terça-feira, 17 de janeiro de 2017

OS IRMÃOS PASSOS DA POLÍTICA AO PODER LOCAL: COLÓQUIO

 Nos próximos dias 20 e 21 de Janeiro de 2017, a Câmara Municipal de Matosinhos promove a realização de um colóquio subordinado ao título Os Irmão Passos: da Política ao Poder Local.Os 180 anos das Reformas Administrativas de 1836 que conta com alguns investigadores com obra publicada sobre o tema.

O cartaz completo do colóquio conta com investigadores como: António Manuel Hespanha, António Pedro Manique, Luís Vidigal, José Raimundo Noras, Maria João Vaz, entre outros.
Para informações complementares convém consultar o blogue do colóquio AQUI.
Uma iniciativa que se saúda e que divulgamos junto de potenciais interessados.

A.A.B.M.

domingo, 15 de janeiro de 2017

ASSOCIAÇÃO FRATERNIDADE OPERÁRIA


Fundada em 14 de Janeiro de 1872 surge a Associação Fraternidade Operária, tendo por base os modelos da Aliança da Democracia Socialista, de Bakunine

Esta associação foi instalada na Rua das Gaivotas, onde funcionava o Grémio Popular, mais tarde instala-se na Calçada da Estrela, nº16, em Lisboa, constituíram-se aí três secções da Fraternidade Operária: Chelas, Marvila e Poço do Bispo. Foi ainda criada uma filial da associação no Porto em 30 de setembro de 1872, instalada na Rua Gonçalo Cristóvão. Esta associação esteve na organização de greves e das primeiras comemorações do Dia do Trabalhador em Portugal. Foi também esta associação operária que conseguiu publicar o jornal Pensamento Social que pode ser consultado na Biblioteca Nacional de Lisboa AQUI.

A Associação Fraternidade Operária foi influenciada pelas orientações aprovadas no 5.º Congresso da Associação Internacional (realizado em setembro de 1872, em Haia). Foi também por sua iniciativa que se desenvolveu o processo de fundação de um partido socialista em Portugal que se concretizou em 10 de Janeiro de 1875, no Partido Socialista Português (PSP), por proposta de Azedo Gneco e José Fontana.


Entre 2 a 6 de Setembro de 1872, teve lugar na cidade holandesa de Haia o V Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), vulgarmente conhecida como a I Internacional. Este congresso marcou historicamente pelo facto de ter consagrado a vitória do marxismo sobre as correntes oportunista de esquerda e de direita representadas pelo proudhonismo e pelo bakuninismo, e de, na base dos documentos fundadores da AIT e das teses fundamentais do marxismo, ter desenvolvido os fundamentos orgânicos, tácticos e ideológicos dos partidos políticos da classe operária que se deveriam constituir em cada país.
A evolução da Fraternidade Operária foi rápida e muito satisfatória. As investigações indicam que esta associação um ano depois, Lisboa tem já dez mil sócios e o Porto cerca de oito mil. Nos arredores destas duas cidades haveria mais uns milhares de sócios. Em Lisboa notaram-se os efeitos da acção da Fraternidade Operária: em 1872 rebentava um surto grevista inédito pelas suas dimensões e alcance, já que «fundidores, fragateiros, tipógrafos e tanoeiros entram em greve, pedindo melhores condições de trabalho», refere Filomena Mónica, que não deixa de salientar, igualmente, o carácter limitado do impacto destas greves porque «tudo isto se passava apenas em Lisboa. Tudo isto se mantinha limitado a alguns grupos de trabalhadores aristocráticos. Este aspecto da modernidade do movimento operário português perturbou um pouco as autoridades e o meio empresarial, mas é necessário não esquecer que nesta época, e de acordo com o Código Penal então em vigor, a greve era crime.
Em Julho de 1872, a delegação da Associação Fraternidade Operária, em Almada contava já com mais de cem sócios e continuava a aumentar o número de adesões conforme assinalava o Pensamento Social AQUI.
Em 1873, a cidade do Porto juntou-se aos movimentos grevistas liderado pela Fraternidade Operária. Realizaram-se greves de tabaqueiros, charuteiros, cigarreiras e ferroviários, reivindicando aumento de salário e mais regalias sociais. Os resultados destas movimentações operárias saldaram-se, em todos os casos, pela derrota. Silva Lisboa e Miguel Mendes, militantes da Fraternidade Operária do Porto, eram presos por terem participado e estimulado a greve dos manipuladores de tabaco.
O Pensamento Social, nesta altura já o órgão da Fraternidade Operária e onde colaboraram Antero de Quental, José Fontana, Oliveira Martins, Jaime Batalha Reis, Nobre França, Eduardo Maia, Augusto Tedeschi, Azedo Gneco e outros.
A publicação de O Pensamento Social (Fevereiro, 1872/Outubro, 1873), desempenhou papel de extraordinária importância na divulgação da luta e da organização dos trabalhadores em Portugal e no estrangeiro, na denúncia e explicação dos mecanismos da exploração. Com a publicação de artigos teóricos, O Pensamento Social, ainda que reflectindo a natureza ideológica heterogénea da secção portuguesa e nas suas páginas se pudessem encontrar posições anarquistas, deu uma enorme contribuição para o debate ideológico e para a afirmação da corrente marxista. Foi com O Pensamento Social que se começaram a publicar em Portugal textos marxistas: Manifesto Inaugural da AIT, escrito por Marx, Estatutos Gerais, artigos de Engels e de Pablo Lafargue, o Manifesto Comunista, para além da utilização de artigos de jornais de diferentes secções da Internacional dirigidas por marxistas.
A 4 Outubro de 1873, com a publicação do n.º 55, O Pensamento Social, depois de várias tentativas para impedir o seu fecho, deixava de se publicar, acompanhando o destino de outros jornais operários na Europa. Vivia-se já a crise generalizada no movimento operário internacional, que atinge igualmente o português.
As «associações de resistência», as únicas organizações de massas da classe operária existentes então, que deram suporte à acção dos internacionais e à afirmação dos elementos que se reclamavam do marxismo, começam a perder filiados e influência. A luta operária recua drasticamente.
A Fraternidade Operária entretanto fundiu-se com outras organizações operárias na Associação dos Trabalhadores na Região Portuguesa (ATRP) a partir da fusão entre a Associação Protectora do Trabalho Nacional e passou a funcionar como dependência da Internacional Operária. A delegação desta organização no Porto foi criada em 29 de Outubro de 1873, contando com duzentos sócios e encontrando-se instalada na Rua de Santa Catarina. Segundo Gonçalves Viana, que descreve este núcleo fundador da Associação dos Trabalhadores do Porto: «Foi aí, na Rua de Santa Catarina que, na nossa juventude, em Agosto de 1875, entrámos nos trabalhos da Associação dos Trabalhadores (...) onde encontrámos nos restos do movimento operário de 1873, da classe de tecidos de algodão, entre outros, os irmãos Alecrim e Teixeira; um dos irmãos Verdial, o outro ensaiava-se para actor; os primos Martins, de que passámos a fazer parte, da classe de ferro e representantes de uma humilde família de Viana do Castelo; um bom núcleo de operários das fundições do bairro de Massarelos e tantos outros, hoje desaparecidos do número dos vivos, que durante alguns anos alimentaram a ilusão de que a sociedade actual, cheia de injustiças, seria em breve substituída por outra mais justa e humanitária»
Em 1876, a direcção da Associação dos Trabalhadores na Região Portuguesa portuense era constituída por Eduardo Carvalho e Cunha, António Moreira, Silvestre Pinto Caldeira, José Alves Magalhães e Vasconcelos, José Ferreira, José Domingos da Cruz, João Baptista Esteves, Manuel Rodrigues Alves dos Santos, António Cardoso Mesquita e José Domingos Pereira. Na Associação dos Trabalhadores do Porto estavam filiados 2200 operários. Em Lisboa eram 3600 trabalhadores..
 
