

A Catalunha, porém, só tem que escolher entre as desvantagens menores da sua integração, como até aqui em Espanha, embora, porventura, com outras regalias, e as desvantagens maiores da sua independência absoluta. Ninguém na Ibéria lhe dá licença que escolha a terceira, a ignóbil hipótese, que seria a união com a França, a que parece secretamente visar parte da tendência catalanista"

[Fernando Pessoa, in Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, Lisboa, Ática, pp. 183-187 - sublinhados nossos]
 
J.M.M.