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domingo, 28 de janeiro de 2024

TEÓFILO BRAGA, O HOMEM, O ERUDITO E O POLÍTICO

 


Teófilo Braga, o homem, o erudito e o político” – por António Valdemar, in Caderno E, Expresso, 26 de Janeiro de 2024

Foi um dos fundadores do Partido Republicano, depois Presidente da República, escrevia compulsivamente, investigou Camões — que elegeu como símbolo da nacionalidade —, nunca atravessou a fronteira. Teófilo Braga visto por si e pelos contemporâneos — admiradores e críticos —, no centenário da sua morte.

Passou a vida a escrever. Foi encontrado morto na sua mesa de trabalho. Tinha 80 anos. Faleceram os três filhos e, anos depois, a mulher. Teófilo Braga morava só. Rodeado de livros, asfixiado por ressentimentos e sempre empenhado em completar e concluir os temas que o absorveram a vida inteira. Deixou uma obra de investigação e de crítica com mais de 200 títulos. Ele próprio assim se definiu: “Dentro de um poço, desde que lá tivesse os meus livros, uma resma de papel e um lápis, conseguiria viver.”

Por sua vez, Ramalho Ortigão, que o conheceu com proximidade, afirmou: “Simples, sóbrio, duro, com hábitos de uma austeridade de espartano, sabendo reduzir as suas necessidades a toda a restrição a que lhe reduzam os meios, vivendo no seu isolamento como Robinson na sua ilha.” (…) “Não publica um volume por semana, pela razão única de que não há prelos, em Portugal, que acompanhem a velocidade vertiginosa da sua pena. Escreve de graça, desinteressadamente, em satisfação do seu prazer supremo, o prazer de espalhar ideias.”

Na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, Teófilo Braga (1843-1924) foi um dos autores com maior número de obras publicadas sobre a história da literatura portuguesa, desde os primórdios até João de Deus e Antero de Quental. Assinalam-se, neste contexto, as investigações sobre Camões, nos múltiplos aspetos da obra épica, lírica e teatral; “Gil Vicente e as Origens do Teatro Português”; “Bernardim Ribeiro e o Bucolismo”; Cristóvão Falcão, autor da “Écloga Crisfal”; Bocage, a vida e a obra; “Filinto Elísio e os Dissidentes da Arcádia”; a “História do Romantismo em Portugal”; e “Garrett e a sua Obra”.

A curiosidade de Teófilo estendeu-se a outros temas: o povo português, nos seus costumes, crenças e tradições; o cancioneiro e o romanceiro popular; os contos tradicionais. Também se consagrou à política. Encontra -se ligado à fundação, ao desenvolvimento e à projeção do Partido Republicano Português. Desempenhou as funções de presidente do governo provisório e de Presidente da República.

Acrescente-se o percurso na Universidade de Coimbra, a propósito das opções pedagógicas que se refletiram na cultura e na sociedade portuguesas: Sistema de Sociologia (para alargar as previsões, comprová-las e acelerá-las pela intervenção política e governativa); Soluções Políticas da Política Portuguesa, para demonstrar que o povo estava preparado para receber a República.

DE ESTUDANTE A PROFESSOR

Nasceu em Ponta Delgada a 24 de fevereiro de 1843. Enquanto aluno do liceu, principiou a atividade literária em jornais e revistas em São Miguel. Aprendeu, ainda, rudimentos da tipografia. Dirigiu-se, aos 18 anos, para Coimbra. Tinha a ambição de ser professor na universidade. Arrostando com os maiores sacrifícios, sem quaisquer apoios financeiros, vivendo apenas de explicações, tirou, entre 1862 a 1867, o curso de Direito, com elevadas classificações.

