quinta-feira, 22 de agosto de 2019

[FIGUEIRA DA FOZ] 24 DE AGOSTO (16,30 H) – CERIMÓNIA EVOCATIVA DA REVOLUÇÃO LIBERAL DE 1820 E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS



[FIGUEIRA DA FOZ] 24 DE AGOSTO (16,30 H)CERIMÓNIA EVOCATIVA DA REVOLUÇÃO LIBERAL DE 1820 E HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS


DIA: 24 de Agosto de 2019 (16,30 horas);
LOCAL: Praça 8 de Maio, Figueira da Foz;
ORGANIZAÇÃO: CMFF | Ass. Manuel Fernandes Tomás | Associação 24 de Agosto

INTERVENÇÕES:



  • Representante da Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto;
  • Representante da Associação Manuel Fernandes Thomaz;
  • Presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz.
 
 

Todas as revoluções deixam transluzir em seus movimentos periódicos, em sua rotação ordinária e em suas fases, o cunho das sociedades que as premeditam e dos agentes que as executaram. A fortuna toma o carácter dos seus escolhidos: a desgraça toma o carácter das suas vítimas


Manuel Fernandes Tomás, in O Independente, nº7, 1 de Dezembro de 1821
 
 
A inquietude revolucionária de 1820 (nas sábias palavras de Joaquim de Carvalho) foi o termo da “dissolução moral do antigo regime” e o início da alvorada para uma “nova visão do homem, da sociedade e do Estado”, uma nova demanda e que tão bem foi compreendida por Manuel Fernandes Tomás e os seus companheiros do Sinédrio. Atente-se à “eloquência varonil” e ao “profundo saber em todos os ramos da administração pública” (nas palavras de Adrien Balbi) desvelados na brilhante apresentação, por Manuel Fernandes Tomás, do Relatório sobre o estado e administração do reino, durante o tempo da Junta Provisional do Governo Supremo, nas sessões de Cortes, de 3 e 5 de Fevereiro de 1821. Medite-se nos seus exemplares ensinamentos 
 
Os serviços prestados à causa liberal pelo patriótico movimento libertador da revolução de 1820 iluminou o país de sinais esperançosos para uma nova era, anunciando, consagrando e tornando público as venturosas tríades: “Princípios, Direitos e Deveres”; “Razão, Lei e Moral”; “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Por isso esses reivindicadores das “liberdades denegadas”, animados do bem da pátria, foram, com o seu pensamento, labor e distintas qualidades, esclarecidos na causa da liberdade Constitucional e heróis na luta contra o despotismo. Mais tarde, o republicanismo soube tomar como sua herança os princípios de cidadania presentes na gloriosa revolução de 1820, abraçando e exaltando a memória dos seus predecessores.
Glória, pois, aos Heróis de 1820.
Honra a Manuel Fernandes Tomás.
J.M.M.

 

domingo, 18 de agosto de 2019

ALMA LUZITANA – PEÇA DE TEATRO DE FERREIRA DE CASTRO



LIVRO: Alma Luzitana. Phase da Guerra Luso-Alemã em Naulila, Africa – (1914-1915);
AUTOR
: J[osé] M[aria] Ferreira de Castro;
EDIÇÃO: Belém (Pará), Typ. F. Lopes, Dezembro de 1916.

 “Esta peça teatral de Ferreira de Castro nunca foi reeditada e dificilmente o virá a ser nos tempos mais próximos, em virtude de Direitos de Autor. Seria uma boa peça para os bibliófilos da I GG.

Contudo, à falta do texto, podem ler o enredo AQUI “ [Maria Clara Vasco Campanilho Barradas, Estudos de Teatro. A Obra Dramática de Ferreira de Castro – tese de Mestrado] - Via Emílio Ricon Peres [Memória da República], com a devida vénia e forte abraço

  Ferreira de Castro (1898-1974) é um dos mais reconhecidos romancistas portugueses do século XX. Começou a escrever por volta dos 13 anos e foi apurando a sua técnica em contos e novelas. Fruto da pouca experiência, esses textos são ainda frágeis na sua composição. A partir de 1928, as suas obras, principalmente romances, revelam já maturidade na técnica e nos temas, podendo a obra do escritor ser, portanto, dividida em duas fases. Ferreira de Castro escreveu também quatro textos dramáticos, três na primeira fase e um na segunda.

