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quarta-feira, 17 de junho de 2020

ANTÓNIO NUNES DE CARVALHO (1786-1867) – NOTA BREVE

 
Ao August Seichas, porque sim.

Em 16 Junho de 1786, nasceu em Viseu, António Nunes de Carvalho, aliás, António Nunes de Carvalho da Costa Monteiro de Mesquita. Era filho de Inácio Nunes de Carvalho e de Maria Angélica da Costa. Frequentou os Oratorianos de Filipe de Nery e, em 1804, é nomeado professor substituto da cadeira de latim na cidade.
Pouco depois, pelo honroso convite de Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas, lecionou (1806) Humanidades em Évora, revelando-se um dos mais “doutos e esclarecidos espíritos” desse tempo; em 1808 teve de fugir da cidade, por causa das invasões francesas, salvando a vida do seu protetor Frei Manuel do Cenáculo (incorrendo nos ódios da população), que anos depois, em agradecimento, lhe oferece a maior parte da sua valiosa biblioteca

[Sobre António Nunes de Carvalho consulte-se, com proveito: Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno, 1886, vol. 12, p. 1806 e ss; Dicionário Popular de Manuel Pinheiro Chagas (Suplemento), 1886, Vol 15, p. 159; José Maria de Abreu, Breves Apontamentos …, in O Conimbricense, 1867, nº 2077, 2080/81; Silvestre Pinheiro, Historia dos Estabelecimento …, vol. XVI, pp. 220-222 (acrescentos ao verbete d’O Conimbricense); José Júlio César, Doutor Nunes de Carvalho, in revista Beira Alta, Ano V, ano I a III; Rute Massano Rodrigues, Pitoresco e Romântico: premissas para a conservação do sítio da Arrábida, segundo o doutor António Nunes de Carvalho …, in Artison, 2015, nº1, pp. 223-230].
Em 1813, António Nunes de Carvalho, é nomeado professor interino de Lógica no Real Colégio das Artes de Coimbra e, em 1817, provido definitivamente; matriculando-se na Universidade, conclui a formatura em Cânones (1820) e em Leis (1821), recebendo o grau de doutor em Leis, em 1822, sendo nomeado, por Francisco de S. Luís (futuro Cardeal Saraiva), professor efetivo. Presume-se que tivesse sido iniciado na maçonaria, numa oficina em Coimbra [cf. A. H. de Oliveira Marques, História da Maçonaria em Portugal], que curiosamente reunia (1823) na sua própria habitação (aponta-se a loja como sendo aquela estabelecida na "Rua do Norte", pertencendo as casas à Imprensa da Universidade; a loja seria constituída por muitos lentes e doutores).

A sua adesão à causa liberal levou a que fosse incluído na lista de proscritos, feita pela junta expurgatória de Coimbra, mas a ténue tolerância após a Abrilada evitou a sua (e de outros) expulsão do ensino. A mesma perseguição se passou com vários lentes, estudantes e outros opositores ao absolutismo. Na devassa então feita a António Nunes de Carvalho, refira-se que no dia 7 de Agosto de 1828, os elementos miguelistas “procederam a uma exame nos livros que ele havia deixado”, tomando-se nota dos “trechos considerados impios à doutrina miguelista (Pinho Leal, ibidem). Mais ainda: transcreveram-se cartas dele para Frei Francisco de S. Luís onde estava presente as suas ideias liberais e renovaram a “velha acusação que lhe faziam de pedreiro livre, e de ter em sua casa a loja maçónica dos jardineiros, o que não foi confirmado pelas minuciosas pesquisas nela feita em 1823” (Pinho Leal, ibidem, p. 1809)

António Nunes de Carvalho era um liberal esclarecido e, em 24 de Junho de 1828, no decorrer da sua participação nas lutas liberais, depois do combate perdido em Cruz de Morouços (Antanhol), pelos partidários de D. Pedro, sob comando do general Francisco Saraiva Refoios, deixou Coimbra, “a pé e doente”, acompanhando a tropa liberal a caminho do Porto. Por pouco tempo, dado que o antigo apoiante da revolução de 24 de Agosto de 1820 e ex-deputado constituinte, agora assumido miguelista, o general Póvoas, entra com as suas forças militares na cidade e instala o governo de D. Miguel em todo o país.
Pronunciado por rebelião (o seu nome consta da Lista de Ausentes que foram citados por Cartas de Editos da Alçada a 11 de Julho de 1829) teve que se homiziar, em 1828, partindo para a Galiza e depois seguindo para Inglaterra e, mais tarde, reside em França.