Um ano depois fez provas de doutoramento com uma tese acerca da história do direito português — os forais. Reconheceram-lhe os méritos. Contudo, para ascender à cátedra, foi preterido por um candidato que possuía relações privilegiadas com o júri. Tentou, em seguida, lecionar Direito Comercial na Academia Politécnica do Porto. Voltou a ser rejeitado. Finalmente, concorreu, em 1872, a uma cátedra sobre Literaturas Modernas no Curso Superior de Letras, um concurso público muito renhido. Entre os candidatos encontravam-se Pinheiro Chagas e Luciano Cordeiro. Eram os outros candidatos e tinham as maiores proteções no corpo docente. Teófilo conseguiu, finalmente, vencer.

Teófilo Braga radicou-se, a partir de então, em Lisboa, até falecer a 28 de janeiro de 1924. Nunca atravessou a fronteira. A sua vida, de enorme sobriedade, circunscreveu-se entre a intimidade e os contactos quotidianos: o Curso Superior de Letras; instalado no edifício da Academia das Ciências, da qual foi vice-presidente. (O rei, por razões estatutárias, era o presidente de honra). Deslocava-se, ainda, para fazer pesquisas documentais à Torre do Tombo que funcionava no Palácio de São Bento, e à Biblioteca Nacional, estabelecida no antigo Convento de São Francisco, na área do Chiado. Pertenceu a uma tertúlia na rua do Arsenal, na livraria Carrilho Videira, que reunia e editava obras de republicanos. Andava a pé ou nos transportes públicos, mesmo quando foi Presidente da República.

Ramalho Ortigão procurou, ainda, defini-lo nestes termos: “Este débil de aspeto um pouco valetudinário, dorso curvo, ventre chato, estômago escavado, deixando descair as calças em pregas sobre os sapatos, é o mais forte, o mais rijo, o mais enérgico temperamento que tenho conhecido.” Os caricaturistas retrataram-no com ironia. Joshua Benoliel fixou-o em dezenas de fotografias. Tornara-se uma figura típica de Lisboa.

AS POLÉMICAS

A atividade literária, histórica, filosófica e política de Teófilo Braga desencadeou sucessivas controvérsias: Castilho atacou a sua participação na Questão Coimbrã; Camilo, pelos mais diversos motivos, constituiu um dos seus mais acérrimos adversários; Ricardo Jorge, a propósito de um estudo acerca de Rodrigues Lobo, denunciou- -o como plagiário.

Todavia, entre os críticos mais severos, avulta Antero de Quental: “Os primeiros passos no estudo da história literária portuguesa — escreveu — foram dados pelo sr. Teófilo Braga, essa glória ninguém lhe tira. Tem defeitos: a impaciência que o leva muitas vezes a conclusões prematuras; e o espírito sistemático que o leva também a conclusões falsas.” (…) “O lado inferior e frágil — acentua Antero de Quental — são as teorias gerais, a parte filosófica; sente-se que não é essa a vocação do sr. Teófilo Braga. Ao mesmo tempo quimérico e sistemático, dá às suas doutrinas gerais uma feição dogmática que lhes tira aquele poder de ductilidade e compreensão, sem o qual uma teoria, para acomodar os factos ao seu rigor inflexível, tem de os forçar, umas vezes e outras vezes, de pôr de lado. Isto é — adverte Antero de Quental — o que torna abstrusas certas obras, como a ‘Poesia do Direito’.” (in “Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa”, Porto 1872).

CAMÕES, O SÍMBOLO NACIONAL

Camões foi um dos temas que, durante meio século, mais entusiasmou Teófilo. Interessaram-lhe todos — ou quase todos — os aspetos da vida e a obra do poeta. Fez uma reflexão e estudo dos textos mais antigos de biógrafos e comentadores, o chantre Severino de Faria, o licenciado Manuel Correia, o historiador e filólogo Manuel Faria de Sousa e o memorialista João Soares de Brito. Formulou hipóteses e extraiu conclusões, muitas das quais se revelaram precárias, em torno das circunstâncias relativas à conceção, publicação e divulgação de “Os Lusíadas”; e a outros assuntos como a tença, a morte e a sepultura de Camões; e, ainda, a permanência em África e no Oriente.