Uma das várias greves que se realizaram em 1872 pode ser confirmada AQUI.
Idêntica notícia publicada no Brasil sobre greves em Portugal pode ser consultada AQUI
Mais referências importantes sobre a Fraternidade Operária disponíveis aqui: https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/15094/2/2481TM01P000076505.pdf
Vide também o artigo de Victor de Sá AQUI.
O artigo de Rui Manuel Brás também deve ser consultado AQUI.

A.A.B.M.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

SOARES, TAL E QUAL – POR ANTÓNIO VALDEMAR


 
Soares, tal e qual” – por António Valdemar, in Expresso [online]
 
António Valdemar, “jornalista, antigo aluno do Colégio Moderno (propriedade da família Soares) e do próprio Mário Soares, privou durante décadas com o antigo Presidente da República. Aqui deixa um testemunho inédito sobre aspectos menos conhecidos da vida do antigo PR. Da cultura, à política ou às viagens. Sem esquecer a gastronomia”

Era um animal político. Mal acordava, Mário Soares queria saber tudo o que acontecera. Mergulhava na leitura dos jornais e revistas. Portugueses. Franceses. Espanhóis. Entretanto, seguiam – se os telefonema. Organizava mentalmente essa informação para enfrentar mais outro dia.

O perfil do homem público não se diferenciava muito do homem no convívio íntimo. Nos afetos calorosos, nas aversões ferozes. Mudou, evidentemente, de opinião sem alterar princípios fundamentais. Há situações que, de momento, não vale a pena enumerar. Todavia, era espontâneo nas simpatias e antipatias. As reconciliações possíveis não erradicaram os motivos de cisão, de incompatibilidade, de afastamento. De corte de relações políticas. De relações pessoais. Ou ambas as coisas.

Não se adaptou à internet. O computador colocado na secretaria, do seu gabinete na Fundação, era apenas um elemento decorativo. Até ao fim, tudo o que leu tinha de ser em papel. Escrevia, com rapidez e fluência, na sua letra miúda. Cada vez mais miúda. Mas, em certas ocasiões, emendava muito. As secretarias, durante décadas, a Osita e a Maria José, habituaram – se a decifrar os manuscritos labirínticos, os «textos aracnídeos» conforme exclamei ao ver uma folha A4 repleta correções, de acrescentamentos, de cortes, de repuxos.

Ao falar – lhe nisso respondeu – me: «Procuro, apenas, ser claro». Insisti: «O seu mestre Prof. Francisco Vieira de Almeida costumava advertir: «O simples não é o fácil». Soares olhou – me de alto a baixo e pediu para repetir. E acrescentou: «Eu que o diga...»

Era um homem de cultura. Apesar de nunca ter sido escritor na verdadeira aceção da palavra, frequentou tertúlias de Lisboa e de Paris e sentia – se em pé de igualdade ao lado dos outros intelectuais. Procurava estar ao corrente das novidades. Comprava tudo o que lhe interessava e alguns livros que, não fazendo parte das suas curiosidades habituais, já constituíam uma referência.

Além dos milhares de livros que tinha em casa, e nas casas de Nafarros e do Algarve, instalou no 4º andar do seu prédio, uma «nova biblioteca». Perante aquele universo bibliográfico, devidamente, sistematizada por temas e autores, confirmei o prazer, mais do que isso, a volúpia de ter edições raras. Encadernações preciosas. Primeiras edições, de livros com dedicatórias dos autores e anotações dos possuidores.

Não esqueço o deslumbramento que manifestou ao visitar a biblioteca de Pina Martins, de folhear primeiras edições de Erasmo e Damião de Gois. «Estou esmagado. É demais...» Nesse dia, ao jantar comigo e com o José Manuel dos Santos -  seu colaborador direto, durante décadas e amigo muito próximo - embora houvesse matéria política escaldante, continuava dominado pela emoção que lhe causara a coleção de Pina Martins. E, de vez em quando, repetia: «Estou esmagado. ... Estive para cheirar o papel mas o Pina deve usar inseticidas».

