quarta-feira, 25 de abril de 2018

QUE VIVA ABRIL! – 25 DE ABRIL SEMPRE!




" ... Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
 
Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever,
com que palavras gritar!
 
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
 
Essa paz de cemitério
toda prisão ou censura,
e o poder feito galdério.
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.
 
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha …”
 
[Jorge de Sena]
 
J.M.M.  | A.A.B.M.

sábado, 14 de abril de 2018

VISCONDE DE SEABRA - BIOGRAFIA



LIVRO: Visconde de Seabra. Autor do primeiro Código Civil Português - Biografia;
Autor
: Manuel M. Cardoso Leal;
EDIÇÃO: Alêtheia Editores, Abril de 2018.

LANÇAMENTO:

DIA: 14 de Abril (15,30 horas);
LOCAL:
Biblioteca Municipal de Anadia (Auditório);
ORADOR: Luís Bigotte Chorão;

“Resultado de uma pesquisa realizada a propósito dos 150 anos do primeiro Código Civil português, cuja entrada em vigor ocorreu em março de 1868, este estudo recupera aspetos menos divulgados da vida e da obra de António Luís de Seabra, figura eminente do concelho de Anadia.

Para além do trabalho como jurisconsulto, onde se destaca a autoria do projeto do referido Código Civil, Manuel Cardoso Leal dedicou particular atenção à atividade política do magistrado, pouco conhecida, mas não menos relevante, e ainda a muitos outros factos de uma vida aventurosa de quase cem anos, que ocupou praticamente todo o século XIX.

O prefácio da obra é assinado por António dos Santos Justo, catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. A edição, a cargo de Alêtheia Editores, tem o apoio do Município de Anadia.

Manuel Cardoso Leal é doutorado em História Contemporânea, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sendo da sua autoria a obra “José Luciano de Castro – Um homem de Estado (1834-1914)”, editada em 2013, no arranque do ciclo de eventos que a Câmara Municipal de Anadia dedicou ao conselheiro no centenário da sua morte.”

António Luís de Seabra e Sousa (1795-1898) ou Visconde de Seabra nasceu em 2 de Dezembro de 1798, a bordo da nau Santa Cruz (quando navegava perto de Cabo Verde), quando os seus pais se dirigiam para o Rio de Janeiro [cf. Esteves Pereira, “Portugal. Diccionario Historico, ...”, 1912, vol. VI, p. 772 e ss; ver, ainda, A. A. Teixeira de Vasconcelos, Revista Contemporânea de Portugal e Brazil, Vol. IV, 1862-1863, n.º 8, pp. 385-392]. O seu pai era António de Seabra da Motta e Silva - nascido em Mogofores (Anadia), foi magistrado, cavaleiro da Ordem de Cristo, Ouvidor na Vila de Príncipe (Minas Gerais), corregedor da comarca de Moncorvo – e sua mãe Doroteia Bernardina de Sousa Lobo Barreto.

Veio para Portugal, com a família, para fazer os estudos preparatórios, inscrevendo-se depois (1815) na Universidade de Coimbra, em Leis, formando-se em 1820. Data dessa época o seu fervor ao liberalismo, que irrompia na Universidade, frequentando as tertúlias intelectuais de Coimbra – e entre elas a Sociedade dos Amigos das Letras [fundado por António Feliciano de Castilho e instalada no Pátio de Castilho; curioso lugar onde funcionou quase que ininterruptamente diversas associações políticas, culturais, de operários e de instrução popular e, até mesmo, uma loja maçónica, em 1821] - tendo dado à estampa por alturas da revolução de 24 de Agosto de 1820, e como exaltação, um curioso e raro soneto [edição da Imprensa da Universidade]. No princípio do ano de 1821 funda [com José Pinto Rebello de Carvalho e Manuel Ferreira de Seabra] o periódico local, “Cidadão Literato, Periódico de Política e Literatura” [Nº1 (Janeiro de 1821) ao nº4 (Abril de 1821); foi impresso o nº1 na Nova Impressão da Viúva Neves e Filhos (Lisboa) e os números seguintes pela Imprensa da Universidade de Coimbra].


A 7 de Maio de 1821 parte para Alfandega da Fé, para tomar o lugar de Juiz de Fora, ingressando na magistratura judicial, tendo recebido os “maiores louvores” [Vasconcelos, ibidem], testemunho que, aliás, se pode ler na portaria de 3 de Dezembro de 1821, assinada pelo ministro da Justiça, José da Silva Carvalho.

Na queda do governo liberal de Junho de 1823 (pela denominada Vila Francada, sublevação de D. Miguel), António Luís de Seabra, “fiel ao [seu] juramento constitucional”, pede a exoneração do cargo em Alfandega da Fé, o que veio a verificar-se a 30 de Julho desse ano [cf. Vasconcelos, ibidem]. Parte então para a sua casa paterna, em Vila Flor, onde permanece até ao ano de 1825, ocupando-se na tradução das Sátiras e Epistolas de Horácio. Data de 1826 a sua publicação, em Coimbra, do poema de Cândido Lusitano, intitulado “O Mentor de Philander: epistolas a um escriptor principiante”, a “Ode heroica á sereníssima infanta D. Isabel Maria”, (Coimbra, Imprensa da Universidade) e funda o periódico Observador (II numrs).    

