quinta-feira, 30 de agosto de 2012

JOSÉ DO VALE (Parte I)


Nasceu em 1880, mas não foi possível apurar concretamente onde, nem quem foram os seus progenitores.

Começou por ser empregado comercial até entrar na redacção do Pais, jornal diário republicano, dirigido por Alves Correia.

Foi militante socialista no Centro José Fontana, em Lisboa, de onde viria a ser expulso em 1899.

Manifestando algum à vontade e habilidade tornou-se jornalista, primeiro alinhando em publicações de pendor socialista, mais tarde anarquista e republicano. Para Rocha Martins, José do Vale era “um jornalista boémio, mergulhado no anarquismo e agasalhado pelos republicanos, redactor do Mundo e a quem todos os juízes de instrução prendiam ao menor tumulto. Ele ía, ficava no cárcere, com a sua luneta encavalada no nariz grosso, a face torrada, a cabeleira encaracolada e revolta, passava lá uns dias e regressava à mesma, à sua propaganda que se fazia entre o baixo povo, bebendo e convertendo” [Rocha Martins, D. Manuel II (Memórias para a História do seu reinado), vol. II, Sociedade Editora «José Bastos», Lisboa, s.d., p.190].

Em 1900, integrando o Círio Civil Heliodoro Salgado, participou de forma activa no Congresso Anticlerical que se realizou entre 29 e 31 de Julho de 1900, nas instalações da Associação dos Descarregadores de Mar e Terra, situada na rua Vinte e Quatro de Julho e organizado pela Federação dos Círios Civis. Na primeira sessão do congresso assumiram a presidência Cândido Moraes da Silva e como secretários Xavier Faia e Carlos Gonçalves. Logo nessa sessão existem registos da sua intervenção no congresso, devido à presença de 16 elementos da autoridade, que impediam o normal decurso dos trabalhos e os congressistas votaram contra essa falta de liberdade [“Congresso Anticlerical”, Vanguarda, Lisboa, 30-07-1900, Ano V (X), nº 1340 (3285), p. 1, col. 5].

Em Setembro de 1900, assina a mensagem endereçada ao Congresso Internacional do Livre Pensamento, realizado em Paris, a 17 de Setembro de 1900, onde o representante da Associação do Registo Civil de Lisboa foi Alves da Veiga.[César Nogueira, Notas para a História do Socialismo em Portugal (1871-1910), Col. Portugália, Portugália Editora, Lisboa, 1964, p. 253-254].

Tomou publicamente posição contra a Guerra dos Bóeres, participando na Conferência Contra a Guerra Sul-Africana, realizada em Lisboa, nos dias 27 e 28 de Março de 1902, na Associação Comercial dos Lojistas, numa organização conjunta entre a Federação Socialista Livre e o Círio Civil Estrela. Os participantes nesta conferência eram reconhecidamente republicanos entre destacavam-se Augusto José Vieira, José do Vale e Francisco Homem Cristo, entre outros.

José do Vale passa a colaborar regularmente com o jornal O Germinal, que se começou a publicar em Setúbal sob a direcção de Martins dos Santos, contando este periódico com a colaboração de variados autores republicanos, socialistas e anarquistas intervencionistas, como o biografado. Este semanário que se começou a publicar em 4 de Outubro de 1903, recebia colaborações de Bartolomeu Constantino, Fernão Boto Machado, Campos Lima, Carlos Rates, França Borges, Augusto José Vieira, Miguel Bombarda, Heliodoro Salgado, Teixeira de Pascoaes e Emílio Costa. Este jornal passou, em 1906, a fazer parte do Grupo de Instrução Germinal, divulgando as iniciativas do Teatro Livre, instituição que tinha sido fundada em 1902 e onde participava também José do Vale [António Ventura, “Um republicano heterodoxo: Fernão Boto-Machado”, Revista de História e Teoria das Ideias, vol. 27, Coimbra, 2006, p. 302].

[Nota: a fotografia de José do Vale, apesar de não ter a melhor qualidade, foi a possível. Retirada de Hermano Neves, Como Triunphou a Republica, Letra Livre, Lisboa, 2010, p. 73 (ed. fac-similada)]

A.A.B.M.
[Em continuação]

terça-feira, 28 de agosto de 2012

JUDITH TEIXEIRA



JUDITH TEIXEIRA, “Castelo de Sombras”, Lisboa, Imprensa Libanio da Silva [ed. Autora], 1923;

JUDITH TEIXEIRA, “Nua. Poemas de Bizâncio” [capa de Guilherme Filipe], Lisboa, Livraria J. Rodrigues & C.ª, 1926, 3ª ed. [1ª ed. mesmo ano].

