sexta-feira, 26 de junho de 2020

REVISTA DO GRÉMIO LUSITANO ANO 9, Nº 21 – 1º SEMESTRE 2020


Grémio LusitanoAno 9, 21, 1º Semestre 2020, p.87; Editor: Grémio Lusitano; Dir: António Lopes; Coord: António Lopes e Álvaro Carrilho; Red.: Rua do Grémio Lusitano, 25, 1200-211 Lisboa.

«Uma revista como Grémio Lusitano pretende constituir-se como um espaço de livre debate de ideias, tendo por base os valores da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, como de resto se assinala no seu Estatuto Editorial. Com este número assumimos uma viragem no sentido de dar à nossa revista um caráter mais académico e de instrumento de trabalho para todos nós.

Defendendo, como de resto sempre foi timbre da Maçonaria, a existência de uma opinião pública informada, ativa e interveniente, condição essencial para o exercício

pleno da cidadania, compatibilizamos o livre pensamento, o refletir sobre as ideias em debate e o equacionar novas questões, com a Tradição, considerada esta como uma memória do passado, fundada na transmissão, onde estão presentes sinais, símbolos ou outras formas de registo, que desembocam no enriquecimento intelectual.

As questões ligadas ao Liberalismo são a base de uma sociedade social e politicamente democrática, participativa civicamente e tolerante na diversidade de opiniões e onde o enriquecimento intelectual é a ferramenta a que a Maçonaria sempre recorreu. São igualmente a base da sociedade que hoje conhecemos e de que usufruímos. Por isso, nada melhor do que recordar estes 200 anos da Revolução Liberal como tributo àqueles que em 1820 abriram a porta para a existência de uma Constituição. Com raízes no Iluminismo do século XVIII, estruturante das sociedades europeias e do continente americano do século XIX, pressupõe o Liberalismo, a existência de Liberdade, de um consentimento e representatividade dos governados e da igualdade perante a Lei. Pressupõe também a liberdade de escolha política, alternância de poder e, naturalmente a liberdade de pensamento. Valores e princípios que facilmente hoje admitimos como “naturais”, mas que infelizmente nem sempre foi assim e dos quais nunca nos devemos esquecer. Lembremo-nos de um dos grandes detratores da Maçonaria, José Agostinho de Macedo, que considerava que a Igualdade era contrária à “ordem natural das coisas” e como tudo na natureza era desigual, referindo como exemplo os dedos de uma mão, as árvores ou os homens, logo a desigualdade era, em seu entender, natural e indispensável à sociedade.

Por isso, o ano de 1820 e a revolução então ocorrida, constitui um marco histórico na História de Portugal, no qual muitos maçons tiveram um papel ativo. Inspirados em Locke, Adam Smith, Rousseau ou Montesquieu construíram o primeiro texto constitucional em 1822, primeiro de vários onde se discutiu se uma Constituição deveria sair dos representantes do povo ou concedida pelo monarca, se era um texto construído diligentemente pelos deputados ou se apenas plebiscitado, um debate que em todas as épocas atravessou a Maçonaria, como interveniente ativo na construção de uma sociedade melhor, mais justa e fraterna» [António Lopes]

TÁBUA: A Revolução em diferido: os Açores e a primeira experiência liberal (José Damião Rodrigues); Soberania Nacional, Monarquia e República: do 24 de Agosto de 1820 ao 5 de Outubro de 1910 (Rui Albuquerque); Vintismo e espaço público (Maria de Fátima Nunes); Transformações da propriedade fundiária: do Antigo Regime ao Liberalismo (Duarte Leite); A Crise do sistema liberal e o advento do novo regime (Amadeu Carvalho Homem); Maçonaria nos Açores: Tipografia e Jornalismo (António Valdemar); O Liberalismo visto pelos seus opositores (António Lopes); Teotónio de Ornelas – a sombra da juventude (Jorge A. Paulus Bruno); Um herói na revolução – Manuel Borges Carneiro (Albino Matos); O Jornalista Conimbricense Joaquim Martins de Carvalho (1822-1898) (José Manuel Martins); Museu Maçónico Português: Acervo do Liberalismo 

Revista à venda no Grémio Lusitano

J.M.M.

sábado, 20 de junho de 2020

ELIAS ASHMOLE (1617-1692) ... MEMOIRS OF THE LIFE OF THAT LEARNED ANTIQUARY ...