A 17 de Agosto de 1825 é nomeado Juiz de Fora em Montemor-o-Velho, tomando só posse a 14 de Janeiro de 1827, esperando que o seu antecessor acabasse o tempo de serviço. O período da usurpação do governo por D. Miguel (1828) encontra-o em terras do Mondego, tendo participado activa e vigorosamente na defesa do regime constitucional-liberal: em Montemor-o-Velho, organiza uma “corpo de cavalaria” e foi “encarregado da defesa da margem direita do Vouga”. É demitido a 4 de Julho de 1828. Face ao fracasso da “Belfastada” (sublevação miliar contra o usurpador D. Miguel) refugia-se na Galiza, partindo de lá para o exílio em Inglaterra, Bélgica e França, onde vive em Saint-Servan, obtendo subsídios do governo francês. Publica diversos folhetos políticos, entre eles a “Exposição apologética dos portuguezes emigrados que recusaram prestar o juramento d’elles exigido no dia 26 de Agosto de 1830, Impr. de C. de Moor, Bruges, 1830.

E é em Saint-Servan que, possivelmente em 1831, integra a loja maçónica 14 de Rennes, atingindo o grau 4 do Rito Francês, nesse mesmo ano [vide A. H. de Oliveira Marques, História da Maçonaria em Portugal, 2ª parte, p. 356]  

Regressa a Portugal em 1833, tendo sido nomeado Procurador Régio junto da Relação de Castelo Branco (Decreto de 25 de Outubro de 1833) e corregedor interino de Alcobaça, pelo regente D. Pedro. Nesta última função, António Luís de Seabra, foi “acusado com violência de factos culposos acerca dos bens dos religiosos de S. Bernardo naquela vila” [Vasconcelos, ibidem]. Responde, mais tarde, com o curioso folheto “Observações do ex-corregedor de Alcobaça ….”, Lisboa, 1835. Já então era deputado – eleito, por Trás-os-Montes, nas eleições de 15 de Agosto de 1834 -, facto que o levou a intervir no parlamento (e a publicar em sua defesa o folheto atrás referido), perante as acusações e calúnias contra si e que foram, curiosamente, todas ilibadas pela própria oposição, na pessoa de José da Silva Carvalho (sessão da Câmara de 21 de Outubro de 1834).  
 
 

António Luís de Seabra fez um percurso longo e brilhante, quer como magistrado, procurador régio, deputado (os seus discursos são importantes), jurista ou jornalista. Foi presidente da Junta do Depósito Público (Setembro de 1835), funda o semanário Independente (Lisboa, 1836), é deputado por Penafiel (1837), pelo Porto (1840), é nomeado juiz desembargador (1840), funda o jornal Estrela do Norte (Porto, 1846), membro da Junta do Porto (organizada por José Passos em 1846-7; Patuleia), publica (Lisboa, 1849) o valioso opusculo “Observações sobre o artigo 630º da Novissima Reforma Judiciária”, em Coimbra é editado (1850) o I volume de “A Propriedade, Philosophia do Direito” [curiosa e polémica resposta ao livro de Proudhon, acerca da propriedade; nunca saiu a lume o seu II volume], por decreto de 8 de Agosto de 1850 foi encarregado da missão de organizar o projecto do Código Civil Português, é deputado por Aveiro (1851), exerce as funções de presidente do Tribunal da Relação do Porto (1852), foi ministro da Justiça e dos Negócios Eclesiásticos (1852, governo de Saldanha; foi Seabra substituído, depois, por Rodrigo da Fonseca Magalhães), publica a I parte do seu projecto do Código Civil (1857), conclui o seu projecto do Código Civil (1859), foi presidente da Câmara dos Deputados (1859 e 1862), é deputado pela Anadia (1861), em 1865 recebe “a mercê” do título de Visconde, é nomeado reitor da Universidade (1866), é aprovado e promulgado o [seu] Código Civil pela lei de 1 de Julho de 1867, é juiz conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, publica “A Colombiada ou a fé levada ao novo mundo …” (1893). Cego, há muitos anos, deixou por concluir, entre os seus numerosos escritos publicados, um romance prometedor, “António Homem ou Mestre Infeliz”.

António Luís de Seabra era comendador da Ordem de Cristo, tinha sido agraciado com a cruz de S. Maurício e de S. Lázaro (Itália), cruz da Rosa (Brasil); era cadete honorário dos dragões de Minas Gerais; era sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa. Foi casado por duas vezes, a primeira com Doroteia Honorata Ferreira de Seabra da Mota e Silva, e a sua segunda esposa foi Ana de Jesus Teixeira. Deixou descendência.
 
