quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

CICLO DE CONFERÊNCIAS 2015: PORTUGAL NA 1ª GUERRA MUNDIAL


Vai iniciar-se na próxima sexta-feira, dia 27 de Fevereiro de 2015, vai iniciar-se o Ciclo de Conferências de 2015, organizado pelo Museu Bernardino Machado, desta vez dedicado ao tema Portugal na 1ª Guerra Mundial.

Ao longo de oito sessões vão abordar-se diversos temas correlacionados com o tema central com oito personalidades e investigadores de reconhecida qualidade.

A primeira sessão, conta com um dos investigadores que mais se tem dedicado ao tema da Grande Guerra: o Coronel Aniceto Afonso, que vai analisar o tema: As Causas, Efeitos e Controvérsias da Participação de Portugal na 1ª Grande Guerra.

Entrada Gratuita
Entrega de Certificado de presença
Número do Registo de Acreditação: CCPFC/ACC 81235/15
Creditação da Formação: Portugal na I Guerra Mundial
Destinatários: Professores dos grupos 200, 300, 400, 410, 420 e 430
Nº de créditos: 0,5

Mais informações podem ser obtidas com a consulta da página do Museu Bernardino Machado.

Com os votos do maior sucesso para mais esta excelente iniciativa.

A.A.B.M.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

CONFERÊNCIA – GÉNESE DO ESCOCISMO


CONFERÊNCIA: Génese do Escocismo;

ORADOR: Dr. António Lopes;
DATA: 27 de Fevereiro 2015 (19,00 horas);
LOCAL: Grémio Lusitano [Rua do Grémio Lusitano, 25, Lisboa];
ORGANIZAÇÃO: Museu Maçónico Português [Ciclo “Sextas da Arte Real”]

 “O conceito de Escocismo assume, no discurso Maçónico, significados múltiplos, que religam historicamente ao período compreendido entre 1740 e 1760, no qual, em França se gerou um substrato de Altos Graus, a partir do qual se estruturam os principais Ritos de origem continental.


Os caminhos que levaram ao aparecimento dos graus ditos ‘Escoceses’ são contudo sinuosos e em grande parte ainda parcialmente desconhecidos, tendo a historiografia recente vindo a esclarecer melhor alguns pressupostos adoptados pelos historiadores do séc. XIX.


Começam a ser melhor contextualizadas e compreendidas, as influências de índole politica, filosófica, religiosa e social, que contribuíram para o nascimento de uma composição de Graus Maçónicos, que no seu conjunto constituem um conservatório de ferramentas simbólicas, de origem multicultural.

Estas continuam a servir de base aos Maçons contemporâneos, uma vez que se baseiam em mitos intemporais, que reflectem a essência da natureza humana.

A sua prática continua a possibilitar, ao Homem do séc. XXI, um desenvolvimento de mecanismos de raciocínio aplicáveis aos problemas actuais, num caminho iniciático de construção pessoal, suportado tanto pela razão como pela espiritualidade.

São estes os temas que se pretendem desenvolver na presente conferência, analisando-se, igualmente, a História, a base filosófica e o sistema dos Ritos Egípcios.

Contando com a vossa participação, apresento os meus cumprimentos.”

[Fernando Castel-Branco Sacramento - Director do Museu Maçónico Português]

J.M.M.

JOSÉ AFONSO, PRESENTE!

 
 
J.M.M.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

BENTO DE JESUS CARAÇA: RECUSAR, RESISTIR, MOBILIZAR

 

