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terça-feira, 8 de março de 2016

GOMES LEAL – A CANALHA & UMA PALESTRA COM PORTUGAL

 
[GOMES LEAL – caricatura de Francisco Valença]
 
 
[in “A Canalha”]
 
 “Meu Portugal! Eu já cantei plangentes
Teus rouxinóis na balsa verdejante …
Cumprimentei teu sol, Pachá do Oriente,
Reclinado em sofá azul brilhante.
Já te cantei no bosque ao sol poente.
De manhã na trapeira de estudante.
Mas agora, ao luar do teu Outono,
Só pranteio teu mal, teu abandono! …”
[in “Pátria e Deus e A Morte do Mau Ladrão”]
J.M.M.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

A ORGIA – GOMES LEAL


A ORGIA – Publicação mensal: política, litteratura, costumes, por Gomes Leal, Lisboa, Typographia Popular [ed. Autor], 26 de Fevereiro de 1882, 98-II pags.

Primeiro (e único) número: Carta a El-Rei de Hespanha Sobre a União Ibérica

Na sequência do Tricentenário Camoniano, que impulsionou as ideias republicanas em Portugal [cf. Gomes Leal Sua Vida e sua Obra, de Álvaro Neves e Henrique Marques Júnior, Editorial Enciclopédia, Lda, Lisboa, 1948], foram abertos Centros Republicanos, publicam-se periódicos [O Século sai a 4 de Janeiro de 1881, com o poeta-panfletista fazendo parte da sua redacção], fazem-se conferências e comícios. Gomes Leal acompanha todo esse movimento de propaganda republicana.

Escreve “A Fomes de Camões” [1880], publica o “Bisturi”, é orador em comícios promovidos pel’O Século, publica o folheto (hoje raríssimo) “A Traição”, que tem de imediato o apoio entusiástico de “um grupo de operários” [ibidem], sendo preso “pelos crimes injúrias por escrito dirigidas ao rei pública e directamente tendo por fins excitar o ódio contra a sua pessoa e autoridade, e excitar o povo á guerra civil e à revolta” [in “Última Hora", artigo do jornal “O Século de 5 de Julho de 1881 – aliás Gomes Leal …, ibidem, pp 62-63]. A agitação dos Centos Republicanos não se fez esperar, protestando contra a sua prisão. O “António Maria”, pela pena de Bordalo Pinheiro, consagra-lhe o seu nº7 [Julho].   
  
Gomes Leal está, portanto, no Limoeiro. Entra altivo, aristocrata, de “fraque, flor petulante na lapela, fumando o predilecto charuto, de chapéu declinado sobre o lado direito” [ibidem]. Escreve uma curiosa Carta aos “correligionários” e publicada n’O Século. Os republicanos, em sua homenagem, respondem com a abertura do Centro Republicano Gomes Leal [Rua das Farinhas, nº1].

Gomes Leal “prevarica” novamente, para irritação dos “burgueses” e “irritação” ministerial. Escreve (1881) o opúsculo “O Herege. Carta dirigida a D. Maria Pia de Sabóia acerca da queda dos Thronos e dos Altares”, seguido do folheto satírico (1881) “O Renegado. A António Rodrigues Sampaio. Carta ao velho pamphletario sobre a perseguição da imprensa”. Quando sai da prisão é de novo preso pelo Arrobas [governador-civil] por um soneto onde o poeta faz dela chacota pública e satiriza. Ganha o recurso em tribunal, para regozijo dos admiradores e amigos. 

A 23 de Janeiro de 1882 na Sessão Solene do I Aniversário do Club Henriques Nogueira, o poeta Gomes Leal é um dos participantes. Logo no dia 2 de Fevereiro usa da palavra num Comício em Alcântara, contra o Tratado do Comércio.

No dia 26 de Fevereiro sai a público a publicação “A Orgia”, panfleto revolucionário de Gomes Leal [ibidem] do qual só saiu o 1º número, dedicando uma Carta a El-Rei de Espanha sobre a União Ibérica. 
 
