sábado, 20 de outubro de 2018

O CAVALEIRO DE OLIVEIRA, ALIÁS, FRANCISCO XAVIER DE OLIVEIRA – NOTA BREVE



A 18 de Outubro de 1783 morre, em Hackey (Inglaterra) o Cavaleiro de Oliveira, aliás, Francisco Xavier de Oliveira.
O mundo é a pátria natural, universal de todos os homens” [Cavaleiro de Oliveira, in Carta à Condessa de Roccaberti]
O Cavaleiro de Oliveira nasceu em Lisboa a 21 de Maio de 1702. Era filho do “Contador de Contos do Reino e Casa”, José de Oliveira e Sousa, e de Isabel da Silva Neves [cf. Dicionário de Inocêncio, tomo III; ver, ainda, Portugal, Diccionario  Histórico, …, de Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, 1911, vol. V; Álvaro Manuel Machado, “Dicionário de Literatura Portuguesa"; Aquilino Ribeiro, “O Cavaleiro de Oliveira”; Gonçalves Rodrigues, “O Protestante Lusitano”, 1950], tendo por isso tido educação esmerada [sob os auspícios do padre Lourenço Pinto]. Apenas com 14 anos foi nomeado oficial do Tribunal dos Contos do Reino, cargo que manteve durante longo tempo, o que curiosamente lhe permitiu uma vasta informação acerca dos “homens, das cousas e dos costumes”, servindo-lhe para publicar, mais tarde, as suas memórias, com curiosas observações, quase sempre satirizantes.

Francisco Xavier de Oliveira era visto como um sujeito “pouco ortodoxo”, “um maldito de Deus”, um “protestante” ou mesmo um “ateu”, assunto que evitava de todo debater, mas que o colocava debaixo do exame atento da Inquisição, tendo escapado às suas mãos graças aos (poderosos) amigos que tinha [principalmente o embaixador D. Luís da Cunha, Sebastião José de Carvalho e Melo, Diogo Barbosa Machado, algumas importantes personalidades francesas e inglesas, ou até mesmo o livreiro português Francisco da Silva Sul, fora as inúmeras mulheres com quem “inscreveu a arte de amar”, como, entre elas, a princesa de Valáquia, Maria Elizabeta]. Tal espírito “irreligioso” era o traço de um libérrimo pensador (por mais maquiavélico que tenha sido), um cosmopolita irrequieto, a que se associava um varonil espirito de bon-vivant, um dom juan de “vida solta” (e em constantes “rixas”), “aristocrata libertino” de fina inteligência, graça e humor. Em 1729 é feito Cavaleiro da Ordem de Cristo, tendo por isso assinado muita da sua obra francesa com o nome de “Chevalier d’Oliveira”.

Na morte de seu pai (1733), na altura secretário do Conde de Tarouca, e ministro em Viena, tomou o seu lugar, tendo saído, com esse fim a 19 de Abril de 1734, em direção à Alemanha, nunca mais tendo regressado a Portugal. Teve seis anos a [tentar] exercer a função de secretário da embaixada portuguesa [nunca foi empossado do cargo, por razões nunca expostas, tendo por isso reclamado energicamente, como consta num curioso processo e que aqui não cumpre desenvolver], mas, entre outras mais razões, as desavenças pessoais com o Conde de Tarouca fê-lo abandonar o lugar em 1740, refugiando-se na Holanda. Sem recursos monetários, ali passou duras “privações”, tendo recorrido à escrita para o necessário sustento [embora as despesas de impressão dos seus escritos o tenha arruinado], auxiliado por “patrícios” e “judeus portugueses”. Publica, então:
 
Memórias das viagens de Francisco Xavier de Oliveira” (1741 – apenas o tomo I, nunca tendo saído a prelo os restantes volumes, no total de VI); “Cartas familiares históricas, politicas e criticas, discursos sérios e jocosos” (1741-1742, III tomos – foram reimpressas em Lisboa, em 1855; foi obra importante e da maior referência, passe o seu rebuscado mundanismo – ver sobre o assunto Jacinto de Prado Coelho); “Carta ao sr. Isaac de Sousa Brito, …” (1741); “Mille et une observations (ou reflexions) sur divers sujets de morale, de politique, d´histoire et de critique" (1741, II tomos); “Mémoires de Portugal avec la Biblioteque Lusitane” (1741, II tomos – os III e IV ficaram manuscritos); “Reponse à la lettre de mr. C.D.M.M." (1741; folheto que não se conhece qualquer exemplar); “Memoires historiques, politiques, concernat le Portugal” (1743); “Viagem à ilha do amor, escripta a Philandro” (1744; reed. em 1790, Lisboa; é comum aceitar que esta obra é uma tradução livre de uma outra saída anónima, em 1664, mas atribuída ao abade Paul Tallemant, dito o Jovem).
Em 1744, fixa residência em Inglaterra. Data de 1746 (?) a sua “abjuração” ao catolicismo e ligação ao protestantismo luterano, com o casamento (o terceiro) com a inglesa, de ascendência inglesa e huguenote, Françoise Hamon. Porém a vida de exilado não lhe corria de feição, os protectores que tinha abandonam-no, e as inúmeras dividas contraídas levam-no à prisão (21 meses e dez dias), tendo sido amnistiado pelo Acto de Insolvência, em 1748, e libertado.

Publica (1751), em Londres, o muito curioso “Amusement Périodique” (Recreação Periódica, título em português, publicado por Aquilino Ribeiro, em 1922, II vols), saído em fascículos mensais nas Oeuvres Mêlées, “publicação de circunstância" [Aquilino Ribeiro] um conjunto de traços anedóticos sobre a corte portuguesa de D. João V, “armazém de curiosidades e uma obra memorialista importante sobre a sociedade portuguesa e europeia do século XVIII. Não deixa de ser curioso que Francisco Xavier de Oliveira nos diga que tinha em Portugal quatro assinantes, sendo um deles o não menos célebre Jacome Ratton, sendo os outros o dr. Castro Sarmento, o sr. Rabelo de Mendonça e o sr. Abraham Vianna.
 
