sexta-feira, 11 de setembro de 2020

“ANTERO, AS HORAS DO FIM” – POR ANTÓNIO VALDEMAR


Antero de Quental (1889) por Columbano

Antero, as horas do fim" – por António Valdemar, in Diário dos Açores, 11 de Setembro de 2020
O contacto directo com a realidade levou-o a conhecer a vulnerabilidade da natureza humana. A inveja que morde, o ódio que envenena. O país real, por fora e por dentro: egoísmos ferozes, privilégios inexplicáveis. A impunidade absoluta. Os inúteis disfarces. A falta de vergonha. Manifestou as preocupações que o levavam a concluir que a crise era moral

O vento revolve os plátanos e estremece as araucárias. A cidade começa a ficar mais húmida, as ruas mais vazias, acentua-se o peso das horas mortas, antecipando as noites intermináveis, repletas de fantasmas. A memória recusa a paz do esquecimento. Ponta Delgada despede-se do Verão e mergulha numa tarde baça, cor de zinco, cor de chumbo. Antero debate-se com atritos familiares. Debate-se com o tédio de viver e a incapacidade de ser feliz. Debate-se com a situação do País, em face do Ultimatum inglês. Debate-se com a derrota da revolução republicana do 31 de Janeiro. Debate-se, ainda, com o falhanço da Junta Patriótica do Norte, que surgiu para encontrar soluções e mobilizar vontades, perante a crise. Entregaram a presidência a Antero, mas nada pode realizar, enquanto assistia á debandada dos que a constituíram.
Desistiu dos combates políticos e sociais. Da urgência de questionar as estruturas institucionais do regime, definir outras diretrizes, proceder a uma reforma do Estado e da Administração Pública. Incentivar o acesso à Europa e – sempre este objetivo enunciado na inauguração das Conferências Democráticas do Casino - permitir a abertura de Portugal ao mundo. Para formar o jovem e o cidadão. Pensar e intervir de forma ativa e responsável.

O contacto directo com a realidade levou-o a conhecer a vulnerabilidade da natureza humana. A inveja que morde, o ódio que envenena. O país real, por fora e por dentro: egoísmos ferozes, privilégios inexplicáveis. A impunidade absoluta. Os inúteis disfarces. A falta de vergonha. Manifestou as preocupações que o levavam a concluir que a crise era moral: «o que se passou» - comentava, numa carta, a um amigo íntimo - «é a prova mais cabal do estado de prostração do espírito público, entre nós. Berrou-se muito e, afinal, chegaram as eleições, e toda a gente, movido cada qual por mesquinhos interesses, votou nos candidatos do Governo. Governo apoiado pela Inglaterra e que, nessa ocasião, estava lançando a polícia sobre os que faziam manifestações patrióticas».
Refugiou-se, outra vez, em São Miguel. Talvez encontrasse a desejável tranquilidade. Mas a inquietação e a dúvida não cessavam: «E quando o pensamento, assim absorto, /emerge a custo desse mundo morto/e torna a olhar as coisas naturais: /à bela luz da vida, ampla, infinita /só vê com tédio em tudo quanto fita/a ilusão e o vazio universais». Os seus olhos penetram quem os olha. Escreveu no poema para o In Memoriam de Zara, jovem irmã de um amigo: tudo é leve como a sombra sobre a água. Busca o invisível no visível. Multiplicam-se as perplexidades: «tropeço, em sombras, na matéria dura /e encontro a imperfeição de quanto existe».

De rua em rua, concentro-me e revisito lugares da infância e adolescência, casas de amigos. Uns vivos. Outros mortos. «Aqueles que eu amei, onde estão? Idos, dispersos, / arrastados no giro dos tufões, / levados, como em sonho, entre visões, /na fuga, no ruir dos universos». Perdura ainda o essencial da malha urbana e surpreendo os últimos passos de Antero na antiga cidade: «as nuvens parecem fantásticas ruínas /ao longe no horizonte amontoadas». A respiração do mar provoca uma latente e contínua ansiedade. Tudo se converte em cinza de vida ardida.
Oliveira Martins, com as informações de amigos comuns, afirmava a propósito do suicídio de Antero, numa carta a Eça de Queiroz: «cedeu por fim à tentação constitucional da sua vida. Morrer era-lhe uma obsessão. Matou-o principalmente o clima enervante de São Miguel, que estonteia o mais fleumático (…) Matou-o a sua imaginação exacerbada pelo capacete de ozone da ilha».

Setembro morno e abafado. Antero resumia sucessivos percursos: “pó e cinzas onde houve flor e encantos /e noite onde foi luz de primavera. /Olha a teus pés o mundo e desespera, /semeador de sombras e quebrantos». Que ficou, afinal, e que valha a pena? «Daquela primavera venturosa, /não resta uma flor só, uma só rosa. /Tudo o vento varreu, queimou o gelo.” As interrogações esmagavam-no. E insistia: «Pura essência das lágrimas que choro /e sonho dos meus sonhos! Se és verdade / descobre-te, visão, no céu ao menos!» Exausto. Dor e pavor. E apenas: «silêncio, escuridão e nada mais».
Os passos de Antero aproximam-se do Campo de São Francisco. Ao fundo o mar e o Castelo: «junto do mar, que erguia gravemente /a trágica voz rouca, enquanto o vento /passava como o voo do pensamento /que busca e hesita, inquieto e intermitente /junto do mar sentei-me tristemente, /olhando o céu pesado e nevoento, /e interroguei, cismando, esse lamento /que saía das coisas vagamente … /que inquieto desejo vos tortura, /seres elementares, força obscura? /em volta de que ideia gravitais?/ mas na imensa extensão, onde se esconde o Inconsciente imortal, só me responde, /um bramido, um queixume, e nada mais…»

Foi na tarde de 11 de Setembro de 1891.Tinha 49 anos. Estava desiludido. Traumatizado. Num acto de angústia e desespero, Antero decidiu o trágico encontro com a morte. Nua e crua. A escorrer sangue. Fora de casa.
Antero, as horas do fim – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], Diário dos Açores, 11 de Setembro 2020, p. 7 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

FERNANDO NAMORA CARICATURISTA


APRESENTAÇÃO DO CATÁLOGO

AUTOR: Paulo Marques da Silva

TÍTULO: Fernando Namora Caricaturista

DATA: 12 de Setembro

LOCAL: Museu PORO's  - Condeixa-a-Nova

HORA: 17 Horas

Segue-se a inauguração da Exposição alusiva às caricaturas desenhadas por Fernando Namora e localizadas pelo autor do Catálogo e responsável pela organização da mostra.

A.A.B.M.


