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sábado, 29 de junho de 2019

NO CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE RAMON MACHADO DE LA FERIA (1919-2003)





Ramon Machado de La Feria nasceu na freguesia de São Salvador, concelho de Serpa a 27 de Junho de 1919. Era filho de Helena da Ascensão do Prado Machado e do médico republicano e ilustre maçon Ramon Nonato de La Feria 


[nascido a 18 de Julho de 1886, em Serpa – cf A.H.de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria, vol. 1, p. 563; bacharel em medicina e republicano militante do partido Unionista, de Brito Camacho; é ele que anuncia a boa-nova da implantação da Republica ao povo de Serpa; combateu em França na I Grande Guerra e foi um íntegro combatente contra o Estado Novo, foi preso por diversas ocasiões (na sequência da revolta da Madeira; entre 1937-1939, curiosamente acusado de integrar a maçonaria - Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 29, registo nº 5776), presidiu (1925) à direcção do Grémio Alentejano; pertenceu ao MUD e esteve sempre presente nos diversos combates eleitorais; Ramon Nonato de La Feria foi iniciado na Maçonaria com o n.s. de Claude Bernard, em 1914, na Loja Cândido dos Reis, onde teve diversos cargos, entre eles de Venerável; pertenceu ao Supremo Conselho do grau 33 do REAA, tendo sido eleito Presidente do Conselho da Ordem para o período de 1927-29 e 1930, demitindo-se, neste ano, a 12 de Setembro; integrou, em 1930, a Comissão de Estudos Profanos do GOLU, que presidiu – cf. António Ventura, Uma História da Maçonaria em Portugal, p, 698, 736; integra, em 31 de Março de 1935, o Conselho da Ordem, então presidido por Maurício Costa, mantendo-se no cargo até ao 25 de Abril de 1974; morre a 10 de Novembro de 1970, em Lisboa]


Frequenta os seus estudos liceais no Liceu Camões (em Lisboa), cursou medicina na Universidade de Lisboa (no Campo Santana), ingressando na carreira médica com a especialidade em Anestesiologia Cardíaca. Chefe de clínica, foi desde 1960 responsável pelos Serviços de Anestesiologia e Reanimação do Hospital Pulido Valente. Teve copiosos trabalhos de investigação publicados e diversos cargos na Ordem dos Médicos  e da Liga dos Direitos do Homem


Como estudante universitário foi preso a 28 de Março de 1947, por mandado de captura do inspector da PIDE, capitão José Catela, e enviado para a cadeia do Aljube. Tinha-lhe sido atribuído o crime de ter assinado em nome da direcção universitária de Lisboa do MUD Juvenil (como outros seus companheiros: José Carlos Gonçalves, Fernando Pulido Valente, Joaquim Ângelo C. Rodrigues e Carlos Gomes) e distribuído, um panfleto ciclostilado intitulado “Em defesa da Universidade” e onde se verbera a iníqua detenção do estudante da Faculdade de Ciências (e também membro do MUD Juvenil – organização ilegal e clandestina para a PIDE) Mário Ruivo. Teve como seu defensor em Tribunal Plenário, o advogado João Manuel da Palma Carlos. Cumpriu pena de prisão em Caxias, com perda de direitos políticos por cinco anos.    




Isto é, desde a primeira hora que Ramon Machado de La Feria marcou a sua posição contra o salazarismo e o Estado Novo. Republicano assumido, pertenceu à direcção do MUD Juvenil e integra ao longo da sua vida diversos centros republicanos, assumindo mesmo a Presidência da Comissão Permanente das Assembleias Gerais dos Centros Republicanos de Lisboa, “procedendo à reestruturação das instituições [republicanas] que chegaram até ao 25 de Abril” – cf. António Valdemar, República, 10 de Dezembro de 2003, p. 8. -, presidindo às Comissões Cívicas da Comemoração do 5 de Outubro até à sua morte. 


Em 1952, estando a cumprir o serviço militar como oficial miliciano, foi de novo detido pela PIDE (no Aljube e Caxias, durante 2 meses e meio) por “envolvimento num movimento de oficiais milicianos ligados a Henrique Galvão” [António Valdemar, ibidem] contra Salazar. Em 1968 é de novo preso no Aljube e em Caxias, acusado de ser um dos responsáveis da tentativa de derrube do regime, com apoio de um grupo de militares. Já em 1973, enquanto presidente da Ordem dos Médicos, Ramon Machado de La Feria é preso por ter denunciado em público a intervenção da PIDE no assassínio do estudante do MRPP, Ribeiro dos Santos. Depois de Abril de 1974, integra o MDP/CDE e depois filia-se no PS.  


Em Fevereiro de 1973, seguindo os passos do seu ilustre pai, inicia-se na Maçonaria com o n.s. de Marat, na Loja Simpatia e União [A Loja Simpatia e União, foi das poucas oficinas que não abateram colunas; tinha em Abril de 1974 cerca de trinta e seis obreiros – ver Casa 4. A Loja dos Grão-Mestres Sympathia e União 1859-2009, p. 108], por proposta do então Grão-Mestre Luís Hernâni Dias Amado [n.s. Zacuto Lusitano]. Pertenceu, em 1975, à Loja Cândido dos Reis (ver Manuel Poirier Braz, Eu Maçon me Confesso, p. 38 e ss; foi nesta loja que o seu pai tinha sido iniciado), tendo sido nomeado Grande Secretário das Relações de Justiça do Conselho da Ordem, depois Presidente do Conselho da Ordem Interino (1975 e 1976); atinge o grau 18 (cavaleiro Rosa-Cruz) em 1975, o grau 25, em 1977, grau 30, em 1979 e o grau 33, em 1980, com um curioso trabalho “Maçonaria - Sociedade Iniciática”, integrando o Supremo Conselho do Grau 33 do REAA. Em 1987 pertence ao quadro da Loja José Estêvão. Com um notável curriculum maçónico, é eleito como Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano para o período entre 1990 a 1993, tendo como Adjuntos António [Maria Lobo de Vasconcelos] Corte-Real e Mário de Sousa Dias. Data desse período uma “grave querela” que opõe o REAA e o RF. 


