quarta-feira, 16 de Abril de 2014

A REVOLUÇÃO DE ABRIL: CONGRESSO

Realiza-se entre 21 e 24 de Abril de 2014, no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, um grande congresso, do vários que se têm vindo a efectuar para assinalar o quadragésimo aniversário da Revolução dos Cravos.

São dezenas de conferencistas e de temas a abordar ao longo de quatro dias com alguns dos protagonistas dos acontecimentos e com os principais investigadores da temática nas suas diferentes perspectivas.

Pode ler-se no programa do congresso, para divulgar junto dos potenciais interessados:

Sessões Paralelas

21 de Abril
14h30-15h45

Painel 1 | Revolução e política: o calor da hora
Moderação: Ana Paula Pires

  • A revolução antes da revolução. Conflito social e processo político no final do Estado Novo | Guya Accornero (CIES-IUL)
  • A fase spinolista da Revolução (do 25 de Abril ao 28 de Setembro de 1974). Viragem política e movimentos sociais | Francisco Bairrão Ruivo (IHC-FCSH/UNL)
  • O partido do Centro Democrático Social (CDS): origens e princípios políticos | Edmundo Alves (IHC-FCSH/UNL)
  • Os saneamentos políticos na Educação (1974-1975) | Pedro Serra (IHC-FCSH/UNL)
Painel 2 | Estado e Grupos de Interesse
Moderação: Ivo Veiga

  • O conselho da revolução, os militares e a transição para a democracia em Portugal (1974-1976) | Maria Inácia Rezola (IHC-FCSH/UNL e ESCS-IPL)
  • As “editoras da revolução”: a edição política no processo de transformação de Portugal | Flamarion Maués (IHC-FCSH/UNL e ECA-USP)
  • A Revolução dos Cravos e o papel da canção política | Alexandre Felipe Fiúza (UNIOESTE)
  • Uma revolução estética e ideológica no teatro português | Levi Martins (FL-UL)
  • A Revolução de Abril e as Ciências Sociais em Portugal | Celso Castro e Thaís Blank (FGV – CPDOC)
Painel 3 | Revolução e Território
Moderação: Rui Aballe Vieira