“A rejeição do pensamento único, implantado em todos os domínios, é uma das afirmações da autonomia intelectual e cívica do homem, na plenitude das suas liberdades e direitos fundamentais. Tanto maior é a força e o significado da rejeição quanto ela resulta de um imperativo de consciência em luta contra o fantasma do medo incutido nas homilias dos profetas da desgraça que, em nome da prudência e estabilidade social, anunciam sempre o pior como se estivéssemos às portas do fim do mundo.
A vida de Bento Caraça (1901-1948) indissoluvelmente ligada à sua obra pedagógica e à sua intervenção cívica, nos anos negros do consulado de Salazar, pode resumir-se em três verbos: recusar, resistir, mobilizar. Recusar a ditadura, resistir à prepotência e ao arbítrio. Mobilizar vontades dispersas para ultrapassar o isolamento e restabelecer um Estado de Direito, com as liberdades e garantias constitucionais que asseguram as estruturas de um regime democrático.
Mestre de matemática e de matemáticos, na Universidade Técnica de Lisboa, atingiu aos 28 anos o cume da carreira. Contudo, não se limitou a ficar, como tantos, na torre de marfim de uma cátedra. Exerceu influência decisiva na sua geração, na geração anterior à sua e nas gerações que lhe sucederam. Tomou parte nas lutas democráticas, sendo vítima de todas as perseguições entre as quais a expulsão do ensino universitário.
Uma das obras mais relevantes que o Paísa deve a Bento Caraça foi a criação e direção da 'Biblioteca Cosmos'. A partir de 1941 a 1948 com a colaboração de figuras de várias tendências políticas e diferentes opções religiosas, editou mais de uma centena de pequenos livros que permitiram a divulgação e, por vezes, o aprofundamento de temas nucleares no âmbito das ciências e técnicas, da economia e da gestão, das filosofias e religiões, das artes e letras. Este conjunto tão diversificado - dentro das limitações impostas pela repressão da Censura e da polícia politica –abrangeu a análise de alguns problemas contemporâneos.
Tal como os Cadernos de Iniciação Cultural de Agostinho da Silva, os Cadernos Inquérito lançados por Eduardo Salgueiro e os opúsculos da Seara Nova dirigidos por Camara Reys, Antonio Sérgio e Rodrigues Lapa, a Biblioteca Cosmos de Bento Caraça representou um contributo fundamental para a cultura portuguesa e a sua aproximação com as solicitações da Europa.
Para os jovens e os próprios adultos, numa linguagem, clara e acessível, promoveu a difusão e o conhecimento dos grandes temas nacionais e universais. Atribuía à cultura a descoberta do homem e do mundo num impulso contínuo de procura da liberdade. Grande parte da minha formação, que decorreu do final dos anos 40 e através da década de 50, assentou na Biblioteca Cosmos e também nos ensinamentos das outras coleções de textos exemplares.
Houve, nas últimas décadas, novas e irrecusáveis aquisições científicas, filosóficas, literárias, artísticas e históricas em todas as áreas abrangidas na Biblioteca Cosmos. Contudo, permanece vivo o sentido de abertura e pluralismo de opinião e de crítica que inspirou o projeto e se assinala nos volumes que o integram.
A memória de Bento Caraça vai ser homenageada hoje (dia 19),em Lisboa às 18 horas, na Fundação Mário Soares e presidida por Mário Soares um dos raros sobreviventes da ação desenvolvida por Bento Caraça, no MUD e outros movimentos antifascistas.
O legado de Bento Caraça tem como linha de rumo sempre oportuna e atual: 'Sem cultura, não pode haver liberdade e, sem liberdade, não pode haver cultura'. Todavia, a sua conceção é mais abrangente: 'a aquisição da cultura significa uma elevação constante, servida por um florescimento do que há de melhor no homem e por um desenvolvimento sempre crescente de todas as suas qualidades potenciais, consideradas do quádruplo ponto de vista: físico, intelectual, moral e artístico; a conquista da liberdade, a cultura integral do indivíduo'.
Predomina, contudo, uma norma de conduta, a todos os títulos notável, e que acentuou ainda maior dimensão humanista no magistério de Bento Caraça. No edifício do Instituto Superior de Economia e de Gestão (ISEG e antigo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras) onde foi professor catedrático, encontra-se inscrita uma das afirmações lapidares de Bento Caraça: 'se não receio o erro é porque estou sempre pronto a corrigi-lo'.
Palavas que representam uma regra de ouro para transpor o medo que intensifica a inércia, a indecisão, a falta de transparência, as meias palavras, os jogos do poder, a opacidade dos negócios, a paz podre.
Perante os bloqueios às mudanças, a falta de ousadia, as ameaças da corrida acelerada para o abismo, as advertências de Bento Caraça, deveriam constituir motivo de reflexão intelectual e cívica. Para estimular coragem e determinação, repelir certezas absolutas, o prolongamento de impasses e a ausência de alternativas que promovam reformas urgentes para recuperar o país. Dia a dia cada vez mais devastado nas áreas da educação, da saúde, da segurança social, da economia e da cultura. Não esqueçamos, ainda, destruído no proficiente e indispensável funcionamento da justiça. Em muitos aspetos a situação é de rutura e de caos”.
Bento de Jesus Caraça: recusar, resistir, mobilizar – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Academia das Ciências], jornal Público, 19 de Fevereiro de 2015, p.47 – com correcções do pp. autor e sublinhados nossos.

J.M.M.

UMA BIBLIOTECA HUMANISTA. OS OBJECTOS PROCURAM AQUELES QUE OS AMAM


EXPOSIÇÃO: Uma Biblioteca Humanista. Os objectos procuram aqueles que os amam;
DIA: 27 de Fevereiro a 26 de Maio de 2015;
LOCAL: Museu Gulbenkian (Lisboa);

“Os objectos procuram aqueles que os amam’,  era o comentário que fazia José de Pina Martins (1920- 2010 – ver In Memoriam AQUI) quando encontrava um livro raro destinado a sua biblioteca. Foi assim, de exemplar em exemplar, de livreiro em livreiro, que foi formando, ao longo da vida, uma das mais valiosas bibliotecas particulares especializadas de que há noticia.

Pina Martins amou tudo nos livros: o papel, a técnica da impressão, as ilustrações, a encadernação. E foi com esse espírito que escolheu, para cada volume da sua colecção, a encadernação mais adequada, o estojo mais apropriado, a caixa melhor adaptada a sua conservação.
 
 

A biblioteca de José de Pina Martins, ou 'Biblioteca de Estudos Humanísticos', como ele gostava de lhe chamar, inclui grandes temas e autores do humanismo cristão do Renascimento. Muitas obras são em latim e grego, algumas demasiado raras para poderem ser manuseadas.
 
Cada um desses livros desempenhou um papel de relevo na história do pensamento ocidental, e contribuiu para o desenvolvimento da ciência, da cultura e do conhecimento. Por isso, vale a pena expô-los e convidar o publico a conhecer o segredo de uma biblioteca e as pequenas historias de livros de que se faz a Historia do Livro

[in newsletter da Fundação Calouste Gulbenkian, Fevereiro de 2015, p. 28

A não perder.

J.M.M.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

VITORINO NEMÉSIO – UMA EVOCAÇÃO [TERTÚLIA EM COIMBRA]


TERTÚLIA: O VERBO E A MEMÓRIA / "Vitorino Nemésio – Uma Evocação”;
DIA: 20 de Fevereiro 2015 (21,00 horas);
LOCAL: Café Santa Cruz (Coimbra);
ORGANIZAÇÃO: Pro Associação 8 de Maio & Café Santa Cruz.

PARTICIPAÇÃO: Orfeão Académico de Coimbra | Manuel Freire | Ana Loureiro (soprano) | Tiago Nunes (teclas) | António Vilhena | Carlos Santarém Andrade | Emília Nave | José Garrucho | Pires de Carvalho | Ricardo Kalash | Francisco Paz

DIA 21 DE FEVEREIRO de 2015 (12,00 horas) – Descerramento de uma lápide na campa de Vitorino Nemésio, Cemitério dos Olivais (Coimbra)

Vitorino Nemésio (1901-1978), aliás Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva, nasceu na Praia da Vitória (Terceira, Açores) a 19 de Dezembro de 1901. Estudou no liceu de Angra (de onde foi “expulso”), terra, aliás, onde o ideário republicano (e libertário) o iluminou. Fez posteriormente os exames como externo no Liceu Nacional da Horta, concluindo esses estudos preliminares em Julho de 1918 [conclui o curso do liceu já em Coimbra, em 1921]. Antes (1916) publica o seu primeiro livro, “Canto Matinal”. Em 1919 serve a arma de infantaria, pelo que saiu por esses mares adiante, descansando da intriga do “mau tempo no canal”. 