Sejam quais forem as reservas, os estudos de Teófilo proporcionam pistas para investigação do tempo histórico e da amplitude da obra do poeta, que não ficou alheio ao desconcerto do mundo e às vulnerabilidades da condição humana. Procedeu a uma campanha de opinião pública para celebrar, em todo o país, o terceiro centenário da morte de Camões. A informação existente indicava o dia 10 de junho. Foi exatamente nesse dia que se realizaram, em 1880, as comemorações, com a participação de intelectuais, políticos e elevado número de populares. Destinavam-se a promover a coesão do Partido Republicano, unindo as várias tendências e grupos dispersos, no pensamento e na ação. Recorde-se que, pouco antes de falecer, concedeu uma entrevista ao “Diário de Notícias”, na qual insistiu que a data do nascimento de Camões era 5 de fevereiro de 1584. O Governo, presidido por Álvaro de Castro e tendo António Sérgio como ministro da Instrução, determinou que o dia 5 de fevereiro passasse a ser feriado nacional. A data foi aprovada pelo Congresso da República e promulgada pelo chefe de Estado, Manuel Teixeira Gomes.

Concretizava-se assim, a título póstumo, a aspiração cívica de Teófilo: o sentimento nacional é um dos pilares fundamentais para a unificação dos portugueses. “Pelo amor do seu território, pela necessidade de manter a independência”, escreveu, “é possível alcançar uma ação comum, um sentimento coletivo que fortifica o sentimento da pátria e da nacionalidade.” (…) “Camões”, sintetizou, “deu expressão a esse sentimento, que transformou uma pátria numa nacionalidade”.

PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Proclamada a República, Teófilo Braga foi escolhido para chefe do governo provisório (5 de outubro de 1910 a 4 de setembro de 1911). Acompanhou a apresentação, o debate e a votação da legislação que estruturou o novo regime. A ditadura de Pimenta de Castro (28 de janeiro de 1915 a 14 de maio de 1915) que encerrou o Parlamento e conduziu à demissão do Presidente da República Manuel de Arriaga (eleito a 24 de agosto de 1911 e a desempenhar funções até 26 de maio de 1915). Perante esta crise, que provocou uma das mais sangrentas e devastadoras revoluções, solicitaram a Teófilo Braga para ocupar o cargo, porque reconheciam nele uma reserva moral e cívica.

Eleito em sessão do Congresso a 29 de maio de 1915, obteve 98 votos a favor, contra 1 voto para Duarte Leite e três votos em branco. Durante quatro meses assegurou a chefia do Estado, em circunstâncias particularmente complexas, a nível nacional e internacional. A defesa dos territórios portugueses de África, em especial Angola e Moçambique, perante ameaças da Alemanha, determinou a expedição de contingentes do Exército e da Marinha. A 5 de agosto de 1915 na Europa eclodiu o que viria a ser a Grande Guerra.

Os efeitos do conflito acentuaram-se com muito impacto nas lutas partidárias e na subida dos preços dos bens de consumo diário. Gerou-se a corrida aos bancos para levantar os depósitos. Havia uma profunda instabilidade política e social. Contudo, a entrada de Portugal na guerra, em solidariedade com a Inglaterra — e devido à secular aliança subscrita entre os dois países — só se verificaria a 7 de agosto de 1916. Deu lugar a mais outra controvérsia entre as forças militares e os principais partidos políticos.

EUROPA E ATLÂNTICO

Teófilo Braga, ao tomar posse, referiu que a sua orientação visava “a harmonia de todos os poderes do Estado, o reconhecimento de que o poder soberano da nação reside essencialmente no Congresso, de que o presidente não é senão um mandatário. O contrário seria eu a exercer um imperialismo presidencialista”.

