sexta-feira, 19 de setembro de 2014

IN MEMORIAM JOSÉ SOARES MARTINS (1932-2014) [Parte I]


José Soares Martins, conhecido como investigador por José Capela, nasceu em Arrifana, Vila da Feira, em 25 de Março de 1932. Depois de completar a escola primária, prosseguiu os  estudos ingressando no Seminário dos Grilos, no Porto.

Frequentou o curso de Teologia no Porto, em 1954. Chegou a Moçambique em 1956, com 24 anos, onde se dedicou à escrita e à investigação. Estabeleceu-se na cidade da Beira, onde seu tio era Bispo, D. Sebastião Soares de Resende, responsável pela diocese da Beira. Começou por trabalhar no Diário de Moçambique, a partir de 1959, onde desempenhou as funções de chefe de redacção e, mais tarde, de director-adjunto do mesmo jornal. Sobre a existência deste jornal recomenda-se a leitura do verbete que lhe dedica Ilídio Rocha [Ilídio Rocha, A Imprensa de Moçambique, Ed. Livros do Brasil, Lisboa, 2000, p. 283-284], onde traça um pequeno apontamento sobre as dificuldades e as vicissitudes de um jornal, em diversos momentos, denunciou situações menos correctas da administração colonial portuguesa que lhe valeram a suspensão, mesmo sendo um órgão da Igreja Católica, mas ao mesmo tempo enfrentando o poder que dispunha na região o eng. Jorge Jardim. Colaborando em diversos órgãos da comunicação escrita em Moçambique, dinamizou vários órgãos como o semanário Voz Africana (1962), a revista Economia de Moçambique (1963), entre outros.

Regressou a Portugal em 1968, quando fundou a Voz Portucalense, órgão da imprensa periódica ligado à Diocese do Porto, onde colaborou depois com alguma regularidade [Rui Osório, “Nem o Evangelho escapava à Censura!”, Jornalismo & Jornalistas, Jan-Jun.2014, p. 78, refere-se à criação deste periódico católico impulsionado pelo bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, assinalando como colaboradores Mário Zambujal, Mário Castrim, Germano Silva, António José Salvador e José Gomes Bandeira, entre outros]. Este regresso e instalação de José Martins Soares a Portugal, devia-se à publicação, já sob pseudónimo de José Capela, de um conjunto de cartas de negros para o órgão oficial da Diocese da Beira, Diário de Moçambique, o que causou profundas marcas.

Em 1 de Janeiro de 1970 iniciou, como editor, a publicação do jornal Voz Portucalense, no Porto. Nesta cidade desenvolveu intensa actividade no domínio cooperativista e na luta anti-facista e anticolonial. Nessa altura surgem a Confronto, e depois a Afrontamento,  Da publicação também dos cadernos anticoloniais.


Depois do processo de independência de Moçambique, esteve colocado como adido cultural no Centro Cultural Português, em Maputo, onde desenvolveu intensa actividade como investigador da História de Moçambique. Analisou com grande interesse as relações socais das populações na região da Zambézia. Os seus textos debruçam-se especificamente sobre Moçambique, sobre as questões coloniais, tendo focado a sua análise em alguns eixos fundamentais: a formação do embrionário capitalismo português em Moçambique e a influência que exerceu nas populações locais; a problemática da escravatura desde o período pré-colonial até à sua proibição e erradicação já nos primeiros anos do século XX; por outro lado, investigou e publicou textos sobre a complexidade histórica das sociedades da bacia do rio Zambeze, tendo por base a problemática do regime dos prazos na antiga colónia portuguesa.

[em continuação]

A.A.B.M.

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