Morre na Quinta de Santa Luzia, Mogofores (Anadia), a 19 de Janeiro de 1895.    

J.M.M.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

EVOCAÇÕES DO CENTENÁRIO DA BATALHA DE LA LYS PELO PAÍS



Há cem anos atrás, as tropas portuguesas a combater na Europa enfrentaram uma grande ofensiva alemã nos dias 8 e 9 de Abril de 1918. A batalha tornou-se um dos momentos icónicos da participação portuguesa na Grande Guerra. Apesar dos relatos ingleses, alemães e portugueses apresentarem algumas discrepâncias entre si, o resultado desta batalha representou um desaire importante para o Corpo Expedicionário Português. No entanto, ao mesmo tempo esta batalha permitiu construir um novo grupo de heróis, os combatentes que mais se destacaram na Batalha de La Lys.

O objetivo deste apontamento não é discutir a batalha, nem os seus resultados mas sim assinalar as evocações que se vão fazendo nestes dias recordando as figuras e os acontecimentos de há 100 ano atrás.

Entre as várias cerimónias comemorativas que já se realizaram ou que se vão realizar destacam-se as seguintes:

- Batalha:

- Cascais: 

- Chaves:

- Constância:
"Constância e a Grande Guerra - Das manobra de Tancos à Batalha de La Lys"



- Elvas:

- Fafe:

- Guimarães



- Lamego
"Evocação do Centenário da Batalha de La Lys"

- Oliveira de Azemeis:


- Ponta Delgada:



- Tomar: 

“O Centenário da Batalha de La Lys e o Dever de Memória”

- Viana do Castelo
"Centenário da Batalha de La Lys- Homenagem ao Major Xavier da Costa"



- Vila Nova de Famalicão:


- Vila Real

 Estes são alguns exemplos das cerimónias que vão decorrer hoje e nos próximos dias em Portugal.

A.A.B.M.

IN MEMORIAM DA BATALHA DE LA LYS

 
Cartaz memorial dos soldados portuguesas caídos na Batalha de La Lys (França, 9 de Abril de 1918), durante a I Guerra Mundial.
 
via Casa Comum
 
J.M.M.

sábado, 7 de abril de 2018

PEDRO FRANCISCO MASSANO DE AMORIM (Parte III)



René Pélissier na sua obra História de Moçambique. Formação e Oposição, vol. I, Histórias de Portugal, Editorial Estampa, Lisboa, 1994, p. 291 considerava Massano de Amorim um conquistador metódico. Tinha feito um percurso feito de combates e o seu desempenho na guerra luso-umbunda (1902) e na repressão da revolta dos ovibundizados de Seles e de Amboim (1917), bem como os ataques a Farelay e Ibrahimo permitiram-lhe fazer a afirmação da presença portuguesa face ao poder suahili e instalar colonos portugueses no coração da região dominada pela etnia macua. Estes feitos são apontados como dos mais importantes operações militares no final da Monarquia constitucional.

O perigo das tropas alemãs em Moçambique, sobretudo as acções de Lettow-Vorbeck e do major Kraut, representaram um perigo para os interesses de Portugal em Moçambique. Estas acções militares ainda continuam relativamente pouco conhecidas e mal estudadas, pelo menos pela historiografia portuguesa. A sua acção, sobretudo na região do rio Rovuma, invadindo os territórios portugueses na colónia africana e, em poucos dias, entre finais de Abril e meados de Maio de 1917 fomentou a revolta dos Ajauas, que se aliaram aos alemães contra a presença portuguesa.

Após a missão em Moçambique regressou a Lisboa, onde assumiu as funções na 5ª Repartição da Direcção-Geral das Colónias, de onde partiu para Angola. Nesse território assumiu as funções de Governador-Geral entre 9 de Janeiro de 1916 e 11 de Janeiro de 1918. Segue depois para Moçambique, onde assume idênticas funções entre Fevereiro de 1918 e Abril de 1919. De regresso a Moçambique, foi pessoalmente, em 7 de Julho de 1918, ao porto de Quelimane, para receber as funções do coronel Sousa Rosa. Nesta expedição a Quelimane acompanharam-no três companhias indígenas e seis metralhadoras. Nessa altura terminam as operações militares das tropas portuguesas em Moçambique contra as tropas alemãs comandadas pelo general Lettow-Vorbeck. As tropas alemãs retiram embora ainda se assinalem algumas escaramuças ao longo do tempo.

Regressado a Portugal, assume as funções de Director Geral dos Serviços Militares do Ministério das Colónias.
Na sessão do Parlamento de 4 de Julho de 1924, no âmbito do projecto-lei nº 484, aprova-se a promoção a general, atendendo a uma serie de pressupostos que tinham sido cumpridos. A proposta tinha sido aprovada em reunião do Senado, em 23 de Julho de 1923, por proposta de Luís Augusto de Aragão e Brito. [Ver a informação detalhada sobre o processo AQUI .