Esta invulgar e raríssima obra memorialista do Cavaleiro de Oliveira teve a atenção dos bibliófilos, com trabalhos avulsos de Cunha Rivaro [bibliotecário eborense], do dr. Joaquim de Carvalho, de António Francisco Barata (ver Arquivo Histórico Português, vol. I, nº11, Novembro de 1903 e vol. II, 1904], exerceu muito interesse em Camilo Castelo Branco [ver, p. expl. “O Judeu”, “Noites de Insónia”; “A Caveira da Mártir” ou “O perfil do Marquês de Pombal”; o próprio Camilo pretendia biografar o Cavaleiro de Oliveira, mas jamais veio a lume tal pretensão; sobre do que Camilo se “serviu” de Oliveira, consultar a Carta de Camilo a Joaquim de Araújo, 17 de Junho de 1884, in "Cartas de Camilo", por Cardoso Marta, 1918], como anos depois em Joaquim de Araújo [possuidor da raríssima Oeuvres Mêlées, adquirida no leilão da livraria que foi do bibliófilo figueirense Aníbal Fernandes Tomás; Araújo imprimiu numa raríssima edição de apenas 36 exemplares, o “Discours Pathétique do Cavaleiro de Oliveira”, em 1893: do mesmo modo publicou um opúsculo do pai do Cavaleiro de Oliveira, José de Oliveira e Sousa, “No casamento de D. João V”, 1902], Aquilino Ribeiro [veja-se “O Galante Século XVIII”, “Abóboras no Telhado”], observando-se mesmo uma curiosa polémica entre Aquilino Ribeiro e Gonçalves Rodrigues (autor de “O Protestante Lusitano", estudo biográfico e critico sobre o Cavaleiro de Oliveira”, 1950; à polémica suscitada por Aquilino Ribeiro, publicou Rodrigues, “O Cavaleiro de Oliveira, o senhor Aquilino Ribeiro e eu”, 1956).

Depois publica o famoso opúsculo “Discours pathétique au sujet des calamités présentes, arrivés en Portugal. Adressé a mes compatriotes et en particulier a Sa Magesté Três-Fidéle Joseph I. Roi de Portugal”, Londres, 1756 [saíram, posteriormente várias edições: uma em 1757, a que junta um "Extrait d'une lettre de Lisbonne", edição raríssima; a edição de Londres de 1762, também raríssima; outra, muito limitada (36 expls) e muito rara, saída em 1893, sob edição do bibliófilo Joaquim de Araújo, na tipografia Ocidental do Porto; e a rara reimpressão preparada por Joaquim de Carvalho, em 1922, pela Imprensa da Universidade]. Na mesma altura, o Cavaleiro de Oliveira faz sair uma edição em inglês (“A Pathetic Discourse on the present calamities of Portugal, …”) e uma impressão em português, com o título “Discursos patheticos a respeito das calamidades presentes sucedidas em Portugal, dirigidos aos seus compatriotas, e em particular a S.M.F.” (foi reeditado, em 2004, uma nova edição pela Frenesi, de Paulo da Costa Domingos, com 284 pags). A obra inicial teve imediata proibição de leitura e circulação pelo Santo Ofício [por denúncia do dr. Joaquim Pereira da Silva Leal, membro da Academia Real da História], abriu corpo de delito e o seu autor, dito herege, revel e relaxado, foi “condenado a ser queimado em estátua [queima da sua efígie], visto que a sua estada em Londres impedia os inquisidores de terem o gosto de o queimar em carne, como fizeram ao padre Gabriel Malagrida, que padeceu a horrível morte pela fogueira, no mesmo auto da fé de 20 de Setembro de 1761, em que saiu a publico a imagem do cavalheiro de Oliveira para ser devorado também pelas chamas” [ver Esteves Pereira, ibidem]. De imediato (1762), Francisco Xavier de Oliveira, além de reimprimir a obra na sua versão francesa, responde [em francês e português] com o opúsculo “O Cavalheiro de Oliveira, queimado em estatua por herege. Como e porque? Anedotas e reflexões sobre este assumpto, dadas ao publico por elle próprio”.
 
Refira-se que, mesmo considerado herege, relaxado e “ter sido queimado em estatua”, tal não impediu de ter sido encarregado (possivelmente !?) pelo Marquês de Pombal [diga-se que Pombal não o tinha em boa simpatia; porém veja-se o “Elogio historico do Marquês de Pombal”, sob a pena de Cavaleiro de Oliveira, na Revista Litterraia do Porto, nº 67] de escrever uma obra contra “os abusos da curia romana”, pelo que o Cavaleiro de Oliveira deu á estampa (1767) a luminosa [tomada aqui não no sentido iluminista, que, de facto, Cavaleiro de Oliveira  nunca foi, mas sim como cuidada reflexão e livre-exame em matéria de religião]  Reflexões de Felix Vieyra Corvina dos Arcos, …” (que é o anagrama dele próprio), obra publicada em Londres, na Oficina de Jacob Lister, em 1762. Nesta obra está presente uma forte critica à Inquisição e a práticas da Igreja [de notar que só em 1942 é publicado os “Opúsculos Contra o Santo Ofício”] e em defesa da liberdade de consciência. Como curiosidade, é registado (via Barbosa Machado, in Biblioteca Lusitana) ter existido um conjunto de obras manuscritas do Cavaleiro de Oliveira, sendo que algumas delas (bem como parte da sua livraria) ficaram na posse do liberal Duarte Lessa, exilado em Inglaterra nos tempos do infausto governo miguelista, e que pela sua morte se lhes perdeu o rasto. Dessa colecção manuscrita, é refrido o “Tratado do Princípio, Progresso, Duraçam, e Ruína do Reinado do Anti-Christo” e é aceite a obra com o título “Oliveyriana”, não citada por Barbosa Machado, mas que Inocêncio Francisco da Silva (ver Dicionário) diz possuir e dele dando breve anotação.    

Morre Francisco Xavier de Oliveira, o Cavaleiro de Oliveira, a 18 de Outubro de 1783, em Hackey (Inglaterra).

J.M.M.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

A GRANDE GUERRA NO PARLAMENTO



LIVRO: A Grande Guerra no Parlamento;
AUTORAS
: Maria Fernanda Rollo e Ana Paula Pires;
EDIÇÃO: Coleção Parlamento, 2018.

“A República Portuguesa ainda não tinha completado quatro anos, quando o herdeiro do trono austro-húngaro, Francisco Fernando, e a sua mulher, a duquesa de Hohenberg, foram assassinados por Gravrilo Princip, em Sarajevo, a 28 Junho de 1914. A notícia da eclosão da guerra na Europa chegou ao Parlamento português, pela voz do Presidente do Ministério Bernardino Machado, a 7 de Agosto.

No verão de 1914, quando a guerra na Europa teve início, o exército português tinha apenas três períodos de treino, encontrando-se em plena reorganização e, como tal, mais orientado para a defesa interna do que para qualquer tipo de intervenção na Europa ou em África.  

