sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A MAÇONARIA EM SOUSEL 1911-1935


 
CONFERÊNCIA: "A Maçonaria em Sousel.


ORADOR: prof. AntónioVentura;
DIA:
8 de Outubro 2016 (18 horas);
LOCAL: Auditório da Biblioteca Municipal;
ORGANIZAÇÃO: Município de Sousel

 
Breve panorâmica da história da Maçonaria desde a sua fundação em 1717, expansão e implantação em Portugal até 1935.

As estruturas maçónicas em Sousel e os naturais do concelho que pertenceram à Maçonaria noutras localidades do país

J.M.M.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

VERGÍLIO FERREIRA OU PORTUGAL POR DENTRO. NA MEMÓRIA DOS DIAS



Vergílio Ferreira ou Portugal por dentro” – por António Valdemar, in Público
Portugal, a sua história e a sua memória foram objeto de abordagem, reflexão e comentário de Virgílio Ferreira, cujo centenário do nascimento está a ser assinalado, com debates em torno da sua obra. Fez a anotação cronológica do tempo vivido. Foi direto, frontal e controverso. Registou afetos e aversões que nele se mantiveram até ao fim e retrataram o seu modo de ser. Ensimesmado. Inquieto. Hesitando. Morrendo. Vivendo.

A memória polémica dos dias constitui o cerne das duas séries da Conta Corrente. O primeiro tomo começa a 1 de Fevereiro de 1959. Fizera 53 anos. Prolongou – se em nove volumes até Dezembro de 1992. Tinha coisas mais importantes para escrever? Já dissera tudo? Estava com 76 anos. Faleceu em 1996 com 80 anos. Seguiu a advertência de Dostoiewski: os «quarenta anos são a idade em que quase toda a gente se confessa. E travou a mesma luta de Sartre, outro dos seus mestres, ao sentir a urgência de «dizer a verdade», «o (sonho) de todo o escritor ao entrar na velhice». Se for publicada a correspondência com Lima de Freitas, Luís Albuquerque, Costa Marques, Mário de Sacramento, Eduardo Lourenço serão esclarecidas muitas posições que assumiu e não assumiu. A verdade possível ficou nas cartas aos amigos mais próximos.
 
Nas várias fases da criação de Vergilio Ferreira elegeu temas que vão perdurar no seu universo e que, de um modo ou de outro, se multiplicam na Conta Corrente. Não se reduzem, apenas, ao círculo familiar, aos conflitos pessoais, às querelas literárias, à oposição a Salazar e ao Salazarismo, a Marcelo Caetano e aos seus acólitos. A guerra aberta a Vasco Gonçalves e ao gonçalvismo. O apoio a Mário Soares na liderança do Partido Socialista e ao exercer a Presidência da Republica. Distinguiu – o com as maiores honras. Apesar disso, Virgílio Ferreira adotou uma reserva sistemática. Outra coisa não era de esperar. Tinha a amargura de quem vive quotidianamente dececionado e surpreendido por fatos consumados.

Assim se pronunciou acerca do comportamento individual e coletivo, dos portugueses, numa visão genérica, em vez de se ocupar de cada região, como fez Oliveira Martins (Joaquim Pedro) na introdução da História de Portugal a propósito das singularidades que se verificam nas populações do Minho ao Algarve, de Trás os Montes ao Alentejo. Procurou formular ideias próprias. Tentou aproximar – se dos ensaios de Eduardo Lourenço, a Psicanalise Mítica do Destino Português, no Labirinto da Saudade para interpretar fatores de identidade. Todavia, não atingiu a dimensão de Eduardo Lourenço, ou do próprio Vergílio Ferreira nos ensaios que reuniu em Espaço Invisível.
Portugal desde que começou a pensar-se – escreveu Vergílio Ferreira, numa indagação das raízes e vicissitudes – pensou-se sempre, não em função dele próprio mas em função dos outros; não em função do que devia pensar de si, mas do que julgava que os outros pensavam dele e do que ele de si pensava. Assim, a nossa individualidade nunca se confrontou consigo própria mas com a individualidade alheia. A nossa bazófia congénita vem da necessidade de que se repare em nós. Como não construímos nada, valemo-nos da farófia para compensar e assim salvarmos alguma coisa. Julgamos confusamente que a pesporrência é um direito legítimo de quem fez coisas"

Ao inventariar defeitos e virtudes incidiu sempre nos defeitos: “Nós inventamos esse direito para parecer que também fazemos. Há uma expressão popular que diz: «arrota, pelintra». Nós, da abundância, temos só o arroto. Usamos um vestuário espampanante, mas não usamos roupa interior nem nos lavamos. E todavia estar a dizê-lo é colaborar ainda na nossa degradação. Nós não sabemos ter respeito por nós próprios - mas que fazer?".
Observou, de imediato: «Pensar Portugal é pensá-lo no que ele é e não iludirmo-nos sobre o que ele é. Ora o que ele é a inconsciência, um infantilismo orgânico, o repentismo, o desequilíbrio emotivo que vai da abjeção e lágrima fácil aos atos grandiosos e heroicos, a credulidade, o embasbacamento, a difícil assunção da própria liberdade e a paralela e cómoda entrega do próprio destino às mãos dos outros, o mesquinho espírito de intriga, o entendimento e valorização de tudo numa dimensão curta, a zanga fácil e a reconciliação fácil como se tudo fossem rixas de família, a tendência para fazermos sempre da nossa vida um teatro, o berro, o espalhafato, a desinibição tumultuosa, o despudor com que exibimos facilmente o que devia ficar de portas adentro, a grosseria de um novo-rico sem riqueza, o egoísmo feroz e indiscreto balanceado com o altruísmo, se houver gente a ver ou a saber, a inautenticidade visível se queremos subir além de nós a superficialidade vistosa, a improvisação de expediente, o arrivismo, a trafulhice e o gozo e a vaidade de intrujar com a nossa «esperteza saloia», o fatalismo, a crendice milagreira, a parolice".