► “Depois de uma interessante estreia na revista Contemporânea (n.º 2, Junho de 1922; e n.º 6, Dezembro de 1922), ‘nos idos de Março de 1923 o Governador Civil de Lisboa, providencialmente sobressaltado pela alta brida de uns quantos Estudantes Católicos sedentos de mão pesada contra a Literatura Dissolvente que inundava escaparates e assim corroía os Santíssimos Costumes da Pátria Lusitana (ao tempo Republicana e Laica e Democrática), açula a polícia e faz apreender, para depois cremar, exemplares das Canções, de António Botto, de Sodoma Divinizada, de Raúl Leal, e de Decadência, duma tal Judith Teixeira – esta com direito a adjectivo personalizado: ‘desavergonhada’. (…)’ (Assim abre o editor Vitor Silva Tavares o seu prólogo à reedição & etc, em 1996, da obra integral de Judith Teixeira.

E prossegue, assim: ‘A dita cuja, não obstante o escarcéu e em rescaldo de incêndio, talvez para despistar dá à estampa um nem por isso inócuo novo livro de poemas – Castelo de Sombras – e, em Dezembro do mesmíssimo ano – ah! leoa! –, reedita o famigerado. Sublinha, pois, o desplante. Aguarde-se 1926 e teremos nas livrarias NVA, Poemas de Bizâncio: ela a dar-lhe. (…)

Dá que pensar. Porque a Kultura de Bombeiros & Clérigos – selectiva como convém neste País de milionários que é também o mais pobre e analfabeto da Europa – regista a polémica da “Literatura de Sodoma”, Botto, Leal, Pessoa, e omite, discrimina, branqueia, aquela que viu igualmente um livro seu em labareda e foi afinal a mais perseguida e enxovalhada de quantos. (…)

Nem rasto de memória de uma mulher que em 1925 funda, dirige e edita uma revista – Europa – de alto gabarito cosmopolita e eclético 'modernismo'. Vilipendiada pela moral vigente (que não era só, não senhor, a dos jovens prosélitos do fascismo lusitano; afinava pelo mesmo diapasão uma Lisboa de chapéu-de-côco republicano, possidónia e reaccionária no ideário pequeno-burguês como nos hábitos e costumes sexuais), viu-se, em 1927, sentenciada de morte artística pelo grão-sacerdote José Régio. Assim: “Todos os livros de Judith Teixeira não valem uma canção escolhida de António Botto” (…)

Núa surgira em 1926, no decurso do golpe militar ditatorial do 28 de Maio, e serviu aos fascistas como bombo de festa no patriótico Revolução Nacional, periódico que será coadjuvado na alarvidade tanto por Amarelhe n’O Sempre Fixe como por Marcello Caetano na Ordem Nova, definindo-o este último – obviamente com a sabedoria inquisitorial dos traumas higienistas da vontade de poder – como ‘papelada imunda, que empestava a cidade’.
" [via Livraria FRENESI]

SOBRE JUDITE TEIXEIRA: Judite Teixeira [Wikipédia] | Judith Teixeira [Biografia] | EVROPA [curioso Blog sobre Judith Teixeira, escrito por Martim de Gouveia e Sousa] | A poesia sáfica de Judith Teixeira | O lirismo Homoerótico de Judith Teixeira

J.M.M.

TEÓFILO BRAGA


THEOFILO BRAGA - VIDA MUNDIAL, nº 1478, 6 de Outubro 1967

"... a política é o meio prático de coordenar entre si todas as actividades e elementos de uma sociedade. É como o grande simpático em um organismo superior, cuja função é coordenar o funcionalismo de outros órgãos por si independentes. É esta a noção mais clara da política; abandonar esta grande força à insensatez desvairada dos partidos, fugindo de tomar conhecimento do modo como a exercem, é o mesmo que entregarmos o exercício dos nossos nervos á excitação bestial dos curandeiros ..."

Teófilo Braga, in "História das Ideias Republicanas em portugal".

J.M.M.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

PRIMEIRO CONGRESSO DOS TRABALHADORES RURAIS, ÉVORA, 1912


Assinalou-se no dia 25 e 26 de Agosto o I Centenário do Congresso dos Trabalhadores Rurais, realizado em Évora.