A primeira peça – Alma luzitana (1916) – foi escrita no Brasil, para onde o escritor tinha emigrado. Foi publicada, mas – tanto quanto se sabe – não foi representada. Conta a história de uma família desfeita em consequência da guerra. A segunda peça – O rapto (1918) – também foi escrita no Brasil. Existe apenas um manuscrito deste texto, que foi representado na cidade de Belém, no Pará. Tem como questão central a emancipação da mulher. O Mais Forte (1922), a terceira peça, já foi escrita em Portugal. Este texto, distinguido num concurso de peças do Teatro Nacional Almeida Garrett, nunca foi editado nem representado, existindo apenas o manuscrito. Retrata a vontade de um homem em subir na vida a todo o custo. A quarta e última peça – Sim, uma dúvida basta (1936) – é a única que pertence à segunda fase da obra de Ferreira de Castro. Foi escrita a pedido do actor Robles Monteiro, mas a sua representação foi impedida por ordem superior. O texto, que só foi editado em 1994, expõe um caso jurídico de consciência e de dúvida.

A peça mais interessante e bem construída de Ferreira de Castro é Sim, uma dúvida basta. Mesmo assim, a leitura das outras não deixa de ser pertinente para se conhecer e entender o percurso literário de Ferreira de Castro que o levou até à sua fase canónica.” [AQUI]

J.M.M.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

SAHIDAS AO SUL



“Não vimos enfim mais, que mar, e céu” [P. António Vieira]

O Almanaque Republicano, blog de impressões escriptas em antiquário discurso que vil terror não cabe em nós, cumprindo o dever de veraneio segue viagem para o Sul.
 
Embalados pela brisa suave do Mondego, sem nenhuma das licenças necessárias & à sua custa, partimos para logo voltar, pois sabemos que “já não temos ideias, apenas memória” (Antonioni). Sem empacho, bem longe dos sacros deveres profanos, não temos vagar para fazer mandas novas. Não atendemos ao domicílio, mas prudentíssimos, deixaremos rasto luminoso.

Regressaremos ao recesso do lar e ao V. aconchego. Até lá … um derradeiro Vale!

Saúde, Paz e Fraternidade!

[traçado algures no Alentejo, à sombra da noute]

J.M.M. | A.A.B.M.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

[DIA 10 DE JULHO 2019] ANTÓNIO VALDEMAR DISTINGUIDO COMO SÓCIO HONORÁRIO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ESCRITORES



No próximo dia 10 de Julho, a Associação Portuguesa de Escritores [APE; foi fundada em 1973 como legitima continuação da ex-Sociedade Portuguesa de Escritores, extinta em 1965 por imposição do governo fascista de Oliveira Salazar e na sequência da atribuição do “prémio de novelística” ao escritor angolano José Luandino Vieira, então preso no Tarrafal; a SPE foi, nesse ano de 1965, assaltada e destruída pela PIDE e a Legião Portuguesa, no mesmo dia em que, por Decreto, era extinta] irá atribuir o título de sócio honorário a algumas personalidades nacionais que, ao longo das suas carreiras públicas, prestaram relevantes serviços à comunidade, com “intervenção em domínios diversos da cultura portuguesa”.

A cerimónia, que decorrerá durante um almoço no restaurante As Velhas (Av. da Liberdade, Lisboa) no próximo dia 10 de Julho (12,30 horas), vai preitear o arquitecto Álvaro Siza Vieira, o nosso querido Amigo - o decano dos jornalistas, olisipógrafo e membro da Academia das Ciências - António Valdemar, o fadista Carlos do Carmo, o brilhante ensaísta e filósofo Eduardo Lourenço, o ilustre historiador José Augusto França e o actor Rui Mendes com o respetivo diploma de sócio honorário da Associação. Refira-se que a APE contava nas suas fileiras como sócios honorários, vultos como Alexandre Babo, Carmem Dolores, Júlio Pomar, Mário Soares, Manuel de Oliveira ou Urbano Tavares Rodrigues.