Mário Soares toda a vida também frequentou livrarias e alfarrabistas. Mesmo quando era Primeiro- Ministro, Presidente da Republica, deputado do Parlamento Europeu. Incluiu entre os seus amigos poetas e escritores. Uns ainda da geração do pai, como Jaime Cortesão e Aquilino;  da geração seguinte Rodrigues Migueis e Miguel Torga; outros da sua geração como Carlos de Oliveira, Cardoso Pires, Sophia, Natália Correia, Mário Cesariny ou Luís Pacheco. Outros ainda das gerações mais recentes.

O mesmo aconteceu com artistas plásticos. Admirava Columbano mas o seu apreço e convívio estenderam – se, por exemplo, a Júlio Pomar, a Vieira da Silva, a Jorge Martins. Escapava – lhe a música. Perguntava – me um dia: «Consegue escrever com música?». «Sempre que estou em casa escrevo melhor com música». «Mas que música?" – insistiu. «Com os clássicos. Quase sempre os mesmos». «Compreendo perfeitamente...».

De todos os escritores portugueses o que mais admirava era Eça de Queiroz. Outra das suas admirações profundas era Teixeira Gomes. Várias vezes, na sua casa do Vau, partilhamos a leitura de páginas antológicas do Agosto Azul e de pequenos grandes textos acerca das metamorfoses da luz e da cor, das praias e do mar do Algarve, das pedras com memória e das terras com aromas.


Era um homem de coragem. Política e pessoal. Deu provas da sua determinação na resistência ao salazarismo, nas prisões que suportou. No verão quente de 75, ao insurgir – se contra outros totalitarismos. Em campanhas eleitorais, ao ser agredido na Marinha Grande. Ao assistir, no encerramento de um Congresso da Internacional Socialista, da qual era vice – presidente, ao atentado a Sartawi, observador da OLP e abatido por um membro de um grupo radical, do Abu Nidal, no Hotel de Montechoro.

Estava preparado para as situações mais diversas. Trágicas, cómicas, insólitas. Em 1990, como Presidente da Republica entregou o Premio de Poesia a Natália Correia e, ao mesmo tempo, aproveitou a oportunidade para a distinguir com a Ordem da Liberdade. Natália Correia ouvia o discurso com o seu ar desafiador.

Enalteceu, de início, em duas frases os méritos literários de Natália e os seus contributos para a Democracia, antes e depois do 25 de Abril. A seguir Mário Soares, numa breve nota pessoal, quando salientava, apenas e tão só, que Natália Correia fora «uma das mulheres mais belas da Lisboa dos anos 40 e 50» ouviu – se, em toda a sala, sem necessidade de microfone, a cólera vulcânica e impetuosa de Natália; «Lá está ele a falar do meu corpo. Olhou sempre para mim como uma fêmea. Nunca contemplou o meu espírito. Nem mesmo aqui...»

Era de mais. Excedera os limites aceitáveis. Ultrapassara broncas sucessivas que marcaram a sua presença na Presidência Aberta nos Açores. A cerimónia começava a perder a dignidade institucional. Mário Soares decidiu abreviar o discurso. Horas depois, num jantar reservado, riu. Riu imenso. Rimos todos com ele. A amizade manteve – se na íntegra. Continuou a prestar a Natália todas as homenagens. Em vida, por ocasião da morte e depois da morte.

Era um apreciador da boa mesa. A mulher é que tratava dos assuntos domésticos. Tal como acontecera com a mãe. Mas havia pequenas coisas que lhe davam satisfação. Ir comprar doces e alguns queijos. No tempo das castanhas, de regresso a casa, mandava o motorista parar numa esquina e comprava uma ou duas dúzias de castanhas para a sobremesa. Com tinto.

Frequentou os melhores restaurantes do mundo. Saboreou os pratos mais diversos. Evitava ementas sofisticadas. Gostava, sobretudo, de pratos tradicionais: uma sopa de legumes, a abrir; carne à jardineira; uma boa posta de pescada cosida; uma omelete cremosa, com salsa picada. Pastéis de bacalhau. Pataniscas com arroz de feijão. Comida caseira portuguesa. E gostava de bons vinhos. Comia e bebia com moderação. Apreciava queijos. Olhava para a tábua com varias marcas como um filatelista percorria as folhas de um álbum. Jean Daniel, num jantar de família, ao experimentar vários queijos não se conteve perante um Serpa: «Ça c’ est le fromage». Um sorriso, de orelha a orelha, traduziu o contentamento de Mário Soares ao verificar que os amigos, se sentiam bem recebidos, na sua casa e à sua mesa.

Deliciava – se, por exemplo, com pão-de-ló. Oferecia, generosamente. «Desculpe não gosto de doces!». Com o ar mais sério do mundo dizia: «Comprei por sua causa. Coma ao menos uma fatia?!». Em face da minha recusa exclamava: «Então como eu. Está ótimo. Não sabe o que perde». Repetia. E com uma colher de sopa rapava ainda o doce de ovos que estava dentro do pão-de-ló. Ficava regalado. Como uma criança. O menino de sua mãe.

Era um apaixonado pelas viagens. Nos anos 60 conheceu parte da Europa com a mulher e os filhos. De país em pais. Surpreendendo os contrastes das paisagens. Percorrendo monumentos e museus. Visitou o Brasil, após a fundação do Partido Socialista, para falar com exilados políticos, desde militares da Rotunda e seareiros que participaram na revolta do 7 de Fevereiro, como Sarmento Pimentel e Jaime de Morais, até Casais Monteiro, Vítor da Cunha Rego e Manuel Pedroso Marques.


Voltou ao Brasil em viagens de Estado, recebido com todas as honras. Foi noutras ocasiões fazer conferências e tomar parte em colóquios. Tinha relações pessoais com Jorge Amado, Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, António Cândido, Celso Furtado, Cândido Mendes de Almeida, Fernando Henrique Cardoso, António Houaiss, José Aparecido de Oliveira, entre muitas outras personalidades.