Massano de Amorim assume as funções de governador dos territórios da Companhia de Moçambique, mas as funções não lhe agradam e acaba por ser exonerado do cargo. Em 16 de Junho de 1923 volta a ser nomeado Governador-Geral de Moçambique onde se mantém até 1925. Em 1925 foi nomeado Secretário-geral do Ministério das Colónias.  Segue depois para a Índia, onde desempenha funções de Governador-Geral da Índia, até que veio a falecer em a 31 de Maio de 1929, na cidade de Nova Goa, após demorada doença oncológica que lhe causou grande sofrimento.

No breve apontamento biográfico sobre Massano de Amorim na Revista Militar[1] destaca-se a sua ligação a Mouzinho de Albuquerque e as suas características “intrépido, leal, usando no convívio rude franqueza que, longe de ofender captava simpatias”. Além disso, apontava-se a sua coragem, energia, decisão e tenacidade.

O seu corpo foi trasladado de Goa para Lisboa no ano seguinte, ficando sepultado no cemitério do Alto de S. João em 28 de Janeiro de 1930.

Por sugestão da Sociedade de Geografia de Lisboa  foi o nome do General Massano de Amorim atribuído na Rua 1 à Travessa da Memória, também designada por Rua Projectada nº 1, através do Edital municipal de 28/10/1960, Freguesia da Ajuda, em Lisboa.

Um pequeno apontamento sobre o General Massano de Amorim pode ser consultado no Boletim Geral das Colónias AQUI.

Pedro Francisco Massano de Amorim deixou vários textos publicados, entre eles destacam-se:
- Relatório do governador, 1906-1907. Distrito de Moçambique, Lourenço Marques, Imprensa Nacional, 1908.
- A Occupação do districto de Moçambique, Bol. Da Soc. De Geografia de Lisboa, nº 5, 29ª s., Lisboa, Typ. Universal, 1911
- Relatório sobre a occupação de Angoche : operações de campanha e mais serviços realizados : anno de 1910Lourenço Marques, Imprensa Nacional1911.
- Notícia histórica sobre a região de Angoche1910.
- “Projecto das bases para a organização dos serviços e trabalhos agrícolas e para o desenvolvimento e fomento da agricultura da província de Moçambique”, Boletim da Agência Geral das Colónias, Nº 2 e nº 3, 1925.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA E RECOMENDADA:
- Abecassis, Fernando et. al., A Grande Guerra em Moçambique, [disponível online aqui: http://www.socgeografialisboa.pt/wp/wp-content/uploads/2017/09/A-Grande-Guerra-em-Mocambique-LIVRO.pdf ]
- ARQUIVO HISTÓRICO ULTRAMARINO, I GUERRA MUNDIAL, EXPEDIÇÕES MILITARES - ANGOLA E MOÇAMBIQUE Inventário Parcial [Disponível para consulta e onde se encontra o arquivo pessoal de Massano de Amorim aqui: http://actd.iict.pt/eserv/actd:AHUMUd002/AHU_MU_DGM_ExpedicoesMilitaresIGuerra.pdf ]
- Afonso, Aniceto, “Grande Guerra – A Campanha Portuguesa em África”, Actas do Colóquio Internacional A Grande Guerra – Um Século Depois, Academia Militar, Lisboa, 2015, pp. 153-161 [disponível online aqui: http://www.portugalgrandeguerra.defesa.pt/SiteCollectionDocuments/Noticia%20Atas%20Academia%20Militar/10_Aniceto%20Afonso.pdf ]
- Coutinho, João de Azevedo, As duas conquistas de Angoche, Col. Pelo Império, Lisboa, 11, 1935, p. 40-41.
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (Maldo-Mermit), vol. 16, Editorial Enciclopédia, Lisboa/Rio de Janeiro, S.d., p. 524-526.
- Freire, João, “Moçambique perante a hipótese de um ataque alemão”, A Grande Guerra (1914-1918): Problemáticas e Representações [disponível online aqui: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/14690.pdf ]
- Pelissier, René, História de Moçambique. Formação e Oposição, 2 vols., Histórias de Portugal, Editorial Estampa, Lisboa, 1994.
- Pires, António, A Grande Guerra em Moçambique, Porto, 1924.
- Sá, José do Espírito Santo de Almeida Correia (Marquês de Lavradio), Pedro Francisco Massano de Amorim, Col. Pelo Império, Lisboa, 1941.


[1] C.D., “Crónica Colonial”, Revista Militar, Lisboa, Janeiro-Fevereiro, nº1-2, Ano LXXXII, 1930, p. 88.