Faltava, contudo, o outro lado da moeda: “Decerto, temos também as nossas virtudes. Mas, na sua maioria, elas têm a sua raiz nestas misérias. Pensar Portugal? Mas mais ou menos todos sabemos já o que ele é. O que importa agora é apenas pensá-lo – ou seja, pôr-lhe um penso…”  Não resistiu a acrescentar que Portugal, no contexto europeu e universal é “um apêndice da sarrabulhada mundial”.
Era irreprimível a descarga de azedume. Mas foi tão intensa que tentou reconsiderar: ”Releio o que escrevi e sinto-me desgostoso. Eu não queria «dizer mal» do meu país, como os homens de 70 que, nesse dizer mal, compensavam o seu complexo de não terem nascido lá fora. O meu destino quer - o totalmente cumprido cá dentro. Tenho ao meu país um amor raivoso e infeliz». Ainda sobre Portugal e os portugueses, Vergílio Ferreira que, durante 40 anos lecionou Os Lusíadas, fez questão de acentuar: “A pátria, em momentos difíceis, descobre-se que existe. Mesmo a do vivório e da retórica. Existe. A retórica não se dá por ela, se trabalha a temperatura alta”.
Tudo isto reflete muito da visão de Eça de Queiroz, desde Uma Campanha Alegre e O Crime do Padre Amaro até à Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e as Serras. Ao indicar obras e autores que contribuíram para a sua formação intelectual citou Espinosa, Kant, Sartre, Caldwell, Steinebeck, Óscar Wilde, Jorge Amado. Menciona, noutros livros, Malraux e Heiddeger. Faltou Eça de Queiroz, que Vergílio Ferreira leu e dissecou para a tese de licenciatura na Faculdade de Letras de Coimbra. Muitos anos depois, em plena efervescência do PREC, confessou: “De vez em quando releio, uma página do Eça. E é sempre o mesmo encantamento, a mesma vibração misteriosa da «palavra». Ninguém como ele – concluiu – conheceu as ocultas ressonâncias da língua».
Mas, além de Eça, herdou o pessimismo de Oliveira Martins e de Antero; a contundência de Fialho, os pasmos e abismos de Raul Brandão. Contudo, nunca leu Gervásio Lobato, a grande farsa da  Lisboa em Camisa, as comédias de André Brun ou as diatribes de José Vilhena, a quem Rui Zink consagrou um estudo, no âmbito da Universidade de Lisboa. Também João Pedro Jorge já apresentou outra tese universitária acerca de Luís Pacheco e com o título provocatório Puta Que Os Pariu.
Houve em Vergilio Ferreira – e continua a haver em muitos outros intelectuais – relutância em avaliar a literatura marginal de contemporâneos e admitir que têm intuições que se aproximam da análise antropológica, por exemplo, nos ensaios de Adolfo Coelho e Jorge Dias. Todavia, Vergílio Ferreira assim como outros académicos – com os clássicos é obrigatório... – conheceram e aprofundaram as farsas de Gil Vicente que denunciam tendências inveteradas no povo português.
Os vários tomos da Conta Corrente de Vergílio Ferreira colocam-nos perante o homem e o escritor possuído – como afirmou Eduardo Lourenço – de «um niilismo criador», de um humanismo trágico» e da perturbação do «homem que suporta angustiadamente o desafio da finitude». Será difícil caracterizar melhor todo um percurso com direito a Nobel da Literatura. Em muitas páginas de Conta Corrente confrontamo-nos com ajustes de contas com gente medíocre, espuma de vulgaridades mas, de vez em quando, somos agarrados por reflexões que procuram comunicar um Portugal visto por dentro, na contiguidade da sua relação contemporânea e na amplitude da sua intemporalidade histórica

Vergílio Ferreira ou Portugal por dentro – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], jornal Público, 26 de Setembro de 2016, p.46 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

sábado, 24 de setembro de 2016

SIDÓNIO PAIS: ALGUMAS NOTAS SOBRE A INTERVENÇÃO DE PORTUGAL NA GRANDE GUERRA


 
 
LIVRO: Sidónio Pais: algumas notas sobre a intervenção de Portugal na Grande Guerra;
AUTOR: Augusto Casimiro (1889-1967)
;
EDIÇÃO: Livraria Chardron, Porto, 1919, p. 347

Augusto Casimiro (Amarante, 1889-Lisboa, 1967) foi um dos mais prolíficos escritores, contemporâneos, a contribuir com títulos sobre a I Guerra Mundial. Este seu Sidónio Pais, editado em 1919, subintitulado Algumas notas sobre a intervenção de Portugal na Grande Guerra, é uma compilação de artigos do autor, publicados no jornal A Vitória, no verão de 1919.

São textos de intervenção e comentário político, já posteriores ao atentado que vitimou Sidónio Pais, mas que giram em torno do que o autor considera as consequências ruinosas de que se revestiu este breve consulado nas condições do Corpo Expedicionário Português na frente de batalha: “o governo, absolutamente desinteressado de nós, deixava sem resposta os telegramas instantes do general Garcia Rosado, sob cujo comando se havia conseguido, contra e apesar do criminoso silêncio de Lisboa, aproveitar, para pôr um remate nobre a tanta miséria, o que restava ainda de fé, de esperança e de patriotismo eficiente, no mutilado, abandonado e mil vezes negado Corpo Expedicionário Português”.

Grande parte dos textos constitui uma contestação expressa à carta de Cunha e Costa no jornal Época, de 29 de Julho de 1919, intitulada “Sidónio Pais!”, e que se estende ao longo de 47 artigos que enaltecem a ação do Presidente, e que podem resumir-se à conclusão afirmada: “Sidónio Pais no capítulo relativo à nossa intervenção na guerra está limpo de toda a suspeição”.

Augusto Casimiro, por seu turno, reúne nas suas apreciações argumentos que tendem para reputar Sidónio Pais de “germanófilo e não intervencionista”, para o que se suporta ainda, no final do volume, em textos de outros autores publicados também n’A Vitória.

