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domingo, 28 de janeiro de 2024

TEÓFILO BRAGA, O HOMEM, O ERUDITO E O POLÍTICO

 


Teófilo Braga, o homem, o erudito e o político” – por António Valdemar, in Caderno E, Expresso, 26 de Janeiro de 2024

Foi um dos fundadores do Partido Republicano, depois Presidente da República, escrevia compulsivamente, investigou Camões — que elegeu como símbolo da nacionalidade —, nunca atravessou a fronteira. Teófilo Braga visto por si e pelos contemporâneos — admiradores e críticos —, no centenário da sua morte.

Passou a vida a escrever. Foi encontrado morto na sua mesa de trabalho. Tinha 80 anos. Faleceram os três filhos e, anos depois, a mulher. Teófilo Braga morava só. Rodeado de livros, asfixiado por ressentimentos e sempre empenhado em completar e concluir os temas que o absorveram a vida inteira. Deixou uma obra de investigação e de crítica com mais de 200 títulos. Ele próprio assim se definiu: “Dentro de um poço, desde que lá tivesse os meus livros, uma resma de papel e um lápis, conseguiria viver.”

Por sua vez, Ramalho Ortigão, que o conheceu com proximidade, afirmou: “Simples, sóbrio, duro, com hábitos de uma austeridade de espartano, sabendo reduzir as suas necessidades a toda a restrição a que lhe reduzam os meios, vivendo no seu isolamento como Robinson na sua ilha.” (…) “Não publica um volume por semana, pela razão única de que não há prelos, em Portugal, que acompanhem a velocidade vertiginosa da sua pena. Escreve de graça, desinteressadamente, em satisfação do seu prazer supremo, o prazer de espalhar ideias.”

Na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, Teófilo Braga (1843-1924) foi um dos autores com maior número de obras publicadas sobre a história da literatura portuguesa, desde os primórdios até João de Deus e Antero de Quental. Assinalam-se, neste contexto, as investigações sobre Camões, nos múltiplos aspetos da obra épica, lírica e teatral; “Gil Vicente e as Origens do Teatro Português”; “Bernardim Ribeiro e o Bucolismo”; Cristóvão Falcão, autor da “Écloga Crisfal”; Bocage, a vida e a obra; “Filinto Elísio e os Dissidentes da Arcádia”; a “História do Romantismo em Portugal”; e “Garrett e a sua Obra”.

A curiosidade de Teófilo estendeu-se a outros temas: o povo português, nos seus costumes, crenças e tradições; o cancioneiro e o romanceiro popular; os contos tradicionais. Também se consagrou à política. Encontra -se ligado à fundação, ao desenvolvimento e à projeção do Partido Republicano Português. Desempenhou as funções de presidente do governo provisório e de Presidente da República.

Acrescente-se o percurso na Universidade de Coimbra, a propósito das opções pedagógicas que se refletiram na cultura e na sociedade portuguesas: Sistema de Sociologia (para alargar as previsões, comprová-las e acelerá-las pela intervenção política e governativa); Soluções Políticas da Política Portuguesa, para demonstrar que o povo estava preparado para receber a República.

DE ESTUDANTE A PROFESSOR

Nasceu em Ponta Delgada a 24 de fevereiro de 1843. Enquanto aluno do liceu, principiou a atividade literária em jornais e revistas em São Miguel. Aprendeu, ainda, rudimentos da tipografia. Dirigiu-se, aos 18 anos, para Coimbra. Tinha a ambição de ser professor na universidade. Arrostando com os maiores sacrifícios, sem quaisquer apoios financeiros, vivendo apenas de explicações, tirou, entre 1862 a 1867, o curso de Direito, com elevadas classificações.

Um ano depois fez provas de doutoramento com uma tese acerca da história do direito português — os forais. Reconheceram-lhe os méritos. Contudo, para ascender à cátedra, foi preterido por um candidato que possuía relações privilegiadas com o júri. Tentou, em seguida, lecionar Direito Comercial na Academia Politécnica do Porto. Voltou a ser rejeitado. Finalmente, concorreu, em 1872, a uma cátedra sobre Literaturas Modernas no Curso Superior de Letras, um concurso público muito renhido. Entre os candidatos encontravam-se Pinheiro Chagas e Luciano Cordeiro. Eram os outros candidatos e tinham as maiores proteções no corpo docente. Teófilo conseguiu, finalmente, vencer.

Teófilo Braga radicou-se, a partir de então, em Lisboa, até falecer a 28 de janeiro de 1924. Nunca atravessou a fronteira. A sua vida, de enorme sobriedade, circunscreveu-se entre a intimidade e os contactos quotidianos: o Curso Superior de Letras; instalado no edifício da Academia das Ciências, da qual foi vice-presidente. (O rei, por razões estatutárias, era o presidente de honra). Deslocava-se, ainda, para fazer pesquisas documentais à Torre do Tombo que funcionava no Palácio de São Bento, e à Biblioteca Nacional, estabelecida no antigo Convento de São Francisco, na área do Chiado. Pertenceu a uma tertúlia na rua do Arsenal, na livraria Carrilho Videira, que reunia e editava obras de republicanos. Andava a pé ou nos transportes públicos, mesmo quando foi Presidente da República.

Ramalho Ortigão procurou, ainda, defini-lo nestes termos: “Este débil de aspeto um pouco valetudinário, dorso curvo, ventre chato, estômago escavado, deixando descair as calças em pregas sobre os sapatos, é o mais forte, o mais rijo, o mais enérgico temperamento que tenho conhecido.” Os caricaturistas retrataram-no com ironia. Joshua Benoliel fixou-o em dezenas de fotografias. Tornara-se uma figura típica de Lisboa.

AS POLÉMICAS

A atividade literária, histórica, filosófica e política de Teófilo Braga desencadeou sucessivas controvérsias: Castilho atacou a sua participação na Questão Coimbrã; Camilo, pelos mais diversos motivos, constituiu um dos seus mais acérrimos adversários; Ricardo Jorge, a propósito de um estudo acerca de Rodrigues Lobo, denunciou- -o como plagiário.

Todavia, entre os críticos mais severos, avulta Antero de Quental: “Os primeiros passos no estudo da história literária portuguesa — escreveu — foram dados pelo sr. Teófilo Braga, essa glória ninguém lhe tira. Tem defeitos: a impaciência que o leva muitas vezes a conclusões prematuras; e o espírito sistemático que o leva também a conclusões falsas.” (…) “O lado inferior e frágil — acentua Antero de Quental — são as teorias gerais, a parte filosófica; sente-se que não é essa a vocação do sr. Teófilo Braga. Ao mesmo tempo quimérico e sistemático, dá às suas doutrinas gerais uma feição dogmática que lhes tira aquele poder de ductilidade e compreensão, sem o qual uma teoria, para acomodar os factos ao seu rigor inflexível, tem de os forçar, umas vezes e outras vezes, de pôr de lado. Isto é — adverte Antero de Quental — o que torna abstrusas certas obras, como a ‘Poesia do Direito’.” (in “Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa”, Porto 1872).

CAMÕES, O SÍMBOLO NACIONAL

Camões foi um dos temas que, durante meio século, mais entusiasmou Teófilo. Interessaram-lhe todos — ou quase todos — os aspetos da vida e a obra do poeta. Fez uma reflexão e estudo dos textos mais antigos de biógrafos e comentadores, o chantre Severino de Faria, o licenciado Manuel Correia, o historiador e filólogo Manuel Faria de Sousa e o memorialista João Soares de Brito. Formulou hipóteses e extraiu conclusões, muitas das quais se revelaram precárias, em torno das circunstâncias relativas à conceção, publicação e divulgação de “Os Lusíadas”; e a outros assuntos como a tença, a morte e a sepultura de Camões; e, ainda, a permanência em África e no Oriente.