Memoirs of the life of that learned antiquary, Elias Ashmole, Esq; drawn up by himself by way of diary. With an appendix of original letters, Ed. Charles Burman, publisher J. Roberts, London, 1717

Elias Ashmole (1617-1692) "nasceu em Lichfield em 23 de maio de 1617, às 3 horas, 25 minutos e 49 segundos da manhã" ... pelo que escreveu nas suas Memórias (publicadas em 1717).  
Os distintos e inesgotáveis interesses de Elias Ashmole são virtuosos: astrologia, alquimia [escreveu Theatrum Chimicum Britannicum, London, 1652; aqui estão compilados os mais famosos filósofos ingleses que se dedicaram ao hermetismo], magia, botânica, foi historiador [parte da sua colecção e biblioteca - com raros manuscritos - foi doada à Universidade de Oxforf  Ashmolean Museum], fundador da Royal Society, rosa-cruz e, ao que é possível apurar nas suas Memórias, o primeiro maçon especulativo a ser admitido numa loja operativa.

«De acordo com o seu diário foi recebido (accepted) maçon em 1646.10.16, em Warrington, no Lancashire, no noroeste de Inglaterra a cerca de 325 Km de Londres, sendo considerado o primeiro – porque não há outros registos coevos - maçon especulativo a ser admitido numa loja operativa.
O testemunho é de extrema importância porquanto afasta por completo a tese de que a maçonaria especulativa teria origem com Christopher Wren, o reconstrutor da Grande Londres após o incêndio de 1666. Provavelmente, aconteceria em Londres com Wren o que se passou com Ashmole em Lancashire. Por outro lado, prova que a maçonaria estava difundida pelo território inglês e não se cingia a Londres.

Em 1682.03.11 Ashmole fazia parte de uma loja maçónica em Londres em Masons-Hall, localizada na Mason's Alley Basinghall Street, rua ainda hoje existente.
Estudioso da alquimia escreveu Theatrum Chimicum Britannicum, London, 1652. A obra revela influências dos trabalhos de Robert Fludd (1574.01.17-Londres, 1637.09.08) médico paracelsista, alquimista, astrólogo, matemático, cosmologista, esoterismo, tendo escrito tratados sobre o macrocosmo e o microcosmo.
 
 
Correspondia-se com os rosa cruzes Dr. John Moore (1595?-1657), Bispo de Norwick e Ely, John Booker (1603–1667), astrólogo, William Lilly (1602.05.01- 1681.06.09), astrólogo e ocultista, que previu 14 anos antes o grande incêndio de Londres de 1666, Dr. Thomas Wharton (1614–1673) médico e anatomista, autor de Arcanum, or the Grand Secret of Hermetic Philosophy, publicado no Theatrum Chemicum Britannicum, amigo de Ashmole, e Dr. William Currer (+1668.09.16), médico e químico, o melhor amigo de Ashmole, segundo o próprio …» [via M.P.S.]
As Memórias cobrem os 75 anos de vida de Ashmole, à volta de pouco mais de uma página por ano. Ocupa-se de diferentes assunto da sua vida, mas há a curiosa referência ao seu segundo casamento, com a rica e três vezes viúva Lady Mainwaring, ocorrido em 1649. Ora tal possibilitou-lhe uma vida tranquila,  deixando-o livre para se ocupar dos interesses em alquimia, classificação botânica ou maçonaria, surgindo com alguma frequência nas suas Memórias.

Alguns brevíssimos locais: Royal Society | Elias Ashmole (Archive.org)


J.M.M.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

ANTÓNIO NUNES DE CARVALHO (1786-1867) – NOTA BREVE

 
Ao August Seichas, porque sim.

Em 16 Junho de 1786, nasceu em Viseu, António Nunes de Carvalho, aliás, António Nunes de Carvalho da Costa Monteiro de Mesquita. Era filho de Inácio Nunes de Carvalho e de Maria Angélica da Costa. Frequentou os Oratorianos de Filipe de Nery e, em 1804, é nomeado professor substituto da cadeira de latim na cidade.
Pouco depois, pelo honroso convite de Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas, lecionou (1806) Humanidades em Évora, revelando-se um dos mais “doutos e esclarecidos espíritos” desse tempo; em 1808 teve de fugir da cidade, por causa das invasões francesas, salvando a vida do seu protetor Frei Manuel do Cenáculo (incorrendo nos ódios da população), que anos depois, em agradecimento, lhe oferece a maior parte da sua valiosa biblioteca