Fez questão de salientar que, perante “esta espécie de solidariedade humana, que corrige os excessos do egoísmo nacional” (…), “um outro equilíbrio europeu tem de fundar-se.” Assim, “a política externa de Portugal deriva completamente da sua situação geográfica; ela solidarizou-se com a Europa, quando combatia o imperialismo da Espanha no século XVII e quando no século XIX desmoronava o imperialismo napoleónico, ela nos fará cooperar na atividade mundial dos grandes Estados, com o apoio no Atlântico”.

Noutro passo, Teófilo Braga concluiu: “Apresentando estes dois aspetos de política, interna e externa, da nação portuguesa, dela se deduz um plano do Governo. E ao proferir as palavras de compromisso de honra, desta hora em diante só aspiro que, ao regressar dignamente ao lar, se possa dizer: cumpriu o que prometeu; guiou-se pelo bom senso e pelo desinteresse.”

CONSAGRAÇÃO NACIONAL

Teófilo Braga, tal como João de Deus e Guerra Junqueiro, após o seu falecimento teve honras nacionais e foi sepultado nos Jerónimos — à data o Panteão Nacional. Em 1925, Alfredo Guisado, poeta da “Orpheu” e vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, inscreveu-o na toponímia. A rua onde residia, a Travessa de Santa Gertrudes, passou a denominar-se Rua Teófilo Braga. Também Alfredo Guisado deu o nome de Teófilo Braga ao Jardim da Parada, no centro do bairro de Campo de Ourique. Pouco depois, a 16 de outubro de 1926, inaugurava-se, no Jardim da Estrela, um monumento dedicado a Teófilo Braga, da autoria do escultor Teixeira Lopes. Em pleno salazarismo, o monumento saiu do Jardim da Estrela e foi enviado para Ponta Delgada, por ocasião do centenário do seu nascimento. Ficou junto ao Forte de São Brás, a curta distância da casa onde nasceu.

Embora muito combatido por intelectuais de várias tendências, também contou com a fidelidade e dedicação de amigos como Francisco Maria Supico e de discípulos como Teixeira Bastos, Reis Dâmaso, Fran Paxeco, A. do Prado Coelho. Um dos seus admiradores, Álvaro Neves, inventariou a sua interminável bibliografia e organizou o “In Memoriam”. Ao dissiparem-se as incompatibilidades pessoais e aversões políticas, chegou a hora da reabilitação da vida e da obra em trabalhos de investigação e crítica de Joaquim de Carvalho, Luís da Câmara Reys, Mário Soares e, presentemente, Amadeu Carvalho Homem.

Um facto é evidente: o homem, o erudito, o cidadão e o político merecem ser evocados no ano do centenário da sua morte. Destaca-se, quaisquer que sejam as reservas, o pioneiro da história da literatura que elegeu Camões como o símbolo da nacionalidade. Foi um dos fundadores do Partido Republicano que contribuiu para a transformação da sociedade portuguesa, para a mudança do regime e para a solução de algumas crises institucionais.

O “ORGULHO DE SER AÇORIANO”

Saiu de Ponta Delgada aos 18 anos e nunca mais voltou à ilha de São Miguel. Guardava memórias amargas da infância e da adolescência. Manteve um contacto epistolar assíduo com Francisco Maria Supico, diretor do jornal “A Persuasão”, que lhe acompanhou os primeiros passos e o incentivou a fazer carreira universitária. Entre as numerosas obras que publicou, faz referências a autores açorianos como Gaspar Frutuoso, propôs o camoneanista José do Canto para sócio da Academia das Ciências e ocupou-se de temas açorianos. É o caso de “Cantos Populares do Arquipélago Açoreano” (1869). Este trabalho baseia-se na recolha feita por João Teixeira Soares de Sousa (1827-1882), a pedido de Garrett. Acerca da poesia popular — escreveu Teófilo — existem duas modalidades: “uma atual, móvel, continuamente em elaboração porque é um eco da vida, uma linguagem das paixões e dos sentimentos de hoje; a outra é tradicional, histórica, em desarmonia com os costumes presentes, mas repetida ainda religiosamente como lembrança de costumes e sucessos que já passaram.” Constitui: “o rapsodo de todas as alegrias e tristezas do poema da vida. A poesia — para o povo — é o ritmo do esforço no trabalho, o esquecimento da miséria, a expressão dos desejos, o tesouro da sua moral e tradições antigas, a linguagem do amor, o gemido, enfim, a verdade simples da sua alma.” (…) Compreende, por conseguinte, “fados e canções da rua, orações, profecias nacionais e aforismos poéticos da lavoura”.

