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sábado, 5 de agosto de 2023

IN MEMORIAM DE MARIA FERNANDA ALVES DA VEIGA DE OLIVEIRA (FANA) 1949-2023

 


Maria Fernanda Alves da Veiga de Oliveira (1949-2023) expirou três dias antes de celebrar o seu aniversário. Partiu, deixando um mar de afeição, generosidade e carinho – tão raros nestes tempos - entre amigos, conhecidos ou simples cidadãos. A Maria Fernanda (Fana) fez um caminho repassado de luz, paixão e alegria. Bisneta do advogado, professor e publicista republicano e prestigiado maçon [Augusto Manuel] Alves da Veiga, fundador do Partido Republicano e chefe civil da gorada Revolução de 31 de Janeiro de 1891, cedo participa nas lutas pelos direitos cívicos do Portugal amordaçado, integrando no liceu o coletivo do MAEESL e na faculdade a direcção da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa. A seguir ao 25 de Abril de 1974 integrou a 1.ª direcção da Faculdade de Ciências de Lisboa. A Maria Fernanda era neste momento Professora de matemática Jubilada da FCT da Universidade Nova de Lisboa, assim como da Escola Naval. A Maria Fernanda (Fana) tinha a humanidade como um largo mar, onde todos os Homens navegam livremente, como cidadãos fraternos. A sua confiança na felicidade do Homem era inabalável. Ditosos de nós pela estima que nos honrou.

Ao companheiro e nosso querido amigo Fernando Castel-Branco Sacramento, bem como a toda a sua família, o nosso mais sentido pesar. RIP

► “Um grande abraço fraternal de agradecimento a todos pelas vossas palavras amigas de despedida da Fana, bisneta e neta da mais ilustre linhagem de insignes republicanos e maçons portuenses e portugueses, de quem honrosamente recebi o testemunho e a herança da fé inabalável do trabalho a bem da Grei e da esperança e certeza de que, colectivamente e em cadeia de união, seremos sempre capazes de encontrar a força, a energia e a capacidade de ultrapassar as dificuldades e os obstáculos que a vida e a nossa caminhada de homens livres e de bons costumes e de povo multissecular nos apresentem, na sempre eterna luta entre a luz e as trevas, apresentando-se, nesta circunstância, as adversidades como um desafio e uma prova que nos tempere na nossa caminhada de seres livres, mas que respeitem sempre a liberdade de crescimento plural, diverso e inclusivo do outro, na construção de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária.

[…] a Fana, minha companheira de vida, por mais de 50 anos, foi sempre um inabalável esteio onde encontrei em todas as ocasiões um firme apoio e incentivo para que não vacilasse e ultrapassasse, de uma forma cordial, cortês, afável e civilizada os inevitáveis escolhos que a caminhada maçónica, espiritual e cívica nos apresentem e que me ensinou a tratar todos como pessoas únicas com quem temos sempre algo a aprender.

Um bem hajam a todos vós”

[Fernando Castel-Branco Sacramento, 05/08/2023]

NOTA: Na 2ª feira (7 de Agosto) o féretro estará na sala Multiusos do PM do Porto, a partir das 17 horas; o funeral partirá para o Cemitério da Lapa, na 3.ª feira (8 de Agosto) à hora de almoço. 

J.M.M.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

[DIA 8 FEVEREIRO] - ALVES DA VEIGA (1849-1924). UMA PROPOSTA DE ORGANIZAÇÃO FEDERATIVA DA SOCIEDADE PORTUGUESA



AUTORA: Sónia Rebocho;
EDITORA: Caleidoscópio, 2017;

NOVA APRESENTAÇÃO DA OBRA:

DIA: 8 de Fevereiro de 2019 (19,00 horas);
LOCAL: Grémio Lusitano (Rua do Grémio Lusitano, 25), Lisboa;
ORGANIZAÇÃO: Museu Maçónico Português;

ORADORES: Professor Amadeu Carvalho Homem (FLUC) | Jorge Ferreira (Editor da Caleidoscópio) | Fernando Sacramento (Moderador)

► “Na chuvosa e fria madrugada do dia 31 de Janeiro de 1891, por volta das duas horas, começam a sair para a rua militares aquartelados no Porto, dando início à primeira tentativa de instaurar a República no país.