Foi associado do Internato de S. João, integrando por diversas vezes a sua direção, foi sócio da Escola-Oficina nº1, presidiu à Mesa da Assembleia Geral do Centro Republicano Almirante Reis, do Centro Republicano Fernão Botto-Machado, do Centro Republicano da Ajuda e foi membro da Comissão de Romagem aos Heróis de 5 de Outubro (Cemitério do Alto de S. João). A 25 de Julho de 1989 foi feito Comendador da Ordem da Liberdade.   


Morre vítima de doença prolongada a 25 de Maio de 2003


J.M.M.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

SEBASTIÃO MAGALHÃES LIMA - O SEU TESTAMENTO

 
 
 
 
 
in Boletim Oficial do Grande Oriente Lusitano Unido
Supremo Conselho da Maçonaria Portuguesa,
Suplemento ao nº 12, 31 de Dezembro de 1928
 
J.M.M.

sábado, 3 de outubro de 2015

RELAÇÕES ENTRE SUPREMOS CONSELHOS DO RITO ESCOCÊS E OBEDIÊNCIAS MAÇÓNICAS EM PORTUGAL (1840-1993)



LIVRO: Relações entre Supremos Conselhos do Rito Escocês e Obediências Maçónicas em Portugal (1840-1993);

AUTOR: Fernando Marques da Costa;
EDIÇÃO: Supremo Conselho do R.E.A.A. para Portugal e sua Jurisdição, 2015, 269 pp [trata-se da obra nº1 da série, agora iniciada, “Cadernos do Supremo Conselho”]

“ […] Há urna ideia difundida na historiografia portuguesa sobre o tema da maçonaria, seja a feita por curiosos, seja a feita por académicos, de remeter as dissensões nas organizações para questões pessoais ou políticas. É impossível negar o mérito dessa interpretação, sublinhada, aparentemente, pelo profundo envolvimento político que esta teve durante algumas décadas da sua história, designadamente no período da implantação do liberalismo até à sua consolidação na década de 50 do século XIX, ou no da República, grosso modo entre 1900 e o início da ditadura militar de 1926. Porém, essa interpretação, ao valorizar o carácter de intervenção política que a maçonaria teve nesses períodos, ignora ou, pelo menos, subvaloriza a sua componente institucional enquanto organização dotada de características próprias de funcionamento e dogmática constitutiva, remetendo usualmente estas para a categoria de pretextos invocados para disfarçar a outra interpretação.

Será isso inteiramente verdade? Não creio. Muita historiografia aponta para uma aproximação - não arrisco similitude - entre determinado posicionamento social e político e determinado entendimento da maçonaria como organização, quer do ponto de vista do seu funcionamento institucional, ritual e simbólico, quer do ponto de vista da sua inserção na sociedade. Tendeu-se a arrumar as dissensões entre «conservadores» e «progressistas», sobretudo entre a segunda metade do século XIX e o primeiro quartel do século XX. Sem querer debater o valor intrínseco desses qualificativos quando aplicados à esfera política, julgo essencial reflectir sobre a sua operacionalidade enquanto critérios de análise das perspectivas do que era e do que se achava que devia ser a maçonaria nessas décadas […]

A visão hegemónica da história da maçonaria em Portugal constrói o seu modelo interpretativo à luz do período republicano e da forma como este olhou para o seu passado. As longas décadas de ditadura transformaram esse período em paradigma e bitola aferidora do que deve ser a maçonaria. Não há nisso nada de extraordinário. Porventura não se apelidou, durante tanto tempo, a l." República de «democrática», quando ela praticou o sistema eleitoral mais restritivo de que há memória no constitucionalismo português? É tempo de poder olhar para o passado e dizer, com igual rigor e idêntica isenção, sem complexos, sem querer qualificar uns de «progressistas» e outros de «conservadores»: que feito notável! Ou, que erro grosseiro! De ambos foi feita a história da maçonaria.

São os historiadores que «definem» o que foi o passado. Por isso, não há apenas «um passado», mas vários, tantos quantos a diversidade interpretativa dos historiadores que, de forma sequencial, vão fazendo novas «sínteses», forma académica e polida de dizer que enterram as interpretações anteriores e legitimam a sua, baseando-a na descoberta de documentação inédita ou de novos modelos teóricos interpretativos. Nada de mal nisso tudo. O intróito só serve para lembrar que a história da maçonaria não deve fugir a essa regra. Frequentemente, porém, recorre-se apenas à abundante literatura maçónica do século XIX e início do XX, que, de forma mais ou menos mitificada, justapôs aos factos que narrava as opções entre as querelas pessoais ou dogmáticas que assolaram a maçonaria durante esse período e em que o narrador estava envolvido. Historiografia feita com metodologia e ferramentas de interpretação académicas multidisciplinares é uma coisa recente, que se afirmou lá fora com consistência e resultados credíveis a partir da década de 80, com honrosas excepções anteriores, naturalmente […]

Assim, este texto, sendo apenas uma nota sobre uma complexa relação entre duas organizações maçónicas, sofre da treva de investigação que ainda domina o contexto mais vasto do conhecimento da história da maçonaria da segunda metade do século XIX em diante, em que se insere.

O seu objecto é o estudo das relações entre os Supremos Conselhos do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito (doravante Supremo Conselho), como câmaras superiores de administração desse Rito, e as diversas organizações com quem se relacionaram desde 1840, designadamente o Grande Oriente Lusitano, a Confederação Maçónica, o Grande Oriente de Portugal, o Grande Oriente Português e o Grande Oriente Lusitano Unido (doravante Grande Oriente)." Embora mandasse o rigor conceptual que aos últimos se aplicasse a designação de «Obediências Maçónicas» e àqueles o de «Potências Maçónicas» - isto é, organizações que só recrutam para os Altos Graus entre membros de uma Obediência - a verdade é que no passado os dois conceitos foram aplicados com alguma liberalidade, confundindo o seu significado, ou ignorando-o mesmo […]”

inIntrodução”, pp 11-15 [sublinhados nossos]

J.M.M.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

JOAQUIM MARIA DE OLIVEIRA SIMÕES (1880-1946)


JOAQUIM MARIA DE OLIVEIRA SIMÕES nasceu a 13 de Abril de 1880 em Salreu (Estarreja, Aveiro), filho de Francisco Maria Simões
[no inicio do século XX, em 1914, Francisco Maria Simões é proprietário do palacete, de Arte Nova, no Largo da Igreja de Salreu, construído sob projecto do arquitecto Ernesto Korrodi - de origem suíça mas naturalizado português e que deixou importantes obras arquitectónicas; Korrodi foi maçon, tendo sido iniciado na Loja “Trindade Leitão, nº 297, de Alcobaça, com o n.s. de Helvécio, passando para a Loja Gomes Freire, de Leiria (onde foi Venerável), terra onde veio a falecer em 1944 - o mesmo arquitecto que projectou a Casa–Museu Egas Moniz, em Avanca, construção de 1915],
de profissão negociante, e de Ana Rosa de Oliveira Rodrigues.
 