 [AQUI DIGITALIZADO - Hemeroteca Municipal de Lisboa]

J.M.M.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

ANAIS DO MUNICÍPIO DE FARO, VOL. XXXVIII, 2016

Na próxima sexta-feira, 23 de Setembro de 2016, vai ser apresentado o novo volume da revista Anais do Município de Faro, com a coord. do Prof. Joaquim Romero Magalhães.

A sessão de apresentação vai ter lugar na Biblioteca Municipal de Faro, António Ramos Rosa, pelas 17.30 h e contará com a presença do Presidente da Câmara Municipal de Faro, Rogério Bacalhau e do Director da revista.

Depois de vários anos em que não se publicou devido às dificuldades económicas, este volume regressa e com um conjunto de trabalhos muito aliciantes para se conhecer melhor a História de Faro e do Algarve abarcando temas desde a Idade Média ao século XX. 

Colaboram neste volume: José Eduardo Horta Correia, António Ventura, Joaquim Romero de Magalhães, Isabel Cruz, Luís Filipe Oliveira, Daniel Santana, Luís Cardoso de Meneses, Dália Paulo, Marco Sousa Santos, Marco Lopes, Nuno Teixeira, Lina Vedes e José Matos Guita.

O presente volume conta com os seguintes trabalhos:
- Luis Filipe Oliveira - A Ordem de Santiago em Portugal;
- Marco Lopes - Francisco Camacho e a homossexualidade no séc. XVI;
- Nuno Teixeira - Fragmentos do quotidiano do Convento de Nª Sª Assunção;
- Marco Sousa Santos - Entalhadores farenses : o retábulo de Nossa Senhora "A Franca";
Daniel Santana - A reconstrução barroca da Ermida de Santo António do Alto;
José Eduardo Horta Correia - Palácio de Estoi - obra de Manuel Caetano de Sousa?
- Luis Cardoso Menezes - Edifícios Notáveis de Faro;
Dália Paulo - O Museu Municipal de Faro;
António Pires Ventura - Pró Pátria em Faro;
- Isabel Cruz - À Volta de João de Deus e o Algarve;

Na secção vistos e vistas conta com textos de:
a) Lina Vedes - Vistos Crónicas: Fev. 2016; Ago. 1950; Ser farense; Amores Liceu; No meio termo… 
b) José de Matos Guita -  Doenças e Mézinhas 
c) Joaquim Romero Magalhães - Vistas Faro (Memórias - 1949 - 1959).

Na nota de divulgação do presente número da revista Anais do Município de Faro pode ler-se também:
A revista Anais do Município de Faro, conta já perto de 50 anos, ao longo dos quais tem procurado dar o devido destaque à história, ao património e à cultura da cidade e do concelho, preservando a sua Memória.
De salientar a importância de uma publicação regular como esta, não só para o Concelho, como para o Algarve, por ali se encontrarem gravadas as mais recentes investigações e testemunhos de um passado mais ou menos longínquo. Por outro lado, a revista permite aos investigadores cumprirem a sua função social de divulgação alargada dos seus trabalhos.
Os anais apresentam-nos um mosaico de factos e memórias de Faro e das suas gentes, ou como refere no seu texto de abertura o Presidente da Câmara: um fresco de Faro para os leitores de hoje e de amanhã.
Contamos com a presença de todos neste evento que, recorda-se, abre o programa das Jornadas Europeias do Património.

Com os votos do maior sucesso para mais este volume da revista que conta com um excelente conjunto de colaboradores de diferentes gerações e abarcando diferentes temas do memorialismo ao património, da Maçonaria à religião, da homossexualidade à vida quotidiana, da Idade Média até ao século XX.

A ler com toda a atenção.

A.A.B.M.





quinta-feira, 15 de setembro de 2016

A CENSURA E OS MANUAIS ESCOLARES DO ENSINO PRIMÁRIO: CONFERÊNCIA NO MUSEU BERNARDINO MACHADO

Museu Bernardino Machado, em Vila Nova de Famalicão, realiza amanhã, 16 de Setembro de 2016, pelas 21.30 h, uma conferência incluída no ciclo dedicado ao tema da Censura na Ditadura Militar e no Estado Novo, desta vez tem como convidado o Prof. Augusto Monteiro.

Título da conferênciaA Censura e os Manuais Escolares do Ensino Primário (De Carneiro Pacheco aos fins da década de 60).

Conferencista: Augusto Monteiro
Local: Museu Bernardino Machado

Contactos
Rua Adriano Pinto Basto, n.º 79
4760 - 114 Vila Nova de Famalicão


Telefone: 252 377 733
E-mail: museu@bernardinomachado.org
Vila Nova de Famalicão

Entrada Livre

Data: 16 de Setembro de 2016

Horário: 21:30 h

O conferencista Augusto José Rodrigues Martins Monteiro é professor aposentado, colabora com o Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, da Universidade de Coimbra, onde integra o grupo Políticas e Organizações Educativas e Dinâmicas Educacionais.

Natural de Bragança, onde nasceu em 1947, mas residindo em Coimbra há muitos anos, foi professor de História do ensino básico e secundário, orientador de estágio e formador de professores na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde leccionou disciplinas ligadas à Didáctica da História.

Publicou diversas obras e artigos como:
- Manteigas na segunda metade do século XVIII: os homens e a indústria, Manteigas, 1992;
Três estórias (pouco) doces, 1992 (Prémio da Associação Portuguesa de Escritores e Prémio da literatura infanto-juvenil da APE);
- Imaginação e criatividade no ensino da história : o texto literário como documento didáctico, APH, Lisboa, 1997;
25 de Abril uma aventura para a democracia : texto para os alunos, (org.), Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra, Coimbra, 2000;
- 25 de Abril : outras maneiras de contar a mesma história (co-autoria com Maria Manuela Cruzeiro), Editorial Notícias, Lisboa, 2000;
Em Abril, histórias mil... : (as do 25 de Abril e outras), Coimbra, Lápis de Memórias, 2012;

Conta ainda vários artigos publicados e conferências realizadas.

Uma iniciativa a que desejamos o maior sucesso.