Em Inglaterra tinha residido já o seu irmão, José Nunes de Carvalho, que foi oficial da embaixada portuguesa e cujo lugar, curiosamente foi recomendado ao então conde (depois Duque) de Palmela por José Liberato Freire de Carvalho. José Nunes de Carvalho foi, também um letrado notável e, ao que nos diz Inocêncio F. da Silva (Dicionário Bibliográfico), teve parte ativa na impressão das Odes de António Dinis (Londres, 1820), na Nova Edição da Carta de Guia de Casados (Londres, 1820) e, talvez, na edição de Londres da obra anónima “Arte de Furtar”. No verbete citado de Inocêncio surge-nos José Nunes de Carvalho como “partidário apaixonado do governo do infante D. Miguel” (sem que o sábio bibliógrafo cite a fonte a que recorreu), o que não sendo de todo impossível, nos parece questionável pela documentação oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros, principalmente um oficio, datado de Maio de 1834, assinado por Agostinho José Freire onde é possível verificar que José Nunes de Carvalho continuava a trabalhar como oficial da secretaria de Estado, o que nos tempos difíceis que se seguiram à guerra civil, com os ressabiamentos existentes, não seria muito credível.    

Ainda em Londres, António Nunes de Carvalho passa a maior parte do seu tempo no Museu Britânico, recolhendo elementos e trabalhando em estudos sobre Portugal. Não por acaso encontra um inédito do Roteiro de D. João de Castro que sai, posteriormente, precedido de uma introdução e notas, em 1833, em Paris, com o título

Roteiro em que se contem a Viagem que fizeram os portuguezes em 1541: partindo da nobre cidade de Goa até Soez, que he no fim, e stremidade do mar Roxo … pelo doutor Antonio Nunes de Carvalho da cidade de Vizeu; À custa de huma sociedade de Portuguezes”, Officina Typographica de Casimir (rue de la Vieille-Monnaie, n0 12), Paris, 1833, L-334-I pags
Contou a obra, que é dedicada ao “honrado Amigo e Benfeitor na Adversidade” senhor Adrião Ribeiro Neves

[1783-1858; importante negociante, assumido liberal, grande admirador de Manuel Fernandes Tomás, membro da Sociedade Literária e Patriótica de Lisboa; tem o seu retrato (1825), feito por Domingos Sequeira, no Ashmolean Museum of Art and Archaeology, de Oxford, curiosamente fundado por Elias Ashmole, no século XVII],

com o auxílio pecuniário de outros portugueses exilados, cujos nomes vêm no final do prefácio, a saber: Marquesa de Nisa, de Palmela, Condessa de Vila Real, D. Leonor da Câmara, D. Ermelindo Monteiro de Almeida, o Marquês do Lavradio, Marquês de Nisa, Conde do Funchal, Conde de Sampaio, D. Francisco de Almeida Portugal, D. Luís da Câmara, Domingos de Saldanha de Oliveira e Daun, José Joaquim da Gama Machado, Nuno Barbosa de Figueiredo, Bernardo Daupias, Adrião Ribeiro Neves, Anselmo José Braamcamp, Custódio Pereira de Carvalho, Domingos de Oliveira Maia, Henrique de Sampaio Osborne, João Ferreira Pinto, Joaquim José de Azevedo, Manuel Inácio da Silveira, Manuel Joaquim Soares e Teodoro Ferreira Pinto Basto.

