domingo, 21 de Setembro de 2014

SOB O SIGNO DAS TRINCHEIRAS: A GRANDE GUERRA NA LITERATURA E NA ARTE



DIA: de 30 de Setembro (9,00 h);
LOCAL: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Anfiteatro 3);


ORADORES/TEMAS:

- José Pedro Serra: “Relatos de Guerra, Fracturas da Alma”
- António Ventura: “Escrever sobre a Grande Guerra na Primeira Pessoa”
- José Barreto: "Fernando Pessoa: Aliadófilo ou Germanófilo?"

- Teresa Seruya:"Guerra e Nação no Princípio do Século XX: O Caso de Thomas Mann"
- Luísa Flora: “Este abismo de sangue e trevas – Alguns Significados da Grande Guerra na Literatura Inglesa”
- Diana V. Almeida: “And why can we not save each other?: Corpos e Desejos durante a Grande Guerra na Literatura e na Arte dos E.U.A.

ORGANIZAÇÃO: Centro de Estudos Comparatistas (F.L.U.L.) [Aesthetics of memory and Emotions].


J.M.M.

sábado, 20 de Setembro de 2014

COMEMORAR A REPÚBLICA – CONDEIXA-A-NOVA: EXPOSIÇÃO & CONFERÊNCIA


EXPOSIÇÃO: “República e Maçonaria”;

DIAS: de 4 de Outubro (18,00 h) a 12 de Dezembro;
LOCAL: Galeria Municipal Manuel Filipe (Condeixa-a-Nova);

CONFERÊNCIA: “República e Maçonaria – Que relação?”;
ORADOR: Prof. António Ventura;
DIA: de 4 de Outubro (18,00 h);
LOCAL: Galeria Municipal Manuel Filipe (Condeixa-a-Nova);

ORGANIZAÇÃO: Câmara Municipal de Condeixa-a-Nova | Museu da Republica e Maçonaria de Aires Henriques [Troviscais, Pedrógão Grande].

«A Câmara de Condeixa-a-Nova inaugura, no dia 4 de outubro, uma exposição de homenagem à Maçonaria pelo seu papel na implantação da República, em 1910, e "na transformação das mentalidades" ao longo dos séculos.

A exposição "República e Maçonaria" inclui a reconstituição de um templo maçónico, na galeria municipal Manuel Filipe, onde serão exibidas 30 peças do espólio privado do Museu da República e da Maçonaria, situado em Troviscais, concelho de Pedrógão Grande.
 
"Pensámos comemorar a revolução do 5 de Outubro com um tema diferente que despertasse a atenção das pessoas", disse hoje à agência Lusa a vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Condeixa-a-Nova, Liliana Pimentel.

Organizada com a colaboração de Aires Henriques, proprietário daquela unidade museológica, a mostra de símbolos maçónicos permite "analisar a relação entre a Maçonaria e a República" em Portugal, adiantou.




"A exposição pode ser visitada até ao dia 12 de dezembro, estando a comunidade escolar envolvida no projeto", realçou a vereadora Liliana Pimentel.
A abertura da exposição, no dia 4, às 18:00, coincide com a realização da conferência "República e Maçonaria - Que relação?", por António Ventura, professor da Universidade de Lisboa e autor do livro "Uma História da Maçonaria Portuguesa (1727-1986)".

"Pretende-se recordar e homenagear o trabalho dos republicanos, maçons e demais cidadãos livres e de bons costumes que, na Região Centro - no eixo Coimbra, Miranda do Corvo, Condeixa e Leiria - ajudaram a firmar um ideal de liberdade, igualdade, fraternidade, justiça e tolerância", declarou à Lusa o investigador Aires Henriques.

Esse ideal, segundo o responsável do Museu da República e da Maçonaria, "expandiu-se para o interior serrano e pobre, onde, precisamente na vertente ocidental da Serra da Lousã, labutavam as populações" de Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos.

Entre as "figuras porventura mais emblemáticas" do republicanismo na região, "salientam-se os republicanos e maçons Belisário Pimenta e José Falcão", ligados a Miranda, mas, no concelho de Condeixa-a-Nova, "não se podem ignorar, entre outros, os seus irmãos de ideal Fortunato Pires da Rocha, João Bacelar, Abílio Roque de Sá Barreto e Manuel Alegre", alguns dos quais desempenharam as funções de presidente da Câmara Municipal.
"A exposição apresenta um acervo museológico raro na Península Ibérica, de momento só suscetível de usufruir em Lisboa, no Museu Maçónico, e em Salamanca, no âmbito do Arquivo Distrital da Guerra Civil de Espanha", salientou Aires Henriques.
A mostra é composta por paramentos, malhetes de condução dos trabalhos maçónicos, espadas de ritual, um bastão de mestre de cerimónias, certificados de iniciação e outros documentos, joias de diferentes graus, relógios de algibeira e viagem, insígnias, uma campânula de luminária do Palácio Maçónico, uma cadeira de "mestre venerável", carimbos de lojas extintas e bustos da República Portuguesa com estrela maçónica.

Numa publicação a apresentar no dia da abertura, a organização enaltece a ação dos maçons na revolução republicana, os quais "decisivamente contribuíram para fazer cair um regime socialmente injusto".

via LUSA (aliás, via Diário das Beiras, 20/09/2014, p. 18| idem via Aires Henriques)

J.M.M.

sexta-feira, 19 de Setembro de 2014

IN MEMORIAM JOSÉ SOARES MARTINS (1932-2014) [Parte I]


José Soares Martins, conhecido como investigador por José Capela, nasceu em Arrifana, Vila da Feira, em 25 de Março de 1932. Depois de completar a escola primária, prosseguiu os  estudos ingressando no Seminário dos Grilos, no Porto.

