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terça-feira, 11 de julho de 2023

O QUE RESTA DA OBRA DE GUERRA JUNQUEIRO 100 ANOS DEPOIS DA APOTEOSE? - ANTÓNIO VALDEMAR

O que resta da obra de Guerra Junqueiro 100 Anos depois da apoteose? – por António Valdemar, in E revista Expresso, 7 de Julho 2023 

O mais lido e aclamado poeta português, na transição do século XIX para o século XX, desencadeou as maiores polémicas religiosas e políticas. Apesar de todas as consagrações, deixou de ter a projeção literária que em tempos lhe foi atribuída

Cem anos depois da morte de Junqueiro, glorificado no Panteão Nacional, será possível recuperar a leitura da sua obra, tal como se verificou durante décadas? Os livros de português no ensino secundário ainda reproduzem poemas de Junqueiro? Tanto quanto se pode avaliar o culto de Junqueiro (1850 - 1923) circunscreve-se às manifestações que decorrem na sua terra natal, Freixo de Espada à Cinta. Deixou de ter a amplitude que o situava na mais elevada dimensão nacional.

A partir de 1915, a geração que lançou a revista Orpheu – Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Almada Negreiros e Alfredo Guisado – abriu novos caminhos na literatura, em especial na poesia. Em relação ao passado próximo, elegeu Antero, Gomes Leal e Cesário Verde entre os poetas preferidos. Outros nomes do século XIX e XX também deixaram de ter o reconhecimento que lhes era dispensado.

Junqueiro faleceu a 7 de julho de 1923, em Lisboa, na casa da filha Maria Isabel, em Campo de Ourique. Vivia-se um dos anos mais turbulentos da primeira República. Assistia-se a uma «balbúrdia sanguinolenta», conforme Eça de Queiroz vaticinara, no In Memoriam de Antero (1896), a propósito dos efeitos da implantação da República em Portugal. Entre numerosos casos insólitos, que provocaram sobressalto, a 22 de maio, era morto a tiro, no cemitério dos Prazeres, um gerente da Companhia União Fabril (CUF), durante o funeral do Conde de Sabugosa, o último representante do grupo Vencidos da Vida, do qual Guerra Junqueiro fizera parte.

Os atentados eram consecutivos. No dia da morte de Junqueiro, à saída do Tribunal de Defesa Social, arremessaram três bombas a três juízes que ficaram gravemente feridos. A falta de alimentos essenciais, como o pão, provocava greves impulsionadas pela Confederação Geral do Trabalho. Predominava a inquietação, o medo e o pânico. Cunha Leal, que já pedira a pena de morte, por ocasião da «noite sangrenta» do 19 de outubro de 1921, voltou a apelar, numa conferência na Sociedade de Geografia, para a intervenção urgente da Força Armada, a fim de repor a ordem pública e a estabilidade social.

UM GÉNIO NO PANTEÃO

As exéquias de Junqueiro realizaram-se na Basílica da Estrela. O funeral seguiu, diretamente, para os Jerónimos, na altura Panteão Nacional. Ficou no espaço nobre da Sala do Capítulo, onde já estavam Herculano e Garrett. O Governo – e com o apoio do Presidente da República António José de Almeida - pagou as despesas da trasladação e determinou, em decreto-lei, que os funerais fossem nacionais. O cerimonial - que se prolongou durante cerca de uma semana – constituiu uma apoteose cívica e cultural, enquanto era enterrado, na maior obscuridade Basílio Teles, um dos principais ideólogos da República.

Sepultado com todas as honras, Guerra Junqueiro continuava a ser classificado um génio, não obstante as polémicas religiosas, políticas e literárias que desencadeou. Assim o apareceu nas primeiras páginas dos grandes jornais e nos depoimentos de personalidades com a responsabilidade de Teixeira de Pascoais: «Guerra Junqueiro é um poeta genial. A sua lira é feita do mesmo ouro que a de Apolo. A luz ri nas suas sátiras, mais belas do que as de Juvenal. Este poeta é o Sol. Nenhum outro encarnou assim a natureza no seu milagre deslumbrador e criador».

Era o poeta português mais lido e mais aclamado. A Morte de D João, publicada em 1874, representou o início da consagração. Tinha apenas 24 anos. Em poucos meses, esgotou uma tiragem de mil e duzentos exemplares. Os êxitos repetiram-se até à morte. Sampaio Bruno não hesitou em salientar: «não existe, em literatura alguma, paralelo que se lhe compare». Partilhou a mesma opinião Miguel Unamuno.