De Londres partiu para o exílio em França, onde ensina literatura à filha de D. Pedro IV, a futura rainha D. Maria II. No final da guerra civil, regressa a Portugal e a Coimbra, onde lecciona, sendo ao mesmo tempo deputado da Real Junta da Directoria Geral dos Estudos. Em 1835 é nomeado Bibliotecário-Mor da Casa Real. Passos Manuel, em 1836, homenageando o erudito liberal e bibliófilo, fê-lo 41.º Guarda-Mor do Real Arquivo da Torre do Tombo, lugar deixado vago pelo ilustre e erudito Frei Francisco de S. Luís, acumulando a função com o da Comissão de Depósito das Livrarias dos Conventos (cf. José Júlio César, ibidem). António Nunes de Carvalho era de grande erudição (mesmo que tenha sido uma figura excêntrica), versado em diferentes ciências, em linguística e foi “talvez o 1º bibliógrafo que teve Portugal no seu tempo” (cf. Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno, vol. 12, p. 1806)

Anos depois regressa ao ensino e à Universidade de Coimbra, tendo-se jubilado a 25 de Abril de 1861. Em 28 de Setembro de 1864, por escritura pública, doou a sua erudita, copiosa (perto de 9 mil obras) e muito valiosa biblioteca à cidade de Viseu, sua terra natal, em testemunho do seu afecto e amor. Foi comendador da Ordem de Cristo e Cavaleiro da Nossa Senhora da Conceição.
Faleceu, em Coimbra, em 5 de Junho de 1867, estando sepultado no cemitério público local, em mausoléu que lhe foi erigido pelo seu dedicado criado e amigo José Maria Lila que para isso sacrificou todos os seus haveres.

J.M.M.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

IMPRENSA NO DISTRICTO DE VIZEU – FRAGMENTO HISTÓRICO


Maximiano d’Aragão, "Imprensa no Districto de Viseu. Fragmento Histórico” (2ª ed.), Vizeu, Typ. Popular d’A Liberdade, 1900,  70 pgs.

Trata-se de um curioso (e valioso) opúsculo de autoria de Maximiano d’Aragão

[1853- 2 de Julho 1929; nascido em Fagilge (Mangualde), advogado, bacharel em Teologia, professor e reitor do Liceu de Viseu, foi um incansável estudioso e investigador da cidade e do distrito de Viseu, nas sua várias vertentes, com obra feita e publicada de muito merecimento. Em 1914 reside em Lisboa, sendo professor no Liceu Camões, trabalhando no então denominado, Ministério de Instrução]

referente à imprensa periódica de Viseu. O “subsídio de inventariação” (de 1848 a 1900) de Maximiano [Pereira da Fonseca] d’Aragão ou notícia acerca da imprensa periódica visiense, é a atualização do seu trabalho datado de 31 de Janeiro de 1880. Inclui notícias, ainda, das tipografias existentes em Viseu.

O porfiado trabalho de Maximiano de Aragão teve a sua continuação com a atualização feita por A. Campos [em 1922 e 1923 – sobre o assunto da inventariação da imprensa periódica no distrito de Viseu, ver António João Cruz, AQUI ou AQUI] e que deu conta da existência de perto de 120 publicações periódicas. 

FOTO via In-Libris  

J.M.M.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

QUOTIDIANOS NO FEMININO. DA IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICA AO SÉCULO XXI – “5 DE OUTUBRO NO FEMININO”


EXPOSIÇÃO | CONFERÊNCIA | DEBATE: "O 5 de Outubro no Feminino”.


EXPOSIÇÃO: “Mulheres no Tempo da República” [Fotos de Joshua Benoliel”;

CONFERÊNCIAS: “Feminismo na I República” (15,50 h) [João Esteves]; “A Mulher e a Sociedade no Século XX” (16,20 h) [Isabel Vargues]; “Contra-Ciclo” (16,50 h) [Maria do Carmo Neves]; DEBATE (17,20 h);

DIA:
13 de Setembro (14,30 horas);
LOCAL: Auditório Mirita Casimiro, VISEU;
ORGANIZAÇÃO: GLFP [Grande Loja Feminina de Portugal] | Associação Cívica e Cultural Estrela de Alvorada.