Palacete de Francisco Maria Simões, em Salreu
Em Coimbra, na Universidade, é bacharel em Filosofia e Matemática [cf. A.H.de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria Portuguesa, vol II, col. 1352], seguindo a carreira militar, onde atinge o posto de coronel de infantaria, com o curso do Estado Maior. Foi um oficial dos mais “distintos”, com várias comissões de serviço público, tendo sido chefe de gabinete do Ministro da Guerra, em diversos governos. Esteve presente no CEP, em França, entre 1917-1919.
Foi eleito deputado pelo círculo de Aveiro [esteve na fundação do Centro Republicano Português de Salreu, participando na redação dos Estatutos - juntamente com Alberto Ferreira Vidal -, que foram aprovados a 15 de Junho de 1913. Refira-se que tinha o Centro uma Delegacia em Lisboa], nas eleições legislativas de 8 de Novembro de 1925, como democrático independente [foram eleitos, então, pelo círculo de Aveiro, além de Oliveira Simões (6365 votos), o Conde de Águeda (Cauda Monárquica, com 6153 votos), Alberto Vidal (Partido Democrático, com 5793 votos) e Manuel Alegre]. Foi nomeado Comendador em 1926, sendo agraciado com a Ordem de Torre e Espada.
Na construção do monumento ao Marquês de Pombal, Oliveira Simões teve lugar proeminente, fazendo parte da Comissão Executiva do Monumento [com Estevão da Silva, Custódio José Vieira e José Pedro Moreira], integrou a romagem ao túmulo do Marquês, realizada a 10 de Maio de 1933 [sobre o Monumento ao Marquês de Pombal, ver AQUI] e esteve presente [com Norton de Matos e outros] na inauguração do monumento a 13 de Maio de 1934 [dia que foi a última grande manifestação pública do GOL, Maçonaria Portuguesa, antes do decreto da sua proibição, datado de 25 de Maio de 1931]. Deixou algumas palavras [ver Diário de Lisboa, 27 de Fevereiro de 1934, p. 5] sobre o Monumento ao Marquês de Pombal, num curioso artigo, onde além de fazer a história do monumento, debate e insurge-se contra as acusações feitas de “atentado á estética” e outras mais críticas, entre as quais a existência de um erro de proporção entre a figura do Marquês e o leão.   
Joaquim Maria de Oliveira Simões foi iniciado na Maçonaria, em 1921, na Loja Liberdade, nº 197 do REAA, instalada em Lisboa [a Loja, fundada em 1896, seguiu em 1914 o Supremo Conselho de Grau 33, ou Grémio Luso-Escocês, regressando à Obediência em 1920], com o n.s. de José Estevão. Em 1928 atingiu o Grau 33 [cf. Oliveira Marques, ibidem] , desempenhando ao longo do tempo cargos relevantes no Grande Oriente Lusitano: pertenceu ao Grande Tribunal Maçónico e foi Grão-Mestre Adjunto (em exercício) entre 1928-30.
De facto, com a morte de Magalhães Lima (7 de Dezembro de 1928) sucedeu-lhe, por eleição no Grão-Mestrado, António José de Almeida, tendo como Adjunto, o coronel Oliveira Simões [eleição validada pelo presidente da Grande Dieta, António Augusto Curson, o dia 18 de Maio de 1928 – cf. António Ventura, “Maçonaria em Portugal”, p. 670]. No pedido de dispensa de António José de Almeida do cargo, dado se encontrar muito debilitado pela doença (morre a 31 de Outubro de 1929), os corpos gerentes do GOL dão posse [20 de Maio de 1929] ao coronel Oliveira Simões, ficando com o cargo de assegurar a direcção a Ordem. Na noite de 16 de Abril de 1929, quando o Grão-mestre Adjunto Oliveira Simões se preparava para dar uma conferência no Grémio Lusitano, em substituição do Grão-mestre Norton de Matos, o palácio maçónico é assaltado pela polícia e a GNR, a soldo da ditadura militar, sendo presos e identificados todos os maçons, dando-se início á “grande perseguição” [cf. Oliveira Marques, “A Maçonaria Portuguesa e o Estado Novo”, 2ª ed. 1983, p. 59]. A 1 de Julho desse ano, o coronel Oliveira Simões, na qualidade de Grão-mestre Adjunto dirige uma mensagem ao povo maçónico.  
 

O Palácio Maçónico ficou encerrado entre Maio e Março de 1930, tendo o Conselho da Ordem do GOL, sob presidência de José da Costa Pina [acompanhado por Inácio Pedro Quintela Emauz, Augusto de Matos Cid, Adolfo Jaime Sampaio da Luz e João Nunes dos Santos – cf. António Ventura, op. cit, p. 671], “determinado a triangulação imediata de todas as lojas” [Circular nº1, de 11 de Junho de 1929]. No dia 31 de Dezembro de 1929 a Maçonaria portuguesa elegia como Grão-mestre o general Norton de Matos, tendo como Grão-mestre Adjunto o coronel Oliveira Simões. Com Norton de Matos, ausente do país por motivos políticos [regressa em Agosto de 1932], a direcção do GOL coube inteiramente a Oliveira Simões e ao Conselho da Ordem. 
Na sequência da Lei nº1901 sobre as “Sociedades Secretas”, promovido pelo deputado monárquico e integralista José Cabral, no dia 4 de Abril de 1935, “antecipando-se à aprovação pela Assembleia [Nacional] do projecto, o Grão-Mestre Norton de Matos transmitia todos os seus poderes e funções ao Grão-Mestre Adjunto, Oliveira Simões” [cf. Oliveira Marques, ibidem]. No dia 18 de Maio, desse ano, é a vez do Grão-Meste Adjunto [ibidem, p. 62] “transferir todos as sua funções e poderes ao presidente da Grande Dieta [António Augusto Curson] que por seu turno, no dia imediato, os transmitia ao Conselho da Ordem, presidido pelo dr. Maurício Costa” [com a morte deste a 19 de Maio de 1937, passou a exercer a direcção do GOL, na qualidade de presidente do Conselho da Ordem, o dr. Luís Gonçalves Rebordão, deste o dia 12 de Junho, desse ano, até ao 25 de Abril de 1974]. Por sua vez, trianguladas as Lojas, o Conselho da Ordem confere [Decreto nº36] ao seu presidente “a plenitude dos poderes legislativo, executivo e judicial”, possibilitando a “operacionalidade da ordem em regime clandestino” [ibidem].
Joaquim Maria de Oliveira Simões viria a falecer, em Lisboa, na Rua D. Estefânia, nº 21, 1º andar (Arroios) a 24 de Maio de 1946. Era casado com Gracinda Lopes dos Santos Simões. O seu funeral foi acompanhado até ao cemitério do Alto de S. João por muitos cidadãos, amigos e correligionários, antigos deputados, oficiais de Exercito e da Armada, fazendo-se representar a Liga dos Combatentes da Grande Guerra por um grupo expressivo de companheiros de armas. O seu corpo ficou sepultado no talhão dos antigos combatentes da Grande Guerra [cf. Diário de Lisboa, 25/05/1946]
FOTO (no alto) via Junta de Freguesia de Salreu (Facebook), com a devida vénia