O renome de Junqueiro acentuou-se, em 1885, n’ A Velhice do Padre Eterno. A crítica indignada do Padre Sena Freitas concorreu para numerosas reedições entre nós e no Brasil. Nunca houve em Portugal uma acusação tão virulenta contra a igreja católica. Deu lugar a uma polémica interminável. Atingiu a igreja católica desde as mais altas hierarquias até ao pároco de aldeia.

Contudo, Junqueiro nunca pôs em causa a existência de Deus, nem a figura de Cristo. Num poema incluído na própria Velhice do Padre Eterno, confessou, sem margem para equívocos: «creio que Deus é eterno e que a alma é imortal» (…) «Sim, creio que depois do derradeiro sono, /há- de haver uma treva e há-de haver uma luz…».

Mas denunciou, com energia, a conduta do clero, os abusos sexuais, o envolvimento descarado na rotina político partidária. A educação de muitos jovens era orientada para o sacerdócio. No poema Como se faz um Monstro descreve a recomendação habitual de muitos pais aos filhos: «Hoje Padre é melhor que ser Doutor» (…) «Quando o abade morrer hás-de vir para cá./ Despacha-te o doutor nas Cortes: quando não/ votamos contra ele, e foi-se a eleição» (…) «Toca para o seminário. Eu quero ir para a cova /só depois de te ouvir cantar a missa nova». Garantia um futuro próspero. A carreira eclesiástica abrangia os maiores interesses pessoais e institucionais. Reforçava o poder em todas as instâncias.

POETA DE CAUSAS

As questões políticas e sociais mobilizaram, sempre, a atenção de Junqueiro. Foi um poeta de causas que de interesse público. Enumeramos, por exemplo: A Vitoria da França, sobre a Republica em França, 1870; A Espanha Livre, acerca da instauração da Republica, em Espanha, 1873; A Fome no Ceará, um dos grandes flagelos no Brasil; A Lágrima (por ocasião do incendio do Teatro Baquet, no Porto); e, ainda, O Crime, contestação ao Ministro da Justiça do assassinato a um militar. «Contra o braço da forca e contra a guilhotina,/ eu que proscrevo o algoz, eu exigi -lo- ei/para enforcar somente esse bandido – a Lei».

Integram-se, neste contexto, O Finis Pátria, em 1890, e, sobretudo, a Pátria, em 1896. Basta citar que uma tiragem de seis mil exemplares – caso sem precedentes em Portugal – vendeu-se em cinco dias. Na Pátria arrasou com ferocidade a dinastia de Bragança. D. Pedro V foi a exceção. Despedaçou o rei D. Carlos, a corte que o rodeava, os chefes dos partidos que permaneciam à frente das instituições. Protagonista e espectador dos acontecimentos quotidianos, Junqueiro interveio nas guerras e nas guerrilhas que agitaram o País, tais como o Ultimatum de 1890, a Revolução Republicana do 31 de Janeiro. Tudo quanto precipitou o fim da Monarquia e acelerou a instauração da República.

Elogiou inclusive o regicídio. «Lamento de olhos enxutos» – e citamos para que não haver dúvidas – «a execução do monarca. Mas se tivesse o dom de o ressuscitar não o levantava do túmulo. Deploro angustioso a morte do príncipe. E diante dos cadáveres dos homicidas descubro-me ajoelhado, com lágrimas de piedade, e, porque não hei-de confessá-lo, de adoração e carinho».

A glorificação de Junqueiro prosseguiu com Os Simples, 1892, A Oração ao Pão 1902 e a Oração à Luz 1904. Três livros da última fase voltada para a exaltação da família e para celebrar a paisagem natural de Trás os Montes e do Alto Minho e a paisagem ideal sonhada em explosões de lirismo. Revela um panteísmo transcendente, sem as ironias e os sarcasmos que lhe atribuíram notoriedade.

Cumpria-se o vaticínio de Antero de Quental, numa carta de agosto de 1874 a Oliveira Martins, da qual resumimos o seguinte passo: «Estou curiosíssimo por saber o que Você dirá de Guerra Junqueiro e d’ A Morte de D João. Mas que admiráveis páginas! Há- de fazer-se daquele rapaz um grande poeta – nos limites em que hoje se pode ser grande poeta – um eco vibrante das grandes ideias do nosso tempo».