[Sobre António Nunes de Carvalho consulte-se, com proveito: Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno, 1886, vol. 12, p. 1806 e ss; Dicionário Popular de Manuel Pinheiro Chagas (Suplemento), 1886, Vol 15, p. 159; José Maria de Abreu, Breves Apontamentos …, in O Conimbricense, 1867, nº 2077, 2080/81; Silvestre Pinheiro, Historia dos Estabelecimento …, vol. XVI, pp. 220-222 (acrescentos ao verbete d’O Conimbricense); José Júlio César, Doutor Nunes de Carvalho, in revista Beira Alta, Ano V, ano I a III; Rute Massano Rodrigues, Pitoresco e Romântico: premissas para a conservação do sítio da Arrábida, segundo o doutor António Nunes de Carvalho …, in Artison, 2015, nº1, pp. 223-230].
Em 1813, António Nunes de Carvalho, é nomeado professor interino de Lógica no Real Colégio das Artes de Coimbra e, em 1817, provido definitivamente; matriculando-se na Universidade, conclui a formatura em Cânones (1820) e em Leis (1821), recebendo o grau de doutor em Leis, em 1822, sendo nomeado, por Francisco de S. Luís (futuro Cardeal Saraiva), professor efetivo. Presume-se que tivesse sido iniciado na maçonaria, numa oficina em Coimbra [cf. A. H. de Oliveira Marques, História da Maçonaria em Portugal], que curiosamente reunia (1823) na sua própria habitação (aponta-se a loja como sendo aquela estabelecida na "Rua do Norte", pertencendo as casas à Imprensa da Universidade; a loja seria constituída por muitos lentes e doutores).

A sua adesão à causa liberal levou a que fosse incluído na lista de proscritos, feita pela junta expurgatória de Coimbra, mas a ténue tolerância após a Abrilada evitou a sua (e de outros) expulsão do ensino. A mesma perseguição se passou com vários lentes, estudantes e outros opositores ao absolutismo. Na devassa então feita a António Nunes de Carvalho, refira-se que no dia 7 de Agosto de 1828, os elementos miguelistas “procederam a uma exame nos livros que ele havia deixado”, tomando-se nota dos “trechos considerados impios à doutrina miguelista (Pinho Leal, ibidem). Mais ainda: transcreveram-se cartas dele para Frei Francisco de S. Luís onde estava presente as suas ideias liberais e renovaram a “velha acusação que lhe faziam de pedreiro livre, e de ter em sua casa a loja maçónica dos jardineiros, o que não foi confirmado pelas minuciosas pesquisas nela feita em 1823” (Pinho Leal, ibidem, p. 1809)

António Nunes de Carvalho era um liberal esclarecido e, em 24 de Junho de 1828, no decorrer da sua participação nas lutas liberais, depois do combate perdido em Cruz de Morouços (Antanhol), pelos partidários de D. Pedro, sob comando do general Francisco Saraiva Refoios, deixou Coimbra, “a pé e doente”, acompanhando a tropa liberal a caminho do Porto. Por pouco tempo, dado que o antigo apoiante da revolução de 24 de Agosto de 1820 e ex-deputado constituinte, agora assumido miguelista, o general Póvoas, entra com as suas forças militares na cidade e instala o governo de D. Miguel em todo o país.
Pronunciado por rebelião (o seu nome consta da Lista de Ausentes que foram citados por Cartas de Editos da Alçada a 11 de Julho de 1829) teve que se homiziar, em 1828, partindo para a Galiza e depois seguindo para Inglaterra e, mais tarde, reside em França.

Em Inglaterra tinha residido já o seu irmão, José Nunes de Carvalho, que foi oficial da embaixada portuguesa e cujo lugar, curiosamente foi recomendado ao então conde (depois Duque) de Palmela por José Liberato Freire de Carvalho. José Nunes de Carvalho foi, também um letrado notável e, ao que nos diz Inocêncio F. da Silva (Dicionário Bibliográfico), teve parte ativa na impressão das Odes de António Dinis (Londres, 1820), na Nova Edição da Carta de Guia de Casados (Londres, 1820) e, talvez, na edição de Londres da obra anónima “Arte de Furtar”. No verbete citado de Inocêncio surge-nos José Nunes de Carvalho como “partidário apaixonado do governo do infante D. Miguel” (sem que o sábio bibliógrafo cite a fonte a que recorreu), o que não sendo de todo impossível, nos parece questionável pela documentação oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros, principalmente um oficio, datado de Maio de 1834, assinado por Agostinho José Freire onde é possível verificar que José Nunes de Carvalho continuava a trabalhar como oficial da secretaria de Estado, o que nos tempos difíceis que se seguiram à guerra civil, com os ressabiamentos existentes, não seria muito credível.    