Ao ser entrevistado por Albino Forjaz de Sampaio, declara que “nunca tivera a doença do açoriano, o apego ferrenho às suas ilhas, a nostalgia que sentimos quando delas nos afastamos. No entanto, através da minha longa vida, sempre me interessou tudo o que pudesse interessar aos Açores, especialmente à minha terra”. Afirmou, ainda com veemência: “Tenho orgulho de ser açoriano. As nossas ilhas são o foco da melhor tradição nacional. Nunca reneguei a minha terra. Sou ilhéu, nasci nesses rochedos donde irradiou o espírito das autonomias”.

Teófilo Braga, o homem, o erudito e o político – por António Valdemar [jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], in Revista E (Expresso), 26 de Janeiro de 2024, p.50-52 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

AS IDEIAS POLÍTICAS E SOCIAIS DE TEÓFILO BRAGA – MÁRIO SOARES


LIVRO: As Ideias Políticas e Sociais de Teófilo Braga com notas de Leitura de António Sérgio e Cartas sobre a Obra;
AUTOR: Mário Soares;
EDIÇÃO: Imprensa Nacional (reed. da ed. 1950 pelo Centro Bibliográfico ), 2021, 240 p.

Trata-se da edição do “primeiro livro que Mário Soares publicou, em 1950, há exatamente 70 anos, sob o título As Ideias Políticas e Sociais de Teófilo Braga, com prefácio de Vitorino Magalhães Godinho, mas, nesta edição, acrescentado de notas de leituras inéditas de António Sérgio, seguido de diversas cartas sobre a obra…” [José Manuel dos Santos (coordenador da coleção)]


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 Nesta publicação, que anuncia as Obras de Mário Soares, reedita-se o seu primeiro livro, resultado da dissertação de licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas, apresentada em julho de 1950, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com o título «Teófilo Braga — Tentativa de Determinação do Seu Pensamento Político». Contrariamente ao que antes desejara — estudar Direito — Mário Soares ingressa em Ciências Histórico-Filosóficas, com dezassete anos, em outubro de 1942. No momento de escolher o curso superior, a influência de três figuras que marcaram a sua formação cultural, política e ideológica é decisiva:

«Eu entrara em Letras por influência de Álvaro Salema, Agostinho da Silva e do próprio [Álvaro] Cunhal, que me haviam demovido de seguir a minha inclinação inicial — o curso de Direito — com o argumento de que se tratava de uma Escola ultrarreacionária e burguesa. Empurraram-me para Letras, invocando o estudo da Filosofia, e acenaram-me com a possibilidade de vir a ser escritor».

Mário Soares estudara, a partir do segundo ano do liceu, no Colégio Moderno, fundado pelo seu pai, João Soares. É então que estreita a ligação com estas três personalidades, que passariam a ser seus professores. De todos, quem tem uma influência «mais decisiva» sobre ele é o professor de Filosofia do Colégio, Álvaro Salema, que lhe dá lições particulares e com quem tem longas conversas. «Ele dava-me também explicações de cultura geral, em passeios de bicicleta que fazíamos no Campo Grande, que então era muito campo», recorda Soares.

Salema era também jornalista e crítico literário, designadamente na Seara Nova, revista de oposição ao regime, onde colaboravam alguns dos principais intelectuais portugueses. Enquanto regente de estudos no Colégio Moderno, Álvaro Cunhal, membro do Comité Central do Partido Comunista Português (PCP), que já fora preso, por razões políticas, diversas vezes, apoia o jovem Soares na área da Geografia. 

