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domingo, 22 de agosto de 2021

CESARINY, POR ELE PRÓPRIO – ANTÓNIO VALDEMAR

Cesariny, por ele próprio – por António Valdemar, in Expresso revista

Frontalidade provocatória para desmontar mitos consagrados, declarações polémicas acerca de poetas e escritores, repressão policial durante 30 anos por ser homossexual e, finalmente, atribuição da Grã-Cruz da Ordem da Liberdade

Reencontramos Cesariny: a limpidez do olhar, a clareza da voz e a atitude descomprometida. Trazia para os cafés e para o encontro ocasional nas ruas a provocação imediata, como “a forma de escapar, pelo humor, a uma seriedade hipócrita”, escreveu Perfecto E. Cuadrado, um dos principais estudiosos de Mário Cesariny, na introdução dos textos dispersos “Uma Última Pergunta — Entrevistas com Mário Cesariny” — que pode ser associado a outro livro não muito anterior, “Sinal Respiratório — Cartas para Sérgio Lima”, de correspondência com o escritor e pintor surrealista brasileiro.

Ambos permitem a aproximação com o poeta, o artista plástico e o comportamento humano de Mário Cesariny (1923-2006), que nos surpreendia com a lucidez e a mordacidade para desmontar a construção institucional dos mitos e das consagrações oficiais. Estes dois livros vieram completar outras recolhas: “Cartas de Mário Cesariny para Cruzeiro Seixas”; “Um Sol Esplendente nas Coisas — Cartas de Mário Cesariny para Alberto de Lacerda”; “Cartas para a Casa de Pascoaes”; e “Gatos Comunicantes”, correspondência entre Vieira da Silva e Mário Cesariny.

A organização das entrevistas, a cargo de Laura Mateus Fonseca, obedeceu a duas linhas: a do texto e a das imagens. Transcreve as entrevistas segundo uma ordem cronológica, acompanhadas dos respetivos recortes de jornais. As cartas para Sérgio Lima — outro manancial de informações autobiográficas — tiveram apresentação, edição e posfácio de Perfecto E. Cuadrado. Podemos seguir a evolução de Cesariny em Lisboa: as calorosas adesões e as ruturas bruscas e irredutíveis. Ainda não tinha 20 anos e era aluno da Escola António Arroio quando ingressou nas tertúlias nos cafés. Começou no café Hermínios, na Almirante Reis. Prosseguiu no café Royal, no Cais do Sodré, na Brasileira do Chiado e, finalmente, no café Gelo, no Rossio.

Marcaram o debate e o lançamento de projetos literários e artísticos. A revelação pública ocorreu em 1948 e coincidiu com o centenário do nascimento de Gomes Leal. Dos anos 40 aos anos 60, Cesariny demarcou-se, ostensivamente, do neorrealismo para se dedicar à intervenção no movimento surrealista. Permanece nos seus livros de poesia, fortemente autobiográficos: “Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos”, “Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano”, “Manual de Prestidigitação”, “Pena Capital”, “Titânia” ou “A Cidade Queimada”.

Os momentos mais significativos da poesia de Cesariny encontram-se nestes livros. Já as entrevistas e as cartas recuperaram juízos críticos e retratos de vidas feitas de cumplicidades, de intrigas, de invejas e de ódios. Vidas falhadas e vidas destroçadas ou vidas interrompidas pela morte, no auge da criação. Basta lembrar António Maria Lisboa.

APROXIMAÇÕES E RUTURAS

A posição de Cesariny fica documentada: “O surrealismo”, afirmou, “foi um convite à poesia, ao amor, à liberdade, à imaginação pessoal. O surrealismo reuniu o romantismo, o simbolismo, o futurismo, as tradições libertárias e outras correntes, e deu-lhes um sentido. Esse sentido não vai desaparecer, ficou explícito.” Esclarecia, contudo, que “depois dos 50 anos de idade já ninguém é surrealista, nem mesmo o movimento surrealista. Para que a semente germine, volte a ser futuro, terá de separar-se, baixar à terra. Será sem dúvida um trabalho de séculos — moroso, lento — ou terrivelmente rápido, fulgurante”. E acrescentava: “Antes, foi a liberdade coletiva roubada, agora é a nudez aflitiva que à direita e à esquerda quer aparecer vestida.”