 
Em Coimbra, matricula-se em Direito, mas três anos depois endereça os seus estudos para o curso de Histórico-Filosóficas e em 1925 em Filologia Românica.

O ano de 1923 foi-lhe particularmente benéfico: conhece Miguel de Unamuno (com quem não deixará de trocar correspondência pela vida fora) e é iniciado na Loja “A Revolta”, nº 336, do GOLU, com o n.s. de “Manuel Bernardes”. Em 1924 atinge o grau de Mestre. O maçon “Manuel Bernardes” teve afastado da actividade maçónica durante alguns anos, mas “comportou-se sempre como um verdadeiro maçon” [cf. António Ventura, “Uma História da Maçonaria em Portugal”, p. 830] e já depois do 25 de Abril de 1974 o seu processo de regularização na Loja “Liberdade e Justiça” estava em fase de conclusão [ibidem], o que não se verificou pelo seu falecimento.

Em 1924 é um dos fundadores da revista coimbrã “Tríptico”, juntamente com Afonso Duarte, António de Sousa, Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões. No ano seguinte (15 de Março de 1925) é o director do curioso jornal “Humanidade”, jornal quinzenal dos estudantes de Coimbra [fundado em 1912 pelas lojas maçónicas de Coimbra].

Em 1927, com actividade intensa no Centro Republicano Académico de Coimbra, Vitorino Nemésio e Carlos Cal Brandão, ambos obreiros da Loja “A Revolta”, iniciam a publicação do jornal republicano académico “Gente Nova” [com Paulo Quintela e Sílvio Lima]. Em 1928 termina Filosofia na Universidade de Coimbra com a tese, “O problema da recognição” e começa a escrever na “Seara Nova”. Em 1930, já na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, conclui Filologia Românica e lecciona (1931) nessa Universidade, literatura italiana e espanhola. Colabora poeticamente na revista “Presença” (1930). O ano de 1934 encontra-o doutorado com a tese (de que saiu livro) “A Mocidade de Herculano até à volta do Exílio”.

Entre 1937-1939 dirige a “Revista de Portugal” (Coimbra) e lecciona na Universidade Livre de Bruxelas, tendo regressado em 1939 à Faculdade de Letras de Lisboa, onde se jubilou a 12 de Setembro de 1971.


Romancista, escritor e poeta, Vitorino Nemésio deixou obra farta e primorosa, tendo colaborado em diversos jornais e revistas literárias. Assim, já em 1916, funda a revista literária “Estrela d’Alva”, colabora na revista “Bizãncio” (Coimbra, 1922), “Cadernos de Poesia”, revista “Aventura”, revista “Litoral”, na revista “Vértice”; é redactor do jornal “A Pátria” (1920), “A Imprensa de Lisboa” (1921), “Última Hora” (1921), no jornal “O Diabo” (1935), “Diário Popular (1946), revista “Observador” (1971) e é director do jornal “O Dia” (1975 – que abandona depois por não aceitar as “graves acusações [feitas por Henrique Cerqueira] a vários antifascistas” no caso Henrique Delgado].

A sua obra de perfeição, "O Mau Tempo no Canal” data de 1944, mas antes publicou "Paço do Milhafre" (1924), "Varanda de Pilatos" (1926), "A Casa Fechada" (1937). A sua bibliografia poética é extensa e valiosa: "Canto Matinal" (1916), "Nave Etérea" (1922), "O Bicho Harmonioso" (1938), "Eu, Comovido a Oeste" (1940), "Nem Toda a Noite a Vida" (1953), “O Pão e a Culpa" (1955), "O Verbo e a Morte" (1959), "O Cavalo Encantado" (1963), "Andamento Holandês e Poemas Graves" (1964), "Violão do Morro. Seguido de Nove Romances da Bahia" (1968), "Limite de Idade" (1972), "Sapateia Açoriana" (1976), entre outros.

Morre a 20 de Fevereiro de 1978, no hospital da CUF e será sepultado, a seu pedido, no cemitério de Santo António dos Olivais de Coimbra.  

Vitorino Nemésio foi um homem das letras, um poeta com génio, e mesmo que a história (datada de 1979) nunca totalmente esclarecida de uma sua putativa (e escandalosa) adesão ao separatismo açoriano (via FLA), de uma republica insular, e que o estigmatiza [tanto quanto o “indigna” – s/ o assunto ver Manuel Ferreira, "Vitorino Nemésio e a sapateia açoriana loucura ou traição”, 1988] no pós Abril de 1974, nada fará esquecer essa figura impar da nossa portugalidade. E bem estão aqueles que sabem que “em terra onde há ritos, tem que haver quem celebre” (V.N.). Como no dia 20 de Coimbra se cumprirá.
 
J.M.M.

EDUARDO METZNER – VIDA E OBRA DE UM SEM-ABRIGO


AUTOR: Gabriel Rui Silva;
EDITORA: Licorne, 94 p.

APRESENTAÇÃO:

DIA: 20 de Fevereiro 2015 (16,00 horas)
LOCAL: Centro Cultural Casapiano (Biblioteca César da Silva), Lisboa.