  • A Revolução a Sul: contributo para o estudo do 25 de Abril de 1974 no Algarve | Maria João Raminho Duarte (ISMAT)
  • A Reforma Agrária: datas, factos e memórias da revolução no Alentejo | Maria Antónia P. Almeida (CIES-ISCTE/IUL)
  • Rio Maior e a dicotomia Norte-Sul entre 1974 e 1976 | Tiago Gil Gomes (ULHT)
  • O Separatismo Açoriano na Revolução de Abril (1974-1976) | André Folgado Rodrigues (FL-UC)
  • Auto gestão e Controlo Operário na Revolução Portuguesa | Raquel Varela (IHC-FCSH/UNL e IISH)
22 de Abril09h30-11h00
Painel 4 | Dinâmicas Económicas e PolíticasModeração: Rui Aballe Vieira
  • Uma revolução dentro da revolução – o 11 de Março de 1975 | Ricardo Noronha (IHC-FCSH/UNL)
  • Os debates em torno das nacionalizações no pré-11 de Março: uma análise da imprensa portuguesa | Filipe Guimarães da Silva (IHC-FCSH/UNL)
  • De la huelga a la ocupación – la lucha obrera en la revolución portuguesa | Miguel Pérez Suárez (IHC-FCSH/UNL)
  • O Trotskismo em Portugal (1974-1975) | João Moreira (FL-UC)
Painel 5 | A Revolução e a Comunicação Social
Moderação: Maria Inácia Rezola
  • A Revolução no “humorismo maldito”: o caso da Gaiola Aberta, de José Vilhena (1974-1975) | Álvaro Costa de Matos (Hemeroteca Municipal de Lisboa e CIMJ)
  • As repercussões do “caso República” em Itália | Marco Gomes (CEIS20)
  • José Saramago: um jornalista na revolução | Marta Spínola Aguiar (ESCS-IPL)
  • O semanário O Jornal: Um sonho de jornalistas num país em revolução | Pedro Marques Gomes (IHC-FCSH/UNL)
  • Correspondentes e enviados especiais espanhóis e a revolução de 1974-1975: uma relação (in)tensa | Rita Luís (UPF e IHC-FCSH/UNL)
Painel 6 | Entender as transiçõesModeração: António Firmino da Costa
  • Religião e Política na transição para a democracia em Portugal (Abril 1974 – Novembro 1975) | Paula Borges Santos (IHC-FCSH/UNL)
  • O mecanismo de intermediação na transição portuguesa (1974-76) e espanhola (1976-78) | Ivo Veiga (IHC-FCSH/UNL)
  • Agência e equilíbrio institucional nas transições entre autoritarismo e democracia | Fernando Weltman (FGV – CPDOC)
  • Poder judiciário e autoritarismo no Brasil | Angela Moreira da Silva (FGV – CPDOC)
23 de Abril09h30-11h00
Painel 7 | Revolução e Violência
Moderação:
  • O desvio das mil G-3 de Beirolas: “As armas são para distribuir ao povo…” | João Madeira (IHC-FCSH/UNL)
  • “Uma só solução: Revolução Socialista”. As Brigadas Revolucionárias durante o PREC | Ana Sofia Ferreira (IHC-FCSH/UNL)
  • A emergência da prática armada nos anos 60 e 70: uma perspectiva europeia | Pau Casanellas (IHC-FCSH/UNL)
  • 7 de Março de 1975 – Foi na cidade do Sado… | Albérico Afonso (IHC-FCSH/UNL)
  • Violência Política nos Campos do Sul, 1974 – 1975 | Constantino Piçarra (IHC-FCSH/UNL)
  • 25 de Abril e violência política – a legitimidade do processo revolucionário | Luís Farinha (IHC-FCSH/UNL)
Painel 8 | Legados do autoritarismo para a democracia
Moderação: Celso Castro
  • O legado memorial da ditadura militar brasileira | Luciana Heymann (FGV – CPDOC)
  • Vítimas do autoritarismo em Portugal e no Brasil: compensação e memorialização | Filipa Raimundo (ICS)
  • A formação dos campos políticos em Portugal e Itália: novos ou velhos paradigmas de recrutamento político após a queda dos regimes autoritários | Goffredo Adinolfi (CIES-IUL)
  • Apoio difuso e específico ao regime político em tempos de crise: avaliação da democracia em Portugal antes e depois do resgate económico (2008-2012) | Conceição Pequito, Emmanouil Tsatsanis e Ana Belchior (CIES-IUL, ISCSP e ISCTE-IUL)
Painel 9 | Descolonização e Relações Externas
Moderação: Ivo Veiga

  • A farsa da tropa nativa na transição para a independência em São Tomé e Príncipe | Augusto Nascimento (IICT)
  • Mudanças e desencontros: as relações diplomáticas luso-brasileiras em tempos de revolução e exílio (1974-1979) | Américo Freire (FGV-CPDOC)
  • La influencia de la revolución portuguesa en la “ultra izquierda” española | Gregorio Sabater Navarro (UAM)
  • Os reflexos da Revolução de Abril no Brasil | Leandro Pereira Gonçalves (CEHR/UCP e LAHPS/UFJF)
  • Mário Soares e a Revolução | David Castaño (IPRI-UNL)

21 de Abril
11h00-13h00 | Revolução. Significado e Balanço
Moderação: Joaquim Romero de Magalhães
Aniceto Afonso
Diogo Freitas do Amaral
Fernando Rosas
José Pacheco Pereira
Mário Soares

16h00-17h30 | Militares na Rua e no Poder
Moderação: Maria CarrilhoCarlos Matos Gomes
Martins Guerreiro
Vasco Lourenço

17h45-19h00 | Portugal no Mundo
Moderação: Teresa de SousaFrancisco Seixas da Costa
Jorge Sampaio
José Fortes Bouzan
José Medeiros Ferreira †
Manuela Aguiar
Pilar del Río

22 de Abril
11h15-13h00 | O fim do Império e a descolonização
Moderação: Pedro Aires Oliveira
António Almeida Santos
António Guterres
Pedro Pezarat Correia
Vasco Vieira de Almeida

14h30-15h45 | O sistema político e os partidos
Moderação: Maria Flor Pedroso
António Reis
Arnaldo Matos
José Ribeiro e Castro
Marcelo Rebelo de Sousa

16h00-17h30 | A Economia na Revolução
Moderação: José Maria Brandão de Brito
António Romão
Fernando Oliveira Baptista
João Costa Pinto
João Cravinho

