sexta-feira, 27 de março de 2015

ATÉ SEMPRE DR. AMÉRICO CASEIRO [1947-2015]


Até Sempre Américo Caseiro [n. 27 Maio 1947 - m. 26 Março de 2015]

Só morremos de nós mesmos” [Herberto Helder]

Américo Caseiro partiu, ainda o sol não mostrava o brilho dos raios. Deixou-nos o tesouro da palavra, os nomes e rostos da claríssima luz, a ternura do tempo e da noite sem fim, o prazer e a rebelião da viagem, a lealdade fraternal, a requintada oferenda do “discurso do acordar e do adormecer” [A.C.]. Ele, que amou e viveu a vida, com radiante paixão, partiu (avançou) no seu próprio jogo. Pôs-se a caminho para urdir a sua própria sombra. E deixou-nos no nosso trivial remanso. 

À sua esposa, Mariana Alface, à sua estimada família e a todos os amigos, o nosso pesar. 

Ao Américo a eterna Saudade … e até Sempre!

Nota: o seu funeral segue hoje de Coimbra para o Crematório da Figueira da Foz, onde deverá chegar antes das 18 horas, desta sexta-feira.

Américo José Lopes Caseiro nasceu a 27 de Maio de 1947, na cidade de Coimbra, lugar que amava como poucos. Era filho de Adriano Maria Caseiro, escrivão e solicitador em Ansião e de Fernanda Godinho Lopes Caseiro

Cresci, único homem (o meu pai so chegava à noite), no seio de seis mulheres, a minha irmã muito conta como tal, e este facto traz as mais agradáveis consequências - a maior relevância para o meu pai, homem belo de 120 quilos, de humor afável e irritável, terno, dócil, violento, brutal incontestável - o meu ideal de beleza era ter 120 quilos e sentir-me belo e sedutor como em muitos dias reparei que se via” [cf. Américo J. L. Caseiro, Curriculum Vitae, 1982].

Fez a escola primária em Avelar, depois estudou no colégio de Ansião (onde frequentou brilhantemente a Biblioteca Itinerante da Gulbenkian e ali conheceu o Maia Alcoforado, “poeta, revolucionário civil”, republicano de têmpera, combatente contra a ditadura), passando depois para Coimbra para fazer o “complementar dos liceus” 

Em Coimbra, moço arribado ao liceu D. João III, conhece o “velho Gomes Jacobino” que lhe revela o caminho da biblioteca (vício nunca abandonado), encontra e percorre Freud e Nietzsche, deslumbra-se com Marx & Engels, invoca Camus, aparece-lhe Sartre. O coração alumia-se. Entra em 1964 para a Faculdade de Medicina da U.C. Três anos depois tem o seu primeiro casamento, de que resulta um filho encantador. Na candura de uma vida de estudo, de tentações de espelho e outros rendez-vous, foi “incapaz de passar os Arcos do Jardim” e “subir acima da Almedina”: quatro anos de “dedicação exclusiva do prazer doutras matérias” (o “sítio do pica-pau amarelo”). Licencia-se aos 27 anos. De permeio esteve “em todas as lutas de estudantes e nas outras”, ali, vertical, com o Alfredo Misarela, o Joaquim Namorado, o Orlando de Carvalho, Lousã Henriques, outros mais.    


O acordar da noite ensinou-o a gostar de Resnais, Fellini, Bergman & tantos outros (o dr. Orlando adornava o alvoroço), enfaixa-se em Lacan em seminários no café Tropical e na Brasileira, Levi-straussa na baixinha em passeatas peripatéticas. A vontade de saber escorre-lhe interminavelmente. Foucault ilumina-o, tal como o vinho e o tabaco com que teorizava e vigiava. Althusser identifica-lhe os “órfãos teóricos” (os do sem pai teórico). Deuleuze & Guattari, empresta-lhes o inevitável. A psiquiatria – que pratica, usa e abusa - é para ele como a escrita de Leonardo, “para ser lida ao espelho” [A.C.]. Esteve no serviço médico à periferia (Soure, Manteigas), transita para a Clínica Psiquiátrica dos HUC (1979), faz-se exímio na profissão, (re)constrói o (im)possível. Com inquietação, mas solidamente.

O dr. Américo Caseiro, “o passáro sarapintado”, era um eterno apaixonado. Da literatura (Joyce, Thomas Mann, Dostoievski, os clássicos sempre presentes, com pontualidade e zelo), da música (que não aprendeu com “grande arrependimento e mágoa"), do cinema e teatro, tudo o movia, sempre numa respiração insubordinada, que a outros transmitia. Das suas últimas paixões deve-se referir o seu aprofundado estudo & os seus apontamentos sobre o “Cão de Parar”, espaço de “conversação e do elogio do cão”, por nós (re)escrito a partir da narrativa assombrosa e encantadora do Mestre Caseiro.      
      
O “pássaro sarapintado” morreu porque muito amou. 

Na madrugada de 26 de Março de 2015, com toda a serenidade. 

Até sempre, dr. Américo Caseiro.

[José Manuel Martins - publicado também no Almocreve das Petas e no O Cão de Parar]

quinta-feira, 26 de março de 2015

CONFERÊNCIA – TEOSOFIA E MAÇONARIA


CONFERÊNCIA: "Teosofia e Maçonaria

ORADOR: dr. Vítor Quelhas;

DIA: 27 de Março 2015 (19,00 horas);
LOCAL: Grémio Lusitano [Rua do Grémio Lusitano, 25, Lisboa];
ORGANIZAÇÃO: Museu Maçónico Português [Ciclo “Sextas da Arte Real”]

“Teosofia, do grego, significa, literalmente, “conhecimento de Deus”, não de um Deus externo ao Homem, mas do divino no Homem, vivido e autorrealizado por experiência directa, sem a mediação de figuras de autoridade “espiritual”, supostamente iluminadas, ou de doutrinas ditas reveladas, dogmáticas e sectárias.