J.M.M.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

MAÇONARIA EM TORRES VEDRAS (1898-1911)


Nos próximos dias 5, 12 e 19 de Abril, há lugar ao lançamento de um conjunto de livros de importância republicana e maçónica, relacionados com o concelho de Torres Vedras, escritos por Jorge Paulino Pereira.

Trata-se de 4 copiosas obras, compreendendo o período entre 1898 e 1911, de autoria de Jorge Paulino Pereira, com uma invulgar e vasta documentação para o amador estudioso da organização republicana, carbonária e maçónica em Torres Vedras. Apresenta, curiosamente, um conjunto apreciável de dados biográficos maçónicos sobre os obreiros desse Vale, quadros e anexos sobre as Oficinas e as Associações civis e culturais, elementos bem curiosos sobre a carbonária local e nacional, num estudo sério e muito estimado.

LANÇAMENTOS/PALESTRAS:

 

LOCAL: Câmara Municipal de Torres Vedras (Edifício dos Paços do Concelho) 
 
* LIVRO: Maçons de Torres Vedras (1898-1911) Grande Oriente Lusitano Unido.
 
 


DIA: 5 de Abril 2013 (18,30 horas);
LIVRO: “A Maçonaria Portuguesa em Torres Vedras. Dos Inícios do Século 19 até 1910”, Ed. Santa Cruz dos Templários, 301 pags.
 
DIA: 12 de Abril 2013 (18,30 horas);
LIVRO: “O Final da Monarquia. O Organização revolucionária da Maçonaria e da Carbonária de Torres Vedras (1898-1908)”, Ed. Santa Cruz dos Templários, 353 pags.
 
DIA: 19 de Abril 2013 (18,30 horas);
LIVRO: “Rumo à República. A vitória da Maçonaria e da Carbonária de Torres Vedras (1909-1910)”, Ed. Santa Cruz dos Templários, 375 pags.
 
J.M.M.

sábado, 26 de janeiro de 2013

LUÍS ERNÂNI DIAS AMADO (Parte III)


Colaborou no Congresso dos Anatomistas em 1933 e no Congresso de Anatomia, realizado em Lisboa em 1941.

A propósito da publicação da sua obra Organização da Matéria Viva foi organizado um relatório pelo Secretariado de Propaganda Nacional, de Maio de 1942 (Relatório nº 1764), devido à censura exercida sobre este título.

Por decreto de 18 de Junho de 1947 foi afastado do serviço de assistente na Faculdade de Medicina por motivos políticos.

Trabalhou também, ainda que oficiosamente, no Instituto Português de Oncologia, onde publicou alguns trabalhos.

Em 1957, era membro do Movimento Nacional de Defesa da Paz e da Comissão Cívica Eleitoral e foi um dos signatários da exposição enviada ao Presidente da República, no dia 1 de Outubro, explicando os motivos pelos quais a oposição não se apresentava a sufrágio. No ano seguinte, foi escolhido para a Comissão Nacional Pró-Candidatura do Eng. Cunha Leal à Presidência da República, candidatura que não vingou. Fez depois parte da comissão central dos serviços de candidatura do general Humberto Delgado à Presidência da República. Foi presidente da Comissão Administrativa da Liga dos Direitos do Homem (1950) e, em 1961, foi um dos subscritores do Programa para a Democratização da República, pelo que foi preso durante alguns dias. Ainda nesse ano foi candidato a deputado pela oposição pelo círculo de Lisboa em 1961, juntamente com João Maria Paulo Varela Gomes, Nikias Ribeiro Skapinakis, Augusto Casimiro dos Santos e Agostinho de Sá Vieira, entre outros.

A 2 de Janeiro de 1960 é reactivada a Liga Portuguesa dos Direitos do Homem, que se filia na Fedération Internationale des Droits de L’Homme. Em Maio desse ano assume a presidência deste grupo para-maçónico Luís Ernâni Dias Amado.

Voltaria a ser preso, em Dezembro de 1963, acusado de «actividades contra a segurança do Estado», por pertencer às Juntas de Acção Patriótica, tendo sido julgado em Outubro do ano seguinte e absolvido.

Até o jornal Avante, órgão oficial do Partido Comunista Português, que se publicava clandestinamente (nº 334, Janeiro de 1964) assinalava no seu artigo "Abaixo a Repressão" (p. 4, col. 2-3) a acção repressiva do governo salazarista que tinha detido nessa mesma altura entre outros: Mário Cal Brandão, Urbano Tavares Rodrigues, Manuel de Oliveira (realizador de cinema), Jaime Moreira, Pedro Alvim, Manuel Durão, entre muitos outros.
Foi um dos fundadores a Acção Socialista Portuguesa.

