Mostrar mensagens com a etiqueta Imprensa Liberal. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Imprensa Liberal. Mostrar todas as mensagens

sábado, 19 de novembro de 2022

[19 DE NOVEMBRO DE 2022] 200 ANOS DO NASCIMENTO DE JOAQUIM MARTINS DE CARVALHO

 



200 ANOS DO NASCIMENTO DE JOAQUIM MARTINS DE CARVALHO

Joaquim Martins de Carvalho foi um notável jornalista conimbricense – talvez o mais admirável do seu tempo – e ocupa, por mérito próprio, um singular relevo na imprensa liberal da segunda metade do século XIX. Os trabalhos jornalísticos, disponibilizados nas “páginas faladas” do periódico O Conimbricense (nº 1, 24 de Janeiro de 1854) que sabiamente administrou e redigiu, permitem-nos antever a eloquência e generosidade do seu saber, compreender o seu infatigável combate e firmeza pela causa da liberdade e testemunhar o seu enorme afecto e amor a Coimbra.

O seu fecundo labor pelas belas letras e em prol das associações operárias retrata um inquieto “filho do seu tempo”, um homem de acção, de combate e de sonhos. De facto, em tempos de grande agitação política e onde se combatia e morria pela liberdade, Joaquim Martins de Carvalho “simbolizou a luta do homem pela vida. Pertenceu a essa raça privilegiada de batalhadores que devem tudo o que são a si mesmo, à sua perseverança, ao seu trabalho e à sua dedicação pela causa que perfilham e defendem" (revista do Grémio Lusitano, Ano IX, n.20) [AQUI]

J.M.M.

domingo, 14 de março de 2021

A IMPRENSA LIBERAL DO PORTO (BORBOLETA CONSTITUCIONAL E BORBOLETA DURIENSE) E JOÃO NOGUEIRA GANDRA

Periódico fundado e redigido por João Nogueira Gandra, surge na sequência do jornal Borboleta Constitucional, fundado em 12 de Maio de 1821 e que se publica até 31 de Dezembro de 1822 (295 números).

Seguiu-se entretanto a Borboleta dos Campos Constitucionais, que se publicou entre 14 de Maio e 25 de Agosto de 1821 (89 números), portanto houve uma alteração de nome neste período. Posteriormente publicou-se o Borboleta Duriense, entre 2 de Janeiro de 1823 e 30 de Junho de 1823 (144 números).

Por fim, já noutro contexto, mas ainda com o mesmo redactor, vamos ter A Borboleta, que se publicou entre 16 de Julho de 1826 e 5 de Março de 1828 (90 números). Foi neste jornal que pela primeira vez, no Porto, se apresentou uma ilustração xilogravada.



Sobre João Nogueira Gandra:

Nasceu na paróquia de Santo Ildefonso, na cidade do Porto, a 17 de Julho de 1788, e morreu a 5 de Dezembro de 1858. Frequentou, por ter realizado a matrícula na Faculdade de Matemática, na Universidade de Coimbra, em 15 de Outubro de 1806, mas não consta nada mais a partir daí, pelo que se conclui que não continuou os seus estudos. Consta que na sua mocidade pretendera seguir a profissão de medicina, porém contrariedades sobrevindas o impediram de concluir os estudos respetivos. Foi um defensor da ideias liberais na cidade do Porto, onde contribuiu para a divulgação dessas ideias através da publicação de diversos jornais.

Foi membro da Sociedade Patriótica Portuense (1822/1823) e da Sociedade Patriótica Instrutiva da Juventude Portuense (1823). Chegou a ser acusado de pertencer à Maçonaria, mas refutou sempre essa acusação.

Comendador da Ordem de Cristo, Cavaleiro da N. S. da Conceição, condecorado com a medalha n.º 2 da Campanha Peninsular. Foi em 1821 e 1822 redator principal do periódico Borboleta Constitucional, publicado no Porto; e depois em 1833 colaborador da Crónica Constitucional, do Artilheiro, e de outros jornais. Publicou ainda Diário do Porto. Porto: Gandra & Filhos, suplemento ao n.º 1 (16 de janeiro de 1835); n.º 1 (19 de janeiro de 1835) a n.º 128 (11 de julho de 1835).