17h45-19h00 | Sociedade: rupturas e novos paradigmas
Moderação: José Manuel Lopes Cordeiro
Elísio Estanque
João Proença
Teresa Féria

 23 de Abril
11h15-13h00 | Cultura, Educação e Ciência
Moderação: Maria Emília Brederode Santos
António Mega Ferreira
José Mariano Gago
Lídia Jorge
Rui Vieira Nery

 24 de Abril
09h30-11h00 | A Comunicação Social na Revolução
Moderação: Fernanda Mestrinho
Adelino Gomes
Diana Andringa
José Rebelo

11h15-13h00 | Revolução e Religiões
Moderação: Francisco Sarsfield Cabral
Alfredo Teixeira
David Munir
Joshua Ruah
Manuel Clemente

14h30-16h00 | Autonomias e Poder local
Moderação: Fátima Campos Ferreira
António Costa
Carlos César
João Cunha e Silva

A comissão organizadora é constituída por:

Informações complementares sobre o congresso podem ser encontradas AQUI.

A.A.B.M.

terça-feira, 15 de Abril de 2014

FRANCISCO XAVIER DA CUNHA ARAGÃO (Parte III)

Em 1924 serve como chefe de gabinete do ministro da Guerra, Ribeiro de Carvalho. Reingressa, a seguir na aviação. Assume as funções de Adjunto da Direcção de Aeronáutica e inspector da nova arma, sendo o responsável pela criação do Conselho Nacional do Ar, onde fica a exercer funções como secretário perpétuo. Foi um dos responsáveis pela criação dos serviços de aviação civil em Portugal.

Em 1926, já com a patente de tenente-coronel, foi nomeado sub-director de Aeronáutica. Com a queda da I República nesse mesmo ano, Cunha Aragão adopta uma atitude expectante face à Ditadura Militar durante algum tempo. Ainda em Dezembro de 1925, tinha sido nomeado para uma comissão que procurava estudar a reorganização militar colonial e a que pertenciam os coronéis Luís Augusto Ferreira Martins, Manuel Rodrigues da Silva Lopes, pelos majores António Germano Ribeiro de Carvalho e pelo capitão Paulo Augusto do Rego e presidida pelo general Massano de Amorim. Logo após a revolução de 28 de Maio (21 de Junho de 1926), a comissão foi demitida e nova comissão foi constituída que era presidida pelo general Ernesto Maria Vieira da Rocha e a que pertenciam também os coronéis Ferreira Martins, António Baptista Júnior, Manuel Rodrigues da Silva Lopes, Aberão César Faria Graça, os majores Genipro da Cunha de Eça Costa Freitas e Almeida, António Leite de Magalhães, entre outros.

Segundo Sarmento Pimentel, nas suas Memórias, já na tentativa revolucionária de Fevereiro de 1927 teria tentado juntar ao grupo dos revolucionários, dois dos homens, que em sua opinião teriam maior influência na zona da Guarnição de Lisboa, que eram precisamente Cunha Aragão e Ribeiro de Carvalho, que nessa altura estariam politicamente próximos de Mendes Cabeçadas e de Cunha Leal. Hesitando muito quanto à posição a adoptar, o certo é que Cunha Aragão faz publicar no jornal Portugal "entendo que não devo ser partidário do actual governo. Considero pernicioso para a República e para o Exército a vitória dos homens que se revoltaram no Porto e os meus deveres de lealdade obrigam-me a cumprir as ordens que me forem dadas"[apud Luís Farinha, O Reviralho. Revoltas Contra a Ditadura e o Estado Novo, 1926-1940, Editorial Estampa, Lisboa, 1998, p. 38]. A situação de Cunha Aragão começa a definir-se mais claramente quando ele se assume claramente como um critico do Acto Colonial, manifestando o seu crescente desencanto com a Ditadura Militar. Concomitantemente, a ordem de prisão de Cunha Leal nos Açores, em Maio de 1930, torna inevitável que um conjunto de militares até ali próximos dele se afastem da Ditadura Militar e passem a defender cada vez mais uma via revolucionária.

O Governo da Ditadura Militar verificando que era importante apaziguar as Forças Armadas, procura reforçar a ligação a um conjunto de figuras de prestígio da instituição, agraciando com várias comendas personalidades que tendo demonstrado a sua fidelidade ao regime republicano, mantinham o respeito pelos objectivos enunciados pela Ditadura Militar. Assim, Cunha Aragão foi agraciado com a Ordem Militar de Avis [Diário do Governo, II Série, nº 256, de 31-12-1927, p. 4408].

