segunda-feira, 20 de maio de 2019

A HOSTILIDADE AOS PROFESSORES – POR JOSÉ PACHECO PEREIRA


A Hostilidade aos Professores" – por José Pacheco Pereira, in Público, 18 de Maio de 2019

[Os professores têm muitas culpas, mas isso não esconde que têm hoje uma das mais difíceis profissões que existem. E que, sem ela, caminhamos para o mundo de Camilo]  
A hostilidade aos professores é evidente em muitos sectores da sociedade portuguesa. Manifestou-se mais uma vez no último conflito gerado pelas votações dos partidos na Assembleia atribuindo aos professores a contagem integral do tempo de serviço. Antes, durante e depois deste processo, a vaga de hostilidade aos professores atingiu níveis elevados, com a comunicação social a escavar fundo a ferida, com sondagens orientadas e uma miríade de artigos de opinião e editoriais.

Valia a pena parar para pensar, porque este movimento de hostilidade é mais anómalo do que se pensa, e acompanha outros, como o ataque aos velhos como sendo um “fardo” dos novos. Mostram que estamos a entrar numa cosmovisão social que implica um retrocesso enorme naquilo a que chamamos precariamente “civilização”. É preciso recuar muito para encontrar ataques aos professores, o último dos quais teve expressão quando a escola laica, em países como a França, foi um alvo importante da Igreja, que tinha o monopólio do ensino.
Mas eu seria muito cuidadoso sobre as razões dessa actual hostilidade, porque ela incorpora aspectos muito negativos da evolução da nossa sociedade. É um caminho que muita gente está a trilhar, sem perceber que ele vai dar a um profundo retrocesso. E isso acontece muitas vezes na história: anda-se para trás quase sem se dar por ela, contando com a inacção, a apatia, ou a acédia de quem deveria reagir. Como a democracia é uma fina película contra a barbárie e é apenas defendida pela vontade dos homens e não por nenhuma lei da natureza, mais vale prevenir com todos os megafones possíveis.

Há vários aspectos na actual hostilidade. Há uma agravante no caso português que tem a ver com a vitória muito significativa da ideologia da troika, que está longe de ter desaparecido e, nalguns casos, migrou para sectores que lhe deveriam ser alheios e não são: os socialistas, por exemplo. Disfarçada de “economia”, essa ideologia assenta numa visão pseudocientífica, muito rudimentar e simplista, cheia de variantes neomalthusianas, que se apresentou como não tendo alternativa, a nefasta TINA. Isto encheu-nos as cabeças e não saiu delas.
Essa ideologia centra-se na crítica do Estado, em particular do Estado social, e transforma os funcionários públicos em cúmplices de uma rede de privilégio, sendo descritos apenas como “despesa” excessiva. Vale a pena ensinar-lhes um pouco de história europeia e lembrar-lhes o papel do Estado desde Bismarck como instrumento para impedir sociedades bipolares de “proletários” e ricos, com a consequente conflitualidade social extrema. Acresce que esse processo criou à volta do Estado uma classe média, os tais desdenhados funcionários públicos, que não só funcionou como tampão como arrastou muita gente que vinha da pobreza e acedeu à mediania. A economia privada e o dinamismo das empresas, quando existiu ou existe, teve e tem igualmente esse papel, mas não chegou para criar este elevador social.


Portanto, gritem contra a função pública e os malefícios do Estado - que também existem como é obvio -, mas percebam que o pacote de não ter professores, enfermeiros, médicos, jardineiros, funcionário das repartições, leva atrás de si o ensino e a saúde pública, que são componentes essenciais do elevador social, o único meio de retirar as pessoas da pobreza, quer no privado, quer no público. Pais lavradores, que conheceram a verdadeira pobreza, filha professora primária ou funcionária pública, neto estudante universitário – sendo que o papel da educação é um elemento fundamental para esta ascensão.
Depois, há outros ingredientes. Os professores protestam, fazem greves, boicotam exames, fecham escolas, e hoje há uma forte penalização para as lutas sociais. Quem defende os seus interesses é penalizado e de imediato tem contra si muita comunicação social, o bas-fond das redes sociais e a maioria da opinião pública. São os enfermeiros, os camionistas, os professores, os trabalhadores dos transportes – manifestam-se, são logo classificados de privilegiados e egoístas. Os mansos que recebem migalhas no fundo do seu ressentimento invejam quem se mexe. Sem mediações, a sociedade esconde os que não precisam, e pune os que lutam. As greves hoje são solitárias.