MEMORIAL SOBRE A NECESSIDADE E MEIOS DE DESTRUIR PROMPTAMENTE O TYRANNO DE PORTUGAL … – MANUEL DA SILVA PASSOS



[Manuel da Silva Passos] Memorial sobre a necessidade e meios de destruir prontamente o tyranno de Portugal e restabelecer o throno da senhora dona Maria II e a carta de 1826, paris, Imprimerie de Auguste Mie (Rue Joaquelet, nº 9, place de la Bourse), 1831, 32 pags.

Importante opúsculo de Manuel da Silva Passos, dos muitos impressos que ele e seu irmão José Passos publicaram no exílio em França. Seguiu-se-lhe um
 
 
 
Segundo Memorial sobre o estado presente de Portugal, e como não ha razão, nem direito, nem força para tirar à Senhora D. Maria II sua Coroa, e a nós a nossa liberdade; com mais outras particularidades”. Paris, Auguste Mie, 1831, 16 pags. O primeiro folheto originou uma curiosa polémica, com a saída (sempre a resguardo do anonimato) de várias respostas e alguns opúsculos.

J.M.M.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

LUÍS DE MELO E ATAÍDE (1863 – 1925) - NOTA BREVE


Luís de Melo e Ataíde nasce em Lisboa a 29 de Agosto de 1863. Assentou praça em 24 de Novembro de 1878 (tinha 15 anos), no Regimento de Infantaria 16, tendo sido promovido a alferes a 26 de Dezembro de 1895, a tenente em 22 de Junho de 1900 [in Revista Militar, 1925, Julho-Agosto, nº 7-8], terminando a sua “veneranda” figura no exército português como coronel [ibidem; ver, ainda, jornal A Luz, Junho de 1925]. Serviu na Secretaria da Guerra, comandou tropas e teve a seu cargo, já no fim da carreira, o comando do Regimento de Infantaria da Reserva nº 16. Passou à reserva em 1923.

Luís de Melo e Ataíde tinha uma sólida cultura literária e militar. Porém, não cursou, “por circunstâncias independentes da sua vontade” [ibidem], a Escola do Exército, e só mais tarde frequentou com aproveitamento o Curso Superior de Letras. A sua colaboração periodística é curiosa: foi proprietário e redactor do jornal Marte; teve colaboração no Diário Popular (de Mariano de Carvalho), no jornal Tempo (de Dias Ferreira), no Diário Popular (de Mariano Presado); foi o director do importante periódico maçónico A Luz [1918-1928; editado pelo Grémio Luso-Escocês, mais tarde pelo Grémio Lusitano; esteve na sua direcção até ao seu nº 166, Ano VI – ver AQUI]; colaborou na Revista de Infantaria e foi, ainda, sócio efectivo, director-gerente e secretário da conceituada Revista Militar.

Nessa época a sua actividade era o estudo de “técnicas militares”, tendo publicado vários artigos e opúsculos: Programma para exame de cabo esquadra, ordenado no capítulo quinto do regulamento para o serviço dos corpos do exército (1880); História do fogo da infantaria e da sua influência sobre as formações tacticas e resultado dos combates por M. J. Ortus (Gazeta Militar, 1885-86); Estudos Tacticos dum subalterno d’infantaria, II tomos (Typ. Universal, 1902 e 1904), trabalho distinguido pelo então ministro da guerra; e o trabalho Combate de Infantaria contra a Cavalaria (1904), premiado como 2º prémio no concurso promovido pela antiga Revista de Infantaria.

Em 1906 afastou-se da imprensa política, arrendou uma propriedade urbana e rústica, dedicando-se à agricultura, ao mesmo tempo que cumpria “pontualmente” os seus deveres no Ministério da Guerra. Os seus estudos sobre agricultura estão espalhados na imprensa da especialidade, tendo-lhe sido atribuído, em 1909, a comenda de Mérito Agrícola [A Luz, ibidem].

Em 1910 faz uma comissão de serviço (“julga-se a seu pedido”) na África Ocidental, como capitão-mor das Ganguelas e Ambuelas e comandante da 13.ª Companhia Indígena de Infantaria, ali permanecendo até Março de 1912, regressando à metrópole, sendo colocado em Chaves e depois vindo para Lisboa. Nesse período escreveu vários artigos sobre Angola [veja-se, principalmente, “O Perigo de Despovoamento de Angola”], no Diário de Notícias e no Boletim da Sociedade de Geografia

Luís de Melo e Ataíde era republicano, situando-se na área do partido evolucionista de António José de Almeida. Foi iniciado na maçonaria na poderosa loja Liberdade [Oficina de Lisboa instalada em 1896 e que acompanhou a dissidência do Supremo Conselho do Grau 33 – ou Grémio Luso-Escocês, como foi conhecido no mundo profano – tendo regressado ao GOL em 29 de Maio de 1820, mantendo-se ativa durante a clandestinidade] em Julho 1913 e, como já dissemos, foi o principal fundador, orientador e diretor do jornal A Luz, tendo apresentado (1917) a proposta da sua publicação - como “órgão de combate à reação” - nos trabalhos do Grémio Liberdade, não sem algumas dificuldades e muitas descrenças. Fez Melo e Ataíde inúmeras e importantes conferências sobre estudos filosóficos e livre-pensamento (como a que teve o título “Equação da Felicidade”), deixando escrito, sob o nome de Luiz de Camões (possivelmente o seu nome simbólico), o opúsculo “Aspirações de um Maçon” (Tip. Comércio e Industria, 1915, p. 34) e “Primeiros Passos”. Foi diretor do Asilo S. João, criando o Prémio em homenagem ao benemérito [Augusto Frederico] Gazul dos Santos.

Luís de Melo e Ataíde faleceu no dia 2 de Junho de 1925. O seu funeral partiu da sua casa na Rua da Saudade, 13, para o cemitério Oriental de Lisboa. Tinha a comenda de Avis e a medalha de ouro da classe de Comportamento Exemplar.

J.M.M.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

[COIMBRA] “MEMÓRIAS DA REGENERAÇÃO DE 24 DE AGOSTO DE 1820”


LIVRO: "Memórias da Regeneração de 24 de Agosto de 1820” [textos de dois varões ilustres do nosso primeiro liberalismo, José Liberato Freire de Carvalho e José Ferreira Borges] na Cerimónia de Evocação dos 200 anos da Revolução Liberal de 24 de Agosto de 1820 – Café Santa Cruz, em Coimbra.