Era agora o que não queria ser. Das últimas vezes que esteve no Rio convidaram – no para uma jantar, com políticos e intelectuais. Ali se encontrou com Roberto Marinho, o diretor e proprietário do jornal O Globo, da Televisão O Globo, da rádio CBN, do Globonews, do maior império da comunicação social não só do Brasil, mas também da América Latina. Marinho com noventa e muitos anos que pareciam robustos fazia confusões tremendas. Ao cumprimenta–lo, Soares logo ficou intrigado quando Marinho o interpelou: «Sabe alguma coisa daquele político português, muito simpático, parece – me que se chama Soares e que foi ou ainda é Presidente da Republica? Ele está bem? Se estiver com ele apresente – lhe os meus cumprimentos...»

Com o melhor dos sorrisos disse: «Está bem. Muito bem... Darei. Darei...» Ao contar- me o que se passara com Roberto Marinho disse – me: «Estou a avançar para os 80. Espero que isto não me aconteça. Seria um horror». Entre centenas de outras estórias, de um convívio de muitos anos, recordo – me deste episódio que o estarreceu. E agora nos choca. Profundamente. Basta evocar imagens da televisão, nas últimas aparições públicas. Deixou de ser quem era e do que sempre quis ser. Já estava ausente de tudo e ausente de si próprio.

Soares, tal e qual [texto revisto pelo autor] – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências, antigo aluno de Mário Soares no Colégio Moderno], jornal Expresso (online), 7 de Janeiro de 2017 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

domingo, 8 de janeiro de 2017

[SOBRE MÁRIO SOARES] A LITERATURA COMO ÍMAN DO MUNDO


O Íman do Mundo” – por José Manuel dos Santos, in Público [online]

“Soares achava que a literatura é o grande íman do mundo, tornando-o menos insuficiente, mais inteligível, menos opaco, mais incandescente. Era herdeiro de um ideia de literatura como imortalidade
Nos anos do fim, quando quase tudo nele deixava de ser o que fora, isso ainda lhe era um ponto de aplicação, onde, como Arquimedes, se apoiava para erguer o seu mundo. Depois da conversa na sala, levava ali os que o visitavam. Agora, estamos no escritório. Ele, com a mão incerta, aponta na estante as prateleiras dos livros que, desde jovem, foi publicando e diz: “Com uma vida tão atribulada, ainda consegui escrever alguns livros.” São uma centena, com as traduções. E há na sua voz um orgulho triste. Esse orgulho olha o passado e não o futuro, por saber que já não é possível acrescentar livros novos àquela longa fila deles.

Mário Soares viveu sempre rodeado de livros – os seus e os dos outros. Achava que ler e escrever é aquilo que distingue os homens dos outros animais. E é aquilo que distingue os homens uns dos outros. Olhava de lado, com um olhar de suspeita e troça, os políticos que não escreviam, que não sabiam escrever. Mesmo nos que escreviam, distinguia os que escreviam bem e os que escreviam mal. E um dos seus desdéns era pelos políticos que não liam, senão relatórios, nem escreviam, senão notas. “Aquele nunca leu um livro!”, dizia, com uma voz cheia de desprezo.

A grande razão que o levava a desagradar-se de ler relatórios não era, diferentemente do que se afirmava, a de que não lhe interessavam os assuntos de que os relatórios tratavam. Era porque os relatórios estavam quase sempre mal escritos: redigidos numa linguagem que diz em muitas e impróprias palavras o que poderia (e, achava ele, deveria) ser dito em poucas e exactas palavras. Então, preferia chamar o autor do relatório, olhá-lo nos olhos e fazer-lhe perguntas. Assim, o obrigava a falar claro e a dizer o que não tinha dito. Assim, o forçava a desfazer aquelas perífrases inclinadas e vazias. Assim, o levava a expor a sua ignorância dissimulada com lugares-comuns num inglês ingénuo e prepotente. Vi, várias vezes, muitos autores de relatórios entrarem no seu gabinete com um passo seguro e altivo – e saírem de lá com um passo vacilante e vencido.

Para Soares, um grande político é aquele que tenta coincidir com um grande escritor. Eram esses os que mais o fascinavam: Marco Aurélio, Frederico II, infante D. Pedro, João Pinto Ribeiro, D. Luís da Cunha, Mouzinho da Silveira, duque de Palmela, Passos Manuel, Disraeli, Jaurès, Clemenceau, Teófilo Braga, B.[asílio] Teles, J.[oão] Chagas, Teixeira Gomes, Afonso Costa, Blum, Azaña, De Gaulle, Churchill, Malraux, Senghor, Mendès France, Brandt, Mitterrand, Obama. E talvez fosse o gosto pela escrita a única coisa que ele absolvia no Salazar que condenava. Em Soares, “os dois corpos do rei”, de que fala o famoso ensaio de teologia política sobre a Idade Média, escrito por Ernst Kantorowicz, eram o corpo político e o corpo literário.

No livro em que reúne textos sobre escritores, a que deu o muito intencional e expressivo título de Incursões Literárias, escreve: “O meu pai que era um pedagogo nato, um homem que tinha o dom de conhecer as pessoas, sempre me aconselhou a ser escritor. Pretendia que eu tinha alguma facilidade para escrever e realmente tinha, talvez demasiada, penso hoje, para poder ter sido, alguma vez, um bom escritor. De qualquer modo, a literatura sempre me apaixonou. (…) É certo que sempre tive, talvez, uma visão literária da vida e das personagens romanescas ou não, que encontrei no meu caminho. Adquiri o hábito de inventar histórias, totalmente ficcionadas, de pessoas que conheci e, por esta ou aquela razão, me interessavam.” Em França ou na Grã-Bretanha, um auto-retrato tão discretamente indiscreto teria dado origem a  exegeses e a teses (há imensos livros sobre a relação de Churchill, De Gaulle ou Mitterrand com a escrita e a literatura). Aqui, ninguém deu por isso […]
 
 
[…] Soares achava que a literatura é o grande íman do mundo, tornando-o menos insuficiente, mais inteligível, menos opaco, mais incandescente. Era herdeiro de uma ideia da literatura como imortalidade. Costumava dizer: “Ninguém sabe quem são os primeiros-ministros do tempo do Eça, mas toda a gente sabe quem é o Eça.” Como os da sua geração, achava também que a literatura dá voz. E que é liberdade.

