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sábado, 11 de setembro de 2021

SIM! AURÉLIO QUINTANILHA (1892-1987) FOI ANARQUISTA

 


Uma das figuras cimeiras do movimento intelectual libertário português foi o sábio cientista Aurélio Quintanilha (1892-1987). A filiação de Quintanilha na corrente anarquista é por demais conhecida, não podendo ser desautorizada nem omitida, como foi o caso que iremos citar.

Acontece que Aurélio Quintanilha foi na página do Facebook dos Antifascistas da Resistência muito biograficamente maltratado: omissão total da sua condição de anarquista. E, pasme-se, a resposta dada pelo impressionado administrador da página a um leitor que lhe autopsiou a biografia, questionando a não alusão à militância libertária do célebre intelectual libertário, foi de um miserabilismo grosseiro e arrogante, espantosamente deslocada e inaceitável vindo de uma pagina que é um dos mais importantes espaços biobibliográficos, digitalmente ao nosso dispor. A ignorância e a falta de humildade intelectual - quando se é confrontado com justos reparos biobibliográficos (sempre bem-vindos em todas as situações) - é, por vezes, muito atrevida, como nos parece ser o caso.

No que diz respeito a recomendáveis fontes biobibliográficas que o putativo administrador da página displicentemente sugere para se assegurar da qualidade libertária do prof. Aurélio Quintanilha, pois elas são tantas que incomoda o curioso pedido e nos enche de tédio. Porém, porque a página do FB pertence (também) à Helena Pato, por quem nutrimos especial admiração, aqui deixamos o nosso reparo e a nossa brevíssima anotação á questão colocada em torno da militância anarquista de Aurélio Quintanilha.

Saúde e Fraternidade!


Aurélio Quintanilha (1892-1987) foi cientista, investigador, professor, pedagogo (fundador da Universidade Livre de Coimbra), libertário e maçon [o irmão Brotero, iniciado, em 1925, na loja de Coimbra, A Revolta, e depois (Dezembro de 1931) um dos fundadores da loja maçónica de Coimbra, Construir - com, e entre outros, Tomás da Fonseca, Alberto Martins de Carvalho, César Abranches, Firmino da Costa, Raul Miranda].

Se tivermos o cuidado de ler Quintanilha, ver-se-á que as suas propostas educacionais e pedagógicas e a vertente pedagógico-libertária que sempre distinguiram as suas conferências [ver, p. expl., Educação de Hoje, Educação de Amanhã (1921), a conferência inaugural (5 de Fevereiro de 1925) da Universidade Livre de Coimbra ou idêntica conferência (26 de Março de 1933 – O papel social e as necessidades da investigação cientifica em Portugal) nas instalações do jornal O Século], nos elucida com clareza acerca do seu ideal anarquista, seguindo a velha linha do anarquismo individualista de Silva Mendes [“o mais vermelho dos republicanos de Famalicão”] e se prolonga até à sua morte.

Não será necessário, portanto, recorrer à leitura da entrevista que concedeu a João Medina [publicada na revista Clio, 1982, vol.4] para desocultar e fazer prova do seu ideal libertário. Nem percorrer, mesmo que seja com um brilho nos olhos, as sábias palavras de Vitorino Nemésio no “Perfil de Aurélio Quintanilha” (revista Brotéria, 1975, nº3/4, p. 175 e ss – vide a propósito deste assunto a p. 179). Ou até consultar o verbete do Dicionário dos Educadores Portugueses (dir. António Nóvoa, p.p.1137-1139) onde se lê: “ [Aurélio Quintanilha] conhecido especialmente como cientista e doutrinador do anarquismo …”]. Na verdade a leitura atenta da biografia activa e passiva do biografado é, prudentemente, sempre boa conselheira.    