REAÇÕES CRÍTICAS

Esta circunstância não impediu que, na Revista Portugal, dirigida por Eça de Queiroz, o crítico mais arguto da Geração de 70, Moniz Barreto (1863 - 1896), prematuramente falecido, sem dissecar as controvérsias políticas e religiosas, se ocupasse de Guerra Junqueiro, no âmbito estritamente literário, contrariando a unanimidade de opinião que predominava. Assinalou «os recursos da expressão, a sumptuosidade e o vigor da frase, a sábia gradação dos efeitos, a arte consumada de formular, intimar, ornar e lançar à circulação um tema poético». Logo a seguir acrescentou: «um vocabulário escolhido e nobre, uma adjetivação abundante e nova, uma sintaxe regular e ampla», constituem «o segredo do seu prestígio». Para concluir categoricamente: Junqueiro é «muito mais orador do que poeta. Tem muito mais eloquência do que imaginação» (Revista Portugal, número 1, 1889).

Nos últimos anos da vida de Junqueiro, publicou António Sérgio (1883-1969), no primeiro tomo dos Ensaios uma extensa interpretação com o título: O Caprichismo Romântico do Sr. Guerra Junqueiro». Teve, em Portugal e no Brasil, o maior impacto. Em 1928, Vieira de Almeida (1888 - 1962), em dois números da revista O Instituto, de Coimbra publicou o estudo A obra de Guerra Junqueiro. Também surgiu mais outro estudo de António Sardinha (1887- 1925), repleto de objeções e recolhido no livro póstumo Purgatório de Ideias (1929).

Intelectuais, quer da Seara Nova, quer do Integralismo Lusitano formularam críticas à obra e à personalidade de Junqueiro. Lopes de Oliveira (1881 - 1971), biógrafo e memorialista de Junqueiro reagiu: «trata-se de um ataque dos zoilos, mais ou menos obscuros, mas todos horríveis e despeitados versejadores. Desenvolvia-se uma reação obscurantista, à conta da defesa da religião. Não só se acusava o ateísmo (de Junqueiro), mas descia-se à calúnia sobre a vida pública e particular».

O ensaísta Amorim de Carvalho (1904 - 1976), procurou examinar as posições de António Sérgio e de Vieira de Almeida no livro, Guerra Junqueiro e a sua obra poética (Porto, 1948). Teve por objetivo «fazer justiça a Junqueiro, um dos maiores poetas portugueses, e que, no dizer de Unamuno, foi «um dos maiores do mundo». «Toda a análise interpretativa» – salientou – «que António Sérgio fez, do pensamento científico e filosófico do poeta Guerra Junqueiro terá de ser rejeitada como improcedente». Quanto a Vieira de Almeida – comenta – «pelo exagero que assume, é toda ela, uma autêntica cegueira, em que os exemplos e a tese – sem ele dar por isso – se voltam a cada passo contra o detrator». Para Amorim de Carvalho «O senso estritamente lógico – que nunca fez qualquer literatura de mérito – encontra sempre contradições».

CENTENÁRIO NO SALAZARISMO

O ano de 1949 não apagará os horrores da Segunda Guerra Mundial e, no plano interno, os movimentos democráticos em torno da candidatura presidencial de Norton de Matos. A oposição encontrava-se retalhada. A PIDE multiplicava as prisões em todo o país. Aproximava-se a 15 de setembro de 1950 a homenagem devida a Guerra Junqueiro.

Egas Moniz proferiu a 14 de outubro de 1949 uma conferência no salão de festas do Coliseu do Porto na qual propôs: «estamos no limiar do centenário do Poeta, que passa no próximo ano de 1950. Homenagem de gratidão lhe deve ser tributada, em todo o país, mas deve partir a iniciativa dos Homens de Letras do Porto, para que tenha maior retumbância por esse Portugal além. Em cada cidade, em cada vila, em cada aldeia, sejam lidos os seus versos. Deram-me o feliz ensejo de dar o sinal de alvorada, poucos meses antes da comemoração de um dos maiores poetas».