Recorte do jornal Diário das Beiras, 25 de Agosto de 2020, p. 8, com a devida vénia 

J.M.M.

domingo, 23 de agosto de 2020

24 DE AGOSTO DE 1820 - 24 DE AGOSTO DE 2020: BICENTENÁRIO

Assinalando os acontecimentos de 24 de Agosto de 1820, há algumas iniciativas a decorrer durante o dia, para assinalar o evento:

- No Porto:

- Em Coimbra:

- Na Figueira da Foz:



O programa previsto para se desenvolver ao longo de vários meses [entretanto com as actividades suspensas ou adiadas] pode ser consultado na página que pode/deve ser consultada AQUI:
https://1820.porto.pt/

A.A.B.M.
J.M.M

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

PELA LIBERDADE! NO DEALBAR DA REVOLUÇÃO DE 1820



Pela Liberdade! No dealbar da Revolução de 1820” [Extracto] – por Maria Otilia Pereira Lage, in Público, 18 de Agosto de 2020
[…] 1. Quais os antecedentes da Revolução de 1820?
Estruturalmente, Portugal ocupava já no sistema-mundo capitalista e na economia-mundo europeia um lugar semiperiférico em que se reflectiam as disputas interestaduais pelo domínio e posição hegemónica. A França e a Inglaterra, lutando entre si pela supremacia, desde 1682 a 1815, procuraram afastar das redes comerciais mundiais os países que sucessivamente as dominaram: Portugal, Espanha e Holanda, alterando a geografia política do comércio mundial, radicalmente reestruturada. Do conflito social generalizado nas lutas pelo poder resultou, no século XVIII, o abalo das revoluções americana e francesa e o caos do sistema políticosocial do Antigo Regime, só se encontrando novo equilíbrio, mais tarde, com o Tratado de Viena (1815) que marcou, ao tempo, um período de paz na Europa. A hegemonia passará a ser do imperialismo britânico de livre comércio, todo o sistema interestados será reorganizado e uma única potência, a inglesa, passaria a dominar quase todo o mundo.

Entrecruzava-se nessa estrutura uma adversa conjuntura político-económica nacional e internacional de Portugal, marcada pelo impacto das três invasões napoleónicas (1807-1810), tendo-se verificado em 1808, a fuga da família real e da corte, de Lisboa para o Rio de Janeiro, enquanto as forças britânicas comandadas pelo duque de Wellington aqui desembarcaram para conduzir militarmente a resistência contra os invasores franceses até à sua expulsão definitiva e derrota da política imperial francesa na Península Ibérica. Outros factores agudizavam as contradições e conflitos internos do país agravando as dificuldades financeiras do Estado: ameaça de perda dos mercados brasileiros, gastos e prejuízos da Guerra Peninsular (1808-1814), uma quase imobilidade produtiva do país, aliada à persistente presença e manutenção entre nós do Exército britânico.
Após a expulsão das tropas francesas de Portugal (1812-1813), a conjuntura política portuguesa continuava marcada por grande fragilidade devido à dependência e pressões externas, contradições e dissensões internas de ordem governativa, e factores adversos, de ordem económico-financeira, militar, jurídica e social. Eram múltiplos e de diversa natureza os condicionalismos existentes: permanência da corte no Rio de Janeiro, indesejada na metrópole, relegada a estatuto subalterno; comando militar do Exército português a cargo do marechal britânico Beresford; despesas com as tropas nacionais financiadas pela potência aliada; implicações do cumprimento obrigatório das cláusulas dos tratados de Comércio e Amizade de 1810, favoráveis a Inglaterra; frustração dos interesses portugueses nas negociações do Congresso de Viena (1815).

Tudo isso e a constante interferência britânica na política governativa do Reino, tornava a Regência luso-britânica em Lisboa incapaz de tomar decisões em matérias fulcrais, dado o seu poder limitado nas esferas política, financeira, militar e judicial, e a dependência quer das orientações do príncipe regente e do Governo instalados no Rio de Janeiro, quer das obrigatórias consultas aos agentes políticos e diplomáticos britânicos. O facto sui generis de Portugal estar a ser governado por uma regência dual constituída por Beresford e pelos governadores nomeados em Lisboa espartilhava o poder político, mantendo-o instável e enredado em contradições, sob os olhares complacentes da corte sediada no Rio. A polarização destes poderes paralelos afectava os seus interesses pecuniários, influía nas questões financeiras e impedia o desenvolvimento do país com urgência de grandes mudanças.
 
2. Que papel tiveram as sociedades secretas e a imprensa liberal no exílio londrino?
A conturbada e contraditória atmosfera político-económica e sociocultural da época, marcada por férrea censura repressiva e ausência de expressão pública e de liberdade de imprensa em Portugal eram debatidas nas sociedades secretas que conspiravam em prol do constitucionalismo e se encontravam já em formação na Península Ibérica depois da Guerra Peninsular. Desde 1808-09 que emergiam na Península Ibérica tendências liberais, que em Espanha irão desembocar na Constituição de Cádis que viria depois influenciar a nossa Constituição vintista e, em Portugal, em 1808, se traduziram numa “súplica” redigida por um grupo de notáveis da cidade de Lisboa que pedia “uma constituição e um rei constitucional”.

Entretanto, “o desmantelamento sofrido pela instituição maçónica, devido às perseguições dos anos 1809, 1810 e 1811, não lhe permite já desempenhar qualquer papel, quer como veículo ideológico, quer como congregação de forças. […] Fácil se torna agora à facção jacobina apoderar-se dos comandos da ordem maçónica. É então que a maçonaria muda em Portugal, trocando, para sempre, a bandeira da Inglaterra pela bandeira da França.” (Dias, 1980: 402). A partir de 1812, a maçonaria reorganizou-se, embora a reacção antimaçónica não tivesse abandonado a sua propaganda em panfletos e outras publicações, sucedendo-se deportações e perseguições que levaram muitos maçons a emigrar para Inglaterra.
De 1813 a 1815, os trabalhos maçónicos foram reincentivados, alguns deportados e exilados regressaram, fundaram-se outras lojas e tentou-se reorganizar o Grande Oriente Lusitano. Mas esse empenho maçónico partilhando ideais iluministas e jacobinos da Revolução Francesa, viu-se comprometido pelas agitações políticas de 1817 no Brasil, com a revolta republicana de Pernambuco e, em Portugal, com a designada conspiração de Gomes Freire de Andrade, cuja repressão feroz acabaria por levar à proibição de todas as sociedades secretas declaradas criminosas por alvará real de 30 de Março de 1818, de D. João VI.

