quinta-feira, 12 de setembro de 2019

[VIAJANDO COM LIVROS] CAMÕES. O QUE ESTÁ VIVO N’OS LUSÍADAS



O que está vivo n’Os Lusíadas” – por António Valdemar, in Tempo Livre
Camões, além da consagração da história, da geografia e da mitologia e da narrativa da expansão portuguesa através dos mares, aprofundou as questões fundamentais da condição humana      

Camões não se pode reduzir aos jogos partidários e aos expedientes da retórica política, aos aproveitamentos de governos e governantes de vários regimes para justificação de exacerbações nacionalistas. Deparamos, passo a passo, n’Os Lusíadas, um sentido crítico, uma perspetiva humanista e uma visão ampla e diversificada em torno das grandes questões políticas, sociais e filosóficas. Ao pronunciar-se acerca da máquina do mundo, do argumento perentório da existência de Deus não hesita interrogar: «é Deus? mas quem é Deus, ninguém o entende/ que a tanto o engenho humano não se estende?» Faz apelos contínuos para a urgência da liberdade e a reposição da justiça, a fim de construir uma sociedade assente nos princípios da honra e nos valores da solidariedade.
Sucessivas gerações de eruditos portugueses e estrangeiros continuam a recapitular hipóteses formuladas desde os mais antigos biógrafos e comentadores, o chantre Severino de Faria, o licenciado Manuel Correia, o arbitrário Manuel Faria de Sousa e o memorialista João Soares de Brito.

Perduram as controvérsias acerca do local e dia do nascimento, da identificação dos pais; dos estudos na Universidade de Coimbra, do serviço militar em Ceuta, do que ocorreu na passagem na Índia e em Macau; da residência em Constância; do valor da tença atribuída e da sua equivalência em dinheiro atual; do dia da morte, da sepultura em Lisboa e, ainda, da autenticidade dos ossos trasladados para o túmulo nos Jerónimos. Estes e outros aspetos continuam por esclarecer e, na maior parte dos casos, repletos de lendas e fantasiosas conjeturas.
Todavia, a leitura d’Os Lusíadas, das líricas, dos sonetos, dos autos e das cartas colocam-nos perante reflexões e advertências profundas. O homem, o Camões de carne e osso, – tal como o retrataram os que o conheceram – manifestou-se com frontalidade e independência. Não recorreu – como era habitual na época – a um prefaciador para o panegírico tradicional na apresentação d’Os Lusíadas, nem se esquivou a enfrentar poderosos, a contrariar opiniões dominantes, a insurgir-se contra a grave situação que o País vivia

A Inquisição estava instalada desde 1536. A censura encontrava-se em pleno funcionamento. Os livros eram submetidos à leitura prévia e só poderiam ser impressos e postos a circular depois da autorização do Santo Ofício. Assim aconteceu, em 1572, com Os Lusíadas. Estudiosos camonianos – Sousa Viterbo e Aquilino Ribeiro, por exemplo – formularam hipóteses acerca do que terá sido truncado no manuscrito e, também, acerca das possíveis intervenções do censor ao fabricar versos, para condescender na publicação de outros.
 
Num tempo de perplexidade e angústia, Camões reforçou a identidade coletiva e defendeu a autonomia política de Portugal. Quando voltamos a estar confrontados com problemas de extrema complexidade, Os Lusíadas representam uma fonte de energia para transpor a impaciência e o fatalismo. Camões celebrou as memórias gloriosas de Portugal e de portugueses, mas sem virar as costas à crise política e à degradação humana, em tantos aspetos, com analogias com a época em que vivemos.

Numerosas passagens d’Os Lusíadas aplicam-se à atual realidade portuguesa; a uma classe política, sedenta de poder e de elogios públicos, sem dignidade e sem carácter e sem qualquer projeto voltado para o futuro: nenhum ambicioso, que quisesse/subir a grandes cargos, cantarei, /só por poder com torpes exercícios/usar mais largamente dos seus vícios.
Deplora os fatores de insegurança e a precaridade dos vínculos laborais: nenhum que use de seu poder bastante/para servir a seu desejo feio/a despir e roubar o pobre povo! Manifesta apreensão por tudo quanto gera o desespero, multiplica a violência, aumenta a criminalidade e intensifica a apagada e vil tristeza.