Augusto Manuel Alves da Veiga, advogado e professor nesta cidade, paga o seu envolvimento como chefe civil desta intentona falhada com duas décadas de exílio e o afastamento da ribalta da política nacional.

Com a implantação do regime republicano, Alves da Veiga vê o seu sonho de décadas cumprido e como patriota que se afirmava, e demonstrou ser, procura dar o seu contributo para a construção de um outro Portugal, ao escrever e enviar à Assembleia Nacional Constituinte o texto Política Nova: Ideias para a reorganização da sociedade portuguesa. Nesta obra apresenta um projecto de organização federalista e municipalista do Estado Português. Muitas das ideias defendidas por Alves da Veiga neste volume, apesar de não virem a ser adotadas pelos constituintes de 1911, são emblemáticas das opções ideológicas mais expressivas e vanguardistas do movimento republicano oitocentista português

Estamos em crer que o pensamento e os temas abordados pelo Dr. Alves da Veiga no seu projeto federativo de sociedade ainda, hoje em dia, mantém o fulgor e a inquietação intelectual propício à riqueza de um proveitoso debate, nomeadamente aos modelos a adotar na União Europeia, suscitado por este livro” [Fernando Castel-Branco Sacramento - Director do Museu Maçónico Português]

A não perder. 

J.M.M.

domingo, 29 de janeiro de 2017

SANTOS CARDOSO (HENRIQUE JOSÉ DOS) – NOTA BREVE SOBRE UM DOS REVOLUCIONÁRIOS DO 31 DE JANEIRO DE 1891


 
Henrique José dos Santos Cardoso
 
Henrique José dos Santos Cardoso nasceu em Santa Comba de Vilariça, concelho de Vila Flor (distrito de Bragança) a 21 de Abril de 1842 [cf. Memórias do Abade de Baçal, tomo VII, p. 78; no Portugal Diccionario Historico, de Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, vol VI, p. 651, é referido o ano de 1843]. Era filho de João José dos Santos Cardoso e Teresa de Jesus, proprietários, naturais de Castro (concelho de Chaves).

Teve Santos Cardoso um filho [Henrique José dos Santos Cardoso], nascido no Porto a 3 de Novembro de 1870 e assassinado em Lisboa [“atingido pelas costas” por um tiro disparado quase em frente ao teatro de S. Carlos, na rua Paiva de Andrade, por elementos hostis ao Partido Republicano Português (refira-se que um dos presos, presumível coautor do crime, o operário do Arsenal Francisco Henrique de Morais, se suicidou na esquadra da travessa das Almas) quando se dirigia (juntamente com Alexandre Braga e Artur Costa) para a sede do PRP, para uma reunião do Diretório] em 28 de Fevereiro de 1915 [o seu funeral decorreu na cidade do Porto, estando presentes, na imponentíssima manifestação fúnebre para o cemitério do Repouso, inúmeros centros e grémios republicanos, vultos republicanos nacionais, entre eles o dr. Afonso Costa e Alexandre Braga]. Foi assistente de Química no Instituo Comercial e Industrial do Porto, desempenhou diversos cargos públicos e era deputado do PRP (eleito por Vila Nova de Gaia) na data do seu assassinato. Como seu pai, era um vigoroso republicano, jornalista (no jornal A Pátria), notável polemista e estimado bibliófilo.  