António Valdemar é um bom e fraternal amigo do Almanaque Republicano. Honra-nos, desde a primeira hora, com a sua calorosa e prestimosa sabedoria, ilustração e vigor. A profundíssima alegria evidenciada no seu trabalho de escrita - que cinzela como poucos -, a qualidade e elegância dos seus dizeres, a notável luminosidade do seu saber memorialístico e a sua voz autorizada, são exemplos e estímulos para todos nós. A homenagem que a APE lhe vai prestar merece, sem dúvida, toda a simpatia e o nosso aplauso. A grande estima e elevada consideração que temos para com António Valdemar envolve um vigoroso abraço fraterno, que daqui, destes frondosos Campos do Mondego com mar ao fundo, gostosamente lhe enviamos.
Muitos Parabéns e o nosso Obrigado  
J.M.M.

terça-feira, 2 de julho de 2019

IN MEMORIAM DO PROF. ANTÓNIO MANUEL BOTELHO HESPANHA - “O HISTORIADOR QUE VEIO DO DIREITO”


O Historiador que veio do Direito” – por Isabel Salema, in jornal Público, 2 de Julho de 2019, pp.30-31

“O historiador e jurista António Manuel Hespanha, autor de uma visão alternativa do Antigo Regime suscitada justamente pela sua formação em Direito, morreu ontem [1 de Junho de 2019] na Fundação Champalimaud, em Lisboa, de cancro do cólon. Através da valorização das fontes jurídicas, mostrou que até meados do século XVIII o poder dos reis portugueses era muito limitado, e assim contribuiu para uma revisão do papel do Direito na época moderna, sublinhou ao PÚBLICO Nuno Gonçalo Monteiro, que o considera um dos historiadores da época moderna mais relevantes das últimas décadas.
Inicialmente um historiador do Direito, afirmou-se mais tarde como historiador generalista: em 1993, José Mattoso escolheu-o para coordenar o quarto volume, dedicado ao Antigo Regime, da sua História de Portugal. "Alargou enormemente o seu campo de actuação e chegou a coordenar, já no início deste milénio, a parte relativa à época moderna de uma História Militar de Portugal", acrescenta Monteiro, que teve em Hespanha o orientador do seu doutoramento e foi um dos autores da História de Portugal coordenada por Rui Ramos.

A partir de uma nova leitura dos textos e das práticas jurídicas do Antigo Regime, António Hespanha inaugurou todo um conjunto de revisões historiográficas, questionando a operacionalidade, antes do final do século XVIII, da noção de Estado que se fixou posteriormente, diz ainda Nuno Monteiro: "Algumas funções públicas, como as jurídicas ou militares, não eram até lá monopolizadas pela máquina do Estado, situação que só começa a mudar de forma mais explicita a partir do período do Marquês de Pombal. Hespanha defende que a organização da sociedade é, basicamente, corporativa, e que os senhores, as câmaras e a Igreja têm uma esfera de actuação reconhecida e sancionada pela própria monarquia."
Essa releitura, prossegue Monteiro, "foi uma autêntica revolução na historiografia portuguesa do período moderno". E se Hespanha foi, em Portugal, "o expoente dessa revolução", é importante referir que estava sintonizado "com outros historiadores do Direito, como Bartolomé Clavero, em Espanha, e Paolo Grossi, em Itália".
 