Em breve anotação, e cingindo-nos apenas à questão em debate – isto é, ter sido ou não Aurélio Quintanilha anarquista -, diremos o seguinte:

- em 1912, Quintanilha, com Adriano Botelho (dirigente anarco-sindicalista da CGT, e outros) participa nas comemorações do 1º de Maio, integrado na corrente anarquista;

 - colabora depois (a partir de 13 de Fevereiro de 1913) um dos mais importantes jornais anarquistas, dirigido por Pinto Quartim, o semanário Terra Livre, de muita memória;

- ainda em 1913 (4-8 de Outubro), participa no Congresso de Lisboa do Livre Pensamento Universal (distribuindo a sua companheira, Susana, um manifesto assinado pelos sindicalistas presos pelo governo de Afonso Costa) e solicita por várias vezes a palavra em reuniões republicanas, interpelando o governo, sendo por isso ameaçado pela “Formiga Branca”;

- em 1914 faz parte do grupo anarquista “A Brochura Social” (Lisboa), juntamente com Neno Vasco e Sobral de Campos, grupo que pretendia editar mensalmente “folhetos de propaganda libertária” (ver João Medina, A Sementeira do arsenalista Hilário Marques, revista Análise Social, vol. 17;

- ainda em 1914, um núcleo de mulheres anarquistas – de que faziam parte Susana Quintanilha (professora), Elvira Lopes, Eugénio Silva, Rosalina Correia da Silva e Margarida Paula – reúnem-se para debater “assuntos relativos a gênero e promover agitação política”;

- por iniciativa do grupo libertário Aurora (Porto), ainda em 1914, realizou-se um comício  na cidade do Porto (teatro Antero de Quental) contra as arbitrariedades do governo republicano, onde participa como orador, acompanhando Neno Vasco e Sobral de Campos;

- participa na Conferência Anarquista da Região Sul (Junho de 1914, no prédio da Caixa Económica Operária, largo da Graça, Lisboa), onde, curiosamente, decide imprimir e divulgar obras de Malatesta (ver “Em Tempos de Eleições”) e irá apresentar a tese escrita por Neno Vasco, Os Anarquistas no Movimento Operário. Foram sessões muito vivas, como o debate sobre a participação de anarquistas nos sindicatos, onde Quintanilha sustem “não ser possível para o ponto em questão determinar regras rígidas”, porém a posição “de consenso” de Jerónimo de Sousa (do quinzenário O Arsenalista de Lisboa) prevalece, isto é, ganhou a tese de evitar a entrada dos anarquistas nos corpos diretivos sindicais (ver Alexandre Simas, Neno Vasco …, p. 346). De referir que alguns dos mais importantes militantes anarquistas tinham o hábito (então) de se reunirem em casa de Aurélio & Susana Quintanilha, nas noites de Domingo (entre eles, Emílio Costa, Afonso e António Manaças, Sobral de Campos, Gaspar dos Santos, Neno Vasco, Bernardo Sá, Sebastião Eugénio, Carlos Freire);

- em 1915, representa a Federação das Juventudes Sindicalistas (sob orientação anarquista; foi criada em 1913, resultante das Juventudes Libertárias de 1912; tinha a sede na rua do Arco da Graça, nº4, 2ª andar e editava O Despertar) de Portugal e França, no Congresso Mundial contra a Guerra (Ferrol, Espanha) e que se realizou clandestinamente – segundo alguns autores, fazia parte da delegação portuguesa Manuel Joaquim de Sousa. Tendo sido descobertos pela polícia são expulsos de território espanhol os delegados portugueses: Quintanilha, Manuel Joaquim de Sousa, Maria Veloso, Serafim Cardoso Lucena e Ernesto da Costa Cardoso. Curiosamente, Quintanilha não refere nenhum desses nomes, na sua entrevista a João Medina. No seu regresso de Espanha apresenta em várias cidades (a conferência em Coimbra foi proibida) o tema “A Guerra e o Congresso de Ferrol” tendo sido preso em Viana do Castelo sob ordem do administrador da cidade, Bourbon e Menezes, curiosamente ex-anarquista. Seja dito que, perante a conflagração europeia, no movimento anarquista coexiste dois grupos distintos: os guerristas [Emílio Costa, Bernardo de Sá, Mário Costa, Miguel Córdoba, Araújo Pereira] e os anti-guerristas [Neno Vasco, Aurélio Quintanilha, António José de Ávila, Hilário Marques]. Os primeiros estavam organizados em torno do grupo Germinal, enquanto os anti-belicistas agrupavam-se à volta d’A Aurora (Porto) e d’A Sementeira (Lisboa). Não estava longe o tempo em que numa das reuniões anarquistas em casa de Quintanilha, na proverbial tertúlia que ali perorava, a declaração de guerra de 1914 a todos entusiasmou, porque se pensava que estava aberta a porta à revolução social [sobre este assunto, consultar com proveito, Guerristas e Antiguerristas, INIC, 1986]. Curiosamente muitos dos anarquistas “guerristas”, no final da contenda, abandonaram o anarquismo, uns passando-se para o então movimento comunista (na sua versão bolchevista), aliás de onde alguns foram “escorraçados”, e outros enveredaram na defesa da ditadura (ibidem, pp. 116 e ss);