Neste congresso estiveram presentes delegados de 39 sindicatos que representavam 12 525 trabalhadores rurais de Évora, Coruche, Ferreira do Alentejo, Amieira, Odemira, Cuba, Alpiarça, Castelo de Vide, Portalegre, Aviz, Torrão, Portel, Beja, Alcáçovas, Terrugem, Azaruja, S. Mancos, Evoramonte, Machede, Monte do Trigo, Egrejinha, Val Pereiro, Vendinha, Torre dos Coelheiros, S. Tiago do Escoural, Monte do Trigo, Vil’Alva, Montoito, Campo Grande, Arraiolos e Torrão.

Os trabalhos realizaram-se na sede da União Local, em Évora, tendo presidido à sessão Manuel Ferreira Quartel, representante da Associação dos Trabalhadores Rurais de Coruche, como secretário Carlos Rates, elemento da Comissão Executiva do Congresso Sindicalista e João Bernardo Alcanena, delegado da União dos Sindicatos de Évora.

A primeira proposta aprovada pelo congresso foi apresentada por José Joaquim Candieira e visava o protesto contra a prisão do professor José Buisel, de Portimão, e defensor da classe operária e preso por suspeita de conspirar contra a República.

Foram ainda apresentadas propostas de António Marcelino, da Associação de Classe dos Trabalhadores Rurais de Évora, que também protestou contra a prisão de José Buisel e acrescentou o problema da aquisição de material bélico por parte do Governo da República, no valor de 70 000 conto, enquanto o País continuava mergulhado na pobreza, na ignorância e a população era obrigada a emigrar em grandes quantidades. Interveio também, a propósito da aquisição de material bélico, Manuel Maria de Castro, da Associação de Trabalhadores Rurais de Cuba, que defendeu parcialmente a posição do Governo, mas a maioria dos congressistas apoiou a posição defendida por Candieira. Interveio ainda Vital José, da Associação dos Trabalhadores Rurais de Aviz, caucionando a opinião de José Joaquim Candieira, bem como as intervenções de Manuel da Conceição Afonso, delegado da Comissão Executiva do Congresso Sindicalista, João Narciso, delegado dos Trabalhadores Rurais do Campo Grande, Sebastião Caeiro, do Sindicato Rural de Vendinha e António Marcelino, dos trabalhadores de Évora.

As principais conclusões do Congresso das Associações de Trabalhadores Rurais de Évora foram então as seguintes:
1º Fundar a Federação Corporativa dos Trabalhadores Rurais;
2º Iniciar a discussão dos estatutos da Federação e que as associações representadas paguem a quota de admissão;
3º Convidar as restantes associações de classe que não estiveram presentes no congresso a aderirem e a federarem-se e começarem a pagar a quotização a partir de Setembro desse ano;
4º Promover um congresso Corporativo em Abril de 1913, em Évora, para discutir temas como o problema agrário, o cooperativismo e outras questões que interessam ao proletariado rural;
5º Uma vez constituída a Federação, era fundamental reconhecer o problema da unidade operária e o perigo que representava a tutela política, devendo também aderir à Comissão Executiva do Congresso Sindicalista.

No último dia dos trabalhos, o congresso foi presidido por Manuel António de Castro, de Cuba e secretariado por Manuel Afonso e António Marcelino.

Depois de um conjunto de intervenções de Manuel António de Castro, Manuel Ferreira Quartel, Francisco Caeiro, José Clemente, Francisco Manuel Lapa, Vital José, Júlio Manuel Galante, António Marcelino, José Marreiros, Manuel Isidro Bento, Manuel dos Santos, João Narciso, Francisco António Serrano e Carlos Rates.

Procedeu-se, por fim, à organização da Comissão Administrativa do Conselho Federal que ficou assim constituído:
Secretário Geral: Vital José
Adjunto: António Marcelino;
Secretário Administrativo: Francisco Cebola;
Tesoureiro: Joaquim Galhardo;
Bibliotecário: António Joaquim Graça.
Outro dos resultados deste congresso foi o início da publicação de uma publicação periódica que se iniciou alguns meses depois: O Trabalhador Rural.

Bibliografia consultada:
Ventura, António, Subsídios para a História do Movimento Sindical Rural no Alto Alentejo (1910-1914), Seara Nova, Lisboa, 1976.