A propósito dos vínculos entre a poesia e a pintura era categórico: “Escrevo desde 1942. A febre durou 12 anos. No fundo, escreve-se sempre o mesmo verso. Escrever poesia é uma espécie de invocação. Mas não se pode estar toda a vida a invocar o mesmo santo, sobretudo se ele não aparece. Assim sendo, não rezo mais. (...) A pintura parece não bulir tanto connosco. É a imagem à mesma, mas parece exterior. É um trabalho de mediação em que parece não se estar implicado.”

Cesariny nunca escondeu o que o afastava de André Breton, “o papa”, e a sua preferência por Artaud: “O Breton é o fim de qualquer coisa. O Artaud é um começo. O Breton levou as coisas até um limite que parece final. O Artaud vai além disso, foi buscar outras civilizações, uma antilinguagem. Gosto mais do Artaud, que decidiu viver o seu drama como tragédia cósmica.”

PASCOAES E PESSOA

E quais os poetas portugueses que admirava? Podemos sintetizar: Camões era uma citação óbvia, apesar de “ter engravatado a língua”. Colocava depois Bocage, mas fazendo questão de acentuar que nas “Cartas de Olinda e Alzira” foi “muito mais importante do que todas as ferrabrazices do Marques de Sade”. Incluía Antero, Gomes Leal e Cesário Verde entre os seus poetas maiores. Houve, ao descobrir Pascoaes, um tal deslumbramento que o levava a afirmar que “é maior do que Pessoa”; “Pascoaes é um poeta cósmico, que vai além de todos os limites, espaciais e lunares, e o Pessoa é um poeta que não sai da mesa do café.”

A geração do Orpheu, na altura em que Cesariny despertou para a literatura, era ainda mal conhecida. Cesariny passou a considerar Sá Carneiro “mais poeta por dentro e por fora do que o Pessoa dos múltiplos”. Ao falar acerca da obra ortónima e heterónima de Pessoa, declarou frontalmente: “A problemática do Pessoa é aldrabice da mais chilra, filosofia da instrução primária. Ele arranjou umas antinomias que não funcionam. O ‘ser tu sendo eu’ não há, não é problema para ninguém, aforismo pseudopsicológico e pseudofilosófico que ele transportou numa dilemática, com um talento literário muito grande.” Ou, então, “Fernando Pessoa, no fundo, é o antipoeta por excelência. Ele é um puro racionalista, a não ser quando se exalta e assina Álvaro de Campos”. Procurava, às vezes, justificar que não era contra Pessoa, mas “contra a catedral em que se transformou e que até já dá bolsas de estudo”.

POETAS CONTEMPORÂNEOS

Cesariny destacava, em relação aos contemporâneos, António Maria Lisboa, “um importantíssimo poeta de linguagem europeia — e antieuropeia — demandando outras margens de onde só mais um se avista Rimbaud”. Admirava a autenticidade de Sophia de Melo Breyner. Irritava-se com “a poesia lamento, o Régio que gritava e doía–lhe tudo”. Enaltecia José Sebag, “poeta de uma poesia fulgurante, que publicou um só livro e desapareceu do mapa”. Punha reticências a Herberto Helder, incluído “na lista negra-azul que o tempo areja”, celebrado “nos anos cinquenta e oito, sessentas” devido a “um pendor lírico tipo Cântico dos Cânticos, servido por suma jeitaça para metáfora-uma-atrás-da-outra-é-um-nunca-acabar. Que fazer?”

Cortou relações com Alexandre O’Neill, um dos companheiros das primeiras horas; manteve um conflito latente com Jorge de Sena e, sobretudo, uma aversão visceral a José-Augusto França. Replicava as picardias de Luiz Pacheco e devolvia as perversidades de Cruzeiro Seixas.

A CONSAGRAÇÃO OFICIAL

As entrevistas e as cartas de Cesariny revelam a inovação que introduziu na poesia, o arrojo da linguagem e, simultaneamente, a insubmissão e a virulência cáustica perante os convencionalismos sociais, a mediocridade cultural e os totalitarismos políticos. Até ao fim da vida, mesmo depois dos 80 anos, foi um provocador inveterado. Com razão ou sem razão. Sem temer qualquer controvérsia.

Acusado de homossexualidade, suportou, até ao 25 de Abril, a repressão sistemática da Polícia Judiciária, “uma filial da PIDE”, e a intimidação, o terror e as ameaças do Tribunal de Execução de Penas. Menciona os nomes de juízes para memória futura. E pormenorizou que “tinha inscrito, na ficha da polícia, ‘suspeito de vagabundagem’.