Henrique José dos Santos Cardoso (pai) foi barbeiro na sua terra natal antes de partir para o Porto, onde fixa residência [cf. Memórias do Abade de Baçal, ibidem] e estabelece o seu negócio, ao mesmo tempo que se torna um dos mais vigorosos jornalistas populares. De “hercúlea corpulência, as suas barbas infinitamente compridas, o seu grosso bengalão e, sobretudo, a virulência dos seus escritos, trouxeram por muito tempo aterrada a cidade do Porto” [ibidem].

Republicano (foi eleito para o Diretório do Centro Eleitoral Republicano do Porto, em 1878; participa, publicamente nas manifestações republicanas, presidindo mesmo a um comício anti-jesuítico no ano de 1888) e jacobino, é proprietário, fundador e redactor do periódico “A Justiça Portuguesa” [nº espécimen, 2 de Agosto de 1880 ao nº 727, de 25 de Junho de 1894 – suspendeu a publicação entre 16 de Janeiro de 1891 a Outubro de 1893; impresso na Typ. Alliança, depois na Typ Occidental, Porto], onde escreveu as mais “tenazes campanhas contra as instituições monárquicas” [Portugal Diccionario Historico, ibidem]. Tal atitude carreou-lhe inúmeros inimigos e a fama dos que professavam as “ideias avançadas” do republicanismo, apesar da maledicência e truculência que exercia nos seus escritos e na acção política [sobre esta questão em torno de Santos Cardoso, ver João Chagas & Ex-Tenente Coelho, “História da Revolta do Porto de 31 de Janeiro de 1891”, 1978, reed., p. 67-83; consultar, também, as diversas referências a Santos Cardoso em Guilherme Martins Rodrigues Sampaio, “A ideia federalista em Augusto Manuel Alves da Veiga 1850-1924”, obra de mestrado em História Contemporânea, FLUL, 2009), principalmente p.70 e ss.; consultar, ainda, o trabalho de Fernando de Sousa, A revolta de 31 de Janeiro de 1981]

Foi Santos Cardoso o “braço direito” de [Augusto Manuel] Alves da Veiga

[advogado, publicista, militante republicano federalista, fundador da primeira agremiação republicana do Porto (1876: trata-se do Centro Republicano Democrático do Porto, com sede na rua de S. Bento da Vitória, curiosamente no rés-do-chão da casa de habitação de Sampaio Bruno; refira-se que o Centro mudou de nome, passando a denominar-se Centro Eleitoral Republicano Democrático do Porto, em 1877, onde passou a pontificar Rodrigues de Feitas; aliás, Alves da Veiga foi o autor do seu “Manifesto” – sobre Alves da Veiga e o Centro Republicano, consultar, ainda, Guilherme Martins Rodrigues Sampaio, ob. cit.), importante maçon portuense e o chefe civil da revolta republicana do 31 de Janeiro de 1891],

tendo entrado com ele, no dia 31 de Janeiro de 1891, no edifico da Câmara Municipal, onde Alves da Veiga declara deposta a monarquia. Na verdade, foi (a partir de Agosto de 1890) na casa comercial do Santos Cardoso que muitos elementos da guarda-fiscal foram instruídos para a revolta republicana do Porto, aliciados pelo jornal “O Sargento” [Órgão dos Oficiais Inferiores do Exercito Português]. Diga-se que por detrás desse movimento republicano conspirativo estava João Chagas - que cedo compreendeu a importância moral e cívica de Alves da Veiga para coordenar a revolta - e o seu jornal “A Republica Portuguesa”. Por último, diga-se que terá sido o próprio João Chagas que “teve a ideia em Setembro (1890) de encarregar Santos Cardoso da agremiação dos sargentos – vide Guilherme Martins Rodrigues Sampaio, op. cit., p. 72].
 