Embora seja o substrato de todos os sistemas iniciáticos e de todas as grandes religiões e filosofias geradoras de sabedoria do mundo, tanto ocidentais como orientais, portanto uma sageza ensinada e praticada desde o início da humanidade pensante, não se confunde nem se pode confundir com nenhum deles.

A sua natureza é um corpus de saber e de prática autónomos, e primordiais, cuidadosamente guardado e transmitido por teósofos, ou conhecedores de Deus, em todas as épocas, e não se deve confundir, tal como não se pode confundir com religiões e filosofias, com doutrinas e sistemas iniciáticos, esotéricos e ocultistas que se manifestam pontualmente nas várias culturas do planeta.

Por ser ponto de convergência de saberes e práticas da Teosofia universal, sob a forma de uma linguagem e de uma simbólica iniciáticas, a Maçonaria pode considerar-se como uma das herdeiras modernas dessa Teosofia perene, pelo que importa saber qual é a relação entre ambas.   

O termo Teosofia aparece no terceiro século da nossa era, associado a Amónio Sacas, pai do Neoplatonismo (síntese do platonismo com a sageza iniciática egípcia e judaica) e tem um seu equivalente, na gnose hindu, sob a designação de Brahma-Vidya (ou ciência de Deus), mas o conceito e a sua prática são muito mais antigos. Modernamente está identificado com Helena Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica, em 1875, e ao revivalismo maçónico dos séculos XIX e XX, a que a Teosofia contemporânea não é de modo algum estranha.

Como Ordem do Átrio, como referia Fernando Pessoa, procurar-se-á analisar até que ponto a Maçonaria se pode considerar como uma das herdeiras modernas da Teosofia perene.

Se no decurso do século XVIII, se assistiu à transição de uma fase pós-operativa, na qual os trabalhos das Lojas constituíam apenas formas de sociabilidade, para um estádio verdadeiramente iniciático, em que as cerimónias dão corpo à vivência de psicodramas fundados em mitos de conteúdo intemporal, os rituais continuaram a sofrer evoluções posteriores, adaptando-se aos novos paradigmas, que foram entretanto surgindo.

Nos finais do séc. XVIII a aristocracia a as classes intelectuais rendem-se ao deslumbramento da descoberta do universo maçónico e revestem-na de novas roupagens simbólicas e toda uma estrutura de graus que são posteriormente ordenados e  devidamente estruturados ao longo do séc. XIX e início do séc. XX.

São estes os aspectos que se pretende aprofundar e discutir na presente conferência.

Contando com a vossa participação, apresentamos os nossos cumprimentos"

[Fernando Castel-Branco Sacramento - Director do MuseuMaçónico Português]

J.M.M.

QUOTIDIANOS PORTUENSES EM CONTEXTO DE GUERRA

Inicia-se amanhã, 27 de Março de 2015, pelas 17.30h, no Arquivo Distrital do Porto a mostra com o título em epígrafe. 

Para contextualizar a mostra realiza-se uma conferência sobre o tema, com Joel Cleto, Manuel de Sousa e José Augusto Maia Marques, tendo por moderador na sessão Sérgio Veludo Coelho. Esta inicitativa resulta da colaboração entre o Instituto Politécnico do Porto, a Associação de Amigos do Arquivo Distrital do Porto e o Arquivo Distrital do Porto.

Pode ler-se na nota de divulgação do evento:


Realiza-se no próximo dia 27 de março (sexta-feira), a partir das 17h30, a inauguração de uma mostra documental e uma conferência subordinadas ao tema “Quotidianos Portuenses em contexto de Guerra – ano 1915”, com a moderação de Sérgio Veludo Coelho e a participação, enquanto oradores, de Joel Cleto, Manuel de Sousa e José Augusto Maia Marques.
A iniciativa pretende assinalar o centenário da Primeira Guerra Mundial, que decorreu de 28 de julho de 1914 até 11 de novembro de 1918, e resulta da colaboração entre o Instituto Politécnico do Porto, Arquivo Distrital do Porto e Associação de Amigos do Arquivo Distrital do Porto. 
A mostra decorre do trabalho desenvolvido pela aluna Joana Soares da Escola Superior de Educação, em contexto de estágio curricular realizado no ADP, e estará patente ao público até 10 de abril, entre as 9h30 e as 17h00, de segunda a sexta-feira.
Excecionalmente, a mostra poderá ainda ser visitada no dia 28 de março (sábado), entre as 10h00 e as 16h30, na sequência da participação do ADP nas comemorações do Dia Nacional dos Centros Históricos. A entrada é livre.


Com os votos do maior sucesso para esta iniciativa.

A.A.B.M.

VIDAS COM SENTIDO: Luís Dias Amado


CONFERÊNCIA:"LUÍS DIAS AMADO” (1901-1981) [do ciclo “Vidas com Sentido"];

DIA: 26 de Março 2015 (18,00 horas);
LOCALAuditório da Fundação Mário Soares (Rua de S. Bento, 160, Lisboa);
ORGANIZAÇÃO: Fundação Mário Soares;

ORADORESMário Soares | Luís Farinha 

“Homens e Mulheres que pelos seus ideais, pela sua postura cívica e política, pelos seus combates, souberam dar sentido às suas vidas e, embora já falecidos, permanecem como exemplos. A Fundação Mário Soares dedica um ciclo de conferências e debates a essas figuras da nossa cidadania democrática, prestando-lhes homenagem. A trigésima quarta conferência do ciclo "Vidas com Sentido" é dedicada a Luís Dias Amado”

LUÍS DIAS AMADO [18901-1981] foi já, por nós, AQUI [PARTE I | PARTE II | PARTE III], averbado, com uma anotação sobre a sua prestimosa figura de republicano e de resistente à ditadura.
J.M.M.

terça-feira, 24 de março de 2015

O ORPHEU E A SUA CIRCUNSTÂNCIA


O Orpheu e a sua circunstância” – por António Valdemar, in jornal Público

A revista Orpheu abriu novos caminhos na literatura portuguesa, permitindo questionar o homem e os seus abismos e levar a limites desconhecidos a invenção da escrita e da palavra.