Na sua tipografia foram impressos pelo menos 9 periódicos portuenses, a que se juntam mais 9 na Gandra & Filhos.

Sobre o início da sua actividade como tipógrafo, no Porto, deve consultar-se aqui, onde consta um requerimento para instalar uma oficina na referida cidade, apresentado em Março de 1821. Consultar AQUI.

Com João António Ribas, em 1828, que compõe a musica para "Il Giubilo Nazionale", tendo por base um texto de João Nogueira Gandra.

Devido ao apoio prestado à causa liberal, foi preso e condenado ao degredo, em 1829, durante o consulado miguelista, tendo sido ordenada a sua saída para Moçambique, segundo ofício do Ministro Assistente ao Despacho e Secretário de Estado da Guerra, Duque do Cadaval, D. Nuno Caetano Alves Pereira de Melo, para o então Secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Conde de Basto, José António de Oliveira Leite de Barros.

Dedicou-se à tradução do libreto da ópera Ana Bolena, escrito por Felici Romani, com música de Caetano Donizetti, em 1837. 

Começou por ser 2.º bibliotecário da Biblioteca Pública do Porto e, em 24 de Maio de 1842, por Decreto, passou a 1.º Bibliotecário interino. 

Em 7 de dezembro de 1858, realizou-se o funeral, com responso, à noite, na Igreja do Terço para João Nogueira Gandra, com música oferecida pela orquestra nacional (i.e. italiana) do Teatro S. João, em reconhecimento dos inúmeros serviços prestados pelo sr. Gandra ao teatro, assistindo mais de 400 pessoas, sendo depois conduzido o cadáver ao Prado do Repouso, sendo as honras militares prestadas pela Infantaria n.º 5, porque o finado fora secretário do Governo Militar da província (jornal “O Porto e a Carta”, 9 dez.1858, p. 3 e retificação no dia 10, p. 3).

Conhecem-se ainda, publicados na sua tipografia:

- Hymno Patriotico que se cantou em 24 de Agosto e se ha de cantar na praça da Constiuição. Porto: Imprensa do Gandra,1821.

- Hymno Constitucional cantado no Real Theatro do Porto em Julho de 1826. A Letra he de J.N.Gandra. A Musica he de A.J.Nunes. Porto

- Hymno Imperial-Constitucional da composição do Senhor D. Pedro, em 1822.(Porto): Imprensa do Gandra. 1826

- Hymno dedicado à Senhora Infanta D. Izabel Maria, pela música do Hymno Imperial do Senhor D. Pedro.. Porto:Imprensa do Gandra. 1826

- Hymno à vinda de S.A. o Serenissimo Senhor Infante D. Miguel, para reger estes Reinos (A musica he do Hymno Imperial-Constitucional do Sr. D. Pedro IV (sic).Porto: Imprensa do Gandra.1828.Com licença da Commissão de Censura.

- A APOTHEOSO DOS MARTIRES DA PATRIA. Elogio dramático para se representar no Real Theatro de S. João em 8 de Abril de 1837, por José de Sousa Bandeira. Porto. Imprensa de Gandra e Filhos. 1837. In-8º peq.º de 13 págs. B.

- O ASSEDIO DE CORINTHO. Tragedia Lirica, em 3 actos, em Musica de Joaquim Rossini, para se representar no Real Theatro de S. João na Cidade do Porto. Traducção de João Nogueira Gandra. Porto : Imprensa de Gandra e Filhos. 1837. In-8º peq. de 56 págs. B.

- HUM MEZ DE FERIAS. Drama em quatro actos, representado no R. Theatro de S. João na Cidade do Porto, na noite de 21 de Fevereiro de 1838. Porto. Na Typographia CommercialPortuense. 1838. In-8º de 141-I págs. B.

- MARIA STUART, tragedia lyrica em 4 actos. Musica do Mestre Caetano Donizetti; ‘para se representar do Real Theatro de S. João da Cidade do Porto. Porto : Typographia de Gandra & Filhos. 1842. In-8º peq. de 31 págs. B.

- SAPHO. Tragedia lyrica em três partes, ou actos. Musica do Mestre C. J. Pacini para se representar no R. Theatro de S. João na cidade do Porto. Porto : Typographia de Gandra & Filhos. 1845. In-8º peq. de 61 págs. B.

