domingo, 7 de julho de 2013

STUART CARVALHAIS. O GÉNIO EM DISPERSÃO



O português sabe rir, gosta de rir e consegue fazer rir. Stuart Carvalhais - ou, simplesmente, Stuart - foi um dos mais notáveis artistas que transformou o riso numa arma satírica que ajudou a resistir a situações autoritárias e a atitudes vexatórias que, durante décadas, asfixiaram a política portuguesa e restringiram a liberdade dos cidadãos.

A intervenção de Stuart multiplicou-se, torrencialmente, nos salões artísticos e nos órgãos de comunicação social que lançaram entre nós o modernismo; colaborou em todas as publicações humorísticas e principais jornais de Lisboa e do Porto; fez capas de livros, de revistas e de discos; cartazes e maquetas para teatro e cinema; e, ainda, a decoração das primeiras edições, em Lisboa, da Feira Popular.

Acordou para a vida sob o signo das gargalhadas provocadas pelos desenhos de Bordalo. Habituou-se a conviver com o Zé Povinho. Era um símbolo, criado por Bordalo, que se insurgia contra as desgraças que atingiam Portugal e os portugueses. Foi um companheiro de luta pela causa republicana

Mas ao contrário de Manuel Gustavo, Francisco Valença e Manuel Monterroso, que se mantiveram fiéis à lição do mestre, Stuart libertou-se da linguagem de Bordalo. Pertenceu à geração de Christiano Cruz, Almada Negreiros,  Jorge Barradas, Emmerico Nunes, António Soares, Milly Possoz. Esta geração, ao tempo, conduzida por Christiano Cruz, que acompanhara a trajectória parisiense de Leal da Câmara no L'Assíette ao Beurre e embora não tenha partilhado o diálogo com as vanguardas europeias que motivou Amadeu de Souza-Cardoso, optou por outro grafismo e introduziu outro processo de abordagem das figuras e acontecimentos políticos e sociais. Proclamada a República, sucederam-se os pretextos para despertar o humor, estimular a ironia, atiçar a mordacidade. Os caricaturistas não precisavam de ser republicanos ou monárquicos para afirmar a sua irreverência.

Stuart criou um estilo pessoal. E intransmissível. Com ele, retratou o dia a dia. O traço instintivo, rápido e decidido de Stuart fixou-se em cartões reciclados de revistas e caixas de camisas, em guardanapos e utilizando bilhetes enrolados de eléctrico e paus de fósforos para desenhar - com tinta da china, lápis, carvão, graxa, vinho, borra de café - a gente simples que via na rua: bêbados, prostitutas, mendigos, crianças, varinas, costureiras. Sem esquecer as pernas das mulheres, desde que não fossem gordas e tivessem varizes, e os gatos vadios nas esquinas e nos telhados.

Os cenários repetiam-se, porque tudo se repetia: as pessoas, os animais, as situações, os lugares; à porta das casas e janelas dos bairros castiços; nos jardins, nas tabernas e nos cafés e livrarias do Chiado. Quase sempre nos desenhos há pormenores inconfundíveis: o olhar das personagens (incluindo ele próprio) representado por dois pontinhos, ora negros e cheios de vida, ora muito arregalados, ora, ainda, semicerrados mas repletos de bonomia.

Stuart deixou uma obra de incalculável extensão. Quase todos os humoristas portugueses, a partir da segunda metade dos anos 20, com a afirmação pública, nos painéis da Brasileira do Chiado e nas decorações do Bristol Club, começaram a enveredar por outros caminhos: na pintura, na cerâmica, no fresco, no vitral, na estatuária monumental. Vão ficar associados à integração das artes, nas obras públicas: nos palácios e outros edifícios, nas grandes exposições nacionais e internacionais; e na renovação da arte religiosa. Stuart - tal como Leal da Câmara e Bernardo Marques - permanece na caricatura, no cartoon e na ilustração. Disto fez, orgulhosamente, um modo de vida e de afirmação criativa.

Enfrentando os condicionalismos resultantes do exercício diário da censura instaurada, a partir de 1926, pela ditadura militar e, a seguir, pelo regime salazarista, Stuart, na dispersão prodigiosa do seu talento, conseguiu, com relâmpagos de génio, transmitir através dos episódios triviais do quotidiano a comédia e tragédia de Lisboa. Que era, também, a comédia e tragédia do país.

ANTÓNIO VALDEMAR [jornalista, sócio efectivo da Academia das Ciências e Presidente da Academia Nacional de Belas-Artes] – “STUART CARVALHAIS. O génio em dispersão”, in Revista do EXPRESSO (100 Anos 100 Portugueses), 6 de Julho de 2013, p. 23 - sublinhados nossos.

J.M.M.

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