A portaria de 26 de Julho de 1928, no governo presidido pelo general Vicente de Freitas, estudava-se a possibilidade de construir um aeroporto nos Açores. Constituiu-se então uma comissão para estudar essa possibilidade, uma vez que a aviação era um meio cada vez mais utilizado para aproximar o continente das ilhas. Essa comissão era presidida pelo general Sinel de Cordes, com a vice-presidência do general Roberto Baptista, como vogais constavam o contra-almirante Gago Coutinho, o capitão de fragata Afonso de Cerqueira, o Dr. Alberto Xavier, como secretário-geral do Ministério das Finanças, o Dr. José Duarte Pedroso, como director dos negócios políticos e diplomáticos do Ministério dos Negócios Estrangeiros e o Dr. Diocleciano Feio de Carvalho, secretário-geral do Ministério do Comércio e Comunicações [Diário do Governo, II Série, nº 171, de 28 de Julho de 1928, p. 2665].

O poder político reconhecendo o poder cada vez maior da aviação decide criar no início de 1929 o Conselho Nacional do Ar [Decreto nº 16 424, de 22 de Janeiro, Diário do Governo, I série, nº 22, de 26 de Janeiro de 1929, p. 289-290) de que Francisco Xavier da Cunha Aragão viria a ser secretário-geral. Este órgão dispunha de amplos poderes em matéria consultiva como transportes, defesa nacional, correios, relações coloniais e comerciais, acordos diplomáticos, entre outros aspectos.

A aviação portuguesa começava a ser reconhecida internacionalmente e Cunha Aragão era um dos pioneiros nessa tarefa. Assim, em Junho de 1929, foi convidado a participar na Comissão Internacional da Navegação Aérea, que se realizou em Paris. Além do aviador português, o Governo português enviou também o Professor José Lobo de Ávila Lima para o assessorar nas questões jurídicas, já que era catedrático na Faculdade de Direito de Lisboa e trabalhava como adido do Ministério dos Negócios Estrangeiros [Diário do Governo, II série, nº 132, 11 de Junho de 1929, p. 1974].

Em 1931, participa na Revolta da Madeira, e sendo tenente-coronel de Aeronáutica, recebe um louvor do ministério presidido por Domingos de Oliveira em 30 de Janeiro de 1931, “pela maneira inteligente, grande dedicação e inexcedível actividade” com que exerceu as funções de secretário do Conselho Nacional do Ar [Diário do Governo, II série, nº 28, 4 de Fevereiro de 1931, p. 414]. Tinha elaborado então um relatório sobre a importância dos Açores para os progressos da Aeronáutica. Foi demitido das suas funções porque passou ao exílio em Espanha e mais tarde a França, onde se juntou aos exilados da Liga de Paris

Durante o episódio revolucionário da Madeira, em 11 de Abril de 1931 percorre alguns pontos da província, lançando panfletos e manifestos onde se apelava à revolta das populações contra a Ditadura Militar. Segundo os relatórios enviados pela embaixada inglesa nesse período e recolhido na obra de João Soares, sobre os acontecimentos, refere-se à fuga do Chefe de Serviço da Aviação (Francisco Xavier da Cunha Aragão) pelo aeródromo da Amadora e às prisões ocorridas, que levaram quase à paragem completa das actividades da aviação [João Soares (recolha e org.), A Revolta da Madeira, Perspectivas & Realidades, Lisboa, 1979]. 

No entanto, as afinidades de Francisco Aragão com as organizações revolucionárias foram recorrentes. Logo em 1932, ele e Ribeiro de Carvalho informam Bernardino Machado de que se encontravam desligados daquele tipo de movimentos. Aproveitando uma suposta amnistia em Dezembro de 1932, muitos exilados e deportados políticos regressam a Portugal, entre eles regressa também o nosso biografado que em Julho de 1933 vem a ser preso e colocado com residência fixa. Volta a reaproximar-se dos movimentos contestatários do regime e desloca-se a Vigo, para participar na reunião realizada em Setembro de 1933, a que assistiram também José Domingues dos Santos, Sarmento de Beires, Ribeiro de Carvalho, o coronel José Mascarenhas e o tenente João Pereira de Carvalho, procurando formar uma "Frente Única", conciliando interesses divergentes e partindo, sobretudo, dos ideais dos líderes políticos exilados em Paris. Em Dezembro desse ano, os chefes revolucionários, entre eles Cunha Aragão, encontram-se em Madrid para retirar conclusões de mais uma tentativa de revolta fracassada em meados de Novembro, em Portugal. Nessa reunião estiveram presentes também Ribeiro de Carvalho, Carlos Vilhena, Júlio Lapa, Prestes Salgueiro e Agatão Lança. Sobre alguns destes episódios podem encontrar-se documentos comprovativos destas situações na CASA COMUM AQUI.