Frequentou o curso de Teologia no Porto, em 1954. Chegou a Moçambique em 1956, com 24 anos, onde se dedicou à escrita e à investigação. Estabeleceu-se na cidade da Beira, onde seu tio era Bispo, D. Sebastião Soares de Resende, responsável pela diocese da Beira. Começou por trabalhar no Diário de Moçambique, a partir de 1959, onde desempenhou as funções de chefe de redacção e, mais tarde, de director-adjunto do mesmo jornal. Sobre a existência deste jornal recomenda-se a leitura do verbete que lhe dedica Ilídio Rocha [Ilídio Rocha, A Imprensa de Moçambique, Ed. Livros do Brasil, Lisboa, 2000, p. 283-284], onde traça um pequeno apontamento sobre as dificuldades e as vicissitudes de um jornal, em diversos momentos, denunciou situações menos correctas da administração colonial portuguesa que lhe valeram a suspensão, mesmo sendo um órgão da Igreja Católica, mas ao mesmo tempo enfrentando o poder que dispunha na região o eng. Jorge Jardim. Colaborando em diversos órgãos da comunicação escrita em Moçambique, dinamizou vários órgãos como o semanário Voz Africana (1962), a revista Economia de Moçambique (1963), entre outros.

Regressou a Portugal em 1968, quando fundou a Voz Portucalense, órgão da imprensa periódica ligado à Diocese do Porto, onde colaborou depois com alguma regularidade [Rui Osório, “Nem o Evangelho escapava à Censura!”, Jornalismo & Jornalistas, Jan-Jun.2014, p. 78, refere-se à criação deste periódico católico impulsionado pelo bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, assinalando como colaboradores Mário Zambujal, Mário Castrim, Germano Silva, António José Salvador e José Gomes Bandeira, entre outros]. Este regresso e instalação de José Martins Soares a Portugal, devia-se à publicação, já sob pseudónimo de José Capela, de um conjunto de cartas de negros para o órgão oficial da Diocese da Beira, Diário de Moçambique, o que causou profundas marcas.

Em 1 de Janeiro de 1970 iniciou, como editor, a publicação do jornal Voz Portucalense, no Porto. Nesta cidade desenvolveu intensa actividade no domínio cooperativista e na luta anti-facista e anticolonial. Nessa altura surgem a Confronto, e depois a Afrontamento,  Da publicação também dos cadernos anticoloniais.


Depois do processo de independência de Moçambique, esteve colocado como adido cultural no Centro Cultural Português, em Maputo, onde desenvolveu intensa actividade como investigador da História de Moçambique. Analisou com grande interesse as relações socais das populações na região da Zambézia. Os seus textos debruçam-se especificamente sobre Moçambique, sobre as questões coloniais, tendo focado a sua análise em alguns eixos fundamentais: a formação do embrionário capitalismo português em Moçambique e a influência que exerceu nas populações locais; a problemática da escravatura desde o período pré-colonial até à sua proibição e erradicação já nos primeiros anos do século XX; por outro lado, investigou e publicou textos sobre a complexidade histórica das sociedades da bacia do rio Zambeze, tendo por base a problemática do regime dos prazos na antiga colónia portuguesa.

[em continuação]

A.A.B.M.

sábado, 13 de Setembro de 2014

AQUILINO, O REGRESSO HÁ 100 ANOS


Aquilino, o regresso há 100 anos” – por António Valdemar, in Público

Aquilino voltou a Portugal há 100 anos. Regressava do primeiro exílio político. Estivera refugiado em Paris, devido à participação revolucionária contra a ditadura de João Franco. Integrou-se no grupo de outros exilados portugueses como Magalhães Lima, Luz de Almeida, Alves da Veiga, Leal da Câmara, também empenhados na militância ativa para implantar a República. A França, depois da história do Renascimento, ocupava um lugar equivalente ao da Grécia, na Antiguidade Clássica. Paris era, na síntese de Aquilino, outra Atenas – “sol e sal da terra, segunda pátria para os rebeldes que tiveram que perder a sua, Jerusalém de todos os sonhadores e aflitos”.

Todavia, de 1908 a 1914, Aquilino partilhou a festa da vida e as torrentes da cultura, conheceu as obras dos escritores, poetas e artistas plásticos já consagrados e alguns representantes das vanguardas. Privilegiou, acima de tudo, os primores do convívio e da amizade. Matriculou-se na Sorbonne para cursar estudos clássicos. Ouviu as preleções de Jerôme Carcopinau, de Bergson e outros mestres famosos.

Assistiu ao princípio da aviação e à generalização dos automóveis, embora os fiacres continuassem a circular nas ruas. Paris era um paraíso, que recordou nas Abóboras no Telhado e em Por Obra e Graça, ao traçar os perfis de Anatole, do pintor Manuel Jardim, do escultor Anjos Teixeira e outros intelectuais e artistas portugueses que Diogo de Macedo, também, evocará em 14, Cité Falguière. Ainda perdurava a belle époque, embora já se pressentisse a aproximação da Primeira Grande Guerra que virá flagelar a Europa.