Sejam quais forem as reservas, os estudos de Teófilo proporcionam pistas para investigação do tempo histórico e da amplitude da obra do poeta, que não ficou alheio ao desconcerto do mundo e às vulnerabilidades da condição humana. Procedeu a uma campanha de opinião pública para celebrar, em todo o país, o terceiro centenário da morte de Camões. A informação existente indicava o dia 10 de junho. Foi exatamente nesse dia que se realizaram, em 1880, as comemorações, com a participação de intelectuais, políticos e elevado número de populares. Destinavam-se a promover a coesão do Partido Republicano, unindo as várias tendências e grupos dispersos, no pensamento e na ação. Recorde-se que, pouco antes de falecer, concedeu uma entrevista ao “Diário de Notícias”, na qual insistiu que a data do nascimento de Camões era 5 de fevereiro de 1584. O Governo, presidido por Álvaro de Castro e tendo António Sérgio como ministro da Instrução, determinou que o dia 5 de fevereiro passasse a ser feriado nacional. A data foi aprovada pelo Congresso da República e promulgada pelo chefe de Estado, Manuel Teixeira Gomes.

Concretizava-se assim, a título póstumo, a aspiração cívica de Teófilo: o sentimento nacional é um dos pilares fundamentais para a unificação dos portugueses. “Pelo amor do seu território, pela necessidade de manter a independência”, escreveu, “é possível alcançar uma ação comum, um sentimento coletivo que fortifica o sentimento da pátria e da nacionalidade.” (…) “Camões”, sintetizou, “deu expressão a esse sentimento, que transformou uma pátria numa nacionalidade”.

PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Proclamada a República, Teófilo Braga foi escolhido para chefe do governo provisório (5 de outubro de 1910 a 4 de setembro de 1911). Acompanhou a apresentação, o debate e a votação da legislação que estruturou o novo regime. A ditadura de Pimenta de Castro (28 de janeiro de 1915 a 14 de maio de 1915) que encerrou o Parlamento e conduziu à demissão do Presidente da República Manuel de Arriaga (eleito a 24 de agosto de 1911 e a desempenhar funções até 26 de maio de 1915). Perante esta crise, que provocou uma das mais sangrentas e devastadoras revoluções, solicitaram a Teófilo Braga para ocupar o cargo, porque reconheciam nele uma reserva moral e cívica.

Eleito em sessão do Congresso a 29 de maio de 1915, obteve 98 votos a favor, contra 1 voto para Duarte Leite e três votos em branco. Durante quatro meses assegurou a chefia do Estado, em circunstâncias particularmente complexas, a nível nacional e internacional. A defesa dos territórios portugueses de África, em especial Angola e Moçambique, perante ameaças da Alemanha, determinou a expedição de contingentes do Exército e da Marinha. A 5 de agosto de 1915 na Europa eclodiu o que viria a ser a Grande Guerra.

Os efeitos do conflito acentuaram-se com muito impacto nas lutas partidárias e na subida dos preços dos bens de consumo diário. Gerou-se a corrida aos bancos para levantar os depósitos. Havia uma profunda instabilidade política e social. Contudo, a entrada de Portugal na guerra, em solidariedade com a Inglaterra — e devido à secular aliança subscrita entre os dois países — só se verificaria a 7 de agosto de 1916. Deu lugar a mais outra controvérsia entre as forças militares e os principais partidos políticos.

EUROPA E ATLÂNTICO

Teófilo Braga, ao tomar posse, referiu que a sua orientação visava “a harmonia de todos os poderes do Estado, o reconhecimento de que o poder soberano da nação reside essencialmente no Congresso, de que o presidente não é senão um mandatário. O contrário seria eu a exercer um imperialismo presidencialista”.

Fez questão de salientar que, perante “esta espécie de solidariedade humana, que corrige os excessos do egoísmo nacional” (…), “um outro equilíbrio europeu tem de fundar-se.” Assim, “a política externa de Portugal deriva completamente da sua situação geográfica; ela solidarizou-se com a Europa, quando combatia o imperialismo da Espanha no século XVII e quando no século XIX desmoronava o imperialismo napoleónico, ela nos fará cooperar na atividade mundial dos grandes Estados, com o apoio no Atlântico”.

Noutro passo, Teófilo Braga concluiu: “Apresentando estes dois aspetos de política, interna e externa, da nação portuguesa, dela se deduz um plano do Governo. E ao proferir as palavras de compromisso de honra, desta hora em diante só aspiro que, ao regressar dignamente ao lar, se possa dizer: cumpriu o que prometeu; guiou-se pelo bom senso e pelo desinteresse.”

CONSAGRAÇÃO NACIONAL

Teófilo Braga, tal como João de Deus e Guerra Junqueiro, após o seu falecimento teve honras nacionais e foi sepultado nos Jerónimos — à data o Panteão Nacional. Em 1925, Alfredo Guisado, poeta da “Orpheu” e vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, inscreveu-o na toponímia. A rua onde residia, a Travessa de Santa Gertrudes, passou a denominar-se Rua Teófilo Braga. Também Alfredo Guisado deu o nome de Teófilo Braga ao Jardim da Parada, no centro do bairro de Campo de Ourique. Pouco depois, a 16 de outubro de 1926, inaugurava-se, no Jardim da Estrela, um monumento dedicado a Teófilo Braga, da autoria do escultor Teixeira Lopes. Em pleno salazarismo, o monumento saiu do Jardim da Estrela e foi enviado para Ponta Delgada, por ocasião do centenário do seu nascimento. Ficou junto ao Forte de São Brás, a curta distância da casa onde nasceu.

Embora muito combatido por intelectuais de várias tendências, também contou com a fidelidade e dedicação de amigos como Francisco Maria Supico e de discípulos como Teixeira Bastos, Reis Dâmaso, Fran Paxeco, A. do Prado Coelho. Um dos seus admiradores, Álvaro Neves, inventariou a sua interminável bibliografia e organizou o “In Memoriam”. Ao dissiparem-se as incompatibilidades pessoais e aversões políticas, chegou a hora da reabilitação da vida e da obra em trabalhos de investigação e crítica de Joaquim de Carvalho, Luís da Câmara Reys, Mário Soares e, presentemente, Amadeu Carvalho Homem.

Um facto é evidente: o homem, o erudito, o cidadão e o político merecem ser evocados no ano do centenário da sua morte. Destaca-se, quaisquer que sejam as reservas, o pioneiro da história da literatura que elegeu Camões como o símbolo da nacionalidade. Foi um dos fundadores do Partido Republicano que contribuiu para a transformação da sociedade portuguesa, para a mudança do regime e para a solução de algumas crises institucionais.

O “ORGULHO DE SER AÇORIANO”

Saiu de Ponta Delgada aos 18 anos e nunca mais voltou à ilha de São Miguel. Guardava memórias amargas da infância e da adolescência. Manteve um contacto epistolar assíduo com Francisco Maria Supico, diretor do jornal “A Persuasão”, que lhe acompanhou os primeiros passos e o incentivou a fazer carreira universitária. Entre as numerosas obras que publicou, faz referências a autores açorianos como Gaspar Frutuoso, propôs o camoneanista José do Canto para sócio da Academia das Ciências e ocupou-se de temas açorianos. É o caso de “Cantos Populares do Arquipélago Açoreano” (1869). Este trabalho baseia-se na recolha feita por João Teixeira Soares de Sousa (1827-1882), a pedido de Garrett. Acerca da poesia popular — escreveu Teófilo — existem duas modalidades: “uma atual, móvel, continuamente em elaboração porque é um eco da vida, uma linguagem das paixões e dos sentimentos de hoje; a outra é tradicional, histórica, em desarmonia com os costumes presentes, mas repetida ainda religiosamente como lembrança de costumes e sucessos que já passaram.” Constitui: “o rapsodo de todas as alegrias e tristezas do poema da vida. A poesia — para o povo — é o ritmo do esforço no trabalho, o esquecimento da miséria, a expressão dos desejos, o tesouro da sua moral e tradições antigas, a linguagem do amor, o gemido, enfim, a verdade simples da sua alma.” (…) Compreende, por conseguinte, “fados e canções da rua, orações, profecias nacionais e aforismos poéticos da lavoura”.