Ainda houve duas conferências no Porto: uma de Teixeira de Pascoais; outra de João de Barros. Entretanto, Egas Moniz recebia o Prémio Nobel. Mas o apelo suscitado por Egas Moniz passou a ser controlado pela censura e pela polícia política, até se organizar uma Comissão Nacional presidida por Júlio Dantas. Inspirava total confiança ao regime. Escrevera, em 1921, n’Os Galos de Apolo: «tem sido em Portugal, no Brasil, na própria Espanha, o pai espiritual de algumas gerações de Poetas».

Embora agnóstico – recorde-se que exigiu, em testamento, funeral civil – Dantas não iria afetar a estreita relação do Governo com a Igreja. Respeitava a cartilha definida pelo cardeal Cerejeira, antes de ascender ao episcopado. Consta das conferências promovidas pelo CADC e compiladas no livro «A Igreja e o Pensamento Contemporâneo», 1924. Recorde-se que o prof. Sílvio Lima (1904- 1993) desmontou, factualmente, em 1930, as teses de Cerejeira em «Notas críticas ao livro A Igreja e o Pensamento Contemporâneo». Custou-lhe a demissão de professor da Universidade de Coimbra, dificilmente recuperada.

«TROVOADA DE LATA»

Mesmo em cima da morte, do funeral, da tumulização de Junqueiro no Panteão Nacional, Raul Proença sem deixar de enaltecer méritos ao poeta teve a coragem de contestar o génio de Junqueiro (Seara Nova, Julho de 1923): «Falta- nos o sentimento da medida» – observou – «a rigorosa disciplina das qualificações. Toda a nossa crítica se encerra nos dois termos antinómicos dum dilema: a apoteose ou a descompostura. Resvalamos sempre sobre o um plano inclinado: deixamo-nos ir à mercê do impulso laudativo ou pejorativo». ( … ) «Sem a mínima preocupação de fazer restrições, de ver os defeitos ou as qualidades daquilo que se elogia ou se censura. Não há por isso critica em Portugal».

A propósito dos versos introdutórios d’A Morte de D João não hesitou Raul Proença em afirmar que era uma «trovoada de lata hoje ilegível» para concluir: «Junqueiro ocupa apenas um dos primeiros postos, entre os nossos escritores de segunda ordem. Mais direito do que ele entrar nos Jerónimos» – acrescentou - têm certamente Eça de Queiroz e Antero – de primeiro plano, esses, sem dúvida. O tempo se encarregará de pôr os homens e as coisas nos seus lugares, quando se fizer a distância que permitirá avultar os gigantes, a reduzir os que não foram à sua exata proporção».

É evidente que, mais do que previa Raul Proença, em 1923, deixou Guerra Junqueiro de ter a projeção literária, que lhe foi atribuída. Perdura, contudo, a veemência do inconformismo e do protesto, e que ganha atualidade, perante a degradação política e social, que se tem intensificado, nos dias que vivemos, e de forma preocupante.

O que resta da obra de Guerra Junqueiro 100 Anos depois da apoteose? – por António Valdemar [jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], in E revista do Expresso, 7 de Julho de 2023, p.32-35 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

QUE É A TERRA? – GUERRA JUNQUEIRO



"Eu creio que a terra é um grande monstro vivo, que tem alma, que sente e que pensa, que ri, que chora, que trabalha e que dorme.

No seu vasto e profundo thorax de pedra, há um enormíssimo coração, latejando e resfolegando como uma forja fabulosa de cyclopes, onde o sangue venoso se deve engolfar tonitroando em catadupas de Niagara, para sair rejuvenescido e resplandecente, em milhares de Amazonas tormentosos, que o espalhem em ondas de vida creadora por todos os labyrinthos do seu organismo descomunal.

As plantas e as arvores que cobem grande parte do globo são apenas, em relação a ella, uma insignificante erupção herpética de carácter benigno. O Hymalaia é uma borbulha, o Vesuvio é um anthraz.

E o homem? Ah! O homem, esse rei da creação, não é mais que um animalzinho invisível, qualquer cousa parecida a um mosquito dividido por cem, pousado sobre um Leviathan multiplicado por mil.

Ora é claro, que temos num monstro, cujo corpo tem cem mil léguas quadradas de superfície, o menor estremecimento, o frémito, representa para nós um cataclysmo pavoroso.

Todas as assombrosas Babeis que a humanidade, há milhões de anno, tem levantado triumphantemente para o Azul, desde Thebas, Roma, Ninive e Babylonia, até Londres, paris e Nova York, toda essa obra extraordinária de centenas de séculos, poderia a terra desmorona-la num minuto de maneira bem simples, com um simples ataque de ‘nervos?.