Para vários capítulos da História, desde a cultura à politica, 1915 representou o ano de tudo o que era previsível e imprevisível: pulsões revolucionárias e turbulências contrarrevolucionárias, o restabelecimento das estruturas democráticas da República, o lançamento de uma política atlântica, de cooperação política e cultural com o Brasil.

Foi, ainda, ano do aparecimento da revista Orpheu – cujo centenário principia hoje a ser comemorado em numerosas instituições – que deu lugar à irradiação de uma nova poesia portuguesa e, ao mesmo tempo, à construção de uma nova língua portuguesa. Deve-se, fundamentalmente, a Fernando Pessoa, através de Álvaro de Campos, com a Ode Triunfal e a Ode Marítima. Também se deve a Almada Negreiros, não com os Frizos, publicados no Orpheu 1 – as garras e as asas de Almada ganharam folego e amplitude no Manifesto Anti-Dantas, na Cena do Ódio e na Engomadeira. Todos escritos em 1915.

Os cinco primeiros meses de 1915 podem considerar-se dos mais terríveis no percurso da Primeira República, tão fértil em incidentes, conflitos e revoltas que provocaram, em Maio de 1926, o fim do regime, com uma outra ditadura que só terminará com o 25 de Abril de 1974. Os últimos dias de Janeiro de 1915 acentuaram o fantasma da I Grande Guerra Mundial (1914-1918), os primeiros mortos em África (antes da tragédia da Flandres), a divisão de opiniões acerca da participação no conflito: os que sustentavam a fidelidade à Grã-Bretanha e as exigências da secular aliança luso-britânica; os que se pronunciavam a favor da neutralidade; e a erupção de sentimentos germanófilos.

Ainda não se tinham apagado os efeitos das incursões monárquicas de 1911 e 1912, no Norte do país, nomeadamente em Chaves, persistia o objetivo da restauração monárquica: intrigas e conspirações para ataques à República, já reconhecida por todos os Governos do mundo. A arrancada do grupo do Integralismo Lusitano recuperava o pensamento contrarrevolucionário, em revistas e jornais próprios e no auge dos conflitos militares e políticos, um ciclo de conferências na Liga Naval, em Lisboa.

Houve, também, no campo dos republicanos, oposições dilacerantes. Agravaram-se as querelas que fragmentaram a maçonaria, o Grande Oriente Lusitano Unido, liderado por Magalhães Lima, dando origem a outra obediência, o Grémio Luso-Escocês, dirigido pelo general Ferreira de Castro. Saíram do Grande Oriente lojas de todo o país. A dissidência envolveu muitos civis e militares dos partidos Evolucionista, de António José de Almeida, Unionista, de Brito Camacho, e do próprio Partido Democrático, de Afonso Costa.

O Movimento das Espadas, em 20 de Janeiro de 1915, foi o rastilho das muitas contestações. Manuel de Arriaga chamou o general Pimenta de Castro para formar um Governo que seria a primeira ditadura na República. Parlamento encerrado, adiamento de eleições, saneamento de altos quadros da função pública. Censura nos órgãos de comunicação social.

Entretanto, registou-se, a 14 de Maio, a mais sangrenta das revoluções da I República, 24 horas de fogo cerrado, mais de 100 mortos e mais de 1000 feridos em estado grave só em Lisboa. Houve a queda do Governo presidido por Pimenta de Castro, a renúncia de Arriaga; o regresso de Teófilo Braga à chefia do Estado, até se efetuarem eleições, para repor a Constituição de 1911 e consolidar os fundamentos do regime.

À margem desta agitação partidária, que se estendeu de norte a sul do país, acentuando todas as incógnitas, todos os pressentimentos, todas as fatalidades, a 25 de Março de 1915, precisamente há 100 anos, concluiu-se na Tipografia do Comércio, na Rua da Oliveira, ao Carmo, e para ser posto à venda, em Lisboa, no dia seguinte, a 26 de Março, o Orpheu 1. Também na mesma tipografia, será composto e impresso, em Junho de 1915, o Orpheu 2. Várias tendências literárias e estéticas avultam na diversificada e heterogenia colaboração de Fernando Pessoa (e Álvaro de Campos), Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Alfredo Guisado, Luís de Montalvor, José Pacheko, Raul Leal, Armando Côrtes-Rodrigues, (Violante de Cysneiros), Santa-Rita Pintor e, ainda, de dois poetas brasileiros, Ronald de Carvalho e Eduardo Guimarães. Sem escrever uma linha, António Ferro foi o editor.

Entre a publicação e o lançamento do Orpheu 1 e do Orpheu 2 ocorreu uma cisão no grupo que se refletiu nas relações pessoais dos diretores e colaboradores da revista. Fernando Pessoa, através do heterónimo Álvaro de Campos, dirigiu uma provocação sibilina a Afonso Costa, que considerava um feroz e detestável adversário. Afonso Costa estava hospitalizado e era objeto de contínuas provas de solidariedade. (Júlio Dantas chorou, na sua crónica semanal, na Ilustração Portuguesa). Afonso Costa saltara de um elétrico, em andamento, julgando que era uma bomba. Sofreu graves ferimentos. Álvaro de Campos, em declaração publicada n'A Capital, insinuou com ironia perversa: “Numa hora tão deliciosamente mecânica, a própria Providência Divina serve-se dos carros eléctricos para os seus Altos Ensinamentos”.

Numa carta aberta, no jornal O Mundo, Alfredo Guisado e António Ferro, ambos republicanos, ambos do Partido Democrático de Afonso Costa, repudiaram o comentário de Álvaro de Campos. Deixaram de colaborar no Orpheu. Também se demarcou Mário de Sá-Carneiro e, em especial, Almada Negreiros. Apesar de católico praticante, monárquico assumido e muitos anos aluno interno do Colégio de Campolide dos Jesuítas, Almada deslocou-se, pessoalmente, a 7 de Julho de 1915, à redação d’A Capital para esclarecer que a frase de Álvaro de Campos resultara de “manifesto estado de embriaguez”. Foi a primeira alusão pública ao alcoolismo de Pessoa, antes da fotografia a “decilitrar” na taberna de Abel Pereira da Fonseca.