Ao ser entrevistado por Albino Forjaz de Sampaio, declara que “nunca tivera a doença do açoriano, o apego ferrenho às suas ilhas, a nostalgia que sentimos quando delas nos afastamos. No entanto, através da minha longa vida, sempre me interessou tudo o que pudesse interessar aos Açores, especialmente à minha terra”. Afirmou, ainda com veemência: “Tenho orgulho de ser açoriano. As nossas ilhas são o foco da melhor tradição nacional. Nunca reneguei a minha terra. Sou ilhéu, nasci nesses rochedos donde irradiou o espírito das autonomias”.

Teófilo Braga, o homem, o erudito e o político – por António Valdemar [jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], in Revista E (Expresso), 26 de Janeiro de 2024, p.50-52 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

terça-feira, 11 de julho de 2023

O QUE RESTA DA OBRA DE GUERRA JUNQUEIRO 100 ANOS DEPOIS DA APOTEOSE? - ANTÓNIO VALDEMAR

O que resta da obra de Guerra Junqueiro 100 Anos depois da apoteose? – por António Valdemar, in E revista Expresso, 7 de Julho 2023 

O mais lido e aclamado poeta português, na transição do século XIX para o século XX, desencadeou as maiores polémicas religiosas e políticas. Apesar de todas as consagrações, deixou de ter a projeção literária que em tempos lhe foi atribuída

Cem anos depois da morte de Junqueiro, glorificado no Panteão Nacional, será possível recuperar a leitura da sua obra, tal como se verificou durante décadas? Os livros de português no ensino secundário ainda reproduzem poemas de Junqueiro? Tanto quanto se pode avaliar o culto de Junqueiro (1850 - 1923) circunscreve-se às manifestações que decorrem na sua terra natal, Freixo de Espada à Cinta. Deixou de ter a amplitude que o situava na mais elevada dimensão nacional.

A partir de 1915, a geração que lançou a revista OrpheuFernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Almada Negreiros e Alfredo Guisado – abriu novos caminhos na literatura, em especial na poesia. Em relação ao passado próximo, elegeu Antero, Gomes Leal e Cesário Verde entre os poetas preferidos. Outros nomes do século XIX e XX também deixaram de ter o reconhecimento que lhes era dispensado.

Junqueiro faleceu a 7 de julho de 1923, em Lisboa, na casa da filha Maria Isabel, em Campo de Ourique. Vivia-se um dos anos mais turbulentos da primeira República. Assistia-se a uma «balbúrdia sanguinolenta», conforme Eça de Queiroz vaticinara, no In Memoriam de Antero (1896), a propósito dos efeitos da implantação da República em Portugal. Entre numerosos casos insólitos, que provocaram sobressalto, a 22 de maio, era morto a tiro, no cemitério dos Prazeres, um gerente da Companhia União Fabril (CUF), durante o funeral do Conde de Sabugosa, o último representante do grupo Vencidos da Vida, do qual Guerra Junqueiro fizera parte.

Os atentados eram consecutivos. No dia da morte de Junqueiro, à saída do Tribunal de Defesa Social, arremessaram três bombas a três juízes que ficaram gravemente feridos. A falta de alimentos essenciais, como o pão, provocava greves impulsionadas pela Confederação Geral do Trabalho. Predominava a inquietação, o medo e o pânico. Cunha Leal, que já pedira a pena de morte, por ocasião da «noite sangrenta» do 19 de outubro de 1921, voltou a apelar, numa conferência na Sociedade de Geografia, para a intervenção urgente da Força Armada, a fim de repor a ordem pública e a estabilidade social.

UM GÉNIO NO PANTEÃO

As exéquias de Junqueiro realizaram-se na Basílica da Estrela. O funeral seguiu, diretamente, para os Jerónimos, na altura Panteão Nacional. Ficou no espaço nobre da Sala do Capítulo, onde já estavam Herculano e Garrett. O Governo – e com o apoio do Presidente da República António José de Almeida - pagou as despesas da trasladação e determinou, em decreto-lei, que os funerais fossem nacionais. O cerimonial - que se prolongou durante cerca de uma semana – constituiu uma apoteose cívica e cultural, enquanto era enterrado, na maior obscuridade Basílio Teles, um dos principais ideólogos da República.

Sepultado com todas as honras, Guerra Junqueiro continuava a ser classificado um génio, não obstante as polémicas religiosas, políticas e literárias que desencadeou. Assim o apareceu nas primeiras páginas dos grandes jornais e nos depoimentos de personalidades com a responsabilidade de Teixeira de Pascoais: «Guerra Junqueiro é um poeta genial. A sua lira é feita do mesmo ouro que a de Apolo. A luz ri nas suas sátiras, mais belas do que as de Juvenal. Este poeta é o Sol. Nenhum outro encarnou assim a natureza no seu milagre deslumbrador e criador».

Era o poeta português mais lido e mais aclamado. A Morte de D João, publicada em 1874, representou o início da consagração. Tinha apenas 24 anos. Em poucos meses, esgotou uma tiragem de mil e duzentos exemplares. Os êxitos repetiram-se até à morte. Sampaio Bruno não hesitou em salientar: «não existe, em literatura alguma, paralelo que se lhe compare». Partilhou a mesma opinião Miguel Unamuno.

O renome de Junqueiro acentuou-se, em 1885, n’ A Velhice do Padre Eterno. A crítica indignada do Padre Sena Freitas concorreu para numerosas reedições entre nós e no Brasil. Nunca houve em Portugal uma acusação tão virulenta contra a igreja católica. Deu lugar a uma polémica interminável. Atingiu a igreja católica desde as mais altas hierarquias até ao pároco de aldeia.

Contudo, Junqueiro nunca pôs em causa a existência de Deus, nem a figura de Cristo. Num poema incluído na própria Velhice do Padre Eterno, confessou, sem margem para equívocos: «creio que Deus é eterno e que a alma é imortal» (…) «Sim, creio que depois do derradeiro sono, /há- de haver uma treva e há-de haver uma luz…».

Mas denunciou, com energia, a conduta do clero, os abusos sexuais, o envolvimento descarado na rotina político partidária. A educação de muitos jovens era orientada para o sacerdócio. No poema Como se faz um Monstro descreve a recomendação habitual de muitos pais aos filhos: «Hoje Padre é melhor que ser Doutor» (…) «Quando o abade morrer hás-de vir para cá./ Despacha-te o doutor nas Cortes: quando não/ votamos contra ele, e foi-se a eleição» (…) «Toca para o seminário. Eu quero ir para a cova /só depois de te ouvir cantar a missa nova». Garantia um futuro próspero. A carreira eclesiástica abrangia os maiores interesses pessoais e institucionais. Reforçava o poder em todas as instâncias.

POETA DE CAUSAS

As questões políticas e sociais mobilizaram, sempre, a atenção de Junqueiro. Foi um poeta de causas que de interesse público. Enumeramos, por exemplo: A Vitoria da França, sobre a Republica em França, 1870; A Espanha Livre, acerca da instauração da Republica, em Espanha, 1873; A Fome no Ceará, um dos grandes flagelos no Brasil; A Lágrima (por ocasião do incendio do Teatro Baquet, no Porto); e, ainda, O Crime, contestação ao Ministro da Justiça do assassinato a um militar. «Contra o braço da forca e contra a guilhotina,/ eu que proscrevo o algoz, eu exigi -lo- ei/para enforcar somente esse bandido – a Lei».