E quem sabe se o globo, em vez de morrer, como vaticina a sciencia, de amollecimento de cérebro, não morrerá pelo contrario, na força da vida e da saúde, de uma apoplexia fulminante – o terramoto Universal?

Enfim, diante das fatalidades horrorosas e irremediáveis da natureza, sinto-me feliz por fazer parte do miserável formigueiro humano numa epopéa de solidariedade cosmopolita, em que um gemido de dor, ou um estampido de catastrophe repercute dentro de duas horas pela superfície do mundo inteiro, fazendo palpitar generosamente, unanimemente todos os corações – como os grande sinos de bronze de todas as torres de uma cidade immensa dobrando a rebate, num coro titânico, pernate um incêndio colossal"

Guerra Junqueiro, in “Que é a Terra? O verbo cantar? Que é a vida?”, Livraria Editora Empresa Litteraria Universal (Rua do Combro, 119-121), Lisboa, 1900, pp.39-41.
 
J.M.M.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

AFONSO COSTA




► Retrato [1912?] do dr. Afonso Costa por Alberto de Sousa [1880-1961], ilustrador e aguarelista, militante republicano – AQUI já referido | Livro de Afonso Costa com dedicatória a Guerra Junqueiro - in suplemento do Diário de Lisboa, 28 de Março de 1968.
 
J.M.M.

domingo, 30 de dezembro de 2012

A VELHICE DO PADRE ETERNO


“Trago-te o império do Universo. Aí o tens, meu Pai!

E o Nazareno, dizendo isto, atitou-lhe aos pés o diadema de espinhos e a cruz ensanguentada do Calvário. Jeová, que era já Deus há muito tempo, e por isso mesmo prático e utilitário, julgou a situação num relance.

Respondeu ao Filho: - Andaste bem. Chegas cansado, crivado de golpes, vai-te deitar. Amanhã falaremos. É tarde. Eu te abençoo. –

E Jeová, na cama, pensou: Este meu Filho, como todos os grandes génios, é um idiota. Divino imbecil! Deixei-o crucificar, e ele, sem recompensa, faz de mim – pobre Deus de Jerusalém – o Deus do Universo inteiro!

E ao outro dia o Padre Eterno instalou-se no Olimpo”

in Guerra Junqueiro, "A Velhice do Padre Eterno", 1896

J.M.M.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

MEMÓRIA A JOSÉ FALCÃO




MEMÓRIA A JOSÉ FALCÃO, c/ prefácio de Guerra Junqueiro [Á Puríssima Memória do Dr. José Falcão], Coimbra, Typographia Auxiliar d'Escriptorio, Praça do Commercio, 11, 1º andar, 1894, p.221.

J.M.M.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

"PÁTRIA" DE GUERRA JUNQUEIRO - PROIBIDA PELA COMISSÃO DE CENSURA



"PÁTRIA" de GUERRA JUNQUEIRO - "Peça em um acto de Guerra Junqueiro, proibida pela Comissão de Censura para ser representada no Teatro da Trindade. Inclui relatório do censor (16 de Maio de 1955)"

in TORRE DO TOMO ONLINE

J.M.M.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

HORAS DE LUTA. HORAS DE COMBATE – GUERRA JUNQUEIRO


"Depois de caçar tiranos
Vamos caças borboletas!
" [G. Junqueiro]

“A sociedade portuguesa está organizada para o mal. Não é já o mal esporádico e fortuito, em casos isolados que rapidamente se combatem. Não; é o mal colectivo, o mal em norma de vida, o mal em sistema de governo. Os poderes funcionam deliberadamente, com um fim: produzir o mal. Porquê e para quê? Porque o mal são eles e querem conservar-se. Um regímen corrupto só na corrupção subsiste. Mantém-se na corrupção, como alguns bacilos na porcaria. O seu ódio ao bem é fundamental e orgânico.
A filosofia da vida dum tal regime é a filosofia do porco: devorar” [ibidem]

"Então o povo que deixa prostituir a consciência, roubar os direitos, vilipendiar a história, o povo cobarde que não defende a honra, quer defender a camisa?
Que lha levem, com o último pão, os últimos andrajos! Que ruja de frio, que estoire de fome! A fome é como o fogo: abrasa e depura. Os que aviltam gozando, só se regeneram sofrendo. Não venham libras, venham desastres. Sobre a nossa infâmia chovam calamidades e tormentos" [ibidem]