Três nomes do Orpheu vão evidenciar-se e definir o futuro: Fernando Pessoa (ortónimo e heterónimo), Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros. A política democrática e, mais tarde, o anti-salazarismo militante de Alfredo Guisado afetou-lhe a criação poética. Mesmo assim, Alfredo Guisado, “o mais injustamente esquecido poeta do Orpheu” no entender de Óscar Lopes e Vitorino Nemésio (Jornal do Observador), foi, na época, o que teve maior aceitação, influenciando os primórdios, por exemplo, de Cabral do Nascimento e José Gomes Ferreira.

Poetas e intelectuais das gerações seguintes acusaram o forte impacto causado pelo Orpheu, sobretudo por Fernando Pessoa e os seus heterónimos. E, cada vez mais, traduzido em todo o mundo, o semi-heterónimo Bernardo Soares do Livro do Desassossego. Ficamos a “ler o que nunca foi escrito” para mencionar Hofmannsthal, uma frase citada e aplaudida por Walter Benjamim.

O Orpheu projetou-se no grupo e na geração da Presença, nos Surrealistas, nos neorrealistas, nos Cadernos de Poesia e em sucessivos outros movimentos literários até aos nossos dias. Através de, apenas, dois números da revista Orpheu abriram-se caminhos surpreendentes na literatura portuguesa. O Orpheu permitiu questionar o homem e os seus abismos. Perder-se e encontrar-se nos labirintos. Criar novos imaginários. Levar a limites desconhecidos a invenção da escrita e da palavra”.

O Orpheu e a sua circunstância – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Academia das Ciências], jornal Público, 24de Março de 2015, p.46 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

IN MEMORIAM DE HERBERTO HELDER

 
 
Herberto Helder de Oliveira [n. 23 Novembro 1930 - m. 23 Março de 2015]
 
"Amo devagar os amigos que são tristes
com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem
e estão sentados,
fechando os olhos,
com os livros atrás a arder
para toda a eternidade.
 
 Não os chamo,
e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De Paixão"
  
[Herberto Helder, "Aos Amigos"]
 
FOTOAlfredo Cunha, com a devida vénia
 
J.M.M.


segunda-feira, 23 de março de 2015

WORKSHOP – A HISTÓRIA DA MAÇONARIA



DIA: 28 de Março 2015 (15,00 horas - 19,00 horas);

FORMADOR: Francisco Carromeu [Doutorado em Estudos Portugueses, UNL];

LOCAL: Rua Alfredo Magalhães, 46, 6º (Porto);

DESTINATÁRIOS: Pessoas interessadas na temática;
OBJECTIVOS: Compreender como a Maçonaria é fundadora das instituições modernas democrática;

INSCRIÇÕES: geral@gbliss.pt
PARCEIROS: Chance Academy.


J.M.M.

CONFERÊNCIA – ORPHEU 100 ANOS DEPOIS. A GRANDE MUDANÇA NA LITERATURA

 


CONFERÊNCIA: ORPHEU 100 ANOS DEPOIS. A GRANDE MUDANÇA NA LITERATURA

DIA: 25 de Março 2015 (18,00 horas);
LOCAL: Biblioteca-Museu República e Resistência (Rua Alberto de Sousa, 10 A, Lisboa
 
ORADOR: António Valdemar (jornalista, investigador e Membro da Academida das Ciências) | Imagens: Álvaro Carrilho;
 
 
"A Biblioteca-Museu República e Resistência (Rua Alberto de Sousa), vai comemorar o Centésimo Aniversário da revista Orpheu com a conferência "Orpheu - 100 Anos Depois. A Grande Mudança na Literatura", pelo investigador e jornalista António Valdemar." [AQUI]
 

 
ORPHEU. Revista Trimestral de literatura. Portugal e Brazil – Ano I, nº1 (Janeiro/Fevereiro/Março de 1915) ao Ano I, nº2 (Abril/Maio/Junho de 1915); Propriedade: Orpheu, Lda; Editor: António Ferro; Direcção: Luís de Montalvor (Lisboa e Ronald de Carvlho (Brasil) [no nº 2, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro]; Redacção: Rua do Ouro, 190-192 (Livraria Brazileira); Impressão: Tipografia do Commercio, 10, Rua da Oliveira (ao Carmo), Lisboa.
 
[a revista saiu a público no dia 25 de Março de 1915, com uma tiragem inicial de 100 expls; o seu segundo número sai a lume no dia 28 de Junho desse ano. O Orpheu 3 nunca viu a luz do dia, existindo, porém, algum trabalho compilado, que, curiosamente, foi encontrado (e completado) pelo poeta Alberto de Serpa ao longo do tempo – ver AQUI. Refira-se que a revista era paga com dinheiro proveniente do pai de Mário de Sá-Carneiro. Este suicida-se a 26 de Abril de 1916]

[Alguma] Colaboração/textos assinados: Alfredo Pedro Guisado, Álvaro de Campos (F. P.), Ângelo de Lima, Armando Cortes-Rodrigues, Eduardo Guimarães, Fernando Pessoa, José de Almada-Negreiros, José Pacheco (ilustração da capa do 1º num), Luís de Montalvor, Mário de Sá-Carneiro, Raul Leal, Ronaldo de Carvalho, Santa Rita Pintor, Violante Cysneiros [aliás Armando Cortes-Rodrigues].

J.M.M.

sábado, 21 de março de 2015

RECORDAR JOAQUIM NAMORADO


Recordar Joaquim Namorado” – por Mário Vale Lima, in Público

Sou natural de Alter do Chão, terra de cavalos, que é um privilégio num país de burros” - esclarecia Joaquim Namorado quando o julgavam beirão radicado em Coimbra.
A sua biografia confunde-se com a da Vértice - revista do racionalismo moderno, eufemismo de revista de estudos marxistas, que desde o início, em 1942, se tornou um órgão de divulgação do neo-realismo, conceito estético-literário por ele introduzido em Portugal e que desempenhou um papel relevante na resistência intelectual e política à ditadura.
No centenário do seu nascimento decorre, até 07.06.15, no museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira uma exposição evocativa deste professor de matemática, poeta e militante comunista que, citando o precioso catálogo, abraçou cedo “a grande aventura humana dos tempos modernos, o combate pelo comunismo (…)” aderindo ao PCP em 1935 e cuja visita é imperdível para quem viveu na ancestral cidade universitária as últimas décadas anteriores à democracia onde ele era a figura intelectual tutelar.