A.A.B.M.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

PEDRO FRANCISCO MASSANO DE AMORIM (Parte II)



João de Azevedo Coutinho, um conhecido político e administrador colonial português, considerava que Massano de Amorim tinha sido “o homem preciso”, “arrojado”, “de cujas qualidades de inteligência e inteligência estava bem seguro”, “destemido chefe, embora exigente” para dominar o Angoche, quando até ali ninguém ainda o havia conseguido [João de Azevedo Coutinho, As duas conquistas de Angoche, Col. Pelo Império, Lisboa, 11, 1935, p. 40-41]. Coutinho assume que Massano de Amorim teve papel de relevo na questão de Angoche, mas também contava com homens de valor a seu lado como Gomes da Costa, Augusto José da Cunha, Neutel de Abreu e Dâmaso Marques, entre outros [João de Azevedo Coutinho, idem, p. 44, nota 1]. A descrição de toda a acção de Massano de Amorim neste processo do Angoche ficou descrita no relato feito pelo próprio no Relatório sobre a ocupação de Angoche: operações de campanha e de mais trabalhos realizados: ano de 1910, mas também no pequeno opúsculo de João de Azevedo Coutinho acima citado.

Sobre a acção de Massano de Amorim durante a Grande Guerra, a força expedicionária partiu de Lisboa em 11 de Setembro de 1914 e desembarcou em Porto Amélia em 1 de Novembro desse ano. O grande problema com que se defrontaram foi a questão sanitária, que era extremamente deficiente, associando-se a isto uma alimentação de péssima qualidade e as condições de alojamento das tropas também eram paupérrimas. Este conjunto de situações conjugadas, fez com que um quinto da força militar chegada a Moçambique, ficasse fora de combate, mesmo antes de abandonar o local de chegada passado meio ano.

As instruções que recebeu de Lisboa indicavam que teria que desalojar os alemães da ilha de Quionga, onde se encontravam desde 1894. Esta ilha situava-se na foz do rio Rovuma, local onde as tropas portuguesas passaram grandes dificuldades. Para cumprir com as instruções recebidas, Massano de Amorim solicitou o reforço de tropas visto que tinha elevado número de baixas provocadas por doenças que debilitavam cada vez mais as tropas portuguesas.

Para tentar ultrapassar esta situação organiza-se então a segunda expedição, comandada pelo major Moura Mendes, que partiu de Lisboa em Outubro de 1915. Sobre as dificuldades sentidas pelas tropas portuguesas o fica o relato do Capitão António Pires, feito em 1924:

A Campanha da África Oriental Portuguesa, foi feita em condições que a tornaram única na história. A composição das tropas e seu equipamento e a natureza da colónia de Moçambique tudo se combinou para criar dificuldades sem precedentes. Pouca é conhecida até agora esta campanha a não ser meia dúzia de oficiais combatentes que todos os anos a têm comemorado. Pode dizer-se que a Campanha de Moçambique, de sofrimentos e resignações, de combates sangrentos em campo raso e guerra em movimento, ela não é conhecida para o grande público. Para França, foram os políticos, os escritores, os literatos e os militares conhecidos; para Moçambique, foram os que apenas eram militares ou soldados, e por isso a campanha, lá longe, lutando contra todos os inconvenientes possíveis e imaginários, combatendo-se em silêncio, e silenciosamente morrendo pela Pátria, é desconhecida.

Massano de Amorim cumpre as instruções recebidas, porém a chegada de um novo governador, Álvaro de Castro, vai alterar o posicionamento e as ordens seguiram numa nova direcção. Por outro lado, o contexto político em Portugal, com a revolta de Maio de 1915, altera as circunstâncias. Agora a questão não era somente reocupar Quionga, mas entrar deliberadamente em conflito com a Alemanha. O militar e colonialista português foi então enviado como governador de Angola em Janeiro de 1916.

Chegado ao território português na costa ocidental africana, em Abril de 1916, dirige-se a Luanda e depois para a região sul desse território, onde a ameaça alemã e os episódios bélicos já tinham começado. Novamente, as instruções passam por tentar evitar o confronto directo com os alemães, mas tentar proporcionar alguma abertura para facilitar a colonização europeia. No fundo, era um trabalho de continuidade já desencadeado anteriormente por outros governadores da colónia angolana.

Um ano depois da sua chegada eclode uma revolta das populações africanas na região de Angoche, estava em Maio de 1917. Este conflito era provocado pelas prepotências praticadas pelos colonos portugueses estabelecidos na região, entre elas o governador destacava: “a detenção dos indígenas, imposição do trabalho forçado fora dos termos legais, falta de pagamento de salários a par da desobediência à autoridade, do contrabando da pólvora e armas vendidas ao gentio”. Porque não havia tropas suficientes, o próprio governador dirige-se para a região revoltada onde chega em Setembro de 1917. Consegue congregar esforços e apoios no Bailundo o que lhe permite sufocar a revolta. Estabilizada a situação, consegue, um mês depois, obter autorização para partir para Portugal. Em Janeiro de 1918, Massano de Amorim foi demitido do seu cargo.