O volume que agora se edita, analisa e interpreta os debates que ocorreram no Parlamento português, entre agosto de 1914, data da eclosão da Grande Guerra na Europa, e 1921, ano em que se realizou a cerimónia de transladação para o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha, dos corpos de dois soldados desconhecidos portugueses, mortos em África e na Flandres. Ficam de fora desta análise dezenas de debates relativos à temática das reparações de guerra e à participação de Portugal na Conferência da Paz, discussões que pela sua importância, especificidade e recorte cronológico, necessitariam, por si só, de um único volume.

O livro mostra-nos um país dividido relativamente à sua posição na intervenção na guerra na Europa e descreve-nos, de forma detalhada, as dificuldades económicas e financeiras sentidas pela República, tanto a nível interno corno externo, durante os anos da conflagração. Analisa em detalhe o papel dos políticos e dos diplomatas, homens de cuja decisão dependeu a intervenção de Portugal na Guerra, criticando a respetiva capacidade de gerir, tanto os impactos da Guerra no país, como as tensões que caracterizaram, ao longo de toda a conjuntura bélica, as relações entre os diferentes agrupamentos políticos e o Estado republicano.

Foram cerca de 62 os parlamentares que, entre 1914 e 1918, combateram na Grande Guerra, na Europa, em África e no Atlântico. Entre estes deputados, alguns sofreram ferimentos graves, como Velhinho Correia ou José Afonso Pala, gravemente ferido em África e que viria a morrer, em 1915, na sequência desses ferimentos, e o primeiro-tenente José Botelho de Carvalho Araújo, eleito deputado em 1911 e grande defensor da intervenção de Portugal na Grande Guerra, morto em combate, no Atlântico, a 14 de outubro de 1918”
 
[in contracapa da obra - sublinhados nossos]
 
 

J.M.M.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

ALMADA NEGREIROS, IDENTIFICAÇÃO COM LISBOA


“Almada Negreiros, Identificação com Lisboa” – por António Valdemar, in Tempo Livre, Setembro-Outubro 2018

A relação com a cidade que lhe abriu o caminho para a arte, a literatura e outras formas de intervenção que que também lhe consagrou a memória.   
A diversidade de percursos de Almada Negreiros, o artista plástico, o poeta, o romancista, o novelista, o dramaturgo e o panfletário tem uma relação de diálogo com Lisboa. Foi tão íntima essa relação física e cultural que se poderia dizer que Lisboa era a sua casa. O tempo de Almada Negreiros em Paris foi rápido e disperso. Já o tempo de Madrid foi mais demorado e teve consequências decisivas na sua obra. Uma das mais relevantes terá sido o contato direto e profissional com a arquitetura permitindo–lhe, no regresso a Portugal, integrar–se nas equipas que realizaram grandes edifícios e incluíram trabalhos de Almada com dimensões assinaláveis.

O Chiado, com a sua vida cultural e social, ficou associado aos primeiros e mais incendiários anos da afirmação de Almada Negreiros. Apresentou–se, em 1912, no Iº Salão dos Humoristas, que decorreu no Grémio Literário. E quando não é no Chiado é nas suas fronteiras que o deparamos nos momentos mais exuberantes e mais provocatórios. Realizou, a primeira exposição individual, em 1913, na Escola Internacional, na rua da Emenda. A Ilustração Portuguesa referiu a exposição, reproduziu alguns desenhos, publicou a fotografia de Almada.
Entretanto, Fernando Pessoa escreveu sobre Almada: «Eu creio que ele tem talento. Basta reparar que ao sorriso do seu lápis, se liga o polimorfismo da sua arte para voltarmos as costas a conceder – lhe inteligência absoluta.» Começou a visibilidade pública de Almada. Mas começou, sobretudo, o convívio e cumplicidade com Pessoa. Abria – se o caminho para o Orpheu.


Almada viveu, escreveu, desenhou, pintou, na rua do Alecrim, uma das fronteiras do Chiado. Em 1915, o ano do Orpheu, tinha 22 anos. A colaboração no Orpheu, limitou-se a pequenos textos com o título genérico Frisos e que se podem inserir na área moderada do primeiro número daquela revista. As garras e as asas de Almada vão evidenciar-se no Manifesto Anti Dantas, na Cena do Ódio e na Engomadeira. O Manifesto Anti Dantas  tornou-se a ofensiva mais feroz contra Júlio Dantas figura do maior destaque na literatura, no teatro e na política, ao mesmo tempo que arrasou outras personalidades e atingiu as instituições mais conceituadas.

A renovação da língua portuguesa ocorreu com a Ode Triunfal e a Ode Marítima de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos e com a Cena do Ódio de Almada Negreiros que  está em paralelo com a desconstrução criativa e o furor épico de Álvaro de Campos e a Engomadeira, também  de Almada Negreiros.
Modelo da escrita e da inovação narrativa a Engomadeira assinala um outro ciclo perante a língua e o imaginário de Eça de Queiroz, que já se demarcara de Camilo e de Herculano. E o episódio da chave antecipou o surrealismo. Em França e em Portugal. A rutura com a escrita tradicional vai prosseguir no romance Nome de Guerra, a principal obra de ficção de Almada que também denuncia os comportamentos institucionalizados. «Temos sempre – adverte – de perder o nosso tempo em desfazer o bem que os outros fizeram por nós»


Em 14 de Abril de 1917, Almada apresentou no São Luís (antigo Teatro República) O Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX, uma explosão de energia para romper a indiferença e sacudir a rotina. Também, em 1917, em Novembro participou na revista Portugal Futurista, outro marco fundamental que reúne a colaboração de Robert e Sónia Delaunay, de Marinetti, de Apollinaire, de Blaise Cendras e de outras personalidades do futurismo internacional. Publica os manifestos futuristas de Almada e Álvaro de Campos.

Um dos focos da polémica introduzida pelo Portugal Futurista é o texto de Almada Negreiros Saltimbancos - «contrastes simultâneos”, de cunho intersecionista, e que desencadeou escândalo ao pormenorizar: «soldados em exercício na parada do quartel, garanhões militares em ato de cobrição de éguas, paisagem rural e paisagem de circo». Portugal participava na guerra e esta alusão direta ao que se verificava com as atividades do Corpo Expedicionário português levou a polícia a apreender o primeiro e único número do Portugal Futurista.
Um mês depois, Diaguilev e companhia dos Bailados Russos ao chegarem a Lisboa são apanhados de surpresa com a revolução de Sidónio Pais. Apesar disso realizam dois memoráveis espetáculos, no Teatro de São Carlos e no Coliseu de Lisboa. Em Abril de 1918, Almada Negreiros fez a coreografia e desenhou os figurinos do bailado A Princesa dos Sapatos de Ferro. Pisou o palco e dançou os papéis da Bruxa e do Diabo.