Integram-se, neste contexto, O Finis Pátria, em 1890, e, sobretudo, a Pátria, em 1896. Basta citar que uma tiragem de seis mil exemplares – caso sem precedentes em Portugal – vendeu-se em cinco dias. Na Pátria arrasou com ferocidade a dinastia de Bragança. D. Pedro V foi a exceção. Despedaçou o rei D. Carlos, a corte que o rodeava, os chefes dos partidos que permaneciam à frente das instituições. Protagonista e espectador dos acontecimentos quotidianos, Junqueiro interveio nas guerras e nas guerrilhas que agitaram o País, tais como o Ultimatum de 1890, a Revolução Republicana do 31 de Janeiro. Tudo quanto precipitou o fim da Monarquia e acelerou a instauração da República.

Elogiou inclusive o regicídio. «Lamento de olhos enxutos» – e citamos para que não haver dúvidas – «a execução do monarca. Mas se tivesse o dom de o ressuscitar não o levantava do túmulo. Deploro angustioso a morte do príncipe. E diante dos cadáveres dos homicidas descubro-me ajoelhado, com lágrimas de piedade, e, porque não hei-de confessá-lo, de adoração e carinho».

A glorificação de Junqueiro prosseguiu com Os Simples, 1892, A Oração ao Pão 1902 e a Oração à Luz 1904. Três livros da última fase voltada para a exaltação da família e para celebrar a paisagem natural de Trás os Montes e do Alto Minho e a paisagem ideal sonhada em explosões de lirismo. Revela um panteísmo transcendente, sem as ironias e os sarcasmos que lhe atribuíram notoriedade.

Cumpria-se o vaticínio de Antero de Quental, numa carta de agosto de 1874 a Oliveira Martins, da qual resumimos o seguinte passo: «Estou curiosíssimo por saber o que Você dirá de Guerra Junqueiro e d’ A Morte de D João. Mas que admiráveis páginas! Há- de fazer-se daquele rapaz um grande poeta – nos limites em que hoje se pode ser grande poeta – um eco vibrante das grandes ideias do nosso tempo».

REAÇÕES CRÍTICAS

Esta circunstância não impediu que, na Revista Portugal, dirigida por Eça de Queiroz, o crítico mais arguto da Geração de 70, Moniz Barreto (1863 - 1896), prematuramente falecido, sem dissecar as controvérsias políticas e religiosas, se ocupasse de Guerra Junqueiro, no âmbito estritamente literário, contrariando a unanimidade de opinião que predominava. Assinalou «os recursos da expressão, a sumptuosidade e o vigor da frase, a sábia gradação dos efeitos, a arte consumada de formular, intimar, ornar e lançar à circulação um tema poético». Logo a seguir acrescentou: «um vocabulário escolhido e nobre, uma adjetivação abundante e nova, uma sintaxe regular e ampla», constituem «o segredo do seu prestígio». Para concluir categoricamente: Junqueiro é «muito mais orador do que poeta. Tem muito mais eloquência do que imaginação» (Revista Portugal, número 1, 1889).

Nos últimos anos da vida de Junqueiro, publicou António Sérgio (1883-1969), no primeiro tomo dos Ensaios uma extensa interpretação com o título: O Caprichismo Romântico do Sr. Guerra Junqueiro». Teve, em Portugal e no Brasil, o maior impacto. Em 1928, Vieira de Almeida (1888 - 1962), em dois números da revista O Instituto, de Coimbra publicou o estudo A obra de Guerra Junqueiro. Também surgiu mais outro estudo de António Sardinha (1887- 1925), repleto de objeções e recolhido no livro póstumo Purgatório de Ideias (1929).

Intelectuais, quer da Seara Nova, quer do Integralismo Lusitano formularam críticas à obra e à personalidade de Junqueiro. Lopes de Oliveira (1881 - 1971), biógrafo e memorialista de Junqueiro reagiu: «trata-se de um ataque dos zoilos, mais ou menos obscuros, mas todos horríveis e despeitados versejadores. Desenvolvia-se uma reação obscurantista, à conta da defesa da religião. Não só se acusava o ateísmo (de Junqueiro), mas descia-se à calúnia sobre a vida pública e particular».

O ensaísta Amorim de Carvalho (1904 - 1976), procurou examinar as posições de António Sérgio e de Vieira de Almeida no livro, Guerra Junqueiro e a sua obra poética (Porto, 1948). Teve por objetivo «fazer justiça a Junqueiro, um dos maiores poetas portugueses, e que, no dizer de Unamuno, foi «um dos maiores do mundo». «Toda a análise interpretativa» – salientou – «que António Sérgio fez, do pensamento científico e filosófico do poeta Guerra Junqueiro terá de ser rejeitada como improcedente». Quanto a Vieira de Almeida – comenta – «pelo exagero que assume, é toda ela, uma autêntica cegueira, em que os exemplos e a tese – sem ele dar por isso – se voltam a cada passo contra o detrator». Para Amorim de Carvalho «O senso estritamente lógico – que nunca fez qualquer literatura de mérito – encontra sempre contradições».

CENTENÁRIO NO SALAZARISMO

O ano de 1949 não apagará os horrores da Segunda Guerra Mundial e, no plano interno, os movimentos democráticos em torno da candidatura presidencial de Norton de Matos. A oposição encontrava-se retalhada. A PIDE multiplicava as prisões em todo o país. Aproximava-se a 15 de setembro de 1950 a homenagem devida a Guerra Junqueiro.

Egas Moniz proferiu a 14 de outubro de 1949 uma conferência no salão de festas do Coliseu do Porto na qual propôs: «estamos no limiar do centenário do Poeta, que passa no próximo ano de 1950. Homenagem de gratidão lhe deve ser tributada, em todo o país, mas deve partir a iniciativa dos Homens de Letras do Porto, para que tenha maior retumbância por esse Portugal além. Em cada cidade, em cada vila, em cada aldeia, sejam lidos os seus versos. Deram-me o feliz ensejo de dar o sinal de alvorada, poucos meses antes da comemoração de um dos maiores poetas».

Ainda houve duas conferências no Porto: uma de Teixeira de Pascoais; outra de João de Barros. Entretanto, Egas Moniz recebia o Prémio Nobel. Mas o apelo suscitado por Egas Moniz passou a ser controlado pela censura e pela polícia política, até se organizar uma Comissão Nacional presidida por Júlio Dantas. Inspirava total confiança ao regime. Escrevera, em 1921, n’Os Galos de Apolo: «tem sido em Portugal, no Brasil, na própria Espanha, o pai espiritual de algumas gerações de Poetas».

Embora agnóstico – recorde-se que exigiu, em testamento, funeral civilDantas não iria afetar a estreita relação do Governo com a Igreja. Respeitava a cartilha definida pelo cardeal Cerejeira, antes de ascender ao episcopado. Consta das conferências promovidas pelo CADC e compiladas no livro «A Igreja e o Pensamento Contemporâneo», 1924. Recorde-se que o prof. Sílvio Lima (1904- 1993) desmontou, factualmente, em 1930, as teses de Cerejeira em «Notas críticas ao livro A Igreja e o Pensamento Contemporâneo». Custou-lhe a demissão de professor da Universidade de Coimbra, dificilmente recuperada.

«TROVOADA DE LATA»

Mesmo em cima da morte, do funeral, da tumulização de Junqueiro no Panteão Nacional, Raul Proença sem deixar de enaltecer méritos ao poeta teve a coragem de contestar o génio de Junqueiro (Seara Nova, Julho de 1923): «Falta- nos o sentimento da medida» – observou – «a rigorosa disciplina das qualificações. Toda a nossa crítica se encerra nos dois termos antinómicos dum dilema: a apoteose ou a descompostura. Resvalamos sempre sobre o um plano inclinado: deixamo-nos ir à mercê do impulso laudativo ou pejorativo». ( … ) «Sem a mínima preocupação de fazer restrições, de ver os defeitos ou as qualidades daquilo que se elogia ou se censura. Não há por isso critica em Portugal».