«Suscitou também o meu interesse pela literatura e pelo movimento cultural do neorrealismo, que na época começava a ser pujante», lembra Mário Soares. Agostinho da Silva, filósofo, escritor, professor de Literatura, também colaborador na Seara Nova, é igualmente recordado pelo seu aluno: «Dava-me aulas, se assim lhes posso chamar, divertidíssimas e encantadoras. Inolvidáveis! […] Falava-me de tudo: de livros, de pessoas, de comportamentos, de exposições (que me aconselhava a ver), de filmes, de teatro, e vagueava».

Soares nunca esqueceu a relevância dos três professores no seu percurso. No Portugal Amordaçado, escreve:

«Estes três homens, tão diferentes entre si, nas posições ideológicas e nos temperamentos, exerceram uma influência profunda em mim — no sentido de que todos representavam, embora cada um a seu modo, uma contestação moral intransigente do regime, num plano declaradamente socialista que os situava numa posição de distância (que, aliás, gostavam de fazer sentir!) relativamente aos “opositores burgueses” ancien style, simpáticos mas ultrapassados (diziam!), do tipo do meu Pai e dos seus amigos…».

Dez anos depois de Salazar tomar posse como Presidente do Conselho, Mário Soares ingressa na Faculdade de Letras, no rescaldo da Guerra Civil de Espanha e em plena II Guerra Mundial. A sua opinião sobre o estado do ensino superior estava longe de ser positiva, porque, afastados ao longo dos anos inúmeros professores antifascistas de grande reconhecimento académico e científico, muitos dos que permaneciam nas universidades eram, segundo Soares, «conformistas» em relação ao regime. Também por isso, fazendo um balanço da sua experiência enquanto estudante na Faculdade de Letras, classifica-a de «terrível» e descreve o que viveu e observou: 

«incompetência e desinteresse dos professores; sentimento generalizado de que a cultura verdadeira nada tinha a ver com as bizantinas matérias ensinadas; revoltantes injustiças nas classificações; absoluta falta de estímulo; arreigada convicção de que só a mediocridade e a subserviência seriam premiadas e poderiam, finalmente, triunfar».

[in História de um Livro, por Pedro Marques Gomes e Teresa Clímaco Leitão, pp. 32-34]

J.M.M. 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

TRECHOS LAPIDARES – NA HOMENAGEM NACIONAL A THEOFILO BRAGA


Trechos Lapidares – Na Homenagem Nacional a Theofilo Braga (LXIX Anniversario), Lisboa, Imprensa Libanio da Silva (Travessa do Fala-Só, 24), p.20

 Theofilo Braga, nesta bella arremettida de uma geração ardente contra a inércia de uma autocracia idiota, - tem desde então continuado sempre indeffectivelmente na brecha, na evidencia, na vanguarda: escrevendo de graça, desinteressadamente em satisfação do seu próprio prazer supremo, o prazer de espalhar ideias, segundo o testemunho de Ramalho Ortigão; apostolando, norteando, dirigindo com uma amplitude de efficacia, de que nem ainda hoje damos bem conta, a mentalidade portugueza” [Abel Botelho, p.6]

A renovação intellectual portugueza, encetada pela Eschola de Coimbra trazendo à mentalidade do paiz uma salutar emancipação das velharias do seu classicismo, alargou o espírito de investigação e curiosidade para todos os campos novos que o movimento litterario e scientifico europeu febrilmente revelara ao tempo, em uma demolidora fúria de todas as mentiras, de todos os erros, de todos os preconceitos artificiosos e seculares” [Alexandre Braga, p. 9]

J.M.M.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

TEÓFILO BRAGA


THEOFILO BRAGA - VIDA MUNDIAL, nº 1478, 6 de Outubro 1967

"... a política é o meio prático de coordenar entre si todas as actividades e elementos de uma sociedade. É como o grande simpático em um organismo superior, cuja função é coordenar o funcionalismo de outros órgãos por si independentes. É esta a noção mais clara da política; abandonar esta grande força à insensatez desvairada dos partidos, fugindo de tomar conhecimento do modo como a exercem, é o mesmo que entregarmos o exercício dos nossos nervos á excitação bestial dos curandeiros ..."