Em 1933 acabou por ser demitido do Exército.

Procurando em permanência reanimar os diferentes grupos revolucionários, em 1935, aproveitando a vitória de Frente Popular em Espanha, muitos conspiradores voltam a sonhar com o derrube da Ditadura em Portugal. Sobretudo no Norte de Espanha concentrava-se um grande número de oposicionistas. Em Abril deste ano, após a constituição do Comité dos Amigos de Portugal, que reunia cerca de três dezenas de personalidades de várias influências políticas que procurava-se organizar várias formas de manifestação para protestar contra as violências cometidas pelo fascismo em Portugal. Uma dessas formas de protesto era a realização de um ciclo de conferências radiofónicas sobre a situação em Portugal. Porém, a intervenção enérgica do embaixador português em Madrid evitou que as conferências a emitir na Union Radio de Madrid tivessem sido canceladas. Segundo Luís Farinha as conferências seriam de Cunha Leal, Cunha Aragão, Agatão Lança e Prestes Salgueiro e estavam previstas serem emitidas entre finais de Abril e inícios do mês de Maio de 1935 [ Luís Farinha, O Reviralho. Revoltas Contra a Ditadura e o Estado Novo, 1926-1940, Editorial Estampa, Lisboa, 1998, p. 239, nota 131].

No entanto, em 1936, com o início da Guerra Civil de Espanha, torna-se complicada a situação dos exilados políticos. Alguns partem para Paris, poucos permanecem em Madrid, outros ainda aproveitam as amnistias de Salazar e regressam a Portugal ou vão para para o degredo para as colónias. Alguns dos resistentes vão defender a completa neutralidade face à Guerra Civil que se desenrolava no País, mas consideravam que havia um perigo eminente de perda de independência tanto de Portugal, como das colónias.

Cada vez mais desiludidos com os constantes fracassos e tentativas falhadas, alguns dos dirigentes revolucionários como Francisco Aragão ou Ribeiro de Carvalho acabam, em Setembro de 1939, por dar por finda a sua luta contra o regime, adoptando uma posição pacífica. Em meados de 1940 vamos encontrar várias dezenas de antigos exilados e antigos conspiradores a regressarem a Portugal. Entre eles encontramos o tenente coronel Cunha Aragão que acabou por ser detido tal como Jaime Cortesão e a esposa, depois do seu exílio em Espanha e França. Foi preso pela PVDE em 27 de Maio de 1940 juntamente com Jaime Cortesão, Álvaro Poppe, Maria Judith Zuzarte Cortesão, quando foi forçado a regressar do exílio em França devido à invasão das tropas nazis.

Depois deixamos de encontrar vestígios da actividade política de Francisco Xavier da Cunha Aragão. Sabe-se que foi casado com D. Georgina Pereira de Vasconcelos, oriunda de uma ilustre família açoriana que nasceu  na Sé de Angra a 2 de Setembro de 1892 e faleceu em Lisboa a 11 de Outubro de 1974. 

Nos anos cinquenta, vamos encontrá-lo na gerência Fábrica de Pirolitos ou Fábrica da Rocha, ainda com interesses na União das Fábricas Açoreanas de Alcool, da Ilha Terceira, quando em 1953, sob a direcção do tenente-coronel Francisco Xavier da Cunha Aragão, o edifício foi adaptado à instalação de novos equipamentos que prolongaram a sua actividade até ao sismo de 1 de Janeiro de 1980, em que foi destruída quase por completo [Valdemar Mota, "A Família Frederico de Vasconcelos na Economia Açoriana e no Museu de Angra", Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, 2004, p. 262].