Aquilino andou de livraria em livraria e de atelier em atelier, em Montmartre e Montparnasse. Frequentou um clube de políticos e letrados na Rue du Faubourg de Saint Honoré, o Café Voltaire, no Quartier Latin, no qual também se juntavam, assiduamente, os círculos republicanos. O café La Bohème, Deux Magos e La Cloiserie des Lilas, constituíam outros pontos de encontro obrigatório. Algumas vezes esteve no cais do Sena, próximo de Anatole France, quando ambos, em peregrinação, farejavam os alfarrabistas

A França, pátria de grandes figuras, despertou Aquilino para o sinal dos tempos, para a transformação das estruturas políticas e sociais. Anatole France foi um dos seus mestres raiz e suporte da sua formação cultural, libertária e racionalista, que o ajudou a transpor o formalismo do magistério dos jesuítas, no Colégio da Lapa, e o sarro teológico incutido no Seminário. Jamais esqueceu a exortação de Anatole dirigida aos jovens no Monte Latino: “não tenham medo de passar por utopistas, de arquitetar repúblicas imaginárias”. (…) “Não se preocupem em ser prudentes. A prudência é a mais vil de todas as virtudes.”

Conheceu, entretanto, nas aulas na Sorbonne, Grete Thiedeman que viria a ser a sua primeira mulher. A seu lado iniciou e concluiu, na atmosfera calma e erudita da Biblioteca de Sainte Genevieve, a redação dos contos que vão constituir o seu primeiro livro Jardim das Tormentas onde concilia o apelo forte da Beira Alta, com a sensualidade escaldante da Surflame, “uma dessas loiras do faubourg, frágeis, egípcias, sem ancas, quase sem peitos”, que fazia acreditar nos momentos bons do mundo.

Mais dois exílios, depois do golpe militar e ditadura instaurada em 28 de Maio de 1926, permitiram-lhe aprofundar, em França, uma cultura que decorre entre o hedonismo e o epicurismo, que se cruza com a emanação profunda da Beira agreste e cercada de isolamento.

Há 100 anos Aquilino Ribeiro, pouco depois de regressar, foi admitido, no ano letivo de 1914, como professor contratado do Liceu Camões, onde permanecerá até 1918. Residiu no Campo Grande, frequentou o Chiado, gozava férias na Idanha, próximo de Belas. Entre os que passaram pelas suas aulas no Liceu Camões destacam-se Marcello Caetano, Francisco Leite Pinto, duas figuras de proa do regime de Salazar. Mas, também, outras figuras que se vão evidenciar na oposição democrática como Henrique de Barros, a seguir ao 25 de Abril, primeiro presidente da Assembleia Constituinte

A experiencia pedagógica e o ambiente de Lisboa da época registou Aquilino na novela Domingo de Lázaro,  incluída na obra Estrada de Santiago, dedicada a Gualdino Gomes e onde saiu, pela primeira vez em livro, o Malhadinhas. Irá depois, a convite de Jaime Cortesão, para o quadro da Biblioteca Nacional. Constitui um outro período do seu percurso: a participação no grupo fundador da Seara Nova e a colaboração no Guia de Portugal, coordenado por Raul Proença.

Mas na sequência do Jardim das TormentasAquilino vai escrever e publicar, durante meio século, sessenta obras que marcaram a língua e a literatura portuguesas: dezassete romances; dez volumes de novelas e contos; livros de crónicas, ensaios, biografias, traduções, contos para crianças e jovens.

Muito brevemente será lançado pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), e edições Colibri, com prefácio de José Jorge Letria, o livro Aquilino visto por Urbano e para o qual dei um modesto contributo numa introdução e organização dos textos. Trata-se da edição de um conjunto de sete ensaios de Urbano Tavares Rodrigues em redor de um Aquilino numeroso e vário, criador de uma língua própria, voltado para grandes questões da condição humana, para a fugacidade do tempo, o peso da memória e, simultaneamente, para a defesa da República.

Hoje, 13 de Setembro, dia do aniversário natalício, Aquilino será evocado em Viseu, com várias cerimónias públicas e o lançamento de um volume dos cadernos aquilinianos, com inéditos e outros documentos políticos e literários. Novos contributos para lembrar o escritor que, à margem de escolas e cartilhas, defendeu os valores da liberdade e da cidadania, enquanto revelou o universo da Beira Alta, o comportamento das populações, os usos e costumes, a diversidade da fauna e da flora, os montes, os vales, os rios e outros elementos telúricos e humanos que definem a vida própria de uma região.

Aquilino, o regresso há 100 anos – por António Valdemar [Jornalista e investigador], jornal Público, 13 de Setembro de 2014, p.53 - sublinhados nossos.

J.M.M.

quinta-feira, 11 de Setembro de 2014

PÃO NOSSO... SEMANÁRIO REPUBLICANO PORTUENSE


PÃO NOSSO... Semanário Republicano Portuense. Ano I, nº I (19 de Abril de 1910) ao nº XXIII (28 de Setembro de 1910); Editor: Empresa do Pão Nosso (Rua de Santo Ildefonso, 260, 1º, Porto); Administração e Redacção: Rua de Santo Ildefonso, 260, 1º, Porto; Director: António de Pádua Correia (1873-1913); Impressão: Tipografia Mendonça, (Rua da Picaria, nº30, Porto); Porto; 1910, XIII numrs, 368 p.