- A FAVORITA. Melodrama em 4 actos, Musica do Mestre Caetano Donizetti, para se representar no Real Theatro de S. João da Cidade do Porto. Porto : Typographia de Gandra & Filhos. 1843. In-8º peq. de 31 págs. B.

- O JURAMENTO. Melo-Drama em 3 actos; em musica de X. Mercadante. Para se representar no Real Theatro de S. João da Cidade do Porto. Porto : Typographia de Gandra & Filhos. 1846. In-8º peq. de 32 págs. B.

- ATILA. Opera séria em 1 prologo, e 3 actos. Musica do Mestre Verdi, para se representar no R. Theatro de S. João da Cidade do Porto. Porto : Typographia de Gandra & Filhos. 1849. In-8º peq. de 24 págs. B.

- CONRADO D’ALTAMURA. Drama lyrico em 3 actos, Musica do Maestro Frederico Ricci, para se representar no Real Theatro de S. João da Cidade do Porto. Porto. Typographia de J. N. Gandra & Filhos. 1851. In-8º peq. de 16 págs. B.

- LUIZA MILLER, Melodrama trágico em 3 actos, em musica do celebre compositor José Verdi, para se representar no Real Theatro de S. João da Cidade do Porto. Typographia de Gandra & Filhos. 1854. In-8º peq. de 23 págs. B.

- Soneto à primeira actriz contemporanea no theatro portuguez de declamação Emilia das Neves e Sousa, no dia do seu beneficio no R. T. de S. João do Porto em 25 de Março de 1851/ João Nogueira Gandra . - Porto: Typ. Gandra, 1851

- Sonetos ao Marechal de Saldanha recitados no Theatro de S. João do Porto, na occasião da sua despedida em 12 de Maio de 1851/ João Nogueira Gandra . - Porto: [s.n.], 1851

A gravura de João Nogueira Gandra pode ser obtida AQUI.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

- Susana Simões Moncóvio, O CENTRO ARTÍSTICO PORTUENSE (1880-1893). SOCIALIZAÇÃO DO ENSINO, DA HISTÓRIA E DA ARTE MODERNA NO PORTUGAL DE OITOCENTOS, FLUP, 2015.

- Agostinho Araújo, "Pequenas anotaçoes sobre a actividade do tipógrafo e jornalista Joao Nogueira Gandra (1788-1858)", Cadernos do noroeste, ISSN 0870-9874, Vol. 20, Nº 1-2, 2003, págs. 127-146.

Vide ainda: - “Boletim dos Amigos do Porto”, 2015, p. 129-145.

A.A.B.M.


sábado, 6 de março de 2021

CHRONICA DO ALGARVE, FARO, 1833


CHRONICA DO ALGARVE - Ano I, nº 1, 15 de Julho de 1833 ao nº 3, 20 de Julho de 1833; Direc. Manuel António Ferreira Portugal (Diretor da Imprensa do Governo); Redacção: Rua do Aljube, nº 998; Impressão: Imprensa do Governo, Faro.

Durante bastante tempo pouco se conhecia sobre este primeiro periódico que se publicou na região algarvia. A Hemeroteca Digital do Algarve permitiu a sua localização e disponibilização ao público em formato digital.

A Chronica do Algarve, publicou-se em Faro, em 1833, tendo o primeiro número sido publicado em 15 de Julho desse ano, conforme se pode ver na imagem acima. A publicação de um periódico na região já devia ser uma pretensão das elites dirigentes, que estavam a assumir as funções e a estabilizar o poder dos liberais quando, no resto do País, ainda havia convulsões e travavam-se combates entre os apoiantes de D. Pedro e de D. Miguel. 

José Vieira Branco, antigo tipógrafo e militar, procurou com pouco sucesso descobrir mais informações sobre a fundação do jornal em Faro. Cerca de meio século mais tarde, José Carlos Vilhena Mesquita tentou também, ainda com a ajuda e o conhecimento de Mário Lyster Franco, descobrir mais alguma informação sobre o jornal e chegou a publicar um artigo, num dos primeiros congressos regionais do Algarve em 1984 [José Carlos Vilhena Mesquita, «CHRONICA DO ALGARVE» TERÁ SIDO O PRIMEIRO JORNAL ALGARVIO?, 3º Congresso sobre o Algarve, vol. 1, Silves, Racal Clube, 1984 disponível AQUI]. Porém, foi com a concretização do projeto da Hemeroteca Digital do Algarve que se conseguiu juntar dois dos números do jornal que se publicaram, bem como alguns suplementos.

