segunda-feira, 18 de junho de 2018

A MAÇONARIA ENTRE A FORCA E O CACETE, ENTRE O MITO E A REALIDADE (1807-1834)




AUTOR: Fernando Marques da Costa;
EDIÇÃO: Campo da Comunicação, Maio 2018, p. 612


LANÇAMENTO:

DIA: 19 de Junho 2018 (19,00 horas);
LOCAL: Grémio Lusitano (Rua do Grémio Lusitano, 25, Lisboa):
ORADOR: Fernando Lima, Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano.

ORGANIZAÇÃO: Instituto de Estudos Maçónicos

Durante o século XIX e parte do XX o essencial da história da Maçonaria portuguesa foi redigida por maçons, assente mais em 'tradições' do que em documentos e apoiada pelo memorialismo e pela historiografia liberal. Ora o século XIX caracteriza-se por uma atenção especial dada à história atribuindo-lhe uma utilidade social, política e ideológica. Essa função social é construída por uma releitura do passado como elemento identitário. A Maçonaria construiu uma memória histórica composta por uma realidade selectiva, que iludia e silenciava outras. Construiu, assim, um arquétipo historiográfico que durante muito tempo dificultou uma leitura mais serena e objectiva do que foi a sua realidade.

Talvez hoje valha a pena preferir a realidade ao mito, por muito que isso custe: os mitos são mais arrebatadores que a realidade” [da contracapa]

[ANOTAÇÃO NOSSA]: Este noviciado e estimulante livro de Fernando Marques da Costa - que decerto dará origem a curiosas e viçosas polémicas na historiografia maçónica - reúne (em sua primeira parte) um interessante e apreciado conjunto de textos e “episódios da história da Maçonaria em Portugal” (entre 1807 e 1834) que são aqui severamente desconstruídos. Tais episódios, que exerceram (e exercem) uma marca pedagógica relevante, quer na celebração e triunfo revolucionário do constitucionalismo liberal quer no ideário e memória do maçonismo (com o qual se confunde), resultam, segundo o próprio, numa desmedida ritualização de mitos evocativos, acentuando posicionamentos irredutíveis e “visões mitificadas” no panteão maçónico, produzindo, a partir dessas “leituras erradas”, vários e românticos “mitos historiográficos” liberais e maçónicos, que a muitos iluminaram e iluminam. 

[anotemos alguns dos episódios referidos: “Inquisição. Um mito a revisitar” e “O surto das Lojas Portuguesas e a preocupação com a faísca da sedição” (a condenação e perseguição à Maçonaria não seria acompanhada, no seu inicio, por um “combate doutrinário” sustentado contra ela, preocupação que só é verificável posteriormente à Revolução Francesa e a implicação daí decorrente no espaço maçónico); “A Grande Reunião de 1801” (análise das fontes historiográfica maçónicas onde se patenteia e descreve o processo de criar uma estrutura organizativa maçónica nacional, a formação do GOL); “Sousa Coutinho Maçon?”; “A estranha prisão de Hipólito José da Costa” e “A missão de Hipólito José da Costa e a criação do Grande Oriente Lusitano”; “Os motins de Campo de Ourique”, “O Conselho Conservador, a Maçonaria e os Modelos Conspirativos” e, ainda, “O Conselho Conservador, uma organização paramaçónica?”; “Gomes Freire de Andrade. O Mártir do Mito” e “Gomes Freire de Andrade e o Neotemplarismo” (reprodução de partes do anterior livro de Marques da Costa, “Gomes Freire de Andrade. O Mártir do Mito, Setembro, 2017); “A Setembrizada. Rutura e Mudança”; ”O Sinédrio e a Maçonaria. Os Labirintos da História” (importante reflexão sobre a relação entre o Sinédrio e a Maçonaria, com curiosas referências ao maçonismo de Manuel Fernandes Tomás)]

Estamos, neste construído operativo, no “grande rio da história” (Fernando Catroga) onde o constitucionalismo português e o maçonismo caminham a par com a “entificação da ideia do progresso”. Não cumpre, aqui, dar sentido a essa “exaltação paradigmática”, por muito esforçada que ela nos pareça. Seja-nos permitido dizer que não nos é relutante admitir que a maçonaria não exerceu uma acção de especial relevo a partir dos “conventículos maçónicos”, antes da constituição (1804) do Grande Oriente Lusitano (GOL), aliás conforme a autorizada reflexão de Marques da Costa. E assumir, que depois da sua constituição e expansão, o dissídio entre as maçonarias foram tão acentuadas (tenha-se em conta a restauração da Carta) que o GOL se torna ela mesma uma força conservadora, bloqueando “os ímpetos revolucionários”. Estávamos ainda longe da unidade maçónica, isto é da formação (1869) do Grande Oriente Lusitano Unido (GOLU), sob o malhete do Conde de Paraty. Saber se esse especial momento permite de imediato dar origem a novas alterações ideológicas que sejam instrumentos de novas realidades militantes (caso de 1820) e se, posteriormente, tenha conduzido a uma sociabilidade política aguerrida no combate político após a vitória (1834) sobre o despotismo miguelista, não é assunto de momento (ver, a esse propósito, além das diferentes análise de Marques da Costa, o importante texto de Fernando Catroga, “A Maçonaria e a Restauração”, Revista de História das Ideias”, vol. 7, 155-181). Apenas cumpre, em clarificação, revisitar as ruturas (sempre) existentes na corrente do liberalismo constitucional português e no campo maçónico, e disso darmos conta e apreço, para se entender o tempo, o espaço e a dimensão da (re)construção do mito e da verdade.