 

António Manuel Botelho Hespanha nasceu a 23 de Fevereiro de 1945 em Coimbra [o seu avô - a quem dedica a sua obra História das Instituições. Épocas medieval e moderna – era o juiz conselheiro Bernardo Botelho da Costa] onde se licenciou em Direito em 1967, depois de uma militância católica na juventude [pertenceu ao CADC, tendo sido seu Vice-Presidente, e colaborou na revista “Estudos”]. Foi assistente de Direito Romano na Universidade de Coimbra até 1974 [durante a crise académica de 1969, em Coimbra, António Hespanha integrou o grupo de docentes universitários que foi solidária com os estudantes reunidos em plenário], mas com o 25 de Abril, e a convite do então ministro Vitorino Magalhães Godinho (também historiador), mudou-se para Lisboa para assumir um cargo de diretor-geral no Ministério da Educação, nos tempos conturbados do PREC (Processo Revolucionário em Curso). Hespanha, que foi militante do PCP até 1988, permaneceria no ministério até 1978. Num livro publicado em 2008, Um Saneamento Exemplar, o médico Daniel Serrão (1928-2017) nomeou-o como um dos envolvidos no seu "saneamento político".
Numa Faculdade de Direito de Lisboa à procura de renovação, Hespanha entra então como assistente para leccionar História do Direito. Seis anos depois, talvez por causa dos anticorpos que criara no PREC, o seu doutoramento não seria aceite em Direito e a sua tese, dedicada ao sistema de poderes da monarquia portuguesa, acabará por ser defendida, a convite do historiador Joel Serrão, no Departamento de História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (UNL). "Acho que me apeteceu mostrar que o Direito continha muitos elementos para fazer História geral. Que, além de fazer parte da vida, além de ajudar a imaginara vida, o Direito tinha muita informação para fazer a História da vida. Este era o elemento provocador para os colegas historiadores não juristas", disse numa entrevista inserida num livro de homenagem publicado em 2014.

Em 1988, entra como investigador no Instituto de Ciências Sociais (ICS), onde acaba por formar (influência que também exerceria enquanto professor na UNL) uma série de discípulos, como Mafalda Soares da Cunha, José Subtil, Pedro Cardim, Ângela Barreto Xavier, Cristina Nogueira da Silva ou Rui Tavares. "Toda a vida nos convidou a pensar e a desmontar mitos, esbatendo as hierarquias professor-aluno. Foi dos primeiros nas Ciências Sociais em Portugal a criar grupos de investigação com os seus alunos. E queria ouvir o que tínhamos para dizer. Pela obra, e também pelo exemplo humano, foi um cometa, uma estrela, que passou pelas nossas vidas e as transformou", diz Ângela Barreto Xavier, investigadora do ICS.
 
É em 1994 que publica a sua tese de doutoramento, As Vésperas do Leviathan. Instituições e Poder Político. Portugal, séc. XVIII, obra em que parte de uma citação do filósofo inglês Thomas Hobbes para descrever as instituições portuguesas nas vésperas do aparecimento do Estado moderno. "O primeiro enfoque da obra de Hespanha, que aparece em História das Instituições. Épocas medieval e moderna (1982), em Poder e Instituições na Europa do Antigo Regime (1984) e depois na tese de doutoramento, é, de facto, uma forma invertida de entender as coisas. Ele contraria uma visão muito estadualista adoptada por sucessivas gerações de historiadores portugueses, segundo a qual os reis mandam e a centralização prevalece desde a Idade Média", resume Nuno Monteiro.

Para António Hespanha, no Portugal do Antigo Regime o poder do rei é apenas um entre vários: "Isso não era nenhuma anomalia ou disfuncionalidade, era próprio da cultura política daquele tempo e das monarquias do Ocidente europeu", explica o historiador Pedro Cardim. Havia algumas diferenças entre essas monarquias, mas todas albergavam um grau muito significativo de pluralismo político e jurídico.
Apesar de gostar de dizer que não era "um rato dos arquivos", fez levantamentos documentais muito vastos. "Ele identificou grande parte da tratadística jurídica e teológica produzida por portugueses na época moderna. É uma investigação bastante única sobre uma literatura pouco trabalhada, em parte por estar em latim, sendo muitas vezes nestes livros que se encontra a parte principal do pensamento político português", continua o investigador do Centro de Humanidades da UNL.