Um dos grandes prazeres que tinha na vida, além do de ler, era o de falar de livros e de escritores – sobretudo com escritores. No meio do tumulto político, viu-o passar horas a falar de Garrett ou Herculano, de Camilo ou Eça, de Antero ou O. Martins, de Ramalho ou Junqueiro, de Pessoa ou Pascoaes, de R. Brandão ou T. Gomes, de Miguéis ou Nemésio, com João Gaspar Simões (tinha muito orgulho na dedicatória cheia de admiração que Simões lhe fez na biografia de Pessoa), Agostinho da Silva (seu antigo explicador, com quem dava passeios de bicicleta a falar de filosofia, literatura, arte, cinema, numa espécie de “Educação do Príncipe”), Casais Monteiro, Maria Lamas, Palma-Ferreira (muito assíduo, muito imaginativo), Torga, V. Ferreira, Cesariny, Pacheco, Natália, David, Abelaira, Urbano, Sophia, Eugénio, O’Neill, Alçada, C. Oliveira, C. Pires, M. da Fonseca, Saramago, Agustina (num jantar memorável com Cela),  Alegre, Abranches Ferrão, Barradas de Carvalho, Joel Serrão, Piteira Santos, António Valdemar. Escutava segredos e intrigas com o sorriso encantado de quem sabia que a maledicência e a conspiração literárias ainda são mais insidiosas e mortíferas do que a má-língua e a maquinação políticas.

Se viajava, ou se algum escritor estrangeiro passava em Lisboa (vários vieram a seu convite, para o Balanço do Século, por exemplo), convidava-o para almoçar ou jantar: Borges, Bellow, le Carré, Eco, Cela, T. Ballester, Brodsky, Semprún, Rushdie, Milosz, H. M. Enzensberger, Soyinka, J. Amado, Vargas Llosa, Garcia Márquez, Octavio Paz e mais, muitos mais. 

Os seus serões eram cheios de política, de literatura, de história, de arte. O tempo passava e os nomes passavam com ele. Saltava-se de Eça para Zola, de R. Rolland para Orwell, de Sérgio para Abel Salazar, de B. Caraça para Martin du Gard, de Régio para Cortesão, de M. Godinho para Braudel, de L. Caballero para Lorca, de Churchill para Malraux, de Roosevelt para Hemingway, de Balzac para Delacroix, de Koestler para Gide, de Manuel Mendes para Soares dos Reis, de V. de Almeida para Ortega, de Steinbeck para Portinari, de S. Pereira Gomes para Pavia, de Aquilino para Almada, de Alberty para Tàpies, de Picasso para Camus, de Cesário para V. da Silva, de Columbano para Pessanha. Falava de escritores como se falasse da família – de uma outra família. Mesmo os que não tinha lido eram para ele parentes que não conhecia, mas que, ainda assim, não pertenciam menos à família. E, quando falávamos de um poeta, as palavras com que  falávamos eram atravessadas pela voz nítida e ardente de Maria Barroso a dizer-nos um poema, uma estrofe, um verso: “Floriram por engano as rosas bravas” (Pessanha); “Naquele piquenique de burguesas” (Cesário) ; “Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!“ (Pessoa / Álvaro de Campos); “Acusam-me de mágoa e desalento” (Carlos Oliveira); “Sob as mordaças/ calam-se as palavras” (J. Namorado). A noite avançava com lentidão rápida, e nós avançávamos com ela.

Outro dos seus contentamentos maiores era o de ouvir e de contar histórias. Aprendeu essa arte, refinada, maliciosa e encantatória, nas conversas quotidianas das tertúlias dos cafés que, desde jovem, frequentara, como era uso na época. Sabia histórias divertidíssimas e, em muitas delas, havia grandes ensinamentos para a política e para a vida. Tinha histórias íntimas e públicas, épicas e cómicas, passadas e presentes. Nelas, havia amores, conquistas, traições, ciladas, infidelidades, poderes, vaidades, aventuras, ridículos. E no seu contar havia diálogos, apartes, anedotas, trocadilhos, mímicas, gargalhadas. Para contar, usava a memória e a imaginação, o imprevisto e o suspense. Contava para fazer aparecer o que desaparecera, levado pelo tempo e pelo esquecimento. Contava com um ritmo seguro, uma cadência certa, um clímax súbito. Soares contava histórias e o fascínio por elas – e por ele – ia aumentando num crescendo glorioso. Um dos livros que, entre gargalhadas, prometia escrever – e nunca escreveu – era o dos funerais oficiais mais divertidos a que tinha assistido (Brejnev, Andropov, Tchernenko, Hirohito, Hassan II, uma cena com o príncipe Rainier no funeral do conde de Barcelona, no Escorial, etc.).