Em Fevereiro de 1969 foi um dos subscritores da Exposição da Comissão Promotora do Voto, juntamente com Luís Filipe Lindley Cintra, Henrique de Barros, Gustavo Soromenho, Francisco Lino Neto, Nuno Teotónio Pereira, José de Magalhães Godinho, Rui Grácio, Virgílio Ferreira, Maria Keil Amaral, Álvaro Salema, Fernando Namora, Alberto FerreiraMário Sottomayor Cardia, José Vasconcelos Abreu, João Bénard da Costa, Gonçalo Ribeiro Teles, António Ribeiro Reis, José Gomes Ferreira, José Carlos Serras Gago, Jaime José Matos da Gama, José Luís do Amaral Nunes, José Guimarães, António Galhordas, Nuno Brederode Santos, Nuno Portas, Joel Serrão, Alfredo Barroso, Joaquim Mestre, Francisco Pereira de Moura, Maria Joana de Meneses Lopes, Cascão de Anciães, José Pinto Correia, António Alçada Baptista, José Pinheiro Lopes de Almeida, Eugénio Augusto Marques da Mota, Emídio Santana e Fernando Veiga de Oliveira.

Foi um dos autores da exposição que deu entrada na Assembleia Nacional em 1971 visando a reclamação de um conjunto de liberdades e direitos fundamentais, entre o direito à resistência à violência e ao arbítrio, procurando impedir as situações de deportação ou exílio e limitar as prisões a um período máximo de 24 horas e não por tempo indefinido, como na prática acabava por acontecer.

Em 1973, é um dos subscritores do manifesto "A Nação", onde se insurge contra os falsos sinais de liberalização introduzidos pelo governo de Marcelo Caetano.

Após o 25 de Abril de 1974 foi reintegrado na Universidade simbolicamente como professor catedrático.

Foi iniciado na Loja Madrugada em 1928. Adoptou inicialmente o nome simbólico de Garcia de Orta, e, mais tarde, por motivos de segurança, devido à vigilância e à proibição das sociedades secretas e consequente ilegalização da Maçonaria adoptou o nome simbólico de Zacuto Lusitano. Segundo se consegue saber é dos poucos casos em que tal circunstância foi permitida. Em 1931 atingiu o 7º RF e tornou-se venerável da Loja Madrugada (1931-35). Foi Vice-Pres. Cons. Ordem (1945?-1957) e Grande Secretário das Relações de Justiça (1937-1951). Desempenhou depois, durante a clandestinidade, as funções de Grão-Mestre Adjunto (1957-1974). Depois da renúncia de Luís Gonçalves Rebordão, assumiu de forma interina foi Presidente do Conselho da Ordem (1957-1974) e, mais tarde, Grão-Mestre interino, depois definitivo (1974-81). Segundo o Prof. Oliveira Marques, foi um dos grandes responsáveis pela manutenção da actividade maçónica durante a clandestinidade e desempenhou papel de destaque na reorganização após Abril de 1974.

Um elemento curioso, que deve ser pouco conhecido da maioria dos que conhecem a sua vida, é que sendo ele filho de Luís Dias Amado, farmacêutico com algum sucesso, natural de Portimão e que se radicou em Lisboa, onde desenvolveu a sua actividade profissional. A razão do sucesso deste residiu na criação/invenção, do Depurativo Dias Amado que era preparado na Farmácia Ultramarina, situada na Rua de S. Paulo, nº 99, em Lisboa. Este medicamento acabou por obter reconhecimento do Rei D. Carlos, que concedeu a Luís Dias Amado o título de Visconde de Santa Isabel e que, por direito, devia ser transmitido a Luís Ernâni Dias Amado. Porém, como este era republicano acabou por nunca usar o título e passou-o para seu irmão, Luís Osvaldo Dias Amado, monárquico convicto e também ele médico, que acabou por se dedicar à indústria cinematográfica em Espanha.

Fez parte do Directório Democrático e Social que tinha como líder o Prof. Azevedo Gomes.

Na sua actividade profissional, foi chefe dos Serviços de Análise Clínica dos Hospitais Civis de Lisboa. Conferencista e articulista, com colaboração em diversos jornais e revistas.
Pertenceu à Sociedade Portuguesa de Anatomia; Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais; Sociedade Portuguesa de Biologia; Universidade Popular Portuguesa.
Em plena sessão parlamentar de 22 de Janeiro de 1981, o então deputado José Luís Nunes, formula os seus votos de pesar e recordava:
Combatente antifascista, grande professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, demitido pelo Governo Salazar, fiel aos princípios de liberdade do espírito, da razão, do racionalismo, do livre exame, da filosofia das luzes, grão-mestre da maçonaria é uma grande perda para o nosso país, para todos nós, para todos os antifascistas portugueses, para todos os democratas e para todos aqueles para quem a tolerância, o diálogo de ideias, a compreensão humana e os direitos do homem não são uma palavra vã.
Foi graças a homens como o Prof. Luís Hernâni Dias Amado que nós hoje podemos estar aqui presentes; foi graças a homens como o Prof. Luís Hernâni Dias Amado, que depois de 28 Maio de 1926 souberam manter no mais alto grau a luta cultural pela tolerância e pelos direitos do homem, que não caímos numa ditadura totalitária de sinal contrário; foi graças a homens como o Prof. Luís Hernâni Dias Amado que se apostou, desejou e conseguiu lutar pela construção de um mundo novo, pela construção de uma ideia nova e pela construção de uma cidade nova, que hoje nos encontramos também aqui a construir uma cidade nova, um mundo novo para Portugal.
O Prof. Luís Hernâni Dias Amado não pertence a nenhum partido político porque a sua mensagem espiritual vai para além daquilo que possa ficar em cada um dos partidos políticos. Creio que toda a sua vida política, toda a sua vida profissional, todo o exemplo que foi para todos nós se pode encerrar numa palavra: defesa dos direitos do homem, tolerância, respeito pela diversidade, dentro daquele célebre princípio enunciado por Saint-Exupéry, que dizia "Irmão, se diferes de mim, não me empobreces, antes me enriqueces." São estas as palavras que creio era dever de todos nós dizer nesta Assembleia. E porque Luís Hernâni Dias Amado nunca foi bandeira de qualquer partido político, ouso pedir a esta Assembleia que aprove um voto de profundo pesar pela sua morte e que guarde um minuto de silêncio por aquele que foi o Prof. Doutor Luís Hernâni Dias Amado, cuja memória, comovidamente, hoje evocamos.
Todos os outros grupos parlamentares acompanharam este deputado na sua evocação a que se seguiu um minuto de silêncio.