A.A.B.M.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

O CUSTO DA SOBERANIA: QUANTO VALEU A IMPOSIÇÃO DA DÉCIMA - CONFERÊNCIA


O Arquivo Municipal de Loulé realiza a próxima sessão do ciclo "O Documento que se segue" no próximo sábado, 17 de Setembro de 2016, pelas 15 horas, contando com a presença da Prof. Leonor Freire Costa, do Instituto Superior de Economia e Gestão, da Universidade de Lisboa.

Pode ler-se na nota de divulgação do evento:

A 17 de setembro, sábado, pelas 15h00, o Arquivo Municipal de Loulé recebe a Conferência “O custo da soberania: quanto valeu a imposição da décima”, apresentada por Leonor Freire Costa, no âmbito do Ciclo “O Documento que se segue”.
A presente comunicação versa sobre a fiscalidade no período do Antigo Regime, quer como fator de eliminação de regionalismos – portanto, de construção de unidade política -, quer como fator de tensão social e, portanto, de cisões desagregadoras.
A história da introdução de um imposto direto sobre o rendimento para financiar a guerra de restauração de Portugal (1640-1668) constitui uma das mais peculiares características do sistema tributário português no quadro geral das soluções seguidas pelos estados dinásticos ou repúblicas contemporâneas para custear a ordem política. Sendo a despesa sempre avolumada por conflitos militares, várias soluções seriam possíveis, entre impostos sobre transações internas, ou sobre património, sobre o comércio externo e até aumento da dívida pública. Contudo, a solução baseou-se num imposto sobre rendimento, mantendo-se inevitável o aumento da dívida.
Nesta apresentação começa-se por dar o enquadramento da extraordinária inovação fiscal que constituiu a introdução de um imposto sobre o rendimento, o qual perdurará até à Revolução Liberal.
Segue-se um conjunto de informações que procuram avaliar os resultados financeiros deste esforço tributário e termina-se com uma avaliação do relevo deste imposto entre o conjunto de receitas do aparelho de Estado no consulado do Marquês de Pombal e nas vésperas das invasões francesas. Neste percurso, é possível esclarecer os fundamentos institucionais, políticos e económicos do fundo arquivístico Livros de Décima em depósito no Arquivo Municipal e Loulé.
Leonor Freire Costa é docente da Universidade de Lisboa, no Instituto Superior de Economia e Gestão, onde leciona História Económica e Empresarial, História Económica de Portugal e Economia, Instituições e Desenvolvimento no âmbito de cursos de segundo ciclo. É investigadora do Gabinete de História Económica e Social.
Iniciou os seus trabalhos académicos com estudos de História Colonial e Marítima nos séculos XVI e XVII. No decurso da sua carreira como investigadora, tem participado nos últimos anos em projetos de trabalho no âmbito mais geral da história económica de Portugal, embora a pesquisa que desenvolve se tenha vindo a centrar nos impactos do império, quer na dimensão fiscal, quer na dimensão da evolução económica e social. É autora de vários trabalhos publicados.
Esta Conferência é de entrada livre.
A conferencista conta com um extenso currículo académico de onde extraímos os seguintes extractos:
Livros publicados:
  • - O Ouro do Brasil, Lisboa, Imprensa Nacional, 2013 (em co-autoria com Maria Manuela Rocha e Rita Martins de Sousa) 
  • - História Económica de Portugal, (1143-2010). Lisboa, Esfera dos Livros, 2011 (em co-autoria com Pedro Lains e Susana Munch Miranda)
  •  - D. João IV, Lisboa, Círculo de Leitores, 2006 (em co-autoria com Mafalda Soares da Cunha)
  • Império e Grupos Mercantis - entre o Oriente e o Atlântico (século XVII), Livros Horizonte, Lisboa, 2002.
  • - O Transporte no Atlântico e a Companhia Geral do Comércio do Brasil (1580-1663), CNCDP, Lisboa, 2002
  • - Naus e Galeões na Ribeira de Lisboa. A Construção Naval no século XVI para a Rota do Cabo, Patromónia Histórica, Cascais, 1997.

Artigos publicados:

  • - "Social Capital and economic performance: trust and distrust in eighteenth-century gold shipments from Brazil",  European Review of Economic History, vol 15, 2011, pp.1-27 (em co-autoria com Maria Manuela Rocha e Tanya Araújo.
  • - "State monopoly or corporate business: warfare in Early Modern Europe", The Journal of European Economic History, nº2, 2009, pp.219-261.
  • - "Remessas do ouro brasileiro: organização mercantil e problemas de agência em meados do século XVIII", Análise Social, vol. XLII, nº182, 2007 (em co-autoria com Maria Manuela Rocha).
  • - "Caravelles et flottes escortées: risque et affaires au XVII è siècle dans l'Atlantique Portugais ", in Marzagalli, Silvia e Marnot, Bruno (eds), Guerre et Économie dan l'Espace Atlantique du XVIe au XXe Siècle, Bordeaux, Presse Universitaires de Bordeaux, 2006, p.177-194.
  • - Privateering and Insurance: Transaction Costs in Seventeenth-Century European Colonial Flows", Cavaciocchi, Simonetta (ed) Ricchezza del Mare, Ricchezz dal mare, secc XIII-XVIII, Atti delle "Settimane di Studi", Istituto Internazionale di Storia Economica "F. Datini", Prato, Firenza, Le Monnier, 2006, pp. 703-726.
  • - Em co-autoria com Maria Manuela Rocha ; Rita Martins de Sousa, "O ouro cruza o Atlântico", Revista do Arquivo Público Mineiro, nº 41, 2005.
  • - "Les circuits atlantiques dans l'économie portugaise du XVIIème siècle ", Arquivos do Centro Cultural Calouste Gulbenkian, vol. L. 2005.
  • - "Merchants Groups in the Seventeenth-Century Brazilian Sugar Trade. Reappraising Old Topics with New Research Insights", E-journal of Portuguese History, vol. 2, 2004, nº1 http://www.brown.edu/e-jph/ .
  • - "Informação e incerteza: gerindo os riscos do negócio colonial (século XVI-XVII)", Ler História, nº44, 2003.
  • - Redes Interportuárias nos Circuitos do Açúcar Brasileiro. O trajecto de Gaspar Pacheco, um banqueiro de D. João IV", Anais da Universidade de Évora, 2001.
  • - "Pernambuco e a Companhia Geral do Comércio do Brasil", Penélope. Fazer e Desfazer a História, nº23, 2000.
  • - "O Padre António Vieira e a condenação da caravela. Para a história da Companhia Geral do Comércio do Brasil", Terceiro Centenário da Morte do Padre António Vieira. Congresso Internacional. Actas, vol. I, Braga, 1999.
  • - "O Estaleiro da Ribeira das Naus, a Rota do Cabo e os Fluxos Comerciais Europeus", A Carreira da Índia e as Rotas dos Estreitos, Angra do Heroísmo, 1998, pp. 239-255.
  • - Transporte Marítimo no Atlântico nos Séculos XVI-XVII: contributos para um estudo de rentabilidade", História das Ilhas Atlânticas. Actas do IV Colóquio Internacional de História das Ilhas Atlânticas, Gran- Canária/Tenerife, 1995, Vol. I, Funchal, 1997.
  • - "Defesa e Conservação do Reino: achegas para o estudo da especialização portuária no século XVI", Mare Liberum, nº13, 1997.
  • - Aspectos Empresariais da Construção Naval no Século XVI: o caso da Ribeira das Naus de Lisboa", Análise Social, vol. XXXI, nº136/137, 1996.
  • - "Carpinteiros e Calafates da Ribeira das Naus. Um Olhar sobre Lisboa de Quinhentos", Penélope. Fazer e Desfazer a História, nº13, 1994.
  • - A Construção Naval", Mattoso, José (dir) e Magalhães, Joaquim Romero de (coord.), História de Portugal, Vol. III, Círculo de Leitores, Lisboa, 1993.
  • - "Os Regimentos sobre a Matrícula dos Oficiais da Navegação, da Ribeira e Bombardeiros de 1591 e de 1626", Revista de História Económica e Social, nº25, 1989.
  • - "Acerca da Produção Cartográfica no Século XVI", Revista de História Económica e Social, nº23, 1988.
  • - "Relação Anónima da Segunda Viagem de Vasco da Gama à Índia", transcrição e notas, Cidadania e História. Em Homenagem a Jaime Cortesão. Cadernos da Revista de História Económica e Social, nº6/7, Lisboa, 1985.

O currículo completo pode ser consultado AQUI.

Com os votos do maior sucesso para mais esta iniciativa.

A.A.B.M.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

XVI CONGRESSO INTERNACIONAL DAS JORNADAS DE EDUCAÇÃO HISTÓRICA

Realiza-se nos próximos dias 11 a 13 de Setembro de 2016, o XVI Congresso Internacional das Jornadas de Educação Histórica, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Sobre este evento pode ler-se na nota de divulgação:

O XVI Congresso Internacional das Jornadas de Educação Histórica, que se realiza entre 11 e 13 de setembro de 2016, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, incidindo sobre o tema “Epistemologias e Ensino de História”, é o culminar de um percurso de dezasseis anos de investigação em Educação Histórica, de reflexão sobre o ensino e a aprendizagem de História, que se estendeu de um lado ao outro do Atlântico abrangendo uma extensa comunidade científica europeia-americana. A temática que será o foco destas Jornadas decorre da pertinência de se dar continuidade e, mormente, reforçar a ligação entre teoria e prática na área do Ensino de História. Salienta-se a necessidade de se analisar e divulgar propostas de experiências educativas, em situações de aprendizagem reais, solidamente ancoradas em reflexão epistemológica sobre o conhecimento histórico. 
O evento destina-se a mestres, doutorandos, doutores e investigadores em ensino da História, professores de História, alunos de licenciatura de História, de Geografia e em Educação Básica, alunos de Mestrado em Ensino de História e de Geografia do ensino básico e secundário, alunos do Mestrado em Educação Pré-escolar e em Ensino do 1.º e 2.º CEB, e a todos os interessados nesta área de investigação e docência.
Todos os interessados em assistir ao XVI Congresso Internacional das Jornadas Internacionais de Educação Histórica, terão de se inscrever no congresso. Para tal deverão:
1º - Aceder ao link http://goo.gl/forms/oDLdAddfRCj8NpBZ2 e preencher o formulário de inscrição.
2º - Depois de submetido o formulário de inscrição, deverão aceder ao linkhttp://www.letras.up.pt/gi/por/eventos.asp?tt=fa&ln=por e preencher o formulário de pagamento.
3º - Deverão, de seguida, proceder ao pagamento da inscrição com Cartão de Crédito.
4º - Em caso de dúvidas ou dificuldades em efetuar a sua inscrição ou pagamento, por favor contactem o secretariado do congresso através do emailxvijornadaseduhist@gmail.com.

O evento conta com algumas várias figuras de destaque no panorama historiográfico: Sérgio Campos MatosIsabel Barca, Arthur ChapmanMaria Auxiliadora SchmidtEstêvão MartinsJörn Rüsen, entre vários investigadores que apresentam comunicações sobre o tema. O programa completo do congresso pode ser consultado AQUI.

Aos potenciais interessados fica a ligação para o Congresso AQUI.

Com os votos do maior sucesso para a iniciativa.