O papel mais negativo é o da comunicação social, que se coloca sempre na primeira linha do combate ao protesto social. Despreza por regra os sindicatos, que considera anacrónicos, aceita condições de trabalho de sweatshop e ajuda a apagar e a tornar incómoda a memória de que o pouco que muitos têm no mundo do trabalho foi conseguido com muito sangue, e não ficando em casa a jogar gomas no telemóvel ou a coscuvilhar no Facebook.
Por fim, e o mais importante, há uma desvalorização do papel do professor, de ensinar, de transmitir um saber. Vem num pacote sinistro que inclui o falso igualitarismo nas redes sociais, o ataque à hierarquia do saber, o desprezo pelo conhecimento profissional resultado de muito trabalho a favor de frases avulsas, com erros e asneiras, sem sequer se conhecer aquilo de que se fala. É o que leva Trump a dizer que se combatia o incêndio de Notre-Dame com aviões-tanques atirando toneladas de água, cujo resultado seria derrubar o que veio a escapar, paredes, vitrais, obras de arte. É destas “bocas” que pululam nas redes sociais que nasce também a hostilidade aos professores. É o ascenso da nova ignorância arrogante, um sinal muito preocupante para o nosso futuro.

Os professores têm muitas culpas, deveriam aceitar uma mais rigorosa avaliação profissional, deveriam evitar ser tão parecidos como estes novos ignorantes, deveriam ler e estudar mais, deveriam ser severos com as modas do deslumbramento tecnológico, mas isso não esconde que têm hoje uma das mais difíceis profissões que existe. E que, sem ela, caminhamos para o mundo de Camilo. Não de Eça, mas de Camilo, do Portugal de Camilo. Verdade seja que isto já não significa nada para a maioria das pessoas. Batam nos professores e depois queixem-se …"

A Hostilidade aos Professores – por José Pacheco Pereira, Público, 18 de Maio de 2019, p.8  – com sublinhados nossos.

J.M.M.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

[“LIBERALISMOS”] REVISTA DE HISTÓRIA DAS IDEIAS, Nº 37



Coord: Professores Doutores Luís Reis Torgal e Ana Cristina Araújo

LANÇAMENTO DO VOLUME 37:

DIA: 29 de Maio de 2019 (15,00 horas);
LOCAL: Faculdade de Letras da Un. de Coimbra (Anfiteatro III, 4º piso);
ORADOR: Professor Doutor Jorge Alves;


► "Este volume da Revista de História das Ideias integra contribuições sobre aspetos fundamentais da cultura política em Espanha e Portugal no século XIX, que permitem rever e ampliar a compreensão histórica do Liberalismo nos dois países ibéricos. Inscrito em reflexões de autores oitocentistas e objeto de revisão da historiografia crítica atual, o liberalismo, permeável a diversas incorporações doutrinais e expressões partidárias e políticas, foi sendo lido e interpretado de maneira diferente. Com argumentos e razões nem sempre idênticos, os historiadores associaram, todavia, o despertar da liberdade política e de pensamento à ideia de Revolução.

Em Portugal, os revolucionários que proclamaram a Revolução de 1820 afirmaram-se liberais e seguidores da herança constitucional de Cádis (1812), mas também da tradição legislativa «liberal» portuguesa. Uma tal afirmação não invalida o reconhecimento de que, para eles, liberalismo económico e liberalismo político não eram duas faces da mesma moeda. Na visão do presente e do passado, as duas correntes de ideias nem sempre se irmanaram no horizonte de expectativa das elites dirigentes. Por outro lado, o alinhamento ibérico atlantista do liberalismo vintista e o descompasso do processo político, posterior a 1823, entre Portugal e Espanha, convergiram em termos de resultados. Do ponto de vista político e institucional os avanços do liberalismo na Península Ibérica foram travados ao longo das primeiras três décadas do século XIX por uma forte reação conservadora. Nos dois países, as clivagens no campo liberal e a forte oposição absolutista e ultramontana deixaram marcas profundas no espaço público. Depois do final da década de trinta do século XIX, as mais importantes instituições e reformas lançadas por governos liberais parece terem sobrevivido à guerra civil e a lutas intestinas entre fações e correntes políticas.