- o golpe militar sidonista de Dezembro de 1917 teve o apoio inicial de militantes libertários e republicanos (como Machado Santos) e entre eles Aurélio Quintanilha. Aliás Quintanilha refere (assim como Alexandre Vieira) que foi (foram ambos e outros mais) à Rotunda falar com Sidónio Pais em nome da UON, na esperança de terminar a perseguição aos sindicalistas e pedindo a libertação dos presos políticos. Por outro lado, não podemos esquecer o conhecimento que Quintanilha tinha de Sidónio Pais, pois Sidónio não lhe era estranho, dado a sua notoriedade na Universidade de Coimbra por ser republicano no tempo da monarquia e pelo exame, que como professor de álgebra, fez ao próprio Quintanilha;

- participa na “tertúlia” revolucionária “Falange Democrática” ou “Falange dos Olivais” (com Sobral de Campos, Pinto Quartim, Neno Vasco, Adolfo Lima, Emílio Costa, Alexandre Vieira, António José de Ávila e outros);

- na tentativa insurrecional monárquica de Paiva Couceiro (Janeiro e Fevereiro de 1919), os anarquistas organizaram grupos armados de resistência, tendo Aurélio Quintanilha vestido o uniforme militar e ido comandar a bateria na Quintinha  (A Batalha, Fevereiro de 1919);  

- a 25 de Setembro de 1927, considerado um “elemento avançado”, é detido pela PVDE.

- em 1928, em Coimbra, frequenta a inolvidável “República das Águias”, sob os auspícios da Maçonaria (pertencentes à loja A Revolta), onde juntamente com os irmãos Cal Brandão, Basílio Lopes Pereira, Manuel de Figueiredo e muitos mais, se conspirava contra a ditadura;

- escreve nos periódicos anarquistas, além do Terra Livre: A Aurora (Porto); A Batalha; O Despertar; A Lanterna (10 de Julho de 1915, Angra do Heroísmo – Quintanilha assumia a sua direcção); O Sindicalista; também colabora na revista Pela Grei (1918-1919); na Seara Nova (era amigo de António Sérgio); na revista de Homens Livres (1923); no Arquivo Pedagógico (Coimbra, 1927-1930); na revisa trimestral de educação LABOR (Aveiro); dirige o periódico bilingue de Moçambique, Memórias e Trabalhos. Centro de Investigação Algodoeira (1947-1961).

- já em 1975, Aurélio Quintanilha, em breve passagem por Lisboa, participa numa reunião anarquista na sede do Movimento Libertário Português.  

Em seguida, apresenta-se alguma bibliografia que sobre este (não) assunto da qualidade libertária de Aurélio Quintanilha diz especial respeito:   