Importante e rara revista panfletária de cunho republicano, desse muito curioso combatente pela República, jornalista enérgico, irónico e talentoso, panfletário destemido, orador incisivo, anticlerical assumido, antigo director do valioso jornal portuense “A Voz Pública”, jornalista n’A Montanha, deputado às Constituintes e que era, na data da sua morte, deputado eleito pelo círculo de Lamego [região a que votava imensa paixão], António de Pádua Correia [a revisitar oportunamente, aqui, no Almanaque Republicano].

«A República não vem por seu pé. A República nunca vem, se nós, republicanos, a não trouxermos. Isto é: para termos a República, é necessário que nós a façamos. Como se derrubam regimes? Conspirando e batendo-se.»

Conspirar e bater-se ativamente para derrubar o regime era pois o mote do Pão Nosso... (como o foi de toda a ação política do seu autor), linha programática que acompanhava, não por acaso, o grande desígnio consolidado no 11º Congresso do Partido Republicano que, a 29 e 30 de abril de 1910, se realizou no Porto. De facto, ainda que sem ligação orgânica formal entre o periódico e a reunião partidária, é no quadro de um profundo imbricamento entre ambos que a missão do Pão Nosso… ganha pleno significado…» [Pedro Teixeira Mesquita – ler MAISAQUI]


Ficha Histórica, LER AQUI

FOTO [arquivo nosso]: capa de brochura que acompanha os exemplares do periódico

J.M.M.

quarta-feira, 10 de Setembro de 2014

LEÃO TOLSTOI – GUERRA E PAZ


Leão Tolstoi, “Guerra e Paz” [trad. José Marinho; capa de Fred Kradolfer], Lisboa, Editorial Inquérito, 1942-43, III vols  

"[...] Não é um romance, e ainda menos um poema, ou uma crónica histórica. “Guerra e Paz” é o que o autor quis e pôde exprimir na forma que lhe deu. Uma tal declaração de indiferença pelas formas convencionais da obra artística em prosa poderia parecer orgulho se não fôsse intencional e se não houvesse muitos exemplos disso. A história da literatura russa, desde Puskine, não só apresenta muitos casos de um tal afastamento das formas europeias, mas até nos fornece um único exemplo do contrário. Desde as “Almas Mortas” de Gogol, até à “Casa dos Mortos” de Dostoiewsky, no novo período da literatura russa não há uma única obra artística que se tenha ajustado inteiramente à forma do romance, do poema ou da novela. [...]" [José Marinho]

FOTO via FRENESI

“- A sabedoria, a verdade suprema é como um licor muito puro que desejamos absorver. Como posso ajuizar da sua pureza, se o deito num copo sujo? Só depois de purificar o mais íntimo do meu ser poderei beber desse líquido precioso num grau de pureza relativa.

Sim, sim, é isso mesmo! - exclamou Pedro, reconfortado.

- A suprema sabedoria não se baseia nem na razão, nem nas ciências profanas, como a física, a química, a história e outros ramos do conhecimento humano. A sabedoria suprema só conhece uma ciência, a ciência do Todo, a ciência que explica toda a criação e o lugar que o homem ocupa nela. Para compreendermos esta ciência é indispensável purificar e renovar o nosso íntimo; antes de conhecer, é preciso acreditar e aperfeiçoarmo-nos. É para conseguirmos alcançar essas finalidades que foram depositadas na nossa alma essa luz divina a que chamamos consciência.

- Sim, sim - aprovou Pedro.

- Contempla o teu ser interior com os olhos da tua alma e interroga-te: sentes-te verdadeiramente contente contigo próprio? Até onde chegaste com o simples auxílio da tua razão? … O senhor é jovem, rico, inteligente, instruído. Que destino deu o senhor a todos esses bens que lhe couberam em sorte? Está satisfeito consigo próprio e com a espécie de vida que escolheu?”

Leão Tolstoi, in “Guerra e Paz”, II Parte, Cap II

J.M.M.

QUOTIDIANOS NO FEMININO. DA IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICA AO SÉCULO XXI – “5 DE OUTUBRO NO FEMININO”


EXPOSIÇÃO | CONFERÊNCIA | DEBATE: "O 5 de Outubro no Feminino”.


EXPOSIÇÃO: “Mulheres no Tempo da República” [Fotos de Joshua Benoliel”;

CONFERÊNCIAS: “Feminismo na I República” (15,50 h) [João Esteves]; “A Mulher e a Sociedade no Século XX” (16,20 h) [Isabel Vargues]; “Contra-Ciclo” (16,50 h) [Maria do Carmo Neves]; DEBATE (17,20 h);

DIA:
13 de Setembro (14,30 horas);
LOCAL: Auditório Mirita Casimiro, VISEU;
ORGANIZAÇÃO: GLFP [Grande Loja Feminina de Portugal] | Associação Cívica e Cultural Estrela de Alvorada.

J.M.M.

segunda-feira, 8 de Setembro de 2014

ENCONTRO SÃO BRÁS DE ALPORTEL: TRADIÇÕES E MEMÓRIAS


Vai realizar-se em São Brás de Alportel, nos dias 12 e 13 de Setembro de 2014, no âmbito das comemorações do Centenário da Elevação do Concelho, um encontro onde se vão abordar os temas das tradições e memórias deste concelho algarvio.

Organizado em parceria com a Câmara Municipal e Junta de Freguesia de São Brás de Alportel, o Museu do Trajo e a Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve vai ser possível assistir a várias conferências.