A.A.B.M.

sábado, 27 de agosto de 2016

[GRANDE ORIENTE LUSITANO – MAÇONARIA PORTUGUESA] NA HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES THOMAZ – FIGUEIRA DA FOZ


DISCURSO PROFERIDO NA HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES THOMAZ NO DIA 24 DE AGOSTO DE 2016, NA FIGUEIRA DA FOZ, pelo Grande Secretario Geral do Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa

“Em nome do Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, o GOL está uma vez mais presente nesta celebração do dia 24 de Agosto.
Ao celebrarmos Fernandes Tomás, estamos inequivocamente a celebrar o dia 24 de Agosto de 1820 e a Revolução Liberal. Estamos a relembrar o homem que encarnou a alma dessa revolução, cuja matriz era a elaboração de uma Constituição, expressão de uma cidadania composta pela participação de todos da vida da sociedade, moldada em direitos e deveres para com o todo social. Estamos também a manter vivas as ideias do Bem Comum e do bom governo que fizeram história a partir do século XVIII, com as teorias de Locke, Hobbes, Montesquieu ou Rousseau. Aliás, é este quem afirma que a Lei depois de aprovada pelo soberano, sendo este o povo reunido em assembleia, se converte em vontade geral, que será posteriormente executada pelo governo, grupo de homens particulares a quem cabe a aplicação concreta das leis, e que naturalmente nunca vai contra o Bem Comum.

Ao longo dos séculos mudou a forma como governantes e governados se vêm mutuamente. Até ao século XVIII um bom governante era aquele que enriquecia com o governo da nação. No século XIX, um bom governante era aquele que se sacrificava pelo bem público. Fernandes Tomás encarna este espírito de salientar a liberdade individual em articulação com o coletivo, opondo-se a quaisquer privilégios singulares, fossem eles de reivindicada ancestralidade ou de qualquer outra natureza. Hoje, muitas vezes a crítica fácil e demagógica leva-nos a olhar para os governantes com desconfiança e mal dizer, esquecendo-nos que muitas vezes de quem sacrifica a sua vida pessoal e familiar em prol do Bem Comum.
Por isso, também hoje, depois de um século XX tumultuoso, de mudança de paradigmas, cabe-nos manter vivos um conjunto de valores onde cada vez mais a participação cívica ganha peso. Onde, aliado ao alheamento político muitas vezes visível em períodos eleitorais, se deve evitar a crítica fácil, não poucas vezes o caminho mais curto para as ditaduras e para a perda da Liberdade, esse bem que Fernandes Tomás tanto amava, quando criou o Sinédrio ou quando intervinha nas Cortes Constituintes.

Um dos mais brilhantes parlamentares portugueses, cidadão exemplar, referência de honra e dignidade, admirado pelas suas faculdades oratórias, pela sua honradez e pela sua honestidade, Fernandes Tomás foi o pai de muitas das Liberdades e práticas que hoje damos por adquiridas. Morreu pobre e nada quis do Estado, o qual muito lhe devia.
O Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa sente particular orgulho em ter contado de entre os seus membros um Homem com a grandeza de Manuel Fernandes Tomás. O Grande Oriente Lusitano sente orgulho nos maçons que hoje, como nos séculos XIX e XX, trabalharam na Figueira da Foz.
Aqui a Maçonaria fundou associações de apoio aos mais desfavorecidos, criou escolas e exerceu uma profunda influência cultural e cívica através de associações e jornais. Na história da cidade são incontornáveis os nomes de muitos que aqui nasceram ou que à cidade estiveram ligados pela sua actividade profissional ou política. Nomes como António Augusto Esteves, escritor e bibliófilo, Maurício Águas Pinto, fundador dos Rotários figueirenses, Joaquim de Carvalho, professor universitário, Joaquim António Feteira, comerciante, Goltz de Carvalho, professor e naturalista ou António dos Santos Rocha, advogado e arqueólogo, ou ainda de Gentil da Silva Ribeiro, operário, dirigente republicano e impulsionador do associativismo e da imprensa local têm além da sua condição de figueirenses a qualidade de terem sido maçons do Grande Oriente Lusitano.

Por isso também não podemos deixar de louvar este momento e este ato levado a efeito pela Câmara Municipal da Figueira da Foz, na pessoa do seu presidente, que ao lembrar um filho da terra não esquece a história e o seu passado, trazendo para as gerações do presente o seu exemplo, tornando a nossa sociedade mais fraterna e mais participativa. Queremos referir o papel da Associação Manuel Fernandes Thomaz, na sua luta por manter viva a memória deste cidadão exemplar lembrando-o nos dias de hoje. Queremos também saudar o importante papel de intervenção cultural e cívica da Associação 24 de Agosto, ao instituir esta data como uma das suas referências. Terminamos, deixando uma palavra aos figueirenses, para que tenham em Fernandes Tomás um exemplo de cidadão, que ultrapassou as fronteiras da cidade, para dar ao país o seu melhor. E, por último, também uma palavra para os maçons e para as Lojas da Figueira da Foz, para que encontrem em Fernandes Tomás um exemplo para o seu trabalho de todos os dias.
Por último, uma palavra de respeito e de incentivo pelo trabalho desenvolvido pela Loja Fernandes Tomás, do Grande Oriente Lusitano, ao ter como patrono este nome ímpar da história portuguesa e ao encontrar nele um exemplo para o seu trabalho de todos os dias, num contributo árduo e permanente para a construção de uma sociedade melhor, provando assim que as utopias não cessaram”.

[Grande Secretario Geral do Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa, 24 de Agosto de 2016] | sublinhados nossos

FOTO de Mauro Correia, com a devida vénia
J.M.M.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

[ASSOCIAÇÃO MANUEL FERNANDES THOMAZ] HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES THOMAZ – FIGUEIRA DA FOZ



DISCURSO PROFERIDO NA HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES THOMAZ NO DIA 24 DE AGOSTO DE 2016, NA FIGUEIRA DA FOZ, pela Associação Manuel Fernandes Thomaz

A Associação Manuel Fernandes Thomaz, constituída a 12 de Janeiro de 1988 pela Câmara Municipal da Figueira da Foz, e por António Fernandes Tomás Veiga, Henrique Fernandes Tomás Veiga, Maria Amélia dos Anjos Gomes de Pina Veiga, Maria Elisa Pina Tomás Veiga Ferreira, Henrique Manuel Pina Tomás Veiga, Agostinho José Barbosa Ferreira, António Augusto dos Santos Menano e Manuel Barroso dos Santos, surgiu, e passo a citar, porque “várias pessoas e entidades estão interessadas na constituição de uma associação de índole cultural ou de qualquer outra índole relacionada com o movimento liberal encabeçado pelo figueirense MANUEL FERNANDES THOMAZ, (…) certos de que a sua outorga corresponde à vontade de um grande número de interessados”.
Desde sempre com sede na Figueira da Foz e contando, como figura de proa, com o interesse sapientíssimo e empenhado de Henrique Fernandes Tomás Veiga, a Associação visou os seguintes fins:

- promover a trasladação dos restos mortais de Manuel Fernandes Thomaz, de Lisboa para a Figueira da Foz;
- colaborar com a Câmara Municipal da Figueira da Foz nas comemorações da trasladação dos restos mortais de Manuel Fernandes Thomaz;

- fomentar a efectivação de estudos filosóficos, jurídicos, políticos, históricos, ou de qualquer outra índole, que permitam fixar os reflexos das ideias liberais, considerando, com particular atenção, o movimento encabeçado pelo figueirense Manuel Fernandes Thomaz;
- realizar as acções artísticas e culturais que, quer no plano pedagógico, quer no plano económico, se verifique ser necessário implementar como base para a consecução daqueles fins.

Ora, cumpridos a 24 de Agosto de 1988 os dois primeiros fins da sua criação, e porque acreditamos que as Organizações devem ser Entidades vivas e com propósito, valerá certamente a pena, hoje, reflectir acerca de duas questões, as quais, humildemente, enunciamos, acerca do papel da Associação Manuel Fernandes Thomaz:
- de que forma melhor respeitamos, hoje e no futuro, o supremo legado de integridade, valentia, igualdade, justiça, liberdade, sagacidade, reformismo, patriotismo, que o figueirense Manuel Fernandes Thomaz nos deixou?

- como materializamos este legado, em actividades que correspondam à fixação dos reflexos das ideias liberais, e não a um mero activismo ou, até, a um ritualismo frio de sentimentos, desvirtuador da irrequietude cívica do erudito e pensador que se preocupava com os males da pátria, cujos desastres sucessivos lhe enlutavam o generoso coração?
A morte de Manuel Fernandes Thomaz, a 19 de Novembro de 1822, impediu-o de continuar a sua luta em prol de um Portugal mais justo, mais livre, mais elevado, mas também o preservou de assistir à incapacidade dos seus contemporâneos em aplicar as bases da Declaração dos Direitos do Homem, fundamento principal da “sua” Constituição de 1822.

Manuel Fernandes Thomaz é reconhecido como o honrado e austero liberal que libertou o nosso País do jugo estrangeiro, liderando uma revolução “que se fez por aclamação, porque ninguém a ela naquele tempo se opôs e foi universalmente recebida e festejada como a restauradora da pública felicidade”, de acordo com José Liberato Freire de Carvalho, e iniciando, com a já referida Constituição de 1822, “a organização jurídica da democracia”, segundo Joaquim de Carvalho.
Hoje, 194 anos após a sua morte, será desapropriado ou demagógico chamar-lhe “o mais ilustre de todos os figueirenses”?


Assim, desprovidos de qualquer outro sentimento ou intenção que não seja a preservação dinâmica do legado de Manuel Fernandes Thomaz, e lembrando, sobretudo, a Democracia – do grego “demos”, povo, o qual detém o poder soberano sobre os poderes legislativo, executivo e judicial, exercidos em nome de todos os cidadãos pelos seus representantes livremente eleitos, os quais devem ser o garante da liberdade humana (de pensamento, de expressão, de protecção, de participação plena na vida política, económica e cultural da sociedade) -, aqui deixamos o repto de, como sociedade democrática, a qual está, assim, por imperativo ideológico, baseada em valores (como o da tolerância, da cooperação, do compromisso, por exemplo, conforme nos mostrou Manuel Fernandes Thomaz), todos juntos, com a intrepidez, a coragem, a ousadia, mas também eivados de um espírito cívico fundamentado e sábio, trabalharmos com o intuito de, em 2020, por ocasião do duplo centenário da Revolução-mãe, centrarmos na Figueira da Foz, terra natal de Manuel Fernandes Thomaz, as comemorações nacionais desta épica efeméride.

Há 100 anos atrás, escrevia-se que “a celebração do centenário da Revolução de 1820 constitui uma divida nacional. Impunha-se como um dever a todos os liberais. Dominava o país uma opressão traiçoeira; esmagava-o a intervenção férrea do estrangeiro. Foi nestas circunstâncias que apareceram os patriotas de 20, como libertadores e como precursores. Clamaram-lhes e chamam-lhes ainda hoje ingénuos. Ingénuos, sim, para os que são incapazes de avaliar o espírito de sacrifico. E é esse espírito, que torna o homem cidadão e apóstolo, o que mais e melhor caracteriza os heróis daquela revolução, digamo-lo sem favor. (…) Uma revolução que principia por proclamar a liberdade de pensamento, a liberdade de imprensa, a abolição da censura prévia, numa época de fanatismo e de reacção, tem foros adquiridos a uma consagração nacional. É uma divida a saldar pela República Portuguesa que é um reflexo daquele patriotismo e daquela abnegação”.

Sejamos então capazes de construir as pontes necessárias à concretização deste desiderato, que tanto honrará, certamente, a nossa cidade, bem como o legado do figueirense Manuel Fernandes Thomaz!

[Associação Manuel Fernandes Thomaz, 24 de Agosto de 2016]

FOTOS de Manuel Úria, com a devida vénia | sublinhados nossos

J.M.M.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

[TEXTO] NA HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS – FIGUEIRA DA FOZ


 
DISCURSO PROFERIDO NA HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS NO DIA 24 DE AGOSTO DE 2016, NA FIGUEIRA DA FOZ, pela Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto

Vão decorridos 196 anos que um punhado de heróis – à frente dos quais estava o nosso patrício Manuel Fernandes Tomás - ajustou o ideal da santa liberdade à obra legislativa constitucional de um Portugal que se queria novo e regenerado, tão cioso estavam da sua independência e da sua liberdade.
Na verdade, o movimento libertador de 24 de Agosto de 1820 na cidade do Porto, grito memorável da regeneração da Pátria livre e facto glorioso da nossa história, pôs fim à pesada grilheta da opressão férrea do estrangeiro, tirana e absurda, e lançou as sementes da reforma jurídico-constitucional, contra o arbítrio do Estado e os privilégios sociais, enchendo de júbilo o coração dos portugueses.