"Já cai de podre o mundo velho e um mundo novo se elabora: Já surgem profetas e se martelam cruzes em calvários. Ciclones de dor e de infinito varrem, troando, o negro mar da humanidade.
Pão! Venha pão! – ululam bocas formidandas.
Ideal! Ideal! Ideal! – gritam as almas às estrelas.
Porque as bocas têm direito ao pão e as almas têm direito à luz.
Se acaso nós, revolucionários, nós que clamamos por direito e que bradamos por justiça, aqui um dia implantarmos uma nova forma de governo, que ela seja, antes de tudo, o caminho aberto para uma nova forma de civilização ..." [ibidem]

Guerra Junqueiro, in Horas de Luta (Livraria Lello) e Horas de Combate (Livraria Chardron)

J.M.M.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

GUERRA JUNQUEIRO - "CONVERSA CHEIA DE PESSIMISMO"




"Guerra Junqueiro mostra o seu amor às cousas de Arte e às suas colecções numa hora de conversa cheia de pessimismo" [clicar na FOTO para ler]

[trata-se da reprodução de uma "conversa" entre Guerra Junqueiro e o jornalista Norberto Araújo, na Primavera de 1918, mais tarde publicada no Diário de Lisboa de 7 de Abril de 1925, p.3 - via Diário de Lisboa online]

J.M.M.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

FICÇÕES E MEMÓRIAS JORNALÍSTICAS DA I REPÚBLICA



A Comunidade de Leitores da Hemeroteca Municipal de Lisboa vai realizar no próximo dia 24 de Fevereiro de 2011, pelas 18 horas, a 3º edição.

Desta vez e obedecendo a um tema global Ficções e Memórias Jornalísticas: I República Portuguesa. O debate e análise será em torno da obra Pátria, de Guerra Junqueiro.

Mais uma iniciativa a acompanhar com todo o interesse, desenvolvida pela Hemeroteca Municipal de Lisboa, que entretanto continua no seu incansável labor de colocar online todo um conjunto de publicações úteis e importantes para se acompanhar a História de Portugal, disponibilizou agora a revista Sátira.

A.A.B.M.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

REVISITAR/DESCOBRIR GUERRA JUNQUEIRO


Foi recentemente apresentado, na Universidade Católica do Porto, através da sua Escola de Artes, Som e Imagem, um projecto dedicado a uma das figuras importantes no movimento republicano português: Abílio Guerra Junqueiro.

Como resultado do projecto foram apresentados dois livros, um CD duplo, um documentário, um concerto,um livro de entrevistas e uma fotobiografia. Foi um trabalho de uma equipa vasta, liderada por Henrique Manuel S. Pereira.

Outro aspecto visivel que fica deste trabalho são a página web e o blogue dedicado a conhecer melhor a personalidade do poeta e político que marcou a geração literária na transição do século XIX para o XX.

Realizamos uma visita a ambos os espaços. Na página, encontram-se um conjunto de secções iconográficas e biobibliograficas sobre o autor que merecem a melhor atenção dos nossos ledores. Por outro lado, o blogue faz eco dos eventos que têm vindo a ser realizados sobre Guerra Junqueiro, em especial a questão da musicalidade da sua poesia, onde colaboraram dezenas de cantores.

Um trabalho invulgar, aliando as novas tecnologias às formas de difusão de saber mais tradicional. Aguardaremos, agora, pelas obras publicadas para ajuizarmos melhor sobre o seu conteúdo e as novidades que nelas são apresentadas.

Estes trabalhos podem e devem suscitar outros projectos idênticos para outros autores e personalidades marcantes deste período entre o final da Monarquia Constitucional e o final da 1ª República. Sem dúvida uma ideia inovadora em Portugal, que deve ter continuidade e ser saudada pela pluralidade de meios que utilizou.


A.A.B.M.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

ULTIMATO INGLÊS (1890)


Os acontecimentos que conduziram ao Ultimato de 11 de Janeiro de 1890, têm raízes profundas e longínquas no tempo. Pelo menos desde o Congresso de Viena de 1815, onde Portugal viu consagrados os direitos históricos, por ter sido o primeiro a chegar àquelas paragens, que outras potências coloniais europeias cobiçavam os territórios portugueses em África. Porém, a fraca ocupação efectiva do imenso território africano levantava dificuldades que um país com a dimensão, o atraso e a falta de meios, condicionava de sobremaneira.