Merece, porém, o excelente e merecedor estudo de Marques da Costa umas breves anotações.

A primeira reside na competente exegese interrogativa acerca da "credibilidade das fontes” e “os modelos interpretativos até hoje utilizados na leitura desses episódios” (p. 355) da mitologia maçónica. Estamos, deste modo, perante a velha querela do problema da conceituação teórica e sua legitimação; estamos, ainda e para o que nos interessa por agora, perante o problema da natureza narrativa da história e do seu ordenamento, onde, nos parece, que a “caça aos factos” (na impossibilidade de aceder a muitas das fontes primárias, porque inexistentes, dada a sua destruição nos ominosos tempos do absolutismo) não poderá por em causa um certo “discurso narrativo” (Ricouer) de acontecimentos (e a sua preservação), muitos deles de natureza memorialística e alguns narrados no espaço periodista, verificando-se o competente exame crítico dessas ocorrências a partir e mediante o entrecruzamento de outras fontes de transmissão documental, para que não se transforme a “memória em mercadoria”.

Isto é, se a narrativa e a tradição maçónica pode (também) ser entendida a partir de uma série de acontecimentos construídos ao mesmo tempo que as suas narrativas – “o acontecimento ocorre no discurso” – nos termos das conjecturas dos seus actores, então na evocação do seu passado não se deve perder o “jogo da descontinuidade” e a sua “dimensão episódica” (tempo real e de acção) a pretexto de uma qualquer aparência de continuidade específica [a tal exaltação paradigmática desse “grande rio da história”], que o torna simbolicamente ininteligível aos seus leitores. Se, de facto, algumas das narrativas pessoais criadas são meras seduções políticas dos seus protagonistas ou dos seus publicistas [exemplo: a formação do GOL, a “Conspiração de 1817”, “O Sinédrio” ou a perseguição da “Inquisição” à “pedreirada”], e que fomentaram ritos de recordação, esse rumor tornado mito, não deixando de ser um curioso labirinto entre a demanda da “realidade” e a edificação de uma putativa “ficção”, então não se pode deixar de analisar a sua natureza, origem, concepção e evolução. Para se entender como o mito tem sido alimentado e florescido em crença até aos nossos dias.  

Uma segunda questão, necessariamente ligada à anterior, trata do problema da historiografia liberal e maçónica oitocentista, sem dúvida assaz complexa, em ligação com as provas preliminares da relação estabelecida entre os maçons, entre estes e as lojas e a rede de sociabilidade daí resultante. As curiosas ramificações clandestinas dessas “histórias variáveis”, a relação entre o “ser” e o “conhecer” dessa rede relacional, ou “afinidades conviviais” (p.361) não pode ser entendida fora dessa res gestae que foi o período do Triénio Liberal [e em Espanha, comparativamente; veja-se, por expl., Irene Castells, La Utopia insurrecional del Liberalismo, Barcelona, 1989] que produziu um vínculo interpessoal e político extraordinário e que foi um acontecimento ou epifania (re)fundadora da matriz identitária das maçonarias ibéricas.

De facto, o período revolucionário nos Estados Peninsulares (1820-1823) viu nascer no tronco comum da maçonaria novas formas de sociabilidade política (carbonarismo, as sociedades patrióticas, os clubes e associações paramaçónicas – ver José Manuel Martins, Os Estados Peninsulares e as Sociedades Patrióticas, Comissão Liberato, 2016), que conservando (algumas) o seu primitivo carácter iniciático rapidamente abandonaram os seus aspectos filantrópicos e confluíram para um ativismo romântico em que jogaram importante papel político contra o absolutismo, sem que a(s) maçonaria(s), elas mesmas, tenham criado essa mesma oposição. Quer isto dizer que as dissidências maçónicas [curiosamente sobre o papel da Maçonaria em Espanha neste período, J. A. Ferrer Benimeli não dá importância ao papel das lojas, não considera as lojas “irregulares” ou “selvagens” como maçonaria, estabelecendo o pressuposto teórico de apenas se considerar a maçonaria como uma sociedade secreta de caraterísticas iniciáticas – vide Castells, 1989] introduziram uma nova leitura e complexidade ideológica, novas formas de luta política, onde a documentação, por motivos de resguardo, não existia.   

Portanto, cumpre dizer, se é certo que a escassez de fontes maçónicas nesse período [como foi dito, a documentação ou foi destruída ou nem existia] produz, na época pelos seus protagonistas ou depois pelos publicistas, uma sistemática construção ilusória e mitificadora da realidade inteligível (desse mesmo conhecimento, entenda-se), não menos certo é que uma visão inevitável que daí resulta, ao expor uma suposta esterilidade das práticas maçónicas fora da ritualística, não pode por si só conduzir e gerar sucessivos “mitos historiográficos” (note-se, apenas porque citado, a Conspiração de 1817), em prejuízo de um conhecimento visível pelos sinais que o exprimem (e são alguns, mesmo que fragmentados estejam) e pela luminosidade com que abraçaram a luta pelo constitucionalismo, como mais tarde pelo Livre Pensamento. Na verdade, se as revoluções fazem os seus revolucionários, a maçonaria cria os seus próprios maçons.