Eduardo Metzner (20 de Março de 1886 – 20 de Fevereiro de 1922), aliás Eduardo Henrique  Metzner


[NOTA: fazemos ao post inicial uma importante corrigenda, da qual nos penitenciamos, no nome e na data de nascimento de Eduardo Metzner. Na verdade, as fontes oficiosaspor nós consultadas,  erradamente atribuem o nome completo de E. M. ao seu tio – Eduardo Henrique de Lima Metzner  -, o que não é verdadeiro. Gabriel Rui Silva teve a gentileza de nos chamar a atenção para tal facto, através de uma cordial missiva, que acompanhou com  o assento do (por si) biografado Eduardo H. Metzner. A nossa gratidão é total] .   
nasceu em Lisboa, foi aluno (nº 2753) da Casa Pia, jornalista, monárquico, libertário, boémio, revolucionário comunista [integrou a I Comissão Organizadora do Constituição do PCP, em Dezembro de 1920, com Manuel Ribeiro, campos Lima, Carlos Rates, António Peixe, entre outros, bem como fez parte dos Corpos Directivos do PCP, em Outubro de 1921, na sua Comissão Geral de Educação e Propaganda], iconoclasta, poeta – não necessariamente por esta ordem. Morreu com 33 anos, no Hospital de S. José, vítima da tuberculose, da cadaverização da vida, do pequeno mundo, uma vida de poesia, revolta e privações.    



Eduardo Metzner colaborou em diversos periódicos, como o jornal “A Revolta” (1909; foi seu director e proprietário), “A Pátria” (1921) e publicou prosa e versos talentosos: “O Agonizar da Monarquia” (1906, “Os Deportados” (1906), “Seditiosa Verbat” (1907), “A República é uma mentira: resposta ao opúsculo de Bernardino Machado ‘Só a República é verdade” (1908), “Herodes” (1910), “Falperra de Gorro Phrygio” (1912), “Panfletos Revolucionários” (1912), “Os Bárbaros do Norte” (1915), “Camões morto de fome; ao sr. Teóphilo Braga …” (s.d.), “A verdade acerca da revolução russa” (1919), “Diamantes negros” (Poemas, 1925, ed. póstuma)

Eduardo Metzner, para quem “a morte é uma noite de noivado” [E.M. dixit] está biografado por Gabriel Rui Silva. Agradecemos.

J.M.M.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

MARIA LAMAS (Parte II)

A escritora dirige, a partir de 1928, a convite de Ferreira de Castro, a secção “O Reino dos Miúdos”, da Civilização Magazine, que se publica até 1932. Nesse mesmo ano surge também a possibilidade de assegurar a direcção da publicação Modas & Bordados, ligada ao jornal O Século, conquistando nessa fase visibilidade e reputação enquanto escritora e jornalista, além de que lhe permitir algum desafogo económico. Manteve-se ligada a esta revista até Junho de 1947, sob a acusação de ser um dos elementos mais activos do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas. Renova a publicação, conquista novos públicos e consegue transformar a publicação, cuja exploração era deficitária numa publicação lucrativa, entretanto altera-lhe o subtítulo que passa a ser Vida Feminina. Prepara, organiza e divulga a exposição Mulheres Portuguesas – Exposição da obra Feminina Antiga e Moderna de Carácter Literário, Artístico e Científico que fica conhecido como O Certame das Mulheres Portuguesas.

Realizou várias reportagens para O Século, viajando pelo estrangeiro como os escritos que fez sobre Marrocos, Argélia, Gibraltar, mas também sobre a Madeira, entre outros.

Participou também em diversas palestras pelo País, com destaque para as que realizou no Porto, Lisboa, na ilha de São Miguel. Realiza, ainda em 1934, a conferência A Viagem do Espírito nas tardes artísticas de O Século. Torna-se sócia do Sindicato dos Jornalistas, com carteira profissional também neste ano. Organizou várias exposições de arte regional, por exemplo em Lisboa, Porto (no Ateneu Comercial); a exposição de livros escritos por mulheres de todo o mundo realizada na Sociedade Nacional de Belas Artes, em 1947.

Recebe em 1934 a condecoração de Oficial da Ordem de Santiago de Espada atribuída pelo então Presidente da República, Óscar Fragoso Carmona, pelo seu papel em prol das mulheres. No ano seguinte desloca-se à Madeira e aos Açores, onde realiza reportagens, profere conferências. Responde ao Inquérito às Mulheres Portuguesas, organizado por O Diabo em 1936. Nesse ano divorcia-se também pela segunda vez e, novamente, fica com a filha Maria Cândida a seu cargo. Manifesta a sua adesão à Associação Feminina Portuguesa para a Paz e assume a direcção da secção de Educação do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP).

Em 1937, assume a responsabilidade de organizar um ciclo de conferências nos salões do jornal O Século. Leva a efeito também uma exposição de tapetes de Arraiolos, elaborados pelas reclusas na cadeia das Mónicas.

Maria Lamas inicia a sua vida política, em 1945, assinando as listas de apoio à constituição do MUD – Movimento de Unidade Democrática. Nessa mesma época inicia a sua actividade junto à direcção do Comissão Nacional das Mulheres Portuguesas. No ano seguinte é eleita Presidente do CNMP. Em conjunto com Sara Beirão apresenta uma representação à Assembleia Nacional sobre a capacidade eleitoral feminina, prejudicada pelo decreto-lei n.º 35 426, de 31 de Dezembro de 1945. Participa também no primeiro congresso da Federação Democrática Internacional das Mulheres (FDIM). No ano seguinte assiste ao encerramento da sede da Comissão Nacional das Mulheres Portuguesas por despacho do Governador Civil de Lisboa. Nesse mesmo período organiza, em sociedade com mais dois elementos, a Editora Actuális, onde virá a publicar As Mulheres do Meu País. Participa no II Congresso da Federação Internacional das Mulheres, realizado em Budapeste. Envolve-se de forma decidida na campanha presidencial de Norton de Matos, tendo nessa ocasião participado num comício onde denunciava a política do Estado Novo em relação à mulher e à família.