Abílio Fernandes, Aurélio Pereira de Silva Quintanilha, na passagem do seu 70º aniversário, Boletim da Sociedade Broteriana, 1962, vol. 36 | Alberto Vilaça, Resistências Culturais e Políticas nos Primórdios do salazarismo, 2003 | Alexandre Samis, Neno Vasco, o Anarquismo e o Sindicalismo Revolucionário em dois mundos, Letras Livre, 2009 | Alexandre Vieira, Para a História do Sindicalismo em Portugal, 1970 | Amélia Filomena de Castro Gomes, A educação libertária segundo Aurélio Quintanilha, Braga, 2005 | António Ventura, Guerristas e Antiguerristas. Análise retrospectiva de um conflito, in João Medina (org.), Portugal na Guerra. Guerristas e Antiguerristas, INIC, 1986, pp. 107-125 | Aurélio Quintanilha, “Discurso pronunciado por A. Quintanilha na sessão promovida pela juventude sindicalista de Lisboa em 22 de Março”, in A Aurora, 29 de Março de 1914, p.1 | Aurélio Quintanilha, “Parlamentarismo e Sindicalismo: Sindicalismo e Integralismo”, in A Batalha, Setembro de 1919 (publicado ao longo de vários artigos) | Aurélio Quintanilha, Entrevista concedida a João Medina, revista Clio, vol.4, 1982, pp.121-132 | Aurélio Quintanilha, A Universidade Livre de Coimbra (pref. Paulo Archer), Lema d'Origem, 2017 | Cláudia Ninhos, De anarco-sindicalista a Catedrático de Coimbra e do saneamento ao “exílio”. Percurso político do cientista-intelectual Aurélio Quintanilha (FCSH/NOVA) | Edgar Rodrigues, Breve História do pensamento e das Lutas Sociais em Portugal, 1977 | Edgar Rodrigues, A Resistência Anarco-Sindicalista à Ditadura, 1981 | Edgar Rodrigues, A Oposição Libertária em Portugal (1939-1974), Sementeira, 1982 | Fernando Namora, Fogo na Noite Escura (pref. de Joaquim Namorado), Caminho, 2018 | Filipa Freitas, Les Jeunesses Syndicalistes au Portugal, 2007 | João de Barros, Cartas Políticas, 1982 | João Medina, Um semanário anarquista durante o primeiro Governo Afonso Costa: Terra Livre, 1981, vol. 17 (67-68) | Luís Salgado de Matos, Lisboa, 1920 - vida sindical e condição operária, in Análise Social, 1981, vol. 17 (67-68) | Manuel Joaquim de Sousa, O Sindicalismo em Portugal, 1972 (3ª ed.) | Quintino Lopes, Aurélio Quintanilha e António Sousa da Câmara: entre distintas ideologias políticas e semelhantes práticas científicas, IHC | Vitorino Nemésio, Perfil de Aurélio Quintanilha (discurso proferido em Homenagem a Aurélio Quintanilha pela Sociedade Portuguesa de Genética, Brotéria Ciências Naturais, 1975 (republicado na Brotéria Genética, em 1993, nº1-2), nº 3-4.

José Manuel Martins

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A UNIVERSIDADE LIVRE DE COIMBRA. DISCURSO PRONUNCIADO NA SUA SESSÃO INAUGURAL POR AURÉLIO QUINTANILHA




LIVRO: A Universidade Livre de Coimbra (reed. 1925);
AUTOR
: Aurélio Quintanilha; Prefácio de Paulo Archer de Carvalho
EDIÇÃO: Editora Lema d’Origem (2017); 

APOIOS: Pró-Associação 8 de Maio | União das Freguesias de Coimbra | GAAC | Ateneu de Coimbra




LANÇAMENTO DA OBRA:

DIA: 12 de Outubro 2017 (18,00 horas);
LOCAL: Casa Municipal da Cultura de Coimbra (R. Pedro Monteiro, 64);
ORADOR: Professor Doutor Carlos Fiolhais.

“A formação da Universidade Livre de Coimbra – Instituto de Educação Popular (ULC, 1925-1933) obedeceu ao estratégico desiderato de efectiva instrução pública complementar, gratuita, voluntária e demopédica que anima a acção programática das similares universidades populares que, entre nós e após a instauração da República, se possibilitaram e expandiram. Acção inscrita num movimento europeu muito vasto (Bélgica, França, Inglaterra) de congéneres universidades populares e livres (em rigor, não sinónimas, por vezes mesmo dicotómicas), originado após os meados do século XIX, do qual manterá no fundamental a matriz democrática e laica.

No específico contexto histórico marcado, contudo, pela derrisão da I República, a ULC representou um dos derradeiros programas práticos da militância laica e da livre solidariedade dos intelectuais com o operariado e o pequeno funcionalismo. Não admira, também por isso, que na sua plural circunstância fundadora convirja dúplice e indesmentível influência republicana e maçónica, concatenada na pedagogia, prática, dos direitos, liberdades e garantias fundamentais da cidadania: materializando reivindicações populares de acesso das mulheres à escolarização, de educação sexual, de higiene e implementação de infantários, na exigência de construção do ensino técnico profissional e na formação contínua dos formadores. Propostas estas que a Constituição da República Portuguesa de 1911 não asilara” [Paulo Archer de Carvalho, inAlgumas anotações póstumas: a apresentar a conferência e o conferencista”, p. 9-10]




Trata-se da reedição do raro e estimado opúsculo do cientista, investigador, professor, pedagogo, libertário e maçon, Aurélio Quintanilha (1892-1987) e que transcreve o discurso por si pronunciado na sessão inaugural da Universidade Livre de Coimbra, a 5 de Fevereiro de 1925, no Salão Nobre dos Paços do Concelho.