Neste volume da Revista de História das Ideias, o enfoque dado aos liberalismos abarca, para além dos aspetos institucionais, o pensamento político, os usos da linguagem e da ideologia e o estudo comparado dos sistemas políticos. Contempla o campo das ideias e a história do pensamento político e do constitucionalismo. Integra as fações e os partidos a favor e contra os sistemas de governo, de base parlamentar e de cunho monárquico-constitucional, na própria trajetória histórica de liberalismo. Em suma, privilegia o campo das ideias, a análise comparada, os estudos sobre sistemas e práticas eleitorais, formas de sociabilidade e esfera pública, movimentos de opinião, estratégias discursivas e estilos parlamentares.

Sem diminuir o esforço dos ideólogos para forjar uma genealogia histórica do liberalismo, cumpre assinalar a emergência do termo liberal no vocabulário político dos atores sociais das primeiras revoluções ibero-americanas. Numa época de intensa internacionalização de ideias e de aspirações políticas comuns, espanhóis, latino-americanos e portugueses utilizaram, com diversos matizes, o termo «liberal» como bandeira política nos dois lados do Atlântico. No campo lexicográfico, o novo conceito e todas as expressões da linguagem usadas para exprimir anseios e conquistas doutrinais semelhantes ou derivações práticas da mesma matriz teórica e política vulgarizaram-se na Europa meridional e nos espaços francófono e anglófono do Atlântico norte. A esta escala pode talvez encarar-se o liberalismo como um «macroconceito» (Javier  Fernández   Sebastián) difuso e polémico, utilizado por seguidores e adversários, disputado  e reconstruído continuamente por sucessivas gerações.

Com o passar do  tempo  não  se  esbateu,  contudo,  a  ideia  de  associar  o   liberalismo ao constitucionalismo moderno e à implantação de regimes políticos  representativos. Esta evidência norteou também a organização deste volume da Revista de História das Ideias, concebido, especialmente, para assinalar a comemoração do bicentenário da primeira Revolução Liberal Portuguesa de 1820” [AQUI]

REVISTA DE HISTÓRIA DAS IDEIAS Nº37 AQUI DIGITALIZADA

A não perder.

J.M.M.

sábado, 11 de maio de 2019

CONFERÊNCIA – AQUILINO RIBEIRO, CARBONÁRIA E MAÇONARIA



CONFERÊNCIA: Aquilino Ribeiro, Carbonária e Maçonaria

ORADOR: Prof. António Ventura [Centro de História da FLUL];

DIA: 16 de Maio 2019 (10,15 horas);
LOCAL: Biblioteca Nacional de Portugal (Campo Grande 83, Lisboa);

A Biblioteca Nacional de Portugal acolhe no próximo dia 16 de Maio de 2019 um Colóquio consagrado à figura e à obra de Aquilino Ribeiro. A partir da oportunidade oferecida pelo centenário da primeira edição do romance Terras do Demo (1919), esta iniciativa está centrada na análise dos anos que decorreram entre o regresso de Aquilino a Lisboa, vindo do seu primeiro exílio em Paris, e o início do segundo exílio do escritor, ditado pela sua participação na frustrada tentativa de derrube da ditadura militar, em Fevereiro de 1927.
 
Os participantes no Colóquio estão convidados a explorar a Lisboa de Aquilino, articulada entre os seus diversos lugares de residência na cidade, o Liceu Camões, onde ensinou, e a Biblioteca Nacional, na qual ingressou pela mão de Raúl Proença e Jaime Cortesão. Estarão também presentes a França e a Alemanha que observou nestes anos e veio a transpor para títulos tão importantes como É a Guerra e Alemanha Ensanguentada.
 