Vai ser ainda no Largo do Calhariz, outra fronteira do Chiado, que Almada proferiu na Liga Naval, em Maio de 1921, a conferência A Invenção do Dia Claro, um ano depois publicada em livro com a chancela da Olisipo, uma das aventuras editoriais de Fernando Pessoa. Estabeleceu o reencontro da poesia com o desenho e a pintura; aprofundou a reflexão sobre a linguagem e através dela sobre a condição humana.
Outra proclamação futurista de Almada Negreiros verificou – se no Chiado Terrasse, a 18 de Dezembro de 1921, no Comício dos Novos. Presidiu Gualdino Gomes e, entre a assistência perplexa, via–se a Preta Fernanda, dona da mais famosa casa de prostituição. Foi um dos escolhidos para decorar a Brasileira do Chiado que, juntamente com o Bristol Club, promoveu em espaços públicos a consagração da arte moderna.

Expôs, ao regressar de Espanha, nos anos 30, na UP, uma galeria na rua Serpa Pinto, dirigida por António Pedro, onde Vieira da Silva apresentou os primeiros trabalhos. A editorial Ática, fundada por Luís de Montalvor, um dos participantes do Orpheu – e autor do título da revista – teve a primeira sede na esquina da rua do Carmo, com a rua Garrett. Ao lançar, a partir de 1942, a obra ortónima e heterónima de Fernando Pessoa, Montalvor colocou na capa de cada volume um desenho de Almada, um Pégaso, símbolo mitológico e vivo da poesia em movimento. A amizade com Fernando Amado incorporou-o na história do Centro Nacional de Cultura ao debater, em 1946, a «posição do artista na sociedade».

O vínculo de Almada a Lisboa decorreu nos seus cafés, nos seus teatros, nos seus clubes, nas suas livrarias, nos seus museus, nas suas galerias e nas suas próprias esquinas. Sem procurar fazer um levantamento exaustivo acrescento que residiu mais de 30 anos no Rato. Morava na rua S. Filipe Nery e tinha atelier na rua Rodrigo da Fonseca.
Está representado nos mais diversos bairros e, em muitos deles, em contacto diário com a população e com todos os que chegam a Lisboa. Retratado por Júlio Pomar e por António, em duas estações do Metro. Pinturas e desenhos de Almada, transpostas para azulejo, revestem outra estação do Metro.

No Porto de Lisboa, as duas gares marítimas, a de Alcântara e a da Rocha de Conde de Óbitos, têm frescos de Almada, com alusões ao Tejo, á expansão marítima, á história de Lisboa, a motivos e figuras celebrados por Cesário Verde, o poeta da cidade e um dos mestres da geração de Orpheu, em especial Fernando Pessoa e Almada Negreiros
 
Na Avenida da Liberdade, na antiga sede do Diário de Notícias, o primeiro edifício construído de raiz, em Portugal, para a instalar um jornal e todos os seus departamentos ficou com a marca de Almada: na fachada e nos frescos do grande átrio e, ainda no rés-do-chão, no espaço de acesso á redação e administração. Próximo no Hotel Ritz, três grandes tapeçarias, com recriações co Centauro, ocupam parte do salão principal.
Nas Avenidas Novas, a igreja de Fátima, o primeiro edifício de arquitetura moderna na arte religiosa, ficou com vitrais de Almada Negreiros. Perto, a Fundação Gulbenkian tem logo no átrio o painel Começar, a síntese do encontro de Almada com a geometria. No Campo Grande, na cidade universitária preencheu, com a representação de figuras tutelares as fachadas da Reitoria, da Faculdade de Direito e da Faculdade de Letras. Nesta última destacam - se Fernando Pessoa e os heterónimos Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis. Ainda não ganhara dimensão nacional e internacional Bernardo Soares. Apenas se conheciam fragmentos do Livro do Desassossego.


A memória de Almada Negreiros perdura nos Museus e em grandes edifícios públicos que marcaram a transformação e expansão da cidade, num diálogo com as vanguardas europeias. Deu o nome a uma rua, em Olivais Sul; e a uma escola, na Charneca do Lumiar, na Urbanização Alta de Lisboa. Está consagrado num monumento (na entrada ou saída do viaduto Duarte Pacheco) e noutro monumento, na avenida Ribeira das Naus, junto ao Tejo, uma estrutura de ferro que incorpora o autorretrato de 1949.

Para Almada, Lisboa constituiu a arena dos grandes combates, uma das linhas de intervenção do grupo e da geração de Orpheu, num momento histórico da cultura portuguesa. Lisboa foi a casa de Almada, onde cabia a ambição de atingir o mundo.
Almada Negreiros, Identificação com Lisboa – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], Tempo Livre, Setembro-Outubro 2018, p. 8 – com sublinhados nossos.
 
António Valdemar
J.M.M.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

JOÃO LÚCIO - CENTENÁRIO DO FALECIMENTO


Assinala-se, a partir de sexta-feira, 12 de Outubro, em Olhão, um conjunto de iniciativas promovidas até final deste mês, com destaque para uma exposição no Arquivo Municipal António Rosa Mendes que recorda os laços familiares do poeta pelo Alentejo e ao Algarve.

No dia seguinte, dia 13 de Outubro, realiza-se um recital no Chalé João Lúcio, onde se recordará a obra poética deste poeta olhanense, contando para o efeito com a presença dos músicos Eduardo Ramos e Jorge Soares.

A 15 de Outubro inaugura-se na Biblioteca Municipal José Mariano Gago a exposição bibliográfica "A Obra de João Lúcio" onde se apresentam algumas das suas obras poéticas, bem como publicações e estudos sobre a obra deste ilustre poeta algarvio. Neste evento, a ter início às 18 horas, conta-se com a presença dos escritores Paulo Moreira e Fernando Cabrita.

No dia 18 de Outubro, no Museu Municipal - Edifício do Compromisso Marítimo de Olhão, inaugura-se uma mostra que estará patente até Setembro de 2019, subordinada ao título "Ele, João Lúcio".

No âmbito do IV Encontro Internacional de Poesia a Sul, a realizar nas instalações da Associação Cultural Re-Creativa República 14, haverá, no próximo dia 21 de Outubro, uma sessão de leitura de poemas de João Lúcio Pousão Pereira, a partir das 15h 45min.

A Galeria Sul, Sol e Sal, no dia 27 de Outubro, acolhe a apresentação da obra de Vasco Prudêncio intitulada O Criador de Fantasmas, onde será publicado um estudo inédito sobre o poeta, advogado e político de Olhão.

Ainda neste dia 27 de Outubro, na Associação Cultural Re-Criativa República 14 haverá um colóquio de homenagem a João Lúcio Pousão Pereira.