Hespanha encontrou em obras produzidas por juristas e teólogos as melhores fontes para explicar a relação entre os vários poderes: o do rei e o da nobreza, o do clero e o dos concelhos, o dos tribunais da coroa, da nobreza e da Igreja. "É uma História política bem diferente da clássica, que é a História da corte, dos reis, das rainhas. É a política entendida como técnica para manter estável e organizada uma comunidade composta por pessoas com interesses divergentes. Boa parte dessa ordem comunitária devia-se não só ao Direito, mas também à normativa eclesiástica. Há outras fontes de normatividade, como a moral, o costume, ou os estatutos locais das cidades e das vilas. Ele revelou um panorama das fontes do Direito muito mais complexo e plural, e demonstrou que no mundo do Antigo Regime a lei era um instrumento entre muitos outros instrumentos de regulação das relações comunitárias." As normas da Igreja tinham muito mais força para obrigar as pessoas a comportarem-se de determinada forma do que a própria lei régia, resume Pedro Cardim.
Com o filósofo francês Michel Foucault, que teve uma larga influência na historiografia dos anos 70 e 80, através de obras como As Palavras e as Coisas (1966) e A Arqueologia do Saber (1969), Hespanha descobriu novas formas de entender o poder, explicado como capacidade para impor comportamentos a um corpo social.

Como bom jurista, evidenciou no seu trabalho uma tendência sistémica, e alguns críticos apontam que esqueceu, por vezes, a força dos conflitos, como as lutas entre a coroa e a Igreja. "Talvez a sua principal lacuna seja a História social dos subalternos, a massa de população que, no fundo, era a destinatária dessas medidas de controlo", admite Pedro Cardim. "Hoje há toda uma série de estudos muito inovadores que estão a demonstrar que as mulheres, as populações pobres, as populações de origem africana, ameríndia, asiática que viviam nos territórios coloniais encontraram formas de subverter esses dispositivos de poder."
Na obra de Hespanha, os indivíduos não estão muito presentes e os leitores podem sentir que estão perante uma História um pouco abstracta. "É uma história de estruturas de poder, de discursos e da sua força performativa, dos modelos de pensamento que actuam sobre as pessoas e modelam a sua acção. A acção dos indivíduos pesa pouco. Os factos singulares para ele não têm um peso explicativo muito grande", concorda Pedro Cardim.

Quando o socialista António Guterres ganhou as eleições em 1995, convidou António Hespanha para o cargo de comissário-geral da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, em substituição de Vasco Graça Moura. Foi nesta altura, com a responsabilidade de festejar pela primeira vez em democracia, e num mundo já pós-colonial, a expansão portuguesa, que o historiador recentrou os seus interesses na História do império, com destaque para o Brasil. "As comemorações foram inovadoras porque ele abandonou uma perspectiva muito nacionalista baseada numa historiografia de cariz lusocêntrico, imperialista, tentando integrar as culturas descobertas", lembra a antropóloga Rosa Maria Perez, que foi sua comissária-adjunta, apontando exposições como Culturas do Índico ou O Orientalismo em Portugal. Pedro Cardim lembra a propósito que a partir do final da década de 1990 a obra de Hespanha foi acolhida com grande entusiasmo pela comunidade historiográfica brasileira. "O seu pensamento esteve na origem de numerosas investigações inovadoras acerca do passado colonial, em especial sobre as instituições que os portugueses foram implantando à medida que conquistavam terras e submetiam as populações autóctones da América do Sul."
Em vez de falar de um poder unívoco exercido pelos agentes de um Estado forte baseado em Lisboa, Hespanha evidenciou, como já tinha feito para Portugal, a convergência de uma pluralidade de poderes. "Insistiu numa dominação muito mais complexa e difusa, num poder régio cheio de limitações e, ainda, no decisivo envolvimento, na empresa colonial, de grande parte da população brasileira de origem portuguesa." Uma perspectiva que problematiza a dicotomia de colonizador-colonizado, sublinha Pedro Cardim, e em que alguns não se reviram. "Uns criticaram-na por insistir, acima de tudo, no modo como o poder era exercido e por dedicar pouca atenção à resistência contra esse poder, em especial da parte dos indígenas e dos africanos escravizados. A outros pareceu, erradamente, que a leitura de Hespanha matizava o carácter violento da colonização portuguesa."
 