J.M.M.

domingo, 10 de junho de 2018

DIA DE CAMÕES, DE PORTUGAL E DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS - PRECE



"Senhor, que és o céu e a terra, e que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo estás — (o teu templo) — eis o teu corpo.
Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.
Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faz com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.
[...]
Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.
Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.
Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim"
[FERNANDO PESSOAin Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação]

J.M.M.

sábado, 9 de junho de 2018

À MESA DA TRINDADE – DIÁLOGOS SOBRE A MAÇONARIA



LIVRO: À Mesa da Trindade – Diálogos sobre a Maçonaria;
AUTOR: Nuno Cruz;
EDIÇÃO: Tecto de Nuvens (pref. Fernando Lima), 2018, p. 180.

LANÇAMENTO:

DIA: 11 de Junho (18,00 horas);
LOCAL: Grémio Lusitano;
ORADORES: Fernando Lima (Grão-Mestre do GOL) | António Ventura (Grão-Mestre Adjunto do GOL);



“Através de diálogos ficcionados – embora partindo de casos reais - entre um Mestre com muitos anos de prática maçónica e um aprendiz com pouco mais do que 3 meses de iniciação na Maçonaria, são abordados muitos dos aspectos menos conhecidos do grande público. Sem nenhuma ideia preconcebida, por estes diálogos passam muitas das inquietações dos maçons na sua prática quotidiana mas também se desmonta muito do que se “ouve dizer” no chamado mundo profano e não só!” [AQUI]

J.M.M.

MEMÓRIAS DE UM ESTRANGEIRADO – JOÃO MEDINA


 
LIVRO: Memórias de um Estrangeirado. Seguidas de Dany le Rouge ou o meu Maio 68 e o meu 25 de Abril;
AUTOR: João Medina;
EDIÇÃO: Colibri, 2018, p. 196.

“ (…) Significativamente, quer Memórias, quer as duas referências que se lhe seguem - Dany le Rouge ou o meu Maio 68 e O meu 25 de Abril - estão enredadas em instituições escolares, portuguesas e estrangeiras, em cujo circuito se processa uma boa parte da vida de João Medina e de sua Família.
 
Este professor universitário que, na qualidade de aluno e de docente, pisou o solo de múltiplas escolas, lembra essa experiência, não como um privilegiado espaço de desenvolvimento cultural, mas, quase sempre de cáustico ânimo, como instituição onde a cultura, se algum dia aí penetrou, acabou por se estiolar, perpetuando-se camufladamente em solenes títulos e em reputadas individualidades.
 
O testemunho de João Medina, sobre a instituição escolar, designadamente a de nível superior, alerta, quase sempre de forma indirecta, não só para articulação da crise da escola com a da cultura como também para prioridade desta sobre aquela, sendo por isso legítimo concluir que a reclamada reforma da escola, sentida nos nossos dias, carecerá de consistência, se não for preparada por uma profunda reflexão sobre a cultura, que não existe no interior da escola, uma vez que a esta se tem pedido a transmissão de um dessorado saber, não uma acção cultural vivificante.
 
É tempo de os reformadores das nossas escolas, os quais aliás abundam, produzidos pelas frequentes alternâncias políticas, olharem para os diagnósticos de muitos dos nossos escritores, particularmente dos que apelam à dinâmica cultural" [Joaquim Cerqueira Gonçalves - AQUI]
 
J.M.M.
 

quinta-feira, 7 de junho de 2018

INFÂMIA E FAMA – O MISTÉRIO DOS PRIMEIROS RETRATOS JUDICIÁRIOS EM PORTUGAL



LIVRO: Infâmia e fama - O mistério dos primeiros retratos judiciários em  Portugal;
AUTORA: Leonor Maria de Amorim e Sá; 
EDIÇÃO: Edições 70, Junho de 2018, 284 p..

LANÇAMENTO:

DIA: 7 de Junho (18,30 horas);
LOCAL: Livraria Almedina Rato (Rua da Escola Politécnica, 225), Lisboa;
ORADORES: Margarida Medeiros | Luís Bigotte Chorão;

“Neste trabalho profundamente original o leitor entrará em contacto com dois domínios muito pouco estudados - a fotografia do século XIX e o universo judiciário - confrontando-se com uma abordagem histórica e inédita sobre o retrato forense na sua relação com a investigação e a identificação criminal. 

O livro aborda dois álbuns fotográficos até agora desconhecidos e designados como «álbuns FTM», em honra do seu colecionador e proprietário, Francisco Teixeira da Mota, que as comprou num leilão. Ambos os álbuns contêm os retratos judiciários portugueses mais antigos que subsistiram até hoje. Sem quaisquer suportes informativos relativamente à sua origem, os álbuns FTM apresentam-se como um «mistério policial» cuja investigação é levada a cabo numa perspetiva alargada e interdisciplinar dos Estudos de Cultura, seguindo uma metodologia que implica uma linha de cultura visual, na qual se destacam abordagens históricas, antropológicas, sociais, políticas, estéticas e semióticas.
 