Durante 30 anos ‘suspeito’! Podiam investigar e tirar conclusões, não? Primeiro, ia lá todos os meses, como as putas. Depois, de três em três meses; depois, de seis em seis, e, por fim, o que eles quisessem, podia ser até à minha morte. Tinha medo de ir ao telefone, ao correio. Ao princípio ainda me ria para dentro, mas começou a tornar –se insuportável”. Os enxovalhos que sofreu deixaram feridas profundas. Fora sujeito à execração pública. Recebeu, contudo, as homenagens de dois Presidentes da República: Mário Soares integrou-o nos convidados de viagens de Estado ao estrangeiro; Jorge Sampaio atribuiu-lhe o mais elevado grau das condecorações honoríficas, a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade. Mario Cesariny já era, há muito, consagrado como artista e, sobretudo, como um dos maiores poetas do seu tempo e da sua geração. Faltava este reconhecimento. E que Cesariny não recusou.


Cesariny, por ele próprio
– por António Valdemar [jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], in E revista do Expresso, 20 de Agosto de 2021, p.58-59 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

domingo, 30 de abril de 2017

[FIGUEIRA DA FOZ – EXPOSIÇÃO] CRUZEIRO SEIXAS DE 1940 A 2017



EXPOSIÇÃO: 29 de Abril a 4 de Junho de 2017;
LOCAL: Galeria O Rastro (Rua da Liberdade, nº 14), Figueira da Foz;

CATÁLOGO (luxuoso) da Exposição de Pintura de mestre Cruzeiro Seixas, profusamente ilustrado (e falado), contém textos [memórias] de Ernesto Sampaio [“As mãos ao nível de nós mesmos”, de Março de 1995], Mário Cesariny [“Os Estados Gerais. Tentativas de interpretação do quadro do mesmo título de Cruzeiro Seixas”] e um belíssimo (iluminado) texto de Cruzeiro Seixas, “Dos que lerem este texto …”, datado de Março de 1991.  
 
 

“…. Setenta anos passam afinal como um longo minuto. Por exemplo, não li metade do que devia ter lido. Sou assim um muito mau exemplo. Mas tudo o que escreveu um Dostoievski ou um Borges, ou a obra de um Miguel Ângelo ou de um Gustave Moreau, não cabem realmente no percurso de uma vida! Trata-se de miraculados, porque não acredito exclusivamente nas virtudes do trabalho. Dias e noites a trabalhar, não deixam tempo para olhar, e menos ainda para imaginar. Tudo o que aconteceu na vida foi tão rápido, que mal tive tempo para o reter na memória, e discernir; e no entanto tudo foi excessivo, em relação às minhas forças. Nem tempo tive para construir o cipreste que tanto queria sobre a minha sepultura, todo em vidro, para se poder ver os movimentos do seu coração cipreste...

Seremos nós, portugueses, excepcionalmente dados a desencontros? Parece que, quando chegámos à Índia, ela já não estava ...

Mas os grandes problemas, resolvem-se ou adiam-se por si mesmos. Tudo o resto é ilusão, ou vaidade (…)
 
 

De facto amar e ser amado, com igual intensidade, é ainda muito mais fácil do que escrever um belíssimo poema. E se me revolto por me quererem impor isto ou aquilo, como posso eu impor isto ou aquilo aos outros? Além disso não faltam “artistas” que querem condecorações, ruas com o seu nome, o Prémio Nobel, como se as forças que os movem fossem egoísmos, orgulhosos, vaidades, certezas absurdas. Contorcem-se até ao mais possível impossível, como se isso tivesse algo a ver com a verdadeira imaginação, com a verdadeira criatividade, com a verdadeira liberdade. O “Nu” de Marcel Duchamp, sobe agora, em vez de descer, uma escada de degraus perigosamente gastos. E espera-se que da boca lhe saiam coisas indizíveis.

Os que fizeram revoluções, são mais revolucionários do que por exemplo o foi a pintura de Goya ou de Kandinsky? E não esqueçamos, que Salazar foi morto por uma simples cadeira! Iremos assistir á revolta das cadeiras perante os ditadores do futuro? A despropósito, cito Saint-Jus; "Ceux qui font les révolutions à moitié, ne font que creuser leur propre tombeau ... ".
 