No contexto europeu do combate entre as forças pró-revolução e contra– revolucionárias, teve grande influência no alastrar das ideias liberais e pró- constitucionais a imprensa portuguesa londrina resultante da primeira vaga de exilados liberais. Entre os periódicos em língua portuguesa editados em Londres mas que circulavam clandestinamente em Portugal, destacam-se O Correio Brasiliense, precursor dos chamados “jornais de Londres” e um dos mais importantes, publicado de Junho de 1808 a Julho de 1822, O Investigador Português, periódico influente entre os exilados em Londres e elites portuguesas, sendo inclusive lido em Trás-os-Montes, O Portuguêz e O Patriota […]
 
3. Em que consistiu a “Conspiração de Gomes Freire de Andrade”?

Na complexa realidade de Portugal à época, para a qual a resposta política encontrada foi a da criação em 1815, pelo então príncipe regente D. João de Bragança (futuro Rei D. João VI), do “Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves”, com capital no Rio de Janeiro, numa tentativa fruste de remodelação do império português em desagregação, mantinha-se uma grande instabilidade política, fazia-se sentir a insatisfação de certos interesses corporativos face à influência privilegiada dos britânicos, bem como o descontentamento de sectores sociais, económicos e mercantis (mormente negociantes ingleses cujos interesses colidiam com os privilégios da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, cuja extinção defendiam).
Esta atmosfera político-económica e social foi registando progressiva expressão pública na imprensa portuguesa em Londres, designadamente em O Investigador Portuguez em Inglaterra, ou Jornal Literário, Político, &., periódico dirigido desde 1814 pelo jornalista liberal maçónico, exilado em Inglaterra, José Liberato Freire de Carvalho, que aí polemizou, a propósito da Conspiração Gomes Freire, com “Frei Mateus de Assunção Brandão cuja obra fazia defesa acérrima do absolutismo”.

Nesse cenário de um Portugal velho de Antigo Regime em crise e processo de transição para o Portugal Liberal, teve lugar em Lisboa, em 1817, a chamada “Conspiração de Gomes Freire de Andrade”, afloramento desses conflitos do poder político cujo desenlace trágico se traduziu na “primeira manifestação violenta da contra-revolução“ (M.H. Pereira, 2018: 219). Este acontecimento político-militar, na sua dupla face de instrumento do poder vigente e propulsor da memória liberal, fundador do constitucionalismo oitocentista, prenunciou a Revolução de 1820 que instituiu o regime constitucional português, quando nobres e burgueses, civis e militares, exigiram o regresso do rei e expulsaram Beresford e os comandos militares ingleses.
De 1816 a 1820, a situação geral do reino degradara-se e o relacionamento na metrópole entre os governantes portugueses e a autoridade investida de Beresford atingira o seu ponto crítico. Germinavam por outro lado, anseios de “Regeneração”, o que poderia significar o confronto entre o “partido da França” e o “partido da Inglaterra” e a luta entre três correntes: conservadores; liberais favoráveis a reformas por “graça” de um soberano dador outorgante de liberdades; partidários românticos de uma radical “regeneração”, ideia que andava no pensamento dos liberais portugueses e se expandia nesses anos.

Em 1817, a “Conspiração” de Gomes Freire de Andrade, alegadamente encabeçada por Gomes Freire, venerável da loja maçónica dita “Regeneração” e pelo organismo secreto “Conselho Supremo Regenerador de Portugal, Brasil e Algarves”, foi evidente manifestação, com desenlace trágico, desses conflitos e confrontos (ibidem). Conhecem-se as reacções e os debates que desde logo a envolveram, designadamente pelos periódicos da época publicados em Inglaterra, como O Investigador Portuguez, que assim começou por se lhe referir: “Reino de Portugal. Demos principio neste N.º á publicação da Sentença e Acordaons proferidos contra os reos de alta traiçaõ, justiçados em Lisboa no memorável dia de I8 de Outubro, de 1817. Este facto hé importantíssimo, e deve formar uma grande epocha na interessante historia de Portugal desde os fins de 1807 até nossos dias; e por isso merece ficar perpetuado em todos os escriptos do tempo.”
Tratou-se de um intrincado processo político violentamente repressivo levado a cabo contra duas dezenas de militares e civis liberais, suspeitos conjurados e focado na figura de Gomes Freire que “visou a desarticulação de um movimento liberal, essencialmente militar, centrado na capital, com ramificações no Porto e outras zonas do país” (M.H. Pereira, 2018:149-150).

Tal acontecimento, “decorridos apenas três anos, vai ocupar um lugar destacado na construção da memória do novo regime liberal em Portugal”, vindo a configurar um acontecimento histórico nacional “fundador do liberalismo oitocentista” (M.H. Pereira, 2018:149-150) de grande significado e repercussão prolongada. Após a fase apologética do período vintista, a construção dessa memória consolidou-se com a “estabilização da monarquia constitucional e atravessou o século XIX, sendo retomada pela República no primeiro centenário, em 1917” (ibidem).
Pela Liberdade! No dealbar da Revolução de 1820 – por Maria Otilia Pereira Lage, jornal Público, 18 de Agosto de 2020, pp. 34/35 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

[FIGUEIRA DA FOZ - DIA 24 AGOSTO] – HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS / SESSÃO EVOCATIVA DOS 200 ANOS DA REVOLUÇÃO LIBERAL


Homenagem a MFT / Sessão Evocativa dos 200 anos da Revolução Liberal e apresentação do Livro "Manuel Fernandes Tomás, Escritos Políticos e Discursos Parlamentares (1820-1822)"

PROGRAMA:

DIA: 24 de Agosto de 2020

- 17,30 Horas: Deposição de Coroa de Flores junto ao túmulo de Manuel Fernandes Tomás;

- 18,15 Horas: CAE – Auditório João César Monteiro

- Sessão Evocativa dos 200 Anos da Revolução Liberal;

- Apresentação do Livro "Manuel Fernandes Tomás, Escritos Políticos e Discursos Parlamentares (1820-1822)", de autoria do professor José Luís Cardoso

ORADORES: Pres. da CMFF | Familiar de Manuel Fernandes Tomás | prof. Vital Moreira | prof. José Luís Cardoso

NOTA: O ESPAÇO ESTÁ LIMITADO.

J.M.M.

[COIMBRA - DIA 24 AGOSTO] – NOS 200 ANOS DA REVOLUÇÃO LIBERAL – APRESENTAÇÃO DO LIVRO, “MEMÓRIAS DA REGENERAÇÃO DE 24 DE AGOSTO DE 1820”



LIVRO: Memórias da Regeneração de 24 de Agosto de 1820;
AUTOR: José Liberato Freire de Carvalho;
EDITORA: Moura Pinto, 2020;

APRESENTAÇÃO DA OBRA:

DIA: 24 de Agosto de 2020 (12,00 horas);
LOCAL: Café Santa Cruz (Praça 8 de Maio), Coimbra;

ORGANIZAÇÃO: Comissão Liberato | Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto | Pró Associação 8 de Maio | Editorial Moura Pinto | Café Santa Cruz

NOTA: O ESPAÇO ESTÁ LIMITADO.