Numa época marcada pela I Guerra Mundial e pela implantação da República em Portugal, este é um dos mais sugestivos períodos da vida do grande escritor que foi Aquilino Ribeiro, marcado pela escrita de viagens, pela criação de personagens intemporais como as que dão vida a O Malhadinhas e ao Romance da Raposa ou, ainda, pelos textos que compôs para o Guia de Portugal de Raúl Proença.
 
A par deste Colóquio, será inaugurada uma exposição biobibliográfica ilustrativa da temática debatida no evento. A exposição estará patente na Sala de Referência da Biblioteca Nacional entre 16 de Maio e 30 de Agosto, com entrada livre. O Colóquio «Aquilino, Anos 20: entre o exílio e as geografias de Lisboa» é organizado conjuntamente pelo Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa (CEG-ULisboa) e pelo Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (CLEPUL), em parceria com a Biblioteca Nacional de Portugal.

 
Esta iniciativa é realizada no âmbito das actividades do grupo de investigação ZOE – Dinâmicas e Políticas Urbanas e Regionais do CEG e do grupo de Investigação Literatura e Cultura Portuguesas do CLEPUL. A Exposição beneficia da colaboração complementar do Arquivo e da Biblioteca da Escola Secundária de Camões” [AQUI] - sublinhados nossos]
 
A não perder.
 
J.M.M.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

quinta-feira, 25 de abril de 2019

QUE VIVA ABRIL! – 25 DE ABRIL SEMPRE!


CAMARADA

“A asa não quebra
vibra
às vezes
como lâmina solitária
Separa-se do corpo
e parte
pelo espaço
que a aceita como é
foi assim camarada
assim será.”
[Mário-Henrique Leiria
 
 
 
 

quinta-feira, 18 de abril de 2019

DIA 20 ABRIL - HOMENAGEM A EDUARDO GAGEIRO


Homenagem a Eduardo Gageiro em Côja


DIA: 20 de Abril de 2019 (15,00 horas);
LOCAL: Editorial Moura Pinto, Côja;

PROGRAMA:

15,00 HORAS: Casa Santa Clara (casa do Dr. Fernando Valle) – Recepção a Eduardo Gageiro;

15,15 HORAS: sede da Editorial Moura Pinto – Percurso a pé até ao Espaço Fernando Valle (sede da Editorial Moura Pinto);

15,30 HORAS: Sessão Solene e Inauguração da Exposição de Fotografia de Eduardo Gageiro.

No próximo dia 20 de Abril, num evento promovido pela Editorial Moura Pinto, vamos evocar a Revolução dos Cravos de 1974 com uma homenagem ao fotógrafo Eduardo Gageiro.

Para tal convocamos os arganilenses e outros antigos a estarem nesse dia, por volta das 15h00, em Santa Clara, Côja, junto à casa que foi de Fernando Valle para assim evocarmos também esta lídima figura da democracia portuguesa que Eduardo Gageiro já igualmente homenageou num belíssimo retrato que está na sede da, Editorial Moura Pinto.

Aí, nesse sítio de forte simbologia, esperamos a chegada do fotógrafo de Abril. E de lá seguiremos a pé até ao Espaço Fernando Valle, sede da Editorial, onde se inaugurará uma belíssima exposição deste mestre da fotografia portuguesa.

Nesse local, decorrerá uma sessão solene de homenagem com uma intervenção do presidente da Editorial Moura Pinto, Carlos Teixeira, que fará o elogio do fotógrafo já há muito reconhecido e laureado.

Após esta cerimónia haverá uma merenda no parque de Côja. Desde já, a direcção da Editorial Moura Pinto agradece a disponibilidade da Câmara Municipal de Tábua e da Tuna Mouronhense, de Mouronho. Agradece também à Câmara Municipal de Arganil e à União das Freguesias de Cója e Barril de Alva e ao seu presidente João Tavares pelo empenho e ajuda na concretização desta jornada de cultura e de agradecimento.
 