Na primeira parte é delineado o contexto internacional em que se dá o advento e o desenvolvimento do retrato judiciário no Ocidente, enquanto a segunda é dedicada à investigação do caso português dos dois «álbuns fotográficos FTM», num perímetro mais localizado e concreto, permitindo uma investigação mais aprofundada que desvenda múltiplos aspetos desconhecidos destes retratos e da sociedade portuguesa de então” [AQUI]

J.M.M.

sábado, 26 de maio de 2018

[EXTRACTO] ENTREVISTA A VASCO SANTOS - EDITOR, POETA & PSICANALISTA



Entrevista a Vasco Santos– por Diogo Vaz Pinto, in jornal i [21/05/2018]

Toda a gente fala mal do meio literário e editorial. Das costureirinhas, do muito que se corta na casaca. Mas, afinal, quantos podem encher a boca e, com autoridade, dizer o pior desse meio, pois deram a vida e tudo o que tinham pelo amor aos livros? Vasco Santos pode. E hoje está praticamente sozinho.

(…) * O que pensa que levou a que, hoje, e ao contrário do que acontecia há umas décadas, a massa crítica que se havia formado tenha deixado a cultura tornar-se outra das modalidade do consumo?
- Há múltiplos factores. Primeiro, há uma decadência da influência dos intelectuais na Europa. É fácil perceber que, hoje, um cozinheiro é mais importante do que um poeta ou um filósofo. Só isso já é absolutamente incrível. Lembro-me do Sartre ter visitado Coimbra, no pós-25 de Abril, e de como aquilo foi um acontecimento que nos deixou electrizados. Hoje, se o Sartre viesse cá (alguém dessa craveira), não tinha qualquer impacto. E é por aí que se explica a crise da intelectualidade. 
* E quanto à actual ideologia?
- Há aquele grupo de economistas de Chicago, que simplificaram estas coisas e introduziram uma dimensão a que podíamos chamar de biopolítica… Deixámos de ser um sujeito histórico, um sujeito trágico, para passarmos a ser indivíduos. Há um efeito de naturalização da vida. Se um indivíduo é mais forte, mais rápido, safa-se; se é mais fraco, e não consegue criar o seu próprio meio de sustento - se não é adepto do tal empreendedorismo -, está feito. 
* Quando se deu conta desta mudança?
 
- É curioso reler “O Prazer do Texto”, do Roland Barthes, hoje. Saiu cá em Maio de 1974. Um mês depois da revolução. Com um prefácio bestial do Eduardo Prado Coelho. E se o formos ler agora, damo-nos conta de que tudo isto que está acontecer estava já ali descrito. A tagarelice, a naturalização do discurso e a naturalização da vida. No fundo, estão a dizer-nos qualquer coisa como: somos natureza, não somos cultura. Portanto, nós dois somos dois indivíduos numa selva e temos de nos safar.
Note-se que uma das primeiras coisas que as políticas neo-liberais fizeram foi destruir a contratação colectiva. Porque isso tem também um valor simbólico. Deixa de haver contratos colectivos, só há contratos individuais: é cada um por si. Isto leva a uma sociedade que antecede o holocausto. O holocausto o que trouxe foi o inominável. É como se nos devolvesse à infância. O que é que acontece com as crianças? São muito narcísicas até aos seis, sete anos. Depois entram numa coisa que se chama período de latência, em que o narcisismo fica adormecido para que a criança possa aprender com os professores, com os colegas, ter uma vida autónoma da dos pais. Depois de um período de latência dos conflitos, na Europa, após o Holocausto, este começou a ser esquecido… Basta ver as eleições na Alemanha, em que o sucessor do partido Nazi obteve uma percentagem alarmante… E isto porquê? Porque já não há memória do Holocausto. E, mais do que isso, eles reivindicam o orgulho das suas façanhas militares. Assim, passamos deste período de latência de novo para um período de grande narcisismo dos países. Tal como a criança que vai reeditar na adolescência a conflitualidade da primeira infância. Este narcisismo, com as divisões entre os países do Sul, os do Norte, a contra-reforma versus catolicismo, e isto reflecte-se depois na nossa vida quotidiana. 
* O que é que nos escapou?
- Todos os dias passo pelas bancas dos jornais e é impressionante ver o que tomou conta das capas das revistas. Quando foi o dia das eleições na Catalunha, a revista “Sábado” tinha na capa: “O que pensam e sentem os animais?” Veja como isto se encadeia: Esta biopolítica leva a uma naturalização seja do discurso, seja da vida em geral, e leva a uma animalização do humano e a uma humanização do animal. Passa a ter direitos e não sei quê. Portanto, se o cão é molestado há uma petição…
(…) * Em tudo o que vinha já sendo apercebido, o que é que lhe parece que escapou à previsão crítica deste modelo capitalista?
- O telemóvel. Havia a noção de que a tecnologia não seria apenas uma ferramenta. Se assim fosse, era porreiro. O problema é que esta tecnologia criou uma nova forma de socialização, de relações sociais. Esta tecno-sociabilidade está, muito rapidamente (em cerca de 20 anos), a produzir alterações drásticas. Seja a nível da sexualidade, seja da própria identidade, e ao nível do fetichismo visual, também daquilo que o Mario Perniola, recentemente falecido, chamava o sex appeal do inorgânico… É como se passássemos desse conceito tão importante que é a intimidade para um novo conceito que é o da extimidade.
* A nossa vida secreta está ameaçada?
- Não é que não haja segredos, acho que as pessoas ainda os têm, há até mais segredos, mas não os contamos é aos nossos amigos. E voltando à pergunta inicial, parece-me que esta destruição dos laços sociais levou a um empobrecimento do pensamento, do pensamento complexo, daquele que não fica pela superfície dos fenómenos. Há dias ofereci o livro do Kraus [“Aforismos”] a uma pessoa que me disse: “Isto é difícil. Temos de voltar atrás, voltar a ler…” E isto acontece porque a malta está já adaptada à imediatez da frase límpida que funciona no Twitter, às notícias ao minuto…
* A nível dos impulsos há uma articulação que parece estar a sofrer de uma anquilose. Já se rejeitam muito rapidamente noções de um segundo nível de complexidade.
- Exactamente. As pessoas rejeitam um filme dizendo que é muito longo. Duas horas já é muito para se estar concentrado numa coisa só. Hoje o “Andrey Rubliov” do Tarkovski seria insuportável para a larga maioria deste público que se está a criar. A malta não aguenta porque já está habituada às séries. Não quero com isto ter um discurso profundamente conservador, do estilo: “No tempo da grande arte…”. Porque há coisas fascinantes que se estão a fazer hoje. Aquilo de que estou a falar é de um processo sistemático de alienação que está em curso. Alienação tanto no sentido psicológico, psiquiátrico, como no sentido marxista.
 