Durante muito tempo África esteve abandonada pelos europeus, só o desenvolvimento da industrialização obrigou as potências industrializadas a encontrar novos produtos, novas fontes de matérias-primas e potenciais mercados para colocação de excedentes. Assim, a partir da segunda metade do século XIX, alguns países europeus investem de facto na exploração do interior africano, conhecendo os povos, os produtos, os animais e realizam expedições sucessivas para ocupar o território. Surgem novas povoações e a cultura europeia penetra nas florestas e sanzala africana.

As expedições de Magyar (1849-57), Welwitsch (1853-60), Livingstone (1854-57), Bastian (1857), Andersson (Cubango, 1859), Cameron (Bié, 1873-76), Lux e Pogge (Lunda, 1875-76), Schütt (Lunda, 1878-79), Buchner (1879-81) e Wissmann (Lunda 1881-84), procuram garantir um melhor conhecimento do continente para as diferentes potências europeias. Perante estas investidas, que podiam fazer perigar a presença portuguesa na região também os portugueses enviam expedições de reconhecimento, onde se destacam Silva Porto (1853), Capelo e Ivens (1877-1880), António Maria Cardoso (1883), Capelo e Ivens (1884-1885), Henrique de Carvalho (1884-1885) e Serpa Pinto (1885-1886).

A crescente disputa dos territórios em África conduz à criação da Sociedade de Geografia de Lisboa (1876), fundada por homens como Luciano Cordeiro, João Cândido de Morais, Cândido de Figueiredo, Agostinho Lúcio da Silva e Rodrigo Afonso Pequito. Estes propunham-se desenvolver a exploração do continente africano, o que face aos problemas levantados na Conferência de Berlim (1884-1885), vão tentar desenhar o que ficou conhecido como Mapa Cor-de-Rosa.

A situação começa a ficar mais tensa com a acção de Serpa Pinto em Novembro de 1887, quando os ingleses se queixam formalmente de que Portugal, através das tropas de Serpa Pinto, atacava os Makocolos, etnia que os ingleses consideravam sob sua protecção. O representante inglês pede que não fosse permitido “às forças portuguesas qualquer ataque às estações britânicas do Niassa ou do Chire, nem ao país dos Makocolos, e além disso que não consentirá que ataquem Lubengula, ou qualquer outro território que se tenha declarado sob a protecção da Grã-Bretanha”. Portugal atrasa o mais possível a resposta a esta situação, respondendo só em Dezembro de 1889 através do ministro Barros Gomes, que se limita a apresentar a versão portuguesa dos factos. Perante esta atitude, o governo britânico responde com a seguinte missiva:

O Governo de Sua Majestade Britânica não pode aceitar, como satisfatórias ou suficientes, as seguranças dadas pelo Governo Português, tais como as interpreta.
O Cônsul interino de Sua Majestade em Moçambique telegrafou, citando o próprio major Serpa Pinto, que a expedição estava ainda ocupando o Chire, e que Katunga e outros lugares mais no território dos Makololos iam ser fortificados e receberiam guarnições. O que o Governo de Sua Majestade deseja e em que mais insiste é no seguinte:
Que se enviem ao governador de Moçambique instruções telegráficas imediatas para que todas e quaisquer forças militares portuguesas actualmente no Chire e nos países dos Makololos e Mashonas se retirem.
O Governo de Sua Majestade entende que, sem isto, as seguranças dadas pelo Governo Português são ilusórias.
Mr. Petre ver-se-á obrigado, à vista das suas instruções, a deixar imediatamente Lisboa, com todos os membros da sua legação, se uma resposta satisfatória à precedente intimação não for por ele recebida esta tarde; e o navio de Sua Majestade, Enchantress, está em Vigo esperando as suas ordens.
Legação Britânica, 11 de Janeiro de 1890.