J.M.M.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

CONFERÊNCIA – A PARTILHA DE ÁFRICA, O 31 DE JANEIRO E A MAÇONARIA EM PORTUGAL



CONFERÊNCIA: "A Partilha de África, o 31 de Janeiro e a Maçonaria em Portugal

ORADOR: prof. Amadeu Carvalho Homem;
DIA: 5 de Abril 2014 (16,00 horas);
LOCAL: Auditório Mirita Casimiro (Rua Alexandre Lobo, 53),
Viseu;
ORGANIZAÇÃO: Museu Maçónico Português [Ciclo “Novos Paradigmas”]

“Nos finais do século XIX, com os trabalhos pioneiros de etnografia e antropologia de James Frazer, Franz Boas e Malinowski, entre outros, a Europa descobre “o outro”, “o bom selvagem”, “os povos primitivos”,as civilizações de África. Os países industrializados da Europa descobrem outras culturas, outros modos de vida, mas também a importância dos recursos naturais de África, tão necessários ao seu processo de industrialização.

A Alemanha entra nesta “corrida” na segunda metade do século XIX sob a liderança de Bismark e inicia a sua expansão mundial, encorajada pela burguesia nacional, instituindo uma verdadeira política imperialista, conhecida como Welpolitik.

Começa a corrida a África, principalmente, por parte de Inglaterra, França e Alemanha. Esta disputa foi, entre outros, um dos principais factores que esteve na base das causas da Primeira Guerra Mundial.

Em Portugal, Alexandre Herculano profundamente marcado pelos dramáticos acontecimentos da sua época - as invasões francesas, o domínio inglês e o influxo das ideias liberais, vindas sobretudo de França, que conduziriam à Revolução de 1820 - publica a sua História de Portugal.

Leite de Vasconcelos, pioneiro nos estudos de arqueologia, etnografia e antropologia e sociolinguística, publica importantes trabalhos de investigação na procura da essência da portugalidade (Etnologia Portuguesa e Religiões da Lusitânia, entre outros).

Portugal económico, estrutural e espiritualmente exaurido com as invasões francesas, o domínio inglês e as lutas liberais, enfrenta graves dificuldades neste processo de luta pela ocupação de África.

Sob influência do Marquês Sá da Bandeira, entre 1836 e 1865, dá-se uma viragem na política portuguesa para África. O interesse governamental de então pelos territórios africanos depara, no entanto, com a fraca implantação portuguesa no terreno. O interior era mal conhecido, e apenas nas regiões costeiras existiam zonas de ocupação que serviam de meio de escoamento de produtos coloniais.

Nas décadas de 1870 e 1890, verifica-se um aumento do interesse dos países europeus pelo continente africano. A ocupação de vastas zonas do litoral pelos portugueses era um obstáculo às pretensões dos outros países, mas as zonas do interior eram ainda muito pouco conhecidas.

Os problemas políticos e financeiros portugueses facilitaram uma mudança de poderes instalados neste continente e uma alteração da política dominante, que se altera do direito tradicional da prioridade das Descobertas, para um direito de ocupação efectiva, estabelecido internacionalmente na Conferência de Berlim de 1884-1885, convocada por Bismark.

Inicia-se a ocupação do interior de África. Criam-se as sociedades de geografia europeias durante a primeira metade do século XIX, e desenvolvem-se trabalhos de exploração geográfica e científica com ampla divulgação nos periódicos e livros da época. As informações obtidas, apresentadas de forma atractiva, com mapas, imagens exóticas com reprodução da fauna e flora, atraem a atenção de um público cada vez maior. Estas explorações chamam também a atenção dos poderes políticos para as possibilidades de exploração económica das vastas riquezas desse continente e da sua mão-de-obra barata.