[Em Continuação]

A.A.B.M.

terça-feira, 3 de abril de 2018

PEDRO FRANCISCO MASSANO DE AMORIM (Parte I)


Nasceu em Fronteira, distrito de Portalegre, a 14 de Janeiro de 1862. Filho de Henrique Teles da Silva Amorim e de Ana Emília Massano da Silva Amorim.

Assentou praça em 5 de Março de 1878, como voluntário, no Regimento de Infantaria nº 16. Ascende a oficial do Exército, da arma de artilharia, tendo sido promovido a segundo tenente em 10 de Janeiro de 1883. Transferido para o Regimento de Artilharia nº3 e, após a conclusão do curso da arma de Artilharia, passou ao Regimento de Artilharia nº 2, em 26 de Novembro de 1884, ascendeu a tenente em 28 de Janeiro de 1885. Foi convidado para leccionar na Escola Regimental de Sargentos entre 1 de Março e 25 de Setembro de 1888. Assumiu depois as funções de Diretor da Escola Regimental de Cabos até 25 de Janeiro de 1892. Ascendeu a capitão em 18 de Outubro de 1894, tendo sido encaminhado para o Estado-Maior de Artilharia, transitando depois para o Regimento de Artilharia nº2 onde permaneceu até Outubro de 1896. Nesse ano ainda, passou para o Regimento de Artilharia nº 4, mas, em Novembro, foi requisitado pelo Ministério da Marinha e do Ultramar para a comissão de serviço em Moçambique. Vamos depois encontra-lo em Moçambique, em Abril do ano seguinte, mais propriamente como governador de Gaza. Acompanhando Mouzinho de Albuquerque na campanha que culminou na captura de Gungunhana e na pacificação de Moçambique.

Em Maio de 1897 era o comandante Militar de Tete, região onde fervilhava a revolta contra a presença portuguesa desde o período do Ultimato de 1890. Nessa altura assumiu também as funções de administrador do concelho e de juiz municipal. Nessa missão conseguiu vencer os Majanjas. Permaneceu nessa região até Dezembro de 1898 quando regressa a Portugal. Em 1899 encontramo-lo em Portugal, no Regimento de Artilharia nº5, tendo depois aceite nova comissão de serviço no mesmo ministério.

Em 1900 parte para Angola, desembarcando em Luanda em Março. Assume as funções de Residente da Circunscrição Administrativa de Santo António do Zaire. No ano seguinte foi nomeado para inspecionar o material de guerra da referida província. Em Novembro foi nomeado em comissão especial de serviço para a Colónia Penal Militar e Agrícola onde permanece até finais de Maio de 1902. Vem a Portugal durante cerca de um mês e regressa depois para Luanda. Nesse período foi nomeado para comandante da Coluna de Operações no Distrito de Benguela, onde permanece até Outubro. Participa, em 1902, na campanha do Bailundo, sendo comandante da Coluna Militar do Norte. Em Maio de 1903 regressa a Portugal onde ficou a prestar serviço na 3ª secção da 2ª Repartição da Direcção-Geral do Ultramar.

Regressa a Moçambique em 1906, tendo sido nomeado governador do distrito de Moçambique, cargo que desempenhou entre 7 de Maio e 13 de Outubro de 1910. Em Dezembro de 1910 ascende à patente de major, tendo entretanto regressado a Portugal. Entre 1908 e 1912 promoveu a campanha de pacificação do Angoche.

Em 1908, casou com Estela Henriqueta Maria Godinho Gomes da Costa e, deste casamento, resultaram cinco filhos.

Em Dezembro de 1912 ascende a tenente-coronel e em 22 de Agosto de 1914 foi nomeado Comandante do Destacamento Expedicionário a Moçambique, tendo passado, em Dezembro desse ano a coronel.

Quando assumiu o comando das forças portuguesas enviadas para Moçambique, parte em Setembro de 1914 e tinha como objectivos fundamentais da sua missão proteger a colónia portuguesa da África Oriental das pretensões germânicas, pacificar a região e cooperar com forças aliadas, particularmente os ingleses, se fosse caso disso.

Esta força expedicionária enviada a Moçambique foi preparada em Lisboa num período muito curto de tempo depois de se publicar o decreto de 18 de Agosto de 1914, onde se contemplava as regras de mobilização a utilizar; elas saíam de várias unidades de Infantaria, de Cavalaria, de Artilharia e dos Serviços de Saúde e de Administração Militar com sede em dispersas cidades do Centro e Norte do país. A força era composta por um Quartel-General, um Batalhão de Infantaria, num total de 1039 oficiais e praças; havia ainda uma Bateria de Artilharia de Montanha composta de 221 homens, 22 equinos e 82 muares. Um Esquadrão de Cavalaria com 189 homens e 169 equinos. Assim sendo, uma força combatente com cerca de 1533 homens. Além disso, eram ainda acompanhados por por 2 médicos e 2 enfermeiros, 15 homens da área de Engenharia, alguns condutores e viaturas, bem como pessoal civil como telegrafistas, sapadores-mineiros, entre outros.