A.A.B.M.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

24 DE AGOSTO - HOMENAGEM A MANUEL FERNANDES TOMÁS - FIGUEIRA DA FOZ



24 de Agosto de 1912 - HOMENAGEM a Manuel Fernandes Tomás e à Revolução Liberal de 1820 - Figueira da Foz

16.30 Horas: Pintura de painel por módulos da imagem de M.F.T. a discursar, por vários artistas figueirenses ligados à Associação de Amizade e das Artes Galego Portuguesa e à Magenta

18.30 Horas:

EVENTO – Cerimónia Pública de Homenagem a Manuel Fernandes Tomás

- Deposição de uma Coroa de Flores junto ao túmulo, em homenagem a Manuel Fernandes Thomaz (M.F.T.);
- Intervenções: Presidente da Associação 24 de Agosto; Presidente da Associação M.F.T.; Presidente da Câmara Municipal;
- Dramatização de M.F.T nas Cortes, pelo Eng.º Luís Ferreira, subordinada ao tema “Liberdade de Imprensa”;
- Intervenção pelo Prof. Carlos Carranca, subordinada ao tema “A Liberdade hoje”.

LOCAL - Pr. 8 de Maio (Figueira da Foz)
ORGANIZAÇÃO – Câmara Municipal da Figueira da Foz, Associação Manuel Fernandes Thomaz e Associação 24 de Agosto, Junta de Freguesia de São Julião da Figueira da Foz.

FOTO 1: Manuel Fernandes Tomás;
FORTO 2: Capa do jornal "Humanidade", de 24 de Agosto de 1930 [clicar na foto para ler]

J.M.M.

ALMANAQUE HUMANIDADE PARA 1931


ALMANAQUE DA HUMANIDADE PARA 1931 – Organizado por Octávio Sérgio, Manoel Lavrador e Alexandre Pinto, Porto, Tip. Casa do Povo (R. de Camões, 570, Porto), 1931, 200 p.

[capa de Leal da Câmara; profusamente ilustrado; com fotos de Magalhães Lima, António José de Almeida, Teófilo Braga, Manuel da Arriaga, Miguel Bombarda, Cândido dos Reis, Machado dos Santos, António Granjo, Norton de Matos (oferta com dedicatória do próprio aos redactores da “Humanidade), Bernardino Machado, Carlos Babo, Gomes Freire de Andrade, José Elias Garcia, Miguel de Unamuno, Alferes Martins, Dr. José de Castro, Álvaro de castro, Prof. António Augusto Martins, general Ribeiro de Carvalho, Saint-Just, Dra. Carmen Marques, coronel Manuel Maria Coelho, Carlos da Maia, Fermin Galan, Francisco Ferrer, Afonso Costa, José Estevão de Magalhães, Marinha de Campos, Pedro Miranda, major Afonso Pala, Júlio Pereira Veloso, João Carlos Gonçalves, dr. José Salvador, dr. Alberto Milheiro, dr. Joaquim Pinto Coelho, Manuel Laranjeira]

Trata-se de uma publicação de índole republicana e anti-clerical, ligado à maçonaria portuense e ao jornal "Humanidade".

HUMANIDADE - Jornal semanal editado pelo Grupo de Estudos Filosóficos Sociais LUX, do Porto. Ano I, nº 1, 1 de Setembro de 1929 até II série, nº 14, 5 de Abril de 1931; Administração: António de Brito; Direcção: Carlos Cal Brandão; Editor: António Gonçalves; Redacção: Rua Sta Teresa, 24; Impressão: Tip. Nunes & Rocha (R. Passos Manuel, 128, Porto; depois, Tip. Lisboa & Ferreira, Rua de Belomonte, 50, Porto). O jornal "Humanidade", de “inspiração maçónica” foi fundado no Porto em 1929, pelo Grupo de Estudos Filosóficos e Sociais Lux, partindo a iniciativa [cf. António Ventura] de membros das lojas maçónicas Liberdade e Progresso (nº420, do REAA), Comuna (nº438, do RF) e Progredior (nº272, do REAA).