   
Foi, portanto, Santos Cardoso um dos instigadores da revolta, um elemento valioso num certo período de tempo, muito embora com as limitações, demagogia, erros e a postura pouco moral - que lhe foi apontada por João Chagas, in História da Revolta do Porto de 31 de Janeiro de 1891, ibidem - e passe os termos depreciativos com que o virulento [Francisco] Homem Cristo [então tenente e chefe do Diretório Republicano de Lisboa, aliás líder da facção conservadora dos republicanos; Homem Cristo, que era contra a tentativa de rebelião do Porto, inclusive considerava-a como uma “provocação monárquica”, ao ponto de publicar no jornal “Debates” de 27 de Janeiro de 1891 um artigo em que atacava Alves da Veiga e Santos Cardoso, pedindo aos republicanos para que não dessem créditos aos dois – citado por Guilherme Martins Rodrigues Sampaio, op. cit., p. 79; idem por Fernando Sousa, ob. cit.] o apodou - como ter praticado actos cobardes e denunciando camaradas -, no seu livro “Os Acontecimentos de 31 de Janeiro e a minha prisão, Lisboa, 1891, que aliás carecem de ser confirmados.

Na brutal “ressaca” da revolta frustrada do 31 de Janeiro de 1891, de que resultou inúmeros mortos e estropiados entre os revoltosos, tendo que os melhores quadros republicanos sofrido pesadas humilhações entre o exílio (caso de Alves da Veiga, António Claro, Basílio Teles, Sampaio Bruno), a prisão e o degredo (João Chagas, Santos Cardoso, capitão Leitão, tenente Coelho e outros mais).

Santos Cardoso foi condenado, no conselho de guerra de Leixões a uma pena de prisão maior celular, por quatro anos, seguidos de degredo por oito. Pela amnistia de Fevereiro de 1893 regressou a Portugal e retomou o seu jornal, A Justiça Portugueza, agora fustigando os antigos correligionários.    

Escreveu Santos Cardoso: “Verdades de Sangue, com dois juízos críticos pelos Exmos Snrs. Drs Alves da Veiga e Pedro Amorim Viana (tem o retrato do autor), Porto, Tip. Ocidental, 1877, p. 92; “Verdades de Sangue. Escândalo Bancário, história dos acontecimentos da crise monetária e bancária de 1875 a 1877. Porto, Tip. de Alexandre da Fonseca Vasconcelos, 1878, p. 128 [ um anunciado 3º volume, não saiu].

Henrique José dos Santos Cardoso viveu algum tempo em Lisboa, regressando ao Porto quando a doença o atingiu. Morreu em Vizela, a 5 de Agosto de 1899.

J.M.M.

sábado, 30 de janeiro de 2016

DR. AUGUSTO MANOEL ALVES DA VEIGA – “A VOZ QUE RIJAMENTE PROCLAMOU A REPÚBLICA EM PORTUGAL”



Alves da Veiga nasceu no dia 28 de Setembro de 1849 em Izeda (Bragança). Ainda jovem, com 15 anos, parte rumo a Coimbra, a instância de Emídio Garcia, conterrâneo e amigo da família, filho de um dos seus professores do liceu (Leonardo Emídio Garcia), para aí completar os estudos preparatórios e fazer o ingresso na Universidade de Coimbra. É acolhido na casa de Manuel Emídio Garcia (lente da Universidade de Coimbra e destacado maçon, igualmente nascido em Bragança em 1838), tornando-se seu “protegido” e estabelecendo uma amizade para a vida, como seu discípulo.

Cedo, como estudante, mostrou grande interesse pela imprensa, redigindo nos tempos liceais o periódico O Lyceu-Semanário Cientifico e Literário, colaborando sempre na imprensa da sua época. Em 1867, com 18 anos de idade, publica num semanário local de Coimbra um conjunto de artigos, sob o título genérico de “Ensaio sobre Philosophia Alemã – Kant e sua escola”. Na esteira do pensamento positivista revolucionário, filosófico e federalista de Emídio Garcia, publica em 1872, enquanto estudante do 3º ano da faculdade, as suas aulas de “Estudos de Philosophia Política”.