(…) * Em linha com a crítica de Karl Kraus aos jornais, hoje na televisão as vítimas parecem ser desapossadas, nem lhes sendo dado eco do seu drama, com os seus casos a servirem de mero ornamento para umas ficções globais, uma confusa narrativa que depois dilui tudo e perde toda a perspectiva sobre a realidade.
- Pois. É um drama muito abstracto. Prefere-se a abstracção porque, na verdade, ninguém - seja nos meios jornalísticos, seja nos meios políticos - está interessado naquela gente. São pobres. O que é que nos interessam os pobres? Os pobres são os desgraçados que não conseguiram sair de Vouzela. Que não se tornaram empreendedores, e que não acabaram a dirigir o Lloyd’s Bank. 
* O tipo de pacientes que lhe apareciam há 20 anos e aqueles que lhe aparecem hoje, que diferenças nota?
- Há uma discussão em curso sobre se foram as doenças que mudaram ou se foi a psicanálise que mudou. Mas, não entrando nisso, o que havia era o seguinte: os problemas num consultório de psicanálise eram problemas de natureza mais inconsciente, mais relacionados com a autognose, portanto, de imaginário. Hoje, o que temos são problemas muito reais. É como se a realidade entrasse pelo consultório dentro. E é evidente que, se um paciente fica desempregado, não há interpretação que resista. Isso leva a que hoje as narrativas sejam pobres. 
* Por exemplo?
- Narrativas hiper-realistas - o desemprego, por exemplo -, ou narrativas que se ligam a um síndroma de ansiedade generalizado, com pânico ou sem pânico. Hoje, aparece muito o pânico, mas este é precisamente aquilo que não é mentalizável. De repente, o corpo parece que começa a falir, num estado de choque. Depois temos estes problemas todos da hiper-insónia… Também há um adoecimento físico muito grande. Ao mesmo tempo que se impõe uma grande ideologia da saúde, nunca como agora se vê tantos cancros em pessoas tão novas. Tenho vários pacientes que se debatem com doenças oncológicas ou enfartes ainda muito jovens. São sinais de que estamos numa sociedade altamente neurótica, stressante, onde não há direito ao ócio. 
 