A propósito dos versos introdutórios d’A Morte de D João não hesitou Raul Proença em afirmar que era uma «trovoada de lata hoje ilegível» para concluir: «Junqueiro ocupa apenas um dos primeiros postos, entre os nossos escritores de segunda ordem. Mais direito do que ele entrar nos Jerónimos» – acrescentou - têm certamente Eça de Queiroz e Antero – de primeiro plano, esses, sem dúvida. O tempo se encarregará de pôr os homens e as coisas nos seus lugares, quando se fizer a distância que permitirá avultar os gigantes, a reduzir os que não foram à sua exata proporção».

É evidente que, mais do que previa Raul Proença, em 1923, deixou Guerra Junqueiro de ter a projeção literária, que lhe foi atribuída. Perdura, contudo, a veemência do inconformismo e do protesto, e que ganha atualidade, perante a degradação política e social, que se tem intensificado, nos dias que vivemos, e de forma preocupante.

O que resta da obra de Guerra Junqueiro 100 Anos depois da apoteose? – por António Valdemar [jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], in E revista do Expresso, 7 de Julho de 2023, p.32-35 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

sábado, 13 de novembro de 2021

REDESCOBERTA DE CARDOSO PIRES – ANTÓNIO VALDEMAR

 


Redescoberta de Cardoso Pires – por António Valdemar, in Tempo Livre

O imaginário de Lisboa na obra de um grande escritor que se empenhou em «ridicularizar os cosmopolitismos, como sinónimo de provincianismo; sacudir os bonzos e demonstrar que a austeridade é uma capa do medo e da ausência de imaginação». Memória do passado, advertência para o presente e aviso para o futuro

José Cardoso Pires é um escritor com lugar muito próprio na literatura portuguesa do século XX. A sua obra, que parecia esquecida, voltou a ser assinalada com a reedição dos seus livros, acompanhados de prefácios de novos escritores, a publicação de novos ensaios críticos e o aparecimento de uma extensa biografia realizada por Bruno Vieira do Amaral. Ficamos a conhecer os vários aspetos da personalidade do homem rebelde e insubmisso, obcecado com a sua independência. E também o processo de criação do escritor que buscou uma «sintaxe citadina», rejeitando os modelos de uma linguagem nostálgica e sofisticada.

O tema central dos livros de José Cardoso Pires (1925-1998) desenvolveu-se em redor dos mais diversos cenários geográficos e humanos de Lisboa, apesar de ser oriundo de São João do Peso, concelho de Vila de Rei, distrito de Castelo Branco. Explicava, sem rodeios, que nascera ali por mero acaso, pois os pais já se tinham fixado em Lisboa. Guardou a reminiscência da aldeia longínqua da Beira Baixa. A formação de José Cardoso Pires decorreu na Escola Primária de Arroios, no Liceu Camões, na Faculdade de Ciências e na Escola Naval para fazer o curso da Marinha Mercante. Tempo marcado pelo fim da Guerra de Espanha e a Segunda Guerra Mundial. Nos anos 40, despertou para a literatura. Fez parte de tertúlias famosas e que já desapareceram: o Café Hermínios, na Almirante Reis, ponto de encontro inicial dos participantes na aventura surrealista; o Café Chiado, um dos lugares dos frequentadores das livrarias Bertrand e Sá da Costa; e o Café Portugal, no Rossio, onde se reuniam os neorrealistas.


Foi a época do MUNAF e do MUD e das Exposições Gerais de Artes Plásticas, encerradas pela PIDE, na Sociedade Nacional de Belas Artes. Marcou o final da década de 50 a candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República. Os anos 60 ganharam contornos políticos escaldantes: a guerra colonial em três frentes de combate; a reabertura do Tarrafal, pelo ministro Adriano Moreira; o encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores, pelo ministro Galvão Teles. Literatura e política estão associadas na criação literária de José Cardoso Pires. Ao definir a sua regra de conduta afirmou que tinha por objetivo: «ridicularizar os cosmopolitismos, como sinónimo de provincianismo; sacudir os bonzos e demonstrar que a austeridade é uma capa do medo e da ausência de imaginação».

Num dos seus principais livros Dinossauro Excelentíssimo disseca o crepúsculo de Salazar e o equívoco da «primavera política» de Marcelo Caetano. Desvenda os labirintos de um País onde tudo se decidia no Terreiro do Paço, nos vários ministérios submetidos ao poder absoluto e discricionário. A pretexto do crime do Guincho, José Cardoso Pires, na Balada da Praia dos Cães, reconstituiu como era Lisboa e como era Portugal. O capitão Almeida Santos foi executado, a 16 de março de 1960, na vivenda Verde Pino, em Rio de Mouro, pelos companheiros que fugiram, com ele, do Forte de Elvas: o médico Jean Jacques Marques Valente, o cabo António Gil e Maria José Maldonado [Sequeira]. Ao conceber uma ficção, a partir de factos reais, Elias Santana – um nome e uma criação do escritor – desencadeia a condução da narrativa no quotidiano de Lisboa: as malhas da clandestinidade política, o espectro da traição, os ódios declarados e reprimidos, os impulsos do sexo, a ansiedade do isolamento, o conflito aberto entre duas polícias, a Judiciária e a PIDE, sempre com uma a tentar sobrepor-se à outra.

Outro romance de José Cardoso Pires, O Delfim – considerado a sua obra-prima – apresenta-nos uma série de metáforas (a lagoa, a caçada aos patos, por exemplo) não apenas dos anos 60, do auge da guerra colonial e do fim de Salazar, mas da realidade portuguesa, dos seus mitos e dos seus fantasmas. Tomaz da Palma Bravo, última abencerragem de uma dinastia de aristocratas, agarrado a usos e costumes senhoriais em extinção, pertence a um grupo que, nos anos 40 e 50, lançava o pânico, nas cenas de pugilato e violência das noites de Lisboa.


Quantos outros cenários, na Cartilha do Marialva, se multiplicam aproximando-nos da Lisboa boémia e maldita? José Cardoso Pires conheceu os marginais do Socorro, do Martim Moniz, do Bairro Alto, do Cais do Sodré e do Parque Mayer. Viu e ouviu os chulos, as prostitutas e os marialvas nos seus ambientes castiços. O vocabulário que uns e outros usavam entrou na sua escrita concisa, depurada, reduzida ao essencial.

As crónicas de José Cardoso Pires reunidas no Livro de Bordo retomam o itinerário do escritor, através das ruas, das tascas e dos cabarés que resistiram, ainda, aos primeiros anos da revolução. Do 25 de Abril que celebrou com entusiasmo e, durante mais de duas décadas, viveu e escreveu em liberdade. Dificilmente se ausentava de Lisboa, da sua casa em Alvalade e do círculo dos amigos. Também se refugiava na Costa de Caparica. O isolamento junto do mar estimulava-lhe a concentração, o exercício da escrita, a escolha das palavras, num exigente trabalho de seleção e elaboração da linguagem. Para escrever o que tinha apenas de dizer.

Aproxima-se o centenário do nascimento de José Cardoso Pires que decorrerá a 2 de outubro de 2025, com as comemorações nacionais devidas a uma das maiores figuras da literatura portuguesa do século XX. Tem um estatuto europeu e universalista e a dimensão do escritor que merecia a consagração do Prémio Nobel. Legou, sem qualquer margem para dúvidas, um dos mais notáveis patrimónios culturais da língua portuguesa.