Nesse período da academia, em Coimbra, cimenta igualmente uma forte amizade e companheirismo no apostolado republicano com Sebastião Magalhães de Lima, que perdura ao longo de toda a sua vida, reforçada pela possível pertença de ambos à Loja Perseverança, de que igualmente fazia parte Manuel Emídio Garcia.

Em 1873, dois meses depois da implantação da República em Espanha, funda o semanário A República Portugueza (órgão do Partido Republicano de Coimbra) com os seus colegas de faculdade Magalhães de Lima, Álvaro Morais e Almeida Ribeiro.

Terminado o curso de direito em 1874, fixa residência no Porto em 1875, onde estabeleceu banca de advogado, dando igualmente aulas particulares durante algum tempo. Casa com Joana Teixeira, abandonando, entretanto, a actividade de advogado e dedica-se ao ensino liceal, a par da sua acção de propaganda republicana.

No Porto inicia um percurso de intenso labor na difusão dos ideais republicanos, quer como um dos fundadores do Partido Republicano, quer como tribuno, quer como periodista. Sampaio Bruno escreveria em 1881 que Alves da Veiga era o "elemento mais pronunciado e dominante da democracia nas províncias do norte, que ele tem percorrido como propagandista sem tréguas". Nesta sequência e em resultado de reunião realizada no Porto em 2 de Abril de 1882, presidida pelo professor catedrático Emídio Garcia, cria-se uma comissão constituída por Alves da Veiga, Júlio de Matos e Manuel J. Teixeira (seu cunhado) em representação do Porto, e Magalhães de Lima e José Falcão em representação de Coimbra, com vista à organização, em Junho de 1883, do “partido republicano”.

Emídio Garcia, em 1882, atribui a Alves da Veiga, na Galeria Republicana, o epíteto de “uma das mais distintas individualidades do partido republicano portuguez”. Foi o primeiro deputado republicano, apresentado pelo Porto, a entrar no “Parlamento da Monarquia”.

Como periodista colabora também no jornal O Século, fundado em 1880 pelo seu colega de curso Magalhães Lima e nos por si co-fundados A Actualidade e A Discussão, este por si financiado.
 
 

Na esteira do seu intenso labor organizativo e de tribuno em prol do republicanismo, no Porto e no norte do país, funda o Centro Republicano Democrático do Porto, através do qual publica importantes contribuições para a difusão dos ideais federalistas republicanos, cuja bandeira rubra foi arvorada no dia 31 de Janeiro de 1891 na CM do Porto. Na sequência do incêndio que deflagrou na trágica noite de 22 de Março de 1888, o Porto viveu uma terrível tragédia em que pereceram carbonizados muitos dos espectadores então presentes. Passados dois dias, depois da Matinée da Imprensa Portuense realizada no Palácio de Cristal, para angariação fundos para apoio às vítimas, D. Maria Pia percorreu durante quatro horas as casas dos parentes das vítimas, distribuindo generosamente libras de ouro. O líder do Partido republicano, Alves da Veiga, foi um dos visitados, não porque lhe tivesse morrido alguém, mas para a Rainha lhe agradecer o gesto de recolher dois órfãos de um dos mortos do Teatro Baquet. João Chagas, acompanhou a visita e deixou-nos a descrição pormenorizada desse tocante "momento de conciliação de dois princípios", que reuniu num acto solidário a possibilidade da junção da máxima representante da monarquia e do chefe da oposição republicana.

Em 1 de Abril de 1890, integra a lista de membros fundadores da “Associação Protectora do Asilo de S. João”, no Porto, que mais tarde virá a tornar-se o actual Internato de S. João.

