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quarta-feira, 27 de abril de 2011

IN MEMORIAM: VITORINO MAGALHÃES GODINHO



Nasceu em Lisboa a 9 de Junho de 1918, filho de Vitorino Henriques Godinho, oficial do Exército e político republicano.

Estudou nos Liceus de Gil Vicente e de Pedro Nunes, em Lisboa. Ingressou depois na Faculdade de Letras de Lisboa, onde se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas (1940), com a tese Razão e História.

Casa com Maria Antonieta Ferreira, em 1942.

Torna-se professor extraordinário nesta faculdade, entre 1941 e 1944. Aí lecciona quase todas as «histórias», como referiu o Prof. Romero Magalhães: "oriental, clássica, moderna e contemporânea, geral da civilização, numismática" [Luís Reis Torgal; José Amado Mendes; Fernando Catroga, História da História em Portugal. A História através da História, vol. 1, Temas e Debates, Lisboa, 1998, p. 370].

Porém, apontado como elemento da oposição ao Estado Novo foi impedido de continuar a carreira universitária em Portugal. Desenvolve então actividade como professor do ensino livre no Ateneu Comercial de Lisboa (1944-1946). Segue então para Paris, onde se torna investigador no Centre National de la Recherche Scientifique. Na capital francesa, estuda, pesquisa, publica e priva com os grandes nomes da École Pratique des Hautes Études, entre os quais Lucien Febvre, Fernand Braudel e Ernest Labrousse, tendo deles bebido as novas metodologias de análise histórica desenvolvidas em volta da revista Annales. Assim, entre 1947 e 1960, permanece neste centro de excelência da historiografia europeia.

Em 1959, recebe o título de doutor pela Faculdade de Letras de Paris e exerce funções como professor na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade de Clermont-Ferrand (1970-1974), onde viria a receber depois o título de Doutor Honoris Causa. No curto período de 1960-1962, permanece em Portugal, tendo desempenhado funções de professor no Instituto Superior de Estudo Ultramarinos, mas foi demitido devido ao seu envolvimento na crise académica de 1962. Participa ainda no Congresso Republicano de Aveiro e continua a actividade oposicionista, que se manifesta na publicação de livros como O Socialismo e o Futuro da Península (1970) e Um Rumo para a Educação (1974).

Durante a década de sessenta desenvolve uma considerável acção política e cultural. Colabora na imprensa, publica diversas obras, dirige várias colecções e escreve vários ensaios onde defende uma mudança da sociedade portuguesa, em especial no âmbito do ensino.

Com a revolução de Abril de 1974, regressa a Portugal e participa activamente na política interna integrando o II Governo Provisório, liderado por Vasco Gonçalves, onde permanece durante alguns meses. Regressa à vida académica e como professor catedrático, lecciona na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Desempenha ainda funções como coordenador de departamento de Sociologia (1975-1988) e ocupa as funções de Director da Biblioteca Nacional (1984).

Em 1988 alcança a jubilação como catedrático da Universidade Nova de Lisboa e é alvo de uma homenagem nacional. Considerado um dos mais reputados historiadores portugueses do século XX, foram seus discípulos outros importantes historiadores como Jorge Borges de Macedo, Julião Soares de Sousa, Joel Serrão, Joaquim Romero Magalhães, David Justino e muitos outros.

Como afirma José Amado Mendes , "Magalhães Godinho contribuiu muitíssimo para «democratizar» a História, ampliando as temáticas a investigar, procurando superar a história tradicional, de tendências erudita, política e factual"[ob. cit., p. 377].
Em 2003, no âmbito de um colóquio realizado em Paris, que lhe é dedicado, subordinado ao título Portugal e o Mundo. Leituras da Obra de Vitorino Magalhães Godinho surge novamente a público concedendo algumas entrevistas. Tendo sido também publicada uma obra Estudos e Ensaios em Homenagem a Vitorino Magalhães Godinho.

Era sócio correspondente da Academia Brasileira de Artes e Letras, da Royal Academy , de Londres, entre outras instituições científicas.

Recebeu diversos prémios ao longo da sua extensa carreira de onde destacamos o Grande Prémio da Académie de Marine (1970) e o Prémio Balzan (1991).

Os seus trabalhos cietíficos versam sobretudo sobre problemas económicos, dedicando particular atenção ao período da Expansão Marítima, como A Economia dos Descobrimentos Henriquinos (1962); Os Descobrimentos e a Economia Mundial (1963-1971), Estrutura da Anttiga Sociedade Portuguesa (1971); Mito e Mercadoria, Utopia e Prática de Navegar, Séculos XII-XVIII (1990).

Colabora em múltiplos órgãos da imprensa escrita, além das numerosas revistas de carácter científico, que nos dispensamos de apontar neste espaço, porque foram inúmeras como: O Diabo (1934-1940), Gládio (1935), Revista do Porto (1940), Síntese (1939-1941), Bulletin des Études Portugaises (1931-1972), Critério (1975-1976), Gazeta Musical e de Todas as Artes (1950-1957), Horizonte (1942-1943), Jornal de Letras Artes e Ideias (1981 - ), Mundo Literário (1946-1948), Nova Renascença (1980 - ?), Ocidente (1938-1973), Seara Nova (1921-1979), O Tempo e o Modo (1963-1977), Vértice (1942- )entre várias outras.