Breve nota biográfica sobre João Lúcio:

João Lúcio Pousão Pereira (Olhão, 4 de Julho de 1880 - 26 de Outubro de 1918) é considerado o expoente maior da poesia olhanense.
Era filho de João Lúcio Pereira, dono da quinta de Marim e o mais abastado proprietário da época na então vila de Olhão e de Maria Helena de Araújo Pousão.

Começou com apenas 12 anos a publicar os seus primeiros versos. Acabados os estudos em Faro, foi para Coimbra estudar Direito [1897-1902], onde conheceu figuras como Teixeira de Pascoaes, Augusto de Castro, Alfredo Pimenta, Afonso Lopes Vieira, Fausto Guedes Teixeira e Augusto Gil.
Em 1901, publicou o seu primeiro livro, Descendo, aclamado com louvor pela crítica da época.
Regressado a Olhão em 1902, João Lúcio tornou-se um advogado famoso e é, ainda hoje, considerado um dos mais distinguidos advogados algarvios de sempre.
Em 1905, publicou O meu Algarve, obra que acabou por imortalizá-lo como um dos maiores vultos da poesia algarvia.

Dirigiu também entre 1903 e 1905 o semanário O Sul, juntamente com o também advogado e político olhanense Carlos Fuzeta. Tendo sido precisamente neste período que ambos aderiram ao Partido Regenerador Liberal, por influência do médico Virgílio Inglês, que chegou a ser deputado e governador civil do Algarve.

O seu prestígio como advogado e como poeta fizeram dele um influente político em Olhão, foi eleito deputado pelo Partido Regenerador Liberal, liderado por João Franco, nas eleições de 19 de Agosto de 1906 e, depois em 28 de Agosto de 1910, mas acabou por não prestar juramento porque entretanto eclodiu a revolução republicana em 5 de Outubro de 1910.

No Parlamento, aquando da sua eleição em 1906, foi integrar as comissões de agricultura, instrução pública superior e pescarias.
Inspirado pelas suas viagens, João Lúcio projetou um chalé, um dos raríssimos exemplos de arquitetura simbolista em Portugal, nos Pinheiros de Marim.

Durante o sidonismo, em plena I República, foi eleito deputado pelo círculo de Faro nas eleições de 1918, integrando então a minoria monárquica na Câmara dos Deputados.
Faleceu a 26 de outubro de 1918, aos 38 anos, vítima de gripe pneumónica.

A 5 de Junho de 1925 foi inaugurado um monumento em Olhão com o busto do ilustre advogado, da autoria de Francisco dos Santos, além disso o seu nome entrou na toponímia local constando numa das ruas.
Postumamente, em 1921, foi publicado o livro de poemas Espalhando phantasmas.

Um conjunto de iniciativas que se saúda e que divulgamos junto de todos os interessados tanto na personalidade como na obra poética que publicou.

[Os apontamentos a azul constam na nota de divulgação do evento, acrescentou-se alguns apontamentos biográficos a preto. Conforme se pode consultar AQUI.].

A.A.B.M.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

CONFERÊNCIA – VITORINO NEMÉSIO: OS CEM ANOS DO ENCONTRO DO “MAU TEMPO NO CANAL”



CONFERÊNCIA: Vitorino Nemésio: os cem anos do encontro do cenário do “Mau Tempo no Canal” [com colaboração musical de Carlos Alberto Moniz | poesia de Vitorino Nemésio | imagens de Álvaro Carrilho]

ORADOR: António Valdemar (jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências);

DIA: 11 de Outubro 2018 (15,00 horas);
LOCALAcademia das Ciências de Lisboa [Rua da Academia das Ciências, 19, Lisboa]
 
Para assinalar o Centenário da génese de “O Mau Tempo no Canal”, o encontro em 1918 de Vitorino Nemésio (1901-1978) com a paisagem geográfica e humana das ilhas do Faial, do Pico e de São Jorge, António Valdemar [membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], apresenta uma Comunicação intitulada “Vitorino Nemésio: os cem anos do encontro do cenário do Mau Tempo no Canal”. Publicada em 1944 pela Livraria Bertrand, o romance Mau Tempo do Canalé obra incontornável da história literária portuguesa. Tem como cenário as ilhas do Faial, Pico, São Jorge e Terceira, com o seu núcleo central passado na cidade da Horta, lugar onde o adolescente Vitorino Nemésio concluiu os seus estudos liceais e o “marcou profundamente”.

A não perder.

J.M.M.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

IV CONGRESSO REPÚBLICA E REPUBLICANISMO


Nos próximos dias 11 e 12 de Outubro de 2018, na Biblioteca da Imprensa Nacional, em Lisboa, vai realizar-se o IV Congresso República e Republicanismo.

O programa do evento apresenta-se abaixo: (clicar na imagem para aumentar)

Ao longo de dois dias, vários investigadores do tema da República, vão apresentar partes dos trabalhos de investigação que têm vindo a desenvolver. 
No dia 11 de Outubro, a conferência de abertura estará a cargo do Prof. Norberto Cunha, que analisará a figura de Brito Camacho: de sombra de Poder a Poder de Sombras.
No dia 12 de Outubro, haverá um painel dedicado às democracias sul-americanas, com abordagens sobre o Brasil, a Argentina e uma outra de conjunto. Ainda no âmbito deste painel, o Prof. António Ventura apresentará uma comunicação sobre "A Maçonaria e o PCP (1921-1935).
Um outro painel será dedicado a Republicanismo e Republica, com estudos sobre Agronomia e República, o «pão político» e o Diário de Lisboa, a Carbonária em vésperas da implantação da República, o Império Português e a Europa na perspectiva de Celestino de Almeida.


No painel subordinado ao tema A República entre a Paz e a Guerra, irão ser apresentadas cinco comunicações, a saber: Consiglieiri Pedroso e a política externa sérvia desde 1888, um apontamento biográfico sobre o coronel Pires Monteiro, as memórias dos combatentes na I Guerra Mundial, A República e a Sociedade das Nações e um pequeno contributo sobre os pequenos beligerantes na I Guerra Mundial.

Por último, no painel dedicado à República, Memória e Identidade, com estudos sobre o Congresso das Nações do Ocidente, o comemoracionismo republicano durante o Estado Novo e a conferência de encerramento ficará a cargo de Maria Gemma Rubi Casals.

A ligação ao evento pode ser consultada AQUI e o programa do congresso descarregado pelos potenciais interessados.

Mais uma excelente iniciativa a que se associa este modesto espaço virtual partilhando e divulgando o evento a potenciais interessados.

Com os votos do maior sucesso!!!