Do seu percurso maçónico é de referir que, no Porto, integra os quadros da Loja Primavera (com o nome simbólico de Descartes) e da Loja Independência, de que foi um dos fundadores em 1887 e seu Venerável, pelo menos, em 1891. Atingiu em 1889 o grau 33 do REAA (Rito Escocês Antigo e Aceite). Em 12 de Agosto de 1891 foi abatido do quadro da Loja Independência, em virtude dos acontecimentos do 31 de Janeiro de 1891, regressando ao seu quadro em 21 de Outubro de 1891, após proposta de re-inserção votada por unanimidade das Lojas presentes na Grande Dieta realizada nos finais de Setembro de 1891, sendo nomeado seu venerável honorário em 14 de Janeiro de 1892.

Em 1890 é referido no Boletim de Procedimientos de 15 de Janeiro de 1890, como representante do Soberano Gran Consejo General Ibérico (SGCGI), a que estava agregada a sua Gran Logia Simbólica Española del Rito Antigo y Primitivo Oriental de Memphis y Mizraím. O Dr. Alves da Veiga fez parte dos quadros do SGCGI durante muitos anos, mesmo durante o seu exílio, após o 31 de Janeiro de 1891, figurando como «membro honorário» do Supremo Conselho do SGCGI.

Como refere José Augusto SeabraAugusto Manoel Alves da Veiga, ilustre advogado e professor do Porto, foi uma personalidade prestigiada, que exercia uma profunda influência na vida cívica, social e intelectual da cidade e no norte do país. Por isso ele se distinguiu no movimento que, desde a Liga Patriótica do Norte, em 1890, se ergueu contra o Ultimatum inglês, conduzindo-o depois à liderança do 31 de Janeiro, ao lado de figuras como Sampaio Bruno, Basílio Teles, João Chagas e tantos outros”.

Chefe civil da gorada Revolução de 31 de Janeiro de 1891, emigra para França, onde publica com Sampaio Bruno O Manifesto dos Emigrados Portugueses da Revolução Republicana de 31 de Janeiro de 1891, continuando sempre a sua luta pela implantação da república, a democracia e a liberdade em Portugal. Em coerência com os seus princípios, Alves da Veiga recusou sempre qualquer amnistia que não abrangesse os militares participantes no 31 de Janeiro, nomeadamente a decretada em Março de 1893.

No seu exílio, por ela abrangido, declarou “emquanto as fronteiras portuguezas não se abrirem para todos, emquanto gemer no exílio ou nas prisões qualquer das victimas da generosa tentativa revolucionária, eu continuarei sendo proscripto; solidário nas idéas sel-o-hei também nos sacrifícios, embora sinta cada vez mais a nostalgia da pátria, déssa formosa terra que adoro como um filho adora sua mãe”.

Esta sua luta na vida política portuguesa em prol da implantação da república, leva-o a integrar a legação diplomática constituída por Sebastião Magalhães de Lima (Soberano Grande Comendador e Grão Mestre de 1907 a 1928) e José Relvas, desempenhando um destacado papel organizativo e de promoção de contactos para se negociar em França e Inglaterra o apoio à promoção dos ideais liberais republicanos, com vista à preparação da revolução do 5 de Outubro de 1910.

É nomeado em 24 de Janeiro de 1911 Ministro Plenipotenciário em Bruxelas. Apresenta às Constituintes de 1911 o seu estudo e projecto pioneiro federalista e municipalista “Política Nova – Ideias para a Reorganização da Nacionalidade Portuguesa”, que é vencido pela proposta de organização unitarista da Nação Portuguesa. A actualidade do projecto federalista de Alves da Veiga, inspirado no modelo da Confederação Helvética, dos cantões suíços, nas constituições dos Estados Unidos da América e na da República Federativa do Brasil, ainda está por cumprir em Portugal e mesmo na Europa, sem unidade política e dirigida por um Directório.

É proposto para os cargos de Presidente da República e Ministro dos Negócios Estrangeiros (que chega a exercer por um dia), mas não consegue apoios suficientes para uma carreira política no governo da nação, pelo que desiste e resolve permanecer em Bruxelas.