Condecorações recebidas:
- oficial de Legião de Honra;
- medalha de Torre e Espada;
- medalha da vitória com estrela; 
- medalha militar comemorativa da expedição, com a legenda »Sul de Angola, 1914-1915»;
- medalha de prata da classe de de Valor Militar;
- medalha militar de ouro de bons serviços;
- medalha militar de prata de comportamento exemplar;
- grau de cavaleiro, oficial e comendador das Ordens de Avis e de Cristo.
[GEPB, vol. 38,  Lisboa /RJ, p. 470].

Colaborou na Seara Nova, Luso Colonial e pontualmente em outros órgãos da imprensa.

PUBLICOU:
- Tropas Negras : as forças ultramarinas na defesa nacional, Lisboa, Ed. autor, 1926. - 166p.;
- Linhas aéreas em Angola, Lusocolonial,  Nº 16-17 (1928), p. 243-244.

Faleceu em 26 de Fevereiro de 1973.

[NOTAA fotografia que ilustra este texto foi retirada da Torre do Tombo e mostra Francisco Aragão a discursar durante o funeral do general Alves Roçadas em 29 de Abril de 1926 e pode ser encontrada AQUI].

A.A.B.M.

sábado, 12 de Abril de 2014

95º ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE FERNANDO NAMORA: CONFERÊNCIA

No próximo dia 15 de Abril de 2014, na Casa Museu Fernando Namora, em Condeixa-a-Nova, realiza-se uma conferência para assinalar o 95º aniversário de nascimento do escritor e médico Fernando Namora.

A convidada para esta evocação é a Prof. Doutora Isabel Pires de Lima, que proferirá uma conferência subordinada ao título: Fernando Namora: o escritor e o(s) seu(s) mundo(s).

Um evento a acompanhar e a divulgar.

A.A.B.M.

sexta-feira, 11 de Abril de 2014

FRANCISCO XAVIER DA CUNHA ARAGÃO (Parte II)

Francisco Xavier da Cunha Aragão foi promovido a alferes da arma de cavalaria em 11 de Novembro de 1911. Promovido a tenente em 13 de Novembro de 1913.

Quando em 12 de Dezembro de 1914, uma força avançada alemã estaciona na margem esquerda do rio Cunene, considerado território português, frente aos morros de Calorque, a 12 quilómetros de Naulila, e são os dragões de comandados por Cunha Aragão que entram em contacto com o invasor, fazendo nessa altura um prisioneiro. Na sequência desse aprisionamento, as tropas portuguesas tomam conhecimento das intenções e do número das tropas alemãs. No dia seguinte, Aragão aproxima-se de novo do invasor e ataca-o, fazendo dois novos prisioneiros e provoca algumas baixas nos soldados alemães.

Francisco Aragão advoga um ataque imediato e maciço contra o invasor, mas a hierarquia  impede-o de avançar. Nesse contexto, chega a ser censurado pelos superiores hierárquicos pela sua iniciativa. O seu esquadrão, constituído por 47 homens realiza um exaustivo serviço de vigilância até 18 de Dezembro.

No dia 18 de Dezembro, as forças alemãs organizam-se e antecipando alguma iniciativa portuguesa de ataque, avançam para Naulila. Aragão enfrenta as tropas comandadas pelo major Van Franck que atacam Naulila. Bate-se brilhantemente com a coluna do capitão Van Vater, que subia o rio Cunene. Aragão foi ferido e fica prisioneiro dos alemães. 

Depois da sua libertação e do seu regresso a Portugal, Francisco Aragão uma série de declarações no Funchal em que repudia a ditadura de Pimenta de Castro e exorta à entrada de Portugal na guerra para vingar a afronta alemã. Na sequência disto, em Lisboa, Fernando Pessoa elabora um conjunto de textos que acabaram por não ser publicados, mas onde se criticava a posição assumida pelo militar. Este conjunto de textos ficou com designação de “Carta a um herói estúpido”, sendo que o herói estúpido era nem mais nem menos que Francisco Xavier de Cunha Aragão. Fernando Cabral Martins recorda que Cunha Aragão era nessa altura um símbolo para os republicanos e democráticos que defendiam a posição beligerante de Portugal [FERNANDO CABRAL MARTINS, Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, Coord. Fernando Cabral Martins, Editorial Caminho, Lisboa, 2008, p. 140-141]


Em 1917 organiza a Esquadrilha Colonial, que vai servir em operações contra os alemães em Moçambique. Porém, a falta de meios impede que a esquadrilha chegue a desempenhar algum papel. Aragão serve nessa altura como oficial de cavalaria nas tropas em operações.