Na escrita, fazia o louvor e a defesa de um estilo clássico, ordenado, directo e claro, de firme precisão e de fria perfeição, que procurava praticar. Mas, por vezes, a sua escrita trocava a recta pela curva e ganhava as sinuosas, ardentes e deleitosas (esta podia ser uma palavra dele) digressões barrocas, com apostos e continuados sucessivos, ênfases e perífrases, vaivéns e ziguezagues, num movimento ondulatório, vibrante e voluptuoso, magnificado aqui e ali por um sopro romântico. Nos seus livros, há quase sempre reflexão e narrativa, argumentação e valoração, descrição e comentário, comemoração (comemorar- lembrar em comum) e predição (predizer  – dizer antes). O Portugal Amordaçado, o seu livro dos livros, é disso um exemplo e é nisso exemplar. Aí, a política está na vida e a vida está na política. E a vontade de liberdade está nas duas […]

[…] Um dos grandes gostos de Soares era o de ir a livrarias (tinha uma no prédio onde morava) e alfarrabistas. Visitava-os com avidez, com concupiscência, num desejo de satisfazer a sua logofilia, ou mesmo logofagia (como diria o seu amigo de infância D. Mourão-Ferreira). Comprava muitos livros, numa apropriação simbólica do saber. Cá ou lá fora, conhecia os lugares onde descobria o que lhe interessava. Adorava conversar com os livreiros (quando viveu em Paris, fundou, com outros exilados portugueses, uma livraria na Rue Gay-Lussac) e os alfarrabistas (quando era Presidente, teve uma conversa na televisão com o mais antigo deles, José Maria Almarjão). Os troféus de caça que gostava de exibir eram as compras de livros raros ou manuscritos dos autores que admirava. Lembro: as primeiras edições de Vieira, de Camilo, de Eça, de Pessoa, algumas com dedicatórias. Ou a edição original completa da Enciclopédia de Diderot e d’Alembert, ou a primeira edição de todo o Victor Hugo. Tinha um encadernador, que punha no primeiro lugar da hierarquia dos seus artistas-artesãos, seguido do barbeiro, do alfaiate e do jardineiro…

Quando viajava, Soares transportava uma pesada pasta com livros. Levava muitos para poder escolher bem. Escolher bem – escolher de acordo com a vontade do momento, com o interesse do dia, com o desejo da noite. Lia vários livros ao mesmo tempo, como alguém que assim fica com muitas mãos, muitos olhos e muitos pés para andar por caminhos longos e curtos, conhecidos e desconhecidos, variados e até opostos. Quando descobria um grande livro, esse passava a ser o grande assunto das suas conversas.
 
 
As suas casas foram sendo, a um ritmo crescente, ocupadas, sitiadas, devoradas pelos livros. A sua biblioteca, de dezenas de milhares de volumes, é reveladora dos seus interesses vastos e variados: política, literatura, história, ensaio, geografia, artes. Muitos desses livros têm dedicatórias dos autores, que mostrava com uma vaidade infantil. Como era conhecida a sua paixão, escritores e editores de todo o mundo lhos enviavam. Ao seu gabinete chegavam diariamente dezenas de volumes, ficando amontoados, pois não deixava que os levassem sem os ver e agradecer.

Se Soares vivia rodeado de livros, acrescentava às torres de Babel que o cercavam as revistas e os jornais, portugueses e estrangeiros, que todos os dias recebia numa abundância que exasperava quem queria mantar a sua casa arrumada, ordenada e habitável. Assisti a muitas fúrias de Adamastor num cabo das tormentas matinal, geradas por não encontrar os livros, as revistas ou os jornais que estava a ler ou que queria ler.

A leitura deles era, hegelianamente, a sua oração matinal de homem moderno. E era a sua primeira ocupação como político. Essa leitura, feita com atenção, cuidado e desvelo, inspirava-o, dava-lhe ideias, sugeria-lhe acções. Lia e tomava apontamentos nos seus cadernos e blocos. Dessas notas, mal chegava à Rua da Emenda (PS) , a S. Bento (primeiro-ministro), a Belém (Presidente da República), ou à fundação, fazia telefonemas, dava instruções, escrevia cartas, marcava encontros. Era com leitura que, todas as manhas, punha o mundo a girar.

Soares não deitava papéis fora. Guardou tudo, desde o princípio até ao fim da vida, e obrigava quem trabalhava com ele a guardar tudo. No final das reuniões, mandava recolher o que ficara sobre a mesa. O seu arquivo, depois acrescentado com outros arquivos muito importantes, é assim amplo e diverso. É um dos maiores arquivos da nossa história contemporânea.

Soares lia sempre: livros, jornais, revistas, catálogos. Soares escrevia sempre: livros (até há um romance inédito, escrito na prisão), discursos, artigos, prefácios, apontamentos. Como escrevia à mão (só houve um período, dos anos 60 para os 70, que escreveu à máquina), tinha no dedo um calo da caneta. Esse calo dava-lhe mais orgulho do que qualquer título, cargo ou diploma. 

Ao longo dos anos, foi enchendo de observações e reflexões cadernos íntimos que se foram somando e hoje estão, inéditos, no seu espólio. Um dia, se verá o que esse “diário” diz de uma vida tão longa e tão rica. Como estes cadernos provam, essa vida foi-se olhando a si-mesma no divino e demoníaco espelho da escrita. Os cadernos provam também que aquele Mário Soares extrovertido, ligeiro, espontâneo, intuitivo, inspirado, improvisador, impulsivo era completado por um Mário Soares introspectivo, profundo, reflectido, meditativo, prudente, metódico, aplicado, grave, que pesava os actos da sua vida na balança das palavras. D. Quixote e Sancho Pança ao mesmo tempo, Soares era, afinal, muito mais complexo, enigmático e indecifrável do que parecia e do que queria parecer. Este homem, que passou a vida a dar notícias de si, talvez tenha deixado na letra densa e sinuosa das palavras destes cadernos algumas notícias que não nos tenha dado. Pode ser que sejam as chaves de um mundo não imaginado. 