Em 1949 passa a integrar a Comissão Central do Movimento Nacional Democrático (MND). Nesse mesmo ano foi detida passando algum tempo na cadeia de Caxias e dirige a revista As Quatro Estações. Submetida a julgamento em 1950 acaba por ser condenada juntamente com os restantes elementos da Comissão Central do Movimento Nacional Democrático acabando por ser amnistiada. Realiza a conferência A Paz e Vida. A Polícia Internacional de Defesa do Estado descobre novos envolvimentos de Maria Lamas nas actividades oposicionistas e volta a ser detida em Caxias, onde se manifestam alguns problemas de saúde. Envia correspondência a Oliveira Salazar onde protesta contra a detenção dos elementos dirigentes do Movimento Nacional Democrático. Enquanto dura esta detenção começa a escrever um diário em que narra as condições quotidianas experienciadas na cadeia. Devido a razões de saúde acaba por ser transferida, ainda sob prisão, para o Hospital de Santo António dos Capuchos. No ano seguinte, volta à liberdade e dedica-se à tradução das obras da Condessa de Ségur, João que Chora, João que Ri.

[EM CONTINUAÇÃO]

A.A.B.M.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

MEU PAI, O GENERAL SEM MEDO - NO CINQUENTENÁRIO DO SEU ASSASSINATO


AUTORA: Iva delgado;
EDITORA: Caminho, 2015, 200 p.

LANÇAMENTO:

DIA: 13 de Fevereiro 2015 (18,00 horas)
LOCAL: Cinema São Jorge
ORADORES: Irene Pimentel | Helena Roseta | André Gago | António Costa

Humberto Delgado ficou conhecido como General sem Medo, pela coragem com que enfrentou a ditadura de Salazar. Aclamado por multidões de norte a sul de Portugal, lutou pela Liberdade até à sua morte às mãos da PIDE, em 13 de Fevereiro de 1965.

O livro de memórias de sua filha revela-nos o lado íntimo dessa figura carismática. Humberto Delgado é recordado no seu bom humor e na sua generosidade, como pai a um tempo rigoroso e criador de elos afectivos.

A presente obra inclui correspondência violada pela PIDE e uma extraordinária colecção de fotografias na maior parte inéditas. Iva Delgado deixa-nos um testemunho ímpar sobre um homem que se tornou um mito do século XX português.” [AQUI]
 
J.M.M.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

COMEMORAÇÕES DO 113º ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE MANUEL CABANAS EM VILA REAL DE SANTO ANTÓNIO

Realizam-se no próximo sábado, 14 de Fevereiro de 2015, a partir das 10 horas, em Vila Real de Santo António, um conjunto de iniciativas com vista a assinalar o 113º aniversário do nascimento de Manuel Cabanas.

Entre as várias iniciativas que o cartaz acima faz referência, que vão ter lugar no Arquivo Histórico Municipal António Rosa Mendes, de Vila Real de Santo António, destaca-se a inauguração da exposição de pintura do escultor Nuno Rufino, a que se segue o momento musical e, por fim, uma conferência muito interessante sobre um conterrâneo de Manuel Cabanas e conhecido poeta popular, António Aleixo, que vai ser analisado noutra vertente menos conhecida pelo Eng. Luís Guerreiro, conhecido bibliófilo, investigador e comunicador da cultura algarvia.

O título da conferência é António Aleixo - um livre pensador. 

A acompanhar com toda a atenção.

A.A.B.M.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

CONFERÊNCIA – OS RITOS EGÍPCIOS


CONFERÊNCIA: Os Ritos Egípcios;

DATA: 13 de Fevereiro 2015 (19,00 horas);
ORADOR: Dr. Pedro Rangel;
LOCAL: Escola Oficina nº1 [Largo da Graça, nº 58, Lisboa];
ORGANIZAÇÃO: Museu Maçónico Português [Ciclo “Grande Ritos Maçónicos"]

“No universo simbólico da Maçonaria sobressaem palavras que escapam por vezes à semântica comum, revestindo-se de sentidos específicos,  no seio das Lojas ou do discurso maçónico.

Tal é o caso da palavra rito, a qual, em Maçonaria, tanto pode designar uma certa forma de prática ritual, assente num conjunto de práticas que lhe são inerentes, como a sequência e a natureza específica dos graus, que compõem um dado sistema maçónico.

De uma exuberante variedade de ritos maçónicos, gerada no decurso do século XVIII, praticam-se na actualidade, principalmente, os Ritos Franceses, o Regime Escocês Rectificado (RER), o Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA), os Ritos Egípcios e os Ritos Anglo-Saxónicos.
 
O Rito Antigo e Primitivo de Memphis-Misraïm possui as suas especificidades próprias, que lhe conferem uma grande riqueza, tanto histórica como ritual.
 
Entre outros aspectos próprios, salientam-se:
 
- a sua orientação Espiritualista e Deísta, no contexto de uma Via Iniciática;

- a procura do Conhecimento pela aliança das vias do coração e da razão;

- o seu carácter de guardião das tradições do Antigo Egipto, berço de toda a Iniciação;

- a sua vocação para conservar e desenvolver uma Tradição integral, entendida como a Tradição Primordial, transmitida através das correntes hermética, gnosticista, cabalista, templária e rosacruciana,  destinada a libertar o Homem das suas cadeias materiais, através da sua libertação espiritual.

São estes os temas que se pretendem desenvolver na presente conferência, analisando-se, igualmente, a História, a base filosófica e o sistema dos Ritos Egípcios.

Contando com a vossa participação, apresento os meus cumprimentos.”

[Fernando Castel-Branco Sacramento - Director do Museu Maçónico Português]

J.M.M.

VIDAS COM SENTIDO: MARIA LAMAS

Amanhã, quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2015, pela 18 horas, continua o conjunto de sessões subordinada do tema Vidas Com Sentido, organizado pela Fundação Mário Soares, dedicado desta vez a Maria Lamas (1893-1985).

Esta iniciativa conta com a colaboração e a participação de Maria Antónia Palla, José Gabriel Pereira Bastos e Mário Soares.
Uma iniciativa que divulgamos e aproveitamos para traçar os dados biográficos da homenageada na sessão, ao longo destes próximos dias.

Maria da Conceição Vassalo e Silva da Cunha Lamas, era filha de Maria da Encarnação Vassalo e de Manuel Caetano da Silva. Em 1900 ingressa, como aluna interna, no Colégio das Teresianas de Jesus, Maria e José, em Torres Novas.