Acerca de Vitorino Magalhães Godinho recomendamos a visita ao texto do Dr. Mário Soares, seu antigo aluno AQUI, o texto de homenagem do Doutor Diogo Ramada Curto, publicado AQUI ou a homenagem que lhe é feita AQUI.

Faleceu a 26 de Abril de 2011, com 92 anos.

sábado, 10 de maio de 2008


Vitorino Magalhães Godinho no Expresso

" ... Em Janeiro de 1947, Magalhães Godinho iniciara uma compensadora carreira académica em Paris. No início, bolseiro do CNRS (Centre Nationale de Recherches Scientifiques) ainda tivera dificuldades em encontrar casa (começa por se instalar no Hotel de S. Pierre, que mais tarde aconselhará a Mário Soares) e em fazer render os francos, que lhe permitem ir suportando as investigações que efectua, de permeio com os vários cursos e seminários que frequenta. Dois anos depois, a situação está estabilizada. Para o facto, muito terá contribuído a circunstância de Maria Antonieta Cordeiro Ferreira, com quem casara em 1942, ter passado a fazer-lhe companhia. A mulher, um ano mais nova, era então a melhor aluna da Faculdade de Letras de Lisboa. Ainda assim, não hesitou em transferir a conclusão da licenciatura para a capital francesa, mesmo se isso a obrigava a fazer umas traduções "por fora" para equilibrar o orçamento familiar (...)

Em Junho de 1959, Magalhães Godinho está a prestar provas de "doutoramento de Estado" na Sorbonne, defendendo as 1600 páginas de texto, escritas directamente em francês, que a mulher havia dactilografado. O tema é a Economia dos Descobrimentos. As provas começam às 13,15h e acabam cinco horas mais tarde. Na sala, um auditório onde há um enorme retrato do cardeal Richellieu, estão presentes, idos expressamente de Portugal, os pais e a irmã mais velha. É de calcular o que sentem quando Godinho obtém do júri a mais alta menção: "très honorable". A família vai toda jantar ao Hotel Lutecia. Poucos dias depois, o novo doutor oferece uma pequena recepção na sua residência em Arcueille - um banlieu ao sul de Paris (...) A família que reside em Portugal não pára de o tentar convencer a regressar. E o próprio professor, por melhor que se sinta perto do Sena, não consegue convencer-se de que as competências que lhe são reconhecidas no estrangeiro não possam ser postas ao serviço do seu pais.

É neste estado de espírito que Adriano Moreira o vai encontrar em Paris, em finais de 1959. O director do ISEU (Instituto Superior de Estudos Ultramarinos) oferece-lhe a regência de duas cadeiras: Metodologia das Ciências Sociais e Economia e Sociologia Históricas. Godinho não conhece Adriano pessoalmente. Sabe, tão só, que ele tem aspirações a "reformar" o salazarismo, coisa em que o interlocutor não acredita de todo. Para que não haja confusões, Godinho diz-lhe: "Eu sou da oposição e não mudo. Não quero ir para lá para uma prateleira". O director responde: "Mas com certeza". Em Outubro de 1960, o novel doutorado da Sorbonne está a dar aulas no ISEU. "Há sempre um bocado de lotaria nas nossas decisões", tenta explicar, quase meio século depois (...)

Nessa altura, já Adriano Moreira se tornara subsecretário de Estado da Administração Ultramarina, dando início a uma carreira política que culminará, em Abril de 1961, na nomeação por Salazar para ministro do Ultramar. A direcção do Instituto é assumida por Silva Rego, que Godinho descreve como "um padre que se dedicava vagamente à História" . É já a ele, que não dá um passo sem pedir licença ao futuro presidente do CDS, que o professor dirige uma carta, no auge da crise estudantil de 1962.

Mal a "crise" rebentara, uma vintena de catedráticos da Universidade Clássica de Lisboa tinham-se reunido, para redigir um documento de solidariedade com as reivindicações estudantis, a entregar ao Governo. Mas o documento nunca chegara ao destino. Godinho faz desabar a sua revolta sobre Silva Rego, a quem, depois de criticar o silêncio do Instituto, propõe a realização de uma reunião do Conselho Escolar, para aprovar uma moção que considere o Ministério da Educação Nacional como "o único responsável das situações criadas". Como resposta à missiva, recebe a instauração de um processo disciplinar, conduzido pelo juiz desembargador Gouveia da Veiga, que culmina num despacho determinando o seu despedimento do ISEU (mais tarde, ISCSPU - Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina) (...)

Entre os actuais amigos não é difícil descobrir, no entanto, gente de pensamento diverso [mas com] Adriano Moreira é que as coisas nunca se recompuseram. Reencontraram-se uma única vez, já depois do 25 de Abril, no Instituto de Defesa Nacional, tendo-se ignorado mutuamente. "Posso perdoar a perseguição, não a cobardia", explica Magalhães Godinho, que acusa o ex-ministro do Ultramar de Salazar de se ter escudado sempre em alegadas pressões do Presidente do Conselho para justificar aquele que foi o único despedimento de um professor na crise académica de 1962 ..."

[ler trecho do artigo aqui - in Única (Expresso), 10 de Maio de 2008, p. 80-92 - sublinhados nossos]

J.M.M.