J.M.M.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

UM POEMA PREMONITÓRIO DO 24 DE AGOSTO DE 1820



Um Poema Premonitório do 24 de Agosto de 1820” [Extracto] – por Luís Miguel Queirós, in Público, 17 de Agosto de 2020
No dia 15 de Junho de 1819, um jovem estudante de Leis, que pouco antes começara a usar os apelidos Almeida Garrett, escreveu no Porto, sua cidade natal, um poema que resumia com veemência quase pitoresca a indignação e rancor que a presença e o ascendente dos mili­tares ingleses vinha alimentando na sociedade portuguesa.

"Opressora da Lusa liberdade/Esta canalha d'Al­ b-on soberbo/ aqui fixou seu trono./ De botelhas coroadas, e d’olhos, boca,/ Das orelhas, nariz e doutras partes/ Esguichando cerveja, numa glória/ De espesso nevoeiro,/ Pou­sou seu génio bruto em nossos muros;/ Co nacional God-damn, e o frasco a pino,/ Nos bebe o vinho, nos esbulha as bolsas."
 
Mais curioso é que neste poema, intitulado Férias, Garrett parecia também adivinhar não só que a revolta estava para breve, mas que nasceria no Porto, como efectivamente veio a acontecer um ano depois, no dia 24 de Agosto de 1820.
Ressurgir[á] daqui" a "nobre inde­pendência de outras eras", escreve, acrescentando um voto que é todo um programa revolucionário: "Oh! quando te hei-de eu ver, pátria que­rida/ Limpa de ingleses, safa de conventos,/ E varridas tuas ruas da imundície/ Do fidalguesco lixo!
Férias foi recolhido uma década mais tarde, em 1829,na primeira edição da Lírica de João Mínimo, publicada em Londres, e é justamente numa nota a estes versos que Garrett inclui um dos seus ditos mais célebres: "Se na nossa cidade, há muito quem troque o b por v, há muito pouco quem troque a honra pela infâmia, e a liberdade pela servidão."
Garrett veio a envolver-se na revolução liberal, viu aquele que seria o seu primeiro poema impresso, o Hino Patriótico, ser recitado no Teatro de S. João logo no dia 27 de Agosto de 1820, e chegou a ser secretário particular de José da Silva Carvalho, um dos líderes civis do movimento. Não é, pois, implausível que em meados de 1819 já lhe tivessem chegado alguns ecos da actividade do Sinédrio, para o qual um seu amigo próximo, Duarte Lessa, fora cooptado em Fevereiro do ano anterior. Mas talvez não lhe fosse necessário estar ao corrente da conspiração, ou possuir dotes divinatórios, para prever que mais tarde ou mais cedo se desencadearia uma revolta e que a probabilidade de ela vir a eclodir no Porto era considerável.

O magistrado José Maria Xavier de Araújo, penúltimo membro a ser recrutado pelo Sinédrio - o último foi o coronel Bernardo Sepúlveda, que a exemplo da generalidade dos oficiais implicados no pronunciamento de 24 de Agosto passou para o campo absolutista logo na Vilafrancada -, deixou umas memórias da Revolução de 24 de Agosto, na qual via "o resultado necessário dos acontecimentos que conduziram o Príncipe Regente de Portugal ao Brasil no ano de 1807, onde lançou as bases de um novo Império, com uma Administração separada, um Erário separado, e todos os Estabelecimentos próprios de uma Monarquia absoluta". E prosseguia: "Se este sistema não fosse levado ao seu extremo resultado, o Povo Português (...) toleraria por mais tempo a pesada carga, e digamos ainda, a humilhação de ser Colónia do Brasil, [mas] (...) o jugo tinha-se tornado, além de pesado, odioso, desde que o mais insignificante emprego temporário ou vitalício era dado do Rio de Janeiro com grande despesa de dinheiro e tempo."
Xavier de Araújo constatava ainda: "O nosso Exército, governado em chefe por um general Inglês, e na maior parte das Divisões e Brigadas, também por Ingleses, era conservado no pé de guerra com grave peso do nosso Tesouro." Se o domínio britânico sobre o Exército e a administração pública era um dos mais óbvios focos de descontentamento, a cruel execução, em Maio de 1817, de Gomes Freire de Andrade e dos oficiais que com ele tinham conspirado para derrubar o Governo, acirram o ódio aos ingleses. Xavier de Araújo não hesita mesmo em sugerir uma relação de causa e efeito entre o enforcamento dos conspiradores, atribuída a Beresford, e a criação do Sinédrio: "Cousa notável, e que evidentemente mostra a inutilidade da pena de morte aplicada a delitos políticos! No mesmo ano da morte de Gomes Freire foi assentada a Associação que produziu a Revolução de 24 de Agosto de 1820."

No entanto, era no país de Beresford que se imprimiam os vários jornais portugueses que contribuíram para difundir o ideário liberal nos anos que antecederam a revolução, como O Português, do bacharel Bernardo da Rocha Loureiro, ou O Campeão Português, de José Liberato Freire de Carvalho. E foi em Inglaterra que vários revolucionários do vintismo, incluindo Silva Carvalho e Xavier de Araújo, procuraram refúgio após a reviravolta absolutista da Vilafrancada, em 1823.
 
Um tratado ruinoso

Como o principal ideólogo da revolução, Fernandes Tomás, salientará no seu Relatório sobre o Estado e Administração do Reino, no qual pormenorizou perante as Cortes, em Fevereiro de 1821, a situação calamitosa da agricultura e do comércio, da indústria e das finanças, o país estava arruinado. Mas continuava a manter, em tempo de paz, um exército numeroso e oneroso, cujos postos principais eram ocupados por britânicos, que bloqueavam a progressão dos oficiais portugueses. Um aspecto que ajuda a explicar, aliás, a circunstancial conjugação de interesses, pouco duradoura mas instrumental para o sucesso da revolta, entre as ilustradas elites burguesas portuenses, genuinamente empenhadas numa viragem liberal, e um grupo de militares nortenhos, intrinsecamente conservadores, que se tinham em muitos casos distinguido nas guerras peninsulares e que agora se viam a marcar passo.