 

Quando saiu da Comissão dos Descobrimentos, em 1998, Diogo Freitas do Amaral convidou-o para dar aulas na recém-criada Faculdade de Direito da UNL, onde permaneceu 12 anos como professor catedrático, até à sua jubilação em 2011. Voltou a focar-se no Direito, até ao regresso, já este ano, com o livro Filhos da Terra, Identidades Mestiças nos Confins da Expansão Portuguesa, à História do império. Ângela Barreto Xavier recorda que o historiador dizia que este era o seu livro "sobre os etc.", os anónimos que fizeram o chamado império português: ali "lembra que os portugueses eram uma minoria, e que a colonização foi também feita de muita gente que vivia nos territórios, mas contraria por completo a ideia do império como um imenso Portugal, a tese de um império brando que ainda é defendida por muitos, e diz com todas as letras que a colonização portuguesa não foi nem mais nem menos violenta do que outras". Os luso-tropicalistas que gostaram do livro, comentou Hespanha recentemente com Ângela Barreto Xavier, não terão percebido o que realmente ele escreveu.

 O Historiador que veio do Direito“ – por Isabel Salema [com Lucinda Canelas], jornal Público, 2 de Julho de 2019, pp. 30-31 – com anotações e sublinhados nossos.

J.M.M.

sábado, 29 de junho de 2019

NO CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE RAMON MACHADO DE LA FERIA (1919-2003)





Ramon Machado de La Feria nasceu na freguesia de São Salvador, concelho de Serpa a 27 de Junho de 1919. Era filho de Helena da Ascensão do Prado Machado e do médico republicano e ilustre maçon Ramon Nonato de La Feria 


[nascido a 18 de Julho de 1886, em Serpa – cf A.H.de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria, vol. 1, p. 563; bacharel em medicina e republicano militante do partido Unionista, de Brito Camacho; é ele que anuncia a boa-nova da implantação da Republica ao povo de Serpa; combateu em França na I Grande Guerra e foi um íntegro combatente contra o Estado Novo, foi preso por diversas ocasiões (na sequência da revolta da Madeira; entre 1937-1939, curiosamente acusado de integrar a maçonaria - Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 29, registo nº 5776), presidiu (1925) à direcção do Grémio Alentejano; pertenceu ao MUD e esteve sempre presente nos diversos combates eleitorais; Ramon Nonato de La Feria foi iniciado na Maçonaria com o n.s. de Claude Bernard, em 1914, na Loja Cândido dos Reis, onde teve diversos cargos, entre eles de Venerável; pertenceu ao Supremo Conselho do grau 33 do REAA, tendo sido eleito Presidente do Conselho da Ordem para o período de 1927-29 e 1930, demitindo-se, neste ano, a 12 de Setembro; integrou, em 1930, a Comissão de Estudos Profanos do GOLU, que presidiu – cf. António Ventura, Uma História da Maçonaria em Portugal, p, 698, 736; integra, em 31 de Março de 1935, o Conselho da Ordem, então presidido por Maurício Costa, mantendo-se no cargo até ao 25 de Abril de 1974; morre a 10 de Novembro de 1970, em Lisboa]


Frequenta os seus estudos liceais no Liceu Camões (em Lisboa), cursou medicina na Universidade de Lisboa (no Campo Santana), ingressando na carreira médica com a especialidade em Anestesiologia Cardíaca. Chefe de clínica, foi desde 1960 responsável pelos Serviços de Anestesiologia e Reanimação do Hospital Pulido Valente. Teve copiosos trabalhos de investigação publicados e diversos cargos na Ordem dos Médicos  e da Liga dos Direitos do Homem