Em Portugal, em 10 de Novembro de 1875, um grupo de cerca de 74 subscritores, entre os quais se encontravam os maçons Luciano Cordeiro, Pinheiro Chagas, Sousa Martins, Cândido de Figueiredo e Teófilo Braga, requerem junto do Rei D. Luís a criação da Sociedade de Geografia de Lisboa, com o objectivo de promover e auxiliar o estudo e progresso das ciências geográficas e correlativas, possibilitando deste modo, no contexto do movimento europeu de exploração e colonização, desenvolver um particular contributo na ênfase dada à corrida de exploração do continente africano. Nos primeiros anos da sua existência foi criada a Comissão Nacional Portuguesa de Exploração e Civilização da África, com o objectivo de apoiar cientificamente o esforço colonial português em África, particularmente no contexto da crescente competição europeia na apropriação de territórios naquele continente.

Entre os exploradores europeus mais famosos de então estavam Livingston que traçou os planos do vasto interior africano e Stanley no Congo.

Entre os exploradores portugueses depois de Serpa Pinto, que a cruzou numa complicada expedição e traçou mapas do seu interior, destacaram-se Capelo e Ivens.

Face às mais que previsíveis decisões da Conferência de Berlim era preciso demonstrar a presença portuguesa no interior da África austral, como forma de sustentar as reivindicações constantes do mapa cor-de-rosa entretanto produzido. Para realizar tão importante projecto, são nomeados Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, que depois de terem sido dados como mortos ou perdidos, por não haver notícias deles durante cerca de um ano, concluem com êxito a expedição. Ao longo de toda a viagem, Roberto Ivens escreve, desenha, faz croquis, levanta cartas; Hermenegildo Capelo recolhe espécimes de plantas, rochas e animais.

A 21 de Junho 1885, é concluída uma nova expedição em Moçambique, em que foram percorridas 4500 milhas geográficas (mais de 8300 km), 1.500 das quais por regiões ignotas, tendo-se feito numerosas determinações geográficas e observações magnéticas e meteorológicas.

Estas expedições, para além de terem permitido fazer várias determinações geográficas, colheitas de fósseis, minerais e de várias colecções de história natural, tiveram como objectivo essencial afirmar a presença portuguesa nos territórios explorados e reivindicar os respectivos direitos de soberania, já que os mesmos se incluíam no famoso mapa cor-de-rosa que delimitava as pretensões portuguesas na África meridional.

O chamado Mapa cor-de-rosa seria o documento representativo da pretensão da soberania de Portugal sobre os territórios sitos entre Angola e Moçambique, nos quais hoje se situam a Zâmbia, o Zimbabwe e o Malawi.

A disputa com a Grã-Bretanha sobre estes territórios levou ao ultimato britânico de 1890, a que Portugal cedeu, causando sérios danos à imagem do governo monárquico português.

A Sociedade de Geografia de Lisboa, defendeu sem sucesso a necessidade de formar uma barreira às intenções expansionistas britânicas que pretendiam a soberania sobre um território que, do Sudão, se prolongasse até ao Cabo pelo interior da África, organizando uma subscrição permanente para manter estações civilizadoras na zona de influência portuguesa do interior do continente, definida num mapa como uma ampla faixa da costa à contra-costa, ligando Angola a Moçambique. Nascia assim, ainda sem sanção oficial, o chamado "Mapa Cor-de-Rosa".

O resultado foi o ultimato britânico de 11 de Janeiro de 1890 sendo exigido a Portugal a retirada de toda a zona disputada sob pena de serem cortadas as relações diplomáticas.

Portugal isolado protestou, mas seguiu-se a inevitável cedência e recuo. E assim acabou o "mapa cor-de-rosa", mas não sem que antes tivesse deixado um legado de humilhação nacional e frustração (bem patente no Finis Patriae de Guerra Junqueiro) que haveria de marcar Portugal durante muitas décadas. Na sequência deste episódio, Alfredo Keil compôs a portuguesa (Hino Nacional Português).

Em resultado desta humilhação nacional, perca de soberania de territórios africanos a favor de Inglaterra e de outras potências estrangeiras, criam-se as bases de sublevação, de afirmação de independência nacional e do espírito republicano no Porto, com a malograda Revolta Republicana do 31 de Janeiro de 1891, liderada pelo Dr. Alves da Veiga.