E a crise na saúde? E as listas de espera nos hospitais que aumentam de forma vertiginosa e assustadora? Faz recordar Camões ao deplorar a morte nos hospitais em pobres leitos/os que ao rei e à lei servem de muros.
E a crise na justiça? O sistema judicial que não funciona, as reformas essenciais por fazer, por estudar e por decidir? A obrigação de restabelecer a normalidade para impedir a generalização do caos. A recomendação de Camões continua oportuna: quem faz injúria vil e sem razão/ com forças e poder em que está posto, /não vence, que a vitória verdadeira/é saber ter justiça, nua e inteira.

E a crise moral? A venalidade, o suborno e a corrupção aos mais diversos níveis? Camões revoltou-se contra as honras e dinheiro que a ventura forjou. Para concluir que não lava o muito dinheiro/ a nódoa da desonra.

Por tudo isto e muito mais seguiu de perto as grandes inquietações e os problemas do seu tempo e de todos os tempos. Enfrentou o fantasma do medo: a vida que se perde e que periga/que, quando ao medo infame não se rende/ então se menos dura, mais se estende. Resistiu aos profetas da desgraça que anunciam sempre o pior como se estivéssemos sempre às portas do fim do mundo.
O que está vivo n’Os Lusíadas – por António Valdemar [Jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], Tempo Livre, Maio/Junho de 2019, pp. 8 – com sublinhados nossos

J.M.M.

[CONVERSA E DEBATE] MITOS E FIGURAÇÕES DO DIABO


 
 
[Conversa e Debate] Mitos e Figurações do Diabo
 
 
DIA: 13 de Setembro de 2019 (21,30 horas);


ORGANIZAÇÃO: Museu Municipal Santos Rocha | Divisão da Cultura da CM Figueira da Foz

Palestrantes: José Manuel Anes (Investigador e Professor Universitário) | Saliu Djau (Cientista Político e membro da Mural)

Moderação: Paulo Mendes Pinto (Investigador e Professor Universitário)

No âmbito da  Exposição  «A [F]figueira tem o Diabo à beira! Anjos Caídos, Figuras Demoníacas e Seres Infernais", patente de 13 de julho a 02 de novembro 2019, no Museu Municipal Santos Rocha da Figueira da Foz, realizar-se-ão diversos momentos de conversa e debate em torno da temática da exposição e abordando a questão DO MITO RELIGIOSO À CRENÇA POPULAR.

O primeiro momento, no próximo dia 13 de setembro, sexta-feira, versará sobre o tema MITOS E FIGURAÇÕES DO DIABO, com três convidados de excelência, e cujo cartaz remetemos em anexo para a V/ melhor divulgação”

[Anabela Bento, da Divisão de Cultura da CMFF]

J.M.M.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

[CURSO LIVRE] A MAÇONARIA, HOJE: DESAFIOS E ATUALIDADE




DIAS: 12 a 14 de Setembro de 2019;
LOCAL: Livraria-Galeria Municipal Verney – Oeiras (Rua Cândido dos Reis, 90);
ORGANIZAÇÃO: Universidade Lusófona (Ciências das Religiões) | CM de Oeiras.

12 Setembro | 18h30

Apresentação: Paulo Mendes Pinto

CONFERÊNCIA DE ABERTURA: Um olhar histórico para o caminho das Obediências Maçónicas em Portugal (António Ventura)

DEBATE: "Unitas Multiplex", a diversidade de olhares numa metodologia comum

Fernando Lima (Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano) | José Manuel Anes (Past Grão-Mestre da Grande Loja Legal de Portugal/Grande Loja Regular de Portugal) | Maria João Figueira (Ordem Maçónica Mista Internacional «Le Droit Humain») | Rogélia Neves (Grã-Mestra da Grande Loja Feminina de Portugal)

13 Setembro | 18h30

O ideal da Fraternidade, atualidade

José Eduardo Meira da Cunha | Francisco Queiroz | Luís Natal Marques | Jaime Ramos | Introdução e moderação: Rui Lomelino de Freitas

14 Setembro | 15h30

A Maçonaria como leitura do Mundo

Carlos Dugos | Rui Lomelino de Freitas | Anabela Cravinho | Carlos Wahnon | Francisco Teixeira | Introdução e moderação: Paulo Mendes Pinto