Durante a sua permanência em Bruxelas, desenvolve importante actividade política aquando da I Grande Guerra Mundial a favor dos interesses portugueses e das forças aliadas, com vista ao Armistício. Esta sua actividade política e diplomática em Bruxelas granjeia-lhe relações de amizade com o Rei da Bélgica, ao ponto de ser sua visita habitual para jantar. O espólio da sua correspondência diplomática de então aguarda estudo e investigação para uma melhor compreensão da importância do seu contributo para as relações europeias e internacionais nesse período histórico, conforme sugeriu o Embaixador José Augusto Seabra.
 
 

Faleceu em 02.12.1924, na sua casa de Paris, situada na 7, rue Bassano (XVIème Arrondissement), onde uma placa evocativa colocada no dia 31 de Janeiro de 1997 testemunha a sua memória. Passados cerca de três meses é sepultado no Porto no jazigo de família do cemitério privado da Irmandade da Lapa. O seu funeral recebe honras de Estado, com a presença do Presidente da República portuguesa Manuel Teixeira Gomes, entre muitas outras individualidades.

[por Fernando Castel-Branco Sacramento, com a devida vénia]

J.M.M.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

ALVES DA VEIGA: O CHEFE CIVIL DO 31 DE JANEIRO



LEGENDA: Alves da Veiga o chefe civil do 31 de Janeiro, in A Hora, jornal ilustrado [dirc. Bandeira de Tóro], Ano XLVII, Lisboa, Janeiro de 1981 (2ª série), nº 133.

via OH! A República Um Século de Memórias, p. 75

J.M.M.

domingo, 30 de setembro de 2007

ALVES DA VEIGA (Parte II)


Foi, enquanto estudante, um apreciador e estudioso da filosofia de Kant. Por essa mesma época, fez a sua profissão de fé republicana, tendo redigido um semanário intitulado República Portuguesa, em que também colaboraram: Magalhães Lima, Alves Morais,Lopes de Melo, Álvaro de Mendonça, Almeida Ribeiro (que ainda eram estudantes),Manuel de Arriaga, Silva Pinto e Albano Coutinho.

No começo da sua vida de estudante redigiu igualmente um periódico chamado O Liceu(Coimbra, 1867).

Concluído o curso, foi estabelecer banca de advogado no Porto, onde
casou e leccionava as disciplinas do liceu. Dedicou todos os sacrifícios à
propaganda republicana, para cujo fim fundou a Discussão, que durou pouco tempo. Para David Ferreira, este "foi o primeiro diário republicano portuense da manhã".

Colaborou ainda no jornal Locomotiva, de Aveiro, a que já fizemos referência e que completamos aqui.

Nem uma hora sequer deixou de cumprir o seu dever de democrata sincero e devotado. Orador eloquente, tomou parte em quase todos os comícios e reuniões que por esse tempo se realizaram no país. A sua palavra era escutada e aplaudida.

Em 1875 e 1876, quando fixou a sua residência no Porto, foi um dos redactores da Actualidade, jornal que se publicou para se fundar o Centro Eleitoral Republicano, e na lista do governo provisório da República figura o seu nome.

Era considerado, devido ao grande prestígio que granjeou na cidade do Porto e arredores, o chefe moral e político dos republicanos do norte do País. Tendo em conta esta situação foi um dos organizadores da revolta de 31 de Janeiro, embora não concorde com ela, mas "em obediência a razões de ordem moral, assume o cargo de chefe civil da revolta".

Durante a Monarquia propôs-se como deputado republicano, mas perdeu a eleição. Quando ardeu o Teatro Baquet ,em 1888, recebeu em sua casa a rainha D. Maria Pia, que foi ver ali uns desgraçados órfãos que ele recolhera.

Foi companheiro de Magalhães Lima numa viagem ao estrangeiro em
1890. Na revolta de 31 de Janeiro de 1891, de que foi uma das figuras primaciais, leu das janelas da câmara municipal a proclamação do novo governo ao povo. Tendo-se malogrado a revolução emigrou para Paris, onde foi advogado dos consulados portugueses e brasileiros, continuando sempre entregue aos seus estudos predilectos.