Contando na Comissão organizadora com Maria do Rosário Parreira, Tiago Parreira, Custódia Reis, David Gonçalves, António Oliveira e Emanuel Sancho.

No dia 12 de Setembro realizam-se as conferências de:
- José Joaquim Dias Marques: Entre o Barrocal Algarvio e a China: Sobre uma quadra de tradição oral;
- Isabel Cardigos: A presença de São Brás de Alportel no Catálogo de Contos Tradicionais Portugueses;
- Carla Almeida: Folclore e Turismo no Algarve;
- Luís Guerreiro: O Caminho-de-ferro para S. Brás: Atribulações de uma vontade colectiva;
- Paulo Pires: O Património Corticeiro de S. Brás de Alportel;
- Cristina Fé Santos: O Sanatório de São Brás de Alportel.

No dia 13 de Setembro realizam-se as seguintes conferências:
- Jorge Queiroz: Dieta Mediterrânica - Património Cultural e Imaterial da Humanidade da UNESCO e a afirmação da cultura algarvia;
- Maria Manuel Valagão: Património Alimentar do Algarve Interior;
- Sónia Tomé: Património da Água e Desenvolvimento.

Como se pode ver no folheto de divulgação e inscrição, que é gratuita, mas necessária.
O evento é destinado a profissionais e estudantes de património cultural, gestão cultural, história e para todos aqueles que se interessam por Património Cultural algarvio ou História de S. Brás de Alportel.

A inscrição deve ser remetida para:
Encontro São Brás de Alportel: Tradições e Memórias
Rancho Típico Sambrasense
Apartado 106
8150-909 S. Brás de Alportel
ranchotipico@gmail.com

Mais informações podem ser obtidas através dos seguintes contactos:
912 910805
968993920

www.facebook.com/ranchotipico.sambrasense

O programa detalhado pode ser consultado clicando na imagem para aumentar e/ou descarregar.

A acompanhar com todo o interesse, com os votos do maior sucesso para esta iniciativa a ter lugar fora dos centro mais populosos do Algarve.

A.A.B.M.


domingo, 7 de Setembro de 2014

I CONGRESSO REGIONAL ALGARVIO: PRAIA DA ROCHA - 99 ANOS


Assinala-se hoje, 7 de Setembro de 2014, o 99º aniversário da conclusão do I Congresso Regional Algarvio, realizado no Casino da Praia da Rocha, em Portimão, entre 3 e 7 de Setembro de 1915, devido ao interesse e empenho de António Teixeira Bicker, representante local da Sociedade de Propaganda de Portugal.
















A Comissão Executiva era presidida por Tomás Cabreira (na fotografia da esquerda), secretariado por Jaime de Pádua Franco (na fotografia da direita) que contava com mais personalidades como: Fernando da Silva David, Jacinto Parreira, Martins Mateus Moreno. Além disso, contava com A. Aboim Inglês, Agostinho Lúcio da Silva, Alberto Carrasco da Guerra, Alberto Macieira, Aníbal Lúcio de Azevedo, António Júdice Magalhães Barros, João Viegas Paula Nogueira, João Vasconcelos, José Francisco da Silva e José Parreira.

Os trabalhos estruturaram-se da seguinte forma:
Secção I – Agricultura algarvia: arborização de serras e dunas; irrigação; posto agrário do Algarve; crédito agrícola; ensino agrícola, móvel e fixo; escolas femininas e agrícolas; utilização dos salgados.

Secção II – Indústria algarvia: indústria de conservas e outras indústrias; crédito industrial; ensino industrial; parques; e viveiros piscícolas.

Secção III – Meios de transporte: estradas; pontes; vias férreas; tarifas económicas e de exportação; portos e barras.

Secção IV – Comércio Algarvio: crédito comercial; tratados comerciais; alfândegas; produtos algarvios.

Secção V – Turismo: hotéis; estações termais e marítimas; zonas de turismo; regulamentação do jogo; taxa de turismo; desportos.

Secção VI – Clima algarvio: climatologia; sanatórios; estações de repouso; postos meteorológicos.

Ao longo das várias sessões de trabalho foram propostas ao congresso 25 teses a saber:
- Aproveitamento dos Salgados do Algarve, pela exploração de gado lanígero, de João Viegas Paula Nogueira;

-Arte Algarvia, por João de Mello de Falcão Trigoso;

- Assistência à Mendicidade no Algarve, por Julião Quintinha;

- Caminhos de Ferro do Algarve, por A. de Vasconcellos Correia;

- O Clima do Algarve, por João Bentes Castel-Branco;

- O Clima do Algarve e as suas indicações, por Geraldino Brites;

- Contos, Músicas, Danças (Escorço), por José Parreira;

- Crédito Comercial e Industrial, por Tomás Cabreira;

- O Ensino Elementar Industrial, por Aníbal Lúcio de Azevedo;

- Ensino Industrial, por D. Sebastião Pessanha;

- As Escolas Industriais, por A. L. de Aboim Inglês;

- Escola Primária Agrícola, por Tomás Cabreira;

- Estradas, por Agostinho Lúcio da Silva;

- Fontes para a História do Algarve, por António Baião;

- Hotéis, pela Comissão de Hotéis da Sociedade de Propaganda de Portugal;

- Indústrias do Algarve, por Luís de Mascarenhas;

- Kurtaxe, por Manuel Emídio da Silva;

- A Luta contra o Analfabetismo e o problema do Ensino no Algarve, por Mateus Martins Moreno;

- Pesca, Escolas de Pesca, por José Francisco da Silva;

- Portos e Barras do Algarve, por José Francisco da Silva;

- Posto Agrário e Ensino Móvel, por Tomás Cabreira;

- Primícias Agrícolas e Plantas Subtropicais no Algarve, por Mário Paes da Cunha Fortes;

- A Questão Corticeira, por  Tomás Cabreira;

- Tarifas Ferroviárias, por Tomás Cabreira;

- Zonas de Turismo, por Tomás Cabreira.