Redescoberta de Cardoso Pires – por António Valdemar [jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], in Tempo Livre, Novembro/Dezembro de 2021, p.7 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

domingo, 22 de agosto de 2021

CESARINY, POR ELE PRÓPRIO – ANTÓNIO VALDEMAR

Cesariny, por ele próprio – por António Valdemar, in Expresso revista

Frontalidade provocatória para desmontar mitos consagrados, declarações polémicas acerca de poetas e escritores, repressão policial durante 30 anos por ser homossexual e, finalmente, atribuição da Grã-Cruz da Ordem da Liberdade

Reencontramos Cesariny: a limpidez do olhar, a clareza da voz e a atitude descomprometida. Trazia para os cafés e para o encontro ocasional nas ruas a provocação imediata, como “a forma de escapar, pelo humor, a uma seriedade hipócrita”, escreveu Perfecto E. Cuadrado, um dos principais estudiosos de Mário Cesariny, na introdução dos textos dispersos “Uma Última Pergunta — Entrevistas com Mário Cesariny” — que pode ser associado a outro livro não muito anterior, “Sinal Respiratório — Cartas para Sérgio Lima”, de correspondência com o escritor e pintor surrealista brasileiro.

Ambos permitem a aproximação com o poeta, o artista plástico e o comportamento humano de Mário Cesariny (1923-2006), que nos surpreendia com a lucidez e a mordacidade para desmontar a construção institucional dos mitos e das consagrações oficiais. Estes dois livros vieram completar outras recolhas: “Cartas de Mário Cesariny para Cruzeiro Seixas”; “Um Sol Esplendente nas Coisas — Cartas de Mário Cesariny para Alberto de Lacerda”; “Cartas para a Casa de Pascoaes”; e “Gatos Comunicantes”, correspondência entre Vieira da Silva e Mário Cesariny.

A organização das entrevistas, a cargo de Laura Mateus Fonseca, obedeceu a duas linhas: a do texto e a das imagens. Transcreve as entrevistas segundo uma ordem cronológica, acompanhadas dos respetivos recortes de jornais. As cartas para Sérgio Lima — outro manancial de informações autobiográficas — tiveram apresentação, edição e posfácio de Perfecto E. Cuadrado. Podemos seguir a evolução de Cesariny em Lisboa: as calorosas adesões e as ruturas bruscas e irredutíveis. Ainda não tinha 20 anos e era aluno da Escola António Arroio quando ingressou nas tertúlias nos cafés. Começou no café Hermínios, na Almirante Reis. Prosseguiu no café Royal, no Cais do Sodré, na Brasileira do Chiado e, finalmente, no café Gelo, no Rossio.

Marcaram o debate e o lançamento de projetos literários e artísticos. A revelação pública ocorreu em 1948 e coincidiu com o centenário do nascimento de Gomes Leal. Dos anos 40 aos anos 60, Cesariny demarcou-se, ostensivamente, do neorrealismo para se dedicar à intervenção no movimento surrealista. Permanece nos seus livros de poesia, fortemente autobiográficos: “Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos”, “Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano”, “Manual de Prestidigitação”, “Pena Capital”, “Titânia” ou “A Cidade Queimada”.

Os momentos mais significativos da poesia de Cesariny encontram-se nestes livros. Já as entrevistas e as cartas recuperaram juízos críticos e retratos de vidas feitas de cumplicidades, de intrigas, de invejas e de ódios. Vidas falhadas e vidas destroçadas ou vidas interrompidas pela morte, no auge da criação. Basta lembrar António Maria Lisboa.

APROXIMAÇÕES E RUTURAS

A posição de Cesariny fica documentada: “O surrealismo”, afirmou, “foi um convite à poesia, ao amor, à liberdade, à imaginação pessoal. O surrealismo reuniu o romantismo, o simbolismo, o futurismo, as tradições libertárias e outras correntes, e deu-lhes um sentido. Esse sentido não vai desaparecer, ficou explícito.” Esclarecia, contudo, que “depois dos 50 anos de idade já ninguém é surrealista, nem mesmo o movimento surrealista. Para que a semente germine, volte a ser futuro, terá de separar-se, baixar à terra. Será sem dúvida um trabalho de séculos — moroso, lento — ou terrivelmente rápido, fulgurante”. E acrescentava: “Antes, foi a liberdade coletiva roubada, agora é a nudez aflitiva que à direita e à esquerda quer aparecer vestida.”

A propósito dos vínculos entre a poesia e a pintura era categórico: “Escrevo desde 1942. A febre durou 12 anos. No fundo, escreve-se sempre o mesmo verso. Escrever poesia é uma espécie de invocação. Mas não se pode estar toda a vida a invocar o mesmo santo, sobretudo se ele não aparece. Assim sendo, não rezo mais. (...) A pintura parece não bulir tanto connosco. É a imagem à mesma, mas parece exterior. É um trabalho de mediação em que parece não se estar implicado.”

Cesariny nunca escondeu o que o afastava de André Breton, “o papa”, e a sua preferência por Artaud: “O Breton é o fim de qualquer coisa. O Artaud é um começo. O Breton levou as coisas até um limite que parece final. O Artaud vai além disso, foi buscar outras civilizações, uma antilinguagem. Gosto mais do Artaud, que decidiu viver o seu drama como tragédia cósmica.”

PASCOAES E PESSOA

E quais os poetas portugueses que admirava? Podemos sintetizar: Camões era uma citação óbvia, apesar de “ter engravatado a língua”. Colocava depois Bocage, mas fazendo questão de acentuar que nas “Cartas de Olinda e Alzira” foi “muito mais importante do que todas as ferrabrazices do Marques de Sade”. Incluía Antero, Gomes Leal e Cesário Verde entre os seus poetas maiores. Houve, ao descobrir Pascoaes, um tal deslumbramento que o levava a afirmar que “é maior do que Pessoa”; “Pascoaes é um poeta cósmico, que vai além de todos os limites, espaciais e lunares, e o Pessoa é um poeta que não sai da mesa do café.”

A geração do Orpheu, na altura em que Cesariny despertou para a literatura, era ainda mal conhecida. Cesariny passou a considerar Sá Carneiro “mais poeta por dentro e por fora do que o Pessoa dos múltiplos”. Ao falar acerca da obra ortónima e heterónima de Pessoa, declarou frontalmente: “A problemática do Pessoa é aldrabice da mais chilra, filosofia da instrução primária. Ele arranjou umas antinomias que não funcionam. O ‘ser tu sendo eu’ não há, não é problema para ninguém, aforismo pseudopsicológico e pseudofilosófico que ele transportou numa dilemática, com um talento literário muito grande.” Ou, então, “Fernando Pessoa, no fundo, é o antipoeta por excelência. Ele é um puro racionalista, a não ser quando se exalta e assina Álvaro de Campos”. Procurava, às vezes, justificar que não era contra Pessoa, mas “contra a catedral em que se transformou e que até já dá bolsas de estudo”.

POETAS CONTEMPORÂNEOS

Cesariny destacava, em relação aos contemporâneos, António Maria Lisboa, “um importantíssimo poeta de linguagem europeia — e antieuropeia — demandando outras margens de onde só mais um se avista Rimbaud”. Admirava a autenticidade de Sophia de Melo Breyner. Irritava-se com “a poesia lamento, o Régio que gritava e doía–lhe tudo”. Enaltecia José Sebag, “poeta de uma poesia fulgurante, que publicou um só livro e desapareceu do mapa”. Punha reticências a Herberto Helder, incluído “na lista negra-azul que o tempo areja”, celebrado “nos anos cinquenta e oito, sessentas” devido a “um pendor lírico tipo Cântico dos Cânticos, servido por suma jeitaça para metáfora-uma-atrás-da-outra-é-um-nunca-acabar. Que fazer?”

Cortou relações com Alexandre O’Neill, um dos companheiros das primeiras horas; manteve um conflito latente com Jorge de Sena e, sobretudo, uma aversão visceral a José-Augusto França. Replicava as picardias de Luiz Pacheco e devolvia as perversidades de Cruzeiro Seixas.

A CONSAGRAÇÃO OFICIAL

As entrevistas e as cartas de Cesariny revelam a inovação que introduziu na poesia, o arrojo da linguagem e, simultaneamente, a insubmissão e a virulência cáustica perante os convencionalismos sociais, a mediocridade cultural e os totalitarismos políticos. Até ao fim da vida, mesmo depois dos 80 anos, foi um provocador inveterado. Com razão ou sem razão. Sem temer qualquer controvérsia.