Foi ainda editado um opúsculo da autoria de Jaime Ferreira, amigo leal até à sua morte, em 1984, com o inventivo título O herói no “Neo-realismo mágico”.
 
 
A exposição inicia-se com uma foto que cria a subliminal ilusão de o vermos naquela “Coimbra irrepetível (…) onde a Praça da República era, nos anos sessenta e nos começos da década seguinte, o local mais importante do mundo (…), rivalizava com a Vermelha, a de S. Pedro, a da Concorde (…) e nela a figura de Namorado, constantemente vigiado pela PIDE, marcou de forma indelével, sucessivas gerações de rebeldia”. O opúsculo, donde cito, lembra-me no rol dos membros da redacção da Vértice e suas reuniões infalivelmente semanais e o usufruto da contínua recepção de livros e dois semanários sonegadas pela censura – Cuadernos para el Diálogo e Triunfo – arautos dos ideais democráticos.
A guerra civil de Espanha “(…) aqui ao lado, vivida dia-a-dia, e hora-a-hora (…). As notícias dos fuzilamentos, as aldeias destruídas (…). E o “non pasarán! (…)” foi um marco histórico caro a Namorado. Nesse monstruoso conflito bélico, que segundo José Gomes Ferreiraentrou em forma de tempestade pelas casas dos poetas dentro” e onde combateram mais de mil portugueses em ambos os lados da contenda, Salazar teve um papel conspirador decisivo, pois aí se jogou a sobrevivência do Estado Novo. Essa epopeia trágica deixou-nos marcas tão duradoiras que, ainda nos anos 70, Guernika era uma bandeira antifascista e “Ay Carmela!” um hino de nostalgia insubmissa cantado nas manifestações
São vários os textos de Namorado sobre o tema, dentre os quais se releva Vida e Obra de Federico García Lorca e o prefácio à antologia A Guerra Civil de Espanha na Poesia Portuguesa.

Em 1938 conheceu a primeira das prisões. Em 1949/50, fugiu a uma vaga repressiva da PIDE, e teve em Perelhal (Barcelos) um dos seus refúgios, à guarda do Padre Sá Pereira, monárquico e combatente da Monarquia do Norte que, tornado entretanto Presidente da Câmara de Esposende, o disfarçou de “fiscal de obras”. Nessa página conhecida de poucos, embora anticlerical, lembrava, comovido, aquele padre.

Percorre-se a exposição ao som das Heróicas de Lopes Graça até a esta citação de Namorado em 1982: “O estalinismo só é um problema para os anti-comunistas”. Mário Dionísio, “seu companheiro desde o início do mundo”, não cria nisso. O Joaquim era um fingidor. Mas ao contrário de Neruda (“…a terra encheu-se dos teus castigos/ e em cada jardim havia um enforcado…”), nunca criticou Estaline mantendo-se, sem tergiversar, fiel à orientação estalinista imputada ao PCP. A exposição não dá pistas do porquê, então, deste intelectual de capote alentejano, ímpar bagagem de conhecimento e décadas de combate, nunca ter tido lugar relevante no partido.


Continuava, após o 25 de Abril, tonitruante à mesa do Tropical ameaçando com pragas, purgas e fuzilamentos.

Até que em 1981, numa noite de inverno, a redacção da Vértice o conduziu ao afastamento da direcção que lhe pertenceu desde muitos anos antes e onde, diria Mário Dionísio, “queimou a vida quase toda”.

Quer a exposição quer o opúsculo omitem essas horas do “herói do neo-realismo mágico” que se adivinham lúgubres como as de Aureliano Buendia em frente ao pelotão de fuzilamento recordando a tarde remota em que seu pai o levou a conhecer o gelo.

Alguns enigmas da história do poeta de Incomodidade terão ido no caixão coberto com a bandeira do partido"

Recordar Joaquim Namorado – por Mário Vale Lima [médico], jornal Público, 21 de Março de2015, p.53 – com sublinhados nossos.
 
 
J.M.M.

quinta-feira, 19 de março de 2015

"A MAÇONARIA E A I REPÚBLICA": CONFERÊNCIA EM SÃO BRÁS DE ALPORTEL

Realiza-se amanhã, 20 de Março de 2015, no Auditório da Escola EB 23 Poeta Bernardo de Passos, pelas 18 horas, no âmbito do Ciclo de Conferências do Centenário.

Aproveitando a realização da Feira do Livro em São Brás de Alportel, o Professor Doutor António Ventura aproveita também para fazer a apresentação da Uma História da Maçonaria em Portugal, na região e a sua influência na criação do concelho em 1914. Lembrando que o triângulo de São Brás de Alportel, nº 189, era composto por Júlio César Rosalis, João Rosa Beatriz, Virgílio Joaquim Rodrigues de Passos, João de Sousa Uva e Ventura Coelho Vilhena, todos eles figuras importantes na fundação do concelho e na região, onde desempenharam diversas funções de relevo, desde presidentes de câmara, governadores civis e deputados.

Uma iniciativa que se divulga com os votos do maior sucesso.

A.A.B.M.

quarta-feira, 18 de março de 2015

CONFERÊNCIA – JOSÉ GOMES FERREIRA, UM “POETA MILITANTE” DA HISTÓRIA E DA LITERATURA

 

CONFERÊNCIA: José Gomes Ferreira, um “poeta militante” da História e da Literatura;

DIA: 18 de Março 2015 (19,00 horas);
ORADORA: Paula Morão [professora da FLUL];
LOCAL: Escola Oficina nº1 (Largo da Graça, 58, Lisboa);
 
ORGANIZAÇÃO: Instituto Português de Estudos Maçónicos [CicloConstrutores do país que somos”].
 