 
Nesse mesmo dia será distribuído gratuitamente um jornal celebrativo de Eduardo Gageiro, que nasceu em Sacavém, a 16 de Fevereiro de 1935, e é autor, entre outros trabalhos em jornais, livros e exposições, do magnífico volume "Revelações", livro que tem uma mensagem de Mário Soares, um dos ilustres retratados, em que afirma que "Gageiro bem merecia - ele próprio - figurar no álbum que, com tanta mestria, ofereceu à Arte Portuguesa".

Figura agora nesse jornal da Editorial Moura Pinto lançado numa região a que o artista está ligado por fortes laços familiares. Esse jornal conta com contribuições de diversos artistas e escritores nacionais e constituirá no futuro um objecto interessantíssimo para qualquer bibliófilo atento, ao mesmo tempo que será uma referência para a biografia de Eduardo Gageiro e para o estudo e a história da fotografia em Portugal […]”

[Carlos da Capela - com sublinhados nossos].

J.M.M.

VASCO A REGRA DE OURO – POR ANTÓNIO VALDEMAR


Vasco a Regra de Ouro” – por António Valdemar

[Texto de António Valdemar para o Catálogo da ExposiçãoVasco de Castro Cartoons. Ena pá … cá está ele outra vez!”, a decorrer até ao próximo dia 30 de Abril de 2019, no Museu Rafael Bordalo Pinheiro, ao Campo Grande] 

Vasco, no seu melhor, nas várias dimensões da sua energia criativa, na visceral contundência da intervenção satírica, dispersa em jornais, em revistas e outras publicações, encontra-se, a partir de agora, no Museu Rafael Bordalo Pinheiro.

Estamos perante cerca de uma centena de trabalhos a propósito de figuras e acontecimentos nacionais e internacionais das últimas décadas e, ainda, de comentários a episódios do quotidiano. Pertenciam à coleção de um amigo de há longos anos, e sempre presente nas horas boas e más, Mário Beja Santos, que decidiu oferecer este espólio tão diversificado ao Museu Rafael Bordalo Pinheiro. É um contributo muito significativo para a valorização do património cultural de Lisboa.

Referência obrigatória do desenho de imprensa, Vasco [Agostinho Vasco da Rocha e Castro], nos anos 40, enquanto frequentava o liceu, em Vila Real de Trás-os-Montes, despertou a sua vocação através da leitura d’O Mosquito (criação inovadora de Eduardo Teixeira Coelho, o inesquecível ETC, um açoriano universal cujo centenário do nascimento decorre em 2019), ao mesmo tempo que, também, descobria Picasso. A Guernica comunicou-lhe o gosto radical e excessivo das formas. No Paris Match, conheceu os desenhos de Siné, Bosc e Chaval. Durante os anos 50, na Faculdade de Direito de Lisboa, em vez de estudar os manuais, as sebentas e os códigos preferiu o Grupo Cénico da Faculdade de Direito, os Jograis de Lisboa e a tertúlia surrealista do Café Gelo.

Logo que principiou a guerra colonial Vasco radicou-se em Paris e só regressou a Lisboa, após o 25 de Abril. Viveu e sentiu com intensidade a Revolução dos Cravos. De 1961 a Abril de 1974 residiu, quase sempre, em Montparnasse. Ali chegavam notícias de Portugal. Embora visado pela censura, o suplemento do Diário de Lisboa, A Mosca trazia as Cartas da Guidinha, assinadas por Manuel Pedroso, um dos pseudónimos de Luis de Sttau Monteiro. Fazia a autópsia possível da esclerose múltipla do regime, em desespero com a Guerra Colonial, sem controlar a emigração crescente de intelectuais e de trabalhadores; a resolver com a polícia de choque, os gorilas e a prisão em Caxias, no Aljube e em Peniche, o recrudescimento das manifestações sindicais e dos protestos nas universidades.

Foi no tempo irrepetível dos textos malditos de Luís Pacheco e Mário Cesariny; da rebeldia poética de Alexandre O’Neill, de Alberto Pimenta, da ferocidade de Natália Correia; das crónicas panfletárias de Artur Portela, do sarcasmo escaldante de José Vilhena, na História Universal da Pulhice Humana, na Branca de Neve e os 700 Anões, no Tenha Maneiras e no Filho da Mãe. Custou-lhe o vexame e as torturas nos interrogatórios da PIDE, a prisão no Aljube, em Caxias, a apreensão dos livros.