[Algumas anotações do] Almanaque da Humanidade para 1931: Efemérides; “O Estado Corporativo”, por Norton de Matos; poema “Regicidas”, de Luís de São Justo; “O lógico regime da Separação”, por Carlos Babo; “Lição que dura ainda …”, de Tomás da Fonseca; poema “Pátria”, por Augusto Casimiro; “Humanidade”, por Gonçalo de Moura; poema “Da Nova Genésia”, de Jaime Cirne; “Pela Democracia! Pela República”, por Simões Raposo Júnior; “Subsídios para a História do Monumento ao Marquês de Pombal”, pelo coronel Oliveira Simões; “O fio da … Tradição”, por Libertus; “A igreja e o livre-pensamento”, por A.P.C.; “Deveres de um Liberal”; “Preceitos maçónicos”; “Deus Existe …”, por José Manuel de Deus; “Saint-Just e a Revolução Francesa”, por Jorge Sanches de Castro e Santos; “Direito Feminino”, por Elina Guimarães; “O conceito de moral”, por Manuel Maria Coelho; “Guerra à Guerra”, de Barros Lima; A tragédia de 19 de Outubro; Mártires da Liberdade, por Amando Marques; “Solilóquio de um desesperado”, por Edmundo de Oliveira; “A Imprensa”, por Cristina Torres; “O Clericalismo. Sua influência para a proclamação da República” (extracto de uma conferência de Magalhães Lima); “Os mortos voltam?”, por Gomes de Carvalho; Da Maçonaria e seus Princípios; A Associação do Registo Civil, por Júlio Martins Pires; Presidentes do Grémio Luzitano desde a Fundação.

J.M.M.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

RUI RAMOS ... OU "UMA HISTÓRIA EM FASCÍCULOS (II)"



[continuação da I parte]

"O Expresso decidiu oferecer gratuitamente aos seus leitores a História de Portugal em 9 fascículos, coordenada por Rui Ramos (RR). Nela, apresenta-se-nos uma ficção sinistra e intelectualmente cínica sobre a ditadura salazarista, procurando aquilo que, até hoje, ninguém na historiografia séria e metodologicamente merecedora do nome tinha tentado: desmontar a natureza ditatorial do Estado Novo. Como comecei a expor aqui há duas semanas atrás, é inaceitável que se pretenda consagrar uma leitura tão manipulada da História.

Para RR, o salazarismo era 'uma espécie de uma monarquia constitucional, em que o lugar do rei era ocupado por um Presidente da República eleito por sufrágio direto e individual' (pp. 632-33), que 'reconhec[ia] uma pluralidade de corpos sociais (...) com esferas de ação próprias e hierarquias e procedimentos específico', mas que só 'não admitiu o pluralismo partidário' (p. 650). Nada se diz sobre o papel das eleições como simulacro de legitimação popular ou a fraude generalizada, realizada mesmo quando nenhuma candidatura alternativa se atrevia perante a do partido único, para inflacionar artificialmente a votação e simular um consenso que não existia.

É inacreditável ver produtos típicos da fascização da sociedade, importados diretamente do fascismo mussoliniano, como foram os sindicatos nacionais, as casas do povo (verdadeiras 'associações de socorro e previdência' que 'desenvolviam atividades desportivas e culturais') e os grémios corporativos, descritos como meras 'associações' de 'representação da população ativa' (p. 644), sem se escrever uma linha sobre a guerra total aberta aos sindicatos livres do período liberal, feita de prisões, deportações e mortes.

Para RR, a repressão, definidora de qualquer ditadura, 'tem de ser colocada no contexto do uso da violência na manutenção da 'ordem pública''. Sem citar documentos, Ramos faz aquilo que ele próprio diz que 'os salazaristas fizeram sempre questão' de fazer: 'Comparar os métodos repressivos [de Salazar] com a ‘ditadura da rua’ do PRP' (p. 652), sustentada sobre o 'trabalho sujo' de 'gangues chefiados por ‘revolucionários profissionais’' (p. 591), empurrando o leitor a achar que a I República fora muito mais violenta que a ditadura. Esta teria sido tão generosa que muitos 'conspiradores e ativistas conservaram as suas posições no Estado em troca de simples abstenção política'; contrariando quase tudo quanto se escreveu na História social e da educação do salazarismo, diz-se que 'não houve saneamentos gerais de funcionários' (p. 653)! Pior terá sido a Revolução de 1974-75, em que '20 mil pessoas [se] viram afastadas dos empregos' e 'pelo menos 1000 presos políticos' terão sido detidos, '7 vezes mais do que no fim do Estado Novo' (p. 732)...