Há na palavra, no verbo, qualquer coisa de sagrado que nos impede de fazer dele um jogo de acaso. Manejar sabiamente uma língua é praticar uma espécie de feitiçaria evocatória”, diz Baudelaire. Para Mário Soares, ler e escrever dava-lhe a certeza de que podia haver sempre um dia seguinte. Um dia seguinte mesmo ao dia da sua morte

O íman do mundo [extracto] – por José Manuel dos Santos, jornal Público (online), 7 de Janeiro de 2017 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

SOARES 65, O ANÚNCIO DO LÍDER


 
"Soares 65, o anúncio do líder” – por António Valdemar, in Público
 
Em 1965, Mário Soares proferiu um discurso que foi um marco, uma fronteira na oposição e uma das componentes do processo que o 25 de Abril irá prosseguir e mudar o curso da História
Há tempo para viver e há tempo para morrer. A saúde cada vez mais precária de Mário Soares tinha-se agravado de modo implacável. Perdera a agilidade de movimentos. Extinguira-se o entusiasmo que lhe fervia nos olhos, se refletia na voz e lhe inundava o rosto. Sentia-se entre os escombros de um mundo que ajudara a construir. Ainda chegou a ter consciência da crise profunda que ameaça a Europa e se tem manifestado em Portugal. 
Depois, ficou reduzido a um espectro do que fora. Mas insistiu sempre em viver. Embora identificasse alguns amigos, estava cada vez mais frágil e mais ausente. O convívio, um dos seus maiores prazeres, passou a ser difícil. Queria citar um nome, referir um acontecimento, mas não conseguia. Faltavam-lhe as palavras que queria dizer. Ou, então, esquecera tudo e todos.
Mário Soares foi em Portugal o maior político da sua geração e do seu tempo. Dominou a segunda metade do século XX e, no início do século XXI, ainda continuou presente. Herdou do pai o vírus da política, o empenhamento na militância, o sentido do risco e a firmeza e vigor na ação para destituir Salazar e erradicar o salazarismo. Orgulhava-se do magistério de António Sérgio, Jaime Cortesão, Bento Caraça, Câmara Reis e Mário de Azevedo Gomes. Considerava-se discípulo, no ensino secundário de Álvaro Salema e Agostinho da Silva; e na universidade de Vieira de Almeida e de Magalhães Godinho. Este último prefaciou-lhe a primeira tese de licenciatura O Nacionalismo Político de Teófilo Braga recusada, por motivos ideológicos, por alguns professores do júri, na Faculdade de Letras de Lisboa.

Para a sua formação, também reconhecia a importância de Álvaro Cunhal, enquanto regente de uma sala de estudos do Colégio Moderno, ao concluir uma disciplina do antigo sétimo ano do liceu. Através dessas explicações criou uma relação direta com uma personalidade que o fascinou. Quando perguntei a Álvaro Cunhal, num encontro no Martinho da Arcada, qual o contributo intelectual e político que exercera em Mário Soares, respondeu-me com o seu humor corrosivo: “Nenhum. Só consegui ensinar-lhe as coordenadas celestes para um exame de Geografia. O dr. Mário Soares nunca conseguiu aprender comigo as coordenadas terrestres”…

A 14 de Dezembro de 1965, falecia Mário de Azevedo Gomes. Chefiava, na altura, a oposição ao salazarismo. A década de 60, a partir de Agosto de 1960, e com a morte de Jaime Cortesão, confrontou-nos com o progressivo desaparecimento das figuras paradigmáticas. O Diretório Democrato-Social  – bastante desativado – admitiu a hipótese de entregar a presidência a Cunha Leal, antigo ministro da I Republica.

Mas a primeira geração, formada na Seara Nova  – Manuel Mendes, Fernando Abranches Ferrão, António Macedo, Carlos Cal Brandão e outros –, não aceitava Cunha Leal. Perduravam os ecos de uma das mais contundentes polémicas de Raul Proença: o conflito entre os princípios e os interesses, o antagonismo entre as conveniências económicas, os valores morais e a ética politica.
 
 

É neste contexto que Mário Soares, no funeral de Mário de Azevedo Gomes, no cemitério dos Prazeres – onde irá agora repousar, transitoriamente, até lhe prestarem honras no Panteão Nacional –, proferiu um discurso que ficou a ser um marco na sua trajetória, uma fronteira na oposição e uma das componentes do processo que o 25 de Abril irá prosseguir e mudar o curso da História.

Estive lá como repórter do Diário de Notícias e como amigo e admirador de Azevedo Gomes, oriundo de famílias açorianas e, ele próprio, nascido na ilha Terceira. Recordo-me do que se passou e do que a Censura truncou e suprimiu. É um momento histórico da carreira política de Mário Soares. Talvez haja um registo no espólio de Igrejas Caeiro. Lembro-me de ter feito a gravação.

Ao usar da palavra, Mário Soares, num ambiente de apertada vigilância policial, falou acerca do futuro da oposição. E disse, perentoriamente, que, falecido Mário de Azevedo Gomes, líder indiscutível, não aceitariam outro líder que não fosse da geração do próprio Mário Soares.

O consenso foi significativo: na sua geração, na geração anterior, e, ainda, nos sobreviventes do grupo originário da Seara Nova e de alguns dos últimos civis e militares que implantaram a República. Afastava-se a hipótese de Cunha Leal suceder a Mário de Azevedo Gomes.

Era a oportunidade de a nova geração dar testemunho e de Mário Soares assumir o papel principal na liderança. Já conquistara protagonismo e visibilidade pública. Já concebera um projeto para Portugal. Assentava na República Moderna e na social-democracia europeia. A oposição passava a ter um rosto jovem. Ganhava maior amplitude e tornava-se mais eficaz.

Em numerosas circunstâncias Mário Soares demonstrara coragem, determinação e energia. Voltou a repetir sempre que necessário. Tinha o perfil adequado para as lutas a travar, à frente da oposição, dentro e fora do País. Estávamos em Dezembro de 1965. Pouco antes completara 41 anos. O discurso, naquele dia, no funeral de Azevedo Gomes, constituiu a afirmação e também o anúncio da grande liderança política nacional e internacional de Mário Soares.

Soares 65, o anúncio do líder – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências, antigo aluno de Mário Soares no Colégio Moderno], jornal Público (online), 7 de Janeiro de 2017 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

IN MEMORIAM DE MÁRIO SOARES. ATÉ SEMPRE!