Como estudante universitário foi preso a 28 de Março de 1947, por mandado de captura do inspector da PIDE, capitão José Catela, e enviado para a cadeia do Aljube. Tinha-lhe sido atribuído o crime de ter assinado em nome da direcção universitária de Lisboa do MUD Juvenil (como outros seus companheiros: José Carlos Gonçalves, Fernando Pulido Valente, Joaquim Ângelo C. Rodrigues e Carlos Gomes) e distribuído, um panfleto ciclostilado intitulado “Em defesa da Universidade” e onde se verbera a iníqua detenção do estudante da Faculdade de Ciências (e também membro do MUD Juvenil – organização ilegal e clandestina para a PIDE) Mário Ruivo. Teve como seu defensor em Tribunal Plenário, o advogado João Manuel da Palma Carlos. Cumpriu pena de prisão em Caxias, com perda de direitos políticos por cinco anos.    




Isto é, desde a primeira hora que Ramon Machado de La Feria marcou a sua posição contra o salazarismo e o Estado Novo. Republicano assumido, pertenceu à direcção do MUD Juvenil e integra ao longo da sua vida diversos centros republicanos, assumindo mesmo a Presidência da Comissão Permanente das Assembleias Gerais dos Centros Republicanos de Lisboa, “procedendo à reestruturação das instituições [republicanas] que chegaram até ao 25 de Abril” – cf. António Valdemar, República, 10 de Dezembro de 2003, p. 8. -, presidindo às Comissões Cívicas da Comemoração do 5 de Outubro até à sua morte. 


Em 1952, estando a cumprir o serviço militar como oficial miliciano, foi de novo detido pela PIDE (no Aljube e Caxias, durante 2 meses e meio) por “envolvimento num movimento de oficiais milicianos ligados a Henrique Galvão” [António Valdemar, ibidem] contra Salazar. Em 1968 é de novo preso no Aljube e em Caxias, acusado de ser um dos responsáveis da tentativa de derrube do regime, com apoio de um grupo de militares. Já em 1973, enquanto presidente da Ordem dos Médicos, Ramon Machado de La Feria é preso por ter denunciado em público a intervenção da PIDE no assassínio do estudante do MRPP, Ribeiro dos Santos. Depois de Abril de 1974, integra o MDP/CDE e depois filia-se no PS.  


Em Fevereiro de 1973, seguindo os passos do seu ilustre pai, inicia-se na Maçonaria com o n.s. de Marat, na Loja Simpatia e União [A Loja Simpatia e União, foi das poucas oficinas que não abateram colunas; tinha em Abril de 1974 cerca de trinta e seis obreiros – ver Casa 4. A Loja dos Grão-Mestres Sympathia e União 1859-2009, p. 108], por proposta do então Grão-Mestre Luís Hernâni Dias Amado [n.s. Zacuto Lusitano]. Pertenceu, em 1975, à Loja Cândido dos Reis (ver Manuel Poirier Braz, Eu Maçon me Confesso, p. 38 e ss; foi nesta loja que o seu pai tinha sido iniciado), tendo sido nomeado Grande Secretário das Relações de Justiça do Conselho da Ordem, depois Presidente do Conselho da Ordem Interino (1975 e 1976); atinge o grau 18 (cavaleiro Rosa-Cruz) em 1975, o grau 25, em 1977, grau 30, em 1979 e o grau 33, em 1980, com um curioso trabalho “Maçonaria - Sociedade Iniciática”, integrando o Supremo Conselho do Grau 33 do REAA. Em 1987 pertence ao quadro da Loja José Estêvão. Com um notável curriculum maçónico, é eleito como Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano para o período entre 1990 a 1993, tendo como Adjuntos António [Maria Lobo de Vasconcelos] Corte-Real e Mário de Sousa Dias. Data desse período uma “grave querela” que opõe o REAA e o RF. 