A.A.B.M.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

QUE VIVA O 5 DE OUTUBRO!



Hoje é a Hora de rememorar a Luz que emerge do glorioso 5 de Outubro de 1910 e saudar a esclarecida Gente que nos precedeu nesta Viagem. Essa lusa Gente soube, nesse antiquíssimo dia, cantar a Pátria Lusíada, os Arcanos que os Deuses guardam das “infâmias e sarcasmos, inquisições e tiranias” [Guerra Junqueiro] e reencontrar o espaço do seu devir – a Alma Lusitana.

O Almanaque Republicano junta-se a esse antiquíssimo cantar, Memória de Gente Sonhadora, Livre e Fraterna, cumprindo o que não acaba nem começa e, corações ao alto,  grita … PRESENTE!  
VIVA O 5 DE OUTUBRO!
VIVA A REPÚBLICA!

SAÚDE E FRATERNIDADE!

J.M.M.
A.A.B.M.

domingo, 30 de setembro de 2018

IN MEMORIAM FERNANDO FERNANDES [1934-2018]



Partiu de entre todos nós, FERNANDO FERNANDES, livreiro da mítica livraria portuense “Leitura” (com uma entrada na rua de Ceuta e outra pela rua José Falcão; foi fundada em Setembro de 1968 por Fernando Fernandes e José Carvalho Branco, silenciando-se só em 1999), um espaço de encontro, esperança e luta contra a ditadura, um local de culto que uma geração conheceu e venerou. Anos antes (1958) já Fernando Fernandes, o guardião dos livros, tinha decidido entrar no mundo dos livros, criando a livraria “Divulgação”.
Fernando Fernandes nasceu em Águeda e vem residir [em 1941; cf. Pedro Pereira Leite, Pela estrada larga: O Livreiro Fernando Fernandes e as memórias duma geração – texto que seguimos de perto e para qual remetemos a sua gostosa leitura] para a cidade do Porto, que muito amou. Órfão muito cedo, acedeu ao convite para dirigir a sessão de livros da papelaria Aviz. Tinha 18 anos e um especial assombro e entusiasmo pelo papel impresso. Estava traçado o seu destino nessa nobre “arte de vender livros”, da qual muitos dos livreiros herdaram muito do que sabem. O “poeta dos livros” marcou, seguramente, toda uma geração de livreiros.

Fernando Fernandes não era, porém, um simples e erudito livreiro, era um cidadão íntegro e de corpo inteiro, que vivia intensamente o seu tempo, por isso não espanta que tenha (em 1953) integrado o MUD Juvenil [idem, ibidem], combatendo com determinação a ditadura. Foi aí, porventura, pelas tertúlias culturais organizadas pela oposição, e onde participa, que lhe nasce esse gosto e entrega pelo serviço público cultural, ornamento do seu negócio do livro.    

Foi preso (1955), internado no hospital psiquiátrico [Conde Ferreira; idem ibidem] e julgado no célebre processo [o seu advogado era Alexandre Babo] que levou à prisão 52 democratas do Porto, na violenta repressão salazarista que se abateu contra os estudantes universitários do Porto, e que culminou na proibição legal (1957) do MUD Juvenil. Sai em liberdade e regressa à sua secção de livros da papelaria Aviz.   
Em 1958, na sequência da sua colaboração com o movimento cívico “Convívio” [que editava os cadernos Convívio, como depois publicava livros; tinha os bons auspícios de Afonso Cautela], vendendo no seu estabelecimento as suas edições, foi-lhe feito a proposta de criar uma livraria, convidando Fernando Fernandes para a sua direção. Fernando Fernandes depois de muita hesitação [“foi a decisão mais difícil da minha vida” – ibidem] deixou o trabalho na papelaria Aviz (com alguma tristeza, pela sua grande amizade com o proprietário, Manuel Camanho) e funda em Junho a livraria “Divulgação”, “na esquina da rua de Ceuta nº 88, com a rua José Falcão. Como novidade, a nova livraria organizava-se com secções temáticas, publica um boletim bibliográfico mensal, patrocinava sessões de autógrafos com escritores, tinha uma galeria de arte e secção de discos, organiza exposições bibliográficas [como aquela organizada em 1963, por José Augusto Seabra, sobre o vate Fernando Pessoa, e que ficaria célebre pelo incidente verificado com o dr. Pedro Veiga (Petrus), e que não cumpre aqui referir]. Tudo isso era notoriamente inovador, pelo que desde o seu início foi um centro dinamizador cultural da cidade e um local conotado com o reviralhismo conspirativo e a oposição à ditadura. A Divulgação abriu mesmo duas livrarias mais, uma (1964) em Lisboa e outra em Viana do Castelo, o que de certo modo originou problemas financeiros que se foram agravando, levando ao encerramento da livraria em 1968 [sobre este assunto ver Pedro Pereira Leite, ibidem].



Fernando Fernandes não desiste e, com o apoio de Jaime Castelo Branco (que se torna seu sócio) reabre a livraria [recuperando-a da tutela da Bertrand], agora com o nome de “Livraria Leitura”. De novo impera o mesmo espírito de amor aos livros e tributo aos seus ledores, a mesma “referência da elite intelectual do Porto”, pelo que floresce e alarga-se a outras zonas e regiões (caso de Aveiro).  Até ao 25 de Abril de 1974, foi objeto contínuo de vigilância da PIDE, mas mesmo assim lá se encontravam os inúmeros opúsculos, textos e livros proibidos de circular pela censura, continuando a ser um local de paragem obrigatória ao cidadão democrata e livre, uma espaço de tertúlia cultural e de fraternidade. Em 1998 Fernando Fernandes reforma-se, “descontente com o rumo que estava a ser seguido pelo mercado livreiro, com a emergência de novos espaços comerciais, onde nem sempre o livro é tratado com a devida deferência”. Em 2017, Fernando Fernandes leiloa a sua estimada biblioteca (o Catálogo com a colaboração de Armando Alves e Albano Martins) e sua colecção de Arte.
Morre a 30 de Setembro de 2018.