[Em continuação.]

A.A.B.M.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

O SÉCULO XX EM REVISTA(S)



O Século XX em Revista(s)” – por Luís Miguel Queirós, in Jornal “Público
As quatro principais revistas históricas do movimento anarco-sindicalista português juntam-se este sábado a outras importantes publicações já colocadas online pelo portal Revistas de Ideias e Cultura, uma gigantesca base de dados que abre à navegação digital aquelas que foram as grandes montras culturais do século XX.
As duas séries d’A Sementeira (1908-19), a Germinal (1916-17), o suplemento d’A Batalha (1923-27) e a Renovação (1925-26), quatro revistas fundamentais para a história da disseminação do ideário anarquista e do desenvolvimento do movimento anarco-sindicalista português ao longo das primeiras décadas do século XX, já podem ser integralmente consultadas e pesquisadas online. É a mais recente expansão do portal Revistas de Ideias e Cultura (RIC), um ambicioso projecto dirigido por Luís Andrade e desenvolvido pelo Seminário de História das Ideias do Centro de Humanidades da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, em parceria com a Biblioteca Nacional e a Fundação Mário Soares.
O objectivo, explica Luís Andrade, professor de Filosofia da Universidade Nova, é “fazer o mapeamento da cultura portuguesa do século XX a partir da análise sistemática do conteúdo das revistas tidas por mais significativas”.
Mais do que um arquivo digital, o RIC é uma base de dados dotada de sofisticadas ferramentas de pesquisa e que permite ao leitor ou investigador não apenas aceder ao conteúdo integral das diferentes publicações, mas também consultá-lo a partir de uma série de critérios que podem cruzar-se numa mesma busca e que incluem índices de autores (quer de textos, quer de ilustrações), conceitos (por exemplo, anarquismo), assuntos (por exemplo, I Guerra Mundial), nomes citados (distinguindo os singulares e os colectivos), obras citadas ou nomes geográficos.


Suponhamos que o leitor está interessado em textos que abordem a I Guerra Mundial: se fizer uma pesquisa geral no portal, encontrará 2153 artigos, distribuídos por várias revistas, que incluem quer as publicações anarquistas já referidas, quer outras como A Águia, a Seara Nova ou a Atlântida, para citar apenas algumas. Mas também pode pesquisar o mesmo assunto apenas numa revista específica, ou cruzá-lo com outros critérios. E se a Grande Guerra é um assunto de que naturalmente trataram todas as publicações da época, se procurar um tópico bastante menos óbvio, como, digamos, o haxixe, descobrirá com provável surpresa que Sampaio Bruno discorreu sobre esta substância num artigo intitulado O Tabaco… em Heródoto, publicado em 1913 n’A Águia.


(…) Com uma pequena equipa permanente – que inclui, além do seu coordenador, um editor executivo, um documentalista, um informático, uma analista de dados estatísticos e uma webdesigner –, mas contando com o auxílio de investigadores especializados para cada uma das revistas a publicar, a estratégia do portal tem sido a de se focar em sucessivos movimentos culturais ou ideológicos para dar prioridade às principais revistas que lhes estão associadas. Antes de se debruçar sobre as publicações anarquistas, o site já disponibilizara online as revistas relacionadas com o movimento cultural da Renascença Portuguesa, como a Nova Silva, A Águia ou A Vida Portuguesa, ou ainda as principais publicações associadas ao primeiro modernismo, como Orpheu, Portugal Futurista, Sphinx, Exílio, Centauro e Eh Real!.
E por vezes não se trata apenas de poupar aos investigadores, ou a simples curiosos, muitas horas a preencher pedidos em bibliotecas. Alguns dos números agora digitalizados e consultáveis estão em falta nas várias bibliotecas públicas. Exemplo disso mesmo é a célebre e raríssima edição 11/12 da 4.ª série d’A Águia, de 1929, que foi apreendida ainda na tipografia porque denunciava um plágio de Gustavo Cordeiro Ramos, ministro da Instrução Pública em sucessivos governos da ditadura militar e no início do Estado Novo. “Só está representado na Biblioteca Nacional por um postal onde se informa que este número não foi posto à venda por motivos imprevistos”, diz Luís Andrade.