As Universidades Livres nascem do ideal civilizador, laico e republicano, de ser a instrução um factor, por excelência, de promoção social, moral e intelectual das camadas populares. A educação popular, o ensino e o amparo moral eram, assim, tomadas como “extensões universitárias” e onde os professores, saindo das suas “torres de marfim” uniam o intelectual ao “manual”, espalhavam conhecimentos e sábios ensinamentos, cumprindo o dever de formar e unir homens livres. De facto, os cursos livre, as conferências realizadas e as inúmeras atividades realizadas (visitas de estudo, excursões), despertaram grande interesse, e dizem que estávamos, sem dúvida, na presença do melhor e mais valioso escol intelectual da nossa Primeira República.

ANOTAÇÃO SOBRE AS UNIVERSIDADES LIVRES: a Universidade Livre do Porto aparece em Dezembro de 1903, renovando-se a partir de 1912, com o magistério de Leonardo Coimbra.

Por sua vez, após a terceira tentativa gorada, a Universidade Livre de Lisboa [que teve sede na Praça Luís de Camões, nº42, 2º, Lisboa] surge publicamente em 28 de Janeiro de 1912 [pelo esforço do deputado republicano, mutualista, associativista e benemérito Alexandre Ferreira (pai do poeta José Gomes Ferreira) e maçon (irmão “Verdade”, da Loja Montanha), e seu primeiro presidente e pela dinamização de Tomás Cabreira (propagandista da República, mais tarde ministro das Finanças, ele próprio maçon, o irmão Solon, iniciado na Loja Portugal, de Lisboa, e na altura integrando a Loja Marquês de Pombal]. A sua sessão inaugural decorreu no Coliseu de Lisboa (Rua da Palma) e contou com a presença do presidente da República, Manuel de Arriaga, Queiroz Veloso (diretor da Faculdade de Letras e que presidiu à sessão), capitão Simões Veiga, tenente-coronel Almeida Lima (da Faculdade de Ciências), Tomás da Fonseca (pelas Escolas Normais) e Carneiro de Moura (pela Escola Colonial). Usaram da palavra, além de Queiroz Veloso e Alexandre Ferreira, Agostinho Fortes, Rui Teles Palhinha e Carneiro de Moura. Publicou a Universidade Livre de Lisboa um curioso Boletim [nº1, Janeiro de 1914; em 1916 denomina-se Boletim Patriótico da Universidade Livre], tendo a dirigi-lo Alexandre Ferreira. Cessa, a Universidade de Lisboa, as suas atividades em Março de 1935. O seu valioso património foi legado à Sociedade “A Voz do Operário”.

Em Coimbra, a Universidade Livre, é fundada em 5 de Fevereiro de 1925 e tendo como fundadores, Joaquim de Carvalho, Adolfo de Freitas, Alberto Martins de Carvalho, Alcides de Oliveira, Almeida Costa, Álvaro Viana de Lemos, António Sousa, Aurélio Quintanilha, Darwin Castelhano, Floro Henriques, Manuel Reis e Tomás da Fonseca.