[NOTA: agradecimento especial a Pedro Baptista]
J.M.M.

domingo, 23 de setembro de 2018

FERNANDO PESSOA, UM RETRATO FORA DA ARCA



Da Resistência a Fernando Pessoa” – por António Valdemar, in Caderno E, Expresso
Motivos literários, políticos e religiosos ajudam a explicar a lenta, polémica e difícil compreensão do poeta

"Fernando Pessoa, Um Retrato Fora da Arca”, por Zetho Cunha Gonçalves, integra mais de 400 páginas com artigos e depoimentos repartidos em quatro núcleos temáticos: a homenagem da revista “Presença” em 1936, os próximos do seu convívio, o presente da amizade retribuído e as vozes da intimidade comunicantes. Pretende ser “a mais alentada recolha de textos alguma vez dada a público, não só de Fernando Pessoa sobre os seus pares mais próximos, como também, sobretudo daqueles com que eles mais intimamente conviveram humana e literariamente”. É um contributo, sem dúvida, mas não se poderá considerar exaustivo.
A recuperação de textos dispersos principiou com as “Páginas de Doutrina Estética”, coligidas por Jorge de Sena, em 1946, e insere-se, a partir de 1942, no âmbito das obras completas editadas pela Editorial Ática, de Luís de Montalvor. Disponibilizou elementos fundamentais para elaborar as primeiras biografias e estudos críticos. Assinala os primórdios da divulgação ainda muito contestada da produção ortónima e heterónima de Fernando Pessoa.

A escolha para “Um Retrato Fora da Arca” dos dois artigos de Alfredo Guisado no semanário “O Diabo”, de 1935 e de 1936, escritos sob o impacto da morte de Pessoa, e devido a muitos disparates nos jornais e de lamentáveis omissões, merece, todavia, ser completada com a entrevista que Alfredo Guisado concedeu à revista “Autores”, (número 10, de 1960) e que, embora não assinada, é da autoria do diretor e único redator Luís de Oliveira Guimarães.
Ainda sobre Alfredo Guisado aguarda-se, há muito, a colheita e a seleção de centenas de artigos e crónicas acerca do grupo e da geração do Orpheu, no jornal “República”, do qual foi um dos diretores de fins dos anos 40 a fins dos anos 60. Traçou perfis de amigos e companheiros, descreveu episódios desconhecidos, envolveu-se em guerrilhas com Gaspar Simões e Casais Monteiro.
 
 

ERROS CRASSOS
A polémica desencadeada, em 1950, por Gaspar Simões, nos dois tomos de “Vida e Obra de Fernando Pessoa” motivou a crítica pertinente de Augusto Ferreira Gomes, em entrevista de que lemos, agora, alguns excertos reveladores. Todavia, o ataque mais documentado e profundo depara-se em “Fernando Pessoa — Notas a uma Biografia Romanceada”, por Eduardo Freitas da Costa. Pertencia à família, convivera de perto com Pessoa, nos últimos anos. Estava habilitado para rebater opiniões, apontar lacunas e denunciar erros, alguns deles crassos. Por ser um adversário político confesso, João Gaspar Simões recusou-se a proceder às retificações que se impunham em edições posteriores.

A propósito de erros crassos existem outros nas “Páginas Íntimas e de Autointerpretação”, organizadas por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho. São, por exemplo, detetáveis na identificação de Esther Duval, que era a atriz Esther Leão, ou acerca de Carlos Corado, como mais um possível heterónimo de Pessoa. Tratava-se, afinal, de Carlos Celestino Corado, grande contador de histórias de bastidores políticos e culturais, colega de Pessoa no Curso Superior de Letras, bibliotecário do Palácio de São Bento e do “Jornal do Comércio”. Retificou o equívoco Hernâni Cidade, num artigo publicado n’ “O Primeiro de Janeiro”.
AS RESTRIÇÕES DA IGREJA

A igreja católica, durante décadas, formulava as maiores restrições a Fernando Pessoa, enquanto glorificava Mário Beirão, autor do hino da Mocidade Portuguesa e, sobretudo, António Correia de Oliveira, a proposta sempre na manga para um candidato português ao Nobel da Literatura. Uma das vozes mais influentes da igreja, o padre Moreira das Neves, consultor da nunciatura e do episcopado, biógrafo encartado do cardeal Cerejeira, chefe de redação do jornal “Novidades”, órgão diário do episcopado até ao 25 de Abril, depôs no inquérito do semanário “Acção”, mas não foi selecionado para “Um Retrato Fora da Arca”.
Não seria despiciendo divulgar o que, então, disse Moreira das Neves. Reconhecia Fernando Pessoa “um dos poetas mais densos da literatura portuguesa” e, logo a seguir, afirmava perentoriamente: “Crivado de enigmas e com sede de luz, debateu-se entre Deus e o poder das trevas. Daí o hermetismo de muitos dos seus versos e o pendor profético de tantos outros. Lastimo todos os erros que Fernando Pessoa não soube evitar.”

Afonso Lopes Vieira, um dos denominados “mestres da portugalidade”, autor do Avé de Fátima e da Oratória de Fátima musicada, em 1932, por Ruy Coelho, no inquérito da “Acção”, sobre Fernando Pessoa foi categórico: “Quanto à sua vasta obra poética, pelo que conheço, encontro um exoterismo (sic) ou cabalismo que sinto pouco e entendo mal.”
FRASEOLOGIA UNIVERSITÁRIA
Catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, até ao fim dos anos 50, fundador e diretor da revista “Colóquio”, até 1975, Hernâni Cidade, colega de Pessoa no Curso Superior de Letras — em texto agora não recuperado do inquérito da “Acção” — ao pronunciar-se acerca de Fernando Pessoa considerava que a sua poesia “procura, acima de tudo intuir os frémitos desconexos, os nevoentos emaranhamentos do mundo interior, em sua atividade subconsciente pré-lógica”.

Esta fraseologia que sempre foi peculiar a Hernâni Cidade, seja a escrever ou a falar sobre Camões, Vieira e outros poetas e escritores clássicos ou contemporâneos, marcou sucessivas gerações de alunos.
A opinião que predominava na Faculdade de Letras de Lisboa, foi alterada por Vitorino Nemésio, catedrático de Literatura Portuguesa Contemporânea. Não sendo um pessoano militante, incitou Jacinto do Prado Coelho a não continuar com a novela camiliana — uma das especialidades do pai, António do Prado Coelho, discípulo de Teófilo — e a preparar a tese Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, concluída em 1949.
 
 

BANDEIRA POLÍTICA
Outro depoimento do insuspeito José Osório de Oliveira que se limitou à “Mensagem”. “Teve, esse livro — acentuou — a pior sorte que em Portugal pode ter uma obra literária; servir de bandeira política”. Muitos “do outro lado, passaram a admirar Fernando Pessoa só no dia em que ele escreveu contra a extinção das ordens secretas”.