Face a esta ameaça dos ingleses e reunido o Governo e o Conselho de Estado presidido pelo jovem monarca D. Carlos, decide-se responder ao Ultimato nestes termos:

Na presença duma ruptura iminente de relações com a Grã-Bretanha e de todas as consequências que dela poderiam talvez derivar, o Governo de S. M. resolveu ceder às exigências formuladas nos dois memorandos, a que alude, e, ressalvando por todas as formas os direitos da Coroa de Portugal às regiões africanas de que se trata; e bem assim, pelo direito que lhe confere o artº 12 do Acto Geral de Berlim, de ser resolvido definitivamente o assunto em litígio por uma mediação ou por uma arbitragem, o Governo de S. M. vai expedir para o Governador Geral de Moçambique as ordens exigidas pela Grã-Bretanha.

A cedência de Portugal aos interesses da Grã-Bretanha provoca um coro de protestos que percorre todo o território. Organizam-se manifestações por todo o lado, surgem comissões para angariar fundos e combater os ingleses, mas quem aproveita este acontecimento para conquistar maior visibilidade política são os republicanos. Basílio Teles considerou o Ultimato “o acontecimento mais considerável que, desde as invasões napoleónicas, abalou a sociedade portuguesa”, mais, afirmou: “este dia valeu séculos: este momento, à semelhança de outros que conhecemos da História, resumiu, na sua intensa brevidade, todo um passado doloroso, e esboçou, numa forma indecisa, o segredo dum futuro perturbante”. Por seu lado, Guerra Junqueiro, na sua obra Finis Patriae acusava: Ó cínica Inglaterra, ó bêbada impudente// Que tens levado, tu, ao negro e à escravidão?

O sentimento de instabilidade e insegurança instala-se, o governo progressista demite-se, substituído por outro regenerador. Surgem subscrições para tentar angariar fundos e adquirir navios de guerra, boicotam-se os produtos ingleses, surge A Portuguesa, que se vai tornar o hino da República, da autoria de Lopes de Mendonça e Alfredo Keil.

No Porto, Antero de Quental, Sampaio Bruno e Basílio Teles dirigem a Liga Patriótica do Norte. Em Lisboa, os militares fundam a Liga Liberal. Porém, Eça de Queirós, com a sua sagacidade observava:”bradar nas ruas contra a Inglaterra, elaborar manifestos, fundar comissões, agitar archotes, desfraldar bandeiras, abater tabuletas, não nos parecem na verdade os modos dum povo, que sob o impulso do patriotismo, se prepara para a regeneração: antes se nos afiguram os modos de um povo que, através do patriotismo se está educando para a insurreição”.

De facto, a agitação provocada pelo Ultimato tem poucos ou nenhuns efeitos práticos. Em Agosto desse ano, Portugal e Grã-Bretanha assinam um tratado onde Portugal cede os territórios do interior africano aos ingleses, satisfazendo os interesses de Cecil Rhodes, que alimentava o sonho de ligar a cidade do Cabo à cidade do Cairo, atravessando o continente negro. Por outro lado, conspirava-se cada vez com mais intensidade visando derrubar a Monarquia, o que viria a originar a revolta de 31 de Janeiro de 1891.

A.A.B.M.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

BANDEIRA DE PORTUGAL - GUERRA JUNQUEIRO


Projecto de Bandeira de Portugal, por Guerra Junqueiro, após o 5 de Outubro de 1910, e em que o azul e branco era decisivo.

J.M.M.

sábado, 11 de novembro de 2006

GUERRA JUNQUEIRO E OS HUMILDES



"Junqueiro estava estendido no caixão, com o fatinho preto coçado. Silêncio, sombras ... A fisionomia do poeta afilara e adquirira uma grande expressão de serenidade. Até as mãos se lhe tinham espiritualizado, brancas e esguias, quase diáfanas. A seu lado uma sombra maior que as outras conservava-se de pé imóvel junto do ataúde. Era a Ana de Freixo de Espada-à-Cinta, a criada que nos últimos tempos o vestia e despia, e que com uma manta negra pela cabeça, caindo em pregas rígidas, parecia uma velha figura de retábulo...

Reparei mais atentamente: aquela sombra empedernida chorava ... E lembrei-me logo dos humildes que o Poeta criou, dos cavadores, dos pastores, das mulheres de Barca de Alva parindo filhos para a desgraça e para a dor, das pobres criaturas em que falava tantas vezes, da gente simples que o não lia, da legião formidável da terra que, por uma intuição cheia de grandeza, lhe chamava sempre o Senhor Poeta"

[Raul Brandão, jornal O Mundo de 14 Julho de 1923, aliás in Seara Nova, nº 1457, Março 1967]

J.M.M.