Espantados? Para RR, o salazarismo, afinal, 'não destoava num mundo em que a democracia, o Estado de Direito e a rotação regular de partidos no poder estavam longe de ser a norma na vida política'. A democracia não existia nem na 'Europa ocupada [sic] pela União Soviética', nos 'novos Estados da África e da Ásia' ou 'mesmo na Europa democrática', que 'produziu monopólios de um partido (...), sistemas de poder pessoal (...), restrições e perversões' como 'a proibi[ção] de partidos comunistas' ou 'tortura e execuções sumárias' (p. 669). Em 1968, substituído Salazar por Marcelo, 'a democratização não estava na ordem do dia' no mundo. Os 'constrangimentos policiais', justificados 'no resto do Ocidente' pela '‘luta armada’ da extrema-esquerda' (pp. 697-98) que se inicia no final dos anos 60, eram semelhantes aos do Estado Novo. Eis aquilo que me parece puro cinismo: a democracia, afinal, não existia em lugar nenhum, o que esbate qualquer diferença entre ditaduras e sistemas liberal-democráticos, onde a violência do Estado e de classe coexiste com um mínimo de liberdade de ação para partidos e movimentos que contestem o Estado e os ricos.

Da violência colonial, dos massacres perpetrados contra africanos, nem uma palavra! E a guerra? 'A opção [de recusa de sair das colónias] não pareceu inicialmente excêntrica na Europa' porque 'a retirada europeia de África só começou em 1960', omitindo que ela começara dez anos antes. Se a guerra colonial (nunca assim designada, claro) 'foi o maior esforço militar de um país ocidental desde 1945' (p. 680), as 'guerrilhas' tiveram 'reduzido impacto', a guerra 'não foi demasiado cara' e era 'pouco mortífera', e, 'talvez por isso, o recrutamento nunca foi um problema' (pp. 684-85), o que é talvez o erro factual mais despudorado de todos quantos RR comete! Em resumo, 'a guerra foi aceite' (p. 685) pelos portugueses.

Dedução lógica: o que nos habituámos a chamar uma ditadura não era mais do que um regime semelhante aos que por lá fora havia, melhor até, no campo da repressão, do que muitos, a começar pela I República e o 25 de Abril! Em tempos de transição do Estado Social para o Estado Penal, como designa o sociólogo Loïc Wacquant à criminalização dos dominados que se opera nos nossos dias, o salazarismo voltaria a ser um regime para o nosso tempo!"

MANUEL LOFF, in "Uma História em fascículos ... (II)", jornal "PÚBLICO", 16 Agosto 2012 [via Entre as Brumas da Memória - sublinhados nossos]

J.M.M.

REPUBLICA PORTUGUEZA - PROCLAMAÇÃO



PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA: 5 de Outubro de 1910.

► Elementos do Governo Provisório:

Presidente: Teófilo Braga;

Pasta do Interior: António José de Almeida;
Pasta da Justiça (e Cultos): Afonso Costa;
Pasta dos Estrangeiros: Bernardino Machado;
Pasta da Guerra: coronel António Xavier Correia Barreto;
Pasta da Marinha: comandante Amaro Justiniano de Azevedo Gomes;
Pasta das Finanças: José Relvas (substituindo Basílio Teles);
Pasta do Fomento: António Luís Gomes.

J.M.M.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

SAHIDAS AO SUL


O Almanaque Republicano (cante da antiquíssima Alma Portuguesa) à míngua de lux & no mais que resta, que o publicista não diz tudo, está de saída. Consumidos os dias entre o antigo e o moderno, deserdados no rigor profano destas estações muuuitoo (neo)liberais, vivificamos para as bandas do Sul. Sagrado refúgio, fecunda liberdade, sabedoria perene. Que lindo conto!

Assim, no gozo de alguns dias de licença (Oh! serena placidez), estes V. cavalleiros, devotos da alma republicana, estarão (por vezes) ausentes da liturgia bloguística e, abusivamente, do V. agasalho. Estamos, pois, a caminho do Sul, onde vamos fazer uso de banhos. Voltaremos (em breve) ao vosso patrocínio, até lá

Saúde e Fraternidade

[traçado algures no Alentejo, à sombra da noute]

J.M.M.

sábado, 4 de agosto de 2012

À MEMÓRIA DE CARVALHO DE ARAÚJO - "NARRATIVA TRÁGICO-MARÍTIMA"


LUIZ JOSÉ SIMÕES, "200 milhas a remos. Narrativa trágico-maritima publicada em folhetins no Diario de Noticias sobre o feito heroico do caça-minas Augusto Castilho, Lisboa, Tipografia do Diário de Notícias, 1920, 79,[2] p. [capa e ilustrações de Francisco Valença]

► "A 14 de Outubro de 1918, quando escoltava o paquete 'São Miguel', o 'Augusto de Castilho', comandado pelo 1º tenente Carvalho Araújo, foi atacado pelo submarino alemão U-139.