Em 1911, casa com o tenente Ribeiro da Fonseca, tornando-se no primeiro casamento civil que se realiza em Torres Novas. Como o marido era militar foi enviado em comissão de serviço para Angola onde se mantém até 1913. No período em que regressa a Portugal nasce a primeira filha do casamento, Manuela. Também nessa época começa a colaborar na imprensa local com pequenas poesias, quase todas tendo por base o tema da Guerra e utilizando o pseudónimo Serrana d'Ayre.

Quando Portugal entra efectivamente em guerra com a Alemanha e se inicia o envio de tropas para o centro da Europa, Maria Lamas realiza trabalho voluntário com a Cruz Vermelha. Organiza eventos para angariar fundos que seriam enviados para os soldados na frente de batalha. No final da Grande Guerra divorcia-se, já com duas filhas para educar e acompanhar, tendo sido ela a desenvolver as iniciativas para encontrar meios de sustento, mas vive em casa dos pais em Lisboa. Entra assim no circuito do meios de comunicação de grande tiragem. Começa por colaborar com a Agência Americana de Notícias e depois começa a colaborar com os jornais Correio da Manhã, Época e mais tarde O Século, A Capital e o Diário de Lisboa.

Na vida pessoal casa novamente, em 1921, com Alfredo da Cunha Lamas e volta novamente a ser mãe. Ingressa novamente na escola e realiza o Curso Geral dos Liceus, desenvolve em simultâneo um trabalho de combate ao analfabetismo entre as operárias da Fábrica Simões, em Benfica. Literáriamente começa a utilizar o pseudónimo Rosa Silvestre. Em 1924 começa a leccionar no Instituto Luso-Belga, em Carnide. Dirige também nesse ano a revista infantil O Pintainho, com o pseudónimo atrás referido, continuando ao longo dos anos seguintes uma intensa actividade literária em diversas publicações. Com a instauração da Ditadura Militar continua a desenvolver diversas colaborações ao nível da escrita e a publicar várias obras dirigidas ao público infantil.


[EM CONTINUAÇÃO]

A.A.B.M.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

IN MEMORIAM DE MANUEL LUCENA [1938-2015]


“Morreu ontem [sábado] Manuel de Lucena, no dia em que fazia 77 anos. É difícil dizer quem foi e o que nos lega. O seu percurso tem muitas estações. Foi um pensador original e heterodoxo, um espírito livre e criativo, um contador de histórias, um apaixonado tradutor, um militante de muitas causas e viragens — um homem do seu tempo. Era investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS) desde 1975.

Cientista político, mudou radicalmente o modo de olhar o Estado Novo com o seu primeiro livro — A evolução do sistema corporativo português. Vol. I: o Salazarismo; vol. II: o Marcelismo — uma tese escrita no exílio e publicada em Portugal em 1976.

Numa entrevista ao PÚBLICO, em 2013, fez um irónico auto-retrato: “Eu acho que só há uma coisa que eu faço mesmo bem: é traduzir. (…) E dificilmente me penso como outra coisa qualquer. Não sou estúpido, de vez em quando penso umas coisas que não são mal pensadas, mas não tenho um pensamento vasto e universal capaz de acolher os principais aspectos da nossa querida existência.”

A questão é que são muitíssimas essas “coisas não mal pensadas”.
 
 
 
 
Manuel João Maya de Lucena nasceu em Angola em 1938. Aí fez a instrução primária. Frequentou o liceu em Lisboa e depois um colégio de Jesuítas. Entrou na Universidade através do Instituto Superior Técnico, que logo trocou pela Faculdade de Direito. De raiz católica e monárquica, militou na JUC. O primeiro círculo de amigos é de católicos “empenhados”: Carlos Portas, Manuel Belchior, João Vieira de Castro, Francisco Sarsfield Cabral, Paulo Rocha. No CCC (cineclube católico) fez outros, como João Bénard da Costa, Nuno de Bragança ou Pedro Tamen — que voltará a acompanhar na revista O Tempo e o Modo, fundada em 1963 por António Alçada Baptista.

Lucena já tinha feito a ruptura com o salazarismo quando eclode a greve académica de 1962. É a oportunidade de uma “estreia literária”: é ele quem redige a quase totalidade dos comunicados da greve. Acompanha os seus amigos dirigentes das RIA (reuniões inter-associações) — Jorge Sampaio, Eurico Figueiredo, Medeiros Ferreira, Victor Wengorovius ou António Ribeiro. Depressa se inicia na arte da política: tinha uma forma peculiar de combinar o rigor dos princípios com o gosto da manobra táctica.

Segue-se a época da radicalização. “Esquerdizei abundantemente”, disse na mesma entrevista. Em 1963, deserta e parte para o exílio em Roma, com sua primeira mulher, Laura Larcher Graça. É dirigente do Movimento de Acção Revolucionária (MAR)
 
[NOTA: a organização é fundado em Genebra, (Março ?) Dezembro de 1963, e manteve-se activa até pelo menos 1965; publicou um boletim com o título "Acção Revolucionária"; foram membros do MAR, além de Manuel Lucena, A. H. de Oliveira Marques, António Lopes Cardoso, Armando Trigo de Abreu, Bénard da Costa, João Cravinho, Jorge Sampaio, José Hipólito dos Santos, Manuel Sertório, Medeiros Ferreira, Nuno Bragança, Nuno Brederode Santos, Piteira Santos (?), Rui Cabeçadas, Vasco Pulido ValenteVítor Wengorovius]
 
e, em Argel, fará parte da Frente Patriótica de Libertação Nacional. Terá uma breve colaboração com a LUAR. Em 1970, participa com António Barreto, Eurico Figueiredo, Carlos Almeida e Medeiros Ferreira na fundação da revista Polémica, publicada em Genebra. Passado da Itália para Paris, estuda no Institut de Sciences Sociales du Travail onde faz a tese sobre o corporativismo.

Neste percurso há uma constante: nunca foi atraído pelo Partido Comunista.