No Dinossauro Excelentíssimo, Cardoso Pires desmascarou Salazar e a classe política que o sustentava. No Delfim, Cardoso Pires também desmentiu as falsas promessas anunciadas por Marcelo Caetano. Permanecíamos, orgulhosamente sós, com a mesma política e as mesmas instituições repressivas. Apenas mascaradas com outros nomes.

Nos jornais, no parlamento e nos púlpitos – de quase todas as dioceses – manifestavam regozijo com a reabertura do Tarrafal pelo ministro do Ultramar Adriano Moreira e aplaudiram o encerramento pelo ministro da Educação Galvão Teles da Sociedade Portuguesa de Escritores, pela atribuição do Grande Prémio da Novela a Luandino Vieira, na altura preso político no Tarrafal, já com a designação de Campo de Chão Bom, conforme os termos do decreto governamental, para a reclusão dos implicados na luta pela autonomia e a independência das colónias.

O universo intelectual e a formação artística de Vasco desenvolveram- se e consolidaram- se em Paris. Seguiu de perto a Figuration Narrative, o pop francês. Participou em seis ou sete filmes, envolveu-se nos movimentos underground, nas barricadas do Maio de 68, no ativismo da extrema-esquerda. Colaborou, lado a lado, com os maiores cartunistas e em jornais e revistas de prestígio. Por exemplo, em Le Monde, no Fígaro, no Canard Enchainé, no Hara-kiri. O Canard Enchainé acolheu o rasgo de gerações sucessivas. O grupo Hara-Kiri/ Charlie-Hebdo e L'Enragé, acompanharam o Maio de 68. Época áurea, na Europa e nas Américas, da caricatura e do cartum, assinalada com a agressividade de Siné, o inconformismo de Chaval e de Bosc; a estilização sofisticada de Sempé, o imaginário de Topor, de Steidman e de Scarfe. E, ainda, a irradiação de Steinberg e de Levine.

Mal chegou a Lisboa, Vasco continuou a militância política. No jornal Página Um foi tudo e fez tudo, na fase explosiva do PREC. É no final dos anos 70 que atingiu a maturidade e uma expressão própria ao privilegiar as virtualidades da linha e do pingo da tinta-da-china, numa síntese entre o grafismo satírico e a pintura a negro, numa reinterpretação contínua do expressionismo.

Foi no decurso dos anos 80 que Vasco ganhou notoriedade no Diário de Notícias. O jornal ainda não perdera a expansão que o levava a todo o pais. Estabelecemos fortes relações de convívio e uma sólida amizade que resistiu a inúmeras vicissitudes. Ao fim da manhã debatíamos temas de ilustrações para a página de opinião e para o suplemento Artes e Letras. Vasco encontrava-se em pleno apogeu, e enviava em tempo útil, retratos, caricaturas e cartunes solicitados e que saiam quase todos os dias com o maior destaque.
 
 
Fernando Pessoa motivou sucessivas e arrojadas interpretações de Vasco, com uma visão original (celebrada por Vergílio Ferreira) e que ultrapassaram a iconografia imposta por Almada Negreiros e também pelas fotografias de Horácio Novais, ao surpreender Pessoa nas ruas de Lisboa umas vezes só, outras com amigos íntimos.

Mas não foi apenas Pessoa. A pretexto de efemérides do fim do século passado Vasco recriou escritores como Herculano, Eça, Aquilino, Nemésio, Jaime Cortesão e Teixeira Gomes; poetas como Antero, Junqueiro, António Nobre, Cesário Verde e Camilo Pessanha; artistas como Stuart Carvalhais e Amadeu de Souza- Cardoso; e, sobretudo, Camilo, uma das suas indisfarçáveis paixões literárias, para aprofundar, no homem e no escritor, o sentimento trágico de vida.

Vasco fez parte dos fundadores do Público, da equipa escolhida pelo diretor Vicente Jorge Silva. Colaborou, assiduamente, e não se limitou ao retrato e à caricatura de protagonistas e fantoches políticos e sociais. Os recursos imaginativos de Vasco abrangeram as consequências da poluição, os efeitos da tecnologia, as desigualdades sociais, o capitalismo selvagem, o consumismo desenfreado, as situações e perplexidades da condição humana.