Outra façanha de monta deste portal foi a digitalização integral da Seara Nova, abarcando todas as suas (muito) diversas fases, desde a fundação, em 1921, até 1984, num total de 1604 números, correspondentes a 31.500 páginas e a cerca de 21.500 peças de mais de três mil autores.
Para cada uma das revistas publicadas, o interessado encontra não apenas a reprodução digital de todos os números, mas também apresentações que procuram caracterizá-la e situá-la no seu contexto histórico, secções que reúnem os seus manifestos e outros textos de dimensão programática, uma antologia de literatura passiva sobre a publicação em causa e alguns estudos reproduzidos em texto integral.
Há também uma secção autónoma dedicada às polémicas, um modo de discussão pública aliás muito característico das revistas, e que só por aproximação corresponde àquilo a que hoje se chama uma polémica na imprensa ou nas redes sociais. Luís Andrade recorda, por exemplo, a famosa controvérsia entre António Sérgio e Pascoaes, nas páginas d’A Águia, a propósito do saudosismo, ou “a discussão entre Álvaro Cunhal e José Régio acerca do significado social da literatura”, na Seara Nova. Mas também nas revistas anarquistas agora digitalizadas se encontram polémicas, designadamente as que ilustram o confronto de posições perante a Grande Guerra ou a Revolução de Outubro.
A barra de navegação inclui ainda um “magasin”, que joga foneticamente com “magazine” (revista), mas que aqui alude mais a um tipo de armazém comercial ecléctico, onde se vende um pouco de tudo. É nesta secção que se acumulam todos os materiais que, não pertencendo formalmente às revistas em causa, a elas estão directamente ligados, como as separatas, ou que permitem conhecer melhor a respectiva história, como a correspondência travada entre os seus fundadores, testemunhos diversos e outros documentos. No magasinda Seara Nova é possível encontrar, salienta Luís Andrade, “vários dossiers do seu arquivo editorial, até agora inéditos”.
Obra em aberto e em constante expansão, o portal anuncia já também na sua homepage os vários títulos que deverão ficar disponíveis ainda este ano e que incluem a magnífica Contemporânea, dirigida por José Pacheko entre 1922 e 1926, com um primeiro número isolado saído em 1915. Ilustrada por artistas como Almada Negreiros, Stuart Carvalhais, Eduardo Viana ou Dórdio Gomes, contou entre os seus colaboradores literários com nomes como Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro ou Aquilino Ribeiro
Outra importante publicação prometida para este ano é O Tempo e o Modo, fundada em 1963 por um grupo de católicos progressistas como Alçada Baptista, Bénard da Costa, Pedro Tamen ou Nuno de Bragança. Está ainda prevista a digitalização de Alma Nacional, uma revista republicana lançada literalmente nas vésperas da queda da monarquia, e de outras publicações do início do século XX, como Dionysos, dirigida em Coimbra por Aarão de Lacerda, ou A Renascença, de Lisboa. Sol Nascente, dos anos 30, ligada ao neo-realismo, e a mais recente Raiz e Utopia, já do pós-25 de Abril, são outros títulos previstos para 2018. E o Revista de Ideias e Cultura pretende começar a apostar também em publicações com motivações mais específicas, como a revista feminista Sociedade Futura, dirigida por Ana de Castro Osório, ou A Construção Moderna, que considera “uma peça fundamental da cultura arquitectónica e urbana das duas primeiras décadas do século XX”.
Já a decisão de criar estes quatro novos sites agora consagrados às revistas anarquistas ficou também a dever-se ao desejo de “repor a memória de uma das correntes principais do pensamento e da intervenção social do século XX, remetida ao esquecimento de forma pouco inocente após a revolta da Marinha Grande de 18 de Janeiro de 1934”, diz Luís Andrade, numa provável alusão ao modo como o PCP veio a reescrever a história desse levantamento, que acabaria por marcar o fim da predominância do anarco-sindicalismo no movimento operário.
Mas não só os que se interessam pelo anarquismo terão boas razões para consultar estas revistas. Uma rápida consulta aos dados estatísticos que acompanham, em secção própria, cada um destes títulos, permite verificar, por exemplo, que os apreciadores de Ferreira de Castro encontrarão aqui nada menos do que 181 artigos dispersos assinados pelo romancista, a maior parte no suplemento d’A Batalha, mas também na Renovação. E os apaixonados pela ilustração podem deliciar-se com as dezenas de trabalhos criados para as mesmas revistas por Stuart Carvalhais ou pelo notável Roberto Nobre, que acumulava as artes gráficas com a crítica de cinema.
Estes levantamentos de ocorrências estão também cheios de surpresas: quem diria, por exemplo, que o nome mais citado nas duas já referidas revistas da Confederação Geral do Trabalho é o de Jesus Cristo, ou que a obra mais citada n’A Águia foi a revista Mercure de France? Mas estes resultados imprevistos, se podem ser mais ou menos anedóticos, ou ter explicações prosaicas, também “fornecem a informação necessária quer para testar as leituras correntemente aceites, quer para suscitar interrogações até hoje não formuladas” sobre estas revistas e movimentos, observa Luís Andrade. O que torna este portal uma ferramenta doravante indispensável para quem queira estudar umas e outros.
O Século XX em Revista(s) – por Luís Miguel Queirós, Jornal Público, 31 de Março de 2018, pp. 24/25 – com sublinhados nossos.

J.M.M.