* Que impacto isso provoca?
- Se não está a trabalhar, você já sente culpa. Eu não trabalho de manhã, porque preciso de ler. Se trabalhasse de manhã estava analfabeto. Chegava a casa à noite, e o quê? Via o telejornal? Deitava-me? Depois as pessoas têm um tempo muito rotinizado. Ainda há dias foi o Natal, já veio o Carnaval, a Páscoa já foi, já estamos outra vez nas férias de Agosto…
Gostava de falar mais das edições do que da psicanálise, mas para arrumar este assunto, o que se passa é o seguinte: A psicanálise está a passar por apuros. O José Gil diz que a psicanálise foi algo feito para lidar com a histeria. Mas é evidente que a psicanálise tem um contexto, e Kraus foi um dos primeiros a malhar nela. De resto, há críticas poderosas de autores como Foucault, Deleuze, críticas a um Freud muito biológico, ao modelo médico do Freud, etc. A questão é que a psicanálise assenta em Édipo. E o que é que interessou a Freud neste mito? A primeira infância. Aquilo a que chamou processo primário. Ele diz: isto fica tudo definido até aos sete anos, e depois já é tarde. Di-lo num texto que se chama “Uma criança é espancada”. O tipo era um estilista do caraças. Hesitou sempre entre ser um cientista e ser um escritor. Tinha uma inveja enorme do Shakespeare, do Dostoiévski, do Goethe... Recebeu o Prémio Goethe, em 1930. (O ano da morte da mãe dele. Parece que não foi ao funeral da mãe, o que dá que pensar.) Mas ele interessou-se por esse processo primário, por aquilo que está em nós mas esquecido. Lembra-se do que lhe aconteceu quando tinha dois, três anos? Eu não. Mas foram momentos de vida muito intensos. Houve um tempo em que nós nem falávamos. Fomos infantes. Para onde é que isso foi?
Então, o Freud criou uma disciplina que se interessou por isso, pelo que estava por trás da barreira da amnésia. Ele dizia: a amnésia é o reposteiro que correu sobre experiências infantis angustiantes. E, de facto, as crianças sofrem que se farta. Não há infâncias felizes. Como ele era um tipo com imenso talento, um génio, vai a Sófocles… Os médicos da época liam os clássicos. Hoje não. A maioria não lê nada que não tenha especificamente a ver com a sua prática. Viena era, à época, a cidade mais cosmopolita da Europa. E ele vai a Sófocles, e vai à história do Édipo. Há mais do que uma história, mas ele vai a uma que lhe serve para ilustrar esta tragédia da sexualidade infantil. Édipo é a tragédia da nossa infância. Mas Freud viu-a como tragédia sexual. Isto é: a criança descobre a uma dada altura que não é o centro do mundo. De uma maneira simplificada, o rapaz percebe que a mamã não é dele, mas do papá. E que os pais fecham a porta do quarto. E tens de aguentar com isso e depois tens de arranjar um dia a tua própria mulher para substituir a mamã. Estou a caricaturar isto, mas o Freud andou à volta disto e chegou muito fundo.
Na esteira de Paul Ricouer, o que me interessa mais na leitura deste mito é a ideia de que Édipo é a tragédia da verdade. Ilustra que o sujeito não sabe toda a verdade sobre si próprio. Eu nunca me vou olhar de frente. Nunca saberei tudo sobre mim mesmo, e é isto que me torna um ser trágico. O inconsciente é o outro de mim mesmo. Ora, hoje estamos num tempo em que este homem trágico perdeu valor, e isto é o pilar da psicanálise e, de alguma maneira, da cultura ocidental. Nós temos uma versão deste mito em Hamlet. Aliás, o Harold Bloom chega a dizer que a psicanálise não é mais do que o Shakespeare aplicado. E é verdade que o Freud nutria pelo Shakespeare uma admiração e até inveja brutais. Hamlet é o Édipo moderno. Há três Édipos: o de Sófocles, o Hamlet, e depois temos os irmãos Karamazov. Hoje em dia, esta concepção dos nossos conflitos está muito debilitada. A ideia de pulsão foi substituída pela ideia do ‘Eu’. A palavra desejo está enfraquecido e passou a falar-se é de prazer. E o prazer é o prazer imediato. De resto, o conceito de pós-verdade mostra-nos que para a forma como hoje se encara o mundo os factos interessam cada vez menos. Édipo cede terreno para dar lugar a Narciso. É evidente que para vivermos temos de ter uma certa dose de narcisismo, mas nesta época o narcisismo extravasou o impulso vital, é um narcisismo maligno. Isto tem implicações no nosso modo de estar, na disponibilidade para os outros.
Hoje, se quiser marcar um jantar com alguém vou ter dificuldade. E não tinha noutros tempos. Telefonava ao Ernesto Sampaio, ele dizia-me: “Estou na Estrela. Aparece.” O Alface estava de pijama, levantava-se e vinha. Havia uma disponibilidade imensa que hoje não há. Você hoje está de guarda à sua leira, ao seu quintal, e, portanto, há uma diminuição das expectativas sobre a amizade.
 
* Houve algo de muito profundo que mudou na nossa forma de nos encararmos?
- Chegados a este momento, em que há este fetichismo da imagem, uma instagramação da vida… Às vezes vou almoçar e fico espantado com a quantidade de pessoas a fotografarem a comida. Hoje, estava um casal a almoçar que passou cerca de hora e meia ali, os dois agarrados ao telemóvel. Isto depois tem repercussões, como é evidente, também ao nível de uma psico-sexualidade. Freud aprofundou essa noção lembrando que a sexualidade não é uma coisa natural. Há um lado psíquico, e demonstrou que a sexualidade humana é bi-fásica. Hoje tendemos para uma naturalização da sexualidade, que se tornou uma espécie de aeróbica. O lado físico sobrepõe-se. Estou no Tinder, procuro alguém disponível num raio de não sei quantos quilómetros, e vamos a isso. Isto, evidentemente, leva ao afrouxar do lado pulsional da sexualidade. Neste quadro não é o desejo que prevalece mas o instinto, ou seja, voltamos à natureza.
* Que papel tem a ideologia nisto?
- O capitalismo conseguiu esta coisa magnífica: que a mercantilização chegasse ao amor. Tenho uma aplicação que me diz que a três quilómetros há um homem ou uma mulher a fim de ter relações sexuais comigo. Isto não é uma psico-sexualidade, porque isso implicaria desejo, uma construção… Agora, as pessoas chegam lá e até mudam de ideias: “Não, não gosto. Não me apetece. Afinal, a tipa é mais gorda do que eu esperava, tem óculos. Não quero.” É como se você chegasse a uma loja e se pusesse a escalpelizar o produto em busca de defeitos. Há, portanto, um capitalismo triunfante que vive de duas coisas: da mercantilização de tudo e da catástrofe.
 