Todavia, a direção em exercício do Público, a partir de 1 de Setembro de 2008, prescindiu a colaboração de Vasco e cortou-lhe a remuneração mensal que recebia, desde o início do jornal. Vasco ficou sem a sua única fonte de subsistência e sem espaço de intervenção nos jornais e revistas.

Num balanço sumário da obra e da vida de Vasco podemos concluir que procurou manter-se fiel à diretriz de Rafael Bordalo ao salientar na apresentação do programa editorial do António Maria o propósito firme de «ser oposição declarada e franca aos governos e oposição sistemática às oposições».

O legado de Bordalo, patrono desta Casa Museu, o seu distanciamento sempre dos poderosos, dos interesses instalados, dos lugares de privilégio, também se deparam na posição crítica de Vasco e que tem sido a regra de ouro da sua conduta pessoal e profissional em face da prepotência e o arbítrio da classe política, dos comportamentos dúbios, dos negócios escuros e das rotinas confortáveis.

A memória e a identificação com as origens - e esta circunstância nunca poderá deixar de ser mencionada - incutiram em Vasco as raízes cósmicas, os vínculos ancestrais, toda a força telúrica que se transmite no ar que se respira, penetra no sangue, circula nas veias e impulsiona um sopro criador de liberdade e um sentido de amplitude universal que, onde quer que esteja, o evidencia sempre como trasmontano, português, ibérico, europeu e cidadão do mundo”.

 


Vasco a Regra de Ouro – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências] – com sublinhados nossos.

J.M.M.

quinta-feira, 28 de março de 2019

MAÇONARIA DE PORTAS ABERTAS – 6 E 7 DE ABRIL 2019


DE: 6 a 7 de Abril 2019;
LOCAL: Museu Maçónico Português [Rua do Grémio Lusitano, 25, Lisboa];

ORGANIZAÇÃO: Museu Maçónico Português.

O Museu Maçónico Português vai promover nos próximos dias 6 e 7 de Abril o evento “Maçonaria de Portas Abertas” com o objectivo de dar a conhecer o seu património cultural e material.

O visitante poderá comprar um livro, assistir a uma conferência ou até viajar numa Cápsula do Tempo através de uma visita guiada, onde poderá conhecer várias figuras marcantes da História do Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa.


 
P R O G R A M A


 
6 Abr. 2019 - Sab.
 
 
10h00
Feira do Livro  (até às 18h30)
 
Exposição Temporária «O Património Cultural do Grande Oriente Lusitano»
10h00 
Visita Livre  (até às 18h00)
11h00 
Visitas Guiadas
11h30
Conversas sobre Maçonaria com Nuno Cruz
15h00
Cápsula do Tempo – Visita Guiada com personagens históricos 
 
Conferência «Olhares sobre o Antigo Egipto – Iniciação», Rogério Sousa
16h30
Conferência «Olhares sobre o Antigo Egipto – A Eternidade», Luís Araújo
 
Visitas Guiadas
18h00
Conferência «Introdução ao Esoterismo Ocidental», José Manuel Anes
 
 
 
7 Abr. 2019 - Dom.
 
 
10h00
Feira do Livro  (até às 18h30)
 
Exposição Temporária «O Património Cultural do Grande Oriente Lusitano»  
10h00 
Visita Livre  (até às 18h00)
11h00
Cápsula do Tempo – Visita Guiada com personagens históricos
11h30
Conversas sobre Maçonaria com António Ventura
15h00
Visita Guiada com António Lopes (Antigo Director Museu Maçónico Português)
 
Conferência «Olhares sobre o Mundo Clássico Elesius – Mistério e Rito» Nuno Simões Rodrigues
16h30
Visita Guiada com Fernando Sacramento (Director Museu Maçónico Português)
 
Conferência «Olhares sobre o Mundo Clássico Mitra, Sol e Toiros», Rodrigo Furtado
18h00
Concerto de Encerramento - Cristiano Holtz, cravo – As obras de Bach

A não perder.

J.M.M.