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domingo, 30 de setembro de 2018

IN MEMORIAM FERNANDO FERNANDES [1934-2018]



Partiu de entre todos nós, FERNANDO FERNANDES, livreiro da mítica livraria portuense “Leitura” (com uma entrada na rua de Ceuta e outra pela rua José Falcão; foi fundada em Setembro de 1968 por Fernando Fernandes e José Carvalho Branco, silenciando-se só em 1999), um espaço de encontro, esperança e luta contra a ditadura, um local de culto que uma geração conheceu e venerou. Anos antes (1958) já Fernando Fernandes, o guardião dos livros, tinha decidido entrar no mundo dos livros, criando a livraria “Divulgação”.
Fernando Fernandes nasceu em Águeda e vem residir [em 1941; cf. Pedro Pereira Leite, Pela estrada larga: O Livreiro Fernando Fernandes e as memórias duma geração – texto que seguimos de perto e para qual remetemos a sua gostosa leitura] para a cidade do Porto, que muito amou. Órfão muito cedo, acedeu ao convite para dirigir a sessão de livros da papelaria Aviz. Tinha 18 anos e um especial assombro e entusiasmo pelo papel impresso. Estava traçado o seu destino nessa nobre “arte de vender livros”, da qual muitos dos livreiros herdaram muito do que sabem. O “poeta dos livros” marcou, seguramente, toda uma geração de livreiros.

Fernando Fernandes não era, porém, um simples e erudito livreiro, era um cidadão íntegro e de corpo inteiro, que vivia intensamente o seu tempo, por isso não espanta que tenha (em 1953) integrado o MUD Juvenil [idem, ibidem], combatendo com determinação a ditadura. Foi aí, porventura, pelas tertúlias culturais organizadas pela oposição, e onde participa, que lhe nasce esse gosto e entrega pelo serviço público cultural, ornamento do seu negócio do livro.    

Foi preso (1955), internado no hospital psiquiátrico [Conde Ferreira; idem ibidem] e julgado no célebre processo [o seu advogado era Alexandre Babo] que levou à prisão 52 democratas do Porto, na violenta repressão salazarista que se abateu contra os estudantes universitários do Porto, e que culminou na proibição legal (1957) do MUD Juvenil. Sai em liberdade e regressa à sua secção de livros da papelaria Aviz.   
Em 1958, na sequência da sua colaboração com o movimento cívico “Convívio” [que editava os cadernos Convívio, como depois publicava livros; tinha os bons auspícios de Afonso Cautela], vendendo no seu estabelecimento as suas edições, foi-lhe feito a proposta de criar uma livraria, convidando Fernando Fernandes para a sua direção. Fernando Fernandes depois de muita hesitação [“foi a decisão mais difícil da minha vida” – ibidem] deixou o trabalho na papelaria Aviz (com alguma tristeza, pela sua grande amizade com o proprietário, Manuel Camanho) e funda em Junho a livraria “Divulgação”, “na esquina da rua de Ceuta nº 88, com a rua José Falcão. Como novidade, a nova livraria organizava-se com secções temáticas, publica um boletim bibliográfico mensal, patrocinava sessões de autógrafos com escritores, tinha uma galeria de arte e secção de discos, organiza exposições bibliográficas [como aquela organizada em 1963, por José Augusto Seabra, sobre o vate Fernando Pessoa, e que ficaria célebre pelo incidente verificado com o dr. Pedro Veiga (Petrus), e que não cumpre aqui referir]. Tudo isso era notoriamente inovador, pelo que desde o seu início foi um centro dinamizador cultural da cidade e um local conotado com o reviralhismo conspirativo e a oposição à ditadura. A Divulgação abriu mesmo duas livrarias mais, uma (1964) em Lisboa e outra em Viana do Castelo, o que de certo modo originou problemas financeiros que se foram agravando, levando ao encerramento da livraria em 1968 [sobre este assunto ver Pedro Pereira Leite, ibidem].