O jornal apresentava em nota, no canto superior esquerdo, que devia publicar-se às quartas-feiras e sábados. No entanto, o número um publicou-se a uma segunda-feira. Sem qualquer outra simbologia além da coroa do poder real em epígrafe, referia o preço de venda por exemplar (40 réis por número) e o preço dos suplementos (20 réis). Colocava ainda um excerto do Canto X, de Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões. O jornal, como era padrão naquela época, tinha quatro páginas a duas colunas e, sintomaticamente, serviu de forma objetiva para propagandear as vitórias liberais face aos confrontos com as tropas miguelistas.

A organização interna deste órgão da imprensa escrita começava com uma apresentação, intitulada de prospecto, onde se destacavam as finalidades a que se propunha o periódico: "Empenhados em defender a Causa da Honra, e da Legitimidade do Trono, e das Liberdades Pátrias", "Diremos com a ingenuidade própria de um verdadeiro liberal tudo o que ocorrer de notável nas operações da expedição, destinada a quebrar as algemas, que manietavam os pulsos dos fiéis Portugueses neste reino, e província limítrofe" e concluía "Daremos as peças oficiais, e escreveremos lambem o que houver de notável na heroica cidade do Porto, apenas dali recebermos as noticias; e com algumas dos reinos estrangeiros que mais possam Interessar á nossa Causa, encheremos este limitado periódico, em que não tem parte a especulação e interesse pecuniário (que a todo e qualquer renunciamos desde já), mas somente o desejo de ser úteis a nossos honrados hóspedes e concidadãos, e de os esclarecermos sobre a opinião geral do Reino e da Europa, que por certo é a parte mais civilizada do mundo". Seguiu-se depois uma extensa nota, na Parte Não Oficial, sobre a Expedição ao Algarve e concluía essa parte com algumas das proclamações feitas na cidade do Porto, neste caso uma proclamação de D. Pedro e outra do Conde Vila Flor.

Na quarta, e última página, em género de pequeno anúncio, fica-se a saber que o diretor do periódico era Manuel António Ferreira Portugal e que estavam reservadas pequenas vantagens para os assinantes do bissemanário, pagariam menos 10 réis por número do que o público normal e a publicação estava disponível para receber anúncios com preços a combinar. Sobre esta figura pouco se sabe também, mas abaixo aditar-se-á mais alguns elementos biográficos que se conseguiram reunir.

A imprensa utilizada para imprimir a Chronica do Algarve era a Imprensa do Governo, que estava estabelecida na Rua do Aljube (depois Rua do Município) em Faro, 998.

Manuel António Ferreira Portugal era bastante jovem quando foi desafiado a estabelecer-se no Algarve com uma oficina tipográfica. 

Em Outubro de 1833, sabemos que vai ser apontado para criar uma tipografia portátil para acompanhar o exército, solicitando-se mesmo a aquisição de utensílios e equipamentos necessários ao seu funcionamento. Seria já funcionário da Imprensa Nacional e seria dispensado para acompanhar a Tipografia do Exército em operações (1).  Alfredo da Cunha, na sua estimada obra sobre o "Diário de Notícias" diz-nos que Ferreira Portugal foi o representante do jornal de anúncios "Gratis" (1836-1857). Sabe-se que, em 1844, Ferreira Portugal já se encontra estabelecido com uma tipografia em Lisboa (Calçada dos Barbadinhos, Santa Apolónia) e que terá sobrevivido pelo menos até 1867. Nessa tipografia foram impressas entre outras as seguintes publicações:

