quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

E PARA QUÊ? SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA – JOSÉ MARIA NUNES [NOTA BIOGRÁFICA]

José Nunes, “E Para Quê? Subsídios para a História”, Lisboa, Tipografia Adolpho de Mendonça, 1918, 148 p.
 Livro muito curioso e útil para o conhecimento de certos aspectos revolucionários que conduziram ao derrube da Monarquia portuguesa e à implantação da República.
Da autoria do operário anarquista José Nunes, serralheiro da Imprensa Nacional e posteriormente administrador de um mercado municipal de Lisboa. Era um homem enérgico, audacioso, envolvido e muito conhecedor dos meandros do movimento revolucionário. Para além deste livro intitulado «E para quê ?... Subsídios para a história de Portugal» (1918) é também autor de outro com o título « A Bomba explosiva» (1912). Este obreiro da revolução que acreditava piamente na redenção da Pátria, foi, pelo regime que ajudou a instaurar, perseguido e escorraçado, chegando mesmo a estar preso. Neste livro descreve pormenores curiosos do fabrico das bombas, com inúmeras peripécias envolvidas, da origem da carbonária, do regicídio, da concentração da Rotunda (…)” [via Luís Guerreiro Facebook -AQUI].
 
José [Maria] Nunes nasce em Ferreira do Zêzere em 1877. Com o ofício de serralheiro, parte para Lisboa e exerce a profissão na Imprensa Nacional.

Frequenta os grupos libertários e republicanos de Lisboa, conhecendo muito dos elementos conspirativos mais “avançados” da capital. Depois do Regicídio [onde pode mesmo ter tido alguma intervenção (?), no dizer de Rocha Martins] parte para Moçâmedes (Angola), regressando posteriormente [Fevereiro de 1910] ao seu lugar na Imprensa Nacional. Milita com entusiasmo no grupo radical propagandista do actor Vieira Marques [cf. António Ventura, in Introdução ao livro “A Bomba Explosiva” de José Maria Nunes, Livros Horizonte, 2008], “incumbido de coadjuvar a Junta Liberal de Miguel Bombarda” [ver Ilustração Portuguesa, nº256, 16 Abril de 1911, p. 83; é possível que não se possa estabelecer desse modo a relação entre o grupo de Vieira marques e a Junta, como aliás Armando Ribeiro refere na sua obra “A Revolução Portuguesa”] e integra-se no grupo carbonário “Mineiros” [de que faziam parte, além de Vieira Marques, Virgílio de Sá, Guilherme Rocha, Carlos Kopke, Henrique Lopes, Jaime Paiva, António Joaquim Rodrigues]. Colabora com o grupo carbonário “Vedeta” [onde figurava de novo Carlos Kopke, Roque de Miranda, Artur dos Santos Silva], levando a cabo acções “revolucionárias” nos Olivais e no Poço do Bispo [cf. Ilustração, ibidem; Armando Ribeiro, ibidem]

José Maria Nunes participou nos acontecimentos do 5 de Outubro de 1910, esteve na Rotunda com os revoltosos [ver António Ventura, ibidem], ficando conhecido mais tarde (1911) através dos extensos artigos publicados pelo jornalista Jorge de Abreu, n’A Capital, e na Ilustração Portuguesa

[“A Bomba ao serviço da Revolução”, 9 e 16 de Janeiro de 1911, onde são referidos um conjunto de revolucionários manipuladores de bombas - os “intervencionistas”, no dizer do jornalista Hermano Neves (cf. Hermano Neves, “Como triumphou a Republica”, 1910) - que serviram à revolta, citando-o, assim como José do Vale, João Borges e Aquilino Ribeiro. José Nunes fabricaria “bombas de ferro fundido” ou de clorato, no que era acompanhado por João Borges - o “João das Bombas”-, os sargentos António Antunes Guerra e Acácio de Macedo e outros como, Polycarpo Torres e Nunes da Silva. Os intervencionistas seriam então os carbonários anarquistas, na sua grande força recrutados em Alcântara].

Em 1912, publica o curioso livro “A Bomba Explosiva”, profusamente ilustrado e com diversos depoimentos de revolucionários, que fará história. Amigo e correligionário de Machado dos Santos, confesso admirador de Manuel de Arriaga, anti-Afonsista e apoiante do governo de Pimenta de Castro [foi demitido do seu lugar na Imprensa Nacional a 25 de Agosto de 1915, por motivo de ausência ao trabalho – ver António Ventura, ibidem], foi detido a 25 de Outubro desse ano “acusado de ter participado no assassinato do deputado democrático Henrique Cardoso, a 28 de Fevereiro de 1915” [ibidem] e de tentativa de afundamento do couraçado “Vasco da Gama”, acabando por ser libertado.

Machadista assumido, participa na tentativa de revolta de 13 de Dezembro de 1916 (Tomar), sendo de novo detido [bem como, entre outros anarquistas e sindicalistas, os carbonários Franklin Lamas e Celestino Steffanina], voltando a conspirar na revolta de 5 de Dezembro de 1917. Pretendendo o seu reingresso na Imprensa Nacional (afastado que estava desde 1915) só no governo de Sidónio Pais foi aceite a sua reintegração, por despacho ministerial de 20 de Dezembro de 1917 [António Ventura, ibidem].

É então que publica o seu livro “E Para Quê? Subsídios para a História”, onde pretende trazer à memória o conturbado período antes do 5 de Outubro, investindo contra os antigos companheiros carbonários intervencionistas, em especial João Borges (partidário de Afonso Costa), terminando num arremesso contra o partido democrático, o dr. Afonso Costa e a República.

Os últimos anos da sua vida foram amargurados: ficou amnésico (1921) e ao cuidado de Egas Moniz no Hospital de Santa Marta e, assim desmemoriado, dá a sua ultima entrevista a Félix Correia (monárquico e pró-nazi), que sai publicada no Diário de Lisboa a 29 de Julho de 1924.

A 31 de Março de 1946, vítima de ataque cardíaco, morre aos 69 anos José Maria Nunes, em Algés (na Calçada do Rio, 34), deixando dois filhos, Laurinda Nunes (então funcionária da CML) e Liberto Amado Nunes (funcionário da Fazenda em Lourenço Marques).

J.M.M.

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