O episódio, de que resultou a morte do oficial português e o afundamento do navio é bem conhecido. Foram lançados dois salva-vidas ao mar, um dos quais se afundou de imediato; outro, com 29 homens, alguns feridos, seguiu à vela, sob o comando do aspirante Samuel Vieira, para a ilha de Santa Maria onde chegou dois dias depois. Os últimos 12 homens que abandonaram o 'Augusto de Castilho', comandados pelo guarda-marinha Armando Ferraz, conseguiram reparar um bote, alcançando a ilha de São Miguel depois de uma penosa viagem de duzentas milhas a remos, sem comida e com ascassa água.

Este episódio teve o seu cronista, o 2º-tenente maquinista condutor Luís José Simões - então sargento-ajudante - que o relatou numa série de folhetins publicados no 'Diário de Notícias', e depois no livrinho '200 Milhas a Remos. Narrativa Trágico-marítima' (Lisboa, Tipografia do Diário de Notícias, 1920, 79 p.), com capa e ilustrações de Francisco Valença
" [via António Ventura Facebook]

[À Memória de Carvalho de Araújo - via Memória da República]

LOCAIS: Açores na Grande Guerra [1918.O Último Combate da Armada Portuguesa] / Exposição "Navios da Armada Portuguesa que participaram na Primeira Guerra Mundial" / Carvalho Araújo / Quatro navios com o nome de “CARVALHO ARAÚJO”

J.M.M.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

RUI RAMOS ... OU "UMA HISTÓRIA EM FASCÍCULOS (I)"


"O Expresso está a oferecer gratuitamente aos seus leitores uma História de Portugal dividida em nove fascículos, apresentando-a como 'um dos livros mais vendidos de sempre' entre os que se dedicaram à nossa história. O Expresso acha (eu não) que este é 'hoje reconhecido como um dos melhores livros sobre a História de Portugal', e terá querido disponibilizá-lo a dezenas de milhares de leitores para quem é apetecível uma síntese em 900 páginas da 'história de um grande país'.

O livro é coordenado por Rui Ramos (RR), um historiador especializado na Monarquia Constitucional e na I República portuguesas mas que se encarregou nesta obra de cobrir também o período entre 1926 e a atualidade. As épocas medieval e moderna estiveram a cargo de dois historiadores (Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Monteiro) cujo trabalho não comentarei. Dedicarei esta e a próxima crónicas especificamente ao trabalho de RR, que concebeu e coordenou a obra e disse há dois anos que ela pretendia ser meramente 'uma porta de entrada na História', e 'aguçar o apetite do leitor', descrito como 'exigente' (Prólogo, p. II), e 'fazer com que as pessoas queiram ir ler mais' (PÚBLICO, 31.5.2010). Esperemos que sim.

RR não é um historiador qualquer; a sua visibilidade pública é ajudada, como em pouquíssimos casos, pelo seu acesso às tertúlias televisivas e à imprensa, onde se tem destacado como uma das penas mais sólidas da direita intelectual portuguesa, que reivindica 'o prazer da provocação intelectual e reconhece um aguçado espírito de contradição, sobretudo quando o alvo é a esquerda' (Ler, janeiro 2010). Para percebermos o que RR entende por 'provocação', e em resposta a quem acha — como eu — que o seu trabalho é puro revisionismo historiográfico política e ideologicamente motivado, ele entende que 'toda a História é revisionista' e nela 'é necessário afirmar originalidade' (PÚBLICO, 31.5.2010).

Centremo-nos hoje na narrativa que RR faz do papel de Salazar na história. Para ele, o Estado Novo era 'um regime assente (…) no monopólio da atividade legal por uma organização cívica de apoio ao Governo', e esta é a forma como ele classificará sempre o partido único da ditadura, com 'a chefia pessoal do Estado' entregue a 'um professor catedrático introvertido', um homem 'de outra espécie', com 'nada de uma personagem ditatorial' como a dos líderes da Europa fascista do tempo (pp. 627 e 638-39). Neste campo, a primeira das suas preocupações é a mais comum entre os historiadores da área de RR: desenhar um Salazar sensato e algo neurasténico, que não gostaria de uniformes (apesar da origem militar do regime e do seu caráter inevitavelmente policial e repressivo) e que nada teria a ver com Hitler, Mussolini ou Franco. O 'pobre homem de Santa Comba', como o ditador se definiu a si próprio, teria 'para Portugal objetivos simples' pois propunha-se 'fazer viver Portugal habitualmente' e 'queria instituir uma 'ditadura da inteligência' para 'fazer baixar a febre política' no país e 'reencontrar o equilíbrio' (p. 639).