Teófilo Braga, in "História das Ideias Republicanas em portugal".

J.M.M.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

domingo, 17 de abril de 2011

TEÓFILO BRAGA E INOCÊNCIO FRANCISCO DA SILVA



LIVRO: "Teófilo Braga e Inocêncio Francisco da Silva. Correspondência trocada entre o historiador e o bibliógrafo da literatura portuguesa" - com Anotação de Alvaro Neves e Notícia preliminar de A. do Prado Coelho, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1928.

«É um pungente retrato epistolar de um país que esmaga às cegas os poucos recursos humanos que possui. Troca de missivas entre aquele que foi desde sempre o nosso mais conceituado amador dos livros e aquele que o triunfo da República possibilitou alcandorar-se a Presidente ... “de todos os portugueses”... Há a sublinhar que o período abrangido – 1860 a 1868 – em nada as desactualizou.

Uma passagem exemplar:

"... Eu ando aqui pouco menos que bestificado. Conclui o tomo 5.º do malfadado Diccionario, porém resta-me pouca vontade de entrar a contas com o 6.° ...

Ainda hontem me obrigaram a perder no Governo Civil oito horas successivas, das dez da manhã ás seis da tarde. E para quê? Por causa de um atoleimado Edital, mandando cumprir uma Portaria ainda mais atoleimada do Ministerio do Reino, que prohibiu um ajuntamento que certos parvos provocavam para hoje na praça de D. Pedro, e que tinha por fim accelerar a quéda do ministerio actual, para ser substituido por outro da mesma estofa, se não peior!

Lá renovou agora o conde de Thomar na Camara dos Pares a iniciativa de um projecto de organisação administrativa (que elle já apresentára na sessão passada, e chegou a ser alli approvado, e não o foi na outra camara por sobrevir a dissolução). Por este projecto sou eu irremissivelmente condemnado a morrer Amanuense do Governo Civil, ao cabo de vinte e quatro annos de serviço, passados sempre na espectativa de accesso, que uma vez deveria chegar, mas que me cortam agora sem appellação! – E o caso é, que o projecto passa (injustissimo como é a todos os respeitos) e brevemente o verêmos convertido em lei!

Isto, meu am.º, é um paiz de loucos, e de desavergonhados, entre os quaes mal se pode viver. E se não me engano, verêmos de cada vez cousas peiores. Eu por mim estou velho, e se os desgostos me não consumirem mais cedo, irei provavelmente findar os dias em Rilhafoles [ref. ao manicómio], que é uma excellente vivenda e muito de apetecer. Vejo-me para isso com boas disposições ...
"

via FRENESI LOJA, com a devida vénia.

J.M.M.

domingo, 23 de setembro de 2007

TEÓFILO BRAGA


Grandes Vultos do Pensamento Republicano: Teófilo Braga

Com selo da Edição dos CTT (1ª série). Desenho de Victor Santos – posto em circulação a 4 de Outubro de 1979

J.M.M.

domingo, 27 de maio de 2007

CONFERÊNCIAS DEMOCRÁTICAS DO CASINO LISBONENSE



Por estes dias, há 136 anos, decorriam em Lisboa as famosas Conferências do Casino, onde a intelectualidade portuguesa começava a discutir a democratização e as ideias socialistas que chegavam a Portugal devido à forte influência francesa.

Vejamos então uma carta de Antero de Quental para Teófilo Braga, onde se trata das ideias que estavam em debate na época.