Ainda em Londres, António Nunes de Carvalho passa a maior parte do seu tempo no Museu Britânico, recolhendo elementos e trabalhando em estudos sobre Portugal. Não por acaso encontra um inédito do Roteiro de D. João de Castro que sai, posteriormente, precedido de uma introdução e notas, em 1833, em Paris, com o título

Roteiro em que se contem a Viagem que fizeram os portuguezes em 1541: partindo da nobre cidade de Goa até Soez, que he no fim, e stremidade do mar Roxo … pelo doutor Antonio Nunes de Carvalho da cidade de Vizeu; À custa de huma sociedade de Portuguezes”, Officina Typographica de Casimir (rue de la Vieille-Monnaie, n0 12), Paris, 1833, L-334-I pags
Contou a obra, que é dedicada ao “honrado Amigo e Benfeitor na Adversidade” senhor Adrião Ribeiro Neves

[1783-1858; importante negociante, assumido liberal, grande admirador de Manuel Fernandes Tomás, membro da Sociedade Literária e Patriótica de Lisboa; tem o seu retrato (1825), feito por Domingos Sequeira, no Ashmolean Museum of Art and Archaeology, de Oxford, curiosamente fundado por Elias Ashmole, no século XVII],

com o auxílio pecuniário de outros portugueses exilados, cujos nomes vêm no final do prefácio, a saber: Marquesa de Nisa, de Palmela, Condessa de Vila Real, D. Leonor da Câmara, D. Ermelindo Monteiro de Almeida, o Marquês do Lavradio, Marquês de Nisa, Conde do Funchal, Conde de Sampaio, D. Francisco de Almeida Portugal, D. Luís da Câmara, Domingos de Saldanha de Oliveira e Daun, José Joaquim da Gama Machado, Nuno Barbosa de Figueiredo, Bernardo Daupias, Adrião Ribeiro Neves, Anselmo José Braamcamp, Custódio Pereira de Carvalho, Domingos de Oliveira Maia, Henrique de Sampaio Osborne, João Ferreira Pinto, Joaquim José de Azevedo, Manuel Inácio da Silveira, Manuel Joaquim Soares e Teodoro Ferreira Pinto Basto.

De Londres partiu para o exílio em França, onde ensina literatura à filha de D. Pedro IV, a futura rainha D. Maria II. No final da guerra civil, regressa a Portugal e a Coimbra, onde lecciona, sendo ao mesmo tempo deputado da Real Junta da Directoria Geral dos Estudos. Em 1835 é nomeado Bibliotecário-Mor da Casa Real. Passos Manuel, em 1836, homenageando o erudito liberal e bibliófilo, fê-lo 41.º Guarda-Mor do Real Arquivo da Torre do Tombo, lugar deixado vago pelo ilustre e erudito Frei Francisco de S. Luís, acumulando a função com o da Comissão de Depósito das Livrarias dos Conventos (cf. José Júlio César, ibidem). António Nunes de Carvalho era de grande erudição (mesmo que tenha sido uma figura excêntrica), versado em diferentes ciências, em linguística e foi “talvez o 1º bibliógrafo que teve Portugal no seu tempo” (cf. Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno, vol. 12, p. 1806)

Anos depois regressa ao ensino e à Universidade de Coimbra, tendo-se jubilado a 25 de Abril de 1861. Em 28 de Setembro de 1864, por escritura pública, doou a sua erudita, copiosa (perto de 9 mil obras) e muito valiosa biblioteca à cidade de Viseu, sua terra natal, em testemunho do seu afecto e amor. Foi comendador da Ordem de Cristo e Cavaleiro da Nossa Senhora da Conceição.
Faleceu, em Coimbra, em 5 de Junho de 1867, estando sepultado no cemitério público local, em mausoléu que lhe foi erigido pelo seu dedicado criado e amigo José Maria Lila que para isso sacrificou todos os seus haveres.