Após o final da Grande Guerra, mais propriamente em 16 de Outubro de 1921, reuniu-se em Lisboa, no escritório do advogado João Jayme Faria Affonso,  a assembleia fundacional da Liga dos Combatentes da Grande Guerra, cujo núcleo inicial é composto entre outros pelos seguintes veteranos: tenentes-coronéis de cavalaria Ferreira do Amaral (comandante da Polícia) e Francisco Xavier da Cunha Aragão, primeiro-tenente Horácio Faria Pereira e tenente Joaquim de Figueiredo Ministro.

Esta comissão de veteranos justifica a necessidade de criação desta organização, «em razão das injustiças feitas aos que na Grande Guerra combateram, especialmente aos mutilados e estropiados, e ainda devido ao desprezo a que foram votados pelos poderes constituídos, os quais não só não tomaram na devida conta mas até propositadamente esqueciam as justas reclamações de muitos que, após haver cumprido o seu dever, cumprido comunhamente com o juramento que antes haviam feito de darem o seu sangue pela Pátria, se viam abandonados e na miséria, com grave prejuízo para o patriotismo, disciplina e moral do povo português».

Foi um dos mentores do Apelo à Nação, feito em Março de 1923, organizado por personalidades ligadas à Seara Nova, tendo integrado a comissão que foi entregar o documento a António Maria da Silva e ao Presidente da República. Faziam também parte dessa comissão Ezequiel de Campos, Jaime Cortesão e Sarmento Pimentel.

Integrou ainda a Comissão Directiva de Lisboa da União Cívica, juntamente com António Sérgio, Jaime Cortesão, Filomeno da Câmara, Ferreira do Amaral, Quirino de Jesus e Bourbon e Menezes.

[Em continuação]

A.A.B.M.

CULTURA HEBRAICA E MAÇONARIA



CONFERÊNCIA: "Cultura Hebraica e Maçonaria

ORADOR: dr. Joshua Ruah;
DIA: 11 de Abril 2014 (19,00 horas);
LOCAL: Grémio Lusitano [Rua do Grémio Lusitano, 25, Lisboa];
ORGANIZAÇÃO: Museu Maçónico Português [Ciclo “Sextas de Arte Real”]

Com o advento da maçonaria especulativa, enquanto as Lojas proliferam, os Judeus saem do gueto, beneficiando da introdução de uma forma de sociabilidade fundada na tolerância e, no respeito pela liberdade de consciência, que procura constituir-se como o centro de união de todos aqueles “que poderiam ter continuado a ignorar-se”.
Existem referências da admissão de alguns Judeus, na Grande Loja dos Modernos, incluindo a Constituição da Grande Loja dos Antigos, Ahiman Rezon, disposições específicas para os Irmãos que praticavam esta religião.


São, de resto, numerosos os exemplos de personagens significativas da história da Maçonaria que foram de origem hebraica. Entre outros exemplos, recorde-se que dos nove Irmãos que integraram o primeiro Supremo Conselho do 33º Grau quatro eram Judeus, sendo também de origem judaica os fundadores do Rito de Misraïm e, um dos pais-fundadores da maçonaria rectificada.


As referências veterotestamentárias são numerosas nos ritos maçónicos. As palavras hebraicas, ou inspiradas no hebreu, são muitas, em todos os graus da maior parte dos sistemas. Por outro lado, muitos rituais maçónicos fundamentam-se em conceitos cabalísticos, de clara inspiração hebraica, reflectindo-se os mesmos nos procedimentos litúrgicos, nas construções simbólicas e, na própria disposição dos oficiais em Loja.


Nos domínios do anti-semitismo e, do anti-maçonismo, existe uma linha convergente, que tende a atribuir uma conotação comum a estas duas correntes de pensamento, gerando assim o mito da “Grande Conspiração Judaico-Maçónica”.


Pretende-se, pois, aprofundar todas estas questões, identificando sincretismos que a maçonaria possa ter recolhido na cultura hebraica e, aprofundando historicamente os caminhos paralelos que possam ter sido percorridos por estas duas linhas de pensamento”.

[Fernando Castel-Branco Sacramento - Director do Museu Maçónico Português]

J.M.M.