O revolucionário Lucena muda de agulha. Chega no Verão de 1974. Depressa diz aos amigos de que não gosta do que vê. Conclui o serviço militar em Cabo Verde, participando no processo de descolonização. É outro momento de viragem. Apoia o manifesto do Grupo dos 9, de Melo Antunes. Adere depois à Aliança Democrática, de Sá Carneiro, e faz a campanha do seu candidato presidencial, general Soares Carneiro. Já nas presidenciais de 1996 apoiará Jorge Sampaio contra Cavaco Silva.

No livro de homenagem que lhe foi dedicado em 2013 —  Estado, Regime e Revoluções, Estudos de Homenagem a Manuel de Lucena — os organizadores (Carlos Gaspar, Fátima Patriarca e Luís Salgado de Matos) resumem a lógica deste segundo percurso:
 
A acção política de Manuel de Lucena tem sido sobretudo escrita, cultivando em regra uma independência política e intelectual que o levou a tomar posição, como comentador, contra os perigos da escalada comunista, o caos da descolonização e os obstáculos à institucionalização de uma democracia pluralista. Nos anos 70 do século XX, antes e depois do 25 de Abril, escreveu artigos ainda inspirados por um socialismo radical; mas, ao longo das duas décadas seguintes, procurou, nomeadamente, nos jornais dirigidos por Víctor da Cunha Rego – o Diário de Notícias, a Tarde e o Semanário –, definir uma linha singular, tão radical na defesa da transição para essa democracia pluralista, como inteligente na procura dos argumentos que podem pesar na balança ideológica a favor da liberdade.

O seu trabalho académico manteve o eixo de sempre: corporativismos, fascismos, totalitarismos, o processo revolucionário português, a descolonização ou a Constituição de 1976. No Dicionário de História de Portugal  (coordenado por António Barreto e Maria Filomena Mónica) assina entradas sobre Salazar e as principais figuras do Estado Novo. Publica em 2006 o seu último livro: Contradanças: política e arredores.

Um dos seus grandes projectos foi a realização de entrevistas exaustivas a cerca de 50 actores da descolonização, de todas as áreas e correntes, civis e militares. Coordenou, com investigadores e jornalistas, esse trabalho entre 1995 e 1998. O resultado — 1500 páginas — pode ser consultado: está disponível no site do ICS.
 
Cultor de um português inconfundível, adorava traduzir. Diz na introdução à sua tradução das Moradas, publicada em 1989:
 
“Ao escrever as Moradas, Santa Teresa de Ávila tentou traduzir Deus, trazendo-o, na medida do possível, para o alcance das suas irmãs e filhas, as carmelitas descalças. Pela minha parte, acabo agora de traduzir essa tradução. O objecto do seu labor, na medida em que de objecto seja lícito falar, foi a própria divindade ou o que dela directamente experimentou. O do meu, palavras.”

Puro Lucena. Por entre as muitas viagens e viragens, de 1962 a 2015, soube permanecer sempre o mesmo homem — o inconfundível Manuel de Lucena. Académico, passou sempre ao lado das honrarias e do carreirismo”.

Jorge Almeida Fernandes, in jornal “Público”, 8 de Fevereiro de 2015, p. 15 [sublinhados e notas nossas]

J.M.M.

BIBLIOTECA DE RAMIRO TEIXEIRA – LEILÃO [PARTE II]


LEILÃO DA BIBLIOTECA DE RAMIRO TEIXEIRA [CONTINUAÇÃO]


“Aqui chegado abro um parêntese.

Conheci Manuel Ferreira, porque é dele que agora vou falar, como participante de um grupo coral nos meados dos anos 60 ou 70 do século passado, sem a consciência de já o conhecer de período anterior, através de trocas e baldrocas de livros policiais na estreitíssima travessa de Cedofeita, na Casa Brique, porventura mais conhecida por "Casa Azul", onde seu pai possuía uma casa de antiguidades.

Homem em idade recém-chegado a tal, Manuel Ferreira demonstrou tais qua1idades no negócio dos livros que comprava e revendia depois de os ler, tal como os demais que vinham no arrasto das compras de mobiliário e demais recheio que o pai adquiria, que este, certo dia, o conduziu a um estabelecimento encerrado na rua Formosa e o desafiou: Acho que é altura de começares a desenvolver o teu próprio negócio... Se te agrada o local, vamos tratar do aluguer...

Com cerca de trinta anos, casado e já com dois filhos, Manuel Ferreira não hesitou: assim nasceu o livreiro-alfarrabista Manuel Ferreira no mês de Abril do ano de 1959.

Na pré-abertura do estabelecimento, uma porta e uma montra na rua Formosa, há quem o afirme, foi depositado o bebé Herculano [Ferreira], então com onze meses, enquanto seus pais procediam ao arrumo das obras pelas prateleiras instaladas! Não consta que alguém o tenha pretendido adquirir, apesar de alguns transeuntes se quedarem de forma enternecida na observação do seu sono inocente ou do seu gestual traquina numa alcofa...

Pouco tempo depois, Manuel Ferreira dava a conhecer as obras de mérito de que dispunha através de listas tiradas a stencil. Catálogo propriamente dito iniciou-os só em 1967 e os manteve até ao seu passamento (15/712010), num total de 89, hoje fonte documental de preciosos verbetes sobre a literatura portuguesa, ao que teremos de acrescentar os demais que organizou para leilão sob a sua própria chancela ou sob o signo da "In-Libris", hoje sob os cuidados dos seu filho mais novo, Paulo Ferreira.

Antes, porém, a partir de 1963 e até 1998, em consequência do convite que lhe foi dirigido pela filial da agência de leilões de Soares & Mendonça para organizar os seus catálogos, elaborou Manuel Ferreira mais de 60, sendo, aliás, neste período que me iniciei como imberbe bibliófilo, ainda que já viciado e compulsivo.

Esta agência, que deixou marcas indeléveis no burgo portuense, veio a encerrar as suas instalações no Porto muito provavelmente em consequência da morte do Sr. Albertino, um pregoeiro espantoso, num estúpido acidente de viação em Coimbra.