Desenvolveu ainda actividade como docente no Porto, nos ensinos secundário e livre.
Com a implantação da República foi nomeado ministro de Portugal em Bruxelas (desde 1911), foi ainda nomeado Ministro dos Negócios Estrangeiros em 1915.

Escreveu: Discurso pronunciado na assembleia geral do Centro Eleitoral
Republicano Democrático do Porto, em a noite de 20 de Outubro de 1877
.
Publicou ainda em 1911 Política Nova (Ideias para a Reorganização da Nacionalidade Portuguesa), A. M.Teixeira, Lisboa, 1911.

Sobre ele escreveu Santos Cardoso, aquele que vai ser o seu braço direito durante a revolta de 1891:
- Verdades de Sangue, com dois juízos críticos pelos Ex.mos Srs. Drs.
Alves da Veiga e Pedro Amorim Viana
. Porto, Tip. Ocidental, 1877, 92 págs., uma de índice e outra de erratas.
Também o Prof. Manuel Emídio Garcia publicou um pequeno texto intitulado:
- Biografia do Dr. Augusto Maria Alves da Veiga. Saiu na Galeria Republicana, n.° 14, publicada em Lisboa em 1882.

Ingressou na Maçonaria em 1884, iniciado na cidade do Porto, na Loja Primavera, onde adoptou o nome simbólico de Descartes. Em 1887, passou para a Loja Independência, de que foi venerável. Atingiu o grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceite em 1889. Irradiado da sociedade em 12-08-1891, devido ao seu envolvimento nos acontecimentos do Porto, voltou a ser reintegrado em 21-10-1891.

Faleceu em 02-12-1924, em Paris.

BIBLIOGRFIA CONSULTADA:
- ALVES, Francisco Manuel, Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, vol. VII (Os Notáveis), 2ªed. Bragança, 2000.
- FERREIRA, David, "Augusto Manuel Alves da Veiga", Dicionário de História de Portugal, vol. VI, (Dir.) Joel Serrão,Livraria Figueirinhas, Porto, 1992.
- MARQUES, A. H. de Oliveira (Coord.), Parlamentares e Ministros da 1ª República (1910-1926), Col. Parlamento, Edições Afrontamento/Assembleia da República, Lisboa, 2000.
- MARQUES, A. H. de Oliveira, Dicionário de Maçonaria Portuguesa, vol.II, Editorial Delta, Lisboa, 1986.

[Na fotografia veja-se Alves da Veiga(sentado) a ver um livro e Magalhães Lima]

A.A.B.M.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

ALVES DA VEIGA (Parte I)



Com o nome completo de Augusto Manuel Alves da Veiga, nasceu em Izeda, concelho de Bragança, aos 28 dias do mês de Setembro de 1850, conforme dissemos aqui. Era filho de António Alves da Veiga e de Ana Maria Pires,lavradores abastados na localidade. Realizou os primeiros estudos em Mirandela, mas jovem parte para Coimbra onde prepara a entrada na Universidade, vindo a frequentar o curso de Direito.

Um pequeno esboço biográfico sobre a fase inicial da sua biografia até à participação nos acontecimentos de 31 de Janeiro de 1891, pode ser consultado aqui. Acerca da sua acção neste movimento deve consultar-se entre outros, este trabalho ou a bibliografia mais detalhada que apresentamos aqui.

Após os acontecimentos do Porto vive exilado em Espanha e França, onde exerceu actividade jurídica para sobreviver. Nessa fase, escreve com Sampaio Bruno o Manifesto dos Emigrados do 31 de Janeiro de 1891. Meses antes da implantação da República( Julho de 1910), regressou a Portugal, para se candidatar a deputado pelo Porto, nas eleições que se realizaram em 28 de Agosto de 1910.

[a continuar]

A.A.B.M.