[…] O Porto, uma cidade burguesa, onde a presença da nobreza de sangue era residual e o poder estava nas mãos de uma elite de juízes, desembargadores, grandes comerciantes e industriais, ressentiu-se particularmente. A urbe crescera muito na segunda metade do século XVIII, tornando-se mais ampla e desafogada com as ambiciosas intervenções dos Almadas, e beneficiou de um forte dinamismo económico muito devedor do comércio do vinho do Porto, cujas exportações triplicaram no último quartel do século.
No mesmo período, a importância das relações comerciais com o Brasil, não só do Porto, mas também dos principais pólos urbanos do Minho, crescera consideravelmente. E se é verdade que este período afortunado acabou de algum modo com as invasões francesas e os anos de guerra, a recuperação que depois se iniciou foi fortemente abalada pelo fim do exclusivo comercial com o Brasil e a concorrência dos produtos ingleses, que contribuiu também para a decadência das fábricas portuenses, que deixaram de conseguir escoar os seus produtos.

Se somarmos a estas circunstâncias a proverbial independência da cidade face ao poder central, a circulação de jornais, panfletos e livros que lhe faziam chegar as novas ideias filosóficas e políticas que se discutiam na Europa, ou ainda a rede de contactos que a elite burguesa do Porto mantinha em toda a região norte, e que abarcava os comandos militares, talvez se deva reconhecer que a convicção de Almeida Garrett de que seria o Porto a libertar o país, embora plasmada em verso, nada tinha de lírica.
Não só a revolução nasceu no Porto, como durante algumas semanas a junta de governo proclamada na cidade liderou de facto o país, conseguindo quase de imediato o apoio do Minho, e avançando depois numa digressão nacional que foi encontrando pouquíssima resistência, até entrar no dia 1 de Outubro em Lisboa, que entretanto aderira já ao movimento revolucionário na sequência da revolta de 15 de Setembro, na qual o povo da capital tivera participação decisiva. E apesar das várias disputas internas que de imediato marcaram o período de preparação das Cortes, e que desde logo testemunharam a fragilidade da aliança entre os líderes civis e militares, a junta Provisional do Supremo Governo do Reino, que resultou da fusão da junta portuense com o governo interino de Lisboa, seguiu, no essencial, o programa delineado pelos juristas do Sinédrio.
No entanto, segundo o testemunho de Silva Carvalho, a associação, em bom rigor, não tinha sido originalmente criada para promover uma revolução, mas antes para assegurar que não lhe faltariam líderes esclarecidos quando ela rebentasse. Convicto de que o Governo de Fernando VII, que restaurara o absolutismo com mão pesada, não poderia durar, e que o inevitável levantamento espanhol não deixaria de ter repercussões em Portugal, o que Fernandes Tomás propôs aos seus amigos Silva Carvalho e Ferreira Borges foi a formação de um grupo de homens íntegros que deveria preparar-se em segredo para uma revolta que não poderia deixar de se dar e que lhes competiria a eles tentar orientar para os melhores fins.
Mas quando as suas previsões finalmente se cumpriram e estalou uma revolta liberal em Espanha, iniciada no dia 1 de Janeiro de 1820 com um levantamento militar que impôs o restabelecimento da Constituição de Cádis de 1812, a organização portuense, então já alargada a oito membros, a que se juntariam ainda mais cinco a partir do final de Maio de 1820, não esperou por um contágio que tardava a materializar-se e começou a manter contactos com os revolucionários espanhóis e a mobilizar os chefes militares de que carecia para lançar a revolução.

Os homens do Sinédrio viam-se como moderados e fizeram sempre questão de assegurar a sua fidelidade ao rei e à religião católica - raras revoluções terão começado com as tropas em parada a assistir a uma missa campal, como aconteceu no Porto -, mas nem por isso o seu programa deixava de ter alguns aspectos profundamente radicais. Se a libertação da tutela inglesa, a exigência do regresso do rei ou mesmo a frustrada reivindicação de que o Brasil revertesse à condição de colónia, respondiam diretamente às circunstâncias, já a insistência numa Constituição que emanasse de uma assembleia eleita e representativa da nação, e à qual o próprio rei ficaria subordinado, representou uma revolucionária primeira pedra do edifício jurídico do Portugal moderno, que ainda levaria bastantes anos a consolidar-se.

Um Poema Premonitório do 24 de Agosto de 1820 – por Luís Miguel Queirós, [Jornalista], jornal Público, 17 de Agosto de 2020, pp. 34/35 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

sábado, 15 de agosto de 2020

ÁLVARO SOARES ANDREA (1864 – 1939) - NOTA BREVE


“… Álvaro Soares Andrea acredita ter aprendido a navegar antes de o mar ter nascido. Durante décadas vagueou ao longo da costa africana e desbravou rios que estão ainda por nomear. E foram tantas as viagens que não há noites que bastem para contar as suas aventuras. Daí o seu desdém pelos caprichos de Mouzinho de Albuquerque.

- Quem sabe do mar sabe dos céus -proclama o comandante enquanto percorre, para cá e para lá, toda a extensão da sua corveta.

Está alvoroçado, não pregou olho toda a noite. Foi visitado por sonhos, estranhos presságios. Sonhou que se tinha convertido num prisioneiro negro e que viajava no porão do seu próprio navio. No mesmo sonho, Mouzinho desamarrava-lhe os pulsos e agitava um caderno em frente do seu rosto: É isto que andas a escrever contra mim, meu filho da puta? No cano das botas ia roçando uma nervosa vergasta. Depois ia roçando uma nervosa vergasta. Depois atirava-lhe o caderno para o colo. Queria que o lesse em voz alta. Andrea segurava as folhas com mãos trémulas. Dava conta de que aquela era a sua caligrafia. Mas logo se apercebia de que escrevera tudo aquilo numa língua que não entendia. Parecia-lhe zulu, não tinha a certeza. E despertava, estremunhado.

- Quem sabe do mar sabe dos céus -repete Andrea, como se o mote o ajudasse a permanecer desperto. Volta a olhar as nuvens escuras por cima do oceano. Sujeita-se, enfim, ao comando das insondáveis forças da natureza. Confia mais nessa estrela interior - que alguns designam de intuição - do que em mapas e bússolas que se mostram imprestáveis nos mares tropicais …”

[Mia Couto, in As Areias do Imperador – Livro Três. O Bebedor de Horizontes]

 


Álvaro Simões de Oliveira Soares Andrea nasce em Lisboa em 31 de Agosto de 1864. Era filho do contra-almirante liberal Tomás José de Sousa Soares de Andrea (1824-?) e de Maria Luísa Virgínia de Sequeira e Oliveira. O avô paterno, Tomás José de Sousa Soares de Andrea (1777-1826) era oficial do exército e esteve a Guerra Peninsular e lutado ao lado das forças liberais durante a guerra civil, comandando os esquadrões do Regimento de Cavalaria N.º 7 de Vila Viçosa, tendo morrido por ferimentos em combate em 1826 [ver livro de Álvaro Soares de Andrea, O Systema decimal mundial e o Relogio decimal, Typografia e Papelaria Corrêa & Raposo, Lisboa, 1909].