Pioneiro na promoção dos chamados "modernistas", dos homens de "Orpheu" aos da "Presença" e surrealistas, passando pelos neo-realístas do "Novo Cancioneiro" e da colecção dos "Novos Prosadores", enquanto promotor de venda das suas obras primeiras, Manuel Ferreira, desde logo, quis seguramente marcar a diferença relativamente aos seus colegas de actividade.

No mais, quero crer, valeu-lhe a escola que os leilões de Soares & Mendonça lhe proporcionaram pelo desafio que implicavam.

Pelas suas mãos, por conta própria ou de outrem, passaram as maiores bibliotecas deste país, toda a espécie de obras literárias e científicas, desde os quinhentistas aos contemporâneos, obrigando-o, passe a expressão, que nem por isso será menos verdadeira, a incomensuráveis consultas e pesquisas, chegando mesmo a rectificar informes falaciosos dados como incontornáveis! Com tais conhecimentos, Manuel Ferreira bem poderia ter escolhido para tema do seu labor livreiro a divisa dos nossos descobridores quinhentistas que asseguravam que a experiência era a madre das cousas ...

Manuel Ferreira viveu 58 anos a organizar leilões, a comprar e a vender livros, nesta cidade do Porto que não o mereceu, já que a autarquia ficou indiferente ao cinquentenário do seu estabelecimento (2009), como se tal efeméride fosse coisa corriqueira e de nenhum interesse para o burgo. Tal qual como o foi relativamente ao centenário da Liv. Académica, agora do meu Amigo Nuno Canavez, cujo trajecto existencial memorizei na obra que o tem por referência, "Nuno Canavez. As palavras da amizade" (Porto, Calendário das Letras, 2008) e onde, ainda hoje, a tenho como espaço especial de tertúlia, de conversas a propósito e a despropósito, com outros clientes ocasionais.

A ver se me faço entender: não estou aqui a defender uma actividade cultural pela razão de o ser, e que muito justamente motivou que os intérpretes acima referidos fossem agraciados com o título de Comendador, mas tão simples mente qualquer outra actividade comercial alicerçada em 50 e 10O de existência.

Há muito já que a autarquia deveria ter um gabinete ou um serviço atento às datas mais significativas para os seus comerciantes, industriais e demais personalidades públicas e intelectuais, de forma a ser ela, em primeira mão, a promover e a associar-se a este tipo de eventos. Porque não é todos os dias que se assinalam 50, 75 ou 10O de actividade cultural, comercial ou industrial.

É preciso que se crie a consciência de que uma empresa com esta longevidade, se calhar hoje mais do que nunca, adquire o direito de ser considerada um património da urbe e como tal ser reverenciada (…)

Segundo o dogma aceite, bibliófilo é aquele que ama os livros. Pois se os ama não só vive uma paixão avassaladora na maioria dos casos, como à força tem com eles uma relação sensual. A relação do bibliófilo com o livro, coisa feita de mil vagares e de mil saberes, aquém e além Gutenberg, que tão só o democratizou, não advém somente do que há lá dentro, o que narra, documenta, historia, inventaria ou ensina: é também, não poucas vezes, papel, tinta, caracteres tipográficos, capa, encadernação, ferros de gravar, dimensão, peso, etc., tudo contribuindo para o exercício de, entre outros pecados, satisfazer o do manuseio sensual, folha por folha, em quase acto onanista, fonte subtilíssima de prazer, ao qual adiciono o outro prazer que advém da descoberta e da necessidade da obra. E como entretanto ao longo da minha existência enquanto escritor, ensaísta, e comentador de obras de terceiros, muitas foram as necessidades que tinha de determinadas obras afins ao que trabalhava ou tinha em agenda de vir a trabalhar, a breve trecho dei por mim como um encarcerador de livros, distribuídos por duas residências, empacotados, encaixotados em grande número nas garagens e sótãos! E conquanto de todos tivesse pormenorizado registo e localização, inclusive o assento da sua valorização cronológica que retirava dos catálogos que recebia, a verdade é que a situação tornava-se insustentável pela dispersão e pela impossibilidade muitas vezes de deles me socorrer quando precisava.

Por outro lado o cabo do fim da vida foi-se aproximando. Que fazer da minha biblioteca? Decerto que os filhos ficarão na posse de alguns, não mais, porém, do que meia dúzia, dado que não só têm outros interesses na vida como as suas habitações não podem albergar o que possuo. Ou seja, ela não me vai sobreviver.

Custa? Claro que sim! A gente agarra-se a alguma coisa na pretensão de reter o tempo e a formação que nos deu o ser, enfim, a vida nossa que está inscrita nas páginas destas obras, de forma impressa e não poucas vezes manuscrita, como é o caso das dedicatórias dos autores em muitos dos exemplares que possuo, algumas delas reciprocamente avalizadoras, inter pares em admiração comum, mensagens de vida e de apreço que sabem a sonho e alimentam a fome sagrada dos que as têm por fundamentais. A maior parte delas têm-me como endereço, mas há muitas outras alheias, dirigidas a gente bem mais importante do que eu e que acabaram na mesma dispersão. Algumas das que me foram dirigidas provocam-me agora pesadelos, nomeadamente uma de Natália Correia, que exarou no exemplar que lhe apresentei para o efeito não me perdoar ter uma obra que ela não possuía e que há muito tempo perseguia!

E eu que não lhe a ofereci! Que mesquinho fui!

Chegou pois o tempo de decidir em consciência, escudando-me com o facto de estar a proceder de acordo com o destino de todas as grandes e pequenas bibliotecas que antecederam a minha.

Custa? Claro que sim! (…)"

Ramiro Teixeira, Excerto do “Prefácio” ao Catálogo do “Leilão daBiblioteca de Ramiro Teixeira”, Livraria Manuel Ferreira, Porto, 2015, Vol I

CATÁLOGO ONLINE AQUI [Vol I e Vol II]

J.M.M.