Fernando Fernandes não desiste e, com o apoio de Jaime Castelo Branco (que se torna seu sócio) reabre a livraria [recuperando-a da tutela da Bertrand], agora com o nome de “Livraria Leitura”. De novo impera o mesmo espírito de amor aos livros e tributo aos seus ledores, a mesma “referência da elite intelectual do Porto”, pelo que floresce e alarga-se a outras zonas e regiões (caso de Aveiro).  Até ao 25 de Abril de 1974, foi objeto contínuo de vigilância da PIDE, mas mesmo assim lá se encontravam os inúmeros opúsculos, textos e livros proibidos de circular pela censura, continuando a ser um local de paragem obrigatória ao cidadão democrata e livre, uma espaço de tertúlia cultural e de fraternidade. Em 1998 Fernando Fernandes reforma-se, “descontente com o rumo que estava a ser seguido pelo mercado livreiro, com a emergência de novos espaços comerciais, onde nem sempre o livro é tratado com a devida deferência”. Em 2017, Fernando Fernandes leiloa a sua estimada biblioteca (o Catálogo com a colaboração de Armando Alves e Albano Martins) e sua colecção de Arte.
Morre a 30 de Setembro de 2018.

[NOTA: agradecimento especial a Pedro Baptista]
J.M.M.

domingo, 1 de julho de 2018

IN MEMORIAM DE JOSÉ MANUEL TENGARRINHA (1932-2018)




Biografia de José Manuel Tengarrinha” – por Viriato Soromenho Marques [escrita em 2015 para o Grupo Fascismo Nunca Mais por Viriato Soromenho Marques, a pedido da Coordenadora do Grupo Helena Pato] - Aqui publicada, com a devida vénia, à Memória Saudosa do Historiador, do Professor, do Amigo Fraterno, do Cidadão Ilustrado e Impoluto. Até Sempre, Professor! 
 
José Manuel Marques do Carmo Mendes Tengarrinha nasceu em Portimão, em 12 de Abril de 1932. Concluiu o ensino liceal em Faro e veio para Lisboa com 17 anos (…). É doutorado em História e Professor Jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi dirigente nacional da CDE e estava preso no dia 25 de Abril.

I.
Durante a ditadura a sua vida pessoal e profissional foi fortemente condicionada pela sua consciência cívica e actividade política. Iniciou a actividade política aos 15 anos, no MUD Juvenil (Movimento de Unidade Democrática), de que foi membro da Comissão Central.
Actuou com funções de responsabilidade em todas as grandes campanhas políticas da Oposição Democrática, que se desenvolveram desde 1958 a 1974. Foi candidato nas listas da Oposição pelo círculo de Lisboa, nas eleições realizadas para a Assembleia Nacional, em 1969 e 1973. [Foi] Um dos fundadores, em 1969, do Movimento Democrático Português (MDP/CDE).

II Congresso de Aveiro: José Manuel Tengarrinha, ladeado por Helena Pato, Alberto Pedroso e João Sarabando - AQUI 


Participou, como responsável por uma das secções, no Congresso Republicano de 1969 e integrou a Comissão Coordenadora do Congresso da Oposição Democrática de 1973. Foi detido pela PIDE, em inúmeras ocasiões – prisões relacionadas com as actividades políticas que desenvolvia e com as organizações oposicionistas a que pertencia (MUD Juvenil, Partido Comunista Português e CDE). Três prisões totalizaram 14 meses no Aljube e em Caxias. Esteve detido durante um ano na Companhia Disciplinar de Penamacor, onde cumpriu o serviço militar por razões políticas. Durante as prisões foi sujeito a torturas, entre as quais a tortura de sono, na prisão de Dezembro de 1961.
Na sequência desta prisão, foi expulso do Ensino Secundário e, então, também, impedido pela Censura de exercer a actividade profissional de jornalista. A PIDE fez sempre pressões para que fosse despedido em todos os empregos que procurou. Encontrava-se preso no Forte de Caxias, em regime de isolamento e rigorosa incomunicabilidade, quando se deu o 25 de Abril, tendo sido libertado apenas no dia 27.

II.
Em meados da década de 50, quando frequentava o Curso de Histórico- Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa fez parte do núcleo redactorial de Lisboa da revista Vértice, com António José Saraiva, Júlio Pomar e Maria Lamas. Iniciou então investigações sistemáticas sobre a história oitocentista portuguesa.

Frequentou esse Curso como voluntário, por se encontrar então detido na Colónia Penal de Penamacor, depois de ter sido expulso do Corpo de Oficiais Milicianos sob a acusação de desenvolver actividades contra a segurança do Estado.


Em 1958, apesar das condições adversas, criadas também por alguns docentes, concluiu a licenciatura em Ciências Históricas e Filosóficas, na Faculdade de Letras de Lisboa.


