segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

JOSÉ RÉGIO E A REPÚBLICA


Tivemos conhecimento, através do Doutor António Ventura , de um notável texto que podemos apresentar hoje sobre a República, publicado por José Régio no jornal A Rabeca (Portalegre) n.º 2404, de 6 de Outubro de 1966:

Oferecendo a todo e qualquer cidadão a possibilidade de ocupar os mais altos postos na governação da sua pátria; permitindo à opinião pública a faculdade de intervir, por meio dos seus representantes, nessa mesma governação; não exigindo a cada cidadão, para que seja um desses representantes (ou venha a ocupar aqueles postos) senão a idoneidade intelectual e moral que nada tem a ver com privilégios de classe ou casta, — a República é o regime que mais naturalmente procura realizar a ideia democrática. Ideal moral e racional, a democracia convida o homem a superar-se aos seus particularismos. Como regime que tenta efectivar esse ideal, a prática republicana procura o bem de cada um na medida em que não ofenda o bem de todos, na medida em que não seja esquecido o bem de cada um, o direito de cada um e os direitos da colectividade, o respeito pela dignidade de cada indivíduo como pessoa e o respeito de cada indivíduo pela dignidade comum»

Dizendo ser a República o regime que mais naturalmente procura realizar a ideia democrática, — ficou insinuado que pode a realização da democracia ser tentada por outros meios ou regimes. Admitamos, até, que podem ser consideradas democráticas ideias diversas, ou haver de democracia outras concepções. Em ser um ideal porventura inatingível no seu absoluto — está a perenidade, o prestígio, a validez da democracia de que estamos falando. Nisso mesmo estará, para outros, a sua fraqueza. Isso mesmo lhes dará a eles razão para se desiludirem de ela. Com o mesmo fundamento se deveria, então, renunciar ao Cristianismo, pois também o Cristianismo parece não poder ser realizado em absoluto pelas fracas forças humanas. Sendo um ideal porventura demasiado exigente, nem pelo facto de inatingível no seu absoluto deixa a democracia de permitir ao homem uma sua progressiva aproximação, e de novo, aqui, a podemos comparar à ideia cristã.

Pelo que diz respeito ao político e ao social, depende da técnica usada o bom êxito dessa aproximação progressiva. As deficiências reconhecidas em certas técnicas nada provam contra a ideia democrática em si. Se me é permitida tal linguagem, saudemos na República a técnica democrática mais natural e mais válida, — desde que, por sua vez, funcione e se realize a ideia republicana. Isto nos lembra que tudo pode ser atraiçoado — o ideal republicano, o ideal democrático, o ideal cristão, etc. — desde que a reforma exigida às sociedades não seja, por sua vez, exigida aos homens. Tudo pode estar teoricamente certo mas praticamente errado, desde que o pretenso progresso político e social não seja, em cada indivíduo chamado a intervir, um progresso moral e intelectual Se já o facto de surgir no homem a ideia de sociedades mais justas, mais progressivas, mais humanas no sentido nobre do termo, é um progresso do próprio homem, — reconheçamos que a simples tentativa de realizá-las lhe exige uma contínua vigilância interior, um contínuo triunfo, para o bem de todos incluindo o seu próprio, sobre os seus egoísmos e paixões particulares
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Com um agradecimento particular, ao Doutor António Ventura, pelo seu contributo para este espaço de conhecimento e partilha de assuntos relacionados com a República.

A.A.B.M.

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