J.M.M.

sábado, 6 de junho de 2020

APONTAMENTOS PARA A BIOGRAPHIA DO CIDADÃO JOSÉ DA SILVA PASSOS


Apontamentos para a biographia do cidadão José da Silva Passos por o seu amigo particular e politico ALG. SYDNEY (aliás, Manuel Joaquim Pereira da Silva) C. R. C., Typographia de S. J. Pereira (Praça de Santa Theresa), Porto, 1848, 38 p.

Manuel Joaquim Pereira da Silva (1801 – Porto, 8 de Janeiro 1863), lente da cadeira de Comércio da Academia Politécnica do Porto (Decreto 19 de Outubro de 1836), professor da Academia Real de Marinha e Comércio do Porto (1836-1837), esteve emigrado no Brasil (1832), onde publicou uma “nova edição” do Dicionário de Algibeira, Filosófico, Político, Moral; depois, esteve no exílio em França, onde (cf. A.H.O.M.) integrou a loja maçónica, “Disciples de St. Vincent de Paule

[loja maçónica, de Rito Francês, instalada em 1813 a Oriente de Paris, sob os auspícios do GOdF; seja dito que os Irmãos tinham antes (1811) escolhido como título distintivo da oficina, “La Polyglotte” (pensando trabalhar em dois idiomas, francês e alemão), mas tal pretensão foi recusado pelo Grande Oriente, pelo que a nova Loja começa os seus trabalhos já em 27 de Julho de 1813; era fundamentalmente uma poderosa loja de beneficência e de filantropia; por isso mesmo e pelo seu curioso título, foi de grande incómodo nos meios clericais locais; em 23 de Julho de 1869, pelas profundas alterações constitucionais no seio do Grande Oriente, a loja muda o seu título distintivo, agora para “La Justice” nº133; foi sempre uma importante, singular e poderosa loja ao longo destes mais de 200 anos de vida e anos atrás comemorou o seu bicentenário - cf. AQUI].

Foi M. J. Pereira da Silva um exaltado liberal, um setembrista, amigo de Passos José (José da Silva Passos), tendo em 1848 publicado uns apontamentos biográficos sobre esse combatente ao Cabralismo e personagem marcante do liberalismo português. O opúsculo foi publicado sob pseudónimo [ALG. SYDNEY] e a seu propósito, a revista Popular (1849) diz que “ele contem a narração de factos mui importantes, e que lançam grande luz sobre a historia contemporânea, escriptos com urbanidade e decência, que nem sempre se encontram nas publicações politicas do tempo.” 

Manuel Joaquim Pereira da Silva foi Cavaleiro da Ordem de N. Sr.ª da Conceição. Faleceu no Porto a 8 de Janeiro de 1863. 

J.M.M.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

VOZES DOS EMIGRADOS PORTUGUEZES [MIGUEL ANTÓNIO DIAS]


[Miguel António Dias] Vozes dos Emigrados Portuguezes, Paris, Officina de J. Tastu (Rua de Vaugirard), 1829, 16-II págs.

Muitos dos Emigrados, em consequência da dispersão, em que se acham, nem assistiram, nem votaram por esta redação, mas ela é certamente a expressão da vontade de todos. Alguns porem, aderentes ao sistema da dissolução, ou ao seu autor, de quem dependem em virtude dos ordenados, que arbitrariamente lhes continua a pagar, em quanto outros são repelidos insolentemente, nem foram convidados a anuir à publicação dela, nem o quereriam fazer por essas mesmas razões. Com tudo tais excepções não invalidam o voto geral dos Emigrados portugueses, que é sem contestação o expresso nesta Declaração. Todavia aqueles, cujos sentimentos não forem conformes aos nossos, e cujos votos não tenderem á restituição da Liberdade da Pátria, e à restituição do trono à sua Legitima Soberana, podem reclamar por via da imprensa, e no entanto se devem considerar como as expressões de todos eles, as emitidas nesta Declaração. [Nota do Editor]

Trata-se de um opúsculo liberal, saído anonimo, publicado em Paris, mas que é de Miguel António Dias [1805-1878; nascido na Covilhã, teve de exilar-se em 1828 quando cursava em Coimbra, continuando os seus estudos médicos em Paris e Lovaina; liberal, patuleia e importante maçon – Irmão Gama e Grão Mestre da Maçonaria Eclética (1853-1860) – foi secretário-geral do governo civil de Santarém e deixou impresso obra importante e de leitura obrigatória], em que se defende em nome dos emigrados portugueses e da nação portuguesa, a “necessária e indispensável intervençam dos Governos nos negocios de Portugal”, protegendo a legitimidade das pretensões D. Pedro IV e os direitos de D. Maria.
 