 
Há de facto feridas do tamanho de países! E aqui, onde nascemos, é precisamente o local onde o mar se afogou. Mas será por acaso que dois dos quadros mais importantes do imaginário e do mistério estão em Portugal? Refiro-me ao Bosch, e também ao Nuno Gonçalves. Ainda quero acreditar que tudo tem um sentido, evidentemente oculto …” [Cruzeiro Seixas, in Catálogo, pp. 18-26]

J.M.M.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A IDEIA 73/74 – REVISTA DE CULTURA LIBERTÁRIA


No passado dia 13 de Dezembro saiu a estimada Revista de Cultura LibertáriaA IDEIA - que, sob direcção de António Cândido Franco, apresenta, neste seu número duplo (II série, vol. 17, nº 73/74), vários inéditos e dedica um caderno ao Surrealismo e ao Café Gelo, com um dossier de/sobre Manuel de Castro (1934-1971).

A IDEIA – II série 73/74 (Outono de 2014), 2014.

[Alguma] Colaboração/textos assinados: Agostinho da Silva, Alfredo Margarido, Alexandre Vargas, Ângelo Lima, António Barahona, António Cândido Franco, António Gonçalves [“Henrique Risques Pereira”], António Telmo, Benjamim Péret, Fiame Hasse Pais Brandão, Gonçalves Correia [sobre Brito Camacho], Joaquim Palminha da Silva, Jorge Leandro Rosa, José Hipólito Santos [“Um militante libertário: Moisés Silva Ramos], José Maria Carvalho da Silva, Luís Amaro, Manuel de Castro [dossier de/sobre este poeta], Manuel Hermínio Monteiro, Manuel Silva, Maria Estela Guedes, Maria de Fátima Marinho, Miguel Carvalho, Nuno Júdice, Paulo Borges, Pedro Martins, Pedro OOm, Raul Leal, Rui Sousa, Sérgio Lima, Sofia Carvalho, Teixeira de Pascoaes, Virgílio Martinho

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J.M.M.

sábado, 16 de novembro de 2013

CONGRESSO SURREALISMO(S) EM PORTUGAL. NOS 60 ANOS DA MORTE DE ANTÓNIO MARIA LISBOA


CONGRESSO: "Congresso Internacional Surrealismo(s) em Portugal. Nos 60 anos da morte de António Maria Lisboa

DIAS: 18 a 22 de Novembro;
LOCAIS:
Fundação Calouste Gulbenkian (dias 18 e a9) | Casada Liberdade Mário Cesariny (dia 20) | FLUL (dias 21 e 22);

ORGANIZAÇÃO: CLEPUL |IECCPMA

"Será um evento inédito, à escala nacional e internacional, colocando pela primeira vez em diálogo crítico as vozes que fizeram a história do Surrealismo em Portugal, um movimento que não tem merecido a devida atenção por parte da crítica literária e artística portuguesa. O Congresso contará com a presença e testemunho de alguns dos representantes vivos deste movimento. É a pensar nesses autores que será feita uma homenagem a Artur do Cruzeiro Seixas, singular representante não só do Surrealismo mas também da Arte portuguesa, que estará presente no dia 18 de Novembro, na sessão de abertura do Congresso, na Fundação Calouste Gulbenkian.

Está também prevista a participação de importantes estudiosos das Vanguardas e do Surrealismo em Portugal, como Adelaide Ginga, António Cândido Franco, Cândido de Oliveira Martins, Carlos Cabral Nunes, Dionísio Vila Maior, Fernando J. B. Martinho, Gastão Cruz, João Pinharanda, José Carlos Seabra Pereira, Manuel João Vieira, Manuel da Silva Ramos, Mário Jorge Torres, Miguel de Carvalho, Nuno Júdice, Perfecto E. Cuadrado ou Rui Zink, procurando tratar várias expressões artísticas do Surrealismo, sobretudo a literária, a plástica e a cinematográfica"

[ler AQUI, AQUI

J.M.M.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

LIVROS PROIBIDOS NO REGIME FASCISTA (VI)




- NOVOS CONTOS DO GIN, Mário Henrique-Leira, Lisboa, Editorial Estampa, 1973, 183-VII págs.

"Entrei.
- Tire o chapéu – disse o Senhor Director.
Tirei o chapéu.
- Sente-se – determinou o Senhor Director.
Sentei-me.
- O que deseja? – investigou o Senhor Director.
Levantei-me, pus o chapéu e dei duas latadas no Senhor Director.
Saí
"

Mário Henrique-Leira, História Exemplar.