Em face de tudo isto a oposição republicana, socialista e comunista, até aos anos 50/60, rotulava Fernando Pessoa de poeta fascista. Tanto mais que publicara, em 1928, a “Defesa e Justificação da Ditadura Militar”. Recorde-se que Pessoa rejeitou este folheto editado pelo Núcleo de Ação Nacional. Com efeito, na nota biográfica, com data de 30 de março de 1935 escreveu: “Deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isto e talvez que repudiar muito.”
A POSIÇÃO DE MÁRIO SOARES

Os preconceitos dos neorrealistas foram, por vezes, ostensivos. Deveriam ser recolhidos e analisados. Mário Soares — companheiro e amigo dos neorrealistas, editado na coleção do Novo Cancioneiro, casado com Maria Barroso, intérprete dos principais poetas do neorrealismo — aproximou-se de Fernando Pessoa “só no exílio em Paris e, fundamentalmente, depois do regresso a Portugal” — confidenciou-me, recordando o forte impacto na sua formação literária e cívica incutido por Álvaro Salema. “A minha visão democrática de Portugal” — prosseguia — “foi alicerçada com a leitura de escritores, poetas e ensaístas dos séculos XIX e XX“. E enumerava: “Herculano e Garrett, Antero e Oliveira Martins, Eça que li e continuei a ler e a reler, até aos intelectuais da República, ao grande escritor da República, Teixeira Gomes, e aos críticos da República, Sérgio, Cortesão e Proença”. A referência era, portanto, a “Seara Nova” e não o “Orpheu”.
Já Presidente da República, numa viagem a bordo do “Sagres”, em agosto de 1986, entre Ponta Delgada, escala nas Berlengas e desembarque no Tejo, aproveitou a oportunidade para, “em contato direto com o mar” fazer uma leitura da “Mensagem”. Leu e gostou muito. Pessoa, para Mário Soares, passou a constituir uma surpresa. Antes o grande poeta era Antero que Álvaro Salema “o obrigou no 7º ano do liceu a ler e a comentar”, na edição dos sonetos prefaciada por António Sérgio. Diversas vezes disse a Mário Soares que não era a obra principal de Pessoa. Respondia-me que “era o único livro que Pessoa editara em português, que teve o cuidado de rever cada poema e que fez a sistematização num todo simbólico”. Procurei lembrar a Mário Soares a opinião do próprio Pessoa sobre a “Mensagem” e que reencontro agora textualmente na famosa e histórica carta a Casais Monteiro sobre os heterónimos: “Não foi feliz a estreia, que de mim mesmo fiz com um livro da natureza de Mensagem. Sou, de facto, um nacionalista místico, um sebastianista racional. Mas sou, à parte isso — referia Pessoa na mesma carta — e até em contradição com isso, muitas outras coisas.”
 
 

AS DECLARAÇÕES DE ÁLVARO CUNHAL
No Martinho da Arcada, num encontro organizado por Luiz Machado, em maio de 1991, interroguei Álvaro Cunhal sobre Pessoa, a relação de Pessoa com os fascismos europeus e a “Mensagem”. O Pessoa que Cunhal gostava era Álvaro de Campos. Acerca da “Mensagem” — e estou a transcrever um texto gravado — foi ainda mais categórico: “A ‘Mensagem’ é um momento contraditório na obra de Fernando Pessoa. É uma encomenda do Secretariado da Propaganda, do futuro SNI, uma obra para um prémio, fomentada e inspirada por António Ferro.” “É uma obra fraquíssima, porque Pessoa quis conformar a obra poética com a mensagem política. E o resultado foi que a obra poética fracassou completamente. A ‘Mensagem’ — insistiu — é um fracasso.” Fez questão de acrescentar logo: “Mas em Almada Negreiros, um homem profundamente comprometido com a ditadura fascista, eu reconheço o grande desenhador que ele foi. Isto conforma que é preciso saber distinguir a obra de arte do artista e a sua opção política.”

Tentei demonstrar que os poemas da “Mensagem” eram das primeiras duas décadas do século, publicadas em vários jornais e revistas, muito anteriores à fundação do Secretariado dirigido por António Ferro. Imperturbável, Álvaro Cunhal concluiu a rir, “Olhe que não… olhe que não…”

“MALABARISMO” FREQUENTE
Gustavo de Fraga, no mesmo inquérito, promovido pela “Acção” entrevistou — e vem agora na íntegra em “Um Retrato Fora da Arca” — Vieira de Almeida, antigo colega de Pessoa no Curso Superior de Letras, personalidade do maior prestígio intelectual e cívico. Recordo-me muito bem que, ao falar de Pessoa, Vieira de Almeida caía no absurdo de afirmar que “o seu caso não é excecional, pois (António) Feijó também se serviu do heterónimo de Abreu e Lima”, sem distinguir e clarificar a diferença entre pseudónimo e heterónimo. Muito mais grave, ainda, era quando Vieira de Almeida — sem conseguir dilucidar as diversas personas de um “drama em gente” — declarava com veemência: “Pessoa foi, frequentemente, um malabarista. Há na sua poesia malabarismo, ironia… e creio que muitas vezes ele próprio não sabia onde terminava isso e começava algo diferente.”
 
 

DOIS CRIMES DO JORNALISMO
Mesmo em cima da morte e do funeral de Fernando Pessoa, Norberto de Araújo, um dos jornalistas mais celebrados da época e ainda hoje lembrado como “mestre de estudos olisiponenses”, na página semanal que mantinha no “Diário de Lisboa”, enaltecia o teatro de Eduardo Schwalbach e as crónicas de Augusto de Castro — dois diretores do “Diário de Notícias” — com os adjetivos mais retumbantes, enquanto reduzia Fernando Pessoa a uma figura estranha e bizarra, a vaguear nas ruas da cidade (“Diário de Lisboa”, 5- 12- 1935). Não era de esperar outra coisa de Norberto de Araújo e de muitos outros jornalistas. Uma das raras exceções foi António Ferro. Aliás, o próprio Fernando Pessoa, em carta a António Ferro, identificava, na época, o jornalismo português mergulhado em “dois grandes crimes mentais — a lentidão e a tradição”; (…) “o bolor radicalmente póstumo dos Emídios Navarros, Marianos de Carvalho, Eduardo Coelho e quantos mais, de igual estirpe, que pesam no passado do jornalismo presente como calos do abismo.”

Entre os méritos de Fernando Pessoa, um retrato fora da arca, organizado por Zetho Cunha Gonçalves, somos confrontados com testemunhos curiosos. Não deixa de ser interessante conhecer depoimentos que revelam os insólitos motivos literários, políticos e religiosos que determinaram a lenta, difícil e polémica compreensão da obra de Fernando Pessoa até atingir toda a irrecusável dimensão nacional e projeção universal.
Da Resistência a Fernando Pessoa – por António Valdemar, [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], revista E, Expresso, 22 de Setembro de 2018, pp. 66/67 – com sublinhados nossos.
 
António Valdemar
 

J.M.M.