Jornalista profissional desde 1953 (Jornal República), iria fazer parte do grupo fundador de um jornal, considerado inovador, o Diário Ilustrado, de que foi chefe da Redacção até 1962, quando a Censura impôs a cessação da sua actividade jornalística, após prisão pela polícia política em Dezembro de 1961.
Nos princípios da década de 60 integrou o corpo redactorial da revista Seara Nova.
Em 1962 foi-lhe atribuído o prémio da Associação dos Homens de Letras do Porto, com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, pelo conjunto de ensaios publicado no jornal Diário de Lisboa, no ano anterior, sob o título António Rodrigues Sampaio, desconhecido.
De 1963 a 1966, a Fundação Calouste Gulbenkian concedeu-lhe uma bolsa de estudo para prosseguir as investigações sobre a História Oitocentista Portuguesa. Foi fundador e director – com os Professores Vitorino Nemésio, Joel Serrão e José Augusto França – do Centro de Estudos do Século XIX do Grémio Literário (que funcionou desde 1969 a 1974, apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian) e, como tal, tendo sido promotor e participante de cursos, conferências e colóquios, sobre temas da nossa história Oitocentista, com a colaboração de qualificados historiadores e sociólogos nacionais e estrangeiros.



Em 1973 assumiu a direcção, com os Professores Tiago de Oliveira e Joel Serrão, da preparação da enciclopédia Logos. No âmbito das actividades do Centro de Estudos do Século XIX, regeu cursos sobre História Contemporânea de Portugal, no Grémio Literário, desde 1970 a 1973 (frequentados sobretudo por estudantes universitários, que viam neles um complemento da formação de que não dispunham na Universidade).
No ano lectivo de 1972/73, a convite do Vice-Reitor da Universidade Técnica de Lisboa (Prof. António Maria Godinho), deu lições sobre História económica portuguesa dos séculos XVIII e XIX, no Instituto Superior de Economia, integradas nas cadeiras de Economia IV e V.

III.
Após o 25 de Abril foi eleito presidente do MDP/CDE e, por esse partido, deputado às Constituintes e em diversas legislaturas.

O Plenário dos estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa, após o 25 de Abril, decidiu integrá-lo no seu corpo docente, o que aconteceu a partir de Outubro de 1974.

Como deputado da Assembleia da República foi Vice-presidente da Comissão Parlamentar de Educação, coordenador e um dos redactores do projecto que daria origem à Lei de Bases do Sistema Educativo. Em 1974 foi convidado a reger a cadeira de “História do Jornalismo” no Curso Superior de Jornalismo do Instituto Superior de Meios de Comunicação Social, actividade que exerceu até ao encerramento desse Instituto, em 1982. Em Outubro de 1974 foi convidado a ingressar no corpo docente da Faculdade, na categoria de equiparado a professor auxiliar. Doutorou-se nesta Faculdade em 1993. Regeu, a partir de então, as seguintes cadeiras:


História Contemporânea de Portugal, depois denominada História de Portugal, sécs. XVIII-XX; História Económica e Social – sécs. XVIII-XX; História Geral Contemporânea, em substituição da anterior, desde 1990.
Criou, dirigiu e leccionou mestrados, em Portugal, nas áreas da História Contemporânea, História Moderna, História do Brasil, História da Imprensa Periódica, História Regional e Local, Cultura e Formação Autárquica. Orientou, nestas áreas, numerosas teses de mestrado e doutoramento. Leccionou em cursos e seminários de doutoramento em Universidades estrangeiras, entre outras: Florença, Pescara, Bolonha, Paris VII, Nantes, Valladolid, Bilbao, Autónoma de Barcelona, Carlos III de Madrid, Sevilha, Canárias, École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris.

[Foi] Professor visitante da Universidade de São Paulo para cursos de pós-graduação; Integra conselhos de redacção e editoriais de revistas de História e Ciências Sociais de Portugal, Espanha e Brasil. [desenvolve] outras actividades no campo da Cultura: Foi responsável científico pelo colóquio sobre “O Barroco e o Mundo-Ibero Atlântico”, promovido pelo Instituto de Cultura Ibero-Atlântica, com sede em Portimão, que decorreu entre 9 e 11 de Maio de 1997; Convidado a integrar o Comité Científico do IV Congreso Internacional en Rehabilitación del Patrimonio Arquitectónico y Edificación, que se realizou em Havana, na segunda quinzena de Julho de 1998; Integrou o júri do prémio de História “Alberto Sampaio”, instituído pelas câmaras municipais de Famalicão e Guimarães; Coordenou um grupo de trabalho, a convite da Comissão dos Descobrimentos, encarregado de elaborar um parecer, no Encontro entre Professores de História Portugueses e Brasileiros sobre o Ensino da História do Brasil em Portugal; Foi convidado pelo Ministério da Educação a integrar a Comissão Científica do Congresso Luso-Brasileiro “Portugal-Brasil: Memórias e Imaginários”, que se realizou em 1999.