J.M.M.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

A AVENTURA SURREALISTA EM PORTUGAL


Fizemos referência ao movimento surrealista em Portugal, considerando dois grupos (se assim se pode encarar) fundamentais, o G.S.L. e "os Surrealistas", que originaram toda essa actividade estética, poética e política, que nos finais da década de 40, em pleno Estado Novo, marca a corrente de "transfiguração" das Artes e Letras lusas. De um lado a corrente "neo-realista" e do outro a "aventura surrealista". São sabidas as disputas e controvérsias em torno desses dois movimentos estéticos, sendo que a "aventura surrealista", por razões de ordem política, irrompe tardiamente em Portugal. Mas, as ligações, limites e rupturas havidas entre os dois grupos são bem curiosas e, por isso mesmo, importa referenciar o "estudo do surrealismo na perspectiva da aventura social e cultural", evidentemente de oposição política, atendendo ao quadro político de então, a partir da trajectória dos seus protagonistas e dos seus "combates".

Ora o notável trabalho de Adelaide Ginga Tchen, "A Aventura Surrealista", Edições Colibri, 2001, é indispensável. As fontes bibliográficas cedidas (entre as quais, saliente-se, a anotação de um conjunto vasto de artigos saídos em periódicos), a tábua cronológica apresentada (em Portugal e no Mundo) e a muita informação de carácter político fornecida (quer sejam as referências a membros que participaram no nacional-sindicalismo português, quer às ligações e posições havidas com o P.C.P.), tornam esta obra (a par de uma outra mais global e de cariz poético e interpretativo - O Surrealismo em Portugal, de Maria de Fátima Marinho, ICM, 1987) de referência obrigatória.

J.M.M.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

SURREALISMO E FASCISMO

Eis o cartaz, de Janeiro de 1949, retirado da III Exposição Geral do Grupo Surrealista de Lisboa [onde se dizia: "O Grupo Surrealista de Lisboa / pergunta / depois de vinte anos de Medo/ ainda seremos capazes de / Liberdade? / É absolutamente / indispensável / votar contra / o Fascismo"], dado a proibição governamental. O "voto contra o fascismo" sugeria o apoio à campanha de Norton de Matos para a Presidência da República.

Faziam parte do G.S.L., na altura, António Pedro (fazia parte da comissão de honra de Norton de Matos), José Augusto França, Marcelino Vespeira, Alexandre O'Neill, António DaCosta, Cândido Costa Pinto, Fernando de Azevedo, João Moniz Pereira, António Domingues.

O G.S.L., originariamente formado em Julho 1947, teve a dissidência em 1948 de Mário Cesariny Vasconcelos (pelo que não esteve presente na I Exposição do GSL, Janeiro 1949), e que juntamente com Pedro Oom, Cruzeiro Seixas, Henrique Risques Pereira, António Maria Lisboa, Mário Henrique-Leiria, Carlos Calvet, Fernando José Francisco, forma um Grupo Surrealista (Dissidente), os Surrealistas ou o Surrealismo-Abjeccionismo.

J.M.M.

MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS [1923-2006]


"Toda a água do mar não bastaria para lavar uma mancha de sangue intelectual"

"Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar
E entre nós e as palavras, o nosso querer falar"
[M.C.V.]

"... algo se ganhou contudo: a clarificação do sentido da luta travada em numerosos países (excluídos Portugal e também a Espanha), de 1924 até hoje [1977], pelos surrealistas que, isolados ou em grupo, erguem a voz, quando não a própria vida, contra os pistoleiros da Poesia, os assassinos do Amor, os retaliadores da Liberdade, estejam eles na chamada direita, estejam na chamada esquerda, sinalefas, estas, cada vez mais incapazes de conter a actualmente-claramente visível decadência das ideologias, decadência de que o Surrealismo continua sendo primordial fautor ..."

[Mário Cesariny, in Textos de Afirmação e de Combate do Movimento Surrealista Mundial, P&R, 1977]

"Em Portugal nunca houve um movimento surrealista, nem sequer no ano de existência pública (1948-1949) do grupo surrealista de Lisboa, que depois da edição de quatro cadernos, de um protesto público e de uma exposição de pintura se dissolve, dando lugar a outro grupo que também não tardará muito a dissolver-se. Como seria possível subsistir, ou subsistir-se na ditadura? O surrealismo português viveu e morrerá, talvez, clandestino"

[M.C.V., in entrevista ao Jornal de Letras, Artes e Ideias, 20/2/1990]

J.M.M.