Álvaro Soares Andrea foi um distintíssimo oficial da marinha, servindo nas Colónias, onde participou (1895) na Campanha de Gaza, em 1895 e no Combate de Macontene (1897, Moçambique). Foi na campanha de Moçambique que se distinguiu, principalmente na operação e prisão de Gungunhana, o último imperador de Gaza, comandando a Capelo.

Tinha elevadas condecorações: o Colar da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito; era Cavaleiro e Oficial da Ordem Militar de Avis, Oficial da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa; tinha as Medalhas de Valor Militar, de Comportamento Exemplar, e da Campanha do Tungue (1889), de Moçambique (1894-1895), e do Niassa (1899).

Em 1905 é iniciado como maçon, na Loja Simpatia e União, com o nome simbólico de Tomás Andrea [possivelmente em memória do seu avô]. Pertenceu à Carbonária, sendo na época um republicano radical, integrando, após o 5 de Outubro, a denominada Federação Republicana Radical. Em 1910, no levantamento do 5 de Outubro, teve Soares Andrea uma importante intervenção, na tomada do Quartel de Marinheiros, de Alcântara.

Reformou-se a 18 de Novembro de 1910. Participou, a 27 de Abril de 1913, no que será a primeira revolta republicana, de civis e militares [Curiosamente a revolta integrava vários elementos da maçonaria] contra o governo da Republica, então dirigido pelo dr. Afonso Costa. Foi preso e enviado para os Açores com residência fixa.

Morre a 14 de Agosto de 1939, estando sepultado no cemitério dos Prazeres. Era casado com Elisa Sofia Pinto Andrea.
 
J.M.M.

sábado, 8 de agosto de 2020

SAHIDAS DE VERANEIO


Lá longe vi torres d’oiro / com princesas de luar” [Bernardo de Passos]

O Almanaque Republicano cumpre uma vez mais o viçoso poder de veraneio. Segundo os sábios, a ilustração e a cultura de espírito estão naqueles gentios que partem em jornadeio. Pois assim seja! Para nós, a nossa mui alta e alevantada jornada será sempre uma quietude suplicante … nestes dias sem beleza e sem glória.
Partindo dos Campos do Mondego (com mar ao fundo) subimos (ou descemos) a terras nossas, que a Alma ainda abrilhanta o céu. Para o sul ou no coração do súbito Centro, vamos renovar as fadigas. Breve voltaremos ao recesso do lar e ao V. aconchego. Até lá … um derradeiro Vale!

Saúde, Paz e Fraternidade!

[traçado algures, à sombra da noute]
J.M.M.
A.A.B.M.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

PERIÓDICOS ANTINAPOLEÓNICOS: O SEMANARIO LUSITANO CONTINUADO PELO MERCURIO LUSITANO


O Semanário Lusitano. Ano I, nº 1 (3 Maio de 1809) ao nº ??, de Agosto 1812; Redactor: Teodoro José Biancardi; Oficinas da Impressão Régia de Lisboa, Lisboa, 1809-1812.

O Mercúrio Lusitano. Ano I, nº 1 (1 Setembro 1812) ao nº 695 (22 Dezembro 1815; Redactor: Teodoro José Biancardi; Oficinas da Impressão Régia de Lisboa, Lisboa, 1812-1815.
Vendia-se na loja da Gazeta, na de Carvalho (defronte à boca da rua de S. Francisco), na loja de Nascimento (rua dos Algibebes).

Trata-se de uma folha informativa escrita pelo publicista Teodoro José Biancardi que tinha antes editado e colaborado no periódico Lagarde Portuguez de Luís Sequeira Oliva, como aqui nos referimos. Como outras folhas, dava notícias políticas, a que se seguia curiosos considerandos e reflexões. O Semanario Lusitano tem inicio a 3 de maio de 1809 e vai até 1812, onde muda de título para Mercurio Lusitano, terminando em 1815.  
A questão do periodismo depois das invasões francesas é bem curioso. Na verdade, a imprensa periódica portuguesa até aí não tinha expressão, apenas existia a Gazeta de Lisboa. Deste modo o aparecimento de folhetos, opúsculos, impressos nacionalistas e do jornalismo antinapoleónico (os franceses tinham na sua alçada, a Gazeta de Lisboa e o Diário do Porto), como o Leal Português (Porto, 1808-1810), Minerva Lusitana (Coimbra, 1808-1811), a Gazeta de Almada (1808), o Correio do Outro Mundo (1808), o Lagarde Portuguez ou a Gazeta depois de jantar, o Semanário Lusitano (1809-1812), o Diário Lisbonense (1809-1813; de Estêvão Brocard), e muitos outros, que rapidamente surgiram (com autorização tácita da Regência), tornaram as posições e interesses patrióticos sobejamente defendidas. Entre 1808-1809 existiram muitos periódicos no país (aponta-se para a existência de 24), quase todos circulando entre Portugal e Espanha ou então citados e traduzidos, pelas notícias militares dos êxitos obtidos por ambos os exércitos contra a França de Bonaparte (cf. Péricles Pedrosa Lima, A corte no Brasil e os periódicos portugueses:1808-1821).
O tom satírico, panfletário, a par de conteúdos políticos mais sérios, a circulação e o debate de ideias, fizeram destas folhas ou periódicos, na sua maior parte antinapoleónicos, num país pouco habituado a tais expressões de (relativa) liberdade de imprensa terem uma extraordinária importância, quer informativa quer literária. A censura volta em força a partir de 1810, curiosamente no período da Setembrizada e da perseguição à Maçonaria, o que explica, em parte, o enorme sucesso obtido pelos jornais da emigração entre nós. Porém, a aprendizagem adquirida por esses papéis “libertinos e sediciosos” (Agostinho de Macedo) fez com que o país jamais pudesse ser a mesmo: foi dado ao grande público a possibilidade de aceder a notícias e informações relevantes da sociedade e do mundo, e portanto à divulgação de novas e civilizadas ideias, procurou-se o debate político e a procura de uma maior ilustração, pelo tudo isso deixou marcas profundas. Isto é, as transformações operadas nas mentalidades, principalmente nas classes emergentes com interesses desenvolvimentistas liberais ou constitucionais, fizeram o seu próprio e silencioso percurso. Os jornais da emigração souberam muito bem ler e compreender essa avidez de liberdade.