O evento contou com a elite algarvia, mesmo a que vivia em Lisboa deslocou-se a Portimão para participar e assistir ao congresso. Desde deputados, altos funcionários da administração pública, senadores, médicos, advogados, professores, engenheiros, militares, agrónomos, etc. O congresso serviu para chamar a atenção do Governo Central para alguns assuntos que eram importantes resolver com alguma celeridade, mas que as condições políticas, a conjuntura económica, a guerra mundial, a burocracia e a ineficácia das organizações acabaram por não produzir o resultado esperado.

Outra iniciativa semelhante a esta só viria a repetir-se em 1950 e depois viria a ser retomado em 1980 (9 a 11 de Maio, na Aldeia das Açoteias), por iniciativa do Racal Clube de Silves. Com esta organização realizaram-se congressos ainda em 1982 (Hotel da Balaia), 1984 (19 a 22 de Janeiro no Hotel Montechoro), 1986 (19 a 23 de Fevereiro no Hotel Montechoro), 1988 (20 a 23 de Junho no Hotel Montechoro), 1990 (14 a 17 de Fevereiro no Hotel Montechoro), 1995 (7 a 9 de Abril em Vilamoura), 1997 (7 a 9 de Março, em Vilamoura), 1999 (16 e 17 de Abril, em Vilamoura), 2004 (28 a 30 de Outubro, em Tavira) e 2007 (15 a 17 de Novembro, em Lagos). 

De todos estes congressos resultaram actas que contribuiram para discutir algumas das decisões regionais, definir prioridades e estabelecer um conjunto de temas que, mesmo que não se concorde, ajudaram a tornar a região aquilo que ela é hoje. Além do mais são um excelente repositório de conhecimentos sobre a região nos últimos 34 anos.

A.A.B.M.

sexta-feira, 5 de Setembro de 2014

MEMÓRIAS DA GRANDE GUERRA (1916-1919) – JAIME CORTESÃO

 
Jaime Cortesão, in “Memórias da Grande Guerra (1916-1919)”, Edição da “Renascença Portuguesa”, 1919
 
 
J.M.M.

O CRÍTICO - JOAQUIM MADUREIRA (BRAZ BURITY)

 
[O CRÍTICO] Joaquim Madureira (Braz Burity), in “Impressões de Theatro. Cartas a um Provinciano & Notas Sobre o Joelho”, 1º Série (1903-1904), Lisboa, Ferreira & Oliveira, Lda. Editores (Rua do Ouro, 132-138), 1905, p. xi/xii
 
 
J.M.M.

quinta-feira, 4 de Setembro de 2014

O ESPIRITO ERRANTE – CARLOS BABO


CARLOS BABO, “Espírito Errante. Retalhos de um Diario” (capa de Manuel Monterroso), Lisboa, Tipografia do Comercio (Rua da Oliveira, 10 – ao Carmo), 1916, 112 p.

► “- Olá, mestre! … Vae o diabo lá fora … Tiros, pranchadas, correrias, gritos, assaltos a esquadras de policia... desasocego perigoso! Isto vae mal, mestre! O trabalho escasseia, o comercio encolhe-se numa crise exhaustiva, a industria não dá um passo, o retraimento geral lança-nos a todos numa situação desesperada... Isto vae mal.

Quem assim falava' era um rapaz com aparencia de vinte anos, vestindo blusa de operario, alto, forte, de cabeça descoberta, cabelos negros anelados, olhar vivo, rasgado, inteligente.

Aquele a quem ele chamava mestre, estava sentado junto de uma mesa pequena e tôsca de pinho, numa ampla oficina de tanoaria. Era um operaria tambem e aparentava ter cinquenta anos. Usava barba grande, naturalmente frisada e que lhe chegava até meio do peito espaçoso e saliente. Tinha a fronte larga, aberta em sulcos transversaes, sob uma farta cabeleira grisalha, onde ele nesse momento sucessivamente mergulhava os dedos enclavinhados da mão direita, branca e nervosa […]

- Isto vae mal, mestre. Os homens são ferozes. Bem dizia o mestre que eu era uma creança, quando olhava todos os meus sonhos como possiveis realidades côr de rosa ...
- Creanças ... creanças ... Repetiu o mestre, num intimo recolhimento, esparso o olhar na mesma nesga de céo.

Passados instantes de silencio, voltou se o mestre para o rapaz e disse:

Quem governa Babylonia? O Trabalho, a Honra, o Direito? Não; a licença. A patria do guerreiro e monge, do audaz navegador e do epico sublime, tem sido alma da lenda na elegia dolente do passado.
A blusa tomou o logar das armaduras de aço, e a grande epopeia do futuro seria o Cantico dos Canticos do trabalho á Liberdade...