Publicações de índole científica:
- Contribuição para o estudo das células de Nicolas;
- Sur l'existance de cellules argentaffines dans le tissu conjuntiv des villosités intestinales;
- Sur la signification des cellules de Nicolas;
- Un processus de regéneration de l'epithelium intestinal;
- L'élimination du rouge neutre par l'estomac;
- Micoses do aparelho respiratório;
- Exame Laboratorial das discrasias sanguíneas;
- Organização da Matéria Viva,1942;
- Argentofilia e Argentafinidade, 1944;
- Étude du noyau des cellules argentofiles de l'intestin du Cobaye, et ses relations avec ceux des autres cellules de l'epithelion intestinel;
- L'injection souscutanné d'hydroquinne (étude citologique);
- Mácula Densa - Estudo Citológico, 1943;
- Tumores Carcinóides do Apêndice, 1944;
- A Organização Fundamental dos Seres Vivos, 1944;
- Mecanismos Reguladores da Secreção Renal, 1944;
- Images Citologiques obtenues par des Injections souscutanées d' Hydroquinone, 1944;
- Les Élements Argentophiles de la Parathyroidée (colab. Carlos Correia), 1944;
- L'Étude du Noyau des Céllules Argentaffines, 1945;
- Breves Considerações sobre um caso de Quistadenoma Pseudomuscoso do Ovário, 1945;
- Les Amas Céllulaires de Beches du Rein de Herisson, 1945;
- Aspectos Morfológicos e Fisiológicos da Circulação dos Ossos Fetais do Coelho (colab. Augusto Lamas e Celestino da Costa), 1946;
- L'Épithelium Placentaire du Cobaye, 1947;
- Colheita dos Produtos e Interpretação dos dados das Análise Clínicas, 1948;
- O Exame Funcional do Intestino pela Análise Coprológica, 1949;
- Doseamento fraccionado das Proteínas, 1950;
- O Prof. Egas Moniz e a investigação científica, 1950;
- Bioquímica do Terreno Canceroso, 1951;
- Morfologia e Histoquímica Placentária e suas relações com o cancro, 1951;
- O Adenograma normal e Patológico, 1951;
- Cancro e Hereditariedade, 1952;
- O Laboratório nas alterações funcionais da Tiroideia, 1953;
- Actualização dos Nossos Conhecimentos sobre  a Substância Fundamental, 1953;
- Vitaminas e Avitaminosas, 1953;
- Diagnóstico Laboratorial em Endicrinologia, 1954;
- A Irrigação dos Ossos, 1954;
- Laboratório e Clínica, 1956;
- Enciclopédia Médico-Cirúrgica Luso-Brasileira, 1960;
- Líquidos Orgânicos: Metabolismo da Água, Electrólitos e Ácido-Base, 1968;
- Reografia Intracardíaca: fundamentos teóricos e experimentais e algumas das suas contribuições hemodinâmicas, Lisboa, 1980.
- Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira;

Colaborações na Imprensa:
- O Diabo;
- Globo;
-Técnica;

O médico e combatente antifascista faleceu em Lisboa, a 22 de Janeiro de 1981. Para ver alguns depoimentos sobre o biografado ver o que se dizia nas páginas do jornal A Capital de 23 de Janeiro de 1981 AQUI.

Bibliografia consultada:
- GODINHO, José de Magalhães, "Dias Amado, uma vida ao serviço da liberdade", Diário de Lisboa, Lisboa, 27-11-1980, p. 3 e p. 22.
- LEMOS, Mário Matos, Candidatos da Oposição à Assembleia Nacional do Estado Novo (1945-1973). Um Dicionário, Col. Parlamento, Lisboa, Assembleia da República/Texto Editores, 2009, p. 101;
- MARQUES, A. H. de Oliveira, Dicionário de Maçonaria Portuguesa, vol. I, Lisboa, Editorial Delta, 1986, col. 56-57;
- MATEUS, Luís Manuel, Franco-Mações Ilustres nas Ruas de Lisboa, Biblioteca-Museu República e Resistência, Lisboa, 2003, p. 47;
- GEPB, vol. 8, Editorial Enciclopédia, Lisboa/Rio de Janeiro, s. d., p. 943;
- GEPB, vol. 39, Editorial Enciclopédia, Lisboa/Rio de Janeiro, s. d., p. 477-478;
- Rosas, Fernando; BRITO, José Maria Brandão de (direcção). Dicionário de História do Estado Novo. Venda Nova: Bertrand Editora, 1996. 2 vol. vol. I, pgs 41-42 (sv Luís Hernâni Dias Amado, por Luís Farinha)

[NOTA IMPORTANTE: A data do falecimento do Prof. Luís Ernâni Dias Amado surge em alguns locais publicada com lapsos. Alguns apontam 1 de Janeiro de 1981, e outros referem Junho de 1981, outros apontam o ano de 1991. A referência que apresentamos é segura porque a confrontamos com a imprensa da época que nos dá conta do infausto acontecimento, bem como o excerto da citação do Diário da Assembleia da República onde se homengeia o combatente da Liberdade e pela Democracia.]

A.A.B.M.

sábado, 5 de janeiro de 2013

BANQUETE MAÇÓNICO EM HONRA DE MAGALHÃES LIMA


BANQUETE MAÇÓNICO EM HONRA A MAGALHÃES LIMA [Grão-Mestre do G.O.L.U.] - 18 Dezembro de 1910 - in jornal " A Democracia"

J.M.M.

domingo, 8 de julho de 2012

MISTIFICAÇÕES À VOLTA DA MAÇONARIA E A I REPÚBLICA



Sobre a Conferência proferida por António Ventura, "A Maçonaria na I República e no Estado Novo" [AQUI referida], transcrevemos - com a devida vénia - o seu registo pela pena do dr. Amadeu Gonçalves, publicado no estimado blog "Do Presente".

"A propósito do Centenário da República e da sua implantação em Portugal e do tema que relaciona a Maçonaria e a I República, o Professor António Ventura iniciou a sua conferência, subordinada à Maçonaria na I República e no Estado Novo, criticando a publicação de algumas obras relacionadas com o tema, na medida em que algumas são especulativas, outras fantásticas e raras abordam a mesma relação.