"Temos um programa, mas não uma doutrina; somos associação, mas não igreja: isto é, liga-nos um comum espírito de racionalismo, de humanizaçaõ positiva das questões morais, de independência de vistas, mas de modo nenhum impomos uns aos outros opiniões e ideias, fora do âmbito marcado tão largamente à nossa unidade por esse comumponto de vista. Seremos, em religião, pelo sentimento criador do coração humano, contra os mitos doutrinais das teologias: seremos, em política, pelo governo do povo pelo povo: em sociologia, pela emancipação do trabalho, combatendo as tendências egoístas e esterilizadoras que hoje predominam. Dentro disto, todas as opiniões são perfeitamente livres, assim como todos os assuntos. O nosso fim é produzir uma agitação intelectual na nossa sociedade, lançando em cada semana uma ideia ou duas para o meio desta massa adormecida do público".

Antero de Quental, carta a Teófilo Braga, s.d., in João Medina, As Conferências do Casino e o Socialismo em Portugal, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1984, p. 69

[Note-se a actualidade do pensamento de Antero, mesmo no nosso tempo, Portugal continua a debater-se com problemas semelhantes aos que existiam no último terço do século XIX.]

A.A.B.M.

sábado, 17 de março de 2007

JARDIM DO ATENEU COMERCIAL DE LISBOA - MARÇO 1907



Foto da Conferência de Teófilo Braga, no Jardim do Ateneu Comercial de Lisboa, durante a crise académica [in Ilustração Portuguesa, Março 1907]

J.M.M.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

domingo, 25 de fevereiro de 2007

TEÓFILO BRAGA


Ontem, dia 24 de Fevereiro, assinalou-se o aniversário de nascimento de Joaquim Teófilo Fernandes Braga. No ano de 1843, em Ponta Delgada, nascia o filho de Joaquim Manuel Fernandes Braga (1804-1870) e de Maria José da Câmara Albuquerque (fal. 1846). No arquipélago açoriano inicia o seu percurso pelas letras colaborando com alguns jornais regionais e publica a sua primeira obra poética, Folhas Verdes (1859). No ano seguinte deixa os Açores e vem estudar para a Universidade de Coimbra onde permanece entre 1862 e 1867, envolvendo-se na famosa Questão Coimbrã.
Ao longo do tempo, torna-se uma das figuras da cultura portuguesa mais respeitadas, publicando inúmeras obras e influencia grande parte do pensamento político em Portugal na segunda metade do século XIX até inícios do século XX. Foi professor no Curso Superior de Letras e
Podem consultar-se úteis biografias desta personalidade aqui ou aqui ou aqui.
Como político aderiu desde muito cedo aos ideais positivistas e republicanos. Em 1878 apresentou-se como candidato a deputado pelos republicanos federalistas, mais tarde integrou o Directório do partido, sendo escolhido como presidente do Governo Provisório da República em 5 de Outubro de 1910.
Faleceu em Lisboa 28 de Janeiro de 1924.

Em jeito de curiosidade, a crer no que foi publicado, Teófilo Braga concedeu a sua última entrevista a Julião Quintinha, que o mesmo reproduz na sua obra Imagens de Actualidade, Editor Nunes de Carvalho, Lisboa, 1933, p. 57-71.

Alguns estudos interessantes sobre Teófilo Braga disponíveis na net:
- Barbosa, Luísa Maria Gonçalves Teixeira, O Brasil e o Movimento Republicano Português, 1880-1910
- Luz, José Luís Brandão da, A Positividade das Ciências Sociais em Teófilo Braga
- Matos, Sérgio Campos, História e identidade nacional.A formação de Portugal na historiografia contemporânea

Podem ainda indicar-se estudos fundamentais de:
- Carreiro, José Bruno, Vida de Teófilo Braga. Resumo Cronológico, Coimbra, 1955.
- Cidade, Hernani, Doutor Teófilo Braga. As directrizes da sua obra de História Literária, Lisboa, 1935.
- Homem, Amadeu Carvalho, A Ideia Republicana em Portugal. O Contributo de Teófilo Braga, col. Minerva História, Livraria Minerva, Coimbra, 1989.
- Pimenta, Alfredo, Teófilo Braga, V.N. Famalicão, 1943.

A.A.B.M.