Foi associado do Internato de S. João, integrando por diversas vezes a sua direção, foi sócio da Escola-Oficina nº1, presidiu à Mesa da Assembleia Geral do Centro Republicano Almirante Reis, do Centro Republicano Fernão Botto-Machado, do Centro Republicano da Ajuda e foi membro da Comissão de Romagem aos Heróis de 5 de Outubro (Cemitério do Alto de S. João). A 25 de Julho de 1989 foi feito Comendador da Ordem da Liberdade.   


Morre vítima de doença prolongada a 25 de Maio de 2003


J.M.M.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

[SANTA COMBA DÃO] COLÓQUIO JOSE DA SILVA CARVALHO E O BICENTENÁRIO DA REVOLUÇÃO LIBERAL DE 1820




DIA: 1 e 2 de Junho 2019;
LOCAL: Casa da Cultura de Santa Comba Dão (S. Comba Dão);

INTERVENÇÕES/ORADORES:

 
- António Neves [Breve Biografia de José da Silva Carvalho …];

- Ana Cristina Araújo [As revoluções liberais na Europa e em Portugal – o tempo de José da Silva Carvalho];

- Maria João Mogarro [José da Silva Carvalho e a Revolução de 1820];

- José Luís Cardoso [José da Silva Carvalho, o Governo do Reino e as Cortes Constituintes de 1821-22];

- Luís Nuno Espinha da Silveira [Em defesa do deficit das Contas Públicas. José da Silva Carvalho como Ministro da Fazenda (1833-1836);

- Luís Bigotte Chorão [José da Silva Carvalho como Ministro da Justiça, fundador e primeiro Presidente do Supremo Tribunal de Justiça]

- António Ventura [José da Silva Carvalho e a Maçonaria]

- José Adelino Maltez [O conceito de liberalismo prático de José da Silva Carvalho e o seu papel de liderança na construção do regime cartista];

- Silvestre de Almeida Lacerda [O fundo documental de José da Silva Carvalho na Torre doo Tombo];

- Nuno de Siqueira [Memória de José da Silva Carvalho na família];

 
Visita à Igreja Matriz de S. João de Areais | Visita ao Jardim Silva Carvalho (Vila Dianteira) | Visita à casa de José da Silva Carvalho

 
A não perder esta excelente iniciativa da Câmara Municipal de Santa Comba Dão a um dois seus mais ilustres filhos e dedicado obreiro da revolução liberal de 1820.

 
J.M.M.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

[CICLO DE CONFERÊNCIAS – DIÁLOGOS COM SENTIDOS] – O ESTADO LAICO?



CONFERÊNCIA: O Estado Laico?

DIA: 31 de Maio 2019 (21,00 horas);
LOCAL: Auditório do Museu Municipal Santos Rocha (Figueira da Foz);

ORADORES: Catarina Marcelino [Secretária de Estado da Cidadania e Igualdade] | Pedro Vaz Patto [Juiz e Pres. da Comissão Nacional Justiça e Paz] | António Ventura [Historiador e Grão-Mestre Adjunto do Grande Oriente Lusitano;

MODERADORES: Paulo Mendes Pinto [Universidade Lusófona] | Joaquim Franco [Investigador na Área das Ciências das Religiões];

 
► Trata-se da VIII Conferência, e última, do Ciclo “Diálogos ComSentidos”, que todos os meses, na cidade da Figueira da Foz, um grupo informal e inter-religioso - com apoio da Câmara Municipal local, a Área de Ciências das Religiões da Universidade Lusófona e o INTEP – promove. As excelentes sessões temáticas já realizadas, com a participação de diferentes sensibilidades filosóficas e/ou religiosas, tiveram como temas: “Humano e Divino”, “A Igualdade de Género”, “A Morte”, “O Mistério e a Fé”, “A Meditação”, “Os Jovens e a Comunicação”, “A Sustentabilidade”.

Esta última sessão, do actual Ciclo, terá como tema - “O Estado Laico?” e realizar-se-á no Auditório do Museu Municipal Santos Rocha, pelas 21 horas. 

A não perder.

J.M.M.