Portugal apenas recupera a sua auto estima depois da implantação da República em 5 de Outubro de 1910, bem como as suas debilitadas finanças de então.

Neste momento o nosso país encontra-se, igualmente, por razões diversas, perante a humilhação de uma situação de intervenção financeira estrangeira, mas como outrora, com determinação, trabalho e perseverança, estamos certos os portugueses saberão encontrar caminhos de esperança e recuperar a auto-estima e a sua autonomia financeira nacional.

[Fernando Castel-Branco Sacramento - Director do Museu MaçónicoPortuguês]

J.M.M.

domingo, 30 de março de 2014

ALBERTO [ANTÓNIO] SAMPAIO – TIPÓGRAFO, JORNALISTA E SOCIALISTA


Alberto [António] Sampaio, filho de Felicidade Maria dos Anjos (solteira), nasceu a 20 de Agosto de 1874, em Viseu.
Foi tipógrafo de profissão [trabalhou na Tipografia Central, Escadinhas da Sé, Viseu], sindicalista fervoroso, excelente orador e um “impulsionador dos ideais socialistas na cidade de Viseu”. Tinha um “olhar perfulgentissimo, tez pálida, delgado, flexível, vidente e sonhador, passou a vida escrevendo e prégando ás multidões, o amor pela humanidade, e sonhando levantar das ruínas desta sociedade egoísta, uma nova sociedade de paz e de amor, de igualdade e de fraternidade” [in “A Voz da Oficina”, nº 900, 29 de Março de 1914 – aliás, “Comemorando a Morte de Alberto Sampaio”, parte III, texto de Humberto Liz, in Jornal do Centro, 27 de Abril de 2007]

Alberto [António] Sampaio foi maçon, com o n.s. de “Fontana”, tendo pertencido aos quadros da Loja “Viriato” [loja do Rito Francês, instalada em Viseu em 1900, nascida da conversão do triângulo nº18, e que abate colunas em 1913 – cf. A.H. de Oliveira Marques].
Como jornalista, fundou e dirigiu o semanário apoiante da causa republicana e socialista, “A Voz da Oficina”, “Órgão do Operariado Visiense”:

[Ano I, nº1 (10 de Junho de 1898) ao Ano XX, nº1220 (24 de Abril de 1921) - Proprietário: Bernardo Ribeiro de Sousa; Editor: Manuel Maria Leitão; Director: Alberto Sampaio (depois Bernardo Ribeiro de Sousa); Typ. Central, Viseu (depois Typ. Popular); saiu, ainda, um número único, no 1º de Maio de 1925, sob publicação do Grémio Alberto Sampaio]; mais tarde [1904] passa a denominar-se “Jornal Socialista”].
Na qualidade de director e jornalista d’A Voz da Oficina, foi por duas vezes processado e condenado por “crime de abuso de liberdade de imprensa”. Colaborou, ainda, no periódico “Voz da Verdade” [?].

Alberto Sampaio, escreveu uma peça de teatro, “O Libreto do Operário”, representada no 1º de Maio de 1903, no Teatro Viriato. Foi um ardente impulsionador da fundação da associação “Instituto Liberal de Instrução e Recreio” [com sede na Rua Direita, nº58, Viseu], “agrupamento de fortes simpatias pelo ideário republicano”.
[O “Instituto Liberal de Instrução e Recreio”, 1904-1926, foi uma das associação mais antigas da cidade de Viseu; dela fez parte dirigentes, como o advogado, deputado constituinte, primeiro governador civil de Viseu e ministro da Marinha no governo de António Granjo, o republicano Ricardo Pais Gomes; Bernardo Ribeiro de Sousa, farmacêutico e governador civil do distrito de Viseu; assim como outros associados, caso do professor e poeta Carlos de Lemos e sua mulher, pioneira da emancipação feminina, Beatriz Paes Pinheiro de Lemos (1872-1922), Alberto da Silva Basto, António da Silva Sequeira, etc.; mais tarde, o “Instituto” deu origem ao Centro Republicano de Viseu (que foi inaugurado a 30 de Janeiro de 1905, por Bernardino Machado), ou também chamado Centro Democrático, mais tarde encerrado pela ditadura em 1936. Refira-se que o Instituto patrocinou uma escola pelo método João de Deus, chamada Escola Alves Martins, que foi fechada pela “administração monárquica” em 1908, tendo sido reaberta, mais tarde, em 1910],
Alberto [António] Sampaio não assistiu, porém, à sua inauguração [8 de Dezembro de 1904,  com a presença de Heliodoro Salgado], pela sua morte prematura, por tuberculose, na manhã de 29 de Março de 1904.