 
Nos 80 anos de Mário Soares [nasceu a 7 de Dezembro de 1924] dissemos AQUI que Mário Soares era o “avô” que estimávamos ter. Que era um fiador da nossa liberdade (“mesmo que ela só proceda de nós”), um vigilante, um lutador orgulhoso da Res Pública. E que a luz alumiada do seu caminho (mesmo em tempos desditosos) lhe soube conceder sempre elevados estímulos de liberdade - seu fecundo hábito –, um sonhado mundo de fraternidade, em que os deveres cívicos republicanos e laicos cumpriam com vigor o seu dever. Por isso afirmamos: sempre o belo espírito de Mário Soares soube caminhar de rosto levantado, honrando a generosa tradição republicana, democrática e laica.

Em nome do Almanaque Republicano, e em meu nome pessoal, em testemunho da maior estima e respeito pela sua memória querida – que nos transborda a alma -, dizemos bem alto

Até Sempre, Mário Soares.

J.M.M.

sábado, 7 de janeiro de 2017

LIBERDADE, PÁTRIA E HONRA – JOSÉ ADELINO MALTEZ



EDIÇÃO: Chiado Editora, Dezembro 2016, 592 p.

Em Portugal, a Maçonaria teve profunda influência na construção do regime demoliberal da monarquia constitucional e da I República e ainda foi uma alavanca fundamental das parcelas das forças armadas não salazaristas do Vinte e Oito de Maio. A partir de 1935, foi legalmente extinta e efetivamente perseguida, retomando a sua atividade não clandestina depois de 1974, a partir de cerca de uma centena de irmãos que semearam a continuidade da tradição da Ordem. A regeneração da tradição demoliberal, a que a Maçonaria está profundamente ligada, não permitiu que a instituição clássica representada no Grande Oriente Lusitano e as novas obediências instituídas, sobretudo na década de noventa do século XX, pudessem ter influência moral equivalente ao que sempre sucedeu em regimes como os do Brasil, dos Estados Unidos da América, da França ou a Grã-Bretanha, cujas democracias são efectivas co-criações maçónicas” [AQUI]

“No caso da Maçonaria, que não é religião, nem mera ideologia, onde se vivem e revivem lendas, alegorias e símbolos, através de rituais conhecidos, é mais intensa e formalizada essa dimensão, até com a procura do próprio sagrado. Logo, ver de fora qualquer comunidade de coisas que se amam pode levar muitos a dizer que todas as cartas de amor são ridículas. Mas como dizia Fernando Pessoa, é bem mais ridículo não se escreverem cartas de amor. Ou não responder a uma entrevista sobre a matéria, só porque o interpelante tem manifestado óbvias divergências com as nossas conceções do mundo e da vida, mas talvez seja capaz de reconhecer que comete erros, tem dúvidas e pode enganar-se, até na listagem de inimigos públicos” [AQUI]



LANÇAMENTO NA SOCIEDADE DE GEOGRAFIA DE LISBOA

DIA: 9 de Janeiro (18,00 horas);
LOCAL:
Sociedade de Geografia de Lisboa (Rua das Portas de Santo Antão, 100), Lisboa;
ORADORES: Dr. Fernando Lima [Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa | Professor Doutor Jorge de Sá [ISCSP]

Trata-se da mais recente obra do professor José Adelino Maltez, no qual o autor reflete sobre a ação da Maçonaria em Portugal e o seu papel enquanto membro do Grande Oriente Lusitano” [AQUI]

J.M.M.

sábado, 31 de dezembro de 2016

VOTOS DE UM 2017 SOLIDÁRIO E FRATERNO



VOTOS DE UM 2017 SOLIDÁRIO E FRATERNO


“Muito é amar a liberdade e a igualdade; não há democracia onde quer que esse duplo amor não determine o ânimo dos cidadãos […] Mas estes nobres sentimentos são insuficientes, ainda assim. Uma alma não é verdadeiramente republicana, digamo-lo em definitivo, se nela não habitar outro sentimento; transcendental, de origem divina. É o da humanidade; ela estreita, por um laço mais intimo, a união dos cidadãos.

 [Sampaio Bruno, in O Encoberto]

Aos estimados leitores, amigos e companheiros deste itinerário da Alma Republicana, aceitai os nossos VOTOS de um 2017 Solidário, Próspero e Fraterno. Vale.

Saúde, Paz & Fraternidade

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

HISTORIOGRAFIA CONTEMPORÂNEA PORTUGUESA DE 2016 – A NOSSA ESCOLHA



HISTORIOGRAFIA CONTEMPORÂNEA PORTUGUESA DE 2016

1. A Primeira República na fronteira do liberalismo e da democracia - Miriam Halpern Pereira (Gradiva), 224 p. 
2. Dicionário de História de Portugal: o 25 de Abril (1º Vol)Maria Inácia Rezola, Paula Borges Santos, António Reis (Figueirinhas), 368 p.
3. Imprensa e I Guerra Mundial: censura e propaganda (1914-1918)Noémia Malva Novais (Caleidoscópio)
4. As Mulheres na Maçonaria em Portugal (1864-1950)Fernando Marques da Costa (Âncora Editora), 412 p. | Silêncio e Virtude. Uma História da Maçonaria Feminina em Portugal (1814-1996) – António Ventura (Temas e Debates), 382 p.
5. Fontismo. Liberalismo numa sociedade iliberalDavid Justino (D. Quixote), 472 p.
6. Manuel Teixeira Gomes. BiografiaJosé Alberto Quaresma (INCM/Museu da Presidência da República), 632 p.
7. Tomás da Fonseca. Missionário do Povo. Uma Biografia   – Luís Filipe Torgal (Antígona), 448 p.
8. Palma Inácio e o Assalto ao Banco de Portugal da Figueira da FozLuís Vaz (Âncora Editora), 360 p.
9. A Revolta do Leite. Madeira 1936 – João Abel de Freitas (Edições Colibri), 232 p. | Proteção e Direitos das Mulheres Trabalhadoras em Portugal (1880-1943)Virgínia do Rosário Baptista (ICS), 507 p.
10. A 2.ª Divisão Portuguesa na Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918) – Major Vasco de Carvalho (Liga dos Combatentes | Âncora Editora), 416 p.

A.A.B.M.
J.M.M.