Tomando como princípio comum que uma coisa são as instituições, outra coisa são as pessoas, a Maçonaria, em si, antes da República, não teve nada a ver com o 31 de Janeiro: aliás, a Maçonaria foi alheia ao movimento, caso da Maçonaria portuense e do próprio Grande Oriente Lusitano Unido, que o condenou, na medida em que a Maçonaria não combate as instituições. É o que Bernardino Machado, quando toma posse do cargo de Grão-Mestre, ainda longe o ideário republicano, defende no discurso da tomada de posse. Com as suas cisões próprias, até à Revolução do 5 de Outubro, o Prof. António Ventura evidenciou que não há um texto da maçonaria a apelar à revolução! O que existe é que há maçons na revolução republicana, isto é que é diferente! Mesmo no I Governo Provisório, poucos são os maçons que estão no Governo, como é o caso de Bernardino Machado, Afonso Costa e de António José de Almeida. O que o prof. António Ventura defende é que não há maçons com responsabilidades, o que existe são maçons, e muitos, que são iniciados, reincidentes ou alguns irradiados. É o caso da Comissão de Resistência, que tinha o mero papel de ouvir as lojas e de apoiar os maçons perseguidos. Por seu turno, a Maçonaria já teve um papel decisivo da missão da França em Inglaterra (1908). Desta forma, e em larga medida, a República é o triunfo da Maçonaria, até porque o triunfo da Revolução vai ser não só o triunfo da própria Maçonaria, como o desenvolvimento da mesma em Portugal. Os maçons vão ocupar cargos importantes, funda-se novas lojas e triângulos um pouco por todo o País, surgindo algo novo: o aparecimento público da Maçonaria.

Com mais uma cisão da Maçonaria em 1914, estando em causa a problemática 'ou uma federação de lojas ou de ritos', surgindo então o Grémio Luso-Escocês, Sebastião de Magalhães Lima vai ter um papel preponderante para a união da instituição. E se no 28 de Maio não há propriamente uma condenação à Maçonaria, o que só acontecerá em 1935, nesta fase importante será também o papel de Oliveira Camões, o qual defende que não é propriamente em regimes de liberdade que os maçons fazem falta, mas sim em regimes ditatoriais. Para o Prof. António Ventura, a Maçonaria não está habituada à clandestinidade. E mesmo perante o 28 de Maio, o Grande Oriente Lusitano Unido não o condena. Se temos antigos maçons com a ditadura e o Estado Novo, maçons no Tarrafal, existe igualmente figuras de destaque no Estado Novo que nunca esquecerão o seu passado de maçons
" [via Do Presente - sublinhados nossos]

J.M.M.

domingo, 24 de junho de 2012

PROJECTO DEFINITIVO DE CONSTITUIÇÃO MAÇÓNICA [1907]


PROJECTO DEFINITIVO DE CONSTITUIÇÃO MAÇÓNICA e Seus Respectivos Relatórios pelos IIr:. Leopoldo Pinto Soares, 25:. (Vice-Presidente do Conselho da Ordem) & Fausto de Quadros, 32:. (Grande Secretário Geral da Ordem). Seguido dos Pareceres do Conselho da Ordem e do Supremo Conselho do Gr:. 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito. Trabalho executado por determinação do Conselho da Ordem para ser discutido na Grande Loja Symbolica Constituinte em Novembro de 1907, Edição Official, Lisboa, Typographia Casa Portugueza, 1907, 121-III pgs.

Trata-se do Projecto de Constituição, que a Grande Loja Simbólica debateu e aprovou, entrando em vigor a 31 de Dezembro de 1907 (manteve-se até 2 de Janeiro de 1912). Diga-se – porque voltaremos ao tema - que a 30 de Setembro de 1907 o Supremo Conselho do Grau 33º do REAA tinha dado o seu parecer positivo

[curiosamente, o nascente conflito entre o Conselho da Ordem e o Supremo Conselho, com evidências em Maio de 1911 e Março de 1912, atinge a sua gravidade maior a Julho de 1914. Em prancha, o Supremo Conselho de Grau 33º do REAA, irá reassumir a sua autonomia, defendendo a Constituição de 1871 e considerando ser o Grande Oriente uma "federação de ritos" (e não uma federação de lojas), o que leva à cisão no G.O.L.U. O Supremo Conselho, ou uma parte daquela câmara litúrgica, afasta-se do G.O.L.U. e constitui-se em nova Obediência, denominada para os profanos como Grémio Luso-Escocês [já, AQUI, isso registámos]. No entanto, é evidente que nesta dissidência, mesmo que a questão sobre o texto constitucional (e dos ritos) esteja presente, o que se manifestava desde logo era os efeitos que crise a que a República tinha chegado já e a excessiva intervenção política dos Irmãos].

No Projecto da Constituição Maçónica (1907) foram relatores:

- Leopoldo Augusto Pinto Soares [1872-1938], n.s. César, proprietário e capitão de cavalaria, Venerável da Loja Razão Triunfante, de Lisboa, e que acompanha em 1914 a cisão acima referida;

- (o republicano) Fausto de Quadros [1879-1956], n.s. Bismark, Grande Secretário-geral da Ordem [sucedeu a Feio Terenas], nascido em Coimbra (seu pai era escrivão da Câmara Eclesiástica). Foi desembargador, juiz de Relação e advogado. Iniciado (1900) na R. L. Perseverança (Coimbra), pertenceu á Loja Pátria, nº 222, ainda de Coimbra (de que foi fundador e seu Venerável), e à Loja Justiça, de Lisboa (foi seu Venerável até 1905), ascendendo depois a Grande-secretario Geral da Ordem (era presidente do Conselho da Ordem, Sebastião Magalhães Lima). Foi expulso (irradiado) do G.O.L.U., pelo Acórdão, resultante do processo instaurado (“por desvios de metais, livros e mais documentos”) pelo Grande Tribunal Maçónico Federal do G.O.L.U., de 14 de Agosto de 1909. Tais motivos, porém, não foram (ainda) convenientemente esclarecidos [voltaremos a uma nova entrada sobre Fausto de Quadros, procurando clarificar melhor esta questão que ensombrou o G.O.L.U.]. Em Outubro de 1924, aparece ligado ao Rito Antigo e Primitivo de Memphis-Misraim, em Luanda [sob direcção do Soberano Santuário de Memphis-Misraim para França, que tinha 11 lojas sob a sua jurisdição, entre elas a de Luanda].