(…) * No plano cultural, é fácil ver como isso afectou desde logo a crítica.
- Acho graça aos poucos críticos literários que ainda saem da linha porque imediatamente parecem seres de outro planeta. Esta uberização da crítica, com as estrelinhas, sempre as mesmas editoras, e um tipo de sanitização em que se tenta prevenir a todo o custo qualquer polémica. Não há réplica, nem tréplica… Porra, pá! Mas como assim? Isto agora vai ser tudo com paninhos quentes? Há quem não se dê conta de que isto já nem faz parte da história cultural do Ocidente. O que é que seria da Literatura se este fosse o modelo há séculos.
* Que diferenças vê hoje face há umas décadas?
- Começa a instalar-se um pensamento único, uma mesmidade… Editam-se muitos mais livros, mas que livros é que vendem? São sempre os mesmos e porquê? Porque a censura é brutal. Os meus livros não vão estar na Bertrand. E não são só os meus que não estão, são os livros da larga maioria dos pequenos editores. Eles não os querem.
(…) * Diz que não vivia cá… Onde cresceu?
- Estudei em Coimbra, mas sou de São Pedro do Sul. Portanto, era um rapaz da província. Simplesmente, em Coimbra havia duas livrarias maravilhosas: a Atlântida (que hoje é a Benetton…), com um excelente livreiro… E eles eram também editores. Editaram belíssimas antologias de contos, dos russos, daqui, dalém. E também o livreiro da Bertrand de Coimbra era maravilhoso. Eram os nossos pais pela forma como também nos aconselhavam.
* Quando é que se deu conta de que não lhe chegava ser leitor, mas queria fazer livros?
- Isso foi por volta de 1978. Tinha uns 19 anos, vivia em Coimbra, e o ambiente académico era mau. Era já o refluxo do 25 de Abril. Mas conhecia uma malta porreira, e desafiei-os: que tal fazermos uma revista. Estava a ler “O Prazer do Texto” certa tarde no Café Tropical e parei nesta frase: “Nem a cultura nem a sua destruição são eróticas; apenas a fenda entre ambas se torna erótica.” Esta frase do Roland Barthes ficou-me e pensei: “Olha, Fenda… Um nome porreiro.”
 
* Como foi o começo?
Aquilo foi feito de uma maneira muito jazzística. Era um grupo de pessoas que não estavam ligadas às juventudes partidárias, e éramos, portanto, pouco bem vistos, porque ou se estava na juventude do PC, ou na do PS, ou na JSD. Começou por ser uma revista. Nunca fui um erudito, nem um pensador. Também não tenho um talento especial para escrever. Acho que sou um leitor razoável. Mas entusiasmou-me o fazer a revista. 
(…) * Quando é que fechou a editora?
- Há dois anos. 
* O que se passou?
- A editora sempre foi deficitária. Mas o prejuízo passou a ser insustentável, pela renda, pelo salário que pagava a uma funcionária, pelos impostos, por tudo. As pessoas não queriam que eu fechasse a Fenda. “Não, tu és a Fenda”, diziam sem saber o que aquilo me custava. Em Coimbra sou o Vasco da Fenda. Aquilo era uma espécie de identidade, de segunda pele. Fechar a Fenda era arrancar um braço. Mas o João Bicker era meu sócio. E, por isso, também ficaria responsável pelas dívidas da editora. E eu não o queria meter nisso. Dei-lhe a quota, mas não lhe quis dar um problema. 
(…) * Entre o final dos anos 80 e até à crise de 2008, não lhe parece que houve um momento em que Portugal estava a começar a criar uma pequena massa crítica?
- Sim, estava. Mesmo em termos de leitura, houve livros que vendi muito bem. Os jornais tinham todos suplementos literários. Havia revistas com interesse.
- Hoje, parece que recuámos de volta aos anos 1960.
Eu acho que é pior. Porque na altura havia a Moraes, surgiu a “Tempo e o Modo”, havia a Arcádia, depois apareceu a Ulisseia. Editava-se pouco mas as tiragens eram significativas, e vendiam-se. Havia curiosidade. Em Coimbra a Almedina vendia os livros estrangeiros por baixo da mesa. Agora não. Entro na Fnac, vejo o Top e fujo. Acho que houve um processo de empobrecimento, a que outros países ainda vão resistindo… A Amazon contribui muito para isso, com esta digitalização do mundo. Mas isto é evidente. Você vai a livraria italiana ou a uma francesa, e aquilo ainda são livrarias. Ainda se nota ali uma força daquele médium: o livro.
(…)
LER TODA A ENTREVISTA AQUI
Entrevista a Vasco Santos” [Extrato] – por Diogo Vaz Pinto, in  jornal i, 7 de Janeiro de 2017 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

IN MEMORIAM DE ANTÓNIO ARNAUT [1936-2018]

 
 
"Por mim, busco uma flor de luz
E o poema canta
A esperança do tempo que há-de vir:
O Sol será nosso como o azul
do novo céu ainda por abrir". 
 
 [António Arnaut, in Cavalos de Vento]
 
Até Sempre, Querido Mestre!
 
J.M.M.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

MAIO DE 68, “REVOLUÇÃO-FICÇÃO”



Maio de 68, “Revolução-Ficção” – por Rui Bebiano, in jornal Público

O "Maio francês" representou um instante breve, mas ruidoso e memorável, da história contemporânea.
Em Maio de 68 explicado àqueles que o não viveram, o documentarista Patrick Rotman afirmou ser este "um objeto histórico encerrado, que devemos olhar e analisar como tal". Muito pelo contrário, é possível e mesmo indispensável encarar o "Maio francês" como um dos momentos que conferem sentido aos últimos 50 anos da história mundial, permanecendo aberto a interpretações e a efeitos que lhe atribuem uma dimensão singular e permitem considerá-lo, pelo menos por enquanto, como memorável.