A segunda originalidade de RR decorre daqui e descola totalmente da realidade: oferecer-nos um Salazar liberal, por oposição aos republicanos de 1910 (um dos ódios de estimação de RR), que, praticamente totalitários, teriam estado empenhados em fazerem da sua 'revolução' uma 'transformação cultural violenta' feita por um 'Estado sectário' (pp. 585-86)! Salazar, pelo contrário, queria 'assentar o Estado, não na 'abstração' de indivíduos desligados da sociedade e arrastados por ideias de transformação radical, mas no que chamou o 'sentimento profundo da realidade objetiva da nação portuguesa'. Para RR, a 'missão do líder' era a de 'reconciliar os portugueses com essa realidade', e ao mesmo tempo ajudá-los a adotar modos de vida sustentáveis'. Em resumo, 'o seu modelo implícito era o que no século XIX se atribuíra aos 'ingleses', prático, 'pouco sentimental': 'Eu faço uma política e uma administração bastante à inglesa' (pp. 639-40) — isto é, um Salazar primeiro-ministro da rainha Vitória... Se acompanharmos as suas crónicas no Expresso, a lição da História para a análise da crise atual parece evidente. Hoje, 'a austeridade é, no fundo, a vida depois de desfeitas as últimas ilusões do passado' – exatamente como Salazar, que 'tinha ambições, mas não ilusões' (RR, in Sábado, 14.1.2010), se havia empenhado em 'reconciliar os portugueses com a realidade' e em 'ajudá-los a adotar modos de vida sustentáveis'! E o que é que, na opinião, de RR foi insustentável no nosso passado recente? 'Uma classe média de funcionários (…), uma economia de trabalhadores e empresários protegidos, e a estatização de grande parte dos serviços (educação, saúde) e da segurança social' (Expresso, 28.7.2012).

RR leva à prática o que ele próprio estabeleceu como o fim 'desta História de Portugal [o de] despertar a atenção para a importância da História como meio de dar profundidade à reflexão e ao debate público sobre o país'. Para ele, 'a História (…) é uma maneira de pensar' (Prólogo, p. IV). Tem toda a razão. E a sua está bem à vista"

MANUEL LOFF, in "Uma História em fascículos ... (I)", jornal "PÚBLICO", 2 Agosto 2012 [via Entre as Brumas da Memória - sublinhados nossos]

J.M.M.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

PÁTRIA E REPÚBLICA - DR. MAGALHÃES LIMA



FOTO 1: Sebastião Magalhães Lima, "Pela Pátria e pela República", in O António Maria, lisboa, 8 de Maio de 1891, p. 74 [com alusão ao livro publicado com o mesmo título];

FOTO 2: "Pátria e República", Casa Fabri (Porto) - "Esta pequena brochura foi publicada em 1919 pela casa Fabri, do Porto, em homenagem a Magalhães Lima. Tem textos diversos sobre o homenageado, com desenhos de Bordalo Pinheiro" [via António Ventura Facebook]

J.M.M.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O FEDERALISMO


O FEDERALISMO, Sebastião Magalhães Lima, Lisboa, Companhia Nacional Editora, 1898, 64 p. - da Colecção "O Ideal Moderno. Bibliotheca Popular de Orientação Socialista", direcção de Magalhães Lima & Teixeira Bastos.

[NOTA: a prestigiada colecção, teve (ainda) os seguintes eexemplares publicados: Paz e Arbitragem, por Magalhães Lima (1897); A Dissolução do Regimen Capitalista, de Teixeira Bastos (1897); A Socialisação do Ensino, por José de Macedo (1898); Habitações Operárias, de Teixeira Bastos (1898); O Cooperativismo, de José de Macedo (1898); Tribunaes de Arbitros-avindores, de Teixeira Bastos (1898); O Primeiro de Maio, por Teixeira Bastos (1898); O Registo Civil, de José de Sousa (1898); Bolsas do Trabalho, por Teixeira Bastos (1898) - ver alguns exemplares da colecção AQUI]

"Sebastião de Magalhães Lima foi sempre um federalista. Depois da estreia juvenil da adptação do folheto de Charles Lemmoiner, em 1874, publicou este opúsculo dedicado ao tema, em 1898, integrado na Biblioteca Popular de Orientação Socialista, dirigida por ele e por Teixeira Bastos" [ler AQUI]

via António Ventura Facebook.

J.M.M.