A Universidade Livre teve a sua delegacia na Figueira da Foz, com sessão inaugural a 5 de Abril de 1929 e realizada no salão Nobre dos Paços do Concelho. Abriu a sessão o dr. João Monsanto, lendo uma carta do dr. Joaquim de Carvalho, impossibilitado de marcar presença, estando na mesa o capitão Melo Cabral (presidente da Comissão Administrativa Municipal), José Nicolau Borges (secretário e representante do operariado figueirense) e Francisco Águas de Oliveira (pelo professorado), seguindo-se uma palestra pelo dr. Luís Carriço (figueirense e professor da UC) com o tema “Como se viajava dantes e como se viaja hoje em África”. A delegacia da Figueira da Foz teve a sua sede nas instalações da Biblioteca Municipal e a sua comissão executiva era constituída por António Vítor Guerra, Mário Dias Coimbra, Manuel Neves da Costa, Fausto Pereira de Almeida e Jaime Viana. Abriu, posteriormente, a delegacia, uma escola nocturna de Instrução Primária, bem como cursos de geometria e escrituração comercial, na sede da Associação dos Carpinteiros. Inaugurou, em 1932, uma biblioteca móvel. Comemorou, com dignidade, o 31 de Janeiro, o 5 de Outubro, o 1º de Dezembro de 1640, o centenário de João de Deus. Tomás da Fonseca, Manuel Jorge Cruz, Cristina Torres, Maurício Pinto, comandante Jaime Inso, dr. Rocha Brito, Alexandre Ferreira, Neves Rodrigues, Afonso Perdigão, Afonso Duarte, Manuel Mariano, Manuel Gaspar de Lemos, Fernando Correia, foram alguns dos palestrantes das inúmeras conferências realizadas.       

J.M.M.

A UNIVERSIDADE LIVRE DE COIMBRA (DISCURSO), POR AURÉLIO QUINTANILHA

Título: A UNIVERSIDADE LIVRE DE COIMBRA, Discurso Pronunciado na Sessão Inaugural
Autor: Aurélio Quintanilha
Local: Casa Municipal da Cultura de Coimbra (Rua Pedro Monteiro, 64)
Dia: 12 de Outubro de 2017
Horário: 18h00
Organização: GAAC (Grupo de Arqueologia e Arte do Centro)

A obra será apresentada pelo Professor Doutor Carlos Fiolhais.

A acompanhar com todo a atenção.

A.A.B.M.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

CIÊNCIA POLÍTICA NO PORTUGAL DOS ANOS 30. O SANEAMENTO DOS PROFESSORES UNIVERSITÁRIOS EM 1935 - ENCONTRO

Realiza-se no próximo dia 27 de Novembro de 2015, no Anfiteatro Manuel Valadares, do Museu Nacional de História Natural e Ciência - Universidade de Lisboa, um encontro científico onde se evocarão os professores universitários que o Estado Novo procurou silenciar: com a publicação do decreto-lei nº 25 317, de 13 de Maio de 1935.

Veja-se o decreto lei nº 25 317, conforme foi publicado no Diário do Governo:
Dias mais tarde, no dia 16 do mesmo mês, novo decreto publicado no Diário do Governo expulsava da função pública um conjunto de personalidades com fortes conotações à oposição ao Estado Novo de Salazar, conforme se pode ver na imagem abaixo:
Nessa ocasião foram afastadas todas as personalidades que o documento apresenta onde se destacam entre outras: o Professor Rodrigues Lapa da Faculdade de Letras de Lisboa e de Aurélio Quintanilha da Universidade de Coimbra, Nuno Simões, Germano Martins, Domingos Leite Pereira, Adelino da Palma Carlos, o General Joaquim Mendes Cabeçadas, o coronel Norberto Guimarães, o professor Sílvio Lima, da Faculdade de Letras de Coimbra, Álvaro Lapa, Abel Salazar, Norton de Matos, Manuel de Sousa Coutinho Júnior, Eduardo Santos Silva, Alberto Dias Pereira, Mem Verdial, Jaime Carvalhão Duarte, José Vicente Barata, Manuel da Silva, José de Oliveira Neves, Rafael de Sousa Ribeiro, Artur Guilherme Rodrigues Cohen, Álvaro Manuel dos Santos Machado, António Tavares Pereira, entre outros.

Pode ler-se na nota de divulgação do evento:

Com este Encontro pretende-se reflectir sobre o significado e o impacto político e científico dos saneamentos de 1935 – a institucionalização do autoritarismo em Portugal e a fascistização da Universidade, explorando como hipótese de trabalho as tensões corporativas e científicas dentro da Academia, nomeadamente o eventual aproveitamento da hierarquia universitária instalada para bloquear a progressão de carreira a jovens professores/investigadores universitários, verdadeiros corpos de inovação e de crítica à instituição e às suas práticas científicas e pedagógicas.
Pretendemos explorar as complexas interdependências entre Ciência, Política e Universidade, avaliando as repercussões destas medidas em Portugal nas décadas subsequentes, também em contexto de internacionalização científica.