O ano de 1968 foi o mais turbulento do pós-guerra, carregado de acontecimentos inesperados, violentos, exaltantes ou trágicos: a ofensiva do Tet no Vietname, o auge do movimento pacifista contra o apoio dos EUA a Saigão, a explosão por todo o lado da contestação estudantil, a afirmação do Movimento de Libertação das Mulheres e do fenómeno da contracultura, a Primavera de Praga, as barricadas de Paris, o assassinato de Martin Luther King e de Robert Kennedy, os protestos de Chicago contra o racismo, a invasão da Checoslováquia pelos tanques soviéticos, o massacre de 200 estudantes na cidade do México. Neste contexto, o que ocorreu em França poderia ser um episódio sonoro, é certo, mas curto e de limitado impacto; já o não será, todavia, se o olharmos como sinal de um tempo e prenúncio de algumas transformações.
 
A dimensão complexa do movimento tem levado a que na tentativa de o explicar se diga tudo e o seu contrário, observando-o como sintoma da doença do sistema universitário ou de uma mais geral "crise da civilização", passando pela sua associação à reconfiguração do mapa político tradicional, ao culto juvenil da revolta, à atração do hedonismo, até à luta de classes "de um tipo novo", que supostamente colocava o estudante onde antes se encontrara o proletário. Raymond Aron considerou-o "acesso febril desprovido de objetivo", não mais que um juvenil "simulacro de revolução". Régis Debray viu-o como "contrarrevolução conseguida", impondo o triunfo do consumismo sobre a moral libertária e abrindo a via para o triunfo do neoliberalismo. No sentido oposto, Edgar Morin identificou-o como "êxtase da História", explosão jubilatória de vitalidade que promoveu "uma viragem dos espíritos e das sensibilidades".

A maioria das leituras tem, pois, desenvolvido um sentido interpretativo que oscila entre o descrédito e o enaltecimento. Pelo meio encontram-se os testemunhos daqueles que viveram os acontecimentos ou o seu tempo, em França ou noutros lugares, e que em regra alternam também entre a exaltação ou o derrotismo. Soixante-huitiard passou a ser sinónimo de nostálgico que vive a romantização do seu próprio passado, indiferente ou crítico de todas as mudanças ocorridas nas últimas décadas. Do lado contrário, os que sempre tiveram dificuldade em compreender o que aconteceu insistem na inscrição do movimento num período de caos e anarquia, espelhado numa cidade à mercê dos rapazes e das raparigas que erguiam barricadas e apedrejavam a polícia em nome de um "realismo do impossível".
Para escapar às armadilhas colocadas pelas diferentes subjetividades e releituras, o caminho a seguir só pode ser o da observação do que pode ser historicamente aferido. Assim, o movimento não foi tão espontâneo quanto parece, uma vez que a intervenção estudantil e a dos grupos políticos começou mais cedo. A sua orientação foi muito diversa, separando-se claramente o ativismo libertário, a intervenção da esquerda mais radical, o papel dos intelectuais e as escolhas do PCF, que só tardiamente aderiu ao movimento, tentando aproximá-lo da luta sindical. O proclamado caos foi mais simbólico que real, pois o mapa físico e social dos acontecimentos de Paris foi circunscrito. No final, o movimento saiu derrotado, com a enorme manifestação gaullista que lhe pôs termo e uma acentuada reafirmação eleitoral da direita francesa – mais de 71% nas presidenciais de Junho de 1969 que elegeram Pompidou –, acompanhada de um enorme recuo da esquerda. Todavia, a impacto da sua dimensão "antidisciplinar", associada à recusa sistémica de um modelo social e cultural até aí hegemónico, lançou sementes que potenciaram novas atitudes coletivas. O conhecido slogan "é proibido proibir" é indicativo da afirmação dos direitos das minorias, da legitimação da diferença, da pluralidade do pensar, do agir, dos modos de viver, amar ou aprender, que foram testados no laboratório do movimento parisiense e da sua projeção mundial, plasmando futuros projetos políticos e modelos de sociedade.
 
A 50 anos de distância, pode dizer-se que ele representou um instante breve, mas ruidoso e memorável, da história contemporânea, potenciador de um certo "espírito" libertário e igualitário que pontuou o tempo e, como declara um editorial recente da revista L’Obs, "permanece um farol, e talvez mesmo um reservatório de recursos, para procurar responder aos problemas do nosso tempo". Jacques Tarnero, que esteve em Nanterre, onde a 22 de Março de 1968 o movimento despertou, chamou-lhe "revolução-ficção", momento e lugar onde por instantes foi possível imaginar e ensaiar um padrão de viragem e de renovação que é o motor de toda a mudança duradoura. Por isso ecoa ainda na consciência partilhada por diversas gerações e não pode ser um caso encerrado.
Maio de 68, Revolução-Ficção – por Rui Bebiano, [Historiador, professor da FLUC e investigador do CES], jornal Público, 10 de Maio de 2018, p. 51 – com sublinhados nossos.
J.M.M.