FOTO via Livraria Manuel Ferreira

J.M.M.

terça-feira, 6 de março de 2012

DR. AFONSO COSTA - n. 6 DE MARÇO DE 1871




DR. AFONSO COSTA [n. 6 de Março de 1871 - 11 de Maio de 1937]

"Ilustre e Grande Cidadão
Dr. Affonso Costa


É soberanamente justo que defendaes a vossa honra, quando ella seja atacada na sua pureza, mas afigura-se-nos que é inteiramente inadmissível que a título d’um capricho por supposta offensa de palavras proferidas no calor d’essa discussão parlamentar, embora irritante pela natureza do próprio assumpto, vós submettaes a vossa vida às contigências d’um duelo
[tratou-se do duelo que travou com o conde da Penha Garcia, em defesa da honra, e a propósito da sua intervenção no Parlamento sobre o “adiantamentos reais”, da qual o estadista sai ferido ligeiramente no braço – ler AQUI e AQUI]

Hoje já a vida vos não pertence, mas antes aos vossos Filhos, á vossa Esposa, ao Partido Republicano, e mais que a todos, á Pátria.

A monarchia pretende eliminar-vos, porque vos sois um terrível estorvo á sua existência, e, se pudesse haver duvida nesse intuito, bastava a opinião do arbitro que deu ao vosso adversário a prioridade de offensa.

Bem podeis comprehender que, embora, vingássemos a vossa morte, isso não remediava para a Democracia tão lamentabilíssima perda, por inevitavelmente irreparável.

Não vejaes um conselho, onde só há a singela opinião d’uma incondicional, fervorosa e sincera estima.

Acceitae os protestos da nossa entranhada estima e firme solidariedade.

Vossos admiradores

Os socios do Grémio Liberdade e Progresso
[… do Porto]

Porto, 15 de Julho de 1908 [segs várias assinaturas …]"

in Correspondencia Política de Afonso Costa 1896-1910, org. de A. H. de Oliveira Marques, Estampa, 1982, p. 311-312.

FOTOS: "Homenagem ao grande estadista Dr. Affonso Augusto da Costa" [s.n, s.l.] e uma credencial do Pres. do Conselho da Ordem do GOLU para Afonso Costa, no exílio após o 28 de Maio de 1926.

J.M.M.

domingo, 28 de novembro de 2010

JOÃO FRANCISCO CARREÇO SIMÕES (1893-1954)



João Francisco Carreço Simões "nasceu em Casa Branca (Sousel) a 30 de Agosto de 1893, filho de José Francisco e de Joaquina Inácia. Aos 11 anos foi trabalhar para a freguesia da Granja, Mourão, como empregado do comércio, e depois para Évora, de onde passou para Estremoz, como empregado de escritório na Casa Barbosa & Irmão.

Com a morte do principal sócio, Constantino Barbosa, Carreço Simões tornou-se sócio maioritário e depois no único proprietário e gerente, passando a empresa a designar-se Barbosa, Irmão & Suc. Associou-se a Máximo José da Rocha [1868-1940, nascido, também, em Casa Branca; maçon, foi iniciado no triângulo nº 115 do REAA, de Veiros, com o n.s. 'Napoleão', sendo um dos fundadores, a 19 de Março de 1911, da Loja Emancipação nº 323] para explorar uma fabrica de moagem e energia eléctrica [Fábrica de Moagem e Electricidade, fundada em 1916, em Estremoz], sendo-lhe concedida ate 1930 a concessão do fornecimento de electricidade a Estremoz.

Republicano desde os tempos da propaganda, foi amigo de António José de Almeida, que apoiou politicamente. Vice-Presidente da Câmara Municipal de Estremoz após a proclamação da Republica, com o pelouro dos Expostos, Beneficência e Instrução. Fez parte da Comissão Distrital de Évora do Partido Republicano Nacionalista.

Iniciado em 7 de Maio de 1911 na Loja Emancipação nº 323, do REAA, de Veiros, com nome simbólico desconhecido. Deixou a obediência do G.O.L.U. em 1 de Novembro de 1914 com a Loja"

[NOTA: A Loja Emancipação, de Veiros, foi "abatida" ao quadro das Lojas do GOLU a 9 de Novembro de 1914 – cf. José Bernardo Ferreira, 'Maçonaria Universal', Lisboa, 1921, p. 154. Curiosamente, surge no decorrer da crise que, nesse ano, envolveu o Supremo Conselho do 33º Grau do REAA e o Grão-Mestre do GOLU, à volta do novo projecto de Constituição Maçónica (publicada, justamente, no dia 9 de Novembro). Considerava o Supremo Conselho que, pelo projecto, se estava a quebrar o pacto federativo (entre os diversos ritos) de 1869, pelo que retomaria a sua 'autonomia e independência' – ibidem. Na verdade, a 14 de Agosto, o Supremo Conselho elege como Soberano Grande Comendador Luís Augusto Ferreira de Castro (cargo abandonado por Sebastião Magalhães Lima) e como Grande Orador, André Joaquim de Bastos (cargo vago pela demissão de José Pinheiro de Melo). E, nesse mesma data, declara que 'reassume a sua autonomia' – ibidem -, constituindo o Grémio Luso-Escocês, correspondente a 'mais de um terço do povo maçónico português' (cf. A.H.O.M., 'A Maçonaria Portuguesa e o Estado Novo', 1975, p. 49). Curiosamente 'este grupo apoiou Sidónio Pais em 1917-1918, enquanto o Grande Oriente foi perseguido' (ibidem). Por sua vez, a 9 de Novembro é publicada a nova Constituição, 'baseada numa Confederação de Lojas, e declarando dependente destas (art.39º) os Capítulos, Conselhos e Consistórios, e subordinando ao Conselho da Ordem e à Grande Dieta as Câmaras Chefes de todos os Ritos, inclusive o Supremo Conselho do Grau 33º' – José Bernardo Ferreira, p. 154. Deste modo, O Supremo Conselho cinde-se em dois, e só em 1926 (ou melhor, em 1928-29) foi restabelecida 'a sua plena autonomia' e 'unidade do Supremo Conselho' (ver Dicionário de Maçonaria, de A.H. de Oliveira Marques, vol. I, col. 1401-1402)]

Morreu, João Francisco Carreço Simões, a 13 de Marco de 1954 em Estremoz"

in António Ventura, A Maçonaria no Distrito de Portalegre (1903-1935), 2007 [aliás in "Da Vida que passa", Brados do Alentejo, n.º 1186, 21 de Marco de 1954, pp. 1 e 3]

J.M.M.