J.M.M.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

A MAÇONARIA PORTUGUESA E A GRANDE GUERRA (1914-1918)



LIVRO: A Maçonaria Portuguesa e a Grande Guerra 1914-1918;
AUTOR
: António Ventura;
EDIÇÃO: Edições Vega, 2019

Trata-se da última obra do professor António Ventura, onde se estuda “a posição oficial face ao conflito e à participação portuguesa das duas Obediências maçónicas portuguesas então existentes [o Grande Oriente Lusitano, por um lado, e o Supremo Conselho do Grau 33.º, dissidente da anterior e que tomou o nome profano de Grémio Luso-Escocês, tendo como representante o seu Soberano Grande Comendador, o general Luís A. Ferreira de Castro]. Inclui diversa documentação inédita.

O livro contém ainda uma relação de militares portugueses maçons mortos durante a guerra nas três frentes - França, Angola e Moçambique - com as respectivas biografias e outra documentação iconográfica e documentos inéditos. Alguns desses nomes são bem conhecidos e foram consagrados na toponímia [AQUI]

   “ …. Quando procuramos compreender o envolvimento de Portugal na Grande Guerra, resultam de grande utilidade os estudos sectoriais, incidindo sobre instituições, organizações e entidades particulares. O recurso a esses estudos monográficos ajudam a elaborar um quadro mais completo da forma como a sociedade portuguesa reagiu perante o conflito nas suas diferentes fases, desde as primeiras manifestações, em Julho de 1914, a discussão sobre o apoio a dar aos Aliados, a participação ou não na guerra no teatro europeu, o evoluir dos acontecimentos dentro e fora do país e, finalmente, as negociações de paz e suas consequências. Já foram produzidos alguns trabalhos significativos, mas muito há a fazer. Refiro-me a estudos sobre os partidos republicanos, o movimento monárquico, as associações sindicais e patronais, a Igreja Católica e as igrejas protestantes, as associações de carácter cívico, cultural e de instrução, etc.

 A Maçonaria ganhou um cunho republicano depois de 1910, mas não pode ser considerada no seu todo como uma organização de pressão, com uma agenda determinada de cariz político e até partidário, dada a pluralidade de opções dos seus membros, o que inviabilizava, à partida, o alinhamento com um agrupamento determinado. Basta comprovarmos que a ela pertenceram políticos dos mais diversos partidos, o que desmente qualquer intuito de controlo e manipulação por parte daquela instituição.

De facto, a ela pertenceram dirigentes do Partido Republicano Português como Afonso Costa e António Maria da Silva, do Partido Republicano Evolucionista como António José de Almeida e Simões Raposo, da União Republicana como Brito Camacho e o almirante Tasso de Figueiredo, do Partido Centrista Republicano como o general Simas Machado e Alberto Osório de Castro, do Partido Nacional Republicano (sidonista) como João Tamagnini Barbosa e José Alfredo de Magalhães, do Partido Republicano Conservador como os capitães José Marcelino Carrilho e João Sarmento Pimentel, do Partido Republicano Liberal como António Granjo e Tomé de Barros Queirós, da Federação Nacional Republicana como Machado Santos e o capitão-de-fragata José de Freitas Ribeiro, do Partido Republicano de Reconstituição Nacional como o general Sá Cardoso e José Barbosa, do Partido Republicano Nacionalista como o comandante José Mendes Cabeçadas e Alberto de Moura Pinto, da União Liberal Republicana como Constâncio de Oliveira, da Esquerda Democrática como José Domingues dos Santos e Manuel Gregório Pestana Júnior, do Partido Socialista como Ramada Curto e José António da Costa Júnior, e até o primeiro secretário do Partido Comunista Português, Carlos Rates, foi maçon… Os exemplos são infindáveis, mas atestam bem que, tendo como denominador comum os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, cada um assumia individualmente posições distintas sob o ponto de vista partidário ….”

 [António Ventura, in A Maçonaria Portuguesa e a Grande Guerra, Actas do Colóquio Internacional “A Grande Guerra – Um Século Depois”, Academia Militar, 2015, pp. 33-34 - sublinhados nossos]

J.M.M.