quinta-feira, 18 de novembro de 2021

LIVRO - VALONGO NA PRIMEIRA REPÚBLICA

 


LIVRO: Valongo na Primeira República;
AUTOR: Manuel Augusto Dias;
EDIÇÃO: Câmara Municipal de Valongo, Novembro de 2021.

Manuel Augusto Dias, natural de Ansião, licenciado em História pela FLUC e Mestre em História das Instituições e da Cultura Moderna e Contemporânea (Univ. do Minho), docente do ensino secundário, distinto investigador e jornalista, lançou a sua última obra – Valongo na Primeira República.

Este estimado livro, promovido pela Câmara Municipal de Valongo, “relata os acontecimentos políticos e sociais que marcaram o concelho de Valongo, por altura da implantação da República”. Manuel Augusto Dias recorda, ao longo de quinze capítulos, “entre outros factos históricos, o momento da implantação da República no Concelho de Valongo”, bem como destaca o importante papel de Ermesinde nesta implantação, “não só porque aqui estava sediado o único centro republicano do concelho, mas igualmente porque era terra onde vivia Maia Aguiar, que na voz do autor foi uma figura central da proclamação da República em Valongo”.

Dá conta das principais personagens desse período e, ainda, enaltece o “progresso e prosperidade que o concelho conheceu no período da 1.ª República”, da sua “industrialização”, cabendo também aqui, a “Ermesinde mais uma vez um papel de relevo no livro, com a memória da Fábrica da Cerâmica e da Fábrica de Tecidos de Sá, duas das maiores indústrias do concelho criadas na 1.ª República”.

Uma peça bibliográfica da história republicana regional importante e que importa conhecer.

J.M.M.

sábado, 13 de novembro de 2021

REDESCOBERTA DE CARDOSO PIRES – ANTÓNIO VALDEMAR

 


Redescoberta de Cardoso Pires – por António Valdemar, in Tempo Livre

O imaginário de Lisboa na obra de um grande escritor que se empenhou em «ridicularizar os cosmopolitismos, como sinónimo de provincianismo; sacudir os bonzos e demonstrar que a austeridade é uma capa do medo e da ausência de imaginação». Memória do passado, advertência para o presente e aviso para o futuro

José Cardoso Pires é um escritor com lugar muito próprio na literatura portuguesa do século XX. A sua obra, que parecia esquecida, voltou a ser assinalada com a reedição dos seus livros, acompanhados de prefácios de novos escritores, a publicação de novos ensaios críticos e o aparecimento de uma extensa biografia realizada por Bruno Vieira do Amaral. Ficamos a conhecer os vários aspetos da personalidade do homem rebelde e insubmisso, obcecado com a sua independência. E também o processo de criação do escritor que buscou uma «sintaxe citadina», rejeitando os modelos de uma linguagem nostálgica e sofisticada.

O tema central dos livros de José Cardoso Pires (1925-1998) desenvolveu-se em redor dos mais diversos cenários geográficos e humanos de Lisboa, apesar de ser oriundo de São João do Peso, concelho de Vila de Rei, distrito de Castelo Branco. Explicava, sem rodeios, que nascera ali por mero acaso, pois os pais já se tinham fixado em Lisboa. Guardou a reminiscência da aldeia longínqua da Beira Baixa. A formação de José Cardoso Pires decorreu na Escola Primária de Arroios, no Liceu Camões, na Faculdade de Ciências e na Escola Naval para fazer o curso da Marinha Mercante. Tempo marcado pelo fim da Guerra de Espanha e a Segunda Guerra Mundial. Nos anos 40, despertou para a literatura. Fez parte de tertúlias famosas e que já desapareceram: o Café Hermínios, na Almirante Reis, ponto de encontro inicial dos participantes na aventura surrealista; o Café Chiado, um dos lugares dos frequentadores das livrarias Bertrand e Sá da Costa; e o Café Portugal, no Rossio, onde se reuniam os neorrealistas.


Foi a época do MUNAF e do MUD e das Exposições Gerais de Artes Plásticas, encerradas pela PIDE, na Sociedade Nacional de Belas Artes. Marcou o final da década de 50 a candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República. Os anos 60 ganharam contornos políticos escaldantes: a guerra colonial em três frentes de combate; a reabertura do Tarrafal, pelo ministro Adriano Moreira; o encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores, pelo ministro Galvão Teles. Literatura e política estão associadas na criação literária de José Cardoso Pires. Ao definir a sua regra de conduta afirmou que tinha por objetivo: «ridicularizar os cosmopolitismos, como sinónimo de provincianismo; sacudir os bonzos e demonstrar que a austeridade é uma capa do medo e da ausência de imaginação».

Num dos seus principais livros Dinossauro Excelentíssimo disseca o crepúsculo de Salazar e o equívoco da «primavera política» de Marcelo Caetano. Desvenda os labirintos de um País onde tudo se decidia no Terreiro do Paço, nos vários ministérios submetidos ao poder absoluto e discricionário. A pretexto do crime do Guincho, José Cardoso Pires, na Balada da Praia dos Cães, reconstituiu como era Lisboa e como era Portugal. O capitão Almeida Santos foi executado, a 16 de março de 1960, na vivenda Verde Pino, em Rio de Mouro, pelos companheiros que fugiram, com ele, do Forte de Elvas: o médico Jean Jacques Marques Valente, o cabo António Gil e Maria José Maldonado [Sequeira]. Ao conceber uma ficção, a partir de factos reais, Elias Santana – um nome e uma criação do escritor – desencadeia a condução da narrativa no quotidiano de Lisboa: as malhas da clandestinidade política, o espectro da traição, os ódios declarados e reprimidos, os impulsos do sexo, a ansiedade do isolamento, o conflito aberto entre duas polícias, a Judiciária e a PIDE, sempre com uma a tentar sobrepor-se à outra.