Theodoro José Biancardi (1777-1854) nasce em Lisboa (é batizado na Igreja das Mercês) e, ou que se sabe [vide Diccionario de Inocêncio F. da Silva; idem Diccionario de Esteves Pereira], exerceu cargos governamentais, trabalhando como Oficial da Secretaria do Estado e foi um escritor político interventivo.  
Publica, em 1808, o folheto Successos do Alemtejo, onde faz o resumo das ocorrências verificadas no decurso da restauração do reino e expulsão do exército francês. Esta obra, que narra a crueldade do comandante das forças francesas Loison na revolta em Évora, provoca uma resposta do tenente general espanhol, D. João Carrafa (a quem Biancardi pedia responsabilidades), a que sucede a competente réplica de Biancardi (de permeio, outros mais intervieram, caso de Federico Moretti e Cascone), Resposta ao manifesto que fez imprimir em Cadiz o Tenente General D. João Carrafa contra a obra intitulada Successos do Alemtejo (Impressão Régia, 1811).

Em 1809 é autor do romance epistolar Cartas Americanas (Impressão Régia; teve várias edições, a última em 1820, pela Impressão de Alcobia) onde se “descreve os usos e costumes de Lisboa, assim como huma narração desde a sahida de S. A. R. para o Brasil". A novela toma como modelo as Cartas Persas de Montesquieu (cf. Simone Cristina Mendonça de Souza, Cartas Americanas, 2008; Pinheiro Chagas, no seu Dicionário, sobre este assunto entre as Cartas de Biancardi e de Montesquieu, diz que elas se parecem tanto “com um ovo como com um espeto e já não dizemos no talento com que são escritas”), onde o “o luxo, escravidão, modas, educação das mulheres, Teatros, jogo, demandas, influência das Artes e Ciências nos costumes dos povos, e por ultimo o Governo e Administração dos Franceses em Portugal” estão bem presentes. Teve algum sucesso esta novela porque quase de imediato ao Rio de Janeiro. Ainda neste ano surge como colaborador do Telegrafo Portuguez, de Luís de Sequeira Oliva, porém poucos artigos apresentou.
Saindo de colaborador do Telegrafo Portuguez, Biancardi lança a sua própria folha política, Semanário Lusitano [nº 1 (3 Maio 1809) ao nº ??? (1812), Impr. Régia]. Em 1812, é substituído este periódico pelo Mercúrio Lusitano [nº 1 (1 Setembro 1812) ao nº 695 (22 Dezembro 1815), Impr. Régia]. Curiosamente, a 20 de Outubro de 1812, Sequeira Oliva, ao nº 84 do seu Telegrafo Portuguez publica um artigo a propósito do uso excessivo de palavras francesas (“Guerra às palavras afrancezadas”) que Biancardi considera direccionado para a sua pessoa, dando início a uma polémica entre os dois. Segundo o saudoso professor José Tengarrinha (Nova História da Imprensa Portuguesa, p. 228), o periódico chegou “a noticiar as Cortes Constituintes de Cádis, o que certamente não terá sido do agrado das autoridades portuguesas”.  

Em 1810 traduz (surge anonimo, mas é-lhe atribuído a tradução) do espanhol o folheto A voz da America proclamação que circulava por toda a America hespanhola e que manifesta geralmente o voto de que seja eleito para Regente e futura Senhora de Hespanha a senhora D. Carlota Joaquina de Bourbon (Impr. Régia, 1810).
Por volta de 1816, viajou para a cidade do Rio de Janeiro e, após a independência, torna-se brasileiro, de acordo com o artig.º 6 da Constituição de 1824. Exerceu o cargo de Oficial Maior da Secretaria do Estado dos Negócios do Império e em Dezembro de 1822 é encarregue de preparar o local (Cadeia Velha, do Rio de Janeiro) destinado aos trabalhos da Assembleia Geral e Constituinte do Brasil, por José Bonifácio de Andrada e Silva, ao mesmo tempo que está incumbido da organização da futura Secretaria da Assembleia.
Em 1826, pelo Decreto de 25 de Janeiro, é nomeado por D. Pedro I como ministro plenipotenciário para o Congresso Anfictiónico (plano de Bolivar para todas as ex-colónias pensarem uma unidade continental; há quem leia ali o pronúncio da futura Sociedade das Nações), no Panamá, porém o Brasil não marcou presença, aliás como outros países como a Argentina, a Bolívia, o Chile e os EUA. Sobre a ausência no Congresso, as especulações são muitas e, entre elas, sobressai a imperiosa necessidade do Brasil ter o reconhecimento das potências europeias; acresce o facto dos países presentes nessa reunião serem repúblicas (só uma monarquia esteve representada, o Reino Unido), o que poderia ser indesejável e portanto assunto a não desprezar; por outro lado, a notícia do não comparecimento da Argentina ao Panamá e as hostilidades militares entre os dois países pelo actual território o Uruguai estarem já presentes, poderia levar a seguir o mesmo procedimento; por fim, julga-se que a Espanha não veria com bons olhos um Congresso onde marcavam presença novas nacionalidades de expressão hispana. Portanto, muito embora a viagem até ao Panamá fosse longa (à volta de um mês) e difícil, o motivo de súbita doença de um Teodoro Biancardi já posto a caminho (estaria perto de Salvador da Bahia), como alguns tentam argumentar, se bem que possível pode não ser aceitável de todo.

 
Em 1831, pede Biancardi a sua demissão por incompatibilidade com o ministro da tutela e, logo após, toma o lugar de Oficial Maior da Secretaria da Augusta Câmara ou Câmara dos Deputados, até à sua aposentação.
Em 1835 pede licença, por “9 ou 10 meses” para ir a Portugal, às Caldas da Rainha, “procurar remédio para as suas enfermidades” (in Annaes do Parlamento Brasileiro). Permaneceu no Brasil e em 1849 volta a Lisboa, onde desembarcou a 4 de Julho desse ano. Pouco tempo cá esteve, partindo novamente para o Brasil onde morre a 15 de Agosto de 1853, em Niterói (cf. Diccionario, Sacramento Blake, vol.7). Foi casado com D. Maria da Graça Barbosa Biancardi. Era Cavaleiro da Ordem e Cristo (1825) e da Rosa. (1829).

Escritor prolixo deu ao prelo, ainda, outros opúsculos: Reflexões sobre alguns successos do Brasil (Rio de Janeiro, 1822); Eduardo e Lucinda ou a portugueza infiel (Rio de Janeiro, 1829); Inocêncio F. da Silva diz que tinha “ouvido dizer” que Biancardi “redigira e publicara no Rio as sessões da Assembleia constituinte, as quaes saíram impressas em dois grossos volumes, com a singularidade de serem ali cortados todos os discursos pronunciados pelos irmãos Andradas no dia em que se realizou a dissolução da mesma Assembleia” (Diccionário, vol. 7, p. 309).
J.M.M.