Este vigoroso opúsculo foi impresso em jornais franceses (Les cris des emigres portugais - cf. Ernesto do Canto) e ingleses (vide Inocêncio F. Silva), tendo na altura os exilados atribuído a sua redação à embaixada portuguesa. Segundo Inocêncio Francisco da Silva, no seu verbete sobre Miguel António Dias no Dicionário, a sua publicação levou a que “nos parlamentos francês e inglês” se começasse a “tratar seriamente de tal assunto”.

J.M.M.  
 

quarta-feira, 3 de junho de 2020

MANIFESTO DOS DIREITOS DE SUA MAGESTADE FIDELISSIMA A SENHORA DONA MARIA SEGUNDA; E EXPOSIÇÃO DA QUESTÃO PORTUGUEZA



Manifesto dos direitos de Sua Magestade Fidelissima a Senhora Dona Maria Segunda; e exposição da questão portugueza, Londres, Richard Taylor (Red Lion Court, Fleet Street), 1829, 186 p.

Trata-se de um importante Manifesto que defende o direito de sucessão ao trono de Portugal, apresentando um conjunto curioso de documentos (Provas) em Anexo. Foi uma importante obra doutrinária para a causa liberal.

Segundo Luz Soriano, foi escrito a duas mãos: a parte que diz respeito á questão jurídico-legal foi sustentada por José António Guerreiro (1789-1834);

[n. perto de Caminha, tendo frequentado com êxito o curso jurídico em Coimbra, formando-se em Cânones, em 1816; foi juiz de fora em Mértola, deputado pelo Minho, em 1821, às Constituintes e membro do tribunal de Liberdade de Imprensa; em 1823 foi ministro da Justiça até à Vilafrancada, regressando ao cargo já com a Carta, até 1827; exilado em 1828, integra a regência da Terceira, até à chegada de D. Pedro, colaborando então na curiosa e valiosa Folhinha da Terceira (1831-32; ver pp. 17-64); foi uma das mais importantes figuras do primeiro liberalismo português, não sendo por acaso que está representado na Sala das Sessões, na tela de Veloso Salgado, justamente ao lado direito do Patriarca da Revolução Manuel Fernandes Tomás]

A outra, que versa a questão histórica e diplomática, foi produzida pela pena do (então) Marques de Palmela (D. Pedro de Sousa Holstein).

Ao que nos diz o sábio Inocêncio Francisco da Silva, saíram ao prelo perto de sete edições (1ª, em Londres, 1829; 2ª, em francês, Paris, typ. de Paul Renouard; 3.ª, Rennes, J. M. Vatar, 1831 e, depois, em português; 4.ª Coimbra, Universidade, 1836; 5.ª, ibidem, 1841; 6.ª no tomo XXV do Suplemento aos tratados e convenções por Julio Biker; 7.ª no tomo VI dos Documentos para a história das Cortes Gerais pelo Barão de S. Clemente e José Augusto da Silva). Pelo que se vê a importância que teve esta obra.

J.M.M.

terça-feira, 2 de junho de 2020

O CORREIO INTERCEPTADO – JOSÉ FERREIRA BORGES



[José Ferreira Borges] O Correio Interceptado, Ano I, nº 1 (1 de Novembro 1825) ao nº 63 (24 de Agosto 1826); Londres, Imprensa de M. Calero, nº17, Frederick Place, Goswell Road, 1825, 297-I-VI-II págs.

Trata-se de um curioso periódico publicada em Londres por José Ferreira Borges, em forma de cartas (63 cartas, sem contar com a do prólogo) e publicado sob anonimato. Faz parte, portanto, da importante e poderosa imprensa da emigração, seguindo, como será evidente, a linha liberal de D. Pedro. Inocêncio Francisco da Silva considera que nestas Cartas “são examinados com crítica chistosa e severa diversos actos do governo daquelle tempo, e se tratam muitos assumptos de interesse para a historia contemporanea”.