IV.
Tem numerosas obras publicadas em Portugal e no estrangeiro, no domínio da História e das Ciências Sociais, com destaque para Obra Política de José Estêvão, 1962; História da Imprensa Periódica Portuguesa, 1965 e 1989; A Novela e o Leitor. Estudo de Sociologia da Leitura, 1973; Diário da Guerra Civil. Sá da Bandeira, 1975-1976; Combates pela Democracia, 1976; Estudos de História Contemporânea de Portugal, 1983; Da Liberdade Mitificada à Liberdade Subvertida; Uma Exploração no interior da repressão à imprensa periódica de 1820 a 1828; Movimentos Populares Agrários em Portugal – 1750-1825, 1994; História do Governo Civil de Lisboa, 2002; Imprensa e Opinião Pública em Portugal, 2006; E o Povo onde está? Política Popular, Contra-Revolução e Reforma em Portugal, 2008; Portimão e a Revolução Republicana, 2010. Numerosas separatas da sua autoria foram editadas por universidades de Itália, França, Holanda e Espanha, além de Portugal. No Brasil (São Paulo), publicou A Historiografia Portuguesa, Hoje, 1999; Historiografia Luso-Brasileira Contemporânea, 1999 e História de Portugal, 2003 (3 edições).

Em 2011, a convite da Assembleia da República, publicou José Estêvão – O Homem e a Obra. Em Fevereiro de 2012 faz, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, a apresentação pública dos resultados do projecto Legislação do Brasil Colonial. 1502- 1706.
V.

Foi Director dos Cursos Internacionais de Verão realizados em Cascais, todos os anos, desde 1992.
Foi Presidente (e foi fundador) do Centro Internacional para a Conservação do Património (CICOP – Portugal), com sede mundial em Tenerife. Presidente do Instituto de Cultura e Estudos Sociais (sediado em Cascais), que tem organizado cursos de mestrado e outros cursos sobre diversos temas e apoiado projecto de investigação pós-doutoramento de historiadores portugueses e brasileiros.

VI.
Em 2006 recebeu a Medalha de Honra do Município de Cascais e, em 2012, a Medalha de Mérito Municipal, grau ouro, do Município de Lisboa.

Morreu a 29 de Junho de 2018, pelas 14,30 horas, em Lisboa.
Nota de Helena Pato: Cidadão sistematicamente gerador de esperança, durante «a noite mais longa de todas as noites», recusou a Ordem da Liberdade, quando Jorge Sampaio quis atribuir-lha 23 anos depois da queda do fascismo.

(*) Biografia escrita em 2015 para o Grupo Fascismo Nunca Mais por Viriato Soromenho Marques, a pedido da Coordenadura do Grupo Helena Pato e agora editada. [VSM é Professor catedrático na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, regendo as cadeiras de Filosofia Social e Política e de História das Ideias na Europa Contemporânea] – sublinhados nossos.

TEXTO de Viriato Soromenho Marques | Foto de José Tengarrinha, por Helena Pato.
J.M.M.

 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

ANTÓNIO RAMOS ROSA (1924-2013)


“Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
È um arco-iris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol”

[ARR, in A Palavra e o Lugar]

ANTÓNIO RAMOS ROSA nasce em Faro a 17 de Outubro de 1924. Fez estudos secundários, não concluindo “por questões de saúde”, e trabalha [cf. A.R.R, A Palavra e o Lugar, 1977] como empregado comercial, explicador e tradutor [traduzindo Éluard, Brecht; Pasternak, Camus, Hervé Bazin, Richard Bach, Sanguinetti, André Gide], Marguerite Yourcenar, ...]. Reside em 1945 em Lisboa, exercendo a profissão de empregado comercial, mas regressa cedo á sua terra de origem, só se radicando definitivamente na capital a partir de 1962.