Entrada livre.

Uma sessão para acompanhar com todo o interesse.

A.A.B.M.

sábado, 9 de abril de 2011

TERRA LIVRE – SEMANÁRIO ANARQUISTA


TERRA LIVRE. SEMANÁRIO ANARQUISTA – Ano I, nº 1 (13 Fevereiro 1913) ao nº 24 (31 de Julho de 1913), Lisboa; Propriedade: Grupo Terra Livre; Administração e Redacção: Rua das Gáveas, 55, 1º, Lisboa; Editor: Jaime de Castro; Director: Pinto Quartin; Corpo Redactorial: Carlos Rates, Neno Vasco, Pinto Quartin, Sobral de Campos; Impressão: Oficinas Gráficas, Rua do Poço dos Negros, 81, Lisboa; publica-se às quintas-feiras; 1913, 24 numrs,

Colaboração/textos: A. Girard, Adolfo Lima, Afonso Manaças (estudan. medicina), Araújo Pereira, Astrogildo Pereira, Aurélio Quintanilha (estudan. Medicina), Bel-Adon, Campos Lima, Clemente Vieira dos Santos, Eça de Queiroz, Edmundo d’Oliveira, Emília Garrido, Emílio Costa, Errico Malatesta, Francisco Lopes de Sousa [carta ao semanário sobre a sua prisão e de outros camaradas em Olhão], Francisco Moreno, G. Moitet, Gaspar Santos (estudan. Medicina), Humberto de Avelar, Ismael Pimentel, Jacinto Benavente, Joana Dubois, José Bacelar, José Benedy, José Carlos de Sousa, José Gomes Ventura, Madeleine Vernet, Manuel Luiz da Costa Júnior, Marcela Capy Marques, Manuel Ribeiro, Max Nourdau, Miranda Santos, N. de B., Nelly Roussel, Pedro Kropotkine, R. C. Júdice, Rocha Vieira (caricaturista), Rene Miguel, Rui Forsado, Zeferino Oliva.

A Biblioteca Nacional disponibilizou online um dos mais importantes jornais da corrente anarquista e libertária do movimento operário, Terra Livre. Nascido em 1913, “nesse agitado e turbulento ano” [cf. João Medina, Um semanário anarquista durante o primeiro governo de Afonso Costa. ‘Terra Livre’, Análise Social, vol. XVII (67-68), 1981] que curiosamente “não deixava saudades a quem quer que fosse, nem mesmo porventura a Afonso Costa, que em começos do ano seguinte acabaria de se apear do Ministério, após a árdua tarefa de dirigir o país durante exactamente treze meses” [ibid], o semanário Terra Livre (“órgão da luta social e económica”) teve a colaboração dos mais preclaros e esclarecidos libertários de então [Pinto Quartin, Carlos Rates, Neno Vasco, Sobral de Campos, Manuel Ribeiro, Emílio Costa, Adolfo Lima, Campos Lima, Aurélio Quintanilha]. Doutrinador e formativo, promoveu um conjunto de raras iniciativas no campo político, cultural e de divulgação do ideário anarquista, criticando e combatendo o parlamentarismo republicano e o governo de Afonso Costa [ver César de Oliveira, in Antologia da Imprensa Operária Portuguesa, 1837-1936, Lisboa, 1984].

Com uma tiragem de 3500 exemplares, o semanário Terra Livre era um “ponto de encontro” e lugar de debate para os mais esclarecidos e “iluminados” dirigentes do movimento operário. Não resistindo à repressão imposta pelo governo de Afonso Costa [o “novo João Franco” ou o “racha-sindicalistas”], com a prisão e a expulsão [por dez anos para o Brasil] do seu director, Pinto Quartin, e de muitos dos seus colaboradores, no decorrer de uma feroz vaga repressora anti-operária e anti-social, o periódico Terra Livre termina a sua publicação ao fim de 24 números e com ele finda uma voz incómoda ao “conservadorismo republicano” [ver, sobre o assunto, o esclarecido artigo, já citado, de João Medina].

Terra Livre AQUI online.

J.M.M.