Uma das Cartas publicadas expõe uma censura feita ao médico (liberal e maçon), Bernardo José de Abrantes e Castro, pelo fundibulário absolutista e, na época, censor, o padre José Agostinho de Macedo. Diga-se que o dr. Bernardo Abrantes interveio a favor da concessão de uma pensão anual vitalícia (pela Oração proferida pelo padre nas exéquias de D. João VI) ao truculento Agostinho de Macedo. Porém o furibundo padre injuriava sistematicamente o dr. Abrantes, em escritos e sátiras várias. Aconteceu que o Censor Ordinário, o padre José Agostinho de Macedo, na análise e censura a uma obra introduziu um “paragrapho final, tão intempestivo quanto impertinente, em que o Dr. Abrantes era atrozmente enxovalhado” [cf. Inocêncio F. da Silva, Memórias de José Agostinho de Macedo, p. 127]. Porém, uma cópia dessa censura foi enviada para Londres, tendo sido publicada no periódico de José Ferreira Borges, O Correio Interceptado. Curiosamente esse jornal chegou a Lisboa no momento em que o dr. Abrantes prestava ao padre o assinalado serviço referente à sua pensão vitalícia. O ingrato padre, sem qualquer vergonha, recorreu a “uma falsidade, negando que tivesse escrito na Censura o período em que se revelava a baixeza do seu ânimo, e n'este sentido fez imprimir o pequeno folheto": Resposta aos colaboradores do infame papel intitulado correio interceptado numero 6 impresso em londres, Typ. de Bulhões, 1826, 16 p.
 
 
 
J.M.M.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

MANUEL TEIXEIRA GOMES


Foi disponibilizado ontem um interessante trabalho, desenvolvido pelo prof. Carlos Osório, com uma página/site inteiramente dedicada a Manuel Teixeira Gomes, assinalando o 160º aniversário do seu nascimento.

Este interessante projecto, ainda em construção, conta com uma grande variedade de separadores:
De Manuel Teixeira Gomes
- Livros
- Artigos

Sobre Manuel Teixeira Gomes:
- Bibliografia Especifica
- Estudos Biográficos

Iconografia:
- Fotografias
- Desenhos/Pinturas

Imprensa:
- Jornais
- Ficções

Arquivos:
- Fundação Mário Soares
- Biblioteca Nacional

Colecções:
- Pintura (Museu Nacional de Arte Contemporânea/Museu do Chiado)
- Peças Decorativas

Multimédia:
- Arquivos RTP
- Instituto de Cultura Ibero-Americana
- Casa Manuel Teixeira Gomes
- Museu de Portimão
- Outros videos
- Podcasts

Casa Manuel Teixeira Gomes



Na página encontra-se uma nota de abertura com a explicação sucinta do projecto agora apresentado:
A criação de um repositório digital dedicado exclusivamente a Manuel Teixeira Gomes tem como finalidade armazenar, hiperligar e disponibilizar em acesso livre conteúdos digitais sob a forma de recursos multimédia, que podem ser pesquisados e utilizados pela comunidade em geral e, mais especificamente, pela comunidade académica e científica.
 
Este projeto inscreve-se na Missão do Instituto de Cultura Ibero-Atlântica, na medida em que procura promover de forma inovadora o estudo e divulgação da história e da cultura locais, assim como a interculturalidade mediterrânica inspirada nos itinerários mediterrânicos do escritor e viajante portimonense Manuel Teixeira Gomes.

Os estudos recentes têm demonstrado que os dispositivos móveis, utilizados em contextos de aprendizagem, ampliam as dinâmicas educativas motivacionais e permitem uma experiência interativa de imersão em didácticas de aprendizagem, podendo oferecer benefícios ímpares aos alunos, aumentando a sua autonomia face à aprendizagem e à colaboração, comunicação e partilha entre os participantes.