Liberdade! Como ousaram manchar meus labios esta palavra santa, que paira em silêncios de luz, muito alem das torturas da terra, das infamias do mundo, das imperfeições dos homens e das minhas apagadas esperanças?!...

Esperanças! Bronzeos grilhões de refulgências enganadoras, que arrastaes o homem pela longa tormenta da vida, em busca da terra da promissão, sem que jamais logre encontra-la, e por fim o deixaes, inexoravelmente, á borda do tumulo, clamando em suplice desespero pelo descanço misterioso da... inconsciencia! […]

E quem tem governado a moderna Babylonia? Os homens, defendendo a pureza dos principies? Tem governado os melhores? Não. Governam os homens integrados na lucta dos interesses.

Governa a maioria, - mentira que a nossa fantazia morbida engendrou? Não. E' sempre uma minoria autocráta que domina e governa, aferindo os seus actos mais incoerentes e contradictorios pelas necessidades da Patria na aparencia, mas de facto pelas necessidades de seus interesses em lucta …

NOTA BREVE: Este “Espírito Errante”, de Carlos [Cândido dos Santos] Babo (1882-1959), foi publicado em Março de 1916. Trata-se da republicação de um conjunto de crónicas (1913-1916) escritas no jornal “República”.

Diga-se que Carlos Babo [AQUI, AQUI e AQUI já referido por nós] escreveu inúmeras crónicas e artigos nos periódicos [como A Mocidade Livre, A Plebe, A Vitória, Ala Esquerda, Alma Nova, Diário Liberal, Diário de Lisboa, Humanidade, Liberdade, Montanha, O Mundo, O Clarim, O Laico, O Norte, O Povo, O Raio, Pátria, Pensamento, República, Voz da Justiça, etc.], tendo sido, mais tarde, completamente silenciado [caso raro e suponho único], por ordem pessoal do ditador Oliveira Salazar

[curiosamente, o ditador Oliveira Salazar permite-lhe, bem como a Tomás da Fonseca, a publicação de artigos anticlericais, como estratégia política de consolidação do poder pessoal. De facto a campanha anticlerical que a Censura (Major Barradas) e o ditador permitiu, pretendia insinuar ter o ditador “pouco poder” para combater o jacobinismo e a maçonaria (da qual, Carlos Babo e Tomás da Fonseca, eram obreiros dedicados. Babo foi iniciado em 1903, em Coimbra, no seu 4º ano de Direito. E Tomás da Fonseca em 1906, também em Coimbra). A “armadilha”, ao que parece, resultou e rapidamente, e após a “guerra anticlerical” verificada, consolidado o seu poder pessoal com a “eliminação das resistências” por parte dos sectores da Igreja e do grupo em torno do presidente Carmona, Salazar combate e persegue ferozmente os mais ardoroso publicistas dessa contenda. Parece que o ditador, chamando o major Barradas (censor-mor), disse-lhe o seguinte sobre Carlos Babo: “esse senhor (sic), a partir de agora, não escreve nem mais uma linha” – refª ms inédito de J.B.. E assim foi, salvo alguns artigos que Carlos Babo publica no jornal “República”. Ao mesmo tempo, Carlos Babo é aposentado compulsivamente]    

O livro “Espírito Errante” publica-se quando Carlos Babo se encontra em trabalho administrativo, em S. Tomé e Príncipe (Julho de 1915 a 1916). Durante esse “interregno colonial” em S. Tomé, escreve, além do já referido “Espírito Errante”, os opúsculos, “A Pérola do Atlântico” e “Pela Colónia de S. Tomé”. 

A sua estadia em S. Tomé e o seu labor no apoio às governações republicanas, deve-se a ter sido um amigo pessoal, indefectível e até ao fim de António José de Almeida.

[tornam-se amigos quando Carlos Babo integra a Comissão Republicana de Felgueiras e a partir daí, pela militância republicana e a comunhão maçónica, a amizade ficou para sempre; na verdade, Carlos Babo é (1908) nomeado advogado do Directório (PRP), sob pedido de A. José de Almeida a Bernardino Machado, tendo sido incumbido, em especial, de defender em tribunal os elementos da Carbonária; não por acaso, a casa onde, na ocasião, viveu com o seu (também) amigo de sempre, Manuel Bravo, foi-lhe acertada por Albertino da Costa Feio, seu futuro sogro, amigo de A.J.A. e maçon da Loja “Comércio e Indústria” (a casa ficava na rua dos Correeiros, 205, antigo templo maçónico); depois, a 6 de Outubro de 1910, torna-se chefe de gabinete de A.J.A, ministro do Interior do governo provisório, continuando a ser sucessivamente, ao longo das várias governações republicanas, seu secretário pessoal, ao mesmo tempo que chefiou a Repartição da Direcção geral de Instrução Primária e, também, secretário Geral do Ministério; foi A.J.A. que, por volta de Maio de 1915, lhe “preparou” a nomeação para o cargo de Chefe dos Serviços de Curadoria Geral dos Serviçais, acumulando com Juiz da 2ª Vara, em S. Tomé e Príncipe; refira-se, ainda, que António José de Almeida foi padrinho no seu casamento com Judite Costa Feio, realizado a 19 Julho de 1911 – refª J.B., ibidem]

J.M.M.

quarta-feira, 3 de Setembro de 2014

O DR. AFONSO COSTA – “A PADEIRA DE ALJUBARROTA”


"A Padeira de Aljubarrota", de Silva e Souza, no jornal "O Pão", de 1910, onde o dr. Afonso Costa, qual "padeira de Aljubarrota", "empurra para o forno da padaria os políticos monárquicos".