Acusado de homossexualidade, suportou, até ao 25 de Abril, a repressão sistemática da Polícia Judiciária, “uma filial da PIDE”, e a intimidação, o terror e as ameaças do Tribunal de Execução de Penas. Menciona os nomes de juízes para memória futura. E pormenorizou que “tinha inscrito, na ficha da polícia, ‘suspeito de vagabundagem’.

Durante 30 anos ‘suspeito’! Podiam investigar e tirar conclusões, não? Primeiro, ia lá todos os meses, como as putas. Depois, de três em três meses; depois, de seis em seis, e, por fim, o que eles quisessem, podia ser até à minha morte. Tinha medo de ir ao telefone, ao correio. Ao princípio ainda me ria para dentro, mas começou a tornar –se insuportável”. Os enxovalhos que sofreu deixaram feridas profundas. Fora sujeito à execração pública. Recebeu, contudo, as homenagens de dois Presidentes da República: Mário Soares integrou-o nos convidados de viagens de Estado ao estrangeiro; Jorge Sampaio atribuiu-lhe o mais elevado grau das condecorações honoríficas, a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade. Mario Cesariny já era, há muito, consagrado como artista e, sobretudo, como um dos maiores poetas do seu tempo e da sua geração. Faltava este reconhecimento. E que Cesariny não recusou.


Cesariny, por ele próprio
– por António Valdemar [jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], in E revista do Expresso, 20 de Agosto de 2021, p.58-59 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

AS “OITO LUAS” DE GOMES LEAL NUNCA FORAM SEPULTADAS – ANTÓNIO VALDEMAR

 


As “oito luas” de Gomes leal nunca foram sepultadas – por António Valdemar, in Expresso

Poeta de surpreendentes ruturas e inovações, exerceu influência na sua geração e projetou-se no século XX ao ser reconhecido pelos movimentos de “A Águia”, do “Orpheu”, da “Presença”, dos surrealistas e outros representantes das atuais tendências literárias

1921 foi um dos anos horríveis da república. Vivia-se num sobressalto contínuo. Multiplicavam-se as guerrilhas partidárias, as revoltas militares, as reivindicações sindicais. Lisboa concentrava o auge do tumulto que se repercutia através do país. A situação atingiu o rubro com a “noite sangrenta”, o 19 de outubro, os assassínios do primeiro-ministro, do fundador da república e outras altas personalidades civis e militares. Mercenários contratados, por adversários políticos, foram buscá-los a casa, introduzidos numa “camioneta-fantasma” para serem abatidos a tiro. A sangue frio.

O poeta Gomes Leal faleceu a 29 de janeiro. Quase todos os jornais encontravam-se em greve. Não havia as condições que permitiram, na 1ª República, os funerais apoteóticos de Cândido dos Reis, Miguel Bombarda, Sidónio Pais, Guerra Junqueiro e Teófilo Braga, os três últimos com honras de Panteão Nacional, ainda nos Jerónimos.

Gomes Leal caíra em desgraça. Pessoal, política e social. Apesar de tudo isto, prestaram-lhe homenagem o chefe de Estado, António José de Almeida, e compareceram, no cemitério do Alto de São João, Henrique Lopes de Mendonça, presidente da Academia das Ciências, outros poetas e escritores, muitos estudantes universitários. Fernando Pessoa consagrou-o em versos emblemáticos: “Seus três anéis irreversíveis são/ a desgraça, a tristeza, a solidão./ Oito luas fatais fitam no espaço. (…) Inúteis oito luas da loucura/ quando a cintura tríplice denota/ solidão e desgraça e amargura!/ Mas da noite sem fim um rastro brota,/ vestígios de maligna formosura:/ é a Lua além de Deus, álgida e ignota.”

Em maio de 1910, morrera a mãe com quem sempre vivera. Gomes Leal estava com 62 anos. Os efeitos devastadores do alcoolismo aceleraram a progressiva desagregação física e intelectual, enquanto resvalava na mais deplorável miséria. Nesta situação de angústia e desespero, Gomes Leal — o poeta com relâmpagos satânicos, mas com um cristianismo afetivo que se manifestara em “História de Jesus” (1883), um dos seus livros de maior êxito — é levado a converter-se ao catolicismo. Repetia-se a situação que Roger Martin du Gard analisou no livro “O Drama Jean Barrois”, Premio Nobel da Literatura em 1913.

A conversão de Gomes Leal transpôs o domínio da privacidade. Ficou devassada na “Carta aos Sacerdotes Christãos”. Entre outras afirmações que deram brado, avulta esta confissão perentória: “Solenemente declaro que me retrato, repilo, abjuro de todos os escritos e poemas em que se mantém matéria contrária aos ideais que atualmente professo, e que foram de escândalo para Cristo e a sua Igreja.”

Foi a 2 de agosto de 1910, no jornal católico e monárquico “A Liberdade”, órgão do Partido Nacionalista que relatou a conversão de Gomes Leal. Pouco antes Gomes Leal mantivera uma coluna de opinião n’ “O Mundo”, a tribuna oficial do Partido Republicano. A 5 de outubro implantou-se o regime que tivera nele um dos mais inflamados propagandistas, mas que, na hora da vitória, o encontrou no outro lado da barricada


MEMÓRIA NA CIDADE

Numa época de exacerbado anticlericalismo, a conversão de Gomes Leal e o seu aproveitamento deram lugar a muitas especulações e afastaram-no de antigos correligionários. Pouco depois também era abandonado por católicos e monárquicos. Ficou só. Pobre, desamparado, sapatos rotos, calças esburacadas, fato velho e cheio de nódoas. Assobiado e apedrejado nas ruas, pelos garotos e pelos vadios, sem ter onde comer e dormir, passava as noites nos bancos do Rossio e da Avenida.

Transformara-se na imagem que visionara, em 1880, em ‘Fome de Camões’ ao reconstituir os passos do poeta, a caminhar “altas horas, ao frio das nortadas,/ é Camões que de fome se definha/ nas ruas de Lisboa abandonadas.” (…) “Triste, velho, sem-abrigo,/ faminto, abandonado e vagabundo,/ tenta esmolar também pelas esquinas.” (…) “A mão recusa-se a suster o passo/ a fome roí-o, curva-o o cansaço./ Cospem-lhe a neve, a chuva os aguaceiros./ Ó calçadas fatais! nas enxurradas/ vai muito fel de lágrimas choradas.”

Perante o farrapo humano e intelectual a que Gomes Leal chegara, Teixeira de Pascoaes ofereceu-lhe a sua casa em Amarante. Não quis sair de Lisboa. Jaime Cortesão, ao tempo deputado, fez um apelo veemente ao Parlamento para que lhe pagassem uma pensão de sobrevivência. Graças à solidariedade de um dos poucos amigos, o deputado socialista Ladislau Batalha, foi recolhido em sua casa onde viria a falecer. Fez na semana passada cem anos.

A memória de Gomes Leal revive em Lisboa, numa rua da cidade, num pequeno jardim e ainda num monumento no cemitério do Alto de São João, logo à entrada, no centro da alameda principal. Inaugurado em dezembro de 1925 ficou a dever-se ao poeta Alfredo Guisado, quando pertencia à Câmara de Lisboa, à última vereação da 1ª República. Em vez do retrato físico de Gomes Leal o escultor Francisco dos Santos (1878-1930), um dos autores do busto da República e da estátua do Marques de Pombal, optou pela figuração simbólica. Incorporou Gomes Leal na representação mitológica de “Orpheu”.