Assim, são nossos objetivos, para além de dar um contributo tecnológico para a divulgação da obra de Manuel Teixeira Gomes, agilizar o acesso à informação dispersa na rede, orientar as pesquisas, sobretudo na comunidade escolar, e impulsionar as instituições para o desenvolvimento de novas plataformas e aplicações digitais que possam ampliar, diversificar e democratizar o acesso ao conhecimento dos contextos histórico-literários em que o nosso escritor-presidente viveu.
Concepção, produção e edição: Carlos Alberto Osório

Muitos parabéns pela iniciativa que esperemos e fazemos votos que continue a  ser enriquecida com novos contributos. Recordo por exemplo a colaboração de Manuel Teixeira Gomes, com alguns jornais, por exemplo no jornal de Manuel de Brito Camacho, A Lucta, onde existem alguns textos da sua autoria, mas há colaborações noutras publicações periódicas tanto em prosa como com alguma  poesia. No Suplemento Literário do Diário de Lisboa, disponível através da Fundação Mário Soares AQUI. Ainda no Diário Popular, dirigido por Celorico Gil (1929-1930). No jornal republicano de Coimbra, A Evolução (1881-1882), disponível AQUI. No semanário O Diabo, também disponível via Casa Comum e que pode ser consultado AQUI. Na Revista da Universidade de Coimbra, consultável AQUI.

São meras sugestões entre múltiplas outras já disponíveis e a explorar online. Haja disponibilidade e vontade.

Com os votos do maior sucesso para a iniciativa de homenagem a Manuel Teixeira Gomes.

A.A.B.M.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

HEMEROTECA DIGITAL DO ALGARVE


Desde há alguns meses que se encontra disponível para consulta online a HEMEROTECA DIGITAL DO ALGARVE (H.D.A.)

Pode ler-se na nota de Apresentação:


A Hemeroteca Digital do Algarve (HDA) resulta de uma ideia de Luís Guerreiro, apresentada a votação no âmbito do Orçamento Participativo de Portugal de 2017 (OPP2017) e tem como objetivo reunir, num único ponto de acesso, uma coleção com mais de 300 títulos de publicações periódicas, que se encontra fisicamente dispersa por várias bibliotecas, arquivos e museus de Portugal.

A Hemeroteca Digital do Algarve oferece o acesso universal aos jornais e revistas produzidos no Algarve a partir de 1810, contando com um sistema que proporciona novas funcionalidades de pesquisa das publicações digitalizadas e dos seus conteúdos.

A base de dados encontra-se ainda em fase de carregamento.
Neste momento estão disponíveis 283 títulos.

Nesta primeira fase, o utilizador poderá aceder aos números disponíbilizados, pesquisando por título, autor (diretor ou redator), data e local de edição. A cada número corresponde um pdf, dentro do qual é possível localizar as palavras que se considerarem relevantes. Para obter uma lista com todos os títulos disponíveis deve pesquisar com num qualquer dos campos (título, data, etc.).

Numa segunda fase, em desenvolvimento, o utilizador terá ao seu dispor a possibilidade de pesquisar, por palavra ou assunto, no texto integral, logo a partir dos módulo de pesquisa.


Para ler toda a nota de apresentação consultar AQUI.

Para se ver a pesquisa deve preencher o título (sem acentos), o director, a localidade (talvez a forma mais simples), ano de publicação e pesquisar como fiz aqui para ver o que se encontra disponível, embora nem todos estejam já integralmente carregados, mas já se encontram muitos títulos disponíveis. Ver AQUI.

Fica a sugestão para uma visita e descoberta desta plataforma digital muito útil que ficou disponível para investigadores, curiosos e interessados nas questões sobre o Algarve.

A.A.B.M.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

VIVA O 1º DE MAIO


 
 
Subamos e desçamos a Avenida,

Enquanto esperamos por uma outra
(ou pela outra) vida.

[Alexandre O'Neill, Avenida da Liberdade]

 
VIVA O 1º DE MAIO!


SAUDAÇÕES REPUBLICANAS

SAÚDE E FRATERNIDADE!


J.M.M.
A.A.B.M.

sábado, 25 de abril de 2020

QUE VIVA ABRIL! – 25 DE ABRIL SEMPRE!




“Antes de mais, neste país há que pôr um basta não só ao fascismo ele mesmo, mas à mania de atribuir tudo ao fascismo, até as ideias. Porque, por esse caminho, ficamos todos sem ideias de que precisamos muito, e os fascistas e os saudosistas deles acabam convencidos de que tinham ideias, quando ter ideias e ser fascista é uma absoluta impossibilidade intelectual e moral” [Jorge de Sena]

“… Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Saem tanques para a rua,
sai o povo logo atrás:
estala enfim, altiva e nua,
com força que não recua,
a verdade mais veraz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha”  [Jorge de Sena]