Outro romance de José Cardoso Pires, O Delfim – considerado a sua obra-prima – apresenta-nos uma série de metáforas (a lagoa, a caçada aos patos, por exemplo) não apenas dos anos 60, do auge da guerra colonial e do fim de Salazar, mas da realidade portuguesa, dos seus mitos e dos seus fantasmas. Tomaz da Palma Bravo, última abencerragem de uma dinastia de aristocratas, agarrado a usos e costumes senhoriais em extinção, pertence a um grupo que, nos anos 40 e 50, lançava o pânico, nas cenas de pugilato e violência das noites de Lisboa.


Quantos outros cenários, na Cartilha do Marialva, se multiplicam aproximando-nos da Lisboa boémia e maldita? José Cardoso Pires conheceu os marginais do Socorro, do Martim Moniz, do Bairro Alto, do Cais do Sodré e do Parque Mayer. Viu e ouviu os chulos, as prostitutas e os marialvas nos seus ambientes castiços. O vocabulário que uns e outros usavam entrou na sua escrita concisa, depurada, reduzida ao essencial.

As crónicas de José Cardoso Pires reunidas no Livro de Bordo retomam o itinerário do escritor, através das ruas, das tascas e dos cabarés que resistiram, ainda, aos primeiros anos da revolução. Do 25 de Abril que celebrou com entusiasmo e, durante mais de duas décadas, viveu e escreveu em liberdade. Dificilmente se ausentava de Lisboa, da sua casa em Alvalade e do círculo dos amigos. Também se refugiava na Costa de Caparica. O isolamento junto do mar estimulava-lhe a concentração, o exercício da escrita, a escolha das palavras, num exigente trabalho de seleção e elaboração da linguagem. Para escrever o que tinha apenas de dizer.

Aproxima-se o centenário do nascimento de José Cardoso Pires que decorrerá a 2 de outubro de 2025, com as comemorações nacionais devidas a uma das maiores figuras da literatura portuguesa do século XX. Tem um estatuto europeu e universalista e a dimensão do escritor que merecia a consagração do Prémio Nobel. Legou, sem qualquer margem para dúvidas, um dos mais notáveis patrimónios culturais da língua portuguesa.

Redescoberta de Cardoso Pires – por António Valdemar [jornalista e investigador, membro da Classe de Letras da Academia das Ciências], in Tempo Livre, Novembro/Dezembro de 2021, p.7 – com sublinhados nossos.

J.M.M.

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

"A HISTÓRIA FAZ-SE ...

 


A história faz-se de extensas visões e de pontos ocasionais. Quando é possível tocar o documento ou olhar a sua trasladação, estamos perante esse, ou esses, ponto ocasional, a ocasião. O caminho por ela é um modo de fixar a poalha, e é uma paragem concreta, muito embora esse concreto não deva jamais assumir a dimensão de único valor tangivelmente histórico, em desfavor daquilo a que chamo, tateando, os sentidos, os contextos ideológicos/vivenciais, o tencionar e o querer dos homens. Porque nada subsiste nas obras do passado senão os homens, o seu resíduo, e o resíduo dos resíduos que eles, epocalmente, haviam, por sua vez, recebido. Este, um domínio considerado, habitualmente, de interpretação e não de ressurreição, e que para não ser perigosamente alheio ao passado, tem de ser domínio de estudo, pobre e pobre, porque sempre estamos longe, e sem instrumentos totais, daquilo que foi, tal como terá sido ou podia ser …”

Fiama Hasse Pais Brandão, in O Labirinto Camoniano e Outros Labirintos, 1985, p. 237

J.M.M.

domingo, 7 de novembro de 2021

XV ANIVERSÁRIO DO ALMANAQUE REPUBLICANO

 


As coisas são o único sentido oculto das coisas” [Alberto Caeiro]

O Almanaque Republicano viveria hoje mais que não fosse, para além do (a)braço do seu próprio nome, nos lábios poéticos de “gente civilizada” e liberta. Blog da Grande Alma Portuguesa, “velada d’armas” do ideário republicano e movimento de Saudade do Futuro, o Almanaque Republicano fez ontem 15 Anos.

Entre o olhar de ledores atentos e o espanto de gente de palavras exaustas e fala recta, o Almanaque Republicano abre a memória dessa gesta antiquíssima que connosco habita: a Res Publica. Morada d’escrita, lugar d’amor, língua de Sol, inscrevemos os sentimentos saudosos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. A nossa herança é uma viagem sem fim.   

O Almanaque Republicano, feito por 2 (dois) caval(h)eiros prudentíssimos e que praticam conforme o estylo, sem amargura na Alma, tem já 15 Anos no V. aconchego. Cumpre-nos transpor outros tantos. Até lá … o nosso Vale!

Saúde, Paz e Fraternidade!

[traçado algures ao Vale do Mondego]


José Manuel Martins [J.M.M.]

Artur Barracosa Mendonça [A.A. B.M.]