domingo, 18 de janeiro de 2026

RELEMBRANDO CARLOS [MAIA] TEIXEIRA

 


“Uns vêm outros vão, as pessoas, a luz, as ondas do mar. Mas há Homens que vão e também ficam, que teimam em não partir, que deixaram memória por resgatar e obra para nos elevar.

14 de Janeiro. Há um ano partia um amigo, sem surpresa. O seu fim físico estava anunciado pela evolução acelerada de uma perniciosa e inelutável doença. Diga-se que lutou quanto e enquanto pôde, nunca entregou o jogo, não baixou a guarda e encarou o último dia com a mesma esperança do primeiro.

Carlos [Maia] Teixeira, o médico de Arganil, o poeta e repúblico, cúmplice fraterno de tantas causas: da saúde à assistência social, dos Bombeiros às Misericórdias, da escrita à fotografia, do esoterismo à espiritualidade, da política à intervenção pública. Em todos campos deixou um rasto, de todos os actos ficou um eco. Inconformado, apaixonado, sacrificado. Depois da “escola” de Coimbra na sua juventude, a maturidade fixou-o em Arganil. Contagiado pelo humanismo e entrega profissional de Fernando Valle, viciado no telurismo e na poesia de Torga, inebriado pelos perfumes da Arte Real e Altos Graus, integrou e fez-se rodear dos círculos da sabedoria e da fraternidade serranas do Açor e da Estrela.

Quem vai esquecer o burrico Alexandrino, numa ilustração soberba de Alberto Péssimo e lido pelo José Queiroga na Ordem dos Médicos? Como ignorar os Contos de Palmo e Meio, com fotografias do autor e desenhos de Mário Silva, prefaciado por Sinde Filipe? Ou o Diário das Horas de Mal Dizer? E nós, os mais próximos, que nos ilustrámos com os seus versos tardios e os balaústres da madrugada, que fazer?

Sonhamos que estás vivo, meu amigo, que vais agora declamar Pessanha, Torga ou Pessoa. Que nos ofereces um dos cigarros malditos que te afundaram, e na subtil nuvem de fumo transpareces sorrindo, conformado. Que nos contas a conversa com o Gageiro sobre o 25 de Abril e as suas aventuras da madrugada. E que nos indicas um caminho, com muitas opções mas na mesma direcção – o oriente que perseguimos livremente, e onde repousas eternamente”.

[Manuel Seixas, in Fala o Leitor, Diário de Coimbra, 18 de Janeiro, 2026, p. 10]

J.M.M.

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