NOTA BREVE: [João José da] SILVA E SOUSA nasceu na Figueira da Foz a 3 de Junho de 1876. Frequentou e concluiu os seus estudos na Escola Industrial e Comercial, partindo depois para Lisboa, frequentando a Escola de Belas Artes. Discípulo de Roque Gameiro, foi um notável caricaturista e ilustrador. Trabalhou na Fotogravura de Pires Marinho, colaborou no jornal “O Século Ilustrado”, participou como desenhador-ilustrador de romances e teve uma “intensa colaboração nos jornais humorísticos 'O Pão', 'O Xuão', 'O Zé', 'Os Ridículos” [cf.Os Postais da Primeira República”, de António Ventura; “Figueirenses de Ontem e de Hoje”, de Fausto Caniceiro da Costa].

Regressava sempre à sua cidade natal - Figueira da Foz -, onde se fixou definitivamente em 1922, “montando uma oficina que se encarregava de trabalhos comerciais, aguarelas a preto e a cores, retratos a ‘crayon’ , ampliações fotográficas e gravuras em todos os sistemas” [cf. Fausto Caniceiro da Costa, p. 312]. Teve trabalhos expostos no I Salão de Estética da Figueira, em 1940.

Findou os seus dias no Asilo Costa Ramos, onde morre a 14 de Abril de 1952     

J.M.M.

sexta-feira, 29 de Agosto de 2014

JOSÉ BAÇÃO LEAL (1942-1965) – “POESIAS E CARTAS”


Poesias e Cartas” (2ª ed.) de José Bação Leal (pref. de Urbano Tavares Rodrigues), Porto, Tip. Vale Formoso (Rua Antero de Quental), 1971, 160 p. [a 1ª ed. data de Setembro de 1966, de circulação muito restrita de 250 expl., foi publicada por Francisco José da Silva Alves & José Mário Fidalgo dos Santos, 88 p.]

NOTA BREVE: José [Crisóstomo Gomes] Bação Leal, filho de João Bação Leal (médico) e de Maria Emília Gomes, nasceu em Lisboa a 1 de Julho de 1942. Estudou no Colégio Militar, fez a recruta na Escola Prática de Infantaria de Mafra, integra o corpo militar em Lamego e embarca para combater em Moçambique, onde morre (Nampula), a 1 de Setembro de 1965, por “rebentamento de uma mina perto do Lago Niassa, onde se encontrava o batalhão a que pertencia”.

José Bação Leal cedo revelou uma invulgar atenção pela literatura, cinema, filosofia e política, “uma sensibilidade à flor da pele e uma consciência política rara naqueles tempos” [ver AQUI]. Deixou-nos, graças a homenagem feita por amigos e, depois, na sua reedição em 1971 (reedição feita pelo seu pai), um obra póstuma, “Poesias e Cartas”, que foi apreendida pela PIDE.

Sai hoje esse livro, via jornal Público, livro que nos faz “conviver humana e esteticamente com quem teria porventura vindo a ser – não lhe tivessem truncado a vida a crueldade e a insânia que ele denuncia – um dos maiores escritores da língua portuguesa do nosso tempo, este livro fica para sempre, no seu valor testemunhal, como um marco histórico (resumindo a agonia e o martírio de tantos e tantos jovens absurdamente torcidos ou, como ele, quebrados ao arrepio da história, na sua natureza e nas suas opções)” [Urbano Tavares Rodrigues, in pref.].

Eis, portanto, um “apaixonante documento de consciência, que por ser rigorosamente localizado, resulta ainda mais tragicamente universal” [ibidem]. A não perder! E a ler!

Encontrei-me. Sou poeta
cantem estrelas para mim
murmurem flores os meus versos de sangue
que eu farei da noite
o mais belo gesto de oferta

“Noite / Se tivesses boca e fosses mulher / conheceria o morrer de amor”

“...poeticamente exausto, verticalmente só... lembro memória dum qualquer verão em nenhuma parte. Percorro o suor dos mortos. Acabo em cada boca que começa. E como os mortos suaram antes da guitarra de barro! Kid, companheiro antiquíssimo: pergunto: o desespero já foi jovem? Quem doará seu rosto ao trigo da aurora? Quem, quando a areia crescer nos olhos, resolverá a rosa marítima? ESCREVE! Nada sei da mulher que possuíste em casa da Lena. Sei somente das jovens que a cidade digeriu... Sei todas as cidades do nocturno mapa do esquecimento...” (p.63)

Tento habituar-me a tartar por tu trovoadas.
Resolvi aceitar o sol de quando em vez débil.
Apaixonei-me, melhor, ando de bem com a chuva morna. Deixei de beber, apenas sorvo telhados …” (p. 74)

“Tudo isto é como beijar os cabelos verdes duma criança loura, ou acordar pendurado numa corda de sono! Ás vezes penso em Deus e como Ele nos abandonou entre paredes só de pedra. E em como não criou humanas paredes que nos abraçassem na altura própria …” (p. 129)

LINK: POETICAMENTE EXAUSTO, VERTICALMENTE SÓ - a história de José Bação Leal


(trailer) POETICAMENTE EXAUSTO, VERTICALMENTE SÓ - a film by Luísa Marinho (2007) from Persona Non Grata on Vimeo.

J.M.M.