Cumpre-nos, portanto, a todos e cada um de nós, em preito de homenagem, respeito e gratidão pública, honrar a memória desses cidadãos que bem souberam irradiar a liberdade e redimir a Pátria. E, de entre eles, a veneranda figura do mais ilustre dos figueirenses, do mais instruído dos magistrados, o primeiro dos regeneradores da Pátria, o cidadão e o homem de bem, Manuel Fernandes Tomás.

A Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto tem – e terá sempre - o grato prazer de evocar esse auspicioso dia e laurear o nosso patrício, o Patriarca da Liberdade, associando-se à sua Homenagem, relembrando o seu exemplo benemérito e civilizador, honrando as suas virtudes morais e cívicas, perpetuando e iluminando a sua memória.



Minhas Senhoras e Meus Senhores
Rememorar acções heróicas dos nossos melhores, expondo os seus contributos, virtudes e acções pelo bem público, não é apenas ecoar o clamor da epopeia ou venerar lembranças do passado, mas, outrossim, ao enaltecer os seus talentos, colher os seus ensinamentos, dignificar as suas palavras, semear os seus exemplos.

Manuel Fernandes Tomás, pela probidade e integridade do seu pensamento político e obra pública, acrescentou “uma página à história das idades”, legando-nos um património cívico admirável que persistiu – e persiste – nesta alumiada terra figueirense. O reconhecimento e a ventura do seu ideário passaram, de facto, testemunho à geração vindoura, que ousou ser depositária fiel da sua alma, coragem e luta.
Sim, os ideais liberais e progressivos da revolução vintista deixaram sempre a sua semente luminosa entre a nossa gente, nesta nossa terra. Do Liberalismo à República, do Estado Novo à instauração do Regime Democrático, foram muitos e admiráveis aqueles cidadãos que tão bem souberam materializar os grandes ideais do humanismo, da liberdade, da fraternidade e justiça e que, deste modo, se vêem alistar ao lado de Manuel Fernandes Tomás, a que muito devem e em quem se revêem.

Entre eles, permitam-me lembrar com estremecido júbilo, os seguintes:
José Maria de Lemos (1805-1886), António Roberto de Oliveira Lopes Branco (1806-1889), Fernando Augusto Soares (1838-1918), José Joaquim Alves Fernandes Águas (1840-1919), Ernesto Fernandes Tomás (1848-1902), António dos Santos Rocha (1853-1910), Joaquim da Silva Cortesão (1853), Pedro Fernandes Tomás (1853-1927), Fortunato Augusto da Silva (1856-1926), Augusto Goltz de Carvalho (1858-1913), general Alfredo Augusto Freire de Andrade (1859-1929); José da Silva Fonseca (1863-1936), Manuel Gomes Cruz (1866-1943), Joaquim José Cerqueira da Rocha (1870-1928), João da Silva Rascão (1971-1950), Henrique Raimundo de Barros (1873-1929), José Gomes Cruz (1873-1941), Manuel Gaspar de Lemos (1874-1967), Frutuoso Abel dos Santos (1878-1928), António Mesquita de Figueiredo (1880-1954), Manuel Jorge Cruz (1880-1941), João de Barros (1881-19160), Manuel Cardoso Martha (1882-1958), António Augusto da Gama (1885-1966), Augusto dos Santos Pinto (1888-1979), José dos Santos Alves (1888-1958), António da Silva Biscaia (1892-1970), Raymundo Esteves (1892-1946), Albano Correia Neves Duque (1894-1963), António Augusto Esteves (Carlos Sombrio) (1894-1949), Maurício Augusto Águas Pinto (1884-1958), Adelino Ferreira Mesquita (1890-1977), Cristina Torres (1891-1975), Joaquim de Carvalho (1892-1958), José Rafael Sampaio (1892-1981), José da Silva Ribeiro (1894-1990), Frutuoso Soares Coronel Pessoa (1906-1980).

Assim, na história da vida figueirense, esta plêiade de notáveis cidadãos deixou-nos uma contínua (e difícil) utopia da cidadania e de serviço da causa pública, realizada através de uma fecundidade cívica e cultural exemplar, na animação da vida política, económica e associativa local, na conquista da liberdade e da democracia – o que é, afinal, o mais belo legado que prosseguiu e consolida a obra luminosa de Manuel Fernandes Tomás.
Esse é - Senhoras e Senhores – o maior tributo que se poderá prestar aos heróis dessa alvorada patriótica de 24 de Agosto (e, bem assim, ao nosso patrício Fernandes Tomás): avocar as virtudes sociais do combate cívico levado a cabo por várias gerações que nos precederam, homens e mulheres que irmanados no espírito e consciência do seu tempo nos souberam transmitir, fraterna e solidariamente, os valores da Liberdade, Justiça, Verdade, Honra e Progresso.

Nesse mesmo sentido se referiu Manuel Fernandes Tomás, no dizer do seu Relatório sobre o Estado e a Administração do Reino (3 de Fevereiro de 1821):
“Os homens mais dignos de servir a Pátria viviam no retiro e na obscuridade. Para os conhecer devia passar tempo”.

Tempo passado, é a hora de evocar na nossa memória, e para os vindouros, os traços luminosos que moveram à acção de gerações passadas, tempos históricos, sempre generosos e arrebatados, que deram alma e sonho na vinculação à polis e alento ao abraço de todos os homens como irmãos.
Por tudo isso dizemos bem alto:

Honra a Manuel Fernandes Tomás!
Viva a Liberdade!

[Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto, 24 de Agosto de 2016]

FOTO de F. Teixeira, com a devida vénia | sublinhados nossos

J.M.M.