O Instituto Português de Estudos Maçónicos leva a cabo um ciclo de Conferências (mensais), em que se propõe “divulgar algumas personalidades portuguesas que, sendo maçons, se destacaram em diversas áreas” [A. Ventura, AQUI] e saberes, justamente intitulado “Construtores do País que somos”.
 
O ciclo inicia-se no próximo dia 18 de Março com a figura do poeta, escritor [mas também advogado, cineasta (com o nome de Álvaro Gomes), cônsul, jornalista e … um memorialista bem curioso – leia-se, entre outras obras, “A Memória das Palavras” ou a “Revolução Necessária”] e opositor ao Estado Novo [depois de ter começado na Liga da Mocidade Republicana e de ter pertencido ao Batalhão Académico Republicano, de ter lutado contra o Sidonismo, faz parte do MUD e, posteriormente, filia-se no PCP], José Gomes Ferreira [n. 9 de Junho de 1900- m. 8 de Fevereiro de 1985], ou o Irmão Dostoievski, iniciado a 3 de Fevereiro de 1923 na Loja Renascença, de Lisboa, no GOLU.
 
Refira-se que José Gomes Ferreira era filho de Alexandre Ferreira, “mestre das virtudes republicanas” [cf. JGF], eloquente e generoso republicano, filiado no PRP, vereador da Câmara Municipal de Lisboa em 1916 (pertencendo a várias vereações), deputado (1925-1926), gerente comercial e com uma profunda ligação aos Inválidos do Comércio (que funda em 1929), com dedicada obra no mutualismo e associativismo [veja-se o seu trabalho na/pela Universidade Livre (1911), de onde foi seu Presidente, na organização do Congresso Nacional de Educação (1922), ou, até, como presidente da Academia de Amadores de Música, no Lisboa Ginásio Clube, no trabalho nas Bibliotecas Móveis Infantis para as Escolas Primárias,], foi ele mesmo maçon, tendo sido iniciado na Loja Montanha (de Lisboa), em 1905, com o n.s. de “Verdade”.
 
J.M.M.

segunda-feira, 16 de março de 2015

CONFERÊNCIA/EVOCAÇÃO – OS DIVODIGNOS E AS GUERRAS LIBERAIS

 

CONFERÊNCIA: "Os Divodignos e as Guerras Liberais”;
ORADOR: dr. Luís Reis Torgal [Faculdade de Letras da Univ. de Coimbra]

DIA: 18 de Março 2015 (18,00 horas);
LOCAL: Casa da Escrita (Rua Dr. João Jacinto, nº 8, Sé Nova - Coimbra);

ORGANIZAÇÃO: Pró-Associação 8 de Maio, A.A.C., Ateneu de Coimbra;
 
NOTA: pelas 19,00 horas seguir-se-á uma cerimónia dodescerramento de placa toponímica”, justamente na Rua do Loureiro [local onde os Divodignos faziam as sua reuniões, ou como nos diz Joaquim Martins de Carvalho, “em umas casas pequenas do lado esquerdo logo acima do Arco de D. Jacintha” – in Apontamentos para a História Contemporânea, p. 93]   

[ANOTAÇÃO SOBRE] "A Sociedade dos Divodignos" [Divodigus] ou Divodis (1828) - Era composta, na quase totalidade, por estudantes liberais - o seu presidente era Francisco Cesario Rodrigues Moacho -, e de onde saíram os estudantes que participaram nos assassinatos e ferimentos aos lentes e cónegos [Jeronymo Joaquim de Figueiredo e Mattheus de Sousa Coutinho, foram os lentes mortos], no dia 18 de Março de 1828, além de Condeixa [sítio do Cartaxinho]. Tinham as reuniões na Rua do Loureiro, em umas casas pequenas do lado esquerdo logo acima do Arco de D. Jacintha" [in, Apontamentos para a História Contemporânea, p. 93]. Tinham os Divodignos "uma constituição, uma lei orgânica, que prescrevia a obrigação de actos violentos, e nestes, até o assassinato" [cf. Alberto de Sousa Lamy, in A Academia de Coimbra 1537-1990]

Segundo um elemento pertencendo à sociedade [conta Joaquim Martins de Carvalho] faziam os Divodigus as assembleias num casarão quase subterrâneo, sito nos Palácios Confusos. Foi, aí, que se resolveu a trama de Condeixa, isto é, o cumprimento da deliberação de tirar do caminho de Lisboa os "membros das duas deputações " que levavam felicitações ao rei d. Miguel.

Assistiram a essa sessão dos Divodignos, 200 académicos liberais, tendo sido sorteados 13 deles para o cumprimento da missão. Segundo Joaquim Martins de Carvalho [op. cit], os membros dos Divodignos que "desfecharam as armas" foram: Delfino Antonio de Miranda e Mattos [de Barcelos], Bento Adjuto Soares Couceiro e Antonio Correia Megre.

Perante a descoberta ocasional do crime ocorreram populares e uma força de Cavalaria, que ali passava, pondo em debandada os Divodignos. Foram presos e enforcados [cf. Joaquim de Carvalho, op. cit, p. 96] nove deles [Bento Adjuto Soares Couceiro, Delfino Antonio de Miranda e Mattos, Antonio Correia Megre, Domingos Barata Delgado, Carlos Lidoro de Sousa Pinto Bandeira, Urbano de Figueiredo, Francisco do Amor Ferreira Rocha, Domingos Joaquim dos Reis e Manuel Inocêncio  de Araújo Mansilha]. Foram conduzidos para Lisboa e do processo resultou na sentença [muito contestada juridicamente] de morte por "enforcamento" no dia 20 de Junho de 1828, no "cais do Tejo, a Santa Apolónia" [cf. Lamy, op. cit].

