domingo, 10 de janeiro de 2010

GAZETA DOS SONEGADOS [1890]


"[CAMILIANA]. GAZETA DOS SONEGADOS. Semanario intransigente. Orgão da classe typographica do Porto e defensor acerrimo de todas as classes laboriosas. [1.º Anno. Domingo, 30 de Março de 1890. N.º 1]. Rua da Victoria. 166 - Porto. In-4.º gr. de IV págs. B." [via Livraria Manuel Ferreira]

Curiosamente, há referência a uma "Gazeta dos Sonegados" [número-programa], com data de 23 de Março de 1890, e (como refere também Manuel Ferreira) há existência de um nº2, com esse mesmo título, mas datado de 27 de Novembro de 1880 [ver "Jornais e Revistas Portuguesas do Séc. XIX"]. Ora, de facto, sobre os periódicos saídos pelos tipógrafos e operários gráficos, que foram inventariados, desde 1853, por Vitor de Sá [in Análise Social, vol. XVII (67-68), 1981-3.o-4.°, 839-860], surge a "Gazeta dos Sonegados", com a expressa referência de ser um número-programa, nesse ano de 1890. A outra "Gazeta dos Sonegados. Orgão dos opprimidos", é ainda assinalada por Vitor de Sá, referindo a existência do nº2, com data de 1880. Portanto, o periódico, acima referido, com a curiosidade de ter um evidente interesse camiliano, parece ser sido o número inicial (e único?) dessa publicação por parte dos tipográfos do Porto, em 1890.

J.M.M.

5 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Sinceramente.... Dê uma vista de olhos naquilo que Camilo pensava, dizia e escrevia sobre o PRP e a sua gente. Hilariante! Pelo menos, tenham o pudor de não tocar neste homem. Nem sequer no Eça!

Almanaque Republicano disse...

O profundo e conceituoso Nuno Castelo-Branco fez, acima, um comentário … a pataco. Está no seu direito. Porém “não bate a bota com a perdigota”. A propósito da referência a um periódico das classes laboriosas muito curioso (e repousantemente camiliano) o Nuno lambiscou qualquer coisa malfadada, que não descortinamos. Espirituoso, tratou logo de uma qualquer cantadeira, decerto em mimosa excitação. Muito bem! Nada temos a protestar.

Consinta, apenas, que no nosso domicílio não se faça categorias literárias, nem por isso chinfrineiras irrequietas ou zargunchadas. E fique sabendo o Nuno, que o romancista d’O Regicida é muito cá de casa. E não será por o mestre se referir à casta dos Braganças como uma “estirpe, bastante gafa de couto danado e bastardias” que a doçura das suas letras deixa de ser um bálsamo de orgulho patriótico. Afinal somos, como diria Camilo: “a simplicidade da pomba, e a sagacidade da serpente”. Ad usum Delphini.

J.M.M.

Nuno Castelo-Branco disse...

O Senhor JMM ingente arauto do Almanaque Republicano fez, acima, um comentário... a ceitil de quebra. Está no seu consuetudinário direito. Porém se a "cavalo dado não se olha o dente", a referência repousantemente camiliana, sobressalta-se logo quando se escarafuncha em provento próprio, a reputação ou os amores e desamores do genial arrasador de consciências de S,. Miguel de Seide. Se a casta dos Braganças foi uma "estirpe, bastante gafa de couto danado e bastardias", tal picardia estilística eclipsou-se quando do rutilante clarão nobilitador e outorgante do almejado viscondado de cepa. Satisfeita a vontadezinha de antanho, a áspera pena afiada como lâmina de Toledo, logo apontou certeira, aos seus ódios de estimação e do alimento que só a polémica lhe proporcionava. As ocas caixas cranianas dos redentores salvadores de uma pátria que deles não guarda lembrança maior, entre os quais pontificava o putativo inspirador do espécime asinino, gostosamente oferecido ao transviado filho Jorge: o Teófilo, afinal o único e positivista ponto de encontro entre a maltosa à la mode parisiènne do PRP e o rabugento catraspicador da real consagração do bastardo nascido na lisboeta Rua da Rosa.

Excelentíssimo Senhor JMM, há coisas que a vetusta e quiçá injusta, genética e anacrónica mania da transmissão oral de conversas havidas à volta de uma fumegante terrina de sopa, para sempre garantirão nas mentes da descendência, a cristalina certeza de que nenhuma agência publicitária da situação poderá esconjurar em proveito de conveniências comemorativas: Camilo não era republicano e do grupo fazia a previdente e certeira mofa que as décadas de um vindouro e triste século confirmaram.
Contentem-se com outros, esquecendo Herculano, Garrett, Camilo, Eça, Ortigão, ou Castilho, enquanto habilmente escalpelizam os ditos de Quental, aproveitando aquilo que não tolha os presumivelmente proventosos programas que a situação propicia. No fundo, todos somos colaterais da mesma rês que já serviu de ídolo, mas uns são mais bafejados pela áurea sorte que outros.

Almanaque Republicano disse...

"Tudo o que nos alegra, poema ou tolice, é um raio de misericórdia divina" [C.C.B.]

O nosso caro Nuno, maviosamente, veio a despacho. Cuidava eu que o contumaz escriba tinha compreendido o que foi, bibliograficamente, a Gazeta dos Sonegado, a nossa posta e, no acto, as votivas palavras. Debalde! Nuno não compreendeu essa banalidade de base.

Soluçando não se sabe o que, e numa "jubilosa garotice", arvorou-se em "comissão expurgatória" contra humilíssimos camilianos de alma lusitana. Na bula faltou apenas a cantata: "agora, agora, agora / Luisinha, agora". No resto estava lá tudo: a subtil sátira às classes laboriosas, a desabrida chalaça sobre os Braganças e o romancista d’A Infanta Capelista, o arroto confesso ao grande Teófilo e até, pasme-se, a rincharia do escalavrado "quartel heráldico" do Mestre. Aí tem o nosso Nuno o que dá a sua putativa erudição.

Saiu-nos, portanto, o cantadeiro Nuno, nos triclínios da vida & no sacerdócio das sua horas vagas, a maquinar estéreis pensamentos e reparos sobre um assunto – "Camilo (não) era republicano" – nunca aqui presente.

Já vê, meu caro Nuno, que essa sua ansiedade à volta da "flâmula" miguelista do curioso escriba do Periódico dos Pobres e até do Nacional ou o guerrilheiro do Prato de Arroz Doce, não nos interessa, apesar do seu terno soluçar. Até porque, para nós, o morgadio político de Camilo não foi mais que o de um "boémio da política" (Sousa Costa??).

Sobre Camilo estamos conversados.

J.M.M.

Nuno Castelo-Branco disse...

Bem ao contrário de V. Exa. de enigmática sigla, jamais tive qualquer tipo de pretensão erudita e em reflexo, bem pode deixar cair o seu putativo no saco vazio de esmolas da bem conhecida e avara intelectualidade de cátedra. Mais lhe digo, dilecto discípulo e atento copista do inconfundível estilo "de Camilo", que em nada disto, vislumbro qualquer ameaça de casus belli. Pelo contrário e embora a sua condenação não seja lapidar, creio não ser merecedor do "suplício dos socos, pior que as areias de Pungo-Andongo", por exemplo. Encerrando o assunto, subo gostosamente ao seu cadafalso.
Passe bem.