O Director, Lisboa, Tipografia de M. A. F. Portugal, 1838-1840.
Almanak estatistico de Lisboa em 1841 [a 1853] / coordenado por M.A.F. Portugal, [Lisboa?] : Typographia do Gratis, 1841.
- O Correio Português, ed. M.A.F. Portugal, Lisboa, 01-12-1841 a 31-12-1845, nº 1127
A Restauração. Lisboa: Typ. de M.[anuel] A.[ntónio] F.[erreira] Portugal,  25.5.1842;
O Estandarte, Lisboa, 02-08-1847 a  22-11-1851;
- O Conservador, Lisboa, 15-09-1851 a 14-02-1852;

Tomás Quintino Antunes, que virá a ser chefe da tipografia do Diário de Notícias descrevia num breve apontamento Manuel António Ferreira Portugal descrevia-o assim:

homem grosseiro e irascível, que mal conhecia os processos tipográficos, e não tinha outros merecimentos senão o ter servido como soldado no batalhão dos Voluntários da Rainha durante a guerra da restauração constitucional. Orgulhoso e vingativo, tudo lhe servia de pretexto para tratar os empregados como uma  horda de escravos, sem mesmo poupar os que, por seus longos serviços, e pela sua avançada idade, tinham incontestável direito a serem tratados com a maior consideração (2). 

(1) https://imprensanacional.pt/history-heritage/sobre-o-fornecimento-de-utensilios-para-a-organizacao-de-uma-imprensa-portatil-para-o-quartel-general-imperial/?fbclid=IwAR1FjYd1Q9MgyQtCgGDmmxsXwLgbFfnx4M1FOFn5GVcklCJyPSYXe0_pEbs

(2) Cunha, Alfredo da, Diário de Notícias. Sua Fundação e os fundadores. Alguns factos para a História do Jornalismo Português, Lisboa, Diário de Notícias, 1914p. 78 também disponível online  aqui: http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/EFEMERIDES/diariodenoticias/DiariodeNoticias.pdf

A.A.B.M.

terça-feira, 2 de junho de 2020

O CORREIO INTERCEPTADO – JOSÉ FERREIRA BORGES



[José Ferreira Borges] O Correio Interceptado, Ano I, nº 1 (1 de Novembro 1825) ao nº 63 (24 de Agosto 1826); Londres, Imprensa de M. Calero, nº17, Frederick Place, Goswell Road, 1825, 297-I-VI-II págs.

Trata-se de um curioso periódico publicada em Londres por José Ferreira Borges, em forma de cartas (63 cartas, sem contar com a do prólogo) e publicado sob anonimato. Faz parte, portanto, da importante e poderosa imprensa da emigração, seguindo, como será evidente, a linha liberal de D. Pedro. Inocêncio Francisco da Silva considera que nestas Cartas “são examinados com crítica chistosa e severa diversos actos do governo daquelle tempo, e se tratam muitos assumptos de interesse para a historia contemporanea”.

Uma das Cartas publicadas expõe uma censura feita ao médico (liberal e maçon), Bernardo José de Abrantes e Castro, pelo fundibulário absolutista e, na época, censor, o padre José Agostinho de Macedo. Diga-se que o dr. Bernardo Abrantes interveio a favor da concessão de uma pensão anual vitalícia (pela Oração proferida pelo padre nas exéquias de D. João VI) ao truculento Agostinho de Macedo. Porém o furibundo padre injuriava sistematicamente o dr. Abrantes, em escritos e sátiras várias. Aconteceu que o Censor Ordinário, o padre José Agostinho de Macedo, na análise e censura a uma obra introduziu um “paragrapho final, tão intempestivo quanto impertinente, em que o Dr. Abrantes era atrozmente enxovalhado” [cf. Inocêncio F. da Silva, Memórias de José Agostinho de Macedo, p. 127]. Porém, uma cópia dessa censura foi enviada para Londres, tendo sido publicada no periódico de José Ferreira Borges, O Correio Interceptado. Curiosamente esse jornal chegou a Lisboa no momento em que o dr. Abrantes prestava ao padre o assinalado serviço referente à sua pensão vitalícia. O ingrato padre, sem qualquer vergonha, recorreu a “uma falsidade, negando que tivesse escrito na Censura o período em que se revelava a baixeza do seu ânimo, e n'este sentido fez imprimir o pequeno folheto": Resposta aos colaboradores do infame papel intitulado correio interceptado numero 6 impresso em londres, Typ. de Bulhões, 1826, 16 p.
 
 
 
J.M.M.