No seu funeral [Humberto Liz, in Jornal do Centro, ibidem] participaram, com os seus estandartes e paramentos, várias associações operárias [Construtores Civis, Manufactores de Calçado, Empregados do Comércio], o Centro Democrático de Viseu, o governador civil, muita gente da classe popular, que num cortejo cívico imponente [duas mil pessoas] homenagearam o estimado e combativo “lutador pela causa dos oprimidos” [curiosamente, diga-se, romagem que ainda hoje persiste, na tradição republicana de Viseu, na justa homenagem a Alberto Sampaio]. Usaram da palavra, Augusto da Fonseca, em nome dos Empregados do Comércio de Viseu [Associação fundada em 1903], José Gomes Júnior, “antigo e dedicado companheiro” [que teceu “comovidas palavras da mais profunda saudade e lembrando a guerra sem trégoas com que a reacção clerical e jesuitica pretendera esmagar o grande apostolo das reivindicações operarias”], o dr. Pereira Victorino, o dr. João Costa, e por último, o dr. José Augusto Pereira, “que historia em belas palavras a missão nobilissima desempenhada, em vida, pelo saudoso morto, e verbera acre e justamente, num repto brilhante, o odioso e infame trabalho dos elementos reaccionários que nem um só instante deixaram de perseguir Alberto Sampaio, reconhecendo nele um dos seus mais valentes e audazes adversários” – cf. In “O Povo Beirão”, aliás via “Comemorando a Morte de Alberto Sampaio”, parte IV, texto de Humberto Liz, in Jornal do Centro, 25 de Maio de 2007]
A Câmara Municipal de Viseu [em Dezembro de 1910], deu o seu nome à rua nº1 do Bairro de Massorim e em 1914 foi-lhe prestada nova homenagem, com a “colocação da pedra tumular, onde foi depois assente o monumento alegórico”, este inaugurado no dia 1 de Maio de 1924.
 
Por último, e ainda em sua memória, foi atribuído o seu nome a um Centro - o Grémio Alberto Sampaio -, por volta de 1915 [ou 1917?] e que se manteve em actividade até 1936, ao qual, segundo informação da PIDE (1936), “ocorrem caixeiros,estudantes e outros elementos comunistas e afins”. O Grémio Alberto Sampaio foi, assim, encerrado pela ditadura, pelo despacho do Ministro do Interior, de 16 de Novembro de 1936.

J.M.M.

sábado, 7 de julho de 2012

LEONARDO COIMBRA NO GRÉMIO ALBERTO SAMPAIO (1933)


DOCUMENTO do Governo Civil de Viseu ao Ministro do Interior, datado de 24 de Abril de 1933, dando conta da realização de uma CONFERÊNCIA de LEONARDO COIMBRA no GRÉMIO ALBERTO SAMPAIO (Viseu), a realizar no dia 1 de Maio, pedindo "instruções que tiver por convenientes" [ler TODO O DOCUMENTO AQUI]

via TORRE DO TOMBO

J.M.M.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

ENCERRAMENTO DO "CENTRO REPUBLICANO DE VISEU" E "GRÉMIO ALBERTO SAMPAIO" EM 1936


Ofício do Chefe de Gabinete do Ministro do Interior para o Director da PIDE ordenando a dissolução do Centro Republicano de Viseu e do Grémio Alberto Sampaio, em Novembro de 1936.

Um conjunto de documentos que pode ser consultado AQUI.

A.A.B.M.