Depois disso …. bem, depois disso, temos um Gomes Leal que [citando Bordalo Pinheiro, no “António Maria”] “tanto o apodaram de satânico, que Gomes Leal, sentindo-se um dia muito madalena, pôs o gibão de fogo e os calções de tarlatana e as asinhas de jaspe dos querubins, fez-se alado às regiões místicas (…)” e “virou a casaca”.

FOTO via FRENESI

J.M.M.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

GOMES LEAL


Eu sou o João Ninguém, o João sem terra, o ardente
senhor da espada recta e da pluma encarnada
que a esta luz que cai chorosa do Ocidente
detesto os reis e beijo  as crianças da estrada” [Gomes Leal, in “Verdades Cruas”]

in semanário Sempre Fixe, XXIII Ano, nº 1151, 10 de Junho de 1948 [desenho de Francisco Valença]

J.M.M.

segunda-feira, 14 de março de 2011

AS QUADRAS DO POVO. PAMPHLETOS REVOLUCIONARIOS


PUBLICAÇÃO: As Quadras do Povo. Pamphletos Revolucionarios;
PROPRIETÁRIO: A. de Almeida; DIRECÇÃO: Hercules Severo (pseud.??); Typ. de António Maria Antunes, Calçada da Glória, Lisboa, 1909.

COLABORAÇÃO [trata-se de uma colecção completa de VI opúsculos, "que apparecem anonymas [mas] são feitas pelos primeiros poetas portuguêses", com o seguintes números e autores:

1 – Ao Povo! [anónimo]
2 – Carta ao Rei, impondo-lhe a expulsão dos jesuitas, por Gomes Leal
3 – A Sombra de Guilherme Braga, por Armando d’Araujo
4 – Satyra aos jesuitas e aos liberaes, por Augusto Gil
5 – Á Luz do Sol, por Dias d’Oliveira
6 – Eterna comedia!, por Mario Monteiro

"... Assésta a grande lunêta,
e ólha os sacros mariolas
amontoando sacólas
como Harpagão, o forreta.
....
Vem ao convento do Quelhas
vêr bonitinhas condêssas
beijocarem as abadessas
sobre as boquinhas vermelhas.
Como gulosas abelhas
extraindo o mel das flores,
vê beijarem-se as sorores
como Juliêta a Romeu...
ou com lúbricos decótes
bailarem com as cócótes
chamadas do 'Pái do Ceu' ...
"

[Gomes Leal]

via FRENESI [ver, ainda, a mesma obra na Livraria Manuel Ferreira]

J.M.M.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

O MARQUEZ DA BACALHOA - ROMANCE DE ANTÓNIO ALBUQUERQUE (II)


O Marquez da Bacalhoa - romance de António de Albuquerque (II)

Gomes Leal fez a devida recensão do livro "O Marquez da Bacalhoa" nos seus opúsculos "Verdades Cruas" [nº15-16], o que suscitou a seguinte carta de António de Albuquerque:

"Meu caro Mestre - Corri ontem Lisboa à sua procura, pois desejava absolutamente agradecer-lhe o seu favor (...)

Resolvo pois escrever-lhe daqui, esperando ter amanhã o prazer de lhe apertar a mão, às duas horas, no seu escritório. Se alguma vez me senti vaidoso, confesso-lhe tê-lo sido, ao acabar a leitura do seu magnífico número das Verdades Cruas em que o Gomes Leal se ocupa exclusivamente da minha defesa com tanto brilho, valor e amizade. Se acaso lhe mereço tal deferência, será certamente pela sincera admiração que sempre senti por si. É V. como todos os grandes espíritos um látego cortante ferindo profundamente a canalha a quem não teme e despreza.

Tem razão em me chamar um revoltado e dizer que o meu romance O Marquês da Bacalhoa é um livro sincero e audaz. Eu sou efectivamente um revoltado, mas creia que o não sou por ódio, mas simplesmente pelo dó que desde criança me inspiraram sempre os oprimidos, os fracos e os ignorantes. Nem doutra forma se poderia explicar a transformação radical dum aristocrata, nascido e criado entre preconceitos religiosos e de raça. Da minha origem resta-me todavia uma consolação, se acaso evoco a memória dos meus ilustres avoengos, e quem sabe mesmo se uma explicação lógica da minha transformação. É que se êles cometeram crimes e crueldades, nenhum-posso-lhe afirmar-foi lacaio de rei ou cobarde. Dos ditos crimes absolve-os certamente a época em que viveram, e as erradas ideas do seu tempo. A exemplo dêles tambêm eu quis sacudir todos os jugos, e por isso me revoltei contra a injustiça social, passando de fidalgo ao mais convicto dos anarquistas, graças talvez à audácia e independência de caracter que dêles herdei-qualidade que para mim os absolve das suas criminosas façanhas guerreiras.

Algumas críticas lisonjeiras se fizeram ao meu livro em França, Espanha, Bélgica, algumas até firmadas por nomes ilustres, creia porêm, caro Mestre, que nenhuma me calou tam doce e carinhosamente no coração, como a do maior poeta português, Gomes Leal. Quem me diria, há tantos anos, ao ler a Traição que o autor dela se ocuparia um dia da minha insignificante pessoa! Envaideceu-me-é certo-a sua crítica, mas um outro sentimento mais íntimo ela me despertou:-uma espécie de infinito enternecimento ao contacto da sua carícia fraternal, carícia dum poderoso a um exilado mal compreendido, bálsamo sereno curando um coração em chaga. O seu elogio era escrito em português, mas apesar do meu incurável internacionalismo, a nossa língua é sempre para mim a mais bela e harmoniosa.

Tendo sido em português que me vibraram os mais rudes e injustos golpes, os quais vibrados é certo por gentes insignificantes me magoaram todavia profundamente pela inveja que os inspirava, calcule o quam grato me foi o ver-me por si desafrontado.
O Gomes Leal vingou-me plena e cruelmente, e fique certo do meu eterno reconhecimento. Sei odiar e sei igualmente estimar.

Breve espero poder enviar-lhe o meu novo livro a Execução do Rei Carlos e oxalá êle lhe leve distracção e lhe mereça aplauso. Firo nele muita gente - é verdade - mas convencido de minha justiça e da obrigação cumprida. Dir-lhe-ei, para terminar, o quanto lastimo não haver em Portugal homens possuidores do seu talento, da sua audácia, e convicção libertária. Mas valerá a pena por acaso lutarmos ainda por esta gente?

Aperto-lhe cordealmente a mão, dizendo-lhe: até amanhã.

Sintra, sexta 18 de Junho de 1909, Laurence's Hotel. - Amigo gratíssimo, António de Albuquerque
" [in Dicionário Bibliográfico Português de Inocêncio F. da Silva]

J.M.M.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

O ESPECTRO DE JUVENAL



"Leitor burguês que lanças mão desta revista, esperando encontrar aqui mais um corretor dos teus negócios, mais um emoliente nas tuas horas de irritação, alguma coisa complementar da chávena de café, tomada ao cair da noite nos botequins (...)

Vós todos que esperais ver surgir mais um apostolo da falsa ordem que mascara a imensa podridão, mais um apologista da Rotina, do Erro e da Mentira, mais um grupo de vendilhões que oferecem boa doutrina em troca de bom emprego:
Passai de largo. Erraste o caminho (...)

Professores primários, empregados públicos, operários modestos, batalhadores obscuros e ignorados de todas as condições e de todos os partidos, que sentis no vosso peito o gérmen dum sentimento nobre, no vosso cérebro o esboço dum pensamento útil e que, algemados e dilacerados pelas grandes provações e pelos grandes preconceitos, careceis de auxilio, de incitamento e de conforto nas vossas lutas: Vinde, disponde da nossa pena"

in, Espectro de Juvenal, nº1 [citado por Archer de Lima, Magalhães Lima e a sua obra], nota de abertura.

Espectro de Juvenal, publicação de critica e sátira publicada em Lisboa, nº 1 (1872) ao nº 5 (1873). Colaboração de Gomes Leal (sai no 3 num), Sebastião Magalhães Lima, Silva Pinto, Guilherme de Azevedo, Luciano Cordeiro (sai no 2º num). Lisboa, Imprensa de Joaquim Germano de Sousa Neves.

J.M.M.