AS DUAS FACES

Nas últimas décadas do século XIX, Gomes Leal arrebatou Lisboa — e Lisboa era o país — com torrentes de sátira feroz e de harmonias líricas. Em 1872, a revista “Espectro de Juvenal”, que fundou com Magalhães Lima, incluía no estatuto editorial: “Juvenal é para nós o símbolo da consciência indignada. Nós somos a indignação. Nós somos incorrigíveis.” Esta declaração programática — que se acentuará em publicações de audiência diária como, por exemplo, o jornal “O Século” — vai marcar toda uma trajetória.

Desafiou o poder e os poderosos em situações pontuais com protestos incendiários que o levaram aos tribunais e às prisões. Batia-se por causas políticas e objetivos sociais. O escândalo suscitado pelo Tratado com a Inglaterra para a venda de Moçambique foi um dos momentos retumbantes de intervenção pública, no poema ‘A Traição — Autópsia de um Rei’. Não poupou o rei D. Luís, nem os ministros envolvidos neste processo.

O mesmo sucedeu ao interpelar o jornalista António Rodrigues Sampaio que, ao ascender a membro do Governo e a primeiro-ministro, era acusado de perseguir a imprensa, esquecendo o seu passado revolucionário: “Eis-me, em frente de ti velho urso na caverna (…) perguntando-te, ó Velho — onde está o Direito?/ o que fizeste ao Povo, á Consciência ao Brio?/ Onde está o pudor, rude ancião sombrio?/ Quem és? Quem és? Quem és — velho cheio de fel?/ Onde está, ó Caim o teu irmão Abel?/Quem és? Quem és? Ó Gloria! Ó nome hoje aviltado!/ Tu foste a alma do povo, hoje um renegado.”

Mas Gomes Leal teve, desde sempre, a consciência da precariedade destas intervenções, ao advertir “um panfletário é uma bexiga inchada/ de cólera, de fel, de inveja e dinamite/ que um dia explodirá assim que o fogo excite/ fazendo rebentar o mundo em estilhaços”.

A amplitude do seu génio literário — ele próprio o sabia — não se limitava à cólera dos panfletos, à ferocidade de gargalhadas nas implacáveis anotações do quotidiano. Tem outra face, num outro universo que construiu em vários ciclos e que mergulha nas vulnerabilidades da natureza humana. Atingiu em ‘Mulher de Luto’ e ‘Serenadas de Hilario no Céu’ a interioridade dos prantos sem resposta, que se deparam nas redondilhas de Camões, ‘Sobolos Rios’; em ‘Elegia do Amor’, de Teixeira de Pascoaes; e na invocação à ‘Noite’, de Álvaro de Campos.


REIVINDICAÇÃO GEOGRÁFICA

Uma das referências da obra de Gomes Leal situa-se em 1875 ao publicar “Claridades do Sul”. Coincidiu com a versão definitiva de “Odes Modernas”, de Antero de Quental, e a primeira versão de “O Crime do Padre Amaro”, de Eça de Queiroz. Gomes Leal tinha 27 anos e logo se afirmou um dos maiores poetas, em face dos seus contemporâneos. Teve uma celebridade precoce.

A grande viragem na poesia verificara-se com Antero, a partir de 1864, em “Odes Modernas”. Introduzia uma nova linguagem que se afastava das confissões ultrarromânticas, dos madrigais empolgantes, dos sentimentalismos bucólicos, para integrar a poesia nos ideais humanitários da revolução, no projeto do socialismo e na campanha para instaurar o Partido Republicano.

O aprofundamento literário, filosófico político e social vai desenvolver-se, na polémica “Bom Senso e Bom Gosto”, liderada por Antero contra António Feliciano de Castilho e seus epígonos. Acompanhou Gomes Leal este movimento e o debate ideológico desencadeado com a realização, em 1871, das Conferências do Casino.

Obra de inovação e de rutura, “Claridades do Sul” assinala, no próprio título, uma reivindicação geográfica, em face dos outros centros literários: de Coimbra das centenárias tradições culturais repartidas entre a Universidade e o Mondego; das névoas e brumas do Porto e de outros locais do norte, por vezes, em intercâmbio com a Galiza.

Lisboa, muito antes de Orpheu (1915), além de capital política, desde tempos remotos, possui vida cultural autónoma. Estabelece a transição com áreas de forte significação cultural: o Sado e a Arrábida, definidos na geografia de Orlando Ribeiro e reintegrados na literatura por Frei Agostinho da Cruz, de Sebastião da Gama e João Bénard da Costa; a planície do Alentejo, que revive nas obras de Ficalho, de Brito Camacho e de Manuel da Fonseca; e o Algarve, da serra e do litoral, entre o Atlântico e o Mediterrâneo, recriado por Teixeira Gomes, João Lúcio e Ramos Rosa.

Num poema sobre Lisboa, Gomes Leal exalta a luz, a cor, os aromas, a singularidade das colinas e a configuração dos bairros, enquanto se detém nos anacronismos e contrastes das populações: “A cidade é beata: e às lúcidas estrelas,/ o vício à noite, sai aos becos e às ruelas,/ sorrindo, a perseguir burgueses e estrangeiros.../ E à fosca e dúbia luz dos baços candeeiros,/ — em bairros imorais, onde se dão facadas —/ rola, às vezes, o vinho e o sangue nas calçadas.”(…) “As mulheres são gentis. — Umas frágeis, morenas,/ graves, sentimentais, amigas de novenas,/ ébrias de devoções, releem as suas Horas./ — Outras fortes, viris, os olhos cor de amoras,/ os lábios sensuais, cabelos bons, compridos,/ às vezes, por enfado, enganam os maridos!” (…)

Prossegue a dissecação dos hábitos, superstições e outros comportamentos inveterados que marcam a rotina. É implacável ao denunciar (tese de Antero) os fatores de atraso e mediocridade que, há séculos, contribuíram para a decadência social e cultural não só da cidade, mas do próprio país: “No entanto, a sua vida, é quase intermitente./ Chafurda na inação, feliz, gorda, contente./ E, eclipsando as ações dos seus navegadores,/ abrilhanta a batota e as casas de penhores./ Faz guerra à arte, à Ação, ao Ideal… e, ao cabo,/ — é talvez a melhor amiga do Diabo!”


PROJEÇÃO E ATUALIDADE

Poesia de largo fôlego — onde tudo é sempre levado aos extremos — deixou dezenas de livros e folhetos, recentemente publicados em edições críticas da Assírio & Alvim. Exerceu influência na sua geração e nas gerações seguintes: Cesário Verde e Camilo Pessanha. Abriu caminho à poesia do século XX: aos poetas da Águia e da Renascença Portuguesa, Teixeira de Pascoaes, Augusto Casimiro, Jaime Cortesão e Afonso Duarte não hesitou até em considerá-lo “o maior poeta português de todos os tempos”.

Louvado pelos poetas do “Orpheu”: Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Alfredo Guisado, Luís de Montalvor e Raul Leal, alguns dos quais o reconheceram como mestre. Teve a maior audiência no grupo e na geração da “Presença”: José Régio, António de Sousa, Edmundo de Bettencourt e Vitorino Nemésio que o biografou e antologiou. Os surrealistas Mário Cesariny, Natália Correia e Alexandre O’Neill, e outros representantes das atuais tendências literárias identificaram-se com as explosões de quimeras, de acasos, desvarios, sarcasmos e soluços de Gomes Leal.

Apesar de todas as adversidades nunca foi ignorado, nem esquecido. As “oito luas” de Gomes Leal nunca foram sepultadas. Se perdeu a relação imediata com o grande público que só se entusiasma com incursões pontuais, Gomes Leal também construiu um outro universo apenas com fronteiras na própria poesia. A posteridade reencontrou-o sempre nesse território intemporal, que encerra o que há de mais íntimo e mais secreto, dentro de todos nós.

As “oito luas” de Gomes leal nunca foram sepultadas – por António Valdemar [jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], in E revista do Expresso, 5 de fevereiro de 2021, p.58-59 – com sublinhados nossos.

J.M.M.