Ainda segundo J. Martins de Carvalho evadiram-se os quatro restantes [diga-se que José Germano da Cunha, nos "Apontamentos para história do Concelho do Fundão" (Lisboa, 1892) diz-nos que foram enforcados 10 dos membros dos Divodignos e que escaparam 3, referindo: Bernardo Nunes, o padre Bernardo Antonio Ferreira e Francisco Sedano Bento de Mello], registando Martins de Carvalho os seguintes:

Antonio Maria das Neves Carneiro (do Fundão, e que acabou por ser enforcado em 1830), Francisco Sedano Bento de Mello (Caldas da Rainha), José Joaquim de Azevedo e Silva (Lisboa) e Manuel do Nascimento Serpa (falecido na Misericórdia de Lagos, com o nome de "Fresca Ribeira"- ver obra citada e, principalmente, o Capitulo XII, "Sentença  que condenou à morte os 9 estudantes enforcados a 20 de Junho de 1828"; do mesmo modo, consultar os "Grande Dramas Judiciários", de Sousa e Costa; idem para Oliveira Martins, in Portugal Contemporâneo, vol I.; ou Teófilo Braga, "História da Universidade de Coimbra", tomo IV; tb Camilo Castelo-Branco, in "O Retrato de Ricardina".

J.M.M.

sexta-feira, 13 de março de 2015

CAMILO PESSANHA E A SUA FILIAÇÃO MAÇÓNICA NA LOJA LUÍS DE CAMÕES DE MACAU – PARTE III


Refira-se que passaram por Macau, aí trabalharam e viveram, muitos maçons vindos da metrópole, tais como Francisco Isidoro Guimarães [governador de Macau, na monarquia], Custódio Miguel de Borja [1849-1911; oficial da marinha, deputado, governador de Macau entre 1890-94, maçon com n.s. de “Nelson”, tendo feito parte do Grande Oriente de Portugal, do qual foi seu último Grão-Mestre]. Já depois da República registe-se José Carlos da Maia [n. Olhão em 1878-1921; oficial da Armada, maçon com n.s. de João Afonso (fez parte da cisão em 1914 no GOLU) e carbonário, deputado à Constituinte, governador de Macau entre 1914-1916, sidonista e ministro da Marinha, é assassinato na “Noite Sangrenta” de Outubro de 1921], [Francisco Gonçalves] Velhinho Correia [foi professor do liceu de Macau, eleito deputado de Macau em Lisboa, ministro em 1920 e 1923, tendo aderido ao Estado Novo; foi iniciado, em 1907, com o n.s. Padre Eterno, na loja Solidariedade, de Lisboa], o que deu, de algum modo, muito alento ao trabalho maçónico.
Na sequência da proibição da maçonaria pelo Decreto-lei nº 1901, de 21 de Maio de 1935, a triangulação das lojas, ordenado pelo GOLU, foi cumprida, também, em Macau. Pouco se sabe sobre o assunto, mas é adquirido que os irmãos se continuavam a reunir. Refira-se que se considera ter existido, nesse período, duas lojas em Macau, uma a Luís de Camões (GOLU) e outra constituída por cidadãos britânicos refugiados de Hong Kong, sob obediência da UGLE.


Da(s) Loja(s) Luís de Camões [houve alguns obreiros que transitaram da primitiva loja nº 309, mas a maioria, aqui citada, pertenceu aquela que levantou colunas em 1915, a nº383], de Macau, fizeram parte [segundo o parecer de 1935 da Câmara Corporativa que levou à extinção das Sociedades Secretas, a Loja Luís de Camões tinha “chegado aos 102 membros” – cf. Arnaldo Gonçalves, ibidem], com muita segurança, os seguintes obreiros:

Álvaro Cardoso Mello Machado [iniciado na Loja Liberdade, de Lisboa, foi Venerável da Loja de Macau em 1912; republicano, oficial da marinha, fundador do escutismo em Macau, foi governador-interino de Macau – nomeado a 9 de Dezembro de 1910, depois chefe de gabinete (1914) do governador-geral de Moçambique, administrador delegado nos caminhos-de-ferro de Benguela] | António Afonso de Carvalho (oficial da armada?) | António Antillos | António Antunes [co-fundador da Loja, militar e, depois, comandante da PSP] | António Augusto Pacheco [Venerável em 1909 – cf. Anuário GOLU de 1909, p. 126; foi oficial da repartição superior da Fazenda até 1911, passando depois, em Janeiro de 1911, a sub-inspector da Fazenda da Guiné] | Camilo Pessanha [foi Venerável da Loja – ver figura] | Carlos Borges Delgado (professor do Liceu Central de Macau, mais tarde Reitor; foi pres. do Leal Senado) | Constâncio José da Silva [co-fundador e Venerável em 1910 e, depois, em 1915, já exercendo o veneralato na segunda loja, com o nº 383; advogado e jornalista republicano; vice-presidente da Câmara, director do jornal anticlerical “A Verdade” e, depois, editor, proprietário e director d’O Liberal, 1922-23] | Damião Rodrigues [notário, advogado, pres. do Leal Senado e um ousado e combativo reviralhista; ousou enfrentar Artur Tamagnini Barbosa – então governador de Macau e membro da ditadura militar saído do 28 de Maio de 1926 – e por isso foi preso e deportado para Timor; curiosamente – ver AQUI – no seu posterior regresso a Macau coloca “na parede do átrio de entrada de sua casa um retrato de grandes dimensões do ex-líder do Partido Democrático Afonso Costa” e assim o “manteve bem patente em simbólico desafio à ditadura até à sua morte em 22 de Julho de 1942] | Domingos Gregório Rosa Duque [iniciado em Fevereiro de 1916, ascendeu ao 20.º grau em 1921, tendo sido Venerável da Loja; um dos sargentos do exército presentes no dia 5 de Outubro na Rotunda, ao lado de Machado Santos; enviado para o exílio em Angola, pelo incomodo que revelava na vida militar e política, porém mantém a sua rebeldia e irreverência, pelo que foi afastado da vida militar e enviado para novo exílio, agora em Macau; mais tarde foi reintegrado no exército, como capitão; jornalista e polemista notável, foi secretário do jornal “O Liberal”, dirigido por Constâncio José da Silva; em Fevereiro de 1923 é editor e director do semanário republicano “Combate”, jornal onde já depois do 28 de Maio de 1926, declara a sua filiação maçónica (grau 33.º) no artigo com o título A Maçonaria, os estudantes reaccionários e ‘A Pátria’; funda o periódico “A Voz da Macau”, 1931] | Elísio Tavares [nasceu em 1896 em Coja; foi farmacêutico e administrador do jornal “O Liberal”] | Francisco Hermenegildo Fernandes [1863-1923; co-fundador da Loja, republicano, tradutor no Supremo Tribunal de Hong-Kong e combativo jornalista; proprietário da tipografia Mercantil; foi amigo, apoiante e protector de Sun Yat-sen, futuro presidente provisório da República da China, dando-lhe guarida na sua casa, aquando da sua fuga de Cantão, tendo, depois, estado presente na recepção que Sun Yat-sen deu em Macau, em 1912, juntamente com outros republicanos e maçons (diz-se que Sun Yat-sen, foi recebido, como visitante, na Loja Luís de Camões, em 1913); pertenceu ao Leal Senado; foi director do jornal “Echo Macaense” (1893-1899), tendo em Abril de 1896 sido afastado pela Lei da Imprensa] | Francisco Xavier Anacleto da Silva [advogado, presidente do Leal Senado] | Henrique Lapa Travassos Velez [republicano, oficial da marinha] | Herman Machado Monteiro [n. Celorico de Basto 1899, republicano auto-exilado em Macau pelo golpe de 28 de Maio de 1926, proprietário e editor do “Jornal de Notícias” de Macau, um dos fundadores do Rotary Club de Macau] | João de Freitas Ribeiro (capitão de fragata) | João Silva [oficial da armada] | Joaquim Felizardo Adão Antunes [oficial do exército, prof. do Liceu Normal de Macau] | D. José da Costa Nunes [n. na Ilha do Pico em 1880, frequenta o liceu na Horta, depois o seminário episcopal da Terceira; parte para Macau em 1902 e trabalha nas missões de Malaca e Singapura; foi bispo da diocese de Macau (1920-40), um dos fundadores do jornal “Oriente” e do Instituto de Macau; foi professor, escritor e jornalista (escreveu sob pseud. em vários periódicos, como “A Voz”, “O Telégrafo” ou a “Vida Nova”; aderente ao Estado Novo, foi elevado a Cardeal em 1962, tendo falecido em Roma em 1976] | José Luís Marques [n. Braga 1862-m. Macau 1934; militar e presidente do Leal Senado: co-fundador da Loja] | José Vicente Jorge [n. Macau 1872- m. Lisboa em 1948; amigo pessoal de Camilo Pessanha, tendo sido seu testamenteiro; leccionou no Liceu Central de Macau e em várias outras escolas; intérprete-sinólogo – trabalhou na Legação de Portugal em Pequim e em Macau, em 1911 -, solicitador da comarca de Macau, tradutor e notável coleccionador de arte chinesa; a sua valiosa colecção foi vendida, ao que parece, para os Estados Unidos] | Mário de Campos Nery [n. 1890; funcionário das Obras Públicas] | Miguel Wagner Russell (Venerável em 1915 – cf. Boletim Oficial GOLU, Maio de 1909, p. 33), Rodrigo Marim Chaves [sargento, director do jornal “A Colónia” e da Imprensa Nacional de Macau] | Telo de Azevedo Gomes [n. 1892-1974; bacharel em Filosofia Natural pela UC; professor e co-fundador do Instituto de Macau] | Wenceslau de Moraes [1854-1929; oficial da marinha de guerra, prestou serviço em Moçambique, Macau, Timor; foi imediato do porto de Macau; pertenceu ao grupo de docentes que funda o Liceu de Macau; foi cônsul de Portugal em terras do Japão; notável escritor] – cf. ibidem; ver tb. João Guedes, AQUI]


Em 1961, Danilo Barreiros publica "O Testamento de Camilo Pessanha", obra relevante para a biografia do poeta Camilo Pessanha, onde divulga a sua filiação maçónica. Curiosamente, Marcelo Caetano [1 de Outubro de 1961] escreve a Danilo Barreiros, "lamentando que este ensaísta tenha divulgado a filiação maçónica de Camilo Pessanha. Em contrapartida, Vitorino Nemésio felicita inequivocamente o autor daquela obra" [AQUI]. Diga-se, ainda, que, a 7 de Setembro de 1967, a “Livraria Sá da Costa expõe vários espécimes bibliográficos de Camilo Pessanha, cedidos por Danilo Barreiros. Entre eles, encontrava-se um diploma da Maçonaria referente a Camilo Pessanha. Dois dias depois, a Polícia Política invadiu a editora, deteve um funcionário e apreendeu todo o material exposto, que só veio a ser recuperado mais tarde” [ibidem].
Fontes Principais: Albert MacKey, Encyclopedia of Freemasonry, 2002; Arnaldo Gonçalves, “A Primeira Republica, Macau e os Maçons”, rev da Maçonaria, nº2, 2012; [Daniel Pires, org.] “Homenagem a Camilo Pessanha”, Macau, 1990; Danilo Barreiros, “O Testamento de Camilo Pessanha”, Lisboa, 1961; Paulo Franchetti, “O essencial sobre Camilo Pessanha”, INCM, 2008; especial referência aos artigos (já citados) de Arnaldo Gonçalves e de João Guedes; ler também os 2 artigos de António Valdemar, "Camilo Pessanha faria hoje 100 anos. 'Águia de Prata'. Um inédito do poeta que se deixou devorar pelo ópio  para matar as 'violentas saudades", publicados no "Diário de Notícias" de 7 e 8 de Setembro  de 1967 [pela importância, mormente a questão dos inéditos apresentados e a evocação de Camilo Pessanha via a célebre montra da Livraria Sá da Costa e que envolveu a rápida intervenção da PIDE, voltaremos a este particular assunto].
J.M.M.