A palavra é uma estátua submersa, um leopardo
que estremece em escuros bosques, uma anémona
sobre uma cabeleira. Por vezes é uma estrela
que projeta a sua sombra sobre um torso.
Ei-la sem destino no clamor da noite,
cega e nua, mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada. Rápida é a boca
que apenas aflora os raios de uma outra luz.
Toco-lhe os subtis tornozelos, os cabelos ardentes
E vejo uma água límpida numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugidio
Que canta num mar musical o sangue das vogais” [in Acordes]

Publica (em 1958) no jornal “A Voz de Loulé” o seu poema “Os dias, sem matéria” e no mesmo ano deu inicio á sua vasta obra poética [ver AQUI] com o livro “O Grito Claro” [editado em Faro, em 1958]. Um ano antes, Adolfo Casais Monteiro faz referência [no jornal do Brasil – ACM estava exilado] à “profunda autenticidade” poética de Ramos Rosa, que aliás situa na síntese entre o surrealismo e neo-realismo [e que os Cadernos de Poesia são disso exemplo – sobre este curioso assunto ver Ana Paula Coutinho Mendes, “Poesia do Séc. XX com António Ramos Rosa ao fundo”, 2005]

 
Poeta, ensaísta e crítico literário, colabora em inúmeros periódicos [Diário de Lisboa, Diário popular, capital, O Comércio do Porto, Diário de Noticiais, Diário de Coimbra, Artes e Letras] e publicações variadas. Co-dirige as revistas literárias Árvore (1952-54), Cassiopeia (1956), Cadernos do Meio-Dia (1958-1960). Colabora na revista Seara Nova, Vértice, “O Tempo e o Modo”, Ler, Colóquio Letras, Raiz e Utopia, Silex. Está traduzido em diversas antologias no estrangeiro [ler mais AQUI]

António Ramos Rosa militou no MUD juvenil (1945), ainda em Faro [tendo como companheiros, no grupo do Algarve, Raul Martins Veríssimo e Manuel Madeira], tendo sido preso pela Ditadura [ler mais AQUI]

No nosso tempo havia cegos e surdos que falavam
e nos queria cegar e ensurdecer.
Mas nós mantínhamos nos pulsos a tensão vertical
de um fogo verde de um outra vida.
Era um horizonte de palavras novas, de árvores reverentes.
Escrevíamos panfletos que às vezes nos fugiam dos bolsos
em revoadas que se confundiam com as aves.
Acampávamos em pinhais, cantávamos e dançávamos,
saudando o sol de um novo dia
e às vezes a polícia surpreendia-nos
com as metralhadoras aperradas contra nós.
Devorávamos os livros proibidos apaixonadamente
reunidos em exíguos quartos ou solitariamente.

Não importa se muitos se enganavam adorando um déspota como um deus
porque a verdade estava na sua oposição
à tirania que nos roubava o sol,
à liberdade e à justiça da palavra viva.
Vivemos duramente com obstinada paixão
mas vivíamos solidários e lúcidos na sombra
e a fraternidade era a nossa força e o prémio da nossa luta.
Vencemos finalmente mas a madrugada da nossa liberdade
foi apenas um momento. O que se seguiu depois
é um sistema que não sabemos combater
porque a sua teia é anónima, de uma violência esparsa
que nos impede a defrontação
com os seus disfarces e os seus estratagemas.

Diz-me meu querido Manuel, os nossos sonhos diluíram-se apagaram-se
ou resta ainda um tronco verde com duas ou três folhas
e a nossa sede não morreu, ela é a nascente viva
tal como eu te procurava para partilhar o meu fogo ansioso
entre as anelantes aranhas da minha angústia obscura?
Será que resta uma centelha insubmissa
desse lume fascinante que nos deslumbrava como se fôssemos náufragos
que procuravam um madeiro ou uma giesta incendiada
para que sentíssemos que a vida era a vida com o seu horizonte azul?”

[António Ramos Rosa, in Manuel Madeira, No Encalço do Real Inalcançável, Editorial Minerva, 2004 - ler AQUI]
 
J.M.M.

terça-feira, 24 de julho de 2012

PEDRO RAMOS DE ALMEIDA (1932-2012)


"Pedro Ramos de Almeida morreu ontem [dia 22] em Lisboa, aos 80 anos. A doença respiratória não o deixou acabar de escrever a história do MUD Juvenil, um dos movimentos mais populares de combate à ditadura, a que se juntou quando tinha 18 anos.

Militante e antigo dirigente do PCP, Ramos de Almeida faz parte do (ínfimo) grupo de portugueses que combateram, com poucas armas e bagagens, a grande crise nacional dos últimos 50 anos – a ditadura. Uma ditadura que tinha uma biografia para escrever. Pedro Ramos de Almeida é autor, entre muitos outros livros e ensaios, de “Salazar: biografia de uma ditadura”. Se os revolucionários de Abril ficaram simbolicamente homenageados como “os homens sem sono”, os da linhagem de Pedro Ramos de Almeida têm sido insuficientemente reconhecidos como os homens a quem tiravam o sono.

Veja-se o depoimento de Virgínia de Moura sobre a prisão em 1954 de dezenas de jovens do MUD: “Usou-se e abusou-se da violência, batendo em alguns, obrigando outros a fazer estátua durante dias consecutivos, longos períodos de incomunicabilidade, enclausuramento em segredos, internamentos no Conde Ferreira (hospital psiquiátrico de então, no Porto), transferência de jovens para Caxias, e muito concretamente, entre outros, foram vítimas de violência os arguidos Pedro Ramos de Almeida (22 anos, estudante de Direito de Lisboa), sete dias e sete noites sem dormir e dois (leia-se quatro) meses de segredo”.

Aos poucos, a maioria dos jovens é libertada até ao julgamento, mas Pedro Ramos de Almeida fica preso. É o próprio que contou, em texto no jornal comunista “O Militante”: “A maioria dos presos é fixada caução e admitida a sua libertação condicional até ao julgamento. Entretanto, a excepção é constituída por seis réus, acusados de serem membros da Comissão Central do MUD Juvenil – Maria Cecília Alves, Agostinho Neto [futuro presidente de Angola], Ângelo Veloso, Hernâni Silva, Hermínio Marvão e Pedro Ramos de Almeida”.

Condenado a quatro anos de prisão, Pedro Ramos de Almeida fugirá do Forte de Peniche em 1961 [* PRA já não estava preso em Peniche quando se deu a célebre fuga de um grupo de presos (e portanto não o integrou) e a fuga em questão não aconteceu em 1961, mas sim em 3 de Janeiro de 1960
NOTA: Segundo Helena Pato (que aqui saudamos) Pedro Ramos de Almeida foi condenado a dois anos de prisão e "medidas de segurança", cumpriu 4 anos de prisão e saiu em 1959 ].

Partiu depois para o exílio. Em 1962 viveu em Praga, como dirigente do PCP, representando o partido junto de revistas internacionais dos partidos comunistas. Muda-se, depois, para Argel, ao serviço do PCP, onde ficará cinco anos, na qualidade de membro do comité central do Partido Comunista, a Junta Revolucionária Portuguesa, o órgão dirigente da Frente Patriótica de Libertação Nacional. Dirige na altura a rádio Voz da Liberdade, uma emissora de combate à ditadura que emitia para Lisboa a partir de Argel.

Entre 1969 e 1971 esteve na clandestinidade em Portugal – uma altura em que pintava os seus prematuros cabelos brancos com tinta castanha comprada na drogaria. Regressa a Portugal em 1971 depois de ter obtido a garantia, através do seu padrasto Fernando Abranches Ferrão, de que não haveria processos contra ele. Começa a militar na CDE e quando chegou o 25 de Abril tornou-se militante do MDP-CDE, de que foi dirigente. Entre os muitos livros que escreveu, destacam-se a História do Colonialismo Português e o Dicionário Político de Mário Soares. O dirigente histórico do PCP Domingos Abrantes recordou ontem o “intelectual de grande craveira”, que “teve sempre uma actividade empenhada, não só na juventude, mas em toda a luta da unidade antifascista”. Para Carlos Brito, ex-militante e ex-dirigente do PCP é a perda de “um grande amigo” e uma perda “para a esquerda”. “Foi um grande combatente, com muito mérito”. Pedro Ramos de Almeida era pai do nosso camarada de redacção Nuno Ramos de Almeida e de João Ramos de Almeida, jornalista do Público" [via Entre as Brumas da Memória, com a devida vénia - sublinhados nossos]

LOCAIS: A morte é uma exagerada [Nuno Ramos de Almeida] | Pedro Ramos de Almeida (1932-2012) | MUD Juvenil e a repressão